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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Rua de Nossa Senhora da Graça em Meados do Século XX




A agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça vai, a breve prazo, sofrer uma alteração profunda e duradoura com a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária, que vão ocupar a totalidade do espaço dos edifícios que foram propriedade de Sabino Vigário e, ainda, o que sobra do que foi a Rua da Penicheira, chegando à Rua de Traz.

É, por isso, adequado deixar aqui uma memória de como era, em meados do Séc. XX, aquela foi uma das principais ruas da aldeia e, naquele tempo, já tinha algumas peculiaridades. 
Desde logo, o nome que nunca soube ou que, de todo, me não lembra. E, no entanto, os homens precisam de dar nomes às coisas, pelo que é certo que aquela rua há-de ter tido um outro nome, antes de há cerca de vinte anos ter recebido o actual.
Depois, porque a rua era em alguns pontos mais estreita, por ter um piso mais acidentado, incluindo uma espécie de degrau, em frente da porta da escola, e uma enorme lage que a estrangulava em frente da casa de Manuel Branco (esta casa não tinha alicerces e assentava sobre a dita lage), ou por não haver nela qualquer portão de pátio, (salvo o pequeno portão que se vê na foto junta), o certo é que a rua era, na prática, pedonal.

Começando lá por baixo, pelo largo do Fundo da Igreja:
Do lado direito, a norte, havia um lagar. O edifício ainda lá está e funciona agora como garagem do Diamantino Pereira. Tratava-se, certamente e vistas as suas dimensões, de um lagar de vinho. As virgens onde articulava a vara ainda são bem visíveis na parede que, precisamente, confina com a nossa rua. Há sessenta anos, essa parede não era rebocada e as virgens eram visíveis do exterior, embutidas na parede, no que me parecia, quando ainda não conhecia o interior, uma antiga e estreita porta emparedada.
Do lado sul, a capela. Sem a sacristia que, naquele tempo era do outro lado, provocando um estrangulamento da estrada que só foi eliminado na segunda metade dos anos de 1970, aquando do alcatroamento e da construção da sacristia actual.
Ao lagar seguia-se a casa de Maria Serafina ou Maria Constantina (era filha de Serafina dos Santos e de Constantino dos Santos, ambos enjeitados) que aí vivia viúva e só, estando a filha Delfina já casada na Rua dos Arneiros.
Logo, adossada, a casa de Manuel Maurício e da sua mulher Silvina. Esta era natural do Lorvão e foi a parteira que ajudou a nascer muitos ataíjenses. Naquele tempo, ainda ali viviam alguns dos filhos que foram, ao que julgo, quatro. Um Manuel, uma Zaida, uma Isaura e o António (da Silvina) que já estava casado, nas Pedras Brancas, num casal que fora da bisavó da sua mulher, e tem um poço, O Poço do Moura, de que já falamos neste blog.
Estas duas casas, as da Silvina e as da Maria Serafina são hoje propriedade de João Salgueiro, foram objecto de obras profundas e estão unidas em uma única residência.
Segue-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo já era um palheiro de José Ribeiro, hoje do neto Vitor que a utiliza ou utilizou, como garagem e a casa que era da viúva Maria “da Serra” que foi casada com António Agostinho, meu tio-avô. Tiverem três filhos. O António Agostinho, a Joaquina “da Serra” que foi casada com Francisco Salgueiro e a Maria “da Serra” que foi casada com José Veríssimo. Esta casa foi, posteriormente, adquirida por José “Rebolão” e até há pouco tempo aí viveu a sua viúva, falecida em 1.1.2018.
Segue-se uma pequena travessa que liga à Rua de Trás e ligava, também, à desaparecida A Rua da Penicheira.

Seguem-se uns palheiros que hoje são do José Constantino (Zé Gordo) e, depois, o lugar onde eram as casas que foram de Sabino Vigário e onde este vivia com a sua esposa Joaquina Baptista e os filhos, António “Sabino” e Arnaldo, ainda solteiros, enquanto o mais velho, José, estava “lá para Lisboa”. Seguiam-se mais duas casas do mesmo dono. Uma, pequena, que sempre conheci sem telhado e, entre esta e a de residência, havia uma outra casa onde ele fazia biscates de sapateiro e, por isso, a família chamava de casa do ofício, mas outros chamavam de A Casa do Couto, por a certa altura ter sido propriedade de um comerciante alcobacense desse nome.

Do lado sul, à igreja segue-se o adro que, naquele tempo, era bastante mais pequeno pois lá faltam a  A Escola e o palheiro ou casa do Mira.
Segue-se adega que foi de José Ribeiro e hoje é do neto Rafael mas que não tem acesso senão pela Estrada do Lagar dos Frades. Segue-se a casa onde, naquele tempo, vivia, ainda solteiro, José Henriques, Também conhecido por José Neto e, vulgarmente, por Zé Diabo, primo de um outro José Henriques, também José Neto, conhecido por José Carago. Esta casa foi depois vendida e aí viveu a Badalhoiça com o seu filho Francisco “Casalinho”. 
Encostada, ainda lá está uma pequena casa que pertenceu aos pais do dito José Diabo. Casa antiga onde foi criado o enjeitado Tomé dos Santos, avô de Francisco Rosa Tomé e de Manuel Carlos Tomé que aí estão, vivos, felizmente e de, pelo menos, três raparigas, já falecidas.
Vem, depois, a casa onde viviam o “Cuco”, a sua mulher Teresa Neto, falecida de Tétano, e três filhos. Encostada a esta última estava a casa da “Viana” ou da “Biana”, que o meu tio Porfírio Coelho usava como arrecadação. 
Estas duas casas estão hoje recuperadas e unidas e nelas reside o Paulo Carreira, “o Rodinhas”.
Seguia-se (segue-se) um espaço onde antes houve casas, mas que nos anos cinquenta já era local de depósito de lenhas e, depois, uma pequena construção que agora tem dois pisos mas, naquele tempo, era apenas o palheiro onde vivia o burro do ti Manuel Branco.
Voltando ao lado norte da rua, aos cómodos de Sabino Vigário segue-se a casa que foi do meu tio Porfírio Coelho que então aí vivia com a sua segunda mulher, a minha tia Luísa e cinco filhos e no pátio da qual foi, posteriormente, construída a casa onde hoje vive a viúva do meu primo João “Porfírio”. 
A seguir, uma  travessa que liga ao largo que se forma na Rua de Trás e para onde dão o que resta da Rua da Penicheira e um beco onde havia a casa de O Padrinho Fialho , então já falecido, aquela onde vivia a minha tia Ana como o marido, dois filhos e a sogra viúva e o alpendre das traseiras da casa do ti João Redondo, hoje, tudo, propriedade do José Luís.
Voltando à Rua de Nossa Senhora da Graça, a seguir à dita travessa vem a casa, que ainda lá está, de António Daniel, o ti António Seabra, que aí vivia, julgo que já viúvo, com as três filhas e um filho, todos ainda solteiros.
Agora que a filha Maria, que a habitou nas últimas décadas, está internada num lar de idosos, o destino da casa está, talvez, traçado. O que é pena porque se trata como se vê a um simples olhar, de construção antiquíssima, uma das mais antigas, das poucas antigas que se mantém de pé na Ataíja de Cima. Ora, nesta coisa de conservar edifícios antigos, os mais fáceis de conservar são os mais ricos. A evidente modéstia da casa do Seabra fará, talvez, com que espíritos práticos achem que não merece ser conservada. É pena.
Seguiam-se a casa de Manuel Branco e Maria Custódia que sempre conheci sozinhos. Conheci-lhes, pelo menos, um filho. Um Manuel “Custódio” que morava para os Covões ou Lagoa do Cão, se me não falha a memória. A casa era minúscula e possuía um pequeno pátio nas traseiras. Não havendo outra serventia, tudo entrava e saía do pátio pela porta da casa.
No dito pátio viveu uma porca que, um dia, comeu o braço de uma criança filha do casal. 
Encostada, estava a casa dos meus avós paternos, onde vivi entre os meus três e dez anos de idade e, depois disso passei muitas vezes, as férias grandes. Mas, isso, são contas de outro rosário.
Esta casa já estava no pequeno largo formado pelo entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades, mas sendo esta muito mais recente, temos de considerar que a nossa rua seguia até onde está o supermercado da Lúcia “do Serrano”, onde, naquele tempo, eram as casas de Alfredo Ângelo da Silva. Antes dela, a casa, que agora é de Manuel Tomé e Francelina e, nos anos de mil novecentos e cinquenta, era de Maria “Caseira” e de seu marido Manuel “Barra”, no que eram as segundas núpcias dela, que tinha perdido o primeiro marido nas trágicas circunstâncias que descrevo no post Tétano, já acima mencionado.

Tudo visto, moram actualmente nesta rua umas oito pessoas. 

Há sessenta anos moravam aí mais de quarenta 


Vista actual (8-9-2019), da casa que foi de António Daniel, O Seabra




quarta-feira, 19 de abril de 2017

As Tapadas - património cisterciense esquecido




Nas Tapadas, os frades plantaram laranjeiras, dizia a minha avó.

Fig. 1


Vistas da Ataíja, são três longas linhas de pedra (agora quase ocultas no matagal), correndo a serra na horizontal, como traços de giz num quadro negro, servindo de remate ao olival do Santíssimo, ali, na parte inferior da encosta, à cota dos 250m, a partir de onde o solo se inclina demasiado para permitir qualquer cultivo.

Fig. 2
Perfil da Serra dos Candeeiros na zona do Olival dos Frades da Ataíja de Cima
(elaboração própria com base em Mapbox e OpenStreetMap):


Nessa transição de declives, por um momento, o solo é menos inclinado do que ao redor. Por isso havia quem, em vez de Tapadas, chamasse ao lugar as Covadas.

Nos anos de 1950 e 1960, o Ti José Ribeiro ainda cultivava a sua parte das Tapadas. Entretanto, as coisas mudaram e hoje o mar de oliveiras que bordejava todo o poente da Serra dos Candeeiros foi substituído, quase totalmente, por pinheiros e eucaliptos e, nas margens do IC2, por uma fila quase contínua de fábricas, oficinas, restaurantes e armazéns diversos. As Tapadas, essas, já quase se não veem, seja cá de longe, seja mesmo lá ao pé, submersas que estão em matos e silvas e moitas e em carrasqueiras impenetráveis, bem mais altas que um homem.

Numa visita recente foi, apesar de tudo, possível perceber o essencial da estrutura, como se mostra no esboço de planta do conjunto, tal como o pudemos observar (elaboração própria com base em Google Maps e observação no local):
Fig. 3


 
O muro interrompido que se vê à direita no desenho não faz parte da estrutura. Antes, indica o limite a montante da propriedade e serve de suporte a um carreiro conhecido por o caminho do guarda.
À esquerda do desenho, a jusante da estrutura, veem-se um pedaço de parede, com argamassa de barro (Fig. 4), incluindo o cunhal (Fig. 5) e um pedaço de muro, de construção idêntica (Fig. 6), correndo de montante para jusante (ESE/ONO) e aparentemente sem ligação com o anterior. Entre ambos, uma ligeira elevação do terreno revela-se uma escombreira onde são visíveis pequenos pedaços de telha de canudo (Fig. 7) e, muito perto, debaixo de uma carrasqueira (Fig. 8), mais restos de um muro, de características e orientação semelhantes ao antes referido.










As Tapadas ocupam uma extensa área, de mais de 2 hectares, e têm um comprimento de cerca de 360 metros. Os três muros longitudinais, são sensivelmente paralelos e afastados entre si de cerca de 30 metros. A estrutura fecha-se nos topos por muros cujas características não pudemos confirmar devido às dificuldades de acesso.
Em posição relativa que também não pudemos confirmar, pelo menos o espaço entre os muros médio e superior é interiormente seccionado por, pelo menos, um muro secundário. Na parte do muro superior que visitámos, observamos, ainda, a existência de duas aberturas, uma das quais se mostra, parcialmente, na foto abaixo.
Fig. 9


Os três muros principais, têm perfis diferentes, como se evidencia nos desenhos abaixo (elaboração própria).
Fig. 10


O muro de montante é o mais forte, com uma largura no topo (na zona que visitámos), variando entre 190 e 220 cm, a que acresce um socalco de 70 cm de largura e, considerando que, de jusante, a parede apresenta uma inclinação de cerca de 15%, a largura total na base atingirá os 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
O muro intermédio é mais estreito, com uma largura de 120 cm no topo, a que acrescem dois socalcos de 40cm cada, numa total de 200 cm. Ambas as faces são verticais. De montante mediu-se a altura de 200 cm e de jusante 150 cm até ao primeiro socalco, mais 80 cm até ao segundo socalco e outros 80 centímetros até ao topo, somando a altura total de 310 cm.
O terceiro muro, que fecha o conjunto a jusante, é o de dimensões e formas mais simples, sendo constituído por uma parede com 120 cm de largura e uma altura, idêntica em ambas as faces, de cerca de 200 cm.


Vista do muro superior, com o seu socalco:
Fig. 11



Muro intermédio com os seus socalcos
Fig. 12



Muro Inferior
Fig. 13
Muro inferior

No topo e fazendo parte da propriedade a que os frades chamaram olival do Santíssimo e por aqui era conhecido como Olival dos Frades, o qual vindo desde o caminho dos Arneiros, numa extensão de cerca de 2400 metros era, no início do Séc. XIX, com os seus cerca de 100 hectares e mais de 18.000 pés de oliveira, o maior olival da região, as Tapadas ainda hoje não passam despercebidas a um olhar atento que se lance sobre a serra, a partir da Ataíja, do Cadoiço, ou de Aljubarrota e seus arredores.

Trata-se, sem qualquer espécie de duvida de uma construção fradesca.

Apesar disso e do muito que tenho lido a propósito dos monges cistercienses de Alcobaça, nunca vi, que me lembre, qualquer referência escrita a esta estrutura monumental.

Da tradição popular, apenas se retém localmente essa ideia de que nas Tapadas os frades plantavam laranjeiras. E, está bem vivo quem, há mais de 50 anos lá andou a lavrar com os bois do ti Zé Ribeiro que ali terá semeado batatas. Nesse tempo, havia por lá uma figueira, mas não havia vestígios de laranjeiras.

Verdade é que o volume de pedra usado na construção dos 3 muros principais, ultrapassa largamente os 5.500 m3 a que há que acrescentar o volume dos muros transversais, de fecho e de divisão, cujo volume não conseguimos estimar. Um tal volume de construção e, ainda, o que parece ter sido um edifício anexo, implicou, necessariamente, uma gigantesca quantidade de trabalho e dinheiro, num investimento que, certamente, se esperava recuperar a prazo.

Não me parece credível que um pomar de laranjeiras pudesse, por si só, garantir um adequado retorno financeiro e, por outro lado, só uma total ausência de terrenos igualmente aptos à cultura justificaria o virem plantar-se em local tão difícil e de tão onerosa preparação, pelo que se nos afigura que as laranjas que a tradição popular recorda, não terão sido a razão principal, muito menos a única, que levou à construção das Tapadas.

Subsistem, assim, vários mistérios em torno desta construção:

- Quando e com que objectivos terá sido construída?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A casa onde eu nasci




Em 1948, a maioria dos portugueses não tinha acesso regular a cuidados de saúde, muito menos, a cuidados de saúde materno-infantil. Nasci, por isso e tal como todos os meus conterrâneos daquele tempo, em casa de meus pais, numa cama onde muitas vezes dormi em adulto.

No local já existia uma casa (quatro paredes, melhor dizendo), atualmente com mais de cem anos e que  tinha sido construída por um irmão da minha avó para sua morada. Nunca a chegou a acabar, nem, muito menos, a usar por ter falecido, ainda no tempo da monarquia, durante o serviço militar.
Esta "casa", durante a sua já longa existência, já teve várias "vidas":
Foi adega do meu avô até ao seu falecimento em 1955. Foi, depois e durante cerca de vinte e cinco anos, salão amplo que serviu, designadamente, para nele se realizarem as festas familiares e as de mais de uma dúzia de casamentos. Foi, de novo, adega e há-de voltar a ser um salão familiar.

A casa do meu pai foi, por ele, construída no ano de 1946, adossada àquela. Uma casa modesta, para não dizer pobre, cerca de 50 m2, uma casa de fora, dois quartos minúsculos, uma cozinha e uma despensa.
O espaço sobrante, da frente do terreno, passou a ser o pátio onde viviam os porcos, os coelhos e as galinhas e, mais tarde, foi aí construído um anexo que serviu e serve de garagem e arrecadação.


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ADENDA:

No texto supra, publicado inicialmente, neste blog, em 14 de Março de 2012, deixei expressa a minha vontade de recuperar a casa onde nasci.
Trata-se de tarefa exigente, demorada e custosa essa de pretender recuperar uma casa "antiga". Desde logo porque tratando-se de casas construídas por gente pobre, com materiais pobres e feitas para servir num tipo de vida muito diferente do que é o nosso, o que se pode "salvar" é, sempre, menos do que inicialmente se quereria.

Felizmente, foi possível manter o essencial da "personalidade" da casa, agora dotada do mínimo de conforto exigível no nosso tempo.


Antes - A casa em 2012, numa excelente aguarela de Inês Neves:

Depois - A casa em 2017, numa fotografia de Alessandro Puccinelli:

Ainda, outra foto de Alessandro Puccinelli, mostrando a cozinha, realizada com o precioso contributo de Perpedra:





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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Arquitecto João Cordeiro


O nosso jovem conterrâneo João Pedro Garcia Cordeiro defendeu no presente ano lectivo a sua tese (dissertação de Mestrado), do curso de Mestrado Integrado em Arquitectura, do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

A tese, com o título “Voltar ao rio para (re)descobrir a porta de Alcobaça para o mar – Uma proposta para o território do rio Alcoa na antiga lagoa da Pederneira”, propõe as linhas gerais de um projecto de requalificação das margens do rio Alcoa, desde a saída de Alcobaça até à foz, tendo por objectivo a sua utilização em actividades turísticas e de lazer.

Apoiado numa larga bibliografia, onde pontificam todas as obras de referência para o estudo da região e da celebrada actividade agrícola dos frades cistercienses, o João Cordeiro traça um quadro impressivo da história da lagoa da Pederneira e das actividades humanas que se instalaram nas suas margens e acabaram por a ocupar totalmente logo que as obras de enxugo o permitiram.

O essencial do projecto incide sobre a área imediatamente seguinte à saída de Alcobaça para a Nazaré (a porta de Alcobaça para o mar de que fala o título da tese), o vale “garganta” que se segue à ponte chamada de Dom Elias e se abre sobre terrenos que outrora pertenceram à extinta COFTA - Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça.

Como diz o autor, “pretende-se desen­volver o projecto de um Parque Verde que explore a riqueza do vale a “garganta”.
O parque é delimitado pela ponte D. Elias, a Sul, e a Companhia de Fiação e Te­cidos de Alcobaça (COFTA), a Norte, estendendo-se a proposta para as encostas do vale. Subsidiário destes objectivos, pretende-se redesenhar a porta Norte da cidade de Alcobaça, a antiga ligação da cidade à Lagoa e daí ao mar.

Esta “garganta” é o único ponto de saída das águas recolhidas na bacia do rio Alcoa (e, também, do Baça), a qual tem uma área aproximada de 200 km2 e uma forma sensivelmente triangular, limitada a nascente pelos cumes da serra dos Candeeiros, entre Pedreiras (Porto de Mós) e Benedita.

O projecto, naturalmente, não afecta a actividade industrial (Goanvi – Central de engarrafamento de Bebidas, Lda.) que se desenvolve nas antigas instalações da fábrica da COFTA, restringindo-se, como se disse, a terrenos adjacentes que hoje não têm utilização industrial ou outra e onde subsistem importantes obras de hidráulica (açude, comportas, levadas, ou canais), as ruínas dos edifícios da Assistência Araújo Guimarães e da Central Eléctrica e outros vestígios de ocupações anteriores que se pretende preservar e valorizar.

Não é, aqui, o lugar para explanar mais o projecto nem para a sua crítica mas, apenas, para saudar o João Cordeiro, (de quem já conhecíamos a participação no concurso de ideias promovido pela Pladur, para a reconversão de uma das naves do antigo matadouro de Madrid[i]), desejando-lhe as maiores venturas pessoais e profissionais e que, dentro de alguns anos possamos dizer de um belo edifício que, “o arquitecto é um rapaz da minha terra”[ii].


Rio Alcoa, vendo-se, a azul claro, as áreas das lagoas, agora os campos da Cela e da Maiorga.
A verde, a área para que se propôe o Parque Verde (desenho de João Cordeiro).

Dois dos edifícios cuja preservação, renovação e requalificação se propôe: Assistência Araújo Guimarães e Posto de Transformação (desenhos de Joao Cordeiro)






[i] Aos mais curiosos, recomenda-se uma visita ao site oficial do Matadero de Madrid, por onde se pode ver como funciona uma bem sucedida reconversão de uma grande estrutura industrial que o tempo tornou absoleta. Ver: http://www.mataderomadrid.org/index.php.
[ii] O título de arquitecto, à semelhança de outros como, por ex., advogado ou médico, só pode ser usado legalmente por pessoas inscritas na respectiva Ordem. O João Cordeiro terá, ainda, de realizar um estágio profissional e só depois poderá inscrever-se como Arquitecto na Ordem dos Arquitectos. 
Fique, pois, claro que o título deste post é da minha exclusiva responsabilidade. J. Q.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um lagar desconhecido

No largo do Fundo da Igreja, entre a rua de Nossa Senhora da Graça e a de Santo António, ao lado da que foi a casa de Maria Constantino e mesmo em frente à porta da cave da Capela, existe um pequeno edifício que agora serve de garagem e serviu, antes, além de outras coisas, como o palheiro das vacas de João Pereira que foi pai do actual proprietário.
Na festa em honra de Santo António que, como é tradição, se realizou no passado dia 15, o referido edifício serviu como bar de apoio aos festejos e, por isso, o seu portão esteve aberto, deixando ver o que a generalidade dos ataijenses desconhece:

Embebidas na parede do lado esquerdo, em excelente estado de conservação, podem ver-se as “virgens” onde articulava a vara de um lagar.

Atenta a reduzida dimensão do edifício e a sua localização, é certo de que se tratou, não de um lagar de azeite mas de um lagar de vinho.

Esse lagar de vinho, no entanto, já deixou de laborar há muitos anos, mais do que alcança a memória de qualquer ataijense vivo. É o que concluo da conversa que mantive com o António Pereira, o qual apenas sabe que o edifício foi comprado pelo seu pai (mas não sabe quem foi o vendedor) e desconhecia que aquelas pedras na parede serviam para propiciar a articulação da vara do lagar. O que quer dizer que o seu pai nunca lhe terá falado nisso, muito provavelmente por, à data da compra da propriedade, já nela não haver outros indícios da antiga função.

Na Ataíja de Cima escasseiam os vestígios do passado e os que sobram estão, muitos deles, arruinados ou em vias de ruína.
No caso do antigo lagar de que falamos, apenas sobram os vestígios que, por se encontrarem embebidos na parede, não dificultaram os sucessivos usos que foram dados ao edifício. Esperemos que esse facto permita que se mantenham intactos por outros tantos anos.



Notas: Para conhecer melhor o funcionamento dos lagares de varas, veja, Lagares de azeite - As prensas, aliás, o post mais lido deste blog.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Fundo da Igreja


Hoje e em 1973

A nascente da Capela de Nossa Senhora da Graça da Ataíja de Cima, abre-se um Largo, ladeado a sul pela Estrada do Lagar dos Frades e onde desembocam a Rua de Nossa Senhora da Graça, a Rua de Trás (agora chamada de Santo António) e a Rua das Hortas.
É um largo antigo que delimitava o núcleo urbano pelo lado nascente e onde se situavam algumas das casas mais antigas e arquitectonicamente importantes da aldeia: a norte, a do Machado, a qual tinha uma traça semelhante à de Amélia Ribeiro e desapareceu, já na segunda metade do Séc. XX, para dar lugar à de seu neto Manuel Matias; a nascente, a de João Veríssimo que é, pelo menos, do início do Séc. XIX e a do Pote Serrano (onde João Pereira fazia a sua barbearia) que é do Séc. XVIII ou, talvez, mais antiga e; a sul, a de Amélia Ribeiro, também do Séc. XVIII e que, em 1981, foi exemplarmente recuperada.

Este Largo não tem nome mas, eu sempre o conheci por O Fundo da Igreja.

Em 1973 não existia alcatrão na Ataíja de Cima e, no chão dos caminhos, o que se via eram as ásperas pedras sobre que assenta todo o núcleo urbano antigo.
Algumas casas começavam a ser vítimas de abandono ao ritmo da morte dos seus habitantes.
Os veículos automóveis eram raros e exigiam cuidados hoje dispensáveis como, a cada viagem, verificar o nível do óleo e da água do radiador.

É que o que podemos ver na foto seguinte, tirada no Verão de 1973, onde António Cordeiro, então residente em Lisboa, verifica os níveis da sua viatura, sob o olhar atento do Pedro Cordeiro.
O carro está estacionado no local agora ocupado pela sacristia da Capela. À direita vê-se uma arrecadação que pertencia a João Pereira e a casa que foi de Maria Constantino.



Passados que estão 39 anos, o aspecto do mesmo local é o seguinte:


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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Capela de Nossa Senhora da Graça

Hoje e há 23 anos


Em 1989, a festa de Nossa Senhora da Graça que, tradicionalmente, se realizava no dia 2 de Fevereiro, teve lugar em Maio, julgo que no primeiro Domingo. (A festa, entretanto, regressou à sua época tradicional, realizando-se no dia 2 de Fevereiro ou no Domingo mais próximo).

A fotografia seguinte, mostra o início da procissão à serra, nesse ano de 1989. À esquerda, olhando a câmara, está o Quim Novo, já falecido. A bandeira já lá vai, enquanto alguns fiéis ainda se preparam para integrar o cortejo e outros, verdade seja dita, não aparentam ar de se querer  fazer à caminhada que é longa e não muito fácil mas tem, a final, a recompensa, para além da fé de cada um, de um magnífico panorama.

A segunda foto, onde o cume da serra aparece encoberto pela evaporação da humidade noturna, foi tirada em 21-10-2012, sensivelmente do mesmo local e permite-nos perceber o que aí mudou nestes 23 anos.



E não haverá algum leitor que tenha uma foto.da capela com a sacristia do lado direito?

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A Casa do Monge Lagareiro - III


O Lagar dos Frades da Ataíja de Cima


Nos textos aqui publicados anteriormente sobre a Casa do Monge Lagareiro, da Ataíja de Cima, (Ver AQUI  e AQUI),  procurámos sintetizar o conhecimento actual sobre o monumento e desfizemos um erro que vinha sendo sistemática e acriticamente repetido, o de que a fachada principal seria dominada por “um janelão cego”, demonstrando que tal janelão nunca existiu ou, melhor, nunca passou de uma mera decoração feita em reboco.
Sobre este falso janelão, aliás, bom seria que os conhecedores da arquitectura setecentista – área em que não possuo quaisquer qualificações – observassem o estado actual do monumento, com vista ao esclarecimento da interessante questão de saber se tal era solução corrente na época ou, se se trata de uma curiosidade rara, como me parece que se trata, já que não tenho conhecimento de outros casos semelhantes.
Acresce que a solução adoptada para “fingir” o dito janelão, é de grande qualidade de execução técnica, de tal modo que, durante cerca de 250 anos, foi capaz de iludir todos os estudiosos e leigos que a contemplaram, todos eles convencidos de que se tratava da moldura de pedra de um janelão entaipado.
Esse equívoco está hoje sanado e, na sequência de uma intervenção e apresentação de provas fotográficas que fizemos junto do IGESPAR, no site deste instituto já não se fala, como antes, num “janelão cego” dizendo-se, apenas, que “Ao centro, uma molduração integra a pedra de armas de Alcobaça” (ver: http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/74418/)
No entanto, idêntica actualização não foi, ainda, feita no SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, onde, em: http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3336, continua a referir-se a existência de um “janelão cego, de moldura recortada”.

Um outro aspecto deste monumento que interessaria ser objecto de estudo é que, de facto, nada na literatura nos elucida sobre como realmente ele seria aquando de sua construção e pleno funcionamento.
É preciso notar, em primeiro lugar que, da escassa literatura que se refere ao lagar dos frades da Ataíja de Cima, apenas J. Vieira Natividade, (v. As Granjas do Mosteiro de Alcobaça, in Obras Várias, II), declara tê-lo visto em funcionamento, cerca de 1915, e faz uma breve descrição das instalações, descrição essa, no entanto, insuficiente para com base nela se tentar reconstituir a respectiva planta.
Curiosamente o texto, publicado inicialmente, em 1944, no Boletim da Província da Estremadura, refere-se a dois dos compartimentos do lagar indicando as respectivas dimensões (o das prensas, com 21,80mx11,10m e o dos moinhos com 35,50mx9,50m), com uma minúcia que indicia terem, tais medições, sido feitas com cuidado e rigor. Como, de seguida, diz que as dependências do lagar já não existem (em 1944), isso significa que aquelas medidas foram tomadas anteriormente.
Talvez, na época em que viu o lagar em funcionamento (em 1915, JVN tinha 16 anos de idade), certamente acompanhando o pai nas suas explorações.

Sendo de admitir que as medidas foram, como é normal, tomadas sobre um esboço (que ainda existiria em 1944), deve admitir-se a possibilidade de, entre os papéis de J. Vieira Natividade, ainda poder vir a encontrar-se uma "planta" do lagar dos frades de Ataíja de Cima.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Pátio

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O pátio era, até há menos de cinquenta anos, um elemento fundamental do conjunto arquitectónico que constituía a casa de morada de família.

Rodeado de muros altos, ficava normalmente situado na frente da casa, dando para a rua por um portão largo, através do qual se fazia, também, o acesso à residência.

Sempre coberto de mato, ali andavam à solta galinhas e porcos.
Por vezes existia nele uma arribana onde se recolhia o carro do burro ou das vacas e ao fundo da qual se montava um poleiro onde dormiam as galinhas.
Colados ao muro estavam uma corte para a porca grávida, ou parida com seus leitões, uma coelheira feita de madeira, o redil para o pequeno rebanho, o palheiro com as baias onde dormiam o burro e as vacas e a pequena adega.
A própria cisterna estava, muitas vezes, no pátio, já que esse era o melhor lugar para recolher a água dos beirais das diversas edificações.
Ali estavam, também, as amoreias do estrume e a da lenha e, quando existia, a casa do forno.

O que acabo de descrever, era um típico e comum modelo das casas ataíjenses da primeira metade do Séc. XX, ao qual escapavam algumas em que o acesso ao pátio era lateral à casa, cuja porta da “casa de fora” abria, então, directamente para a rua. O que, aliás, era muitas vezes inútil, continuando o tráfego diário a fazer-se pelo portão do pátio - a caminho da cozinha que era o verdadeiro centro da vida familiar -, abrindo-se a "casa-de-fora" e a “porta-da-rua” ao domingo, em raras ocasiões festivas e, necessariamente, na visita pascal.

Também escapavam ao modelo a generalidade das casas mais antigas, no centro da aldeia (o “lugar”), estas encostadas umas às outras, apenas com um pequeno pátio nas traseiras aonde, muitas vezes, se acedia através da própria porta da casa.


Isto, remete-nos para a questão da suposta antiguidade do pátio, enquanto elemento estruturador do assento de casas da família.

As casas dos camponeses medievais não tinham pátio, porque os que nelas habitavam eram gente pobre que nada, ou quase nada, tinha de seu e, quando possuíam animais estes viviam, na maioria dos casos, livremente, na rua e pastando nos campos, onde eram recolhidos em “chousas”.

O povo comum só começa a utilizar o pátio, talvez a partir do Séc. XVIII, por imitação dos solares da pequena nobreza e da burguesia rurais que, também eles, se estruturam em torno de um grande pátio ou terreiro.

Antes disso, a maioria dos terrenos eram incultos, baldios de que o povo tirava alguns usos mas de que não tinha a propriedade. Aí se cultivavam, intermitentemente, algumas courelas,  (o pousio, era indispensável a terrenos fracamente arados e não adubados), recolhia-se lenha e mato, mel e frutos e criava-se gado: porcos, ovelhas e cabras.

No caso da nossa região, a multiplicação de pequenos proprietários é realidade que só o Séc. XIX, com o fim do Antigo Regime e das Ordens Religiosas, permite. Só então a efectiva apropriação camponesa da terra se materializa (ainda que subsistam foros que, agora, se assemelham muito a arrendamentos e se vão, pouco a pouco, liberando).

É por esse tempo que, um camponês médio, tendo a propriedade plena (ou o direito de exploração enfitêutica) de terras suficientes e de natureza diversificada (terras de semeadura, olivais, matos, vinhas), adquire a auto-suficiência alimentar e passa a produzir excedentes que carecem de ser armazenados.
É aí que surge a necessidade e a possibilidade do pátio e de todos os cómodos que o organizam.

E foi assim que, durante cerca de 150 anos, até à segunda metade do Séc. XX, quando passámos de uma economia agrícola para uma economia industrial, se organizaram todas as novas casas construídas, na Ataíja de Cima, na imediata periferia do núcleo urbano antigo.

O fechar-se da casa sobre si mesma, em torno do pátio, foi, também, rico de consequências ao nível das relações sociais:  a convivialidade entre vizinhos, típica dos núcleos urbanos antigos, diminue drasticamente e a vida passa a centrar-se na família, agora, "defendida" do exterior pelos muros altos do pátio.
Começava a desenhar-se uma nova estratificação social, onde o pátio e os bichos que o  habitavam, a dimensão e complexidade dos cómodos que o envolviam, eram indicadores seguros das posses da família.


Na esquina entre a Estrada do lagar dos Frades e a Rua da Ponte, as casas que foram de Luís Francelino e são o conjunto arquitectónico subsistente na Ataíja de Cima que, melhor, ilustra o que se diz neste texto.
As casas configuram-se como um pequeno castelo, com uma única entrada (note-se a recusa de um acesso directo à habitação: esta oferece uma parede cega à rua, quando se poderia, facilmente, ter aberto uma porta).
 
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Casa do Monge Lagareiro, II

também denominada ''Lagar dos Frades''




A Casa do Monge Lagareiro, classificada como IIP – Imóvel de Interesse Público pelo Decreto-Lei n.º 67/97, de 31 de Dezembro, publicado no Diário da República, I Série, n.º 301, de 31-12-1997, é um exemplar de arquitectura civil pombalina, localizado na Estrada Municipal n.º 553 (ou Estrada do Lagar dos Frades), em Ataíja de Cima, Alcobaça, junto ao km 98 da Estrada Nacional 1 (IC 2) e a 200 metros a poente deste.

O Olival do Santíssimo (olival dos frades da Ataíja de Cima) e a Quinta onde se incluíam o Lagar dos Frades e a Casa do Monge Lagareiro, formavam em conjunto a exploração agrícola, já que o lagar se justificava para processar as azeitonas do olival e a Casa como armazém e residência do encarregado da gestão do olival e do lagar.

Lamentavelmente, a nosso ver, a classificação da Casa do Monge Lagareiro ignorou esse carácter, deixando de fora quer os vestígios ainda existentes do antigo lagar, quer o muro que rodeia a quinta, os quais me parece terem idêntica importância, histórica, arqueológica e arquitectural.

Edificados em data incerta, na segunda metade do século XVIII, no âmbito da actividade reformadora da ordem de São Bernardo levada a cabo pelo Abade Dom Frei Manuel de Mendonça que – em execução das políticas pombalinas - promoveu a plantação do olival dos frades e a construção do necessário lagar e casa do monge lagareiro, o lagar e a Casa foram erguidos dentro de uma quinta murada, junto à Lagoa Ruiva, da qual o lagar se abastecia de água, muito provavelmente através de uma galeria artificial de que falam testemunhos locais.

A lagoa está actualmente aterrada e ocupada pelo campo de futebol (estádio da rã) e pelo Largo do Cabouqueiro.

A Casa do Monge Lagareiro, agora muito arruinada, é um edifício de planta rectangular e dois pisos, actualmente com cobertura de uma água, pendendo sobre a fachada principal, a nascente. As paredes a norte e a poente são cegas. Dos dois pisos, o térreo destinava-se a serviços e armazenamento do azeite e o segundo a habitação do monge lagareiro que supervisionava o olival, a quinta e o lagar.

A fachada principal, virada a nascente (sudeste, mais rigorosamente) e à serra dos Candeeiros, apresenta no piso nferior duas janelas gradeadas, de moldura simples em pedra calcária da região, encimadas, no piso superior, por janelas com moldura de brincos e frontão de laços. Ao centro, um falso janelão cego, de moldura recortada, é encimado por uma grande e bem trabalhada pedra de armas de Cister, rematado por uma coroa de que actualmente só sobra a parte posterior.

No interior, as janelas do segundo piso surgem como janelas conversadeiras e as paredes divisórias usavam (já não usam, já tudo ruiu) como técnica de construção o chamado taipal à galega, “estrutura com prumos e barrotes de travejamento, tendo pelas 2 faces fasquias, também de madeira, e preenchendo-se o interior com argamassa de argila, cal, cortiça e azeite, obtendo-se assim maior leveza e durabilidade da estrutura e o isolamento térmico, com paredes frescas no Verão e quentes no Inverno” (Paula Noé).

No alçado sul existe uma escada exterior de acesso ao piso superior.

O conjunto da fachada era equilibrado pela existência de dois corpos laterais esconsos, adossados ao corpo principal.

O corpo norte está arruinado há, pelo menos, setenta anos e não tem qualquer ligação funcional com a Casa. Serviu, certamente, instalações do lagar.

O corpo sul, onde se situam os acessos ao edifício e cuja degradação mostra, agora, que foi meramente encostado ao corpo principal da Casa, apresenta ao nível do piso inferior um arco, entretanto parcialmente fechado para nele se abrir uma porta.

As instalações do lagar organizavam-se na fachada posterior, a poente, junto à qual ainda se vêem algumas das “virgens” onde articulavam as varas das prensas.

Pormenor do brazão de Cister, na fachada principal da Casa do Monge Lagareiro, aqui, ainda com a coroa inteira.
A foto, retirada do site do IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arquelógico ( http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/74418/)
é da autoria de técnicos do Ministério da Cultura e datada, segundo informação do IGESPAR, de 1987.
 
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Casa do Monje Lagareiro

Um Imóvel de Interesse Público na Ataíja de Cima



A classificação como Imóvel de Interesse Público, a que se procedeu pelo Decreto-Lei n.º 67/97, de 31 de Dezembro, publicado no Diário da República, I Série, n.º 301, de 32-12-1997, da chamada Casa do Monge Lagareiro, não teve qualquer repercussão no local.

Ao nível científico, apesar do enorme fascínio que o Mosteiro de Alcobaça e a sua história exercem sobre tantos intelectuais, com os historiadores à cabeça, também não parece que tal classificação tenha despertado grande interesse pelo monumento já que, depois disso, apenas foi publicado o estudo intitulado “Breve Noticia sobre o Antiguo Lagar dos Frades em Ataíja de Cima (Alcobaça)”, de Maria do Céu Simões Tereno(a), publicado na “Cistercium", Revista Monástica, Julio – Septiembre, 2001, n.º 224(b), estudo esse que constitui o “estado da arte”, no que ao conhecimento científico deste monumento diz respeito.

Nele, centrando-se na arquitectura e no estado actual (1999-2000?) do edifício, a autora descreve o que viu e hoje, passada cerca de uma dúzia de anos, se encontra um pouco mais arruinado.

O texto recenseia o essencial da bibliografia relevante e é acompanhado por seis desenhos (c), um dos quais é uma tentativa de reconstituição da planta dos edifícios, feita a partir da descrição de J. Vieira Natividade e dezassete fotografias, cuja leitura é muito prejudicada pela má qualidade da reprodução e ausência de datação.

Uma dessas fotografias, “Figura 23 Antigo Lagar dos Frades. Fotografia do conjunto do lagar, mostrando ainda a Lagoa Ruiva”, é a mesma que já tinha sido publicada por J. Vieira Natividade em ilustração ao seu artigo “As Granjas do Mosteiro de Alcobaça”, in Boletim da Junta da província da Estremadura, – 2ª Série, n.º 5, Lisboa, 1944(d)  (como, aliás, M. C. S. Tereno refere em Nota) e, com a legenda “Lagoa Ruiva e ruínas do LAGAR DOS FRADES (Ataíja)” está reproduzida na estampa XIII (1), inserta entre páginas 52 e 53 do livro “M. Vieira Natividade - Mosteiro e Coutos de Alcobaça - Alguns Capítulos Extraídos dos Manuscritos Inéditos do Autor e Publicados no Centenário do seu Nascimento, MCMLX” (e) .

Esta fotografia(f) é particularmente interessante, mostrando, em primeiro plano, a Lagoa Ruiva onde uma mulher lava roupa, uma criança brinca e um homem, com o seu carro de burro, enche uma barrica de água. Em segundo plano, vê-se a “Quinta”(g) , com o seu muro ainda quase intacto e a entrada, com as suas colunas e, em terceiro plano, as instalações do lagar, já bastante arruinadas e da Casa do Monge Lagareiro, esta com o telhado denunciando obras recentes (h).

Tudo somado, o que sabemos sobre o Lagar dos Frades da Ataíja de Cima e a Casa do Monge Lagareiro é, ainda, muito pouco e pode resumir-se ao que foi escrito por:
- Frei Manuel de Figueiredo, que dá notícia da sua construção;
- J. Vieira Natividade, que descreve o estado em que o encontrou no início do Séc. XX;
- Maria do Céu Simões Tereno, que descreve o estado em que o encontrou em 1999/2000.

No mais, a grande maioria dos diversos textos que se referem à Casa do Monge Lagareiro e ao Lagar dos Frades da Ataíja de Cima, não trás qualquer conhecimento novo.

Mas o tempo, esse grande escultor veio, recentemente, ensinar-nos mais alguma coisa:
A degradação do imóvel permite-nos ver, agora,  que o famoso janelão cego que domina a fachada armoriada da Casa do Monge Lagareiro, servindo de suporte ao imponente Brasão de Cister é, afinal, falso e não, ao contrário do que parecia, uma janela entaipada:



NOTAS:
(a) Arquitecta, professora na Universidade de Évora, Doutora em Conservação do Património Arquitectónico, com uma tese intitulada “Contributo da Perspectiva para a Salvaguarda de Monumentos Históricos”.
(b) A revista "Cistercium" é patrocinada pela Conferencia Regional Española de Monasterios Cistercienses de la Estricta Observancia.
(c) Além de plantas de localização às escalas 1/25000 e 1/4000.
(d) Republicado (sem ilustrações) em “J. Vieira Natividade, Obras Várias, II”, Edição da Comissão Promotora das Cerimónias comemorativas do I Aniversário da Morte do Prof. J. Vieira Natividade, Alcobaça, s/data (o Prof. J. Vieira Natividade nasceu em 22-11-1899 e faleceu em 19-11-1968, esta edição será, portanto, de cerca de 1970).
(e) O livro reúne um conjunto de inéditos de Manuel Vieira Natividade, escritos entre 1878 e 1918, coligidos pelo filho do autor, o Eng.º Agrónomo Prof. Joaquim Vieira Natividade. As fotografias não são datadas e não têm indicação de autor. No entanto, as insertas no referido Boletim, são aí mencionadas como sendo da autoria de J. Vieira Natividade.
(f) Provavelmente tirada nos primeiros anos da década de 1940.
(g) “Quinta”, é o nome porque, na Ataíja de Cima, sempre ouvi designar o terreno murado onde se situa a Casa do Monge Lagareiro.
(h) O espaço era, ainda na segunda metade do Séc. XX, utilizado como palheiro pelo proprietário, José Horta Henriques que foi conhecido por José Bernardo.

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pedra insonsa

Os estudiosos que têm publicado sobre a região serrana do concelho de Alcobaça dão, sistematicamente, uma grande importância às construções em pedra seca ou insonsa, quer dizer, sem qualquer argamassa.
Mas, se esse tipo de construção é evidente nas delimitações das propriedades, em paredes de estrutura muito simples, a maioria das vezes mera sobreposição das pedras, solução aliás comum em muitas regiões de Portugal (por exemplo, nas zonas rurais do concelho de Sintra) e, também noutros países da área mediterrânica, como se vê na fotografia seguinte tirada na Croácia mas que bem o poderia ter sido no vale da ribeira do Mogo:



A verdade é que na Ataíja o uso desta técnica foi muito limitado no que respeita à construção de edifícios e outras estruturas mais complexas. Pelo menos nos últimos dois séculos, é de crer que o exemplo dos frades que construíram o lagar dos frades com uma argamassa de barro, cal e borras de azeite, tenha sido largamente copiado. Os muros da "quinta", são, aliás, um extraordinário exemplo da qualidade desta construção, mantendo, após duzentos e cinquenta anos, uma notável solidez, como se vê da fotografia seguinte:



Esse uso limitado da técnica de construção em pedra insonsa é bem compreensível desde logo, porque é claramente mais fácil construir com argamassa com o que se dispensa (à custa, até certo ponto, da solidez do conjunto) um aparelhamento mais minucioso das pedras de enchimento.
Havia, construidas em pedra seca, muitas cortes de porcos, covas de bagaço e pequenos palheiros ou casas de arrumos mas estão hoje quase todas desaparecidas.
Os poços eram, também, construidos em pedra seca e nisso se distinguiam das cisternas que eram argamassadas com uma mistura de barro e cal e rebocadas.
A maioria dos poços, designadamente os mais característicos, com cobertura de telha, estão hoje desaparecidos.
Sobram, no entanto alguns com falso aspecto de cisterna, como é o caso do que foi construído pelo meu avô Joaquim Coelho Quitério: tem cobertura de cimento armado e, apenas na parte que emerge da terra, a parede rebocada pelo exterior, como se vê na fotografia seguinte:



Das paredes de edifícios, construídas em pedra seca, o caso mais notável, pela qualidade da construção, que se pode ver nas ruas da Ataíja, é a parede de um anexo à residência que foi de Maria Branca, na Rua das Hortas, de que a fotografia seguinte apresenta um pormenor. De notar que quando esta parede foi construída já não havia na Ataíja pedreiros especializados nesta técnica tendo, segundo me explicou Joaquina Branco, a construção sido feita a mandado de seu pai por pedreiros que vieram "de trás da serra".

 

domingo, 20 de junho de 2010

Citernas

Durante toda a existência secular da Ataíja, a falta de nascentes de água constituiu um fortíssimo condicionante das condições de vida.


A água para beber e cozinhar recolhia-se nos poços e cisternas, para lavar a roupa e para dar de beber aos animais recorria-se à Lagoa Ruiva.

Quando eu era menino, as portas das casas ficavam apenas na tranqueta mas a citerna era fechada à chave e, quando, como era normal, mais de uma família se abastecia na mesma citerna, o número de cântaros que se podiam retirar dela eram rigorosamente controlados.

Para manter a água limpa de matéria orgânica, era costume recolher alguns peixes no Rio de Chiqueda e lançá-los dentro da cisterna.


O surgimento, em 1992 ou 1993, não me recordo bem, do abastecimento público de água, modificou drasticamente a relação dos ataíjenses com a água e levou ao desaparecimento da Lagoa Ruiva e de muitos poços e cisternas e ao abandono de outros tantos.

A cisterna a que, na linguagem ataíjense, chamamos citerna, é um reservatório estanque de águas, de paredes em pedra argamassada, rebocada e caiada que recebe as águas da chuva exclusivamente através de recolha em superfícies impermeáveis: eiras de pedra, telhados das casas e cobertura da própria cisterna.

Há-as de vários tipos: de abóbada semi-esférica, de telhado de uma ou duas águas, de cobertura plana feita com grandes lages ou, as mais recentes, com cobertura plana em cimento armado ou com estrutura de pré-esforçado.






Cisterna de data de construção desconhecida mas, seguramente, do Séc. XIX ou anterior, no pátio da casa que foi de António do Casal, (foto de 2006)


A mesma cisterna, vendo-se o sistema que permite a recolha das águas da cobertura, (foto de 2006)


Cisterna no quintal de Manuel Luís de Sousa. construída nos anos 20 do Séx. XX, (foto de 2010)


Cisterna com cobertura plana, de lages, junto à casa do Olival do Sá, construída nos inícios do Séc. XX (foto de 2007)


Cisterna construída cerca de 1977, integrada no interior dos anexos de uma casa, (foto de 2007)



sábado, 14 de novembro de 2009

Capela de Nossa Senhora da Graça

Eis uma belíssima fotografia da Capela de Nossa Senhora da Graça, na Ataíja de Cima, da autoria de Dias dos Reis.
Esta e mais duas fotografias da Ataíja de Cima: um pormenor da Capela e a Estátua do Cabouqueiro, estão na internet  em http://www.panoranio.com/. e, também, em (http://www.pbase.com/diasdosreis)
Vale a pena visitar este site, onde o autor apresenta muitas centenas de fotografias de Portugal inteiro, impecavelmente organizadas por distrito, concelho e freguesia, todas elas de grande qualidade técnica.

Nesta fotografia impressiona-me, sobretudo, a nitidez e a força da Serra dos Candeeiros em fundo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Casas do Século XVIII na Ataíja de Cima

Casa do Outeiro




Casa de Amélia Ribeiro


Esta casa foi objecto de remodelação no ano de 1981,conforme o atesta o pequeno painel de azulejos, sobre a porta.
Gravada na cantaria de padieira da porta, a data da construção: 1794
De notar, ainda, à direita da entrada, o banco feito de uma lage toscamente aparelhada e, à esquerda, cravada na parede, a pequena pia de pedra para dar de beber à montada. Sobre esta pia, a pequena mancha negra que se vê na parede é um olhal em pedra para prender a besta. À direita, em simetria, vê-se outro olhal idêntico. Quer a pia quer os olhais, são contemporãneos da construção da casa.