Vistas da Ataíja, são três longas linhas de pedra (agora quase ocultas no matagal), correndo
a serra na horizontal, como traços de giz num quadro negro, servindo de remate
ao olival do Santíssimo, ali, na parte inferior da encosta, à cota dos 250m, a
partir de onde o solo se inclina demasiado para permitir qualquer cultivo.
Fig. 2
Perfil da Serra dos Candeeiros na zona do Olival dos Frades da Ataíja de Cima
(elaboração própria com base em Mapbox e OpenStreetMap):
Nessa transição de declives, por um momento, o solo é menos inclinado do que ao redor. Por isso havia quem, em vez de Tapadas, chamasse ao lugar as Covadas.
Nos anos de 1950 e 1960, o Ti José Ribeiro ainda cultivava a sua parte das Tapadas. Entretanto, as coisas mudaram e hoje o mar de oliveiras que bordejava todo o poente da Serra dos Candeeiros foi substituído, quase totalmente, por pinheiros e eucaliptos e, nas margens do IC2, por uma fila quase contínua de fábricas, oficinas, restaurantes e armazéns diversos. As Tapadas, essas, já quase se não veem, seja cá de longe, seja mesmo lá ao pé, submersas que estão em matos e silvas e moitas e em carrasqueiras impenetráveis, bem mais altas que um homem.
Numa visita recente foi, apesar de tudo, possível perceber o
essencial da estrutura, como se mostra no esboço de planta do conjunto, tal
como o pudemos observar (elaboração própria com base em Google Maps e
observação no local):
Fig. 3
O muro interrompido que se vê à direita no desenho não faz parte da estrutura. Antes, indica o limite a montante da propriedade e serve de suporte a um carreiro conhecido por o caminho do guarda.
À esquerda do desenho, a jusante da estrutura, veem-se um pedaço de parede, com argamassa de barro (Fig. 4), incluindo o cunhal (Fig. 5) e um pedaço de muro, de construção idêntica (Fig. 6), correndo de montante para jusante (ESE/ONO) e aparentemente sem ligação com o anterior. Entre ambos, uma ligeira elevação do terreno revela-se uma escombreira onde são visíveis pequenos pedaços de telha de canudo (Fig. 7) e, muito perto, debaixo de uma carrasqueira (Fig. 8), mais restos de um muro, de características e orientação semelhantes ao antes referido.
As Tapadas ocupam
uma extensa área, de mais de 2 hectares, e têm um comprimento de cerca de 360
metros. Os três muros longitudinais, são sensivelmente paralelos e afastados entre si de cerca de 30 metros. A estrutura fecha-se nos topos por
muros cujas características não pudemos confirmar devido às dificuldades de
acesso.
Em posição relativa que também não pudemos confirmar, pelo
menos o espaço entre os muros médio e superior é interiormente seccionado por,
pelo menos, um muro secundário. Na parte do muro superior que visitámos,
observamos, ainda, a existência de duas aberturas, uma das quais se mostra,
parcialmente, na foto abaixo.
Fig. 9
Os três muros principais, têm perfis diferentes, como se evidencia nos desenhos abaixo (elaboração própria).
Fig. 10
O muro de montante é o mais forte, com uma largura no topo
(na zona que visitámos), variando entre 190 e 220 cm, a que acresce um socalco
de 70 cm de largura e, considerando que, de jusante, a parede apresenta uma
inclinação de cerca de 15%, a largura total na base atingirá os 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
O muro intermédio é mais estreito, com uma largura de 120 cm
no topo, a que acrescem dois socalcos de 40cm cada, numa total de 200 cm. Ambas
as faces são verticais. De montante mediu-se a altura de 200 cm e de jusante
150 cm até ao primeiro socalco, mais 80 cm até ao segundo socalco e outros 80
centímetros até ao topo, somando a altura total de 310 cm.
O terceiro muro, que fecha o conjunto a jusante, é o de
dimensões e formas mais simples, sendo constituído por uma parede com 120 cm de
largura e uma altura, idêntica em ambas as faces, de cerca de 200 cm.
No topo e fazendo parte da propriedade a que os frades chamaram
olival do Santíssimo e por aqui era conhecido como Olival dos Frades, o qual vindo
desde o caminho dos Arneiros, numa extensão de cerca de 2400 metros era, no
início do Séc. XIX, com os seus cerca de 100 hectares e mais de 18.000 pés de
oliveira, o maior olival da região, as Tapadas ainda hoje não passam
despercebidas a um olhar atento que se lance sobre a serra, a partir da Ataíja,
do Cadoiço, ou de Aljubarrota e seus arredores.
Trata-se, sem qualquer espécie de duvida de uma construção
fradesca.
Apesar disso e do muito que tenho lido a propósito dos
monges cistercienses de Alcobaça, nunca vi, que me lembre, qualquer referência
escrita a esta estrutura monumental.
Da tradição popular, apenas se retém localmente essa ideia
de que nas Tapadas os frades plantavam laranjeiras. E, está bem vivo quem, há
mais de 50 anos lá andou a lavrar com os bois do ti Zé Ribeiro que ali terá
semeado batatas. Nesse tempo, havia por lá uma figueira, mas não havia
vestígios de laranjeiras.
Verdade é que o volume de pedra usado na construção dos 3 muros
principais, ultrapassa largamente os 5.500 m3 a que há que acrescentar o volume
dos muros transversais, de fecho e de divisão, cujo volume não conseguimos
estimar. Um tal volume de construção e, ainda, o que parece ter sido um
edifício anexo, implicou, necessariamente, uma gigantesca quantidade de
trabalho e dinheiro, num investimento que, certamente, se esperava recuperar a
prazo.
Não me parece credível que um pomar de laranjeiras pudesse, por
si só, garantir um adequado retorno financeiro e, por outro lado, só uma total ausência de terrenos igualmente aptos à cultura justificaria o virem plantar-se em local tão difícil e de tão onerosa preparação, pelo que se nos afigura que as
laranjas que a tradição popular recorda, não terão sido a razão principal,
muito menos a única, que levou à construção das Tapadas.
Subsistem, assim, vários mistérios em torno desta
construção:
- Quando e com que objectivos terá sido construída?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?













