sábado, 27 de setembro de 2014

Gente da Ataíja de Cima - António Baptista Vigário - o António Sabino



Sob a epígrafe Gente da Ataíja de Cima pretendemos construir uma galeria que lembre aos mais velhos e ensine aos mais novos, algumas pessoas que, pelas suas características ou pela sua acção deixaram, na vida da aldeia, uma marca de importância que merece ser conhecida.
A transição da economia agrícola de subsistência, que durante séculos caracterizou a vida local, para a economia industrial que começou (e continua) pela extracção de pedra (a apreciada rocha ornamental que tem a designação comercial de Vidraço de Ataíja), a que se seguiu a faiança e agora, a transformação de pedra e todas as actividades subsidiárias que entretanto foram surgindo, por serem indispensáveis à vida normal de uma comunidade industrial e ao evoluir dos tempos. Essa transição, dizíamos, também teve os seus protagonistas.
Já falamos neste blog do pioneiro João Veneno e de Luís da Graça (VER AQUI).

Falemos, agora, de António Baptista Vigário, o António Sabino.



Nascido em 6 de Julho de 1932, foi um dos três filhos de Sabino[i] Vigário e de Joaquina Baptista e, pelo lado paterno, neto de José Lourenço e Luísa Sabino, alfaiates e bisneto de José Vigário e Ana Lourenço e de Sabino dos Santos, também alfaiate e Maria Branca.
Teve dois irmãos:
José, o mais velho dos três, já falecido e que fez a maior parte da sua vida “lá para Lisboa”[ii], também teve por alcunha o nome do pai e foi, por sua vez, ao que se dizia, responsável pela alcunha do Manuel “Mochila”. É que o José Sabino era acordeonista ou aprendiz de acordeonista[iii] e, transportava o instrumento às costas, à laia de mochila. O dito Manuel “Mochila” nasceu de mãe solteira e mais não é preciso contar que os filhos de mãe solteira eram, sempre, alcunhados por referência ao pai presumido.
O outro irmão, o mais novo, é o Arnaldo que, pela raridade - durante décadas, mesmo, singularidade - do nome, nunca precisou de alcunha.

Desde novo que o António Sabino mostrou apetência para os negócios e pouca vontade de seguir as pisadas do pai que era carreiro[iv] profissional e, nos tempos mortos da sua actividade principal, também arriscava o ofício de sapateiro, o qual exercia na Casa do Couto.
Negociar tudo o que podia ser negociado, fossem peles de coelho ou chinelos velhos e, no devido tempo, candonga de azeite, foram actividades a que o António Sabino se dedicou logo na adolescência, muitas vezes tendo por companheiro de aventuras o amigo Luís da Graça, apenas alguns meses mais velho.
Os negócios corriam bem como o demonstra o facto de, aos dezoito anos, ter sido emancipado para poder tirar a carta de condução e, de seguida, comprar (já nem o próprio se lembra bem, se em 1950, se em 1951) um automóvel, um velho Opel que foi o primeiro veículo automóvel ligeiro de passageiros que houve na Ataíja de Cima. (VER AQUI)

Em 4 de Março de 1956, aos 23 anos de idade, essa tendência para o negócio ficou definitiva e necessariamente fixada. Nesse dia, quando ia à "pendura" na moto (eu tinha a memória de que era uma Norton mas, há quem jure que era uma AJS) do seu amigo António Faustino Ribeiro, “O Mosca” o qual, por vezes, também era companheiro nas aventuras da candonga do azeite[v], um grave acidente levou-o por largo tempo ao hospital, deixou-o a coxear para o resto da vida e livrou-o, de vez, de ter de vir a trabalhar no campo ou em outra actividade de igual exigência física.

Por essa altura, tinha sido construída no Largo do Outeiro a “casa do Maneta”, destinada a armazém de alfaias, adubos e produtos agrícolas, taberna e casa do rancho[vi].
Curado tomou então, em 1957, a exploração da taberna e aí ficou durante cerca de seis anos, até ao seu casamento, em 1963.

Em 1959, tornou-se um dos pioneiros da exploração da pedra VIDRAÇO de ATAÍJA, abrindo uma pedreira nos Caramelos.
A pedreira ainda existe. É a Pedreira “Caramelo 3”, propriedade de Mármores Vigário, Lda.

Em data que não consegui apurar, por volta de 1969/70, foi episódico (durante cerca de um ano) proprietário, ou co-proprietário da Safaril[vii], a primeira fábrica de faiança que existiu na Ataíja de Cima[viii].

Em 1984 entrou em novo ramo de negócio abrindo, sempre na Ataíja de Cima, uma fábrica de recauchutagem de pneus.

Entretanto, em 1963, tinha-se casado com Maria do Rosário, oriunda das Pedreiras e, infelizmente, precocemente falecida. Para instalar a nova família, comprou a casa e quintal da Benedita (a Benedita era uma senhora que sempre conheci viúva e, vim a sabê-lo mais tarde, o era de um marido que tinha falecido “na América”, não tenho a certeza se nos EUA se no Canadá) e aí construiu uma casa de dois pisos, sendo o primeiro andar destinado à habitação e o rés-do-chão a taberna e mercearia.
Esta foi a primeira casa da Ataíja de Cima equipada, de raíz, com casa(s) de banho(s) (2).


Hoje, aos 82 anos de idade, o António Sabino contempla, com justificado orgulho, o trabalho dos filhos, o Rogério e o Luís que dão, brilhantemente, continuidade ao pioneirismo do pai, dedicando-se à extracção e transformação de pedra, através das empresas Mármores Vigário, Lda e MVC - Mármores de Alcobaça, Lda.

À MVC – Mármores de Alcobaça, Lda., uma empresa com instalações fabris de grande dimensão, altamente sofisticada, dotada dos equipamentos e tecnologias mais modernas, o que lhe permite produtos de grande qualidade e, consequentemente, actuar nos mais exigentes mercados de exportação, já dedicamos um texto neste blog. (VER AQUI)

Sítio de internet da MVC – Mármores de Alcobaça, Lda:









[i] Como é muito comum, o nome próprio do pai tornou-se alcunha do filho.
[ii] “lá para Lisboa” era uma expressão corrente que muitas vezes ouvi na boca de mulheres mais velhas que só escassamente faziam idéia de onde andavam os seus maridos e filhos.
[iii] É minha a hipótese de ter sido, apenas, aprendiz e nunca terá efectivamente feito carreira de acordeonista ou, então, desistiu cedo dela. É que nunca lhe conheci acordéon e nem me lembro de alguém, alguma vez, me ter dito que o ouviu tocar.
[iv] Carreiro, era o profissional que conduzia o seu carro de bois, com o qual faz transportes e, com as alfaias, - charrua, grade, trilho, etc. - prestava outros serviços agrícolas com a sua junta de bois (ou vacas, o que era o caso). Não confundir com abegão que desempenhava funções semelhantes mas enquanto trabalhador ao serviço de uma exploração agrícola.
[v] O cerrado controlo estatal sobre os abastecimentos alimentares que tinha atingido o seu pico durante a guerra com o racionamento, era o pretexto perfeito para o trânsito ilícito dos bens mais valiosos como o azeite.
[vi] Naquele tempo, em que não havia empregos fixos, eram cíclicas as deslocações de grandes grupos para tarefas agrícolas exigentes de muita mão-de-obra. Para a Ataíja, cujos campos eram um enorme mar de oliveiras, vinham, no devido tempo, grupos de pessoas – ranchos - de fora da aldeia para trabalhar na apanha da azeitona.
[vii] A fábrica começou a ser construída em 1969, na perspectiva da chegada da electricidade que viria a acontecer em Outubro desse ano. Embora a escritura de constituição da Safaril seja de 1972, o início da laboração é anterior.
[viii] Que adquiriu a uns tais Caetano e Fróis que julgo terem sido os empreendedores iniciais. Daquele Fróis, lembro-me de um dia em que, na adega do meu pai, bebeu mais do que a conta e foi o filho, então com uns escassos doze anos, quem conduziu o carro até a casa.

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