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quarta-feira, 19 de abril de 2017

As Tapadas - património cisterciense esquecido




Nas Tapadas, os frades plantaram laranjeiras, dizia a minha avó.

Fig. 1


Vistas da Ataíja, são três longas linhas de pedra (agora quase ocultas no matagal), correndo a serra na horizontal, como traços de giz num quadro negro, servindo de remate ao olival do Santíssimo, ali, na parte inferior da encosta, à cota dos 250m, a partir de onde o solo se inclina demasiado para permitir qualquer cultivo.

Fig. 2
Perfil da Serra dos Candeeiros na zona do Olival dos Frades da Ataíja de Cima
(elaboração própria com base em Mapbox e OpenStreetMap):


Nessa transição de declives, por um momento, o solo é menos inclinado do que ao redor. Por isso havia quem, em vez de Tapadas, chamasse ao lugar as Covadas.

Nos anos de 1950 e 1960, o Ti José Ribeiro ainda cultivava a sua parte das Tapadas. Entretanto, as coisas mudaram e hoje o mar de oliveiras que bordejava todo o poente da Serra dos Candeeiros foi substituído, quase totalmente, por pinheiros e eucaliptos e, nas margens do IC2, por uma fila quase contínua de fábricas, oficinas, restaurantes e armazéns diversos. As Tapadas, essas, já quase se não veem, seja cá de longe, seja mesmo lá ao pé, submersas que estão em matos e silvas e moitas e em carrasqueiras impenetráveis, bem mais altas que um homem.

Numa visita recente foi, apesar de tudo, possível perceber o essencial da estrutura, como se mostra no esboço de planta do conjunto, tal como o pudemos observar (elaboração própria com base em Google Maps e observação no local):
Fig. 3


 
O muro interrompido que se vê à direita no desenho não faz parte da estrutura. Antes, indica o limite a montante da propriedade e serve de suporte a um carreiro conhecido por o caminho do guarda.
À esquerda do desenho, a jusante da estrutura, veem-se um pedaço de parede, com argamassa de barro (Fig. 4), incluindo o cunhal (Fig. 5) e um pedaço de muro, de construção idêntica (Fig. 6), correndo de montante para jusante (ESE/ONO) e aparentemente sem ligação com o anterior. Entre ambos, uma ligeira elevação do terreno revela-se uma escombreira onde são visíveis pequenos pedaços de telha de canudo (Fig. 7) e, muito perto, debaixo de uma carrasqueira (Fig. 8), mais restos de um muro, de características e orientação semelhantes ao antes referido.










As Tapadas ocupam uma extensa área, de mais de 2 hectares, e têm um comprimento de cerca de 360 metros. Os três muros longitudinais, são sensivelmente paralelos e afastados entre si de cerca de 30 metros. A estrutura fecha-se nos topos por muros cujas características não pudemos confirmar devido às dificuldades de acesso.
Em posição relativa que também não pudemos confirmar, pelo menos o espaço entre os muros médio e superior é interiormente seccionado por, pelo menos, um muro secundário. Na parte do muro superior que visitámos, observamos, ainda, a existência de duas aberturas, uma das quais se mostra, parcialmente, na foto abaixo.
Fig. 9


Os três muros principais, têm perfis diferentes, como se evidencia nos desenhos abaixo (elaboração própria).
Fig. 10


O muro de montante é o mais forte, com uma largura no topo (na zona que visitámos), variando entre 190 e 220 cm, a que acresce um socalco de 70 cm de largura e, considerando que, de jusante, a parede apresenta uma inclinação de cerca de 15%, a largura total na base atingirá os 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
O muro intermédio é mais estreito, com uma largura de 120 cm no topo, a que acrescem dois socalcos de 40cm cada, numa total de 200 cm. Ambas as faces são verticais. De montante mediu-se a altura de 200 cm e de jusante 150 cm até ao primeiro socalco, mais 80 cm até ao segundo socalco e outros 80 centímetros até ao topo, somando a altura total de 310 cm.
O terceiro muro, que fecha o conjunto a jusante, é o de dimensões e formas mais simples, sendo constituído por uma parede com 120 cm de largura e uma altura, idêntica em ambas as faces, de cerca de 200 cm.


Vista do muro superior, com o seu socalco:
Fig. 11



Muro intermédio com os seus socalcos
Fig. 12



Muro Inferior
Fig. 13
Muro inferior

No topo e fazendo parte da propriedade a que os frades chamaram olival do Santíssimo e por aqui era conhecido como Olival dos Frades, o qual vindo desde o caminho dos Arneiros, numa extensão de cerca de 2400 metros era, no início do Séc. XIX, com os seus cerca de 100 hectares e mais de 18.000 pés de oliveira, o maior olival da região, as Tapadas ainda hoje não passam despercebidas a um olhar atento que se lance sobre a serra, a partir da Ataíja, do Cadoiço, ou de Aljubarrota e seus arredores.

Trata-se, sem qualquer espécie de duvida de uma construção fradesca.

Apesar disso e do muito que tenho lido a propósito dos monges cistercienses de Alcobaça, nunca vi, que me lembre, qualquer referência escrita a esta estrutura monumental.

Da tradição popular, apenas se retém localmente essa ideia de que nas Tapadas os frades plantavam laranjeiras. E, está bem vivo quem, há mais de 50 anos lá andou a lavrar com os bois do ti Zé Ribeiro que ali terá semeado batatas. Nesse tempo, havia por lá uma figueira, mas não havia vestígios de laranjeiras.

Verdade é que o volume de pedra usado na construção dos 3 muros principais, ultrapassa largamente os 5.500 m3 a que há que acrescentar o volume dos muros transversais, de fecho e de divisão, cujo volume não conseguimos estimar. Um tal volume de construção e, ainda, o que parece ter sido um edifício anexo, implicou, necessariamente, uma gigantesca quantidade de trabalho e dinheiro, num investimento que, certamente, se esperava recuperar a prazo.

Não me parece credível que um pomar de laranjeiras pudesse, por si só, garantir um adequado retorno financeiro e, por outro lado, só uma total ausência de terrenos igualmente aptos à cultura justificaria o virem plantar-se em local tão difícil e de tão onerosa preparação, pelo que se nos afigura que as laranjas que a tradição popular recorda, não terão sido a razão principal, muito menos a única, que levou à construção das Tapadas.

Subsistem, assim, vários mistérios em torno desta construção:

- Quando e com que objectivos terá sido construída?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?

sábado, 12 de novembro de 2016

O sino de ouro da Casa do Monge Lagareiro


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Nas noites longas de inverno, a minha avó Maria Lourenço contava-me histórias.

Uma delas, falava sobre um sino de ouro que haveria no lagar dos frades e estes enterraram para o esconder dos franceses, durante as invasões de há duzentos anos.
Como é evidente, tal sino nunca existiu e a lenda não tem qualquer fundamento.
Em primeiro lugar, não existem nem nunca ninguém os vislumbrou, quaisquer vestígios de capela e, o frade que ocupava a Casa do Monge Lagareiro, rezaria, certamente, frente a um simples oratório móvel (a ausência de vestígio ou notícia de capela levou-nos, inicialmente, a duvidar da presença permanente de frade(s) mas, no Verão de 1799, “Fr. Luis da Purificação, Professo Bernardo, rezidente na quinta do Lagar da dita Ataija”, foi padrinho de duas crianças do lugar).

De qualquer modo, capela que houvesse, nunca justificaria um sino de ouro.
O local era, apenas, uma fábrica de azeite. E, numa fábrica de azeite, não são precisos, nem adequados, outros tesouros que não o próprio azeite.
Talvez houvesse por lá uma pequena sineta, de bronze ou de latão fundido, para avisar que alguém chegara ao portão, ou marcar o ritmo dos trabalhos e das orações mas, não mais do que isso.

Apesar disso, a história do sino de ouro terá feito os seus estragos:
Joaquim Marques Silvério (Joaquim Albino, Joaquim Alvino) era, nos anos de 1940, proprietário do lagar, quando este se desmoronou ou foi deliberadamente arrasado e se encontrava em desuso e degradação há, talvez, dez a vinte anos

As opiniões dividem-se:
Uns, dizem que o lagar foi arrasado para reaproveitamento de materiais e, nessa ocasião, derrubado o portão de acesso à quinta para facilitar o acesso de veículos.
Outros, dizem que o Silvério procurava o mítico sino de ouro que, naturalmente, não encontrou.

Algumas das vigas do telhado foram compradas por José Francisco Veríssimo que, contava este, vendo-as ao abandono, foi lá com uma enxó e, verificando que a madeira estava em bom estado e era de qualidade, as comprou e mandou serrar em tábuas, de que se fez uma mesa, uma cama e um louceiro (cantareira) que ainda existem, agora na posse dos seus descendentes.
Curiosamente, ou não, a serração era do próprio Alvino, o dono do lagar que, inicialmente, se terá recusado a serrar as tais vigas. Como contava, ainda, o José Veríssimo, o Alvino receava que eventuais pregos que se encontrassem nas vigas, dessem cabo das serras. O José Veríssimo ter-se-á prontificado a pagar o prejuízo, se o houvesse e, afinal, veio a ser encontrado um único prego que não terá causado dano apreciável.

Passou-se isto pouco depois (ou, talvez, um pouco antes) de o José Veríssimo se ter casado, o que aconteceu em finais de 1942.
Em qualquer caso, nunca nos inícios do Séc. XX, ao contrário do que se lê no Sistema de Informação para o Património Arquitectónico,
in http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3336, (consultado em 1 de abril de 2012).  

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terça-feira, 14 de abril de 2015

A propriedade do Olival dos Frades da Ataíja de Cima, depois dos frades


Como a generalidade dos demais bens das ordens religiosas extintas em 1834, o Olival e o Lagar dos Frades da Ataíja de Cima foram, nos anos seguintes, vendidos em hasta pública.

Naturalmente, foram as elites do novo regime e os representantes mais abastados da burguesia emergente que adquiriram esses bens e, no caso dos bens do Mosteiro de Alcobaça, foi o “brasileiro” Bernardo Pereira de Sousa que adquiriu, além do mais, os lagares de azeite da Quinta de Chiqueda, da Fervença e das Antas[i]  e a Quinta das Freiras de Cós, em Chiqueda[ii]. 
Ao mesmo tempo, por arrematação realizada no dia 6 de Abril de 1836, adquiriu o Olival do Santíssimo Sacramento, o Olival dos Frades da Ataíja de Cima[iii].

Quem era este Bernardo Pereira de Sousa que, na sequência de tais aquisições se tornou dono de 22 prensas de vara, um terço da capacidade extractiva dos lagares de azeite do Mosteiro, segundo António Maduro[iv]  e, pelo mesmo modo, adquiriu posição dominante na moagem de cereais?

Bernardo Villa Nova não incluiu o seu nome entre as personalidades que biografou em “Figuras de Alcobaça e sua Região”[v].  
Dele, diz António Maduro[vi] que adquiriu a nacionalidade portuguesa em 1836, abandonando definitivamente o Brasil e casou com Francisca Jacinta Pereira, uma rica herdeira do também brasileiro João Pereira Gomes.
A imensa quantidade e qualidade dos imóveis cuja propriedade acumulou, fez dele o mais colectado pelo imposto da décima[vii] e levou-o, em meados da década de 1840, a presidente da Câmara Municipal de Alcobaça[viii].

Foi pai de Ana Pereira de Sousa que, em vários lugares, é identificada como Ana Pereira de Sousa da Trindade[ix], sendo que o Trindade é apelido do marido João Pereira da Trindade.

O casal teve duas filhas, Clotilde Pereira da Trindade que casou com Augusto Rodolfo Jorge e Francisca Pereira da Trindade que casou com o Dr. Francisco Zagallo[x] que, esclarece Bernardo Villa Nova, nasceu em Ovar em 1850, licenciou-se em Coimbra em 1876 e, pouco depois, tornou-se médico municipal em Alcobaça onde viveu até morrer em 1910[xi].

Foi esta Francisca que herdou o Olival do Santíssimo Sacramento da Ataíja de Cima, como se conclui do que diz Manuel Vieira Natividade[xii] segundo o qual, no ano de 1885, esse olival era propriedade “do Dr. Francisco Baptista de Almeida Pereira Zagalo, médico em Alcobaça”[xiii].

Sabemos que o olival foi, depois, propriedade de Olímpio Trindade Jorge, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de marcos, muitos deles ainda hoje existentes (ver o que aqui publicámos neste blog, em 8-10-2009, sob o Título “Os Marcos do Olival dos Frades” e que com este post pretendemos rectificar, desenvolver e melhorar) e, recorrendo de novo à mencionada obra de Bernardo Villa Nova, ficamos a saber que o Olímpio era sobrinho do Dr. Zagalo (ou seja, de sua mulher) e filho de Augusto Rodolfo Jorge o qual, por sua vez, nasceu no Porto e veio para Alcobaça com 19 anos, em 1866, acompanhando o seu pai, Dr. Bernardo Francisco Jorge “médico que depois de ser agraciado por D. Pedro V com o título de comendador pelos seus serviços prestados por ocasião da epidemia de febre-amarela, veio para Alcobaça como médico municipal”[xiv].

Tornando ao Olival dos Frades da Ataíja de Cima, a sua propriedade passou, talvez por herança ou doação, do Dr. Francisco Zagalo ao sobrinho Olímpio Trindade Jorge que o vendeu, em 1918, pela quantia de 100.000$000, (cem mil escudos ou, cem contos de réis), valor que hoje corresponderia, nos termos da Portaria
n.º 281/2014, de 30 de Dezembro, que estabelece, para os bens alienados em 2014, os coeficientes de desvalorização da moeda para efeitos da correcção monetária dos valores de aquisição de determinados bens e direitos, a 171.496.000$00 seja, a € 855.401,40.

O comprador foi Matias Ângelo, da Ataíja de Cima.

Com a morte de Matias Ângelo, ocorrida em 1933, o Olival dos Frades da Ataíja de Cima foi desmembrado e dividido entre os seus herdeiros. 


Ruínas (1995) do lagar do Guincho, construído, na margem da Lagoa Ruiva, por Matias Ângelo, para processamento das azeitonas do Olival dos Frades. O lagar está, hoje, totalmente desaparecido, encontrando-se no seu lugar a oficina de Soltage - Derralharia, Lda.




[i] António Valério Maduro, in Monges e Camponeses – O domínio cisterciense de Alcobaça nos séculos XVIII e XIX. Edição CEPAE – Centro do Património da Alta Estremadura, 2010.
[iii] António Maduro, 50 Coisas de Escrita Vária Alcobacense, Colecção Estremadura, espaços e memórias, II Série, 06, CEPAE – Centro do Património da Estremadura e Folheto Edições & Design, 2012, p.193
[iv] António Maduro, 50 Coisas …, pág. 35
[v] Bernardo Villa Nova, Figuras de Alcobaça e sua Região, (originalmente publicados em 3 volumes, em Alcobaça, 1959, 1960 e 1961). Edição fac-similada agrupando os 3 volumes, publicada por Rebate, Movimento Cívico, 2002
[vi] António Maduro, 50 Coisas …, pág. 193
[vii] A Décima foi um imposto criado em 1641 para prover às necessidades de defesa do Reino. Era um imposto universal (excluídos os eclesiásticos, mas incluídos os nobres) sobre o rendimento, fosse de propriedade, trato, maneio ou profissão. O nome provém do facto de o valor a pagar ser, em regra, um décimo do rendimento tributado. Evoluiu para se tornar um imposto predial e, é como imposto predial que é referida, ainda hoje, na linguagem corrente.
[viii] António Maduro, 50 Coisas…, p.194
[ix] V., por ex., António Maduro, 50 Coisas…, p.194
[x] Agradecemos esta informação a um estimado leitor deste blog que, identificando-se apenas por João, em comentário inserido em 23 de Dezembro de 2012, ao texto inicial deste post, nos esclareceu sobre estes parentescos, já que Bernardo Villa Nova (op. cit.) apenas diz que Augusto Jorge e o Dr. Zagalo casaram com senhoras alcobacenses que, no entanto, não identifica.
[xi] Bernardo Villa Nova, Figuras de Alcobaça ….
[xii] in O Mosteiro de Alcobaça (Notas históricas), Coimbra, Imprensa Progresso, 1885
[xiii] O facto de o Dr. Zagallo surgir como proprietário do Olival dos Frades da Ataíja de Cima apenas nove anos após se ter licenciado, já nos fazia presumir (no texto inicial deste post que publicámos em 2010 e, por conter erros diversos, agora reescrevemos), que o teria adquirido por herança de sua mulher.
[xiv] Trata-se, talvez, do mesmo médico que, nesse ano de 1866, apresentou e defendeu na Escola Médico-Cirúrgica do Porto a tese: “FRACTURAS DO COLLO DO FEMUR” THESE APRESENTADA À ESCOLA MEDICO-CIRURGICA DO PORTO PARA SER DEFENDIDA PELO ALUMNO BERNARDO FRANCISCO JORGE, PORTO, TYPOGRAPHY DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA, Rua da Cancella Velha, 62, 1866 acessível na internet em : http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/18311/3/VIII-2_17_EMC_I_01_P.pdf.
(consultado em 14-04-2015)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Frei Luis da Purificação - O Monge Lagareiro


Sempre lhe ouvi chamar o Lagar dos Frades, ou o Lagar do Frade ou, a Quinta, isto referindo-se à propriedade murada onde a construção se insere. Casa do Monge Lagareiro é designação recente introduzida por via erudita e consagrada no Decreto de classificação das ruínas como imóvel de interesse público.
Que aqui, nesta fábrica de azeite, residisse um frade que, assim, justificasse a designação de Casa do Monge Lagareiro, foi coisa que sempre me causou alguma confusão, desde logo porque, conhecendo as instalações desde garoto, nunca nelas vi qualquer vestígio do que poderia ser um local adequado às muitas orações que o frade, diariamente, não poderia deixar de rezar.
A dúvida, parece, deixou de ter razão de ser.
De facto, em Agosto e Setembro de 1799, “Fr. Luis da Purificação, Professo Bernardo, rezidente na quinta do Lagar da dita Ataija”, foi padrinho de duas crianças da aldeia.

Ou seja, naquela época havia mesmo um frade bernardo que residia na casa do Monge Lagareiro e, muito interessante, tinha relações privilegiadas com algumas das famílias locais. Relações tão privilegiadas que era convidado para - e aceitava - ser padrinho de baptismo das crianças.


Quem eram essas famílias com que o frade tão intimamente se relacionava havemos de, a seu tempo, tentar saber.
Os indícios vão, no entanto, no sentido de que se tratava de famílias que integravam as elites locais. De facto, no primeiro dos baptizados, a madrinha é uma filha do Capitão Bartolomeu Rodrigues Carreira que, aliás, esteve presente com procuração e em representação da filha e, no segundo, é a vez do frade ser representado, com procuração, pelo “Doutor Jozé da Fonseca desta Villa”.
Tudo, gente importante.

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Os leitores interessado podem ver, relacionados com este assunto, os seguinte textos que, além de outros, foram publicados neste Blog:

- O sino de ouro da Casa do Monge Lagareiro, in  http://ataijadecima.blogspot.pt/2012/04/o-sino-de-ouro-da-casa-do-monge.html;

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A Casa do Monge Lagareiro, II

também denominada ''Lagar dos Frades''




A Casa do Monge Lagareiro, classificada como IIP – Imóvel de Interesse Público pelo Decreto-Lei n.º 67/97, de 31 de Dezembro, publicado no Diário da República, I Série, n.º 301, de 31-12-1997, é um exemplar de arquitectura civil pombalina, localizado na Estrada Municipal n.º 553 (ou Estrada do Lagar dos Frades), em Ataíja de Cima, Alcobaça, junto ao km 98 da Estrada Nacional 1 (IC 2) e a 200 metros a poente deste.

O Olival do Santíssimo (olival dos frades da Ataíja de Cima) e a Quinta onde se incluíam o Lagar dos Frades e a Casa do Monge Lagareiro, formavam em conjunto a exploração agrícola, já que o lagar se justificava para processar as azeitonas do olival e a Casa como armazém e residência do encarregado da gestão do olival e do lagar.

Lamentavelmente, a nosso ver, a classificação da Casa do Monge Lagareiro ignorou esse carácter, deixando de fora quer os vestígios ainda existentes do antigo lagar, quer o muro que rodeia a quinta, os quais me parece terem idêntica importância, histórica, arqueológica e arquitectural.

Edificados em data incerta, na segunda metade do século XVIII, no âmbito da actividade reformadora da ordem de São Bernardo levada a cabo pelo Abade Dom Frei Manuel de Mendonça que – em execução das políticas pombalinas - promoveu a plantação do olival dos frades e a construção do necessário lagar e casa do monge lagareiro, o lagar e a Casa foram erguidos dentro de uma quinta murada, junto à Lagoa Ruiva, da qual o lagar se abastecia de água, muito provavelmente através de uma galeria artificial de que falam testemunhos locais.

A lagoa está actualmente aterrada e ocupada pelo campo de futebol (estádio da rã) e pelo Largo do Cabouqueiro.

A Casa do Monge Lagareiro, agora muito arruinada, é um edifício de planta rectangular e dois pisos, actualmente com cobertura de uma água, pendendo sobre a fachada principal, a nascente. As paredes a norte e a poente são cegas. Dos dois pisos, o térreo destinava-se a serviços e armazenamento do azeite e o segundo a habitação do monge lagareiro que supervisionava o olival, a quinta e o lagar.

A fachada principal, virada a nascente (sudeste, mais rigorosamente) e à serra dos Candeeiros, apresenta no piso nferior duas janelas gradeadas, de moldura simples em pedra calcária da região, encimadas, no piso superior, por janelas com moldura de brincos e frontão de laços. Ao centro, um falso janelão cego, de moldura recortada, é encimado por uma grande e bem trabalhada pedra de armas de Cister, rematado por uma coroa de que actualmente só sobra a parte posterior.

No interior, as janelas do segundo piso surgem como janelas conversadeiras e as paredes divisórias usavam (já não usam, já tudo ruiu) como técnica de construção o chamado taipal à galega, “estrutura com prumos e barrotes de travejamento, tendo pelas 2 faces fasquias, também de madeira, e preenchendo-se o interior com argamassa de argila, cal, cortiça e azeite, obtendo-se assim maior leveza e durabilidade da estrutura e o isolamento térmico, com paredes frescas no Verão e quentes no Inverno” (Paula Noé).

No alçado sul existe uma escada exterior de acesso ao piso superior.

O conjunto da fachada era equilibrado pela existência de dois corpos laterais esconsos, adossados ao corpo principal.

O corpo norte está arruinado há, pelo menos, setenta anos e não tem qualquer ligação funcional com a Casa. Serviu, certamente, instalações do lagar.

O corpo sul, onde se situam os acessos ao edifício e cuja degradação mostra, agora, que foi meramente encostado ao corpo principal da Casa, apresenta ao nível do piso inferior um arco, entretanto parcialmente fechado para nele se abrir uma porta.

As instalações do lagar organizavam-se na fachada posterior, a poente, junto à qual ainda se vêem algumas das “virgens” onde articulavam as varas das prensas.

Pormenor do brazão de Cister, na fachada principal da Casa do Monge Lagareiro, aqui, ainda com a coroa inteira.
A foto, retirada do site do IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arquelógico ( http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/74418/)
é da autoria de técnicos do Ministério da Cultura e datada, segundo informação do IGESPAR, de 1987.
 
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Casa do Monje Lagareiro

Um Imóvel de Interesse Público na Ataíja de Cima



A classificação como Imóvel de Interesse Público, a que se procedeu pelo Decreto-Lei n.º 67/97, de 31 de Dezembro, publicado no Diário da República, I Série, n.º 301, de 32-12-1997, da chamada Casa do Monge Lagareiro, não teve qualquer repercussão no local.

Ao nível científico, apesar do enorme fascínio que o Mosteiro de Alcobaça e a sua história exercem sobre tantos intelectuais, com os historiadores à cabeça, também não parece que tal classificação tenha despertado grande interesse pelo monumento já que, depois disso, apenas foi publicado o estudo intitulado “Breve Noticia sobre o Antiguo Lagar dos Frades em Ataíja de Cima (Alcobaça)”, de Maria do Céu Simões Tereno(a), publicado na “Cistercium", Revista Monástica, Julio – Septiembre, 2001, n.º 224(b), estudo esse que constitui o “estado da arte”, no que ao conhecimento científico deste monumento diz respeito.

Nele, centrando-se na arquitectura e no estado actual (1999-2000?) do edifício, a autora descreve o que viu e hoje, passada cerca de uma dúzia de anos, se encontra um pouco mais arruinado.

O texto recenseia o essencial da bibliografia relevante e é acompanhado por seis desenhos (c), um dos quais é uma tentativa de reconstituição da planta dos edifícios, feita a partir da descrição de J. Vieira Natividade e dezassete fotografias, cuja leitura é muito prejudicada pela má qualidade da reprodução e ausência de datação.

Uma dessas fotografias, “Figura 23 Antigo Lagar dos Frades. Fotografia do conjunto do lagar, mostrando ainda a Lagoa Ruiva”, é a mesma que já tinha sido publicada por J. Vieira Natividade em ilustração ao seu artigo “As Granjas do Mosteiro de Alcobaça”, in Boletim da Junta da província da Estremadura, – 2ª Série, n.º 5, Lisboa, 1944(d)  (como, aliás, M. C. S. Tereno refere em Nota) e, com a legenda “Lagoa Ruiva e ruínas do LAGAR DOS FRADES (Ataíja)” está reproduzida na estampa XIII (1), inserta entre páginas 52 e 53 do livro “M. Vieira Natividade - Mosteiro e Coutos de Alcobaça - Alguns Capítulos Extraídos dos Manuscritos Inéditos do Autor e Publicados no Centenário do seu Nascimento, MCMLX” (e) .

Esta fotografia(f) é particularmente interessante, mostrando, em primeiro plano, a Lagoa Ruiva onde uma mulher lava roupa, uma criança brinca e um homem, com o seu carro de burro, enche uma barrica de água. Em segundo plano, vê-se a “Quinta”(g) , com o seu muro ainda quase intacto e a entrada, com as suas colunas e, em terceiro plano, as instalações do lagar, já bastante arruinadas e da Casa do Monge Lagareiro, esta com o telhado denunciando obras recentes (h).

Tudo somado, o que sabemos sobre o Lagar dos Frades da Ataíja de Cima e a Casa do Monge Lagareiro é, ainda, muito pouco e pode resumir-se ao que foi escrito por:
- Frei Manuel de Figueiredo, que dá notícia da sua construção;
- J. Vieira Natividade, que descreve o estado em que o encontrou no início do Séc. XX;
- Maria do Céu Simões Tereno, que descreve o estado em que o encontrou em 1999/2000.

No mais, a grande maioria dos diversos textos que se referem à Casa do Monge Lagareiro e ao Lagar dos Frades da Ataíja de Cima, não trás qualquer conhecimento novo.

Mas o tempo, esse grande escultor veio, recentemente, ensinar-nos mais alguma coisa:
A degradação do imóvel permite-nos ver, agora,  que o famoso janelão cego que domina a fachada armoriada da Casa do Monge Lagareiro, servindo de suporte ao imponente Brasão de Cister é, afinal, falso e não, ao contrário do que parecia, uma janela entaipada:



NOTAS:
(a) Arquitecta, professora na Universidade de Évora, Doutora em Conservação do Património Arquitectónico, com uma tese intitulada “Contributo da Perspectiva para a Salvaguarda de Monumentos Históricos”.
(b) A revista "Cistercium" é patrocinada pela Conferencia Regional Española de Monasterios Cistercienses de la Estricta Observancia.
(c) Além de plantas de localização às escalas 1/25000 e 1/4000.
(d) Republicado (sem ilustrações) em “J. Vieira Natividade, Obras Várias, II”, Edição da Comissão Promotora das Cerimónias comemorativas do I Aniversário da Morte do Prof. J. Vieira Natividade, Alcobaça, s/data (o Prof. J. Vieira Natividade nasceu em 22-11-1899 e faleceu em 19-11-1968, esta edição será, portanto, de cerca de 1970).
(e) O livro reúne um conjunto de inéditos de Manuel Vieira Natividade, escritos entre 1878 e 1918, coligidos pelo filho do autor, o Eng.º Agrónomo Prof. Joaquim Vieira Natividade. As fotografias não são datadas e não têm indicação de autor. No entanto, as insertas no referido Boletim, são aí mencionadas como sendo da autoria de J. Vieira Natividade.
(f) Provavelmente tirada nos primeiros anos da década de 1940.
(g) “Quinta”, é o nome porque, na Ataíja de Cima, sempre ouvi designar o terreno murado onde se situa a Casa do Monge Lagareiro.
(h) O espaço era, ainda na segunda metade do Séc. XX, utilizado como palheiro pelo proprietário, José Horta Henriques que foi conhecido por José Bernardo.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

A propriedade do olival dos Frades da Ataíja de Cima, depois dos frades – II

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À aquisição do olival dos frades - Olival do Santíssimo - da Ataíja de Cima, por Matias Ângelo, em 1918, deve ser atribuído um valor simbólico que é o de coroar um processo, longo de quase um século e, aliás, nunca completado, de apropriação, pelos naturais residentes, das grandes propriedades rurais que no antigo regime pertenciam aos frades e à pequena nobreza e, após a vitória do liberalismo e o fim das Ordens Religiosas, à nova nobreza liberal, e à burguesia de uma Alcobaça que, durante a segunda metade do Séc. XIX gozou – liberta agora do jugo fradesco, - de um crescimento acelerado.

Foi, no entanto, de pouca dura a posse ataíjense do olival dos frades. Com a sucessão de Matias Ângelo, assistiu-se à divisão da propriedade pelos seus herdeiros e, logo de seguida, ao início do processo da sua alienação.

De facto, em 11 de Maio de 1931, apenas cerca de treze anos após a famosa compra, Matias Ângelo e sua mulher, Francisca Rosa que foi conhecida por Francisca Félix, fizeram doação do olival dos frades aos seus filhos, reservando para si o usufruto vitalício, usufruto esse que seria reduzido a metade após a morte de um deles.

Logo, em 29 de Maio de 1933 seguinte, os quatro filhos fizeram a divisão da propriedade entre si e, menos de três meses depois, em 20 de Agosto do mesmo ano, Matias Ângelo faleceu.

Cinco anos depois, em 22 de Outubro de 1938, Manuel Ângelo da Silva comprou a seu irmão José Ângelo da Silva a parte deste no olival.
Um ano depois, em 30 de Outubro de 1939, o mesmo Manuel Ângelo da Silva, vendeu metade do que tinha comprado a seu irmão José: Um oitavo do olival dos Frades, na parte vendida com a área de 63.000 metros quadrados, confrontando a Norte com Basílio Pereira Clemente e herdeiros de José Pereira Clemente, a Sul com José da Fonseca, a Nascente com Serra e a Poente com caminho do Barreirão. O preço declarado foi de 10.000$00 (inferior ao valor da matriz que era de 10.718$40).

O comprador, acabado de regressar dos Açores, foi José Rodrigues da Silva Mendes, o célebre Capitão Silva Mendes, natural de Turquel, que foi por duas vezes Governador Civil de Leiria, a primeira ainda quando tenente, entre 18-02-1930 e 09-09-1931, a segunda, já Capitão, entre 19-04-1933 e 24-04-1935. Governador Civil do Distrito da Horta (Açores) entre 03-03-1937 e 17-03-1939 e, mais tarde (1957-1961), deputado da União Nacional.

Em circunstâncias que ainda não consegui apurar, também o industrial alcobacense Raul Ferreira da Bernarda e sua mulher Mariana Coelho, se tornaram proprietários de uma quarta parte do Olival dos Frades, de que, em 21 de Agosto de 1944, estavam a vender ao ataijense José Ribeiro 7/16.
A propriedade é identificada na respectiva escritura como “Um olival denominado Olival do Santíssimo, confronta Norte com Basílio Pereira Clemente, herdeiros de José Pereira Clemente, Francisco Vigário, herdeiros de Francisco Malhó e outros, Sul com José Fonseca Júnior, Nascente com Serra e Poente com caminho da Ataíja e herdeiros de José Pereira da Conceição. Parte desanexada e vendida: sete dezasseis avos. A parte vendida é olival e confronta a Norte com Basílio Pereira Clemente, Sul com José Fonseca Júnior, Nascente com Serra e Poente com caminho do Forno”.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

OS MARCOS DO OLIVAL DOS FRADES



O Olival dos Frades foi mandado plantar por D. Frei Manuel de Mendonça que era sobrinho do Marquês de Pombal[1] e foi Abade de Alcobaça entre 1768 e 1777.
Os frades chamavam-lhe Olival do Santíssimo Sacramento por, ao que parece, usarem um sistema de contabilidade por consignação, seja, em que as diferentes receitas eram, previamente e por regra, afectas a diferentes tipos de despesa, sendo as receitas deste olival usadas para suportar as despesas do culto e louvor ao Santíssimo Sacramento.
Vendido em hasta pública na sequência da Lei de 1834 que extinguiu as Ordens religiosas, o olival passou por diversos proprietários sendo, em 1885, propriedade do Dr. Francisco Baptista Pereira Zagallo, Médico de Alcobaça
[2], onde existe uma rua com o seu nome. Foi, a certa altura, também no Séc. XIX, mas em data que ainda não conseguimos apurar, adquirido por Olímpio Trindade Jorge, comerciante de Alcobaça, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de marcos, muitos deles ainda hoje existentes.
Todos esses marcos, um dos quais se encontra junto à estrada que liga a Ataíja de Cima à Ataíja de Baixo, mesmo em frente da fábrica de cerâmica da empresa Destinos, têm gravadas, de um dos lados, as iniciais do Santíssimo Sacramento (SS) e, por baixo dela, as do proprietário (OTJ) e, do outro lado, o número do marco.
Mais tarde, em 1918, este olival veio a ser adquirido por um ataíjense, Matias Ângelo, pela quantia de 100 contos de réis, quantia à época considerada "fabulosa".





Marco contendo as inscrições "SS" e "OTJ"


[1]Salvador Magalhães Mota, A Acção de D. Frei Manoel de Mendonça à Frente dos Destinos da Congregação de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de São Bernardo (1768-1777, in Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, p. 771-779[2] Manuel Vieira Natividade, O Mosteiro de Alcobaça (Notas históricas), Coimbra, Imprensa Progresso, 1885

Marco numerado "4."