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domingo, 29 de março de 2020

A Imagem e a Capela de Nossa Senhora da Graça da Ataíja de Cima – Lenda e História



Nos “Tesouros Artísticos de Portugal”[i] a imagem de Nossa Senhora da Graça é mencionada nos seguintes termos:

ERMIDA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA. Situa-se em Ataíja e guarda uma escultura de pedra quinhentista[ii] representando o orago, prejudicada por uma infeliz repintura. Neste lugar existiu um convento de frades, hoje reduzido à fachada setecentista, brasonada.”

A infeliz repintura, como lhe chama o autor, que dá à imagem o aspecto que actualmente lhe conhecemos, foi, segundo contava o meu pai que o terá ouvido ao seu, feita em finais do séc. XIX, ou inícios do séc. XX, porque a anterior se encontrava muito degradada, por Manuel Ferreira da Bernarda ou um outro pintor da sua fábrica.
O convento de frades, esse, nunca existiu. Na Ataíja nunca houve um convento de frades. Apenas, um lagar de azeite da Ordem de Cister construído em meados do séc. XVIII e que é a construção a que o autor se refere

Naquele tempo, andavam a construir uma casa e foram tirar a pedra a um sítio, a que agora chamam a Pia da Senhora ou a Cova da Santa.
Carregaram num carro de bois uma grande pedra que daria um bom cunhal e deixaram-na no local da obra. No dia seguinte a pedra não estava onde a tinham deixado mas, perante a incredulidade geral, no sítio de onde a tinham tirado.
Tornaram a carregar a pedra e o acontecido voltou a acontecer e repetiu-se, ainda, uma terceira vez.

Não havia dúvidas. Era um milagre.

Perante tal maravilha, logo o povo ali decidiu que haviam de mandar a um imaginário que fizesse da pedra uma bonita Nossa Senhora que, atentando bem, já ali se vislumbrava e, do mesmo passo, decidiram que a casa que queriam construir já não seria para nela habitar uma família, mas seria a Capela onde passariam a venerar a imagem.



A minha avó Maria Lourenço que me contou esta história e muitas outras, era analfabeta e não podia saber que entre os anos de 1545 e 1563 decorreu em Trento, cidade situada no norte de Itália, um dos mais importantes concílios da história da Igreja Católica, o Concílio de Trento ou Tridentino, convocado pelo Papa Paulo III em reação às divisões provocadas pelo surgimento do protestantismo, na sequência da publicação, em 1517, das 95 Teses de Lutero.

Lembremo-nos igualmente – e a minha avó também o não podia saber – que, por esses tempos, por toda a primeira metade do séc. XVI, se travou em Portugal uma longa disputa em torno da criação e consolidação do Tribunal do Santo Oficio[iii].

Ou seja, na segunda metade do séc. XVI, estavam reunidas todas as condições para que na nossa região, como por todo o Portugal, se fizessem sentir os ventos da Contra-Reforma, erguendo-se nesse tempo a maioria das capelas que ainda hoje existem nas nossas aldeias.

É neste contexto da Contra-Reforma e da acção do Santo ofício que os milagres se multiplicam:
Ao milagre da imagem de Nossa Senhora da Graça, que terá acontecido algures na segunda metade do séc. XVI, época de fabricação da imagem, acrescem pelo menos três milagres supostamente acontecidos em Aljubarrota.

O Couseiro dá-nos conta do aparecimento miraculoso da imagem da Senhora do Laço, acontecido em 1568[iv].
O mesmo milagre é contado em diferente versão nas Memórias Paroquiais[v] onde, por outro lado, se acrescentam outros milagres imputáveis à mesma imagem. No entanto, sem adiantar data, o pároco limita-se a dizer que o milagre do laço “é tradição antiquíssima”.

Segundo o que o Padre Luís Cardoso, por sua vez, diz no Dicionário Geográfico,[vi] este milagre teria acontecido cerca de 1617[vii].
- Um crucifixo que abriu os olhos e suou, milagre este que foi presenciado por “António Coelho, natural da Ataíja de Cima, homem de boa via e honestos procedimentos”, diz o Padre Cardoso.


E, não ficam por aqui os milagres locais.

Em 1611, num mesmo dia, mais dois milagres:

- Uma imagem do Senhor Preso à Coluna que saiu incólume do incêndio que devorou os panos sobre que se encontrava.


Os “milagres”, muitas das vezes consistindo em imagens aparecidas ou semoventes[viii] ou as duas coisas, “aconteceram”, ou foram “recuperados”, em grande quantidade, entre o final do séc. XVI e por todos os séc. XVII e XVIII e estão na origem de muitos edifícios religiosos, por vezes imponentes santuários. (é o caso – e para dar, apenas, três exemplos da nossa região – do Senhor Jesus da Pedra, em Óbidos, do Senhor Jesus dos Milagres, na localidade do mesmo nome, perto de Leiria e do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio)[ix].

A veracidade da maioria destes milagres é, no entanto e hoje em dia, objecto de dúvida generalizada, inclusive por parte da Igreja Católica que não reconhece muitos deles.

Seja como for, o nosso modesto milagre deu origem à também modesta capela. Tão modesta que, ainda em meados do Século XVII, quer dizer, mais ou menos quando o Duque de Bragança, depois D. João IV e os seus companheiros puseram fim à união com a Espanha filipina e recuperaram a independência de Portugal, era descrita no Couseiro, um importante repositório da realidade da Diocese de Leiria o qual contém, designadamente, um completo inventário e descrição das igreja, capelas e ermidas do bispado, nos seguintes termos:

“… (no lugar da Ataíja de cima há uma ermida) da invocação de Nossa Senhora da Graça, a cuja fábrica são obrigados os moradores do mesmo Lugar; a imagem da Senhora é de vulto, pintada, sem nicho, nem retábulo, nem capela, nem igreja forrada, nem sino.”

A imagem era a que conhecemos, eventualmente com diferente pintura. A capela, essa era bem mais pobre. Quatro modestas paredes cobertas de telha vã sem, sequer, um sino que chamasse os fiéis à oração.

Não sabemos quando é que a imagem de Nossa Senhora da Graça ganhou o seu nicho. Talvez, como indicia a sua traça, ainda na segunda metade do Séc. XVII ou na primeira do Séc. XVIII. Esse nicho está agora como peça decorativa do Adro (será, brevemente, incorporado no Centro Paroquial em construção), depois de em 2003 ter sido substituído por uma cópia em mármore, aliás fielmente executada.

Sobre o que seria a arquitectura da capela em meados do Séc.  XVIII não se pronuncia o pároco de São Vicente que, em resposta ao inquérito pombalino[x], apenas diz que:

“… (a freguesia de São Vicente) Tem mais a cappela de Nossa Senhora da Graça cuja imagem parece bem antiga e hé de pedra e do povo daquele lugar que se chama a Athaeja de Sima. Esta cappela está em um largo no meyo do lugar[xi]; tem seu juis e mordomos que lhe administram alguns rendimentos que tem que servem para a fabrica da ditta capella e festa da mesma Senhora que se faz em hῦas das oitavas do Natal, e nesse dia acode a ella bastante gente dos povos vizinhos e tem também esta cappela em o altar a imagem do Menino Jesus.”

Por este tempo estaria a ser plantado o olival dos frades e a ser construído o lagar, de que hoje apenas sobram as ruinas da cerca da quinta em que se inseria e as da casa do monge lagareiro. Factos que não deixaram de ter grande importância na vida Ataíjense e, portanto, também na sua capela.
Mas isso, terá de ficar para uma outra vez.


(texto publicado inicialmente em 117-01-2018, revisto e actualizado em 29-03-2020)



[i] Tesouros Artísticos de Portugal, orientação e coordenação de José António Ferreira de Almeida, edição Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, 1980
[ii] Quinhentista. Relativo ao séc. XVI.
[iii] V. Marcocci, Giuseppe, A Fundação da Inquisição em Portugal: um novo olhar, in Lusitania Sacra. 23 (Janeiro-Junho 2011) 17-40
[iv]. Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria, Transcrição da 2ª edição de 1898. Colecção Tempos & Vidas, Textiverso, Leiria, 2011. Pág. 263 e nota 23.
[v] Memórias Paroquiais (1758), Volume III, Introdução, Transcrição e Índices, José Cosme e José Varandas, pág. 11, Edição Caleidoscópio e Centro de História da universidade de Lisboa, 2011.
[vi] Padre Luís Cardoso, Dicionário Geográfico, Tomo I, pág. 314, Lisboa, MDCCXLVII.
[vii] “há cerca de trina anos”, diz ele.
[viii] Que se move por si própria
[ix] No Brasil, uma Senhora da Nazaré semovente, aparecida em 1700, deu origem ao Círio de Nossa Senhora da Nazaré de Belém do Pará que é, por muitos, considerado a maior manifestação religiosa católica do país, nela participando mais de 2 milhões de fiéis.
[x] V. Memória Paroquiais (1758),  Volume III, edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, 2011.
[xi] Lugar esse (Ataíja de Cima) que, diz o padre noutro lugar, tem cinquenta e três vizinhos (casas habitadas) e cento e setenta e sete pessoas.

sábado, 10 de março de 2018

Francisco Veríssimo

(um quase padre na Ataíja de Cima do Séc. XIX ou, as incongruências da memória)

(assento do primeiro casamento de Francisco Veríssimo)

Desde criança que me lembro de ouvir a história:

Francisco Veríssimo estava prestes a terminar os estudos para padre quando, numa mesma semana, lhe faleceram pai e mãe, em consequência do que abandonou os estudos.
Dizem uns que por desgosto, dizem outros que por necessidade de tomar conta da sua “Casa”.
Veio a casar uma primeira vez e, tendo viuvado, casou de novo, tinha então 72 anos e a mulher 25.
Deste segundo casamento nasceram dois filhos e faleceram, ambos os cônjuges, com a idade de 98 anos.

A última vez que ouvi a história, de boca autorizada, foi ao seu neto João Veríssimo que para tanto o interpelei, não muito antes do seu falecimento ocorrido em 2013.
Nessa conversa o ti João Veríssimo confirmou a história, ponto por ponto, tal como sempre a ouvi e acima transcrevo.

O assento do óbito de Francisco Veríssimo, ocorrido em 11.11.1894, diz que ele faleceu no estado de casado com Joaquina Coelho, sendo filho de Veríssimo Amado e de Ana Lopes e tendo a idade de 98 anos, o que parece confirmar a tradição.


Mas, este é um dos casos em que não só a memória não é confirmada pelos factos, como se verifica que apenas um documento não chega para certificar a verdade.
É o que, adiante, se verá.

Os factos históricos comprovados são os seguintes:

Veríssimo Amado, lavrador, filho de Manuel Amado Rebelo e de Luísa Pereira, já era casado com Ana Maria em 1787, quando foram pais de João, baptizado em 30 de Maio desse ano. Podemos, assim, admitir que o Veríssimo Amado terá nascido cerca de trinta anos antes, o que nos leva para os anos de 1755 a 1760, seja, a época do terramoto.

O apelido Amado já existia na Ataíja desde há mais de cento e cinquenta anos antes e aí chegara vindo de Aljubarrota, através de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, este, descendente de D. João II, fidalgo com Carta de Brasão de Armas de 17.06.1545.
Nos cerca de noventa anos que vão de 1721 até, 1807, vésperas das Invasões Francesas, o apelido Amado aparece-nos sempre intimamente ligado às elites locais[i].
De facto, nesse período, encontramos José Gomes Anes Amado de Azambuja, nascido em Aljubarrota, fidalgo de Cota de Armas, por Carta de 5.10.1721; Joaquim de Sousa Amado, Capitão de Ordenanças da Vila de Aljubarrota, por Carta patente de 24.10.1785; José Tavares Amado e Azambuja, nomeado capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota em 21-04-1790 (por morte do Capitão Veríssimo de Sousa Henriques) e, em 1804 e 1807, há notícias de um alferes José Tavares ou José Tavares Amado, de Aljubarrota.

O nome próprio do nosso Veríssimo Amado, esse, bem que poderia ser uma homenagem ao mártir[ii] mas, é nossa convicção de que a razão estará mais próxima, já que o vamos encontrar em Veríssimo de Sousa Henriques, capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota, falecido, como já vimos, antes de 21.04.1790.

Talvez não seja, assim, demasiado temerário pensar que o Manuel Amado Rebelo pertencia à mesma família dos demais Amados que, naquela época, encontramos em Aljubarrota desempenhando importantes cargos e que dessa importância social resultaram as relações que terão levado o Capitão Veríssimo de Sousa Henriques a apadrinhar a criança que tomou o nome de Veríssimo Amado.[iii]

Consultando os assentos de baptismo, da freguesia de São Vicente de Aljubarrota, encontram-se registos de Veríssimo Amado ter tido 5 filhos: João, nascido em 1787; Joaquim, nascido em 1793; Maria, nascida em 1796; Luís, nascido em 1799 e Francisco, nascido em 1806.
Destes, por enquanto e para além do Francisco que é objecto deste texto, apenas sabemos que o Joaquim viveu até aos 67 anos, vindo a falecer em 21.12.1860, no estado de viúvo de Joaquina Marques e não teve filhos.
Parece ter havido uma sexta filha, Joaquina, de que não encontrei o assento de baptismo mas, encontrei o assento de casamento com Luís Dias (em 5.11.1826) e os assentos de baptismo (em 1827, 1830 e 1842) de três filhos seus e onde é identificada como Joaquina Mónica ou Joaquina Veríssimo, filha de Veríssimo Amado e de Ana Maria.

Sabemos, assim, que o Francisco Veríssimo era o mais novo dos filhos de Veríssimo Amado, lavrador e de Ana Maria, também dita Ana Lopes ou Ana Vicente e neto paterno de Manuel Amado, ou Manuel Amado Rebelo, lavrador, da Ataíja de Cima e Luísa Pereira, esta, dos Casais de Santa Teresa onde estes avós paternos moravam e neto materno de Vicente Coelho, lavrador e de Maria Francisca, ambos da Ataíja de Cima, onde moravam.

Sabemos que o Francisco Veríssimo se casou duas vezes :
Uma primeira vez, em 25 de Novembro de 1849, com Rosa Coelho, a qual faleceu em 10-11-1860, com a idade de 53 anos e que era filha de João Coelho e Sebastiana Bernardo.
Consequentemente, trata-se da mesma Rosa, nascida nos Casais de Santa Teresa em 01-11-1807, filha de João Coelho, dos Casais de Santa Teresa e de Sebastiana Bernarda, da Ataíja de Cima, neta paterna de José Coelho da Cabeça dos Casais de Santa Teresa e de Mariana de Sousa da Ataíja de Cima e materna de Bernardo João e Maria Vicente, ambos da Ataíja de Cima.

Deste primeiro casamento não consta que tenha havido filhos.

Em segundas núpcias dele, após seis anos de viuvez, em 30-11-1866, diz-nos o respectivo assento de casamento, o Francisco Veríssimo, então com 60 anos de idade, viúvo de Rosa Coelho ligou-se a Joaquina da Costa, solteira, de 22 anos de idade, filha de Joaquim Coelho e de Maria da Costa, esta natural de Lisboa, neta paterna de Francisco Coelho, lavrador e de Rosa Vicente e materna de António da Costa, proprietário, natural de Asseiceira, Tomar e de Luísa Maria, da Ataíja de Cima.
Este assento, como verificamos, dá o Francisco Veríssimo como tendo, então, a idade de 60 anos ou seja, confirma que ele nasceu em 1806.

De acordo com o respectivo assento de óbito, em 11.11.1894, faleceu o “…Francisco Veríssimo, casado com Joaquina Coelho, trabalhador, da idade de noventa e oito anos …”
Mas, se como vimos e parece certo, o Francisco Veríssimo nasceu em 1806, então, diferentemente do que dizem o assento e a tradição, faleceu com a idade de 88 anos e não de noventa e oito anos, .

Mas, a história que a tradição oral conservou tem outras incongruências já que, de acordo com os respectivos assentos:

Em 18-07-1832 faleceu Veríssimo Amado, casado com Ana Maria.
Em 17-01-1845 faleceu Ana Lopes, viúva de Veríssimo Amado.
Ou seja, diferentemente da tradição, o pai e a mãe do Francisco Veríssimo não morreram na mesma semana, antes, com treze anos de diferença.

Parece, pois, poder concluir-se que a história de Francisco Veríssimo se terá passado de modo algo diferente:

Francisco Veríssimo, filho de Veríssimo Amado e de Ana Maria, ou Ana Lopes, andava a estudar para padre e, em 1832 quando tinha 26 anos de idade e esses estudos estavam quase concluídos, faleceu o seu pai.

Terá sido por isso e por essa altura que, levado pela tristeza e o desgosto, como diz a tradição ou, qualquer outra razão mais prosaica,abandonou os estudos e regressou à Ataíja de Cima onde, seguindo a tradição familiar, se tornou agricultor.
A hipótese de ser movido pela necessidade de tomar conta da “Casa” agrícola também precisa de melhores argumentos já que, nesse tempo, estaria na casa, ainda solteiro, o seu irmão Joaquim, então com cerca de trinta e nove anos de idade. Porque razão não tomou este o encargo? Tanto mais que a destinação de um filho a Padre, pressupunha  que a direcção da casa agrícola estava destinada a outro, ou outros dos irmãos. Para intentar resolver melhor estas dúvidas precisávamos de conhecer a situação concreta de cada um deles. 

Seja como for, o que os registos paroquiais mostram é que o Francisco Veríssimo casou pela primeira vez com Rosa Coelho, ou Rosa Vicente, nascida nos Casais de Santa Teresa, a qual veio a falecer com a idade de 53 anos, em 1860.
O casamento foi celebrado, sob licença do Vigário paroquial, o ataijense Luis João de Sousa, pelo Reverendo Rufino José da Fonseca, da Vila, na capela de Nossa Senhora da Graça, da Ataíja de Cima, em 25 de Novembro de 1849 tinha então o Francisco a idade de 43 anos e a noiva a idade de 42 anos.
Não se conhecem filhos deste casamento.

Na data em que se realizou este primeiro casamento do Francisco Veríssimo, já o seu pai havia falecido há dezassete anos e a mãe há quase cinco anos.

Após 6 anos de viuvez, em 1866, o Francisco Veríssimo, então com a idade de 60 anos casou, em segundas núpcias dele, com Joaquina da Costa ou Joaquina Coelho, solteira de 22 anos de idade.

Deste casamento nasceram, pelo menos, dois filhos:
- José, falecido em 15.9.1883, com 14 anos de idade;
- João o qual veio a casar com Maria Ribeiro, dos Casais de Santa Teresa, filha de Joaquim d'Horta Moura e de Maria Ribeira e foram pais de, pelo menos, quatro filhos:
- Maria nascida em 1906;
- Teresa (Teresa Ribeiro), falecida solteira nos anos de 1960, tendo então 50 e alguns anos de idade;
- José;
- João, este falecido muito recentemente, em 2013.
Os dois últimos deixaram descendência.

A sua mulher, Joaquina da Costa, ou Joaquina Coelho essa, talvez tenha falecido com a idade de 98 anos, (portanto, cerca de 1942) como diz a tradição, já que o ti’João Veríssimo me contava que faleceu quando ele era jovem.


Duas notas, para terminar:

A casa, no início da Rua das Hortas, onde terá vivido Veríssimo Amado e seguramente viveram Francisco Veríssimo, o seu filho e o seu neto e, agora, vive um bisneto e é, sem dúvida uma das mais antigas casas da Ataíja de Cima é, talvez, a mesma onde a partir de meados do Séc. XVII, já viveram os seus antepassados Manuel Coelho e sua mulher Antónia Amado, esta, filha de António Amado, o Moço, filho de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, fidalgo da Casa Real, filho de Brites Anes Baracho, filha de Brites Anes de Santarém, filha de Brites Anes, a Boa Dona e do Senhor Dom João II, Rei de Portugal.

Desconheço as razões que terão levado o Francisco Veríssimo a abandonar o apelido familiar Amado e a adoptar como apelido o nome próprio do pai (como era prática comum entre os camponeses[iv]), tanto mais que o apelido Amado, cuja ascendência conduzia directamente ao Senhor Dom João II, tinha notável peso na sociedade local no Antigo Regime e desse peso haviam de beneficiar, também, ainda que menos intensamente, aqueles ramos da família que se tinham tornados lavradores. 
Facto é que o falecimento de Veríssimo Amado e o presumível abandono do Seminário pelo Francisco Veríssimo acontecem em pleno fim de regime, quando decorre o cerco do Porto, durante a guerra civil entre Miguelistas e Liberais e, talvez estes acontecimentos políticos não sejam alheios ao abandono do velho apelido Amado e ao nascimento do novo apelido Veríssimo.
Certo é que quando morre, em 1894, já não é um Amado, nem sequer um lavrador. Apenas, a acreditar no assento de óbito, Francisco Veríssimo, trabalhador.


Nota: Este texto foi publicado, inicialmente, neste blog em 31 de Outubro de 2014. É agora republicado (10-03-2018), actualizado com novos elementos relativos ao primeiro casamento do Francisco Veríssimo.


[i] Ver, neste blog, o texto Capitães de Aljubarrota.
[ii] Segundo a tradição São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia ou, simplesmente, Veríssimo. Máxima e Júlia, os Mártires de Lisboa, alcançaram a santidade pelo martírio no dia 1 de outubro do ano de 303 ou 304, por ocasião de uma perseguição aos cristãos pelo Imperador romano Diocleciano (compare-se com o que, neste blog, a propósito de São Vicente, dissemos no texto Padre Fábio Bernardino - Uma Iconografia.
[iii] Tenha-se presente que, naquela época, as crianças eram baptizadas, em regra, apenas com um nome próprio. O apelido, esse, só o passavam a usar em adulto (esta é uma matéria que será desenvolvida num outro texto).
[iv] Veja-se, neste blog, o texto ""Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910"

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Substituição do Pároco

Conforme foi publicado hoje, dia 24-07-2017, no site da Diocese de Leiria-Fátima:

Pároco de São Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres, em Aljubarrota
O Bispo diocesano nomeou Pároco de São Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres, em Aljubarrota, o Revº Padre Dr. Adelino Filipe Guarda, que substitui no cargo o Revº Padre Ramiro Pereira Portela, que foi dispensado das funções que exercia por motivos de idade e de estado de saúde.
O Senhor D. António Marto agradece reconhecidamente ao P. Ramiro Portela o bom serviço que prestou com toda a dedicação, durante 50 anos, nas referidas paróquias e agradece ao P. Adelino Guarda a disponibilidade para aceitar a missão que agora lhe é confiada.
Leiria, 24 de julho de 2017.
Vítor Coutinho, Chefe de Gabinete do Bispo Diocesano
Com esta decisão do Bispo diocesano é toda uma era que termina em Aljubarrota e, assim, na Ataíja de Cima, cuja maioria dos habitantes nunca conheceu outro pároco que não o Sr. Padre Ramiro.

Natural de Meirinhas, Pombal, o Sr. Padre Ramiro chegou a Aljubarrota, há mais de cinquenta anos, para paroquiar São Vicente, em substituição de um outro padre carismático, o Sr. Padre José Casimiro, acabando por também ter a seu cargo a paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres. 
Tendo entrado no seminário muito jovem, como era normal naquele tempo, o Padre Ramiro é, também por isso, um representante de outros tempos, bem diferentes dos actuais em que já não há seminários menores. 

Homem de acção, prático e simples, às vezes controverso, o Padre Ramiro soube ganhar a consideração dos seus paroquianos e foi capaz de manter o seu rebanho unido, podendo orgulhar-se de em anos recentes, ter visto serem ordenados padres dois dos seus jovens paroquianos. De caminho, mostrou uma larga apetências pelas obras físicas, sendo o impulsionador de importantes obras de conservação e remodelação na quase totalidade das capelas e igrejas das suas paróquias e, até, a construção de raiz de, pelo menos, uma nova capela e, por último e mais importante, a criação do interessante museu que é o Núcleo de Arte Sacra, na Igreja de São Vicente.
É este Padre Ramiro que, agora, é substituído por um padre com um perfil profundamente diferente, como se adivinha do respectivo curriculum, também publicado no site da Diocese de Leiria-Fátima aquando da sua nomeação como director do Colégio de São Miguel, em 2012:

O Revº. Padre Dr. Adelino Filipe Guarda foi nomeado, pelo Senhor Bispo de Leiria-Fátima, Diretor do Colégio de São Miguel, em Fátima.
Esta instituição de ensino, da Diocese de Leiria-Fátima, é frequentada por 1150 alunos e conta com a colaboração de cerca de 130 funcionários (docentes e não docentes).
O P. Adelino Guarda, de 49 anos de idade, é natural da Boavista (Leiria) e é padre desta Diocese há 23 anos.
Atualmente desempenha as funções de Diretor do Centro de Formação e Cultura, Diretor do Gabinete de Apoio aos Serviços Pastorais, Diretor do Serviço de Apoio ao Clero, Coordenador do Serviço para o Diaconado Permanente e Assistente Religioso da Escola de Formação Social Rural de Leiria. É também membro do Colégio de Consultores e Secretário do Conselho Presbiteral. Leciona diversas disciplinas de Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra e no Centro de Formação e Cultu-ra. É ainda docente na Escola de Formação Social Rural de Leiria.
Antes de iniciar os estudos teológicos, terminou o 1º ano do curso de Direito, na Universidade de Co-imbra. Fez licenciatura em Teologia, na Universidade Católica Portuguesa, e frequentou o Mestrado em Teologia Sistemática. Concluiu ainda Licenciatura Canónica / Mestrado em Teologia Pastoral, na Ponti-fícia Universidade Lateranense, em Roma, onde fez também o curriculum para doutoramento. Na sua investigação académica dedicou especial atenção ao acompanhamento em situações de luto e ao acon-selhamento em cuidados de saúde, tendo sido já responsável pelo serviço diocesano de pastoral da saúde.
Há 15 anos que se dedica ao ensino e à formação, a diversos níveis (secundário e superior) e em dife-rentes âmbitos (teológico, pastoral, profissional, cuidados de saúde). Foi também professor no Seminá-rio de Leiria.
Durante 13 anos exerceu o ministério sacerdotal no serviço paroquial, foi assistente diocesano da Ação Católica Rural e do Movimento Católico de Estudantes, foi capelão militar e formador de candidatos ao sacerdócio no Seminário de Coimbra. No Tribunal Eclesiástico da Diocese foi Defensor do Vínculo e Promotor da Justiça.
Tem proferido diversas conferências sobre temas da sua área de especialidade em cursos e seminários. Para além das tarefas oficiais, é solicitado frequentemente para orientar retiros em várias dioceses, so-bretudo a sacerdotes e seminaristas, tendo-se dedicado também ao acompanhamento do clero.
O Padre Dr. Adelino Guarda substitui no cargo o Padre Dr. Joaquim Rodrigues Ventura, que foi Diretor desta instituição desde a sua fundação, em 1962.
O Senhor D. António Marto agradece, em nome da Diocese, ao P. Joaquim Ventura o serviço dedicado que prestou ao Colégio de S. Miguel ao longo de 50 anos, e ao P. Adelino Guarda a disponibilidade para acolher esta nomeação.
Leiria, 10 de maio de 2012.
Vítor Coutinho, Chefe de Gabinete do Bispo Diocesano

O Srs. Padres Ramiro Pereira Portela (à esquerda) e Dr. Adelino Filipe Guarda,
párocos cessante e nomeado das paróquias de Aljubarrota (foto do site da Diocese de Leiria-Fátima)
Nota: O Padre Dr. Adelino Guarda tomou posse no domingo dia 24 de Setembro de 2017

domingo, 4 de junho de 2017

Nossa Senhora dos Enfermos


. 
“A romaria mais original da minha terra é a da Senhora dos Enfermos, na Ataíja.”

Assim começava M. Vieira Natividade (MVN) o capítulo dedicado às romarias, in O Povo da Minha Terra, Notas e Registos de Etnografia Alcobacense, Lisboa, 1917. (1), (2)
O ilustre estudioso alcobacense (nascido, aliás, no Casal do Rei, a escassas centenas de metros do local da romaria) descreve, depois, a festa como era naquele tempo e eu ainda conheci sem grandes alterações, em meados do Séc. XX.

Celebrada no Domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, a Romaria da Senhora dos Enfermos era uma verdadeira festa das colheitas, uma celebração agrícola com origens pré-cristãs, uma festa alegre, momento de estrear novas roupas, uma festa cronológica (MVN) que servia para marcar o tempo.
Apesar da invocação, não era exactamente um festejo mariano. Antes, pentecostal, com rituais que a aproximavam das festas do Espírito Santo. De notável, por comparação com as festas das demais aldeias da região, tinha o círio, abundância de fogaças e os favores da pequena burguesia alcobacence que nesse dia ia ver de perto os serranos, fazer pic-nics nos arvoredos que circundavam o arraial e, talvez, comprar no leilão alguma fogaça.(3)
Este costume, manteve-se, aliás, por muito tempo e, durante anos, a Banda do Mestre Ernesto era animador imprescindível do arraial.(4)
A grande quantidade de gente, alguns divertimentos que, como o jogo do frango, hoje seriam, simplesmente, proibidos pela sua barbaridade, o vinho que corria em abundância e os bailes, propiciavam frequentes desacatos. Por isso, a festa de Nossa Senhora dos Enfermos era, naquele tempo, a única com policiamento permanente.
Foi aí que me lembro de, pela primeira vez, ter visto de perto a GNR em acção de restabelecimento da ordem pública, utilizando como improvisada prisão a casa da eira do Chico Airoso.
Foi na Senhora dos Enfermos que tirei, acompanhado dos meus avós, fará agora sessenta anos, o meu primeiro retrato, no fotógrafo à la minuta, coisa que também só ali havia.(4)

Além de M. Vieira Natividade, também José Diogo Ribeiro, in Turquel Folclórico (1928), dedicou atenção a esta romaria, registando, designadamente, os seguintes versos que o círio dedicava à santa:

Ó Senhora dos Enfermos
Aqui vimos, aqui estemos
Pro ano, se formos vivos,
Ainda cá tornaremos.

Ó Senhora dos enfermos
Cá vos vimos visitar.
Pro ano, se formos vivos,
Havemos de cá tornar

E, o grande etno-musicólogo Michel Giacometti, (5) registou, pelo menos, duas peças musicais tocadas no arraial: uma Música de Arraial e um Fandango.

“Dança-se o fandango, única dança tradicional que se conserva como digno representante dos mais arcaicos batuques”, dizia MVN.
E eu, lembro-me de a minha tia Joaquina Lourença, já idosa, descrever com alegria como tinha dançado o fandango na Senhora dos Enfermos. Ela descalça e o pai equilibrando uma garrafa de vinho na cabeça.

A romaria da Senhora dos Enfermos “É a única que conserva notas que mais interessam a etnografia”, (MVN), o que significa que, a generalidade das romarias da região, já não eram, em 1917, como teriam sido antes.

A mudança radical das condições e estilos de vida nesta zona da borda da serra, onde a economia não é agora agrária, teve como resultado, eu diria que natural, a perda de importância desta romaria que, nos últimos anos, se não realizou.

Tal como, algures entre os Séc.s XVIII e XIX, São Sebastião, o patrono da Capela, perdeu devoção popular e foi substituído por Nossa Senhora dos Enfermos, (6) também estes povos, que já não são camponeses e, por isso, não festejam as colheitas, têm novas devoções.

 (Foto de "O Povo da Minha Terra")



ADENDA:


O texto acima foi publicado neste blog em 29-05-2012 e, em 23-06-2013, foi quase integralmente reproduzido no blog JERO, do jornalista alcobacense José Eduardo Oliveira.

(conf. http://jeroalcoa.blogspot.pt/2013/06/m-450-memorias-das-festas-da-regiao-de.html), que, no final, acrescentou a devida nota: "Relativamente à festa de Nossa Senhora dos Enfermos grande parte do texto reproduzido é da autoria de José Quitério e foi publicado em 29 de Maio de 2012 no seu blog "Ataíja de Cima".


Mas, não é essa a razão desta Adenda.
O facto é que hoje é dia 4-6-2017, Domingo de Pentecostes. 
Haverá, por isso na Ataíja de Baixo, alguma cerimónia em honra de Nossa Senhora dos Enfermos. 
O quê, não sabemos que estamos longe e o google é, a propósito, totalmente omisso. 
Como não o havia de ser quando a economia local é, se possível, ainda menos agrícola do que era há cinco anos e quando a própria Igreja Católica, cada vez mais mariana e menos trinitária, relegou o culto do Espírito Santo para o panteão das curiosidades e, estou convicto, hoje em dia uma boa parte dos fiéis nem sequer saberá o que é o Pentecostes?


Podemos, assim, dizer que sabemos porque e quando morreu a romaria de Nossa Senhora dos Enfermos da Ataíja de Baixo e, não se podendo dizer quando nasceu, pode afirmar-se com segurança que não era muito antiga, ao contrário do que se diz no site da Junta de Freguesia de Aljubarrota.
De facto, há várias devoções e festas na freguesia de que há notícia bem mais antiga. 


A devoção a Nossa Senhora dos Enfermos não surgiu aqui antes da segunda metade do século XVIII, já que ainda em 1758 (ver Nota (6)) não havia notícia da sua presença na Ataíja de Baixo e todos os autores que antes disso se referiram à aldeia apenas assinalam a existência de uma ermida dedicada a São Sebastião. Como é o caso, por exemplo, do Padre Cardoso que, no seu Dicionário Geográfico, Tomo I, de 1747 diz sobre a Ataíja de Baixo que "tem vinte e cinco vizinhos e uma Ermida de São Sebastião, pouco distante do povo".



O cartaz de 2015, mostra como já nesse ano nos encontrávamos 
bem longe das antigas festas em honra de N. Sª. dos Enfermos


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NOTAS:
(       (1)    Reeditado (fac-simile), em 2000, em Alcobaça, por Rebate, movimento de cidadania.
(     (2)    O livro contém numerosas ilustrações, de grande qualidade e interesse etnográfico, da autoria de Alberto Souza.
(      (3)    Fogaça, oferenda ao santo, em pagamento de promessa, no dia da festa anual. Em tempos idos, durante o Antigo Regime, fogaça era um imposto fixo que cada casa (fogo) pagava ao senhorio da terra.
(      (4)    Festas e Romarias do Concelho de Alcobaça, edição da Câmara Municipal de Alcobaça, 2005.
(      (5)    Michel Giacometti, Cancioneiro Popular Português, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981.
(     (6)    Em 1758, nas respostas ao inquérito pombalino, as chamadas Memórias Paroquiais, o Cura de São Vicente não faz qualquer menção à Senhora dos Enfermos, dizendo apenas que na Ataíja de Baixo se festejava  São Sebastião.
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terça-feira, 11 de abril de 2017

Quaresma



No passado sábado, dia 8, também na Ataíja se assinalou condignamente o tempo Quaresmal que atravessamos, encenando um excerto da vida de Cristo, mais exactamente o período da Semana Santa que vai do Domingo de Ramos até ao beijo de Judas e à prisão de Jesus.

O acto, modestamente referido, no pequeno cartaz de divulgação, como uma “Representação de uma Passagem Bíblica (feita pelos pais e crianças da catequese)”, foi, na verdade uma iniciativa das catequistas que lograram entusiasmar e mobilizar crianças e pais e foram capazes de construir cenários bastante simples mas rigorosamente adequados e um texto muito escorreito (que, apenas por ser demasiado longo aqui se não transcreve), o qual foi muito bem lido, com voz clara e bem ritmada, pelo Luís Vigário (Sabino), enquanto os demais pais representaram Cristo e os Apóstolos, Juízes do Sinédrio e guardas e as crianças e as mães (e algumas avós) foram o povo, tudo servido por uma encenação discreta, no entanto, elaborada e moderna.

Tudo foi seguido com muita atenção e agrado pela numerosa assistência que acorreu ao Salão Cultural Ataíjense e, no final, prolongou o convívio em redor das filhós e do café das velhas.

A Cena 1, decorreu logo na entrada da sala e no caminho até o palco e representou a entrada triunfal de Jesus e os seus apóstolos em Jerusalém, no Domingo de Ramos, acompanhados pelos festejos do povo que cantava Hossanas, agitando ramos de palmeira e lançando flores e as próprias capas no caminho por onde o cortejo havia de passar.
A Cena 2, a mais longa, passou-se no palco e constou, na verdade, de 4 quadros: a preparação da mesa para a ceia, o lava-pés, a sagração do pão e do vinho e num quadro final (que teve lugar num palco secundário), a negociação da traição de Judas.
A Cena 3, igualmente passada num outro palco secundário, retratou a ida de Jesus e dos seus Apóstolos para o Jardim de Getsémani, ou Jardim das Oliveiras onde Judas aparece, acompanhando os Doutores das Leis e os soldados, efectiva a traição e Jesus é preso.


O povo aguarda a chegada de Jesus e seus Apóstolos 


Entrada de Jesus em Jerusalém


A Ceia


O Lava-pés


Uma assistência interessada e atenta





Nota:
Na ausência de uma ficha técnica, não nos é possível indicar todos os que contribuíram para a realização do “espectáculo”, muito menos, indicar os respectivos papéis ou tarefas.

sábado, 30 de agosto de 2014

Padre Fábio Bernardino - Uma Iconografia

  
Homem atento aos tempos que correm, o Padre Fábio Bernardino convidou os amigos para as cerimónias da Ordenação Diaconal, da Ordenação Sacerdotal e da Missa Nova também através do Facebook, criando “eventos” e ilustrando os convites para as cerimónias (usando como fotos de capa dos respectivos eventos, como se diz no linguajar facebookiano) com a reprodução de pinturas de temática religiosa católica como, aliás, era mister.

As três imagens que assinalaram outros tantos momentos importantes da sua vida religiosa, constituem como que uma iconografia pessoal e ilustram um coerente e permanente desenvolvimento do percurso religioso do jovem padre, nosso conterrâneo, desde a religiosidade inicial, fruto da vivência familiar e estreitamente ligada à comunidade de origem, até à actualidade de uma religiosidade adulta, consciente e profunda que se aventura pelos complexos (ao menos para os leigos) caminhos de exigente Teologia.

Vale a pena, por isso, tentar conhecer e compreender melhor as pinturas em causa.


Para a sua Ordenação Diaconal, ocorrida em 24 de Novembro de 2013, o Fábio Bernardino escolheu uma reprodução da “Glorificação de São Vicente”, ou "Aparição de Cristo a São Vicente", pintura a óleo, sobre tela, datada de 1781, da autoria do pintor português Pedro Alexandrino de Carvalho e existente na Capela de São Vicente da Sé Catedral de Santa Maria Maior (Sé de Lisboa)[i].

Glorificação de São Vicente.
Cristo parece ordenar a São Vicente para se erguer, enquanto ostenta na mão esquerda a palma do martírio que, sem dúvida, irá entregar ao Santo. Atrás deste, um anjo prepara-se para lhe colocar uma coroa de rosas.

Pedro Alexandrino de Carvalho foi o mais importante pintor português da segunda metade do Séc. XVIII e, dele, é conhecida uma vasta obra que pode ser admirada, sobretudo, em numerosas igrejas da região de Lisboa.

São Vicente é o santo patrono da paróquia de São Vicente de Aljubarrota onde nasceu o Padre Fábio Bernardino e essa é, certamente, a razão da escolha.
São Vicente de Saragoça ou São Vicente Mártir, viveu no início do Séc. IV e, no tempo do Imperador Diocleciano, sofreu o martírio em Saragoça, Espanha, às ordens do delegado imperial Daciano que, nesse tempo, moveu uma cerrada perseguição aos cristãos da Península Ibérica.
Vicente recusou oferecer sacrifícios aos deuses romanos, pelo que foi martirizado até à morte que terá ocorrido no ano de 304.
É representado umas vezes com palma e evangeliário, outras com uma barca e um ou dois corvos porque, segundo a lenda, quando por ordem de D. Afonso Henriques se traziam as suas relíquias do Cabo de São Vicente para Lisboa, dois corvos nunca abandonaram a barca que o transportou. Daí, que o brasão da cidade de Lisboa (de que São Vicente é padroeiro) seja uma barca com dois corvos.


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Para a sua Ordenação Sacerdotal que teve lugar no passado dia 11 de Maio, na Sé Catedral de Leiria, escolheu o diácono Fábio Bernardino uma reprodução da Última Ceia da autoria de Juan de Juanes, pintor espanhol do Séc. XVI (1523-1579).
As razões da escolha deste tema parecem-me evidentes: O encargo supremo do sacerdote é dizer missa e, esta, é, antes do mais, uma representação ritual da Última Ceia.

A obra, um óleo sobre madeira com as dimensões de 116x191cm, foi pintada cerca de 1560,[ii] tal como um conjunto de pinturas sobre a vida do patrono, para a Igreja de Santo Estêvão, em Valência e, actualmente, faz parte do acervo do Museu do Prado, em Madrid.

Trata-se, de uma das mais conhecidas representações da Última Ceia, desde logo porque estampas emolduradas com reproduções deste quadro existiam em muitas casas portuguesas, inclusive na Ataíja de Cima, em meados do século passado.

A composição é, aparentemente, baseada na famosa obra que Leonardo da Vinci pintou, em 1498, no refeitório de Santa Maria delle Grazie, em Milão, embora o modelado das figuras e a cor, dizem os peritos, remetam para Rafael[iii].

Sobre a mesa, diante da figura de Cristo, vê-se o cálice, que, ainda hoje, se conserva na Catedral de Valência a que foi oferecido, em 1424, por Afonso V. 
O jarro e a bacia em primeiro plano aludem à primeira lavagem dos pés que, como se sabe, teve lugar antes da Última Ceia.
Todos os Apóstolos levam seu nome inscrito no nimbo[iv] que paira sobre as suas cabeças, excepto Judas Iscariotes (à direita, de costas) que não tem nimbo, estando o seu nome inscrito no banco onde se senta. Segundo a tradição tem barba e cabelo vermelho, veste de amarelo, cor simbólica da inveja e esconde dos seus colegas o saco do dinheiro da traição.[v]
  




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Também para convidar os amigos para A Missa Nova, celebrada em 18 de Maio de 2014, o Padre Fábio recorreu ao Facebook, desta vez escolhendo para “foto de capa” uma reprodução da Adoração do Cordeiro Místico, quadro que faz parte do políptico conhecido por Retábulo de Gand, uma obra de grandes dimensões (aberto, 350x461cm, fechado, 350x223cm), da autoria dos irmãos Hubert e Jan Van Eyck, pintado em 1432 e que se encontra na Catedral de São Bavão, em Gand, na actual Bélgica.

A Adoração do Cordeiro Místico é o tema central e o mais importante, quer em termos artísticos quer em termos teológicos, dos 26 quadros (14 visíveis quando o retábulo está aberto, outros 12 quando fechado) que constituem o Retábulo o qual, no seu conjunto, é unanimemente considerado uma das obras-primas da pintura ocidental[vi].
O Cordeiro Místico é o Agnus Dei, o Cordeiro de Deus ou seja, o próprio Jesus Cristo sacrificado para salvação da humanidade.

Agnus Dei, qui tollis pecatta mundi, miserere nobis.[vii]

A representação de Cristo como um cordeiro recorda o uso antigo de sacrificar animais em honra dos deuses. O sacrifício de Jesus Cristo, sendo o sacrifício maior, o maior acto de amor de Deus pelos homens, veio tornar desnecessários (absoletos), todos os demais sacrifícios.


Vejamos, então, o Retábulo:

Retábulo de Gand (fechado)
 
Em cima, da esquerda para a direita: Anjo da Anunciação[viii] e Profeta Zacarias (sobre o Anjo)[ix]; Janela com vista[x] e, sobre ela, a Sibila da Eritreia[xi]; Nicho com lavatório e, sobre ele, a Sibila de Cumas[xii]; Nossa Senhora da Anunciação[xiii] e, sobre ela, o Profeta Miqueias[xiv].
Em baixo, também da esquerda para a direita: Doador[xv]; São João Baptista; São João Evangelista, Mulher do doador[xvi].


Retábulo de Gand (aberto)
Em cima, da esquerda para a direita: Adão; Caim e Abel (sobre Adão); Anjos cantores; Virgem Maria; Cristo-Rei; São João Baptista; Anjos músicos; Eva; Morte de Abel (sobre Eva).
Em baixo, também da esquerda para a direita: Os justos Juízes; Os Cavaleiros de Cristo; A Adoração do Cordeiro Místico; Os Santos Eremitas; Os Peregrinos.[xvii]


Adoração do Cordeiro Místico
A composição pictórica da Adoração do Cordeiro Místico parece ser inspirada no Apocalipse de São João: 
Depois disto, vi uma multidão imensa, 
que ninguém podia contar,
de todas as nações, tribos, povos e línguas.
Estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro,
vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão.”







[i] Identificar esta pintura foi, para mim, trabalho árduo – ou seja, não conheço a Sé de Lisboa tão bem quanto devia - e, aliás, só conseguido com o precioso auxílio de Rui Almeida, do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja a quem, penhoradamente, agradecemos.
Aos interessados, informa-se que este serviço da Conferência Episcopal Portuguesa tem sede na Quinta do Cabeço, Porta D, 1885-076 Moscavide e os seguintes contactos: t. 218 855 481 | f. 218 855 461 | info@bensculturais.com, www.bensculturais.com / LOJA ONLINE /  Página do Facebook  
[iii] Rafael Sanzio ou, apenas, Rafael, foi um pintor italiano que viveu entre 1483 e 1520 e é, a par com Leonardo da Vinci e Miguel Ângelo, um dos grandes mestres da chamada Alta Renascença.
[iv] Nimbo, é círculo luminoso, auréola. No site do Museu do Prado (https://www.museodelprado.es) é possível ampliar a imagem até se conseguir ler com nitidez o nome de cada apóstolo, bem como apreciar, com grande pormenor, todos os aspectos do quadro.
[v] Para a descrição do quadro socorremo-nos de https://www.museodelprado.es (consultado em 5-8-2014).
[vi] Pode ver, com grande pormenor, explicação das personagens (em inglês) e qualidade gráfica, a reprodução da totalidade do Retábulo em Web Gallery of Art: http://www.wga.hu/index1.html, (consultado em 20-5-2014).
[vii] Cordeiro de Deus que tirais os pecados do Mundo, tende piedade de nós.
[viii] O Anjo da Anunciação foi, como sabemos, o Arcanjo São Gabriel.
[ix] Zacarias, um dos profetas menores, anunciou, repetidamente, a vinda do Messias.
[x] Este quadro, Janela com Vista e o seguinte, Nicho com Lavatório, são meramente funcionais servindo para completar o cenário da sala onde o Arcanjo Gabriel anuncia à Virgem a sua maternidade. A continuidade das vigas do tecto, transforma as molduras dos quatro quadros deste plano em molduras dos vidros de uma larga janela através da qual podemos contemplar toda a cena da Anunciação.
[xi] As sibilas eram figuras da mitologia greco-romana que se acreditavam terem poderes proféticos. A sibila da Eritreia era tida como tendo anunciado a vinda de Cristo).
[xii] Também tida como anunciadora da vinda de Cristo.
[xiii] Note-se sobre a sua cabeça, o Espírito Santo em forma de pomba.
[xiv] Um dos doze profetas menores, também anunciador da vinda do Messias.
[xv] Vijd Jacodus.
[xvi] Lysbette Borluut.
[xvii] Repare-se como, neste plano e quanto ao cenário, foi utilizada uma solução pictórica semelhante à que vimos acima (ver Nota [x]), para a cena da Anunciação. Também aqui, os cinco quadros partilham diferentes partes da mesma paisagem.