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terça-feira, 18 de maio de 2021

Na Infância da Minha Avó Maria Lourenço - A Madrasta

 


Nascida em 27 de Outubro de 1881, a minha avó Maria Lourenço casou-se, em S. Vicente de Aljubarrota, em 20 de Janeiro de 1902, com Joaquim Coelho que também assinava Joaquim Coelho Quitério, tinha ela 20 e ele 24 anos de idade, ambos solteiros e jornaleiros.

Era filha de Joaquim da Graça, carpinteiro e de Maria Lourenço ou Maria Felizarda, que depois de um curto casamento de oito anos faleceu em 3 de Novembro de 1888, aos 32 anos, pouco mais de um mês depois do filho(a?) mais novo, este falecido em 27 de Setembro anterior, com a idade de um ano e dez dias e deixando órfãos a minha avó e um irmão, Joaquim como o pai, esse então com quatro anos de idade, nascido em 29 de Setembro de 1884.

O seu avô paterno, o soldado reformado João Maria de Sousa Cláudio, de quem ela me havia de contar, setenta anos depois, tantas histórias de batalhas com franceses e das destruições cometidas pelos invasores cerca de setenta anos antes do seu nascimento, esse avô faleceu em 1884, com a bonita idade de noventa e cinco anos. Não foi, pois, a ele que a minha avó ouviu as histórias que me contava. A minha trisavó Maria da Graça, companheira do soldado Cláudio durante largas décadas, essa, faleceu em 1894 e bem podia ter contado à neta alguns passos da vida aventurosa do marido e outras histórias que terá aprendido com os próprios pais e vizinhos dessa geração, ela que, nascida em 1814, chegou a este mundo ainda estavam fumegantes os destroços das Invasões Francesas.

O meu bisavô Joaquim da Graça, viúvo aos trinta e cinco anos e com dois filhos tão pequenos não tinha maneira de levar a vida e não era a sua mãe já velha e viúva que o podia ajudar. A solução era, como foi, após menos de dois anos de viuvez, um segundo casamento.

É assim que a jovem Mariana Coelho, dos Casais de Santa Teresa, ainda menor de vinte anos, se viu levada ao altar e, com o necessário consentimento do pai, arranjou de uma assentada marido e duas crianças. Havia, o casal, de lhes juntar mais outros sete filhos.

As pessoas tendem a ver com romantismo estas histórias dos tempos antigos. Mas elas tinham muito pouco de romance, e muito menos de romance cor-de-rosa.

A pobre da Mariana, que me esforço por compreender e não julgar, não era, segundo os testemunhos que me chegaram, pessoa exemplar. Ainda há poucos anos a minha amiga Morena, bisneta da Mariana, me contava como, tendo ela própria ficado órfã de mãe antes dos sete anos de idade e tornada desde então a mulher da casa, com dois irmãos mais novos para cuidar, aprendeu cedo a levantar a cara e enfrentar os desafios que a vida lhe vai lançando. Foi assim que, muito tempo após o falecimento da Mariana, sendo a Morena ainda pré-adolescente, se viu numa discussão com a ti Joaquina Porfíria que, irritada por a pequena não ceder numa questão sobre galinhas que não atentaram nas extremas e foram debicar umas couves que não deviam, terminou a discussão gritando alvoroçada:

- “És uma malcriada! És bisneta da Mariana Raposa! Aquela punheta! ... Deus me perdoe …, por alma dela Pai Nosso!”

Não sei qual era a razão de tais azedumes, mas talvez o facto de terem sido vizinhas e as relações de afinidade ajudassem (a Joaquina Porfíria, era sobrinha do marido da Mariana e devia, por isso, de acordo com o costume, chamar-lhe tia).

 Certo, é que a alcunha de Raposa se devia ao facto de sobre a Mariana impender a acusação de ter roubado uma galinha.

Da minha avó recordo a tristeza com que me contava como o seu irmão Joaquim, que diariamente era recordado nas orações da noite que sempre antecediam a ida para a cama, tinha morrido, de desgosto e saudades de casa, dizia ela, durante o serviço militar, sem ter tido tempo de habitar a casa que construiu e hoje é a minha sala.

E recordo os lamentos e a amargura com que sempre evocava os tempos em que teve de conviver com a madrasta, uma mulher que segundo ela a não amava nem amava o marido e não sabia cozinhar.

O facto de o meu bisavô ser carpinteiro não o livrava da pobreza, às vezes, quase miséria. Ali na borda da serra, que ainda em meados do século XX eu conheci tão pobre, um oficial, fosse carpinteiro, pedreiro, sapateiro ou de outro mister, só o era a tempo parcial, à medida das necessidades dos pobres vizinhos.

Não havia oficina, mas apenas um limitado conjunto de ferramentas e a obra fazia-se em casa do cliente, levando-se as ferramentas numa alcofa ou nuns alforges e ia também, a maioria das vezes às costas, o banco de carpinteiro, um meio tronco suportados por quatro pés oblíquos, o lado plano virado para cima, em cujo extremo estava pregado um pedaço de tábua com um recorte em V, onde se fixavam as peças a trabalhar.

Às vezes, o contrato com o cliente incluía o almoço. Não foi o caso naquele dia em que, contava-me a minha avó, ela criança foi encarregue pela madrasta de um trabalho típico das crianças, o de ir levar o almoço ao pai, almoço que era também o seu.

Naquele dia, sentados a uma sombra, munidos cada um de sua colher com que haviam de comer do mesmo tacho, o meu bisavô desatou o lenço que amarrava o testo e provou o almoço, uma espécie de sopa de serralhas cozidas em pouco azeite.

- Não tenho fome, disse ele tristemente. E ficaram, ambos, abraçados e em silêncio, sem almoço.



A casa onde eu ainda conheci o Mariola e a Marreca, filhos solteiros da Mariana, é hoje uma ruína. Ao lado, com a porta de zinco, percebe-se o que foi a pequena casa (então com um minúsculo alpendre), onde ainda conheci Porfírio dos Santos, pai da Joaquina Porfíria

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Memórias da minha avó Maria Lourença e da sua amiga Maria Coelha

 

 

A minha avó Maria Lourenço, era analfabeta e, nascida e vivida na Ataíja de Cima, não tinha ido mais longe do que Alcobaça em dia de mercado, ou Fátima, em peregrinação pedestre.

Também foi, pelo menos uma vez, de férias à Nazaré, acho eu que na primeira semana de Setembro de 1954. Setembro era, naquele tempo, o tempo de os camponeses irem à praia. Lembro-me disso porque tinha eu uns seis anos e também fui e essas férias ficaram-me gravadas na memória, por ter então assistido a uma série de notáveis e impressionantes episódios, como já vos contei noutro lugar. 

 Mais velha, perto dos 78 anos, em 1960, foi também a Lisboa e andou de Metropolitano, acabado de inaugurar.

Não que o quisesse.

Que tinha muito tempo para ir para debaixo da terra, teimava com os netos que queriam, à viva força, pô-la ao par do progresso. Mas, gostou daquele comboio que ainda cheirava a tinta, quase não fazia barulho, não produzia fumo e era rápido. Tão rápido que, chegados à estação de destino, a exclamação foi: Já!?

 

Mas, de como me lembro realmente da minha avó, é nós ambos, sentados frente a frente, dentro da chaminé da velha casa onde vivíamos, quando na lareira, depois da ceia, crepitava um lume pequeno e rezávamos orações pelo eterno descanso dos parentes falecidos, invocados um a um. Nunca nenhum era esquecido e, de todos, tenho especialmente viva a lembrança do irmão Joaquim, falecido jovem, de desgosto e saudade contava-me ela, durante o serviço militar, ainda no tempo dos Reis e esta era apenas uma das muitas histórias que ocupavam esses serões.

 Se não estávamos à lareira, ela contando e eu ouvindo, andávamos.

É isso. É, também assim que recordo a minha avó: andando.

Íamos à missa a Aljubarrota, saía-se ainda escuro que o Padre Casimiro era homem duro e, penso agora, convicto de que a fé exige sacrifício, gostava de dizer a missa bem cedo. Ou, talvez fosse apenas conhecedor da difícil vida dos seus paroquianos e sabedor de que após a missa, mesmo no dia do Senhor, havia muito para fazer.

Toda a aldeia ia à missa, deslocando-se em pequenos grupos familiares ou de vizinhos, duas, três ou meia dúzia de pessoas, uma procissão anárquica coleando pelas curvas da estrada, a caminho de S. Vicente.

Do nosso grupo fazia parte a ti’Maria Coelha que nos esperava na porta.

Quando penso nisto fico sempre um pouco intrigado, porque já não sei se o grupo era só assim. Então, e a Joaquina, filha solteira e coabitante da ti’Maria Coelha e a minha prima Isabel que a avó e a tia criavam, não iam connosco? Se calhar não. De certeza que não. A ti’ Joaquina Coelha era mulher desembaraçada e de andar firme e apressado e, católica militante, havia de ter compromissos na Paroquial de que, aliás, havia de ser uma das zeladoras e, nesse caso, teria ido mais cedo. Se assim era, a Isabel não deixaria de ser arrastada pela tia.

E a tia Pequena e o marido e os filhos, meus primos também, que necessariamente tinham de nos passar à porta para ir à missa? E a tia Papoila e os dela que, tal e qual? E, os do tio Porfírio que a caminho de Aljubarrota haviam também de passar na nossa porta?

 A verdade é que a aldeia não tinha esses tiques urbanos do vamos juntos.

Ali era mais, ala que se faz tarde, cada um trata do que é seu mester e logo mais quando for o dia da festa então, juntamo-nos todos e dançamos e cantamos e as mulheres riem e os homens bebem. Ou então hoje não é dia de folguedos e,

E lá íamos os três, eu de garoto, elas de saia preta até aos tornozelos, lenço preto como pertencia às viúvas, que hoje por ser Domingo ia atado no alto da moleirinha, depois de as pontas darem uma volta na nuca, abaixo do carrapito, deixando ver o lóbulo das orelhas onde pendiam velhas arrecadas.

Sobre o lenço um chapéu de abas pequenas e reviradas para cima e, sobre ele, cuidadosamente dobrado ou cobrindo os ombros, conforme o pedia o tempo que fazia, o xaile.

Tudo preto como, repete-se, pertencia às viúvas.

 Se não era Domingo e não íamos à missa, eu a minha avó caminhávamos pela aldeia. Nunca em percursos aleatórios. Nunca a andar por andar, antes, sempre com destino e objectivos claros: visitar uma amiga doente, ou este ou aquele filho com o qual havia alguma coisa a tratar, vigiar os terrenos que pertenciam às “folhas” dos dois filhos emigrados, o ti Zé, a que muitos anos mais tarde havíamos de chamar o Francês – naquele ano de 1956 em trânsito de Agadir, no Marrocos agora independente, onde lhe nasceram os filhos e lhe morreu a mulher e a França que o havia de acolher até à reforma e deu a nacionalidade aos seus filhos, netos e à bisneta que ele já não conheceu – e o meu pai em Lisboa, nesse ano feito estudante noturno, em busca do exame e diploma da quarta classe que lhe havia de permitir obter a carta de condução, deixar a venda de leite e tornar-se motorista de táxi.

Naquelas andanças com a minha avó eu, curioso, debruçava-me, às vezes e apanhava coisas. É. Nunca fui caçador mas sempre me senti bem na pele de recolector, juntar é, ainda, um gosto e nem vos digo da quantidade de colecções que iniciei e nunca passaram de ajuntamentos.

Alexandre dos Cavacos, chamava-me a minha avó, mulher a quem a vida escassa ensinara a preocupar-se apenas com o essencial e a juntar e a guardar, apenas tudo o que era ou podia ser útil, como botões de roupa velha antes de ir a rasgar, cortando-se em tiras que se enrolavam em bolas, para fazer mantas de trapos.

Em casa da ti’Maria Coelha havia um tear, num quarto pequeno que estava junto à cozinha e tinha uma janela para o pátio, o sul e o sol que alumiava o trabalho da tecedeira.

Mas, que me lembre, nunca vi a ti’Maria Coelha tecer.

Poucos anos antes, em 1950, ainda ela tecia mantas e tapetes de trapos, como já contei. Mas o que a seguir vos digo há-de ter-se passado na segunda metade da década e, nesse tempo, já ela estava mais perto dos oitenta que dos setenta anos, em idade boa para a reforma e má para trabalhos que exigiam vista apurada e gestos firmes. De resto, era a filha que agora, com genica, governava a casa. Para trás tinham ficado 35 anos de viuvez. Anos difíceis, a sustentar a casa e criar os quatro filhos que o marido lhe deixou, o mais novo com apenas um ano de idade, quando morreu pela pneumónica, faz agora cem anos.

Na parede da casa de fora da ti´Maria Coelha estava pendurado um retrato de um homem bem posto. Era o falecido marido e o retrato tinha tirado em New Beresford, no Massachussets, aquando da sua aventura americana.
De vez em quando, a ti'Maria Coelha olhava o retrato com desvelo:

- Ai o meu Francisquinho. Era tão bonitinho! ... raios o partissem, batia-me tanto!

 




domingo, 11 de novembro de 2018

El Rey Del Mundo





El Rey del Mundo é uma marca cubana de charutos cujas origens remontam a 1848 e no auge do seu prestígio, no início do séc. XX, era a marca de charutos mais famosa e mais cara do mundo.
A partir dos anos de 1960, 1970, os gostos dos fumadores começaram a evoluir para sabores mais fortes e El Rey del Mundo com os seus charutos de sabor suave (que ainda se mantém) deixou de ser a principal marca de havanos.

Em 1905 a fábrica que produzia estes charutos foi adquirida por Diaz Hermanos & Co., que mais tarde mudou o nome para Rey del Mundo Cigar Co, para beneficiar do prestígio do seu mais valioso produto.
Actualmente, os charutos El Rey del Mundo são produzidos pela empresa estatal Habanos S. A.
Por razões que não logramos esclarecer com rigor e pelo menos desde cerca de 1956, sob a mesma marca El Rey del Mundo e usando logotipo semelhante, existem no mercado charutos que nada têm a ver com os verdadeiros havanos, fabricados, até 2009 nas Honduras e depois disso, na Nicarágua, por uma empresa americana designada Villazon & Co.

A caixa que temos presente e cujo interior da tampa acima reproduzimos terá mais de cem anos e é, sem dúvida, posterior a 1912 e anterior a 1920.
De facto, se o logo já ostenta a nova denominação da empresa, Rey del Mundo Cigar Co, no papel que cobre a parte lateral da caixa é visível a legenda Diaz Hermanos & Co, o que nos remete para o período de transição entre ambas as denominações da empresa proprietária. O “Sello de Garantia Nacional de Procedência”, cujos restos se encontram colados no fundo da caixa, mostra que ela é posterior a 1912, data da criação daquele selo e anterior a 1931, data em que o selo sofreu ligeiras alterações.
Tudo, aliás, é bem coerente com o facto de a caixa fazer parte do que foi o espólio hereditário da ataijense Joaquina Coelho, que a terá recebido de seu pai Francisco Sabino que, no início do séc.XX, foi emigrante na América.


Nome bem posto: El Rey del Mundo.
Assim se havia de sentir o emigrante regressado, ainda que com escassos dólares no bolso, a fumar um verdadeiro e perfumado charuto cubano.

O cabelo bem cortado e bem penteado, o bigode encerado, a camisa branca onde brilhava uma gravata de seda, os sapatos, o fato completo de calça, cinto de cabedal, casaco com um decorativo botão na lapela e um lenço branco, bordado, a emergir do bolso, o colete atravessado pela corrente do relógio, tudo havia de fazer um brutal contraste com os seus bisonhos vizinhos, diariamente descalços, cabeça sempre coberta por um negro barrete de borla, vestindo camisas sem colarinho e calças de cós alto onde se enrolava uma longa e negra cinta de pontas pendentes. 

Assim era o emigrante regressado de New Beresford, Massachussetts, América, nos inícios do Séc. XX. Como havemos de ver em próximo post.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Um livro do Séc. XVIII na Ataíja de Cima


Conhecedora das minhas deambulações pelo passado ataíjense, mão amiga fez-me chegar um livro publicado há 233 anos.

Trata-se do “THESOURO BIBLICO, OU DICCIONARIO HISTORICO, E ETYMOLOGICO DOS Nomes próprios dos Póvos, Provincias, e Cidades, com as suas respectivas interpretações. E relação succinta das noticias, e acções principaes da maior parte das pessoas, que se encontrão nos veneráveis Livros da Sagrada Escritura. OBRA UTILISSIMA PARA A MELHOR INTELLIGENCIA DO ANTIGO, E NOVO TESTAMENTO E ASSIM MESMO PARA A LIÇÃO DA HISTORIA DA SANTA IGREJA, Lisboa, na oficina de Simão Thadeu Ferreira, ANNO M.DCC.LXXXV, Com Licença da Real Mesa Censoria”. (teve uma reedição, impressa no Porto, Typographia da Revista, em 1869)

O longo título e subtítulo que, como era uso naquela época preenche toda a página de rosto (acima reproduzida), é só por si esclarecedor do conteúdo do livro: Trata-se de, sob a forma de dicionário, explicar resumidamente, o essencial sobre as pessoas, povos, locais e factos referidos na Bíblia.

A necessidade deste tipo de livros – que, por outro lado, se inserem no movimento de publicação de dicionários e enciclopédias que, por aquele tempo, no chamado século das Luzes, percorreu a Europa – resulta do facto de a Bíblia não se encontrar traduzida e de os actos litúrgicos serem proclamados em latim.

O autor, que no livro é referido, apenas, pelas iniciais do seu nome: F.F.D.J.M.S., foi Frei Francisco de Jesus Maria Sarmento, frade e provincial da Ordem Terceira de São Francisco, o qual publicou diversas obras de cariz religioso e foi um dos responsáveis pela reconstrução do Convento de Jesus (onde, actualmente, funciona a Academia das Ciências de Lisboa) cujos edifícios sofreram, com o terramoto de 1755, gravíssimos danos que o deixaram inabitável.

O livro encontra-se disponível na internet em
http://books.google.com/books?id=qs4pAAAAYAAJ&pg=PA260&lpg=PA260&dq=thesouro+biblico&source=bl&ots=3tVTeWopPe&sig=mfqFq9hFsJgWbj78zja_U0w6sZs&hl=pt-PT&ei=M6UPTYTbD8K4jAfl5JzEDg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CCYQ6AEwAw#v=onepage&q&f=false, digitalizado a partir de um exemplar existente na Harvard University Library e é, também, passível de ser encontrado em alfarrabistas.


Não é isso, no entanto, o que nos leva a falar dele neste blog mas, antes, o facto extraordinário de o exemplar que temos presente ter sido preservado e em razoável bom estado, durante tanto tempo, sobretudo, quando sabemos que foi encontrado no espólio hereditário de uma ataijense  que, apesar de ser analfabeta, o conservou durante dezenas de anos, durante toda a vida.

O livro foi encontrado, após a morte da proprietária, em casa da que foi conhecida por Maria Marreca, a qual era meia-irmã da minha avó e o terá recebido o livro por herança paterna.
O livro contém, manuscritas, três indicações de propriedade: No verso da capa, a tinta, “este livro he de ..(ilegível) .. Cortez”, e uma outra, a lápis, “Este livro he” (sem indícios de ter sido escrito o nome que, naturalmente, devia seguir-se). No verso da contra-capa, perfeitamente legível, a terceira marca: “Este livro é de António Maria Cláudio”.


Pela grafia (é em vez de he) deve presumir-se que esta terceira marca é a mais recente.

Quem seria este António Maria Cláudio?

A minha avó falava-me do seu avô João Cláudio que combateu nas tropas anglo-portuguesas durante a Terceira Invasão Francesa e, com Wellington, atravessou toda a Espanha na perseguição aos exércitos napoleónicos.

Assim, talvez o António Maria Cláudio fosse descendente do João Cláudio e, por isso, meu familiar, talvez tio-avô ou tio-bisavô.

Hei-de investigar isso melhor quando e se me decidir a entrar a sério pelos caminhos, sempre tortuosos, da genealogia.

Até lá, resta-me agradecer à actual proprietária do livro e desejar que ela e os seus descendentes o saibam conservar, por mais 233 anos, como o souberam fazer os seus ancestrais.

(Reprodução das págs. 92 e 93 do Thesouro nas quais se vê, entre outras, uma descrição moral da figura bíblica de Caim)




Nota: O presente texto substitui uma primeira versão que foi publicada neste blog em 07-01-2011


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Moleiro



Ainda estão vivos alguns que se podem lembrar de ter ouvido os seus búzios assobiar ou de ter visto as suas velas a rodar ao vento, mas as memórias começam a ficar difusas e, dele, não se conhecem fotografias ou desenhos, mas não havia de ser muito diferente (ao menos no que diz respeito ao mecanismo de moagem) do que se mostra no desenho abaixo, o moinho de vento que, algures pelos finais dos anos 30 ou inícios dos anos 40 do século passado, o ti Manuel Luís mandou construir no quintal.

Teve curta duração e dele não há ruínas ou quaisquer indícios que atestem a sua existência, já que se erguia no lugar onde depois foi construída a casa de João Frade, filho do proprietário, mesmo ao lado de onde agora está a do neto Zé Frade, um lugar alto aonde o vento podia chegar, sem obstáculos, de todas as direcções.

Ali se moía o milho de que se fazia a broa dos vizinhos e o próprio e das maquias com que se alimentava a numerosa prole e algum trigo para o pão-alvo dos domingos e dias santos.

Mas, naqueles dias de Agosto, havia mais de uma semana que sobre a terra tinha caído uma calmaria tal que nem as folhas das nogueiras buliam. Nada, nem uma brisa ligeira. Apenas, dia sobre dia, aquele calor seco que tão bem conhecemos, quando o sol queima na pele, os pássaros não voam, os cães se arrastam nas sombras e só o canto das cigarras rasga o silêncio.

Era Domingo. Talvez no ano de 1941 ou 1942, quando a Europa sofria sob a guerra e Portugal sofria sob a pobreza de sempre, agora agravada pelo racionamento. Na casa da ti Maria da Graça o pão, fossem os restos do pão-alvo do domingo passado, fosse a broa semanal, já tinham acabado. Nem uma côdea sobrava na arca.

O Padre Casimiro marcava as missas em São Vicente para muito cedo, quase de madrugada, o que por outro lado era bom que, assim, não tinha a gente de torrar sob o sol naquela viagem de seis quilómetros, ida e volta. 

Estava todo o povo na missa, as mulheres e as crianças pequenas no corpo da igreja, os homens ocupando a capela-mor e o coro, como era uso naquele tempo e ainda me lembra e o meu pai contava-me que, quando ele era pequeno e ainda ficava com a mãe no corpo da igreja, que se os homens se ajoelhavam, (apenas o joelho esquerdo no chão, mão direita segurando firmemente o pau, cotovelo apoiado na coxa) ficava a capela-mor feita uma floresta de paus. Nos anos cinquenta os paus já tinham desaparecido – pelo menos da missa - mas o resto mantinha-se muito parecido.

Estava o povo na missa, dizia eu, e o ti António da Graça, então um jovem dos seus dezoito ou dezanove anos, assistia no coro quando ouviu lá fora o rumor de uma rabanada de vento. Benzeu-se à pressa, desceu à rua e, não havia dúvidas, fazia um vento suão que levantava a poeira seca dos caminhos.

 Não pensou duas vezes: desatou a correr quanto pode e, num ápice, galgou os três quilómetros que o separavam de casa e do moinho. Despiu a camisa domingueira que o suor colara ao corpo e foi-se ao moinho. Verificou brevemente o engenho. Desenrolou as velas e amarou-as às varas das escotas.  Despejou a saca de trigo no tegão. Manobrou o sarilho, fazendo girar o capelo para alinhar as velas com a direcção do vento.
Sob a força da entrosga todo o engenho rangeu e a mó andadeira começou a rodar, o grão a escorrer pela calha e a farinha a surdir no panal.


Acabada a missa, a ti Maria da Graça vasculhou o adro em busca do filho que não encontrou. Levantou o rosto para sueste e os seus olhos saltaram o vale e chegaram ao seu moinho e pode ver, destacando-se no cenário de fundo da serra dos Candeeiros, as velas brancas a girar.

Graças a Deus!

O meu António já tem o moinho a trabalhar!

Estugou o passo e, também ela, chegou ofegante a casa e ao moinho onde o António já tinha a farinha suficiente. Peneirou-a e amassou-a brevemente, abafou-a com uma manta para levedar mais depressa e, usando o azeite que, esse, felizmente, ainda abundava na talha, fez filhoses que polvilhou moderadamente com açúcar e esse foi o almoço de todos.


Corte longitudinal de um moinho de vento, permitindo ver o mecanismo 
(imagem retirada, com a devida vénia, de Museu da Memória Rural, uma realização da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, com um excelente site na internet, in https://museudamemoriarural.pt/)

sábado, 10 de março de 2018

Francisco Veríssimo

(um quase padre na Ataíja de Cima do Séc. XIX ou, as incongruências da memória)

(assento do primeiro casamento de Francisco Veríssimo)

Desde criança que me lembro de ouvir a história:

Francisco Veríssimo estava prestes a terminar os estudos para padre quando, numa mesma semana, lhe faleceram pai e mãe, em consequência do que abandonou os estudos.
Dizem uns que por desgosto, dizem outros que por necessidade de tomar conta da sua “Casa”.
Veio a casar uma primeira vez e, tendo viuvado, casou de novo, tinha então 72 anos e a mulher 25.
Deste segundo casamento nasceram dois filhos e faleceram, ambos os cônjuges, com a idade de 98 anos.

A última vez que ouvi a história, de boca autorizada, foi ao seu neto João Veríssimo que para tanto o interpelei, não muito antes do seu falecimento ocorrido em 2013.
Nessa conversa o ti João Veríssimo confirmou a história, ponto por ponto, tal como sempre a ouvi e acima transcrevo.

O assento do óbito de Francisco Veríssimo, ocorrido em 11.11.1894, diz que ele faleceu no estado de casado com Joaquina Coelho, sendo filho de Veríssimo Amado e de Ana Lopes e tendo a idade de 98 anos, o que parece confirmar a tradição.


Mas, este é um dos casos em que não só a memória não é confirmada pelos factos, como se verifica que apenas um documento não chega para certificar a verdade.
É o que, adiante, se verá.

Os factos históricos comprovados são os seguintes:

Veríssimo Amado, lavrador, filho de Manuel Amado Rebelo e de Luísa Pereira, já era casado com Ana Maria em 1787, quando foram pais de João, baptizado em 30 de Maio desse ano. Podemos, assim, admitir que o Veríssimo Amado terá nascido cerca de trinta anos antes, o que nos leva para os anos de 1755 a 1760, seja, a época do terramoto.

O apelido Amado já existia na Ataíja desde há mais de cento e cinquenta anos antes e aí chegara vindo de Aljubarrota, através de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, este, descendente de D. João II, fidalgo com Carta de Brasão de Armas de 17.06.1545.
Nos cerca de noventa anos que vão de 1721 até, 1807, vésperas das Invasões Francesas, o apelido Amado aparece-nos sempre intimamente ligado às elites locais[i].
De facto, nesse período, encontramos José Gomes Anes Amado de Azambuja, nascido em Aljubarrota, fidalgo de Cota de Armas, por Carta de 5.10.1721; Joaquim de Sousa Amado, Capitão de Ordenanças da Vila de Aljubarrota, por Carta patente de 24.10.1785; José Tavares Amado e Azambuja, nomeado capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota em 21-04-1790 (por morte do Capitão Veríssimo de Sousa Henriques) e, em 1804 e 1807, há notícias de um alferes José Tavares ou José Tavares Amado, de Aljubarrota.

O nome próprio do nosso Veríssimo Amado, esse, bem que poderia ser uma homenagem ao mártir[ii] mas, é nossa convicção de que a razão estará mais próxima, já que o vamos encontrar em Veríssimo de Sousa Henriques, capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota, falecido, como já vimos, antes de 21.04.1790.

Talvez não seja, assim, demasiado temerário pensar que o Manuel Amado Rebelo pertencia à mesma família dos demais Amados que, naquela época, encontramos em Aljubarrota desempenhando importantes cargos e que dessa importância social resultaram as relações que terão levado o Capitão Veríssimo de Sousa Henriques a apadrinhar a criança que tomou o nome de Veríssimo Amado.[iii]

Consultando os assentos de baptismo, da freguesia de São Vicente de Aljubarrota, encontram-se registos de Veríssimo Amado ter tido 5 filhos: João, nascido em 1787; Joaquim, nascido em 1793; Maria, nascida em 1796; Luís, nascido em 1799 e Francisco, nascido em 1806.
Destes, por enquanto e para além do Francisco que é objecto deste texto, apenas sabemos que o Joaquim viveu até aos 67 anos, vindo a falecer em 21.12.1860, no estado de viúvo de Joaquina Marques e não teve filhos.
Parece ter havido uma sexta filha, Joaquina, de que não encontrei o assento de baptismo mas, encontrei o assento de casamento com Luís Dias (em 5.11.1826) e os assentos de baptismo (em 1827, 1830 e 1842) de três filhos seus e onde é identificada como Joaquina Mónica ou Joaquina Veríssimo, filha de Veríssimo Amado e de Ana Maria.

Sabemos, assim, que o Francisco Veríssimo era o mais novo dos filhos de Veríssimo Amado, lavrador e de Ana Maria, também dita Ana Lopes ou Ana Vicente e neto paterno de Manuel Amado, ou Manuel Amado Rebelo, lavrador, da Ataíja de Cima e Luísa Pereira, esta, dos Casais de Santa Teresa onde estes avós paternos moravam e neto materno de Vicente Coelho, lavrador e de Maria Francisca, ambos da Ataíja de Cima, onde moravam.

Sabemos que o Francisco Veríssimo se casou duas vezes :
Uma primeira vez, em 25 de Novembro de 1849, com Rosa Coelho, a qual faleceu em 10-11-1860, com a idade de 53 anos e que era filha de João Coelho e Sebastiana Bernardo.
Consequentemente, trata-se da mesma Rosa, nascida nos Casais de Santa Teresa em 01-11-1807, filha de João Coelho, dos Casais de Santa Teresa e de Sebastiana Bernarda, da Ataíja de Cima, neta paterna de José Coelho da Cabeça dos Casais de Santa Teresa e de Mariana de Sousa da Ataíja de Cima e materna de Bernardo João e Maria Vicente, ambos da Ataíja de Cima.

Deste primeiro casamento não consta que tenha havido filhos.

Em segundas núpcias dele, após seis anos de viuvez, em 30-11-1866, diz-nos o respectivo assento de casamento, o Francisco Veríssimo, então com 60 anos de idade, viúvo de Rosa Coelho ligou-se a Joaquina da Costa, solteira, de 22 anos de idade, filha de Joaquim Coelho e de Maria da Costa, esta natural de Lisboa, neta paterna de Francisco Coelho, lavrador e de Rosa Vicente e materna de António da Costa, proprietário, natural de Asseiceira, Tomar e de Luísa Maria, da Ataíja de Cima.
Este assento, como verificamos, dá o Francisco Veríssimo como tendo, então, a idade de 60 anos ou seja, confirma que ele nasceu em 1806.

De acordo com o respectivo assento de óbito, em 11.11.1894, faleceu o “…Francisco Veríssimo, casado com Joaquina Coelho, trabalhador, da idade de noventa e oito anos …”
Mas, se como vimos e parece certo, o Francisco Veríssimo nasceu em 1806, então, diferentemente do que dizem o assento e a tradição, faleceu com a idade de 88 anos e não de noventa e oito anos, .

Mas, a história que a tradição oral conservou tem outras incongruências já que, de acordo com os respectivos assentos:

Em 18-07-1832 faleceu Veríssimo Amado, casado com Ana Maria.
Em 17-01-1845 faleceu Ana Lopes, viúva de Veríssimo Amado.
Ou seja, diferentemente da tradição, o pai e a mãe do Francisco Veríssimo não morreram na mesma semana, antes, com treze anos de diferença.

Parece, pois, poder concluir-se que a história de Francisco Veríssimo se terá passado de modo algo diferente:

Francisco Veríssimo, filho de Veríssimo Amado e de Ana Maria, ou Ana Lopes, andava a estudar para padre e, em 1832 quando tinha 26 anos de idade e esses estudos estavam quase concluídos, faleceu o seu pai.

Terá sido por isso e por essa altura que, levado pela tristeza e o desgosto, como diz a tradição ou, qualquer outra razão mais prosaica,abandonou os estudos e regressou à Ataíja de Cima onde, seguindo a tradição familiar, se tornou agricultor.
A hipótese de ser movido pela necessidade de tomar conta da “Casa” agrícola também precisa de melhores argumentos já que, nesse tempo, estaria na casa, ainda solteiro, o seu irmão Joaquim, então com cerca de trinta e nove anos de idade. Porque razão não tomou este o encargo? Tanto mais que a destinação de um filho a Padre, pressupunha  que a direcção da casa agrícola estava destinada a outro, ou outros dos irmãos. Para intentar resolver melhor estas dúvidas precisávamos de conhecer a situação concreta de cada um deles. 

Seja como for, o que os registos paroquiais mostram é que o Francisco Veríssimo casou pela primeira vez com Rosa Coelho, ou Rosa Vicente, nascida nos Casais de Santa Teresa, a qual veio a falecer com a idade de 53 anos, em 1860.
O casamento foi celebrado, sob licença do Vigário paroquial, o ataijense Luis João de Sousa, pelo Reverendo Rufino José da Fonseca, da Vila, na capela de Nossa Senhora da Graça, da Ataíja de Cima, em 25 de Novembro de 1849 tinha então o Francisco a idade de 43 anos e a noiva a idade de 42 anos.
Não se conhecem filhos deste casamento.

Na data em que se realizou este primeiro casamento do Francisco Veríssimo, já o seu pai havia falecido há dezassete anos e a mãe há quase cinco anos.

Após 6 anos de viuvez, em 1866, o Francisco Veríssimo, então com a idade de 60 anos casou, em segundas núpcias dele, com Joaquina da Costa ou Joaquina Coelho, solteira de 22 anos de idade.

Deste casamento nasceram, pelo menos, dois filhos:
- José, falecido em 15.9.1883, com 14 anos de idade;
- João o qual veio a casar com Maria Ribeiro, dos Casais de Santa Teresa, filha de Joaquim d'Horta Moura e de Maria Ribeira e foram pais de, pelo menos, quatro filhos:
- Maria nascida em 1906;
- Teresa (Teresa Ribeiro), falecida solteira nos anos de 1960, tendo então 50 e alguns anos de idade;
- José;
- João, este falecido muito recentemente, em 2013.
Os dois últimos deixaram descendência.

A sua mulher, Joaquina da Costa, ou Joaquina Coelho essa, talvez tenha falecido com a idade de 98 anos, (portanto, cerca de 1942) como diz a tradição, já que o ti’João Veríssimo me contava que faleceu quando ele era jovem.


Duas notas, para terminar:

A casa, no início da Rua das Hortas, onde terá vivido Veríssimo Amado e seguramente viveram Francisco Veríssimo, o seu filho e o seu neto e, agora, vive um bisneto e é, sem dúvida uma das mais antigas casas da Ataíja de Cima é, talvez, a mesma onde a partir de meados do Séc. XVII, já viveram os seus antepassados Manuel Coelho e sua mulher Antónia Amado, esta, filha de António Amado, o Moço, filho de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, fidalgo da Casa Real, filho de Brites Anes Baracho, filha de Brites Anes de Santarém, filha de Brites Anes, a Boa Dona e do Senhor Dom João II, Rei de Portugal.

Desconheço as razões que terão levado o Francisco Veríssimo a abandonar o apelido familiar Amado e a adoptar como apelido o nome próprio do pai (como era prática comum entre os camponeses[iv]), tanto mais que o apelido Amado, cuja ascendência conduzia directamente ao Senhor Dom João II, tinha notável peso na sociedade local no Antigo Regime e desse peso haviam de beneficiar, também, ainda que menos intensamente, aqueles ramos da família que se tinham tornados lavradores. 
Facto é que o falecimento de Veríssimo Amado e o presumível abandono do Seminário pelo Francisco Veríssimo acontecem em pleno fim de regime, quando decorre o cerco do Porto, durante a guerra civil entre Miguelistas e Liberais e, talvez estes acontecimentos políticos não sejam alheios ao abandono do velho apelido Amado e ao nascimento do novo apelido Veríssimo.
Certo é que quando morre, em 1894, já não é um Amado, nem sequer um lavrador. Apenas, a acreditar no assento de óbito, Francisco Veríssimo, trabalhador.


Nota: Este texto foi publicado, inicialmente, neste blog em 31 de Outubro de 2014. É agora republicado (10-03-2018), actualizado com novos elementos relativos ao primeiro casamento do Francisco Veríssimo.


[i] Ver, neste blog, o texto Capitães de Aljubarrota.
[ii] Segundo a tradição São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia ou, simplesmente, Veríssimo. Máxima e Júlia, os Mártires de Lisboa, alcançaram a santidade pelo martírio no dia 1 de outubro do ano de 303 ou 304, por ocasião de uma perseguição aos cristãos pelo Imperador romano Diocleciano (compare-se com o que, neste blog, a propósito de São Vicente, dissemos no texto Padre Fábio Bernardino - Uma Iconografia.
[iii] Tenha-se presente que, naquela época, as crianças eram baptizadas, em regra, apenas com um nome próprio. O apelido, esse, só o passavam a usar em adulto (esta é uma matéria que será desenvolvida num outro texto).
[iv] Veja-se, neste blog, o texto ""Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910"

domingo, 4 de junho de 2017

Nossa Senhora dos Enfermos


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“A romaria mais original da minha terra é a da Senhora dos Enfermos, na Ataíja.”

Assim começava M. Vieira Natividade (MVN) o capítulo dedicado às romarias, in O Povo da Minha Terra, Notas e Registos de Etnografia Alcobacense, Lisboa, 1917. (1), (2)
O ilustre estudioso alcobacense (nascido, aliás, no Casal do Rei, a escassas centenas de metros do local da romaria) descreve, depois, a festa como era naquele tempo e eu ainda conheci sem grandes alterações, em meados do Séc. XX.

Celebrada no Domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, a Romaria da Senhora dos Enfermos era uma verdadeira festa das colheitas, uma celebração agrícola com origens pré-cristãs, uma festa alegre, momento de estrear novas roupas, uma festa cronológica (MVN) que servia para marcar o tempo.
Apesar da invocação, não era exactamente um festejo mariano. Antes, pentecostal, com rituais que a aproximavam das festas do Espírito Santo. De notável, por comparação com as festas das demais aldeias da região, tinha o círio, abundância de fogaças e os favores da pequena burguesia alcobacence que nesse dia ia ver de perto os serranos, fazer pic-nics nos arvoredos que circundavam o arraial e, talvez, comprar no leilão alguma fogaça.(3)
Este costume, manteve-se, aliás, por muito tempo e, durante anos, a Banda do Mestre Ernesto era animador imprescindível do arraial.(4)
A grande quantidade de gente, alguns divertimentos que, como o jogo do frango, hoje seriam, simplesmente, proibidos pela sua barbaridade, o vinho que corria em abundância e os bailes, propiciavam frequentes desacatos. Por isso, a festa de Nossa Senhora dos Enfermos era, naquele tempo, a única com policiamento permanente.
Foi aí que me lembro de, pela primeira vez, ter visto de perto a GNR em acção de restabelecimento da ordem pública, utilizando como improvisada prisão a casa da eira do Chico Airoso.
Foi na Senhora dos Enfermos que tirei, acompanhado dos meus avós, fará agora sessenta anos, o meu primeiro retrato, no fotógrafo à la minuta, coisa que também só ali havia.(4)

Além de M. Vieira Natividade, também José Diogo Ribeiro, in Turquel Folclórico (1928), dedicou atenção a esta romaria, registando, designadamente, os seguintes versos que o círio dedicava à santa:

Ó Senhora dos Enfermos
Aqui vimos, aqui estemos
Pro ano, se formos vivos,
Ainda cá tornaremos.

Ó Senhora dos enfermos
Cá vos vimos visitar.
Pro ano, se formos vivos,
Havemos de cá tornar

E, o grande etno-musicólogo Michel Giacometti, (5) registou, pelo menos, duas peças musicais tocadas no arraial: uma Música de Arraial e um Fandango.

“Dança-se o fandango, única dança tradicional que se conserva como digno representante dos mais arcaicos batuques”, dizia MVN.
E eu, lembro-me de a minha tia Joaquina Lourença, já idosa, descrever com alegria como tinha dançado o fandango na Senhora dos Enfermos. Ela descalça e o pai equilibrando uma garrafa de vinho na cabeça.

A romaria da Senhora dos Enfermos “É a única que conserva notas que mais interessam a etnografia”, (MVN), o que significa que, a generalidade das romarias da região, já não eram, em 1917, como teriam sido antes.

A mudança radical das condições e estilos de vida nesta zona da borda da serra, onde a economia não é agora agrária, teve como resultado, eu diria que natural, a perda de importância desta romaria que, nos últimos anos, se não realizou.

Tal como, algures entre os Séc.s XVIII e XIX, São Sebastião, o patrono da Capela, perdeu devoção popular e foi substituído por Nossa Senhora dos Enfermos, (6) também estes povos, que já não são camponeses e, por isso, não festejam as colheitas, têm novas devoções.

 (Foto de "O Povo da Minha Terra")



ADENDA:


O texto acima foi publicado neste blog em 29-05-2012 e, em 23-06-2013, foi quase integralmente reproduzido no blog JERO, do jornalista alcobacense José Eduardo Oliveira.

(conf. http://jeroalcoa.blogspot.pt/2013/06/m-450-memorias-das-festas-da-regiao-de.html), que, no final, acrescentou a devida nota: "Relativamente à festa de Nossa Senhora dos Enfermos grande parte do texto reproduzido é da autoria de José Quitério e foi publicado em 29 de Maio de 2012 no seu blog "Ataíja de Cima".


Mas, não é essa a razão desta Adenda.
O facto é que hoje é dia 4-6-2017, Domingo de Pentecostes. 
Haverá, por isso na Ataíja de Baixo, alguma cerimónia em honra de Nossa Senhora dos Enfermos. 
O quê, não sabemos que estamos longe e o google é, a propósito, totalmente omisso. 
Como não o havia de ser quando a economia local é, se possível, ainda menos agrícola do que era há cinco anos e quando a própria Igreja Católica, cada vez mais mariana e menos trinitária, relegou o culto do Espírito Santo para o panteão das curiosidades e, estou convicto, hoje em dia uma boa parte dos fiéis nem sequer saberá o que é o Pentecostes?


Podemos, assim, dizer que sabemos porque e quando morreu a romaria de Nossa Senhora dos Enfermos da Ataíja de Baixo e, não se podendo dizer quando nasceu, pode afirmar-se com segurança que não era muito antiga, ao contrário do que se diz no site da Junta de Freguesia de Aljubarrota.
De facto, há várias devoções e festas na freguesia de que há notícia bem mais antiga. 


A devoção a Nossa Senhora dos Enfermos não surgiu aqui antes da segunda metade do século XVIII, já que ainda em 1758 (ver Nota (6)) não havia notícia da sua presença na Ataíja de Baixo e todos os autores que antes disso se referiram à aldeia apenas assinalam a existência de uma ermida dedicada a São Sebastião. Como é o caso, por exemplo, do Padre Cardoso que, no seu Dicionário Geográfico, Tomo I, de 1747 diz sobre a Ataíja de Baixo que "tem vinte e cinco vizinhos e uma Ermida de São Sebastião, pouco distante do povo".



O cartaz de 2015, mostra como já nesse ano nos encontrávamos 
bem longe das antigas festas em honra de N. Sª. dos Enfermos


______________
NOTAS:
(       (1)    Reeditado (fac-simile), em 2000, em Alcobaça, por Rebate, movimento de cidadania.
(     (2)    O livro contém numerosas ilustrações, de grande qualidade e interesse etnográfico, da autoria de Alberto Souza.
(      (3)    Fogaça, oferenda ao santo, em pagamento de promessa, no dia da festa anual. Em tempos idos, durante o Antigo Regime, fogaça era um imposto fixo que cada casa (fogo) pagava ao senhorio da terra.
(      (4)    Festas e Romarias do Concelho de Alcobaça, edição da Câmara Municipal de Alcobaça, 2005.
(      (5)    Michel Giacometti, Cancioneiro Popular Português, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981.
(     (6)    Em 1758, nas respostas ao inquérito pombalino, as chamadas Memórias Paroquiais, o Cura de São Vicente não faz qualquer menção à Senhora dos Enfermos, dizendo apenas que na Ataíja de Baixo se festejava  São Sebastião.
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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Marca Corneta



A expressão “és de marca corneta” que se usava na Ataíja de Cima da minha meninice, é um jogo de palavras que, aproveitando a fama dos instrumentos de corte (ferramentas manuais de trabalhar madeira, facas, tesouras e navalhas) da marca Corneta, brinca com a etimologia da palavra corneta que, obviamente, deriva de corno e a dureza do corno que é osso.
Ser “de marca corneta” é ser duro, teimoso, inflexível.


Lembrei-me disto a propósito de que entre o espólio do meu pai, se encontra uma velha navalha de barbear da marca Corneta.
  



A navalha em questão apresenta, gravada num dos lados da espiga, entre a lâmina e a articulação com o cabo, a  inscrição:
Gebr Weyersberg Solingen – Ohligs

Do outro lado, o símbolo da corneta e o número 2211

O cabo é feito de celuloide, imitando o marfim.

Quando terá sido fabricada esta navalha? Não sabemos mas, seguramente, não foi antes de 1896 já que esse foi o ano em que a marca foi registada nem, sequer, antes de 1909 porque só neste ano a fábrica dos irmãos Weyersberg se mudou para Solingen – Ohligs.[i]

A navalha, acusando embora claras marcas de intenso uso, chegou-me às mãos bem tratada e cuidadosamente guardada numa caixa apropriada que, no entanto, é de diferente marca.
Num dos lados dessa caixa temos a identificação do produto:

Navalha Bismarck / Producto Allemão / Marca Registrada

No outro lado, dois textos longos, um elogiando as qualidades do produto (a navalha de barbear Bismarck) e o outro dando indicações pormenorizadas sobre o uso e conservação da navalha (escritos em português, estes textos demonstram os cuidados da marca em se adaptar às necessidades de cada mercado específico).

O que é que faz uma navalha de barbear da marca Corneta, dentro da caixa de uma navalha de barbear da marca Bismarck, isso é mistério que não consiguirei esclarecer.

Mas, como o melhor da aposentação é não ter de fazer a barba e poder ocupar o tempo a aprender coisas inúteis, investigando, vim a saber que a marca Bismarck – BISMARCK, RAZOR WORKS, SOLINGEN – GERMANY - foi fundada em 1892 por August Müller e subsistiu até 1957 quando foi adquirida pela Fritz Bracht (DOVO) Company, a qual, actualmente, ainda usa a marca Bismarck para algumas das navalhas de barbear que continua a fabricar.

De facto, a indústria das navalhas de barba que esteve à beira do desaparecimento em meados do Século XX[ii], em resultado da generalização do uso da máquina de barbear eléctrica e, sobretudo, das lâminas descartáveis inventadas pelo Sr. Gillette, recebeu o golpe fatal com o surgimento de doenças modernas como a SIDA que, devido aos riscos de infecção, levaram ao abandono do seu uso pelos profissionais. Apesar disso continua a existir um nicho de mercado que justifica que se continuem a fabricar e, entretanto, os profissionais passaram a usar uma versão em que a tradicional lâmina forjada foi substituída por um suporte para lâminas descartáveis.

De acordo com o site http://www.barbearclassico.com, a DOVO (de Solingen, http://www.dovo.com/, fundada em 1906) é, como referido, uma das marcas que continuam, ainda hoje, a fabricar boas navalhas de barbear, a par com THIERS ISSARD (francesa, http://www.thiers-issard.fr/, fundada em 1884), BOKER, (de Solingen, https://www.boker.de/, fundada em 1869 mas, com antecedentes familiares no ramo que remontam ao Séc. XVII), HENCKELS (fundada em 1895 em Solingen, http://www.j-a-henckels.com/ e, actualmente, integrada no grupo ZWILLING, sendo que a marca Zwilling, por sua vez, existe desde 1731) e REVISOR, (fundada em 1919 em Solingen, http://www.revisor-solingen.de/.

Os leitores já terão notado duas coisas: que se fala aqui muito de Solingen e que as marcas acima mencionadas têm todas mais de 100 anos.

Solingen é uma cidade alemã, no Estado da Renânia do Norte – Vestefália, não longe de Colónia, conhecida por a “cidade das lâminas” e famosa desde a Idade Média por se ter especializado na metalurgia do aço, especialmente na fabricação de espadas e outros instrumentos de corte. 
Ainda hoje, a grande maioria das ferramentas de corte e talheres da Alemanha é fabricada em Solingen, por marcas famosas como Wüsthof, J. A .Henckels, Bokar, Villeroy & Boch e também aí são fabricadas as lâminas de barbear Wilkinson Sword. 

O facto de as marcas de que temos vindo a falar terem, todas, mais de 100 anos, remete-nos para o funcionamento do poderoso cluster[iii] que, vindo dos confins da Idade Média, atravessou os séculos e conseguiu resistir a todas (e foram muitas) as situações adversas que se lhe depararam.


Valerá a pena fazer aqui um breve parêntesis para falar de King Camp Gillette, o americano que inventou a lâmina de barbear descartável[iv].
Gillette era caixeiro viajante de ferragens, ferramentas e maquinetas diversas (tudo o que nos EUA se chama hardware) e terá sido o seu patrão a lançar a Gillette o desafio de inventar uma coisa que pudesse ser utilizada uma única vez para que o cliente voltasse a comprar.
Ao que parece, esse patrão era William Painter inventor de outros objectos de extrema utilidade como a carica e o respectivo abridor[v]).

Mas, isto era na América.

Em Portugal as coisas corriam mais lentamente e, ainda em meados do Século XX, uma grande parte dos homens não usava a gillette, nem possuía navalha. Simplesmente e isto era absolutamente verdade no campo, fazia a barba uma vez por semana, no barbeiro[vi].

O meu pai, quando recém-casado e antes de emigrar para Lisboa, na tentativa de acrescentar alguns tostões aos magros rendimentos familiares, exerceu também, em part-time, o ofício de barbeiro, montando oficina na casa-de-fora.[vii]

Eu era muito pequeno, dois anos e menos, ou nem sequer nascido e, desta actividade do meu pai, só me lembro, por ele e a minha mãe me contarem que, a primeira das poucas palmadas que levei foi, precisamente, por ter uma birra de choro que incomodava os clientes ou, pelo menos, o barbeiro.

Lembro-me, também, de uma tesoura que sobreviveu ao fim da barbearia e a minha mãe levou para Lisboa e usou para cortar as barbatanas dos peixes, até perto dos meus quinze anos quando, finalmente, se desconjuntou. 
Contava-me o meu pai que essa tesoura lhe tinha custado, talvez aí por 1947 ou 1948, a módica quantia de 17$50. Isso, quando um homem na Ataija de Cima ganhava, a cavar de sol a sol, quando havia trabalho, 12$50.


A marca Corneta está hoje desaparecida na Alemanha onde nasceu (encerrou a produção em 1997 e foi excluída em 2005 do Registo Alemão de Marcas e Patentes, segundo leio na internet).
No entanto, subsiste no Brasil, onde foram criadas fábricas a partir do final da 1ª Guerra Mundial, para ali levada por um membro da família proprietária e onde é, como o era na Alemanha, uma prestigiada marca de ferramentas.
A história da empresa, desde o final do Séc. XVIII até aos dias de hoje pode ser vista no site do brasileiro Grupo Corneta, em http://www.corneta.com.br/br/


A minha navalha, essa, acompanhada dos acessórios que o tempo não levou, vai ficar muito bem guardada e arrumada, em memória do efémero barbeiro que foi o meu pai.











[ii] Cerca de 1950, havia em Solingen, 600 a 700 fabricantes de lâminas. Em 2009 eram, apenas, 6. As navalhas de barbear eram, na sua maioria, parcialmente produzidas para as marcas pelos trabalhadores, à peça, em suas casas. (conf. http://www.revisor-solingen.de/index.php/en/history)
[iii] O que é um cluster, como funciona, quais os seus pontos fortes e pontos fracos, são conceitos que interessam muito à Ataíja de Cima e à região, actualmente dependente do que já é o cluster das rochas ornamentais.
[iv] A fábrica começou a trabalhar em 1903 e no final de 1904 já tinha vendido mais de 12.000.000 de lâminas. Gillette usou uma estratégia comercial agressiva, hoje corrente nos produtos de consumo de massa, vendendo as máquinas com prejuízo para, assim, alargar o leque dos compradores de lâminas.
[v] William Painter patenteou cerca de 85 invenções entre as quais a carica e o sistema que lhe está associado foram as de maior utilidade e complexidade, já que o sistema para funcionar exige a “carica”, a máquina para a aplicar, o abridor e, mais complicado, que todos os gargalos das garrafas sejam idênticos. Painter teve, pois, de convencer os fabricantes de garrafas a adoptar um novo e único modelo de gargalo que suportasse as suas “caricas”.
[vi] Lembro-me, desde sempre, do ti João Pereira cortando cabelos e fazendo barbas no “salão” que montou na casa que foi do Pote Serrano.
Não havia cadeira de barbeiro, sentando-se os clientes numa comum cadeira de madeira e o fio da navalha tinha por assentador o próprio cinto das calças do barbeiro que, para isso, o usava deliberada e exageradamente comprido.
[vii] A casa-de-fora era a sala para onde se entrava pela porta principal da casa e a partir da qual se acedia directamente aos quartos e à cozinha.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Ir à Praia





Gosto muito de carapaus secos mas conheço mal a Nazaré.

Passei lá férias uma única vez e, nestes mais de sessenta anos que, entretanto, decorreram, os dedos de uma mão são, talvez, suficientes para contar os regressos, sempre de curta duração, meras passagens diurnas.

No último desses regressos impressionou-me o imenso casario que amalgamou a Praia e a Pederneira, o Calhau e o Sítio. Tudo, bem diferente das memórias antigas que guardo dessas tais férias, as minhas primeiras férias, teria eu cinco, no máximo seis anos, menos alguns dias.

Curiosamente, julgo que ainda lá está a casa onde nos instalámos, na esquina da Avenida Vieira Guimarães com a Rua de Sub-Vila. Um pequeno prédio em cujo rés-do-chão havia uma taberna que era propriedade ou gerida por um vizinho daqui da borda da serra, o Zé Rebocho, dos Casais de Santa Teresa. No primeiro andar era a residência do comerciante e nós ocupamos o sótão.  Perto, ficavam a garagem das camionetas da carreira que não sei se eram dos Claras se dos Capristanos e o mercado que penso estar no mesmo sítio embora em edifício diferente, se é que em 1953 ou 1954 o mercado já tinha edifício.

A Rua de Sub-Vila, na parte a sul da Vieira Guimarães, era a dita taberna e pouco mais. O campo começava logo ali, o alcatrão acabava e seguia-se, entre canaviais, por um estreito caminho de areia onde apenas cabia um carro de bois.

Lá mais adiante, o caminho fazia uma curva e era, por oeste, elevado em relação ao terreno para onde eu e o Quim da Pequena descemos, (na verdade, o Quim da Pequena diz que subimos para uma elevação de areia, uma duna que havia na borda do caminho). Subindo ou descendo, certo é que, à sombra de uns caniços, resolvemos aliviar a tripa que nós éramos rapazes do campo e no campo não havia casas de banho que, portanto, ali também nos não faziam falta.

Eis que do lado da Praia surge um carro de bois com seu abegão e, nele, empoleirado entre taipais, vinha um maganão de pé descalço, calça dobrada pelo meio da canela, camisa de flanela aos quadrados, cinta e barrete, como um bilhete postal.

Olhando lá para baixo (ou para cima?), para a sombra dos caniços, o dito descobriu-nos de calças na mão e, resolvendo chuchar com os dois turistas, trocou umas breves palavras com o condutor da junta e saltou do carro de vara na mão.

O meu primo já havia de andar pelos seus dez anos e foi rápido. Correu pelo talude desaparecendo num instante e só voltei a vê-lo já muito perto da taberna. Eu, tomado de um valente susto, lá consegui chegar ao caminho e correr, acabando também por me safar, perseguido pela risota dos pexins.

Imagino-me, neste dia ou num outro, rapazito do campo que de peixe tinha visto o pouco que chegava à Ataíja: umas sardinhas frescas para assar ou, as mais das vezes, já escaladas, salgadas e de barriga amarela que se comiam cozidas com batatas, uns carapaus que sempre se comiam fritos e chicharros que se vendiam ao par e a minha avó cortava em postas fininhas, um centímetro ou pouco mais, fritava, regava com molho de escabeche e guardava perto do pão, na buraca com porta de rede que havia na cozinha. Imagino-me dizia eu, de olhos esbugalhados ao ver a pexineira que na rua apregoava dois peixe-espadas, bichos enormes como eu nunca tinha visto, rabos a arrastar pelo chão, monstros que ela transportava erguendo ao alto os braços e enfiando-lhe nas guelras os dedos indicadores.

Não tenho dúvidas de que, perante tal visão, os meus olhos hão-de ter ficado tão surpresos como, um ano ou dois antes, tinham ficado na Senhora dos Enfermos perante o fotógrafo à lá minuta.

Esqueci-me de vos dizer que tudo se passava em Setembro, quando os camponeses iam à praia aproveitando (os poucos que podiam aproveitar) os escassos dias em que as terras não reclamavam presença, antes do São Mateus que era tempo de semear nabos e de preparar a adega, antes de começarem as vindimas que nesse tempo se faziam pelo final do mês e primeiros dias de Outubro.

Então, como agora, as festas em honra de Nossa Senhora da Nazaré agitavam o Sítio e, um dos momentos grandes da parte profana dos festejos era a tourada no dia 8 de Setembro. Lá fomos todos, subindo no elevador, para assistir à função.

Foi a minha primeira tourada. Lembro-me vagamente das cortesias e não terei desgostado do brilho dos trajes, da música, da animação da assistência e das habilidades dos cavalos. Da tourada nada vi ou nada me lembro salvo que, assustado com o rompante do touro, a esquiva do cavalo e os berros do cavaleiro, enfiei o nariz no colo da minha avó e de lá não saí até final do espectáculo. 

Curiosamente, quase não tenho memórias de nós na areia. Talvez lá não passássemos muito tempo. Afinal, nenhum tinha fato de banho e duvido que algum tivesse, sequer, molhado os pés no mar. Lembro-me, apenas, de andar por lá a vagabundear e, disso não duvido, sempre de olhos bem abertos, tentando saber e entender tudo, como ainda hoje gosto.

Seja como for, em certo dia de mar bravo, coisa não rara nos princípios de Setembro, a maioria dos barcos ficou na areia mas pelo menos uma traineira, mais destemida ou apenas incauta, fez-se ao mar, lançou o cerco da rede e, preso nela o peixe, empreendeu a manobra de regresso. Como quase sempre naquele tempo, o grande problema era passar a rebentação e conseguir varar na areia em segurança.
O mestre gritou ordens que permitiram apontar a proa à praia. Esperou a onda propícia e, agora a compasso, gritou gritos de ânimo aos remadores. O barco elevou a proa na onda e quando parecia que ia dobrar a espinha de água e chegar à praia foi de novo empurrado para o largo. Isto, uma vez, duas, três. Com as juntas de bois a postos, a areia ia-se enchendo de companheiros, amigos e familiares dos pescadores em perigo. Camponeses curiosos e de coração apertado ficaram um pouco afastados, ignorantes do que fazer, muitos fazendo coro com as mulheres vestidas de negro pelos maridos, filhos e pais sepultados naquele mar, as quais no meio de grande gritaria, invocavam Nossa Senhora da Nazaré e toda a corte celestial implorando a livrança dos infelizes.

Finalmente, um dos pescadores conseguiu saltar da traineira e chegar a terra arrastando uma corda que todos puxaram, bois e homens e mulheres, gentes da praia e do campo, até o barco varar na areia sem outros prejuízos que não o susto geral.

Nalgum canto da minha memória está gravada a visão de uma mulher de negro agachada na areia que, afastada da multidão e aparentemente alheia à aflição geral, recriminava:

É bem feito! Queriam o peixe todo!



Nota: Decidi passar a escrito estas memórias quando, há poucos dias, sobre a porta do prédio com o nº 161 da Rua de Campo de Ourique, em Lisboa, deparei com a representação do milagre da Nazaré que acompanha este texto.