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terça-feira, 23 de março de 2021

A Estrada de D. Maria Pia e a Estalagem da Malaposta da Pedreira dos Carvalhos

 


No final do Séc. XVIII, mais precisamente em 1791, quando reinava a Sra. D. Maria I, foi elaborado o projecto da Estrada de Rio Maior a Leiria[i] que, por isso, ainda hoje é conhecida por Estrada de D. Maria Pia.

Aprovada por despacho, de 4 de junho de 1792, do Desembargador superintendente geral das Estradas, José Diogo de Mascarenhas Neto e construída nos anos seguintes, por ela circulou a partir de 1798 a carreira da Malaposta de Lisboa a Coimbra.

O referido despacho que se encontra integralmente transcrito por Ricardo Charters de Azevedo[ii], tal como, aliás, o projecto de “delineamento” da estrada, contém abundante informação sobre a região, incluindo os pontos de água usáveis pelos viajantes e animais de tiro e, por isso, absolutamente indispensáveis: “a maior distancia … he de três legoas desde os Candieiros athe aos Carvalhos[iii], mas quase no meio deste espaço há o poço do Muliano”.

As estalagens, ponto de alimentação e dormida ou descanso de viajantes e bestas e de muda das atrelagens, tinham de estar situadas, ao longo do percurso, a distâncias mais ou menos regulares que permitissem a substituição das parelhas, daí que o despacho não esqueça que “o sitio dos Candieiros necessita de huma estalage, e da mesma forma o dos Carvalhos”, (em 1791, conforme o Mapa, já existia uma estalagem na Cumeira de Cima[iv], no entanto, fora do caminho agora delineado).

Na caracterização da região a que, como justificação pela opção tomada, o despacho procede, o uso do solo também não foi esquecido, notando o desembargador que “a agricultura do terreno compreendido no mappa consiste em azeite, trigo, milho e vinha principalmente na porção que pertence aos Coutos”[v]

Num espaço escassamente povoado, tendo “cada legoa quadrada menos q 1800 habitantes” e muito pobre, onde os povos “respirão pobreza e rusticidade”, a estrada iria ainda, aos olhos do superintendente, contribuir para “o aumento da população e o progresso da agricultura”.

Aquando das Invasões francesas a Malaposta Lisboa – Coimbra já não existia, uma vez que face aos persistentes deficits de exploração o serviço foi extinto, tendo durado escassos seis anos, entre 1978 e 1804.

A partir daí e durante mais seis anos não conhecemos outras referências à estalagem dos Carvalhos, mas em Outubro de 1810, aquando da 3ª Invasão Francesa, a Estrada de D. Maria I foi um dos caminhos seguidos a partir de Leiria, pelos exércitos de Wellington, no seu recuo para as linhas de Torres, bem como pelos exércitos franceses de Massena que o perseguiam. De acordo com o General Koch[vi], em 7 de outubro Soult[vii] instalou-se nos Carvalhos[viii], Sainte-Croix bateu a região entre Molianos e Candeeiros e o General Montbrun instalou-se, com a artilharia, “à direita dos Molianos”.[ix]

Koch não menciona o estado da estrada, que ainda havia de ser bom, mas não podia dizer pior da zona: “É impossível ver uma região mais miseranda que a que vai de Carvalhos a Rio Maior; Candeeiros e Moliano não têm, sequer, o aspecto de lugarejos, e só apresentam meia dúzia de péssimas cabanas esparsas numa planície nua e árida onde não há cereais nem forragem nem água”.

Demos o devido desconto ao militar frustrado e cansado, mas lembremo-nos do que o Desembargador Mascarenhas Neto tinha dito dezoito anos antes.

Enquanto durou, a Malaposta teve na Estalagem dos Carvalhos um importante ponto de apoio, já que era aí que se cruzavam, era servida a ceia[x] e passavam a noite as carruagens vindas de Lisboa e de Coimbra, tudo conforme minuciosamente regulado nas Instruções para o estabelecimento das diligências entre Lisboa e Coimbra[xi].

A estalagem dos Candeeiros, referida no despacho mencionado do Desembargador Mascarenhas Neto, parece não ter chegado a ser construída, mas o lugar continuou a ter a importância resultante da existência de água no Poço dos Candieiros. Nos Molianos é também referida a existência de um poço, “de q uzam os habitantes daquele distrito”, o qual, no entanto, não é assinalado no Mappa de 1791.

Eventualmente relevantes para os viajantes deste troço do caminho terão sido as Vendas nele existentes que eram, segundo o Mappa, a Venda do Vintém, na Moita do Gavião, a Venda dos Candeeiros e a Venda da Laranja, perto da Sra. da Piedade (Molianos).

A falta de uso e de manutenção haviam de arrastar a Estalagem dos Carvalhos, para alguma degradação. Diz Godofredo Ferreira que “com a passagem do exército invasor do comando do General Massena, a casa ficou em ruína e quasi abandonada”. Na verdade, o exército francês não terá usado a estalagem por mais do que alguns dias, pelo que a ruína só poderia ter sido provocada na retirada e, para ser ruína, teria de ter sido incendiada. Mas, não há qualquer indício de isso ter acontecido. Pelo contrário, ela volta a ser arrendada logo em 1814, pelo que não estaria em muito mau estado nessa data.

O desvio da estrada real para as Caldas da Rainha e Alcobaça implicou o abandono da estrada de D. Maria Pia, a qual só veio a retomar importância no início dos anos 60 do Séc. XX, com a construção do actual IC2. Consequentemente, o serviço de diligências, quando é retomado em meados do Séc. XIX, já não passa pelas Pedreiras pelo que a Estalagem nunca voltou à sua função inicial e acabou por ser vendida em hasta pública cerca de 1856[xii]

Depois disso foi mercearia, taberna e habitação. No lugar das cavalariças, houve um lagar de azeite e na cozinha ainda há uns quarenta anos existia a grande chaminé.

Recentemente, sobre as velhas paredes, foi construída uma vivenda cujo primeiro andar assenta na cornija original de cantaria, em meia cana simples, que corre toda a fachada.

O traçado original da Estrada de D. Maria ainda hoje é facilmente reconhecido na quase totalidade do percurso entre a Moita do Gavião e as Pedreiras, constituindo, aliás, a rua principal de diversas localidades, nomeadamente, os Candeeiros, os Molianos e as Pedreiras.

Em Maio de 2020, era este o aspecto da Estalagem dos Carvalhos:


O portão da Estalagem tal como foi construído há mais de 220 anos

Vista Geral da Fachada

Uma habitação moderna construída sobre as velhas paredes



[i] Ver Ricardo Charters de Azevedo, A Estrada Rio Maior a Leiria em 1791, colecção Tempos Vidas, 15, Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] Op.cit., págs. 55 e 56.
[iii] Ou Pedreira dos Carvalhos, que hoje conhecemos por Pedreiras.
[iv] Acima da Cumeira há um lugar chamado Albergaria. Poderiam, albergaria e estalagem, ser uma e a mesma coisa. No entanto, o Mapa assinala ambas.
[v] Aos Coutos da Alcobaça, obviamente.
[vi] General Koch, Memórias de Massena, Campanha de 1810 e 1811 em Portugal, Introdução de António Ventura, Livros Horizonte, Lisboa, 2007
[vii] General de Napoleão. Foi o comandante da 2ª Invasão de Portugal.
[viii] Certamente na Estalagem que, apenas seis anos após o fim do serviço da Malaposta, ainda havia de estar em relativo bom estado de uso e, comparativamente com quaisquer outras construções da região,  com as melhores condições para o alojamento do Estado-Maior da Brigada.
[ix] Em Janeiro de 1834, pouco mais de 23 anos depois destes acontecimentos, de novo a região entre Molianos e as Pedreiras foi objecto de ocupações militares. Ver: neste Blog A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região, in Ataíja de Cima: A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região (ataijadecima.blogspot.com)
[x] A ceia era a refeição da noite, a que agora chamamos jantar. O jantar era a refeição do meio do dia, aa que agora chamamos almoço, servida cerca das duas horas da tarde. Ainda era assim na aldeia da minha infância.
[xi] Godofredo Ferreira, A Mala-Posta em Portugal, Lisboa, 1946, citado em Armindo Vieira, Pequena Monografia das Pedreiras, Pedreiras (Porto de Mós), Maio 2007.
[xii] Armindo Vieira, op.cit., de onde também se retiraram as demais referências aos usos do local.

terça-feira, 16 de abril de 2013

O alcatroamento da Estrada do Lagar dos Frades

O caminho de ligação da Ataíja de Cima e do Cadoiço a Aljubarrota, está classificado como estrada municipal desde 1897 (Ver AQUI). 
No entanto, o persistente desprezo a que os diversos poderes, a começar pelo autárquico, tradicionalmente votavam a "borda da serra" (a última vez em que, por aqui,  haviamos visto alguém importante, tinha sido em 1969, aquando da inauguração da luz eléctrica), reflectia-se no péssimo estado da generalidade dos caminhos, os quais eram mantidos, exclusivamente, à custa do esforço dos locais. 
A modernização da estrada municipal n.º 553 (3,9km, entre a estrada Nacional 8, em Aljubarrota e o IC2),  embora urgente face ao avançado estado de degradação do piso e ao intenso e pesado tráfego, proveniente,sobretudo das pedreiras era, no entanto, tarefa que os vizinhos, só por si, não poderiam realizar.

Em Março de 1975, viviam-se em Portugal tempos incertos e intensos. O 25 de Abril tinha sido há menos de um ano e, populações conservadoras, como a ataíjense, olhavam desconfiadas para as notícias que lhes chegavam de Lisboa. 
Mas, uma coisa sabiam: Agora havia direito de reunião e íam aproveitá-lo para tratar dos seus interesses:

(Cartaz: 297mmx420mm. Heliografia)
A sede do clube ataíjense a que se refere o cartaz, era a antiga escola primária. 
O clube ataíjense nunca existiu formalmente. Tratou-se, antes, do embrião do actual Salão Cultural Ataíjense.




O elevado nº de pessoas que se voluntariou para fazer parte da comissão, obrigou, por razões operacionais, à escolha de uma comissão executiva, a qual integrava dois elementos do Cadoiço.
A comissão de recolha de fundos foi, também por razões operacionais, subdividida em três subcomissões: Ataíja, Cadoiço e Emigração.


Primeira reunião com a Câmara Municipal de Alcobaça:
O Sr. Gilberto, aqui referido é Gilberto Magalhães Coutinho, comerciante de ferragens em Alcobaça e que foi presidente da Comissão Administratica da Câmara Municipal.
O nome correcto do técnico municipal é Costa e Sousa (José Carlos Martins Costa e Sousa que, durante 42 anos, foi Director do Departamento Técnico da Câmara de Alcobaça).


Haveriam, ainda, outras reuniões na CMA mas, no essencial, como se decidiu nesta reunião, assim se fez.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

IC9

Progressos

Uma viagem entre Tomar e a Ataíja de Cima, permite apreciar os progressos das obras em vários pontos deste troço.
No que diz respeito à Ataíja de Cima, os avanços mais evidentes residem no desenvolvimento da construção do viaduto que, pela Rua das Seixeiras, fará a ligação aos Casais de Santa Teresa, desenvolvimento esse que as duas fotos seguintes bem ilustram:

Foto de 11-09-2011



Foto de 02-10-2011



A grande importância para o desenvolvimento local que atribuímos à entrada em serviço do IC9, tem sido objecto de alguns textos neste blog, designadamente, os segintes:
http://ataijadecima.blogspot.com/2010/08/da-estrada-do-diamantino-ao-ic9.html
http://ataijadecima.blogspot.com/2011/07/sobre-o-tracado-do-ic-9.html

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

As obras do IC 9

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As fotos seguintes, todas tiradas no ponto onde o IC 9 cruza o prolongamento da Rua das Seixeiras, na ligação entre a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa, permitem observar a evolução das obras de construção daquela estrada.


15-08-2010


26-03-2011


10-07-2011


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terça-feira, 5 de julho de 2011

Sobre o traçado do IC 9

O caminho de ferro Nazaré – Alcobaça – Ourém - Tomar - Entroncamento




No final do Séc. XIX e inícios do Séc. XX, numa época em que o automóvel apenas começava a existir e o comboio era o mais moderno meio de transporte, fez curso a ideia da construção de uma linha de caminho-de-ferro que estabelecesse uma ligação entre o litoral e o interior, entre a nossa região e a de Tomar que, só agora, – numa solução rodoviária e já não ferroviária – está em vias de se concretizar através do IC 9, actualmente em construção.

De facto, o percurso do IC 9 é o mesmo que se previa para aquela ligação ferroviária que nunca se chegou a construir.

Na sessão parlamentar de 21-3-1912, o deputado de Alcobaça Afonso Ferreira fez uma intervenção para apresentar um projecto sobre aquele caminho-de-ferro:


Às vantagens invocadas por Alfredo Ferreira em 1912 que se mantêm, há que acrescentar, pelo menos, mais uma: O IC9, além de garantir uma ligação moderna entre a turistíca praia da Nazaré e esses três importantes monumentos que são o Convento de Cristo de Tomar, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha e o Mosteiro de Alcobaça (todos integrantes da lista do património mundial da UNESCO), passará, também, junto ao Santuário de Fátima.

Estabelecendo ligação entre locais de tanto potencial económico e turístico e cruzando a A23 (IP6), a A1 e a A8 (e, também, as linhas ferroviárias do Norte e do Oeste), o IC9 tem condições para se tornar uma importante rota económica e, certamente, tornar-se-á uma das mais importantes rotas do Património e do turismo de Portugal.

Actualmente já se encontram abertos ao trânsito o troço entre Tomar (IC3) e Vale dos Ovos e entre Tomar e o Entroncamento (através do IC3).

O Troço que liga a Nazaré a Alcobaça e ao IC2, pela Ataíja de Cima, esse, segundo informação que me foi prestada, em Abril, pela Estradas de Portugal, EP, tem a conclusão prevista para Novembro do corrente ano. É, com certeza, uma informação muito optimista mas … as obras lá vão andando.

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domingo, 19 de junho de 2011

A classificação como estrada municipal, do caminho entre Aljubarrota e a Ataíja de Cima

(actual estrada municipal n.º 553 - Estrada do lagar dos Frades)


Em 1897, três anos depois da classificação do caminho entre a Lameira e os Casais de Santa, passando por Carvalhal, Ataíja de Baixo e Ataíja de Cima, como a primeira estrada municipal que serviu a nossa aldeia, (assunto a que nos referimos no post anterior), prosseguia o trabalho de definição da rede de estradas do concelho de Alcobaça.

Assim, o decreto de 1 de Fevereiro de 1897, acrescentou à rede mais um conjunto de caminhos, entre os quais o caminho de ligação entre Aljubarrota, o Cadoiço e a Ataíja de Cima (actual estrada municipal n.º 553), com o que se abandonou o caminho secular que, pela actual Rua da Ponte, ìa até às Marmeleiras (mais ou menos onde actualmente decorrem trabalhos para exploração de gás natural) sítio onde, como ainda agora, se cruzava com acessos ao Mogo e ao Cadoiço e, daí, subia até São Vicente.



Veja-se como o redactor continua a ter problemas com a palavra Ataíja: se no decreto de 28 de julho de 1894 escrevia “Ataya”, agora usa o não menos incorrecto “Ataeija”.

Repare-se que, das estradas que constam do decreto, algumas se referem a localidades que, hoje em dia, se encontram no município de Porto de Mós.
Isso deve-se ao facto de, em 1897, todas pertencerem ao concelho de Alcobaça, já que o conselho de Porto de Mós foi extinto por decreto de 7 de setembro de 1895. A extinção foi, no entanto, de curta duração, tendo o concelho de Porto de Mós sido restaurado, menos de três anos depois, pelo decreto de 13 de janeiro de 1898.
Durante este curto período passaram para o concelho de Alcobaça a maioria das freguesias de Porto de Mós, incluindo a sede e excluindo Alqueidão da Serra que passou para o concelho de Leiria e Minde e Mira (de Aire) que passaram para o concelho de Torres Novas.
Pelo mesmo decreto de 7 de setembro de 1895, o concelho de Alcobaça perdeu as freguesias de Alfeizerão, Famalicão (é hoje uma das três freguesias do município da Nazaré) e São Martinho do Porto que passaram para o concelho das Caldas da Rainha.

 
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segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Caminho do Concelho

Rua dos Arneiros


Poucos ataíjenses saberão hoje que este nome – Caminho do Concelho – já foi dado à Rua dos Arneiros como se vê de uma escritura de 1912, na qual se identifica uma certa propriedade que então pertencia a Maria de Sousa, viúva de João Coelho, como:

“uma terra de semeadura no sítio dos Arneiros que parte de Norte e Poente com Caminho do Concelho, Sul com João Maurício e Nascente com Lourenço de Moura”.

Quando li esta escritura pela primeira vez fiquei muito intrigado, pois nunca ouvira tal designação. A explicação parece encontrar-se no plano de construções de estradas que foi levado a cabo a partir de 1850.

Nesse ano, ainda no reinado de D. Maria II e sob o governo de Costa Cabral, começou a definir-se (Carta de Lei de 22 de Julho de 1850) um ambicioso plano de obras públicas que havia de ter o seu grande desenvolvimento sob Fontes Pereira de Melo e incluía uma rede de estradas reais que deveria ligar Lisboa a todas as capitais de distrito e cada uma destas às capitais de distrito próximas e aos caminhos-de-ferro e portos e cometia aos municípios o encargo de construir uma rede de estradas municipais e intermunicipais para o que veio, aliás, a ser lançado um imposto municipal sobre os residentes.


Noutra altura falaremos sobre a resistência das câmaras em aceitar a sua parte do encargo. Por agora, apenas diremos que o primeiro caminho para a Ataíja de Cima a merecer a designação de estrada municipal foi o que, como ainda hoje, vai da Lameira, pelo Carvalhal e Ataíja de Baixo, à Ataíja de Cima e aos Casais de Santa Teresa, o qual foi classificado como estrada municipal de 2ª classe pelo Decreto de 28 de Julho de 1894:

Note-se, a título de curiosidade, as dificuldades do redactor com a palavra Ataíja.

Entenda-se a maior importância que o município deu a esta estrada, em detrimento da ligação a Aljubarrota que hoje nos pareceria mais lógica: O que a Câmara pretendia era a definição de uma rede de caminhos radiais que conduzissem das povoações à sede do concelho.

Note-se, ainda, que a classificação desta estrada não parece ter implicado, pelo menos na parte entre a Ataíja de Baixo e a Ataíja de Cima, a sua efectiva conformação com os requisitos técnicos mínimos legais aos quais, tanto quanto me lembro, ainda nos anos de 1960 não obedecia (não possuía, designadamente, em muitos pontos, a mínima largura de livre trânsito de 4 metros, exigida no Decreto de 31 de Dezembro de 1864).

Lembre-se, por outro lado que, na parte entre a Ataíja de Cima e a Ataíja de Baixo este é, em qualquer caso, um caminho moderno que, como já assinalámos (ver aqui) parece que ainda não existia no final do Séc.XVIII.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Da estrada do Diamantino ao IC9

Na “fronteira” entre a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa erguia-se, em meados do Séc. XX, o lagar de azeite conhecido localmente por lagar do Diamantino, por ter sido mandado construir e ser propriedade do comerciante alcobacense Diamantino dos Santos Vazão. O lagar foi desactivado já há algumas décadas e aí funciona, actualmente, uma oficina de serralharia e tornearia.

Para facilitar o acesso ao lagar, mandou o Diamantino construir um caminho desde o Largo do Outeiro, pela Rua das Seixeiras e, a partir daí, para nascente, até ao lagar no que foi, talvez e excluindo, naturalmente, a estrada de D. Maria Pia, a primeira estrada pavimentada existente por estes lados.

Da qualidade do trabalho então realizado diz bem o troço onde ainda é visível o pavimento inicial, entre a Rua das Seixeiras e o prolongamento da Rua das Hortas, o qual se mantém em muito bom estado de conservação, conforme se pode ver na fotografia seguinte, tirada em 15-08-2010:


 (Estrada do Diamantino)

Muito perto da Estrada do Diamantino estão agora em curso as obras de construção do IC9 que ligará a Nazaré a Tomar.

Desta estrada está já aberto à circulação automóvel o trecho entre Tomar (IC3) e Carregueiros, numa extensão de 8.350 metros, inaugurado em 30-03-2008 e encontra-se praticamente concluído o troço entre Carregueiros e Vale dos Ovos.

Quando estiver totalmente em funcionamento, o IC9, mudará profundamente o sistema de acessibilidades da nossa região uma vez que, cruzando a A8, o IC2 e a A1 e as linhas ferroviárias do Oeste e do Norte, facilitará extraordinariamente as ligações às principais vias de comunicação do nosso país, à Beira Interior e ao Norte Alentejano.

Espera-se, pois, que o IC9 venha a ter um importante impacte económico na nossa região, inclusive na área do turismo e do lazer, quer por facilitar o acesso ao litoral das populações do interior quer, sobretudo, por ligar três monumentos que fazem parte da lista do património mundial da UNESCO: Os Mosteiros de Alcobaça e da Batalha e o Convento de Cristo de Tomar e, ainda, o Santuário de Fátima.


(obras do IC9, junto à estrada entre Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa, vendo-se Aljubarrota ao fundo. Foto tirada em 15.8.2010)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Estrada do Lagar dos Frades

É a Estrada Municipal n.º 553 que liga o IC2 a Aljubarrota, por Ataíja de Cima e Cadoiço.


(Extracto da Folha 317 da Carta Militar de Portugal, Série M888, Escala 1:25.000, Edição 3, Instituto Geográfico do Exército, 2004)

Foi construída, no final dos anos quarenta do Séc. XX como, em Agosto de 1949, Joaquina Rosalia relata numa carta que enviou a seu marido José Coelho:

(NOTA: Resmo s.m. Aglomerado de aluvião, constituído por pequenas pedras, areia e terra argilosa que se extraía na base da Serra dos Candeeiros e se usava, à laia de touvenant, para compactar a superfície de estradas e caminhos. O resmo foi, ainda, largamente usado na construção da Estrada Nacional n.º 1, nos anos cinquenta.)

Esse foi, no entanto, um trabalho feito com fraca qualidade já que, lembro-me bem, logo nos final dos anos cinquenta, em grande parte do seu percurso, sobretudo nas zonas de ladeira (ao fundo da Igreja, nas ladeiras Grande e Pequena e na dos Caramelos), o macadame tinha desaparecido e, em seu lugar, ficaram as lages sobre que assentava.
Inicialmente chegava, apenas (o macadame, entenda-se), até à Lagoa Ruiva tendo sido prolongado até à Estrada Nacional nº 1 (actual IC2) aquando da construção desta.

A estrada do Lagar dos Frades foi alcatroada em meados dos anos setenta, por iniciativa de um grupo de naturais e residentes que incluía, entre outros, o meu pai e José (Coelho) Sabino, então ambos emigrados por Lisboa e que, para isso, fizeram fortes e prolongadas pressões junto da Câmara Municipal de Alcobaça (o meu pai, por noves vezes se deslocou, propositadamente, de Lisboa a Alcobaça).

A população deu trabalho, dinheiro, pedra e outros materiais, cedeu as faixas de terreno necessárias ao alargamento e a pequenas rectificações do traçado e reconstruiu os muros.

O traçado foi definido pelo funcionário da Câmara, Sr. Carrão que percorreu o centro da via transportando nos braços uma comprida vara cujas pontas assinalavam os bordos da estrada que se iam marcando com estacas.

Aquando do alcatroamento da estrada ficou clara, para quase toda a gente, a necessidade de se arrasar a sacristia da Capela de Nossa Senhora da Graça a qual se situava, então, do lado sul, provocando um forte estrangulamento da via.

Eu próprio fiz um desenho que serviu de base à construção da nova Sacristia, na cabeceira da Capela, tal como agora existe.

Estas obras decorreram num ambiente de grande entusiasmo, quase um levantamento popular (estávamos na ressaca do 25 de Abril e o ambiente que então percorreu o país, afectava toda a gente) que culminou numa rija festa.

As obras contaram, no entanto, com a oposição do "Mosca" apoiado por mais um ou dois residentes, entre eles José Veríssimo. Ora, este era conhecido por ter um feitio, digamos, rígido que facilmente arranjava inimizades. Foi assim que as posições se extremaram, com a oposição a fazer tudo para impedir as obras, incluindo chamar a GNR que chegou a pôr-se ao caminho (as obras estavam a ser feitas, aos fins-de-semana, por trabalho voluntário e sem licença) mas foi travada a tempo pelo Padre Ramiro que receou e bem os desacatos que poderiam resultar da intervenção policial.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ataíja nos mapas

Os mapas foram, historicamente, instrumentos especialmente úteis para a preparação da guerra e, após o início das grandes navegações, para localização de portos  (portulanos) e de acidentes importantes da costa. Mas eram coisa que não interessava muito aos cidadãos comuns que pouco se deslocavam em transporte autónomo e, por isso, não precisavam de mapas.
Só a partir da invenção do automóvel os mapas passaram a interessar a toda a gente. Daí que, no início do Séc. XX., tivesse começado por todo o lado a criação de clubes de automobilistas e a publicação de um grande número de mapas de estradas e de guias turísticos.
Em Portugal, o Automóvel Clube de Portugal foi fundado em 1903, tendo como presidente da Assembleia Geral o Infante D. Afonso, irmão do Rei D. Carlos e que era conhecido por "O Arreda", porque andava pelas ruas de Lisboa no seu automóvel aos gritos «Arreda, Arreda!» para que as pessoas saíssem da frente.
O ACP publicou o seu primeiro mapa das estradas de Portugal em 1928. Este mapa tem, desde então, tido uma publicação e actualização regular estando, actualmente, na 96ª edição.
Sendo, sem dúvida, um dos melhores mapas de estradas que se publica em Portugal tem, relativamente à Ataíja, um erro incompreensível e que se mantém desde sempre: apresenta a Ataíja sem fazer distinção entre Ataíja de Cima e Ataíja de Baixo e não mostra qualquer ligação ao IC2.
Há muitos anos que me interrogo sobre as razões do erro e, para além da explicação óbvia de não terem sido feitos levantamentos no terreno e de não terem sido levados em atenção os muitos mapas onde as estradas da região estão correctamente representadas, parece que a razão do erro se deve ao facto de o mapa ter sido desenhado a partir de informações escritas.
O que aparece no mapa é uma estrada que indo da zona da Lameira para o lado da serra, faz uma curva de noventa graus para norte no sítio onde deveria estar a Ataíja de Baixo, chega à Ataíja de Cima (referida apenas como Ataíja) e vai até Aljubarrota.

(excerto do mapa das estradas de Portugal Continental, Açores e Madeira, 96ª Edição 2008/2009, Automóvel Clube de Portugal. Note-se, a tracejado, o futuro IC9)

A que se deve o erro?
A meu ver, o desenho foi feito a partir da leitura de uma Nota, a páginas 630 do II Volume do Guia de Portugal, editado em 1927 onde, na descrição do caminho de Alcobaça para a Batalha, se diz:  "... à direita e ao fundo a serrania de Albardos. Não tarda a aparecer do mesmo lado a bela e verde baixa das Ataíjas." E, em nota: "Pode-se visitá-las tomando, a 4km,2 de Alcobaça, um ramal á dir. que, passando por - 600m Carvalhal, desce a - 2km,6 Ataíja de Baixo, 4km,6 Ataíja de Cima, 5km,6 Codoiço, vindo sair novamente à estr. da Batalha, depois de uma volta de 6km,8 em Aljubarrota."
Note-se, por outro lado, que o mapa de Caldas da Rainha e Arredores, inserto entre as páginas 600 e 601 do livro, representa as estradas de modo diferente. Apenas duas estradas, uma que ía da Lameira pelo Carvalhal até à Ataíja de Baixo e outra que ía de Aljubarrota ao Cadoiço, como abaixo se vê:

(lembremos que, em 1927, não existia IC2 mas, apenas os restos da Estrada de D. Maria I que nesse tempo já não passava de uma mera e muito deteriorada serventia agrícola e ainda não tinha sido macadamizada a estrada do lagar dos frades)

O erro do mapa do Automóvel Clube de Portugal é, ainda, incompreensível porque há muitas décadas o Instituto Geogáfico e Cadastral possui uma boa carta da Região onde as estradas estão representadas com grande rigor, como se vê do seguinte excerto da Carta Corográfica de Portugal, na escala 1/50.000, folha 26-B Alcobaça, 2ª Edição, 1969:



O texto do Guia de Portugal foi, muito provavelmente, escrito por Manuel Vieira Natividade que era amigo do coordenador da obra, Raúl Proença um importante intelectual republicano que era natural das Caldas da Rainha e conhecia bem Alcobaça. Manuel Vieira Natividade também conhecia muito bem a região (era natural do Casal do Rei) sobre a qual escreveu muito. E isso levanta outras dúvidas:
Porque não se fala, aqui do Lagar dos Frades? Muito provavelmente porque, naquele tempo, se tratava de uma unidade industrial em funcionamento e outros do mesmo tipo eram vulgares. Não era, ainda, percepcionado como um monumento.
Mais estranho, tratando-se de um guia para automobilistas é, para mim, a transitabilidade do caminho (pelos Arneiros) entre a Ataíja de Cima e a Ataíja de Baixo. Ainda em meados do Séc. XX todo este caminho era coberto de estrumeiras e, segundo parece, pouco mais de um século  antes da descrição do Guia de Portugal nem sequer existia....

(excerto de um mapa do final do Séc. XVIII mostrando a Ataíja)

Mas deste mapa falaremos noutra ocasião.