terça-feira, 5 de abril de 2011

Cântico das Almas Santas

Uma tradição da Quaresma



O Cântico das Almas Santas é uma das mais antigas e arreigadas tradições da religião popular.
Nas noites da Quaresma, em cada aldeia reúne-se um grupo de homens e mulheres (em alguns locais, pelo menos até há pouco tempo, apenas homens) que vão de porta em porta, iluminando o caminho com lanternas, entoando o cântico e pedindo esmola para mandar dizer missas pelas Almas do Purgatório.

Não parece possível confirmar a origem desta tradição que, segundo alguns, remonta à Idade Média, mas trata-se, o Cântico, de um conjunto de versos que, pelo menos na sua versão actual, aparenta ser de origem popular, encontrando-se, com pequenas variações, largamente difundido por todo o país.

Em todos os casos que consultámos, (Ataíja, naturalmente e Oliveirinha, Aveiro, Carção, Vimioso, Alqueidão da Serra, aqui bem perto de nós, Bemposta, Mogadouro e Olival, Gaia), muitos dos versos são exactamente iguais (apenas com as variações do falar local ou, muitas vezes, pequenas adulterações resultantes da sucessiva transmissão oral, de geração em geração). É o caso dos primeiros versos, os quais anunciam a razão do Cântico e do pedido da esmola:

À porta das Almas Santas
Bate Deus a toda a hora.
Almas Santas lhe perguntam:
O que quereis, meu Deus, agora?
Quero que venhas comigo
Para o Reino da Glória.
(Olival, Gaia)

Deus quer levar as Almas do Purgatório para o Céu mas elas não estão ainda purificadas. É preciso, então, rezar missas e para isso servem as esmolas.
Os que contribuírem, serão recompensados:

Dai a esmola, se poderes,
Se a dais com devoção;
Cá na terra tereis prémio,
Lá no Céu, a Salvação.
(Oliveirinha, Aveiro)

Em Trás-os-Montes introduzem-se por vezes alguns versos mais originais, por ex., a visão do Inferno por Santa Teresa, ou louvores a Deus com ressonâncias antigas, pré-cristãs:

Santa Teresa de Jesus,
Foi ao Inferno em Vida,
Ficou toda admirada,
De ver tanta gente perdida.
(Carção, Vimiosos)

O Santo Cristo de Outeiro,
Tem o galo no seu sino,
Cada vez que o galo canta,
Recorda o Verbo Divino
(Carção, Vimioso)

Em algumas regiões do país os mesmos ou idênticos Cantos decorrem na época dos Reis, numa ronda de cânticos de rua também chamada Janeiras. É o caso do “À Porta d'uma Alma Santa”, (Canto de peditório pelos Reis,) que Michel Giacometti recolheu em Santo Aleixo da Restauração, Beja :

À Porta (bis) d'uma Alma Santa
bate um Deus (bis) de hora em hora;
respondeu (bis) uma e disse:
- Meu Deus (bis) que buscais agora?
- Busco-te (bis) a ti, alma santa,
cá para (bis) o reino da Glória.

Na Ataíja de Cima, o Cântico das Almas Santas, durante a Quaresma, é como segue:

À porta das Almas Santas
Bate Deus a toda a hora
Almas Santas lhes pergunte
Que quereis meu Deus agora

Quero que venhas comigo
Gozar da eterna Glória

Muito nos pesa Senhor
Muito nos deve pesar
Por não estarmos preparados
Para Convosco andar

Já o Sacrário está aberto
Já o Senhor lá está dentro
Já podemos adorar
O Divino Sacramento

O Divino Sacramento
Companheiro e Senhor
Acompanhai nossas Almas
Quando deste mundo forem

Quando deste mundo forem
Quando formos à partida
A Virgem da Piedade
Á devoção nos obriga

Cantemos às Almas Santas
Cantemos com alegria

Atormentados de dor
Em continuo padecendo
Assim estão as Almas Santas
No Purgatório ardendo

Óh homens, mulheres, meninos
Deste povo auditório
Dai as esmolas se puderes
Às Almas do Purgatório

Dai as esmolas se puderes
Se com devoção a dais
Que lá tendes vossas mães
Vossos filhos, vossos pais

Como Lázaro vos pede
Que lhe não dês as fazendas
Que lhe dês as migalhinhas
Que crescem das vossas mesas

Esses bens que possuis
Reparti em vossa vida
Lá achareis na Glória
Quando fordes á partida

Das Almas Santas benditas
È um bem que nos lembremos
Nós havemos de morrer
Sabe o Deus para onde iremos

Ó Almas Santas benditas
Pedi a nosso Senhor
Que esta nossa oração
Seja em vosso louvor

Em vosso louvor será
E no da Virgem Maria
A Virgem Nossa Senhora
Vem na nossa companhia

Pelas Almas Pai Nosso
(reza-se o Pai Nosso)
Por elas Avé-Maria
(reza-se a Avé-Maria)

As esmolas que vós destes
Não julgueis que as comemos
São para missas pelas Almas
Devoção que nós trazemos

Vós que destes a esmola
Deste-la com devoção
Das Almas tereis o prémio
Do Senhor a salvação

(estas duas quadras são cantadas junto à
Igreja, no fim do percurso)
Deus te salve óh Terra Santa
Casa da Divina Graça
Onde está o Cálice Bento
Mais a Hóstia consagrada

Ajoelhemos por terra
Já não somos os primeiros
Acompanhai nossas Almas
Jesus Cristo verdadeiro



(Com agradecimentos à Bé e ao António Matias)

As versões do Cântico das Almas Santas que se cantam em Alqueidão da Serra, Bemposta, Olival, Oliveirinha e Carção, podem ser vistas em:

http://www.alqueydam.com/arquivo/222
http://www.bemposta.net/geografiahumana/tradicoescultura/patcultural.htm#5
http://imaculadaconceicao-olival.blogspot.com/2008/03/canto-das-almas.html
http://www.jfoliveirinha.pt/almas.html
http://almocreve.blogs.sapo.pt/21345.html

O essencial das recolhas de Michel Giacometti de música popular portuguesa, consta de “Cancioneiro Popular Português”, Michel Giacometti, com a colaboração de Fernando Lopes Graça, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981.



Cantar as Almas Santas em Carção, Vimioso, Trás-os-Montes
(in: http://almocreve.blogs.sapo.pt/21345.html)



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