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terça-feira, 10 de abril de 2018

Naturais de Aljubarrota na Grande Guerra de 1914 - 1918



 Porta-Bandeira do Corpo Expedicionário Português. 
Aguarela do pintor e cenógrafo alcobacense Augusto Pina,
originalmente publicada na Revista Quinzenal ilustrada. Ano I, n.º 1, de 1 de Junho de 1917


Cumpriram-se ontem cem anos sobre a desastrosa batalha de La Lys[i] na qual o Corpo Expedicionário Português foi desbaratado por um poderoso exército alemão que, empenhando na ofensiva cerca de 55.000 homens bem armados, não teve dificuldade em vencer um cansado exército de cerca de 15.000 combatentes portugueses, na maioria, pobres camponeses analfabetos que não compreendiam as razões por que combatiam.  

Não é aqui o lugar para discutir a, ainda hoje, controversa participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, mas apenas para homenagear os soldados naturais de Aljubarrota (freguesias de S. Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres) que nela participaram e abaixo se identificam por nome, estado civil, posto, naturalidade (indica-se a naturalidade tal como consta da respectiva ficha)[ii] e filiação.

Foram eles:

António Alberto, solteiro, soldado, S. Vicente                                  
António Bernardo, solteiro, soldado, Casal do Rei                                          
António Carreira, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa                                       
António Carvalho, casado, soldado, Casais, (na morada da mulher - parente mais próximo - escreve-se Casais seguido de "da Fonte", rasurado).
António da Costa, casado, soldado, Prazeres (casado, mas indica como parente mais próximo um irmão residente na Maiorga)
António da Silva, 1º cabo, Aljubarrota                                 
António Ferreira, 2º cabo, Molianos                                     
António Gomes, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Francisco Gomes Froes e de Joaquina de Souza     
António João, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho de João António e África de Jesus
António Joaquim dos Santos, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Joaquim dos Santos e Agripina Joaquina      
Bernardino Coelho, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho natural de Joaquina Coelha. Foi ferido em combate. Punido, por duas vezes, com prisão disciplinar (25 + 4 dias)
Domingos Plácido, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Plácido dos Santos e Maria Luiza. Ferido em combate, veio a falecer três dias depois, em 23 de Outubro de 1917, sendo sepultado no cemitério de Merville, coval B.24 (a cerca de 10 km do Cemitério Português de Richebourg)
Elias Gomes, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Manuel Gomes e de Maria Rita
Ernesto da Silva, solteiro, soldado, Boavista, filho de Francisco da Silva e Maria da Encarnação 
Francisco de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista, filho de Luis de Oliveira e de Maria Roza (no índice consta como Francisco Silveira). Ferido por gases em 7-8-1917
João de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista de Baixo, filho de José de Oliveira e Gertrudes Dionízio. Ferido em combate em 4-2-1918. Louvado. Condenado em múltiplas penas de prisão e de detenção
João de Sousa, casado, soldado, Cadoiço, filho de Francisco de Sousa e Maria Luisa (a ficha diz que é natural de Prazeres, sendo a mulher residente no Cadoiço). Ferido em combate, em 3-4-1917.
João Natalino, solteiro, soldado, S. Vicente, filho de José Natalino e de Teresa André. Punido com 5 dias detenção por conduzir a galope o carro de que era condutor. Punido com 8 dias detenção por castigar com brutalidade uma das muares que lhe estava distribuída.
João Nogueira, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de Manuel Nogueira e Roza de Almeida       
João Ribeiro, casado, soldado, Chãos, filho de João Ribeiro e de Idalina dos Santos, casado com Palmira de Oliveira. Punido com 15 dias de detenção por desrespeito a um sargento.
João Vicente, solteiro soldado, S. Vicente, filho de Vicente dos Santos e de Maria Josefa.            
Joaquim Alexandre, solteiro, 1º cabo, Chãos, filho de António Alexandre e de Maria José. Ferido em combate em 3-7-1917. Faleceu na 1ª linha em virtude de ferimentos recebidos em combate em 20-10-1917. Sepultado no cemitério de Pont du Hem, coval n.º 18 (há-de, como os demais portugueses aí inumados, ter sido trasladado para o Cemitério Português de Richebourg-l'Avoué).
Joaquim Bernardo, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José Bernardo e Gertrudes Veríssima   
Joaquim Carlos, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de José Carlos e de Rosa Coelho. Ferido por gases em 7-8-1917. Em 1-1-1919 punido com 30 dias de prisão correcional (a ficha não indica o motivo).
Joaquim Clemente, solteiro, 1º cabo, Ataija de Baixo, filho de José Clemente e Respícia dos Santos        
Joaquim da Horta, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Luís da Horta e de Guilhermina Martins, casado com Teresa Ribeiro. Foi dado por incapaz para todo o serviço e evacuado para Portugal chegando a Lisboa em 1-10-1917.
Joaquim de Carvalho, solteiro, soldado, Chãos, filho de José Rito de Carvalho e de Francisca Teresa       
Joaquim Machado, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Machado e de Gertrudes Luísa. Ferido em combate, por estilhaços de granada, em 13-3-1918.
Joaquim Manuel, 1º cabo, Prazeres                                      
Joaquim Marques da Silva, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Teodoro Marques da Silva e de Ana Pedro dos Anjos. Condecorado com a medalha comemorativa da expedição a França.
Joaquim Martins, soldado, S. Vicente                                  
José António dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de António dos Santos e de Maria da Piedade.           
José Baltazar, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de António Baltazar e de Maria Rita  
José Branco, solteiro, soldado, Lameira, filho de José Francisco Branco e de Josefina de Jesus. Feito prisioneiro na Batalha de La Lys ou Batalha D'Armentières em 9-4-1918.
José Clemente, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de José Clemente e de Respícia dos Santos. Por razões de saúde que a ficha não indica, foi internado pelo menos 5 vezes no hospital, tendo sido expatriado em Fevereiro de 1919. Era irmão do Joaquim Clemente atrás listado.
José Coelho, solteiro, soldado, Cumeira de Baixo, filho de João Coelho e de Mariana Almeida   
José Constantino, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos. Embarcou em 10-10-1917 em Lisboa com destino a França. De regresso embarcou com a 12ª Bateria de Artilharia Pesada, em 11-5-1919, no "Pedro Nunes" e desembarcou em Lisboa em 14-5-1919. Por razões que a ficha não menciona, em 12-4-1918 embarcou para Inglaterra onde chegou no dia seguinte e, 7 meses depois, voltou a França onde desembarcou a 14-11-1918. Em 7-2-1919, foi punido com 10 dias de detenção "porque estando o Sargento de dia à Bateria perguntando a outra praça a razão por que não descascava batata, aquele sem que o Sargento de dia a ele se dirigisse, declarou que "se fosse com ele não a descascava".
Uma vez que a sua ida para Inglaterra se deu 3 dias depois do desastre deLa Lys, é de presumir que há relação entre os dois factos.
José da Silva, solteiro, soldado-corneteiro, Molianos, filho de Joaquim da Silva e de Maria Joaquina. Embarcou em Lisboa em 20-1-1917. Ferido em combate em 28-7-1917. Julgado incapaz para todo o serviço e de angariar meios de subsistência. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 12-11-1917.
José Dias, solteiro, 1º cabo, Quinta do Mogo, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias. Promovido a 1º cabo do quadro permanente em 26-2-1918
José Joaquim, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Maria Quitéria. Ferido em combate em 18-3-1918. Em 23-9-1918 foi punido com 10 dias de detenção por ter faltado à revista sem motivo justificado. (em PT AHM-DIV-1-35A-2-02-00591, as imagens m0004.jpg e seguintes são de documentos que se não referem a este soldado).
José Ribeiro, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Ermelinda de Jesus. Casado com Maria Nazária. Louvado pela forma como desempenhou os trabalhos de reparação de uma trincheira. Punido com 20 dias de prisão disciplinar por ser encontrado numa casa abandonada, abrindo armários e com algumas garrafas nas mãos. Punido com 5 dias de detenção por ter faltado aos trabalhos nas trincheiras.
José Rodrigues Correia, soldado, Aljubarrota                                    
Luís Dias, casado, 1º cabo, Ataíja de Cima, filho de António Dias e Maria Lourenço. Casado com Ana Dionísio. Promovido a 1º cabo miliciano em 20-8-1918. Conheci-o velho e alcoólico. Faleceu um dia em que, vindo da taberna na noite escura, se terá enganado no caminho para casa, tendo sido encontrado pela manhã, já morto. Sempre ouvi que tinha sido gaseado mas a ficha não o refere. Também usava o nome de Luís Dias Vigário e era conhecido por "Luís Barra". Quando eu era miúdo, era voz corrente que o seu alcoolismo derivava do facto de ter sido “gaseado” na guerra de França mas, a sua ficha não menciona que tenha sido gaseado.
Luís dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Izidro dos Reis e de Maria Joaquina. Ferido por desastre em serviço, em 24-10-1918.
Luís dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José dos Santos e de Maria Feverónia        
Manuel Augusto Pereira, solteiro, soldado-ferrador, Chequeda, filho de Augusto Joaquim e de Maria Fortunata Pereira. Punido com 4 dias de detenção por ter o arreio sujo. Punido com 4 dias de detenção por ter saído do aquartelamento sem polainas, em péssimo estado de asseio. Punido com 4 dias de detenção por ter mais de uma manta e a não entregar quando houve ordem para isso.
Manuel Carvalho, soldado, Chequeda, filho de Joaquim Carvalho e de Narcisa de Jesus. Desaparecido desde 3 de Junho de 1917, sendo feito prisioneiro, apareceu em 16-1-1919.
Manuel Faustino, solteiro, soldado, Molianos, filho de Manuel Faustino e de Adelina Santos. Em 14-2-1918 baixou ao hospital e em 18 seguinte foi considerado incapaz para todo o serviço. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 10 de Abril seguinte.
Manuel Norberto, solteiro, soldado,  S. Vicente, filho de António Norberto e de Maria Benta    
Manuel Rodrigues, soldado, Prazeres                                  
Manuel Teodoro de Sousa, casado, soldado, S. Vicente, filho de José Teodoro de Sousa e de Paulina dos Santos. Casado com Elísia Mónica. Julgado incapaz para todo o serviço regressou a Portugal em Julho, a bordo do "Gil Eanes".
Matias dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Isidoro dos Reis e de Maria Branca. Ferido em combate em 3-7-1917. Hospitalizado diversas vezes num total de mais de 250 dias. Punido, em 7-8-1918, com 8 dias de detenção por, tendo sido nomeado para a polícia do QGB, ter faltado alegando ter adormecido.
Nicolau Duarte, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Duarte e de Maria Joaquina. Punido com 4 dias de detenção por pretender iludir para quem se destinava um pouco de fruta verde que foi encontrada sobre um abrigo.
Silvério Augusto, solteiro, soldado-clarim, S. Vicente, filho de Augusto dos Santos e de Mariana Joaquina. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por na noite de 5 para 6 de Janeiro de 1919, ter num estabelecimento provocado distúrbios, ameaçando a dona da casa com uma navalha e dizendo que lá voltaria e faria ir pelos ares. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por no dia 2-2-1919 ter ameaçado duas francesas dentro do seu estament.
Silvestre Sousa, solteiro, soldado, Molianos, filho de José de Sousa e de Maria José. Punido com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura para serviço nas trincheiras.



Esta lista está eventualmente incompleta.
Faltam, talvez e além de outros, militares que sendo naturais de outras freguesias, tinham residência nas de Aljubarrota. Eu próprio tenho notícias de um Bento, talvez nascido no concelho de Porto de Mós mas que seria então residente na Ataíja de Cima, o qual não é incluído nesta lista por falta de prova documental.
Aos eventuais leitores que conheçam mais elementos relativos ao objecto deste texto, agradecem-se todas as informações que possam contribuir para o seu desenvolvimento e melhoramento



[i] La Lys, o rio Lis, é um rio no Norte de França, na região hoje denominada Hauts-de-France (Altos de França), na fronteira com a Bélgica.
[ii] Boletins Individuais de Militares do CEP. Disponíveis online no site do Arquivo Histórico Militar.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Aljubarrota, Prazeres. O ano de 1889 – Baptismos


A necessidade de alargar a ambas as antigas freguesias de Aljubarrota as pesquisas que sustentam os textos que aqui venho colocando, depara com alguns problemas de difícil solução. Sem embargo, as surpresas surgem-nos quando menos esperamos e disso é exemplo o livro de registos de baptismos da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, relativo ao ano de 1889.

Nesse ano foram baptizadas na freguesia 69 crianças, uma das quais exposta na Pedreira (Molianos). 39 eram rapazes e 30 raparigas e vieram à luz em 12 povoados diferentes, como se indica:
Boavista 13, Pedreira (Molianos) 12, Prazeres (casos em que o padre diz apenas que nasceram “nesta freguesia”) 10, Carvalhal 9, Chequeda e Lagoa do Cão 6 em cada, Lameira 4, Ganilhos 3, Fonte do Ouro e Covões 2 em cada e, finalmente, 1 no Carrascal e 1 exposta.

Destas crianças, 11 eram filhos naturais, quer dizer, de mãe solteira e, em regra, pai desconhecido[i].

Quem eram estas mães? Infelizmente, a idade das mães não consta dos registos de nascimento e, obter essa idade[ii] seria tarefa muito difícil e, em alguns casos, impossível. Não fora assim e talvez pudéssemos confirmar com números o que apenas intuímos: que a idade média das mães de filhos naturais é bastante precoce, designadamente por comparação com a idade das demais mães aquando do nascimento do seu primeiro filho legítimo[iii].

Sabemos, por outro lado, as suas profissões ou ocupações.
Quanto a este ponto, aliás, importa ter presente que, se por um lado o padre era em geral muito rigoroso, distinguindo, por ex. entre profissão, (fulano, pedreiro) e ocupação (sicrana, de ocupação doméstica) por outro lado, na maioria dos casos limitava-se a enunciar uma profissão como comum ao casal (António … e Maria … moleiros, por ex.). Há, ainda, que atentar que as profissões indicadas eram resultado do conhecimento pessoal do padre ou de declaração dos interessados. É, por isso, frequente a profissão de uma determinada pessoa variar de assento para assento. Proprietário aqui é lavrador acolá e trabalhador, ou jornaleiro, em outro assento.
O que podemos concluir com relativa segurança é que, proprietário ou lavrador, trabalhador ou jornaleiro, era pessoa que vivia da terra, fosse trabalhando, fosse mandando trabalhar.
Já quando se indica como profissão uma certa arte ou ofício, podemos considerar com alguma segurança que isso correspondia de facto a mister exercido, fosse a título exclusivo, principal, sazonal ou, até, ocasional.
Inequívoca é a indicação de que se trata de criado (ou criada) de servir. Aqui, não há qualquer espécie de dúvida. Trata-se de alguém que vive sozinho em casa de outrem, em regra em aldeia diferente da de nascimento e residência da família e aí trabalha, de cama e mesa.
O criado ocupa os lugares mais baixos da escala social, apenas acima do mendigo e a par ou abaixo do enjeitado[iv] que, quando era criado de leite, se tornava por vezes uma espécie de meio-irmão dos filhos da ama.

Quem eram, então, quanto à profissão/ocupação, as mães das 69 crianças nascidas na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres no ano de Graça de 1889?
41 eram jornaleiras, 11 lavradoras, 8 domésticas, de 4 não sabemos a ocupação, 3 eram criadas de servir e, por fim, temos 1 moleira e 1 proprietária.
Destas 69 mães, 11 foram mães solteiras, das quais o padre declarou serem 5 domésticas, 3 criadas de servir e sobre 3 não deu informação de ocupação/profissão.
Quanto à naturalidade dessas 11 mães, apenas 4 eram naturais da freguesia de Prazeres (e, presume-se, da aldeia onde foram mães[v]), 3 eram expostas, 2 da freguesia de Pataias, 1 do Valado dos Frandes e 1 de Alcanede.
Das 3 criadas de servir 2 eram da freguesia de Pataias e 1 exposta.
Note-se, ainda, que das 3 mães de que o padre não indicou profissão/ocupação 2 eram expostas.

Um ano é, obviamente, curto espaço de tempo para se tirarem conclusões. Mas, não podemos deixar de chamar a atenção dos nossos eventuais leitores para o elevado número de crianças nascidas de mães solteiras e, ainda, para o facto de que a maioria destas não era natural da freguesia. Tal como é de atentar em que 3 eram criadas de servir e de outras 3 não sabemos a ocupação, mas sabemos que 2 delas eram expostas e a terceira expôs[vi] o filho.
Seja, tudo aponta para que o isolamento familiar e social e a dependência são factores muito presentes nestes casos de maternidade de mulheres solteiras.

Como já acima referimos, uma das crianças foi exposta na Pedreira (Molianos). Trata-se de um caso apesar de tudo insólito, porquanto a exposição de crianças tinha geralmente lugar junto de estabelecimentos receptores (“rodas”) ou em locais onde, presumivelmente, haveria mais facilidade de a criança ser encontrada e acolhida. Abandonavam-se crianças às portas dos ricos, do padre ou da igreja na madrugada de domingo. Seria curioso saber quem era a Manoella da Piedade para, talvez, perceber porque é que a criança foi abandonada à sua porta e não à porta de outra pessoa:

“Aos dez dias do mês de Julho do anno de mil oito centos e oitenta e nove nesta egreja parochial de Nossa Senhora dos Prazeres d’Aljubarrota baptizei solennemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Arthur que foi apresentado em casa de Manoella da Piedade, casada, da Pedreira desta freguesia com um bilhete indicando o dito nome e declarando ser filho de Luiza Caçadora que o dera à luz no dia vinte dois de Junho último à meia-noite neto materno de António Rebotim e Maria Caçadora todos da freguesia do Vallado, concelho e diocese supraditos. Foi padrinho Raimundo Manoel, casado, jornaleiro e madrinha Manoella da Piedade, casada, de ocupação domestica, os quaes sei serem os proprios. E para constar lavrei em duplicado este assento,que depois de lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignou o padrinho e não a madrinha por não saber. Era ut supra.
Raimundo Manoel
O Parocho Joaquim Henriques Farto
”


Moderna “roda de expostos” num hospital de Dortmund, Alemanha.
Foto Reuters, picada do artigo “O regresso da roda dos expostos”, publicado no Expresso de 28.10.2012 (http://expresso.sapo.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582, consultado em 30-12-2017)





[i] Quase sempre, o pai não era, exactamente, desconhecido. Apenas, por razões diversas, não assumia a paternidade.
Note-se que, num destes casos, o pai era conhecido: “…filha natural de Joaquina da Piedade, solteira, de ocupação doméstica, natural da freguesia d’Alcaneide, concelho de Santarem, diocese de Lisboa e Raimundo Ferreiro, solteiro, trabalhador, natural do dito Carvalhal …”.
[ii] Em regra, por recurso aos assentos de casamento e óbito que, esses sim, indicam a idade do nubente ou falecido.
[iii] Legítimo era o filho concebido no âmbito do casamento de seus pais.
[iv] Ser criado de servir era, aliás, um destino natural dos enjeitados.
[v] E, onde viviam os seus pais.
[vi] Ou, alguém por ela.