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quarta-feira, 17 de abril de 2019

Évora nas Memórias Paroquiais de 1758



Quando comecei estas pesquisas o meu propósito era investigar, apenas, o passado Ataíjense. Mas, rapidamente percebi que tinha de alargar as buscas a toda a freguesia de São Vicente (e, agora, não há desculpa para não abranger a freguesia de Prazeres) e, por vezes, é absolutamente necessário ir até às freguesias vizinhas, como é o caso de Évora, Évora de Alcobaça que, aliás, sempre partilhou com as freguesias de Aljubarrota a povoação dos Molianos, ou da Pedreira como, durante séculos, foi chamada.
É por isso que, depois de ler e reler as respostas que o Coadjutor Luis Ferreira Fragoso deu ao inquérito pombalino de 1958[i], acabei por transcrever[ii] as ditas respostas e aqui as partilho com os eventuais interessados

(S. Tiago Maior - Baixo relevo na fachada lateral da sua Igreja em Évora de Alcobaça)

Évora de Alcobaça nas Memórias Paroquiais (1758)

Esta vila de Évora pertence à província da Estremadura do Patriarcado de Lisboa, Comarca de Leiria termo da mesma vila e freguesia.
Sam donatários dela os religiosos do Real Mosteiro de Santa Maria da Vila de Alcobaça
Compreende em si o número de trezentos e oitenta vizinhos tem pessoas de salvamento mil e vinte e menores duzentas e dez
Está situada em Monte donde se descobrem a Villa de Alcobaça, que dista meya légoa, o lugar da Vestearia que dista huma legoa, e a Villa da Cella, que também dista huma legoa
Tem termo seu o qual comprehende nove casais, o Casal da Ortiga que consta de cento e trinta e duas pessoas o Casal do Pereira que tem cinquenta e duas pessoas o Casal de Mendalvo que tem sessenta e nove pessoas, o Casal do Abegão que tem quarenta e oito, o Casal do Pinheiro que consta de cinquenta e três, o Casal dos Fragosos e Acipreste que tem cento e vinte e nove, o Casal do Arieiro que consta de cento e quarenta e uma pessoas,
O lugar da Pedreira e Portela tem cinquenta e quatro pessoas
A sua Parochia esta situada dentro da Villa.
O seu Orago e o Apostolo Sam Tiago Mayor, tem sinco altares, o Altar do Sacramento; hum de Nossa Senhora do Rosario; outro de Sam Sebastiam; outro da Santa Ana; e outro de Santo Andre; tem duas naves a Igreja; e tem quatro confrarias; huma do Santíssimo; outra da Senhora do Rosario; outra de Sam Sebastiam; e outra das Almas.
O Parocho da sua Igreja he Vigario, cuja apresentaçam he do Dom Abbade Geral do Mosteiro de Alcobaça; e tem de Renda duzentos mil Reis pouco mais ou menos.
Nam tem beneficiados.
Nesta Freguesia há hum Convento de Religiosos Arrabidos, de quem sam padroeiros os Religiosos de Sam Bernardo de Alcobaça.
Tem hospital esta villa do qual he Administradora a Santa Casa da Misericórdia, nam tem mais que quarenta alqueires de trigo e sete centos e sincoenta em dinheiro.
A dita Santa Casa da Misericordia nam há noticia da sua origem, por ser antigua, e tem de Renda sento e cinquenta mil Reis, e nenhuma das Referidas Casas tem cousa notável para referir.
Tem duas Ermidas ambas situadas fora desta villa, a saber huma de Sam Vicente outra de Santa Marta, pertencem, esta aos Relegiosos de Sam Bernardo, aquela aos moradores desta villa.
Nam concorre nellas gente de romagem antes por arruinadas, nem nellas estam os sanctos há alguns anos.
 A terra tem suficiente abundancia de todo o género de ...(?)… ainda que a mayor seja de frutas, azeite e trigo
He governada por dois juízes ordinários e pela Câmara da mesma villa
Nam he couto nem cabeça
Nam há memoria de que houvessem homens insignes em armas, letras e so de opinada (?) virtude Frei Joseph da Esperança Relegioso Arrabido
Nam festas nesta villa mais do que huma que (?) na feira no dia do orago da freguesia, a qual dura poucas horas e se cobra somente portagem
Nam tem correyo, e se serve do de Alcobaça, que dista desta Villa meya legoa.
Dista dezouto legoas da cidade de Lisboa, capital do Patriarcado, a que pertence esta villa.
Em si nam conserva previlegio, antiguidade, nem cousa digna de memoria.
Nam tem lagoa, nem fontes celebres, antes he falta de agoas, nas quais nam se tem examinado qualidades especiais.
De porto de mar esta distante duas legoas.
Nam he murada, praça de armas, nem em seu destrito há castelo nem torre antigua.
No terremoto de mil sete centos e cinquenta e sinco
Nam cahio casa alguma, e ainda que ficaram algumas paredes arruinadas, athe ao presente se nam tem feito nellas mais reparo, que alguns espeques que logo lhes puzeram.
No destrito desta freguesia e seu termo se nam comprehende de serra mais do que huma legoa, aonde tem dous pequenos lugares, e nella nam ha cousa alguma notável das referidas no Interrogatorio.
Nem tem rios de agoa nativa, mas tem dois que nam tem outra agoa, mays que a que recebem no tempo do Inverno.
O Coadjutor Luís Ferreira Fragoso



[i] O inquérito pombalino de 1758 tinha por objectivo averiguar dos prejuízos que o terramoto de 1755 tinha provocado por todo o país e, de caminho, recolhia-se um precioso conjunto de informações relativas a cada freguesia: se tinha rios, fontes, lagoas ou serras, castrelos, conventos ou outros edifícios notáveis, as pricipais produções agrícolas, as povoações que a constituíam e respectiva população, a que distância de situava das principais terras em redor, etc., etc.
Enviado, através dos Bispos diocesanos, a todos os párocos do Reino, as suas respostas foram reunidas num conjunto que ficou conhecido por Memórias Paroquiais, as quais constituem o maior acervo de dados que existe sobre o Portugal do Séc. XVIII e permitem construir um retrato bastante rigoroso do país naquela época.
As Memórias Paroquiais encontram-se digitalizadas e são de acesso livre no site da Torre do Tombo.
[ii] Eventuais erros ou deficiências da transcrição são, assim, da minha inteira responsabilidade.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Gémeos siameses no Carvalhal de Aljubarrota






Os gémeos siameses ou xifópagos, são gémeos monozigóticos, que dizer, formados a partir de um único zigoto.[i]
O termo "siameses" deve-se aos gêmeos Chang e Eng Buncker, que nasceram no Sião, (nome antigo da actual Tailândia), em 1811 e viveram até aos 63 anos, colados pelo peito.

Anunciados como os “gémeos siameses”, Chang e Eng tornaram-se célebres nos anos de 1830, em que viajaram pela Europa e Américas, fazendo exibições e proferindo palestras sobre a sua condição. Acabaram por se fixar nos Estados Unidos, na Carolina do Norte, e aí casaram, tiveram filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.

Vem isto a propósito de que as Inquirições ordenadas em 1758 pelo Marquês de Pombal aos párocos do Reino, continham, na sua primeira parte, uma questão, a última, com o número 27º, pelas respostas à qual se pretendia saber qualquer outro facto digno de memória que não tivesse sido referido nas respostas anteriores.
A pergunta era a seguinte:

27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?

As respostas àquelas Inquirições constituem as chamadas Memórias Paroquiais, de que já falamos várias vezes neste blog e havemos de voltar a falar, já que se trata do maior acervo de dados existente sobre o Portugal do Séc. XVIII.

Como sabemos, naquele tempo, havia em Aljubarrota duas paróquias, S. Vicente e Nossa Senhora dos Prazeres e o Carvalhal situava-se na área da paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, de que, aliás, era a aldeia mais populosa[iv], com setenta e seis vizinhos, mais do que a parte da vila de Aljubarrota que pertencia a esta paróquia[v].

O vigário de Nossa Senhora dos Prazeres, não refere em nenhum ponto das suas respostas o extraordinário caso que é o mote deste texto, quando é certo que ele é e, naquele tempo, certamente era, digno de memória quer por ser fenómeno relativamente raro quer, ainda, porque, face ao fraco desenvolvimento das ciências de então, o seu surgimento havia de ser causa de grande espanto, para dizer o mínimo.
Dos dois párocos locais, o único que a tão inusitado acontecimento se refere – metendo a pena em terra alheia - é o cura de São Vicente, que o faz nos seguintes termos:

“27º O que achei digno de memória nesta terra vay referido nas respostas antecedentes e só de novo acresce o dar noticia de que no lugar do Carvalhal, termo desta villa, algum tempo antes do terramoto de 1755 nasceo hua menina que tendo um so ventre tinha duas cabeças distintas hua da outra, porque cada hua tinha seu pescoço com boa formatura e com quatro braços, por modo de abrasos cingindos ao corpo com quatro pernas bem distinctas huas das outras e tambem proporcionadas como se fosse hua so creatura perfeita. Porem o ventre e peito era so hum e sem desformidade algua.”[vi]

A viva descrição permite-nos saber, sem dúvida, que se tratava de gémeos siameses encontrando-se, neste caso, as crianças ligadas pelo tronco.

O nascimento de duas gémeas xifópagas no início do séc. XII será o caso mais antigo de que há relato.
Em Portugal foram as bens sucedidas cirurgias de separação de gémeos siameses pelo Dr. Gentil Martins (v. Nota [ii]) que despertaram o interesse popular sobre o assunto.
No entanto, o relato mais antigo de que temos conhecimento sobre o nascimento de gémeos siameses em Portugal é de 1660. De facto, de acordo com o respectivo assento paroquial:



“No mesmo dia acima declarado (19.03.1660) nasceram nesta vila três crianças todas fêmeas de um ventre filhas de um … Francisco ferreiro e de sua mulher … … as quais levaram água do baptismo e duas delas vieram uma pegada na outra de modo que tinham um só ventre e quatro braços os quais se abraçavam ao pescoço do outro e duas cabeças e quatro pernas de modo que eram duas criaturas perfeitas somente terem uma conexão entre si unidas desde as coxas até quase os ombros as quais vi com meus olhos e as enterrei na capela do espírito santo desta vila (res admirabilis visu) e por me parecer cousa invulgaris lancei(?) aqui este termo o qual assinei no dezanove de março de seis centos e sessenta
Domingos Carvalho”
[vii]
(Barcelos, Freguesia de Santa Maria Maior / Arquivo Distrital de Braga / (Registo Civil) /
Concelho Barcelos / Freguesia Barcelos (Colegiada) / Anos 1570-1610 /Livro Nasc / Nº 1)


Um outro caso de gémeos siameses aconteceu, em 1704, no lugar de Casal de Deus, Freguesia de S. Pedro (então, S. Pedro da Beberriqueira), do concelho de Tomar. 
O espanto perante tais casos fica bem patente na anotação à margem do respectivo assento de baptismo:

"Casal de Deos / Monstro / Maria e outra /criança fêmea / ambas pegádas"




Não causou menor espanto o nascimento de duas gémeas siamesas ocorrido em 4 de julho de 1720 em Monserrate, Viana do Castelo.
Aqui, o espanto traduz-se por um detalhado assento, no qual o padre descreve as características do fenómeno, detalha as diligências relativas ao enterramento, face aos problema suscitados pelo facto de uma delas ter nascido morta e, por isso, haver dúvidas se haviam de ser ambas enterradas ou não em chão sagrado. Mas, o verdadeiramente interessante do assento é o facto de o padre o ter ilustrado com um desenho, aliás de boa qualidade mostrando como as meninas se encontravam ligadas pelo ventre.





File:ChangandEng.jpg
Chang e Eng, os Gémeos siameses. (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:ChangandEng.jpg)






[i] Zigoto é a célula que resulta da fecundação do gâmeta feminino pelo gâmeta masculino. Ovo.
[ii] O médico-cirurgião português António Gentil Martins separou sete pares de gémeos siameses, com nove sobreviventes. (in http://medicosportugueses.blogs.sapo.pt/1693.html, consultado em 16-8-2014).
[iii] Alegislação portuguesa permite a interrupção voluntária da gravidez, no caso de malformação do feto, até às 24 semanas.
[iv] Suficientemente grande para possuir duas capelas: “huma Ermida de Santo Amaro dentro do Lugar do Carvalhal, e outra de Sam Romão da parte de fora do mesmo lugar; ambas pertencem aos moradores deste mesmo Lugar”.
[v] Diz o vigário que esta parte da Vila de Aljubarrota tinha 65 vizinhos e 938 pessoas. Há, aqui, um óbvio lapso. O número de pessoas, a estar correcto, refere-se, certamente, à totalidade da paróquia.
[vi] Usamos, aqui, a transcrição do original tal como consta em Memórias Paroquiais, 1758, Volume III, João Cosme | José Varandas, (Introdução, Transcrição e Índices), edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2011.
[vii] Transcrição nossa, a partir da imagem digitalizada, em www.familysearch.org.

domingo, 25 de junho de 2017

Brasões Plebeus



Os nobres obtinham do rei a “carta de brasão” que os autorizava a mandar lavrar na pedra os símbolos do seu sangue, poder, propriedade e importância, pelo que compunham o brasão com os símbolos familiares dos seus antepassados, de onde lhes vinha a fortuna, a importância social e o poder.
Aos plebeus, sem antepassados ilustres para mostrar, quando queriam e podiam marcar a sua propriedade e importância, restava representavam-se a si mesmos, com o seu nome e a sua profissão, afirmando-se por si e pelo que faziam.

Em Alcobaça, terra de pouca Nobreza (ele era mais clero ordinário e povo trabalhando duro para pagar os foros) não se veem brasões que não os da Ordem, afinal, o verdadeiro e único Senhor feudal destes Termos.

Por outro lado, são por aqui vulgares uns outros brasões plebeus como o são as pedras da era[i] que vulgarmente e até há poucas décadas se colocavam sobre a porta principal da casa. Quase sempre, apenas uma pedra lisa com uma moldura simples e a inscrição em baixo relevo das iniciais do proprietário e o ano da construção da casa. Em casos mais antigos, por exemplo, na casa de Amélia Cordeiro, apenas a data (1794), inscrita na própria verga da porta.
 
Só conheço um caso em que às iniciais do proprietário se juntam as da esposa: a cisterna mandada construir pelo ti Manuel Luís: (16-8-1923/MLS|MG).

Pedras da era de desenho mais complexo são muito raras. A mais curiosa e diferente das demais existentes na Ataíja, é a que encima a porta da casa que foi de Manuel Rebelo.
O Manuel Rebelo que era natural de Turquel e casou na Ataíja com Joaquina Méla, filha de António Orelha e Joaquina Porfíria[ii]. Tinha a profissão de serrador[iii] e por isso, mandou lavrar a sua pedra da era com os símbolos da profissão: o machado e o serrote.



Também um destes dias, encontrei aqui bem perto, nas Pedreiras, uma inusitada padieira ostentando, esculpidos em alto relevo, os atributos profissionais do proprietário: O esquadro, o compasso, a maceta e o escopro. Ao centro, sobre a data, as iniciais do proprietário, entrelaçadas num complicado desenho onde se vê um J e uma outra letra que me parece um C mas, não o juro.
O proprietário da casa foi, certamente, o autor de tal padieira onde orgulhosamente lavrou, com técnica ingénua, denunciadora da falta de estudos artísticos[iv], os instrumentos da sua profissão de canteiro.
  


Os cemitérios são, de há muito, outro lugar privilegiado para cada um exibir o seu brasão, sendo conhecidas lápides funerárias romanas com reproduções de instrumentos de trabalho, como, por exemplo, uma groma (instrumento usado pelos agrimensores na medição de terrenos), em lápide encontrada no Vale de Aosta (Noroeste de Itália).
Entre os avieiros, os pescadores fluviais do Tejo que colhem o nome da Praia da Vieira (Leiria), local de origem dos primitivos pescadores que dalí emigraram no final do século XIX, é comum que nas lápides tumulares se mostrem esculpidos os objectos com que o falecido trabalhou em vida: redes, remos, canastras e peixes e, principalmente, barcos.
Segundo Alberto Costa e Silva,[v] em Moçâmedes (hoje Namibe, em Angola) há um cemitério com sepulturas de pedra, qualificadas por Gilberto Freyre como afro-cristãs, nesse cemitério, diz, não se enterravam os patrões brancos mas eram inumados os seus ex-escravos e serviçais e outros africanos cristianizados.
Diz ele que, aí as sepulturas, em regra uma lápide vertical com cerca de um metro de altura, são decoradas no alto com uma cruz e, em baixo, com relevos de instrumentos de trabalho (um martelo, uma enxada, um serrote), transportando para a lápide a antiga norma de colocar sobre a tumba as insígnias do ofício do morto.
Ainda segundo o mesmo autor, idêntico costume já tinha sido registado, na metade do século XVII, pelo capuchinho Giovanni Antonio Cavazzi de Monteccúcolo, na sua Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola: “punham-se sobre os túmulos dos nobres uma cadeira, o arco, as flechas e outros objectos de seu uso; sobre os dos plebeus, caveiras de feras para um caçador, cítara ou tambores para um músico, martelo e bigorna para um ferreiro”.

Também em Aljubarrota, em tempos idos, teve larga divulgação o uso de gravar instrumentos de trabalho nas lápides tumulares como, nas Memórias Paroquiais[vi], diz o Cura de S. Vicente:

“… pelas visitas[vii] desta freguesia da Era de 1595 em que esta igreja estava quase destruída porque se conservava só uma ermida já muito desbaratada que era a capela-mor desta igreja[viii], consta que era sagrada pelo que o visitador daquele tempo manda que seja reparada mas com a continuação dos tempos e poucas rendas veio de todo arruinar como está conservando só os vestígios com um grande cemitério cheio de muitas sepulturas com pedras brancas levantadas as cabeceiras com as insígnias dos ofícios de cada um ainda que estas hoje estão quebradas , mas ainda se distinguem em muitas os sinais.”[ix]
Sobre este assunto tinha dito o Padre Cardoso, 21 anos antes[x]:
Defronte da vila, duzentos passos de distância, se deixam ver as escassas relíquias da antiquíssima Igreja de Santa Marinha que, por tradição comum compreendia até a vila de Turquel, a duas léguas de distância. Divisam-se ainda hoje no seu adro as sepulturas com pedras lavradas por cabeceiras, com vários instrumentos de ofícios esculpidos, como são, arados e outras insígnias deste género.

Tal costume, de traçar nas lápides funerárias os símbolos da profissão do morto, desapareceu quase tão completamente como desapareceram os vestígios da misteriosa Igreja de Santa Marinha, de que ninguém parece fazer a mais pequena ideia de onde poderá ter existido.






[i] Pedra da Era porque, invariavelmente, dela consta a data da realização da obra em que se insere.
[ii] Como é evidente, tudo alcunhas.
[iii] E a alcunha, sendo conhecido por toda a gente como Manuel Serrador.
[iv] Repare-se como o esquadro se dobra para se sobrepor ao compasso, ou como o escopro “atravessa” o cabo da maceta.
[v] in Francisco Félix de Souza, mercador de escravos, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2004.
[vi] Transcrevemos, em português moderno, a partir de Memórias Paroquiais (1758), Vol. III, João Cosme e José Varandas (introdução, transcrição e índices), Caleidoscópio, Lisboa, 2011), página 25.
[vii] Visitas de inspecção às Paróquias, promovidas pelo Bispado de Leiria.
[viii] Igreja que terá sido a primeira sede da freguesia e terá existido, cerca de “trezentos passos, mais ou menos”, segundo o Cura, ou duzentos segundo o Padre Cardoso, a norte da actual e que terá entrado em ruína no Séc. XVI.
[ix] Negrito nosso.
[x]  Dicionário Geográfico. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Casal Novo - Uma aldeia abandonada

 


Ao consultar o mapa elaborado em 1791 para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria[i], verificámos que nele se identifica, a norte e muito próximo do Vale Vazão (aí designado Casal do Vazão), a localidade do Casal Novo de que falámos num texto publicado neste blog, em 2011 e, então julgávamos, erradamente, pertencer à freguesia de São Vicente de Aljubarrota.

Não é o caso uma vez que, de facto, o território onde se encontra a aldeia, agora em ruínas, do Casal Novo, integra a freguesia do Juncal. É certo que, num extremo dela, uma cunha apontada ao Vale Vazão, uma ponta de lança entrando em território de S. Vicente.

(Pormenor do Mapa da Estrada de Rio Maior a Leiria, de 1791)


Das Memórias Paroquiais, de 1758, não resulta claro se este Casal Novo já então existia ou não.
É que, na descrição dos lugares que constituem a freguesia do Juncal, diz o respectivo pároco[ii] que a Cumeira é aldeia que fica a uma distância de meia-légua para o lado do sul[iii] e tem 13 casas e quarenta e três pessoas e, “logo adeante”, fica Marco e Casal, “que tem dez fogos e pessoas vinte e cinco”.
E, mais não diz.

No entanto, tendo usado na ordem de descrição dos lugares da freguesia o critério de nomear primeiro os que ficam a norte e a poente da paróquia e, só depois, os que ficam a sul e a nascente, duvidas não há de que este “Marco e Casal” ficava (ou ficavam? Eram um ou dois povoados?) a sul da Cumeira (de Cima).
Aí, a poente da estrada nacional 8, ainda a carta militar de 1969 identificava o lugar de Casal Velho, nos nossos dias reduzido a uma “Rua do Casal Velho” e, a nascente daquela estrada e continuando para sudeste, o Casal de Além e o Casal Novo este, já então representado, sobretudo, por ruínas[iv].

Notícias concretas (notícias com gente dentro) do Casal Novo encontrámo-las nos registos paroquiais de São Vicente de Aljubarrota[v], do que é exemplo o casamento celebrado em 24 de Novembro de 1804, entre Joaquim Martins, natural do Casal Novo, onde residia e Ana Maria, da Maiorga. 
O pai do noivo era nascido no Casal Novo mas a mãe era natural da Ataíja de Cima, onde os noivos fixaram residência. 


Seja como for, este Casal Novo, foi um casal efémero que se encontra desabitado desde meados do Séc. XX[vi] e do qual, hoje em dia, apenas restam ruínas das construções há muito abandonadas.


Visitámo-lo há cerca de dois anos e as fotografias seguintes mostram o estado em que, então, se encontrava (Nota: O local é acessível por veículo todo o terreno ou bicicleta):

Um olhar atento (notem-se as janelas entaipadas) mostra-nos que, depois de deixar de servir de habitação, esta casa teve outros usos. 


A padieira com seu escarção (na Ataíja diz-se pavieira que, aliás, é forma igualmente aceitável).
Padieira ou verga é a peça (na construção tradicional de pedra ou de madeira) que fecha, superiormente, os vãos das portas e das janelas.
Escarção (aqui formado pelas duas pedras colocadas obliquamente sobre a padieira), é o arco que se coloca sobre a padieira para evitar que sobre ela recaia todo o peso da construção que lhe fica por cima (descarregando esse peso sobre as ombreiras). 
  
  

Aqui era uma cozinha, como se vê da parede suja de fumo e da reentrância destinada à guarda de alimentos e, ou, pratos, tachos e outros utensílios da cozinha. (Em casa da minha avó havia uma reentrância assim, a que ela chamava "a buraca" e tinha uma porta de rede. Aí se guardava o pão, o peixe frito, queijos, o açúcar, a massa e o arroz, etc.)


A Natureza tem horror ao vazio


Os do Casal Novo tinham uma bela vista para a serra dos Candeeiros


No meio da vegetação que tudo invade vislumbram-se os restos do que foi um forno de cozer pão.


Uma pedra de coice, (ou, coiceira), há muito inútil por falta de porta





[i] Sobre a Estrada de Rio Maior a Leiria (estrada de D. Maria Pia), consulte-se o interessante livro de Ricardo Charter’s de Azevedo, “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791”, colecção Tempos&Vidas-15, Edição Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] A Memória Paroquial do Juncal é acessível online em: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4240415
[iii] Da Igreja Paroquial, obviamente.
[iv] Na Carta Militar de 2004, já não aparece qualquer referência a Casal Novo. O local é agora identificado por Chão da Mança o que, aliás, nos remete para a enorme qualidade do Mapa de 1791 que, como se pode ver, já aí identificava uma “Fonte da Mança”.
[v] E, muitas mais há-de haver nos registos paroquiais do Juncal. Mas, isso já está fora do âmbito dos nossos estudos.
[vi] Tenho a informação de que ainda estará vivo no Vale Vazão, ou estava há poucos anos, o que terá sido um dos últimos habitantes do Casal Novo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

de Trás-da-Serra


Vista do outro lado, de “trás-da-serra”, era assim a Serra dos Candeeiros, em 6 de Abril de 1758, segundo o relatório do Pároco da freguesia de Serro Ventosos, o Cura Manoel Martins Vasconcelos, incluído nas chamadas Memórias Paroquiais (transcrevemos, com a devida vénia, do livro “Porto de Mós – Colectânea Histórica e Documental, Séculos XII a XIX”, do professor Saul António Gomes, editado em 2005 pelo Município de Porto de Mós, no âmbito das comemorações dos 700 anos de foral da Vila dado em 1305- pág. 908, Doc. 481):

(Optámos por manter a grafia original, tal como consta do livro de que a transcrevemos, certos de que a generalidade dos leitores não terá qualquer dificuldade em compreender a totalidade do texto.)

“Quanto a Serra que fica pera a parte do poente.
He um braço de serra que principia junto da villa de Porto de Mos a acaba junto a Rio Mayor. Tem quatro pera cinco legoas de comprido e quazi huma legoa de largura na distancia de duas legoas. Nam asiste[i] pessoa alguma em sima na Serra. Algumas terras tem que se coltivam. Os frutos que dam sam semente, milho e feygois, algum linho e tem por nome a Serra da Figueyra[ii], no destrito de tres legoas. Nam sey que nasça rio della, nem tem fonte ou lagoa, antes hé muito falta de agoa. Nesta vam pastar muntos gados de varias freguezias e algumas egoas de codelaria. Há nella muntas canteyras[iii] de pedra branca. Há também muitos fojos[iv] com grandes bocas alguns e muito fundos. Hé do mesmo temperamento que a outra Serra[v]. Há nella alguns lobos, muitas rapozas e senam foram as montarias que nella se fazem cada anno, ninguém poderia habitar nestas Serras. E huma que se fez o primeyro deste mês de Abril em que se mataram dous lobos e huma loba que tinha sette na barriga e quatro rapozas. Há também nesta Serra bastante alecrim, lingoa servina, munta arrodinha, munta erva alcar e alguma abertonica, algumas perdizes, poucas porquanto sam muntas as áves de rapina que as apanham que se criam nos pinhascos destas Serras, o que eu tenho visto muntas vezes.”

Para além dos mais aspectos curiosos do texto, designadamente as circunstanciadas referências à fauna selvagem, interessa-nos, agora, uma especial atenção às plantas medicinais existentes. Tenha-se presente que, em meados do Séc. XVIII, a medicina era muito insipiente e a maioria dos remédios eram bebidas, unguentos ou emplastros, obtidos por processos simples, a partir de plantas da flora local.
Daí, também, a importância que no texto adquire a descrição das, aos olhos do padre, mais importantes plantas medicinais existentes.

Vejamos, então, que plantas eram essas e quais as suas utilizações:

Alecrim - Alecrim - Planta de usos culinário, medicinal e religioso. Muito abundante na encosta ocidental da serra, tem vindo a regredir por força dos sucessivos incêndios e a ceder espaço ao carrasco.
O seu néctar dá ao mel um sabor característico e muito apreciado, pelo que é costume cultivá-lo perto das colmeias. Na Ataíja da minha infância não lhe conheci usos culinários nem medicinais. Apenas, se usava em defumadoiros e para queimar nas fogueiras dos santos populares.

Lingua servina - Língua-cervina, ou escolopendra. Trata-se de uma espécie de feto que era utilizada em infusões, como remédio para a diarreia e infecções intestinais.

Arrudinha – Arruda - Julgo que se trata da arruda (Ruta graveolens), cujas folhas eram usadas para fazer um chá calmante. Parece que também servia para combater os piolhos e tinha efeitos fortemente emenagogos quer dizer, capazes de restabelecer ou provocar a menstruação, podendo ser altamente perigosa quando usada com intenções abortivas. São-lhe, ainda, atribuídas uma série de qualidade mágicas sendo, designadamente, famosa pelos seus “poderes” contra o mau-olhado.
Um texto fácil e interessante sobre as “qualidades” da arruda pode ser lido em:

Erva alcar - Erva-alcar – Também chamada, apenas, alcar, ou alcária, é uma planta nativa do mediterrâneo, também chamada erva-das-sete-sangrias ou sargaço-híspido, erva-das-túberas e sargacinha. Tradicionalmente usada no tratamento de inflamações e úlceras.

Abertonica - Também chamada betónia-bastarda, cidreira-bastarda, etc., é uma planta que se encontra um pouco por toda a Europa, da Inglaterra à Turquia e é tradicionalmente usada para as dores de barriga, facilita a menstruação e alivia as dores menstruais e é indicada na cicatrização de feridas e no alívio da dor de contusões e inflamações


De facto, as aplicações medicinais tradicionais destas plantas são bem mais vastas do que as aqui referidas. Quem tiver muita curiosidade sobre o assunto pode procurar na internet onde existe muita informação (nem sempre de boa qualidade) designadamente, sobre plantas medicinais das serras de Aire e Candeeiros.






[i] Vive.
[ii] Como já referimos em outro post, a serra era conhecida por uma grande diversidade de nomes, sendo que o nome de serra dos Candeeiros não se encontra antes do Séc. XIX.
[iii] Pedreiras.
[iv] Covas, cavernas, algares.
[v] A outra serra a que o padre se refere e a que chamou Serra do Patelo e, actualmente, chamamos de Serra de Santo António é, diz ele, de temperamento demasiado frio, de tal sorte que no tempo frio congela a água.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Duas aldeias desaparecidas

Nota para os eventuais leitores: Este post contém erros factuais que serão brevemente corrigidos
JQ 17-12-2013
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O mapa das aldeias da nossa região tem-se mantido praticamente inalterado desde há vários séculos.

De facto, ainda hoje existe a grande maioria dos povoados mencionados na carta de doação dos Coutos de Alcobaça e, a maioria das capelas e igrejas existentes (indicadores bastantes seguros dos locais de povoamento), são do Séc. XVI ou anteriores.
No que, especificadamente, diz respeito a Aljubarrota (São Vicente) e tal como já referido em posts anteriores, em meados do Séc. XVII existiam as igrejas, capelas e ermidas de São Vicente o Velho, São Vicente o Novo (ambas junto ao limite norte de Aljubarrota), São João Baptista (nos Olheiros), Nossa Senhora das Areias (nos Chãos), São Sebastião (na Ataíja de Baixo), Santa Teresa (nos Casais de Santa Teresa, “nos Casais que estão além da Ataíja de Cima”, diz o Couseiro) e Nossa Senhora da Graça (na Ataíja de Cima).

Em meados do Séc. XVIII, mais exactamente, em 1758, o pároco de São Vicente, identifica os lugares da paróquia e a respectiva população e lá estão Aljubarrota (parte pertencente à Paróquia de São Vicente), com 263 pessoas, Ataíja de Cima, com 187, Casais de Santa Teresa, com 102, Chãos, com 92, Ataíja de Baixo, com 87, Cumeira de Baixo, com 72 e logo, com 57 pessoas em 20 fogos, Casais dos Belos.
Seguem-se, ainda, as povoações, mais pequenas, de Cadoiço, Pedreira (Moleanos), Casal do Rei e Vale Vazão com, respectivamente, 39, 30 19 e 11 habitantes.

Trinta e três anos depois, em 1791, no mapa elaborado para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria, identifica-se, a norte e muito próximo do Val Vazão (aqui designado Casal do Vazão), uma nova localidade: Casal Novo.

Este Casal Novo, do qual restam, ainda, vestígios das construções há muito abandonadas, terá deixado de ser habitado em meados do Séc. XX.

Não sendo mencionado nas Memórias Paroquiais, não existia, certamente, como povoação, no ano de 1758 (o Val Vazão, ali ao lado, tinha apenas três fogos habitados e foi mencionado).
A ser assim, mais do que um casal novo, este foi um casal efémero que terá durado cem anos ou pouco mais.

Por outro lado, temos os Casais dos Belos. Esta povoação, referida, como vimos, nas Memórias Paroquiais era, ao tempo, em 1758, com os seus 20 fogos e 57 pessoas, um povoado relativamente importante ao nível da Paróquia.
No final do Séc. XVIII, em 1794 e 1795 e, ainda, em 1831, habitantes dos Casais dos Belos celebraram, confirmadamente, escrituras relativas a empréstimos mutuários.
Seja, a designação Casais dos Belos usava-se ainda quarenta anos depois do mapa acima referido.
Isso, leva-nos a acreditar que se trata de lugares diferentes, que o Casal Novo e os Casais dos Belos são povoações diferentes.
Do Casal Novo, sabemos onde era, embora não saibamos as razões do seu abandono.



Dos Casais dos Belos, não há qualquer notícia, ou memória.
Volto, pois à interrogação que já deixei num post anterior:

Onde é que eram estes Casais dos Belos?


NOTAS:
A bibliografia em que se apoia este texto pode ser pesquisada, neste blog, em “Couseiro” e “Memórias Paroquiais”.
Sobre a Estrada de Rio Maior a Leiria (estrada de D. Maria Pia), pode consultar-se o interessante livro de Ricardo Charter’s de Azevedo, “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791”, colecção Tempos&Vidas-15, Edição Textiverso, Leiria, 2011.
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