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segunda-feira, 8 de junho de 2020

Mais Alcunhas Ataíjenses



O post Alcunhas Ataíjenses, aqui publicado em 21-05-2020, mereceu muitas reacções dos leitores, com alguns comentários no blog e muitos outros nas diversas partilhas no Facebook.
Isso é muito bom e sabe muito bem. Quando escrevemos e publicamos não sabemos o que pensam as pessoas que nos leem. Desta vez não foi assim. As pessoas manifestaram-se e mostraram-se agradadas e isso é um forte incentivo para continuar.
Muito obrigado.

Várias pessoas disseram que eu me tinha esquecido de uma ou outra alcunha. Não foi o caso. Como disse, a minha lista de alcunhas ataijenses é muito extensa. O que publiquei foi, apenas, uma selecção.
Mas, tentando satisfazer a curiosidade, vou de seguida tratar de algumas dessas alcunhas “esquecidas”.

Botas Alc. – Quando eu era pequeno, havia dois irmãos Botas: Maria e Manuel.
O Manuel era pastor em casa de Francisca Crispa, uma abastada proprietária da Ataíja de Baixo que foi bisavó do Joel Pereira.
A Maria Botas e o marido Matias de Horta, estavam, nesse tempo, já velhos e falidos e internados no Asilo, em Alcobaça. Lembro-me, era eu muito pequeno, de os ter visto, nas suas vestimentas asilares, de um tecido cinzento semelhante ao das fardas dos soldados, numa visita que fizeram a casa do meu avô que, aliás, ainda era parente dele.
Eram de família abastada, à escala local, tendo sido herdeiros e proprietários da "Serrada", a maior propriedade que havia à saída da aldeia, a caminho do lagar dos frades e da lagoa ruiva, propriedade que, como as demais, perderam por falta de tino, tendo na queda arrastado o Manuel, irmão dela, que era um simples.
Ao que parece, a Maria Botas e o Matias de Horta eram bastante avessos ao trabalho e as coisas lá em casa, passar-se-iam, mais ou menos, assim (reproduzo rigorosamente, como ouvi à minha avó):
Um: - O que é que comemos hoje?
O outro: - Mata-se o galo!
O primeiro: - E eu vou buscar (à taberna) cinco litros!

Cai-bem Alc. - Filho de Joaquina Méla e Manuel Sarrador (e já temos três alcunhas de uma assentada).
A alcunha deve-se ao facto de ter nascido com um defeito físico nos membros inferiores que hoje, sexagenário, o faz andar cambaleante e, quando pequeno, o fazia cair com frequência.
Da alcunha Méla, da mãe, não conheço a razão. De seu nome Joaquina, era filha de um António dito O Orelha e de uma outra Joaquina, dita Porfíria, por ser filha de um Porfírio dos Santos. Algumas das irmãs da Joaquina Méla tinham a alcunha de Traineira que, julgo, já herdaram da mãe (isto de uma pessoa ter mais de uma alcunha também era relativamente vulgar).
Traineira, sabemos o que é: um barco grande que balança nas ondas. Se bem me recordo de como era, em jovem, a tia mais nova do Cai-Bem, Traineira é uma alcunha que faz algum sentido.
O Sarrador, alcunha do pai do Cai-bem é, obviamente, da profissão. O Manuel Rebelo, Manuel Sarrador, veio de Turquel e construiu ou reconstruiu na Rua de Trás, a casa onde o Cai-Bem ainda vive e tem sobre a padieira uma bela pedra da era com os símbolos da profissão. Sobre isso há no blog o texto Brasões Plebeus .
De feitio conflituoso, o Sarrador envolveu-se mais de uma vez em zaragatas e morreu na sequência de uma delas. Assassinado, dizem alguns.

Cordeira Alc. – Maria Cordeira. Minha tia por afinidade, casada com o meu tio António Sapatada (que tinha esta alcunha por ser sapateiro). De seu nome completo Maria Cristina Coelho de Sousa, mas por toda a gente conhecida por Maria Cordeira, sabia ler e escrever, coisa rara naquele tempo e mais rara ainda, entre as mulheres.
Estou a vê-la, na casa de fora, aos Domingos, depois da missa, a receber um corrupio de mulheres a quem lia e escrevia as cartas dos e para os maridos, filhos ou namorados sazonalmente emigrados, “lá para Lisboa”.
A alcunha devia-a ao facto de ser filha de João Cordeiro, natural do Cadoiço (onde ainda reside a grande parte da família) que viveu na Ataíja de Cima na casa que ainda existe, dentro de um pátio, ao lado do Salão Cultural Ataíjense.
Este João Cordeiro merece ficar na memória dos ataijenses porque doou uma antiga casa, que a ele servia de palheiro, (ficava no adro da Capela, frente ao Salão) para aí se fazer a primeira escola da Ataíja de Cima, a qual funcionou entre 1933 e 1973 e onde estudei até à terceira classe.

Faxia Alc. - Francisco Machado, de alcunha o Faxia, a qual se transmitiu a filhos e netos. Foi casado com Luísa Gomes, esta natural dos Casais de Santa Teresa. Era irmão de Ana Coelho (Caseira), casada com José Lourenço e de Emília que casou nos Casais de Santa Teresa.
Foi criado, com os irmãos, numa casa de alpendre, do século XVIII e onde viveu, de empréstimo a minha tia
Papoila. Ficava no Fundo da Igreja à entrada da Rua das Hortas e foi demolida para, no seu lugar, se construir a de Manuel Matias.
Não conheço qualquer explicação para a alcunha e as palavras faxia ou fachia não constam em nenhum dos dicionários consultados.
Já quanto a
Caseira, não havendo por aqui quintas e, portanto, não havendo caseiros, sobra para a alcunha o significado óbvio de pessoa que fica ou gosta de ficar em casa. Como parece que aqui acontecia.
Papoila, era a alcunha porque foi conhecida a minha tia, irmã mais velha do meu pai. Ao que parece, por ser, tal como a flor campestre, um pouco leve (das ideias).

Mosca Alc. – António Faustino Ribeiro. A alcunha deveu-a a um sinal que tinha com a configuração do insecto.
Foi proprietário da primeira moto que existiu na Ataíja (de marca Norton ou AJS, as memórias dividem-se) e na qual, nos anos de 1950, veio a ter o acidente que determinou o futuro do seu amigo e "pendura" António Sabino que, tendo sofrido importantes sequelas que exigiram uma longa recuperação, com isso se afastou definitivamente do trabalho no campo, tomou conta da taberna que era de Luísa Ribeiro e, assim, iniciou a sua vida de comerciante e industrial.
Sabino, diga-se, também é alcunha. Um dos muitos casos em que o nome próprio do pai se transforma em alcunha dos filhos.
O Mosca casou com a Machicha, recentemente falecida, que era filha da Reboicha.
Machicha é mais uma alcunha cuja razão ou significado desconheço. Parecido é machucho, brasileirismo que significa, além do mais, grande, corpulento. Já maxixe é uma dança brasileira, espécie de batuque e, também, um fruto comestível, o chuchu.
Reboicha, significa mulher pequena e gorda. É uma alcunha familiar nos Casais de Santa Teresa onde há (ou havia) Reboichos e Reboichas.
O Mosca faleceu vítima de homicídio perpetrado por José Dias Pereira (José Tita), movido, este, por infundados ciúmes serôdios.

Rebolão Alc. – José Rebolão era filho de João Maurício e neto de Maurício dos Santos, um dos muitos expostos vindos do Hospital dos Expostos de Lisboa que foram criados e constituíram família na Ataíja de Cima.
Gente pobre, casou com Emília Mariano, natural do Cadoiço e moraram, durante anos, de empréstimo, na única casa de piso de terra que ainda conheci habitada na Ataija de Cima. Era a casa do Quintal da Rosalia, propriedade da Luísa Ribeiro. Ficava na Rua das Covas, onde hoje está um grande casarão, propriedade de um casal holandês.
Posteriormente, o José Rebolão comprou a casa que tinha sido do meu tio-avô António Agostinho, junto à igreja, para onde se mudaram.
No tempo da azeitona, o José Rebolão era o chefe do rancho de apanhadores que trabalhava para a Luísa Ribeiro. Noite escura ainda, percorria a aldeia tocando o corno (o corno era um grande búzio) para acordar os contratados que haviam de estar no olival ao nascer do sol pois, naquele tempo, no campo, trabalhava-se de sol a sol quer dizer, do nascer ao pôr-do-sol, situação que só depois da revolução de 1974 se alterou, passando a usar-se também no campo a jornada de oito horas.
Lembro-me de o José Rebolão ter licença para caçar aos coelhos com pau no que, ao que parece, era mestre.
Quanto à alcunha, dos diversos significados que os dicionários dão para rebolão, não se tratando, no caso de um homem gordo ou corpulento e não se vendo ligação com rebolo (pedra cilíndrica de amolar), talvez ela se deva a alguma gabarolice do alcunhado.
Pois, como se diz no Houaiss, rebolão é pessoa que conta bravatas, fanfarrão.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Alcunhas Ataíjenses


Até à República e à instituição do registo civil obrigatório, a generalidade dos portugueses tinha como única certidão da sua existência os assentos paroquiais de baptismo, casamento quando existia e, finalmente e já sem utilidade para o próprio, óbito.
No baptismo, a criança recebia, apenas, o nome próprio. Era a Maria ou o João, filha ou filho de fulano e beltrana, neta ou neto de cicranos. O apelido escolhia-o o próprio e dava-o ao assento no casamento ou numa escritura de negócio que eventualmente celebrasse. Mas, até lá, era imperioso que os que lidavam com ele, fossem capazes de o distinguir dos demais e, para isso, o nome próprio era insuficiente porque, Marias há muitas.
Daí que ao nome próprio se juntasse um outro, fosse um apelido, um nome ou uma alcunha familiar. Muitas vezes, nomes próprios dos pais tornavam-se apelidos dos filhos, outras vezes, eram as caraterísticas físicas, a profissão ou a terra de origem a impor a alcunha.
As alcunhas, muitas vezes ou quase sempre criadas pela comunidade e à revelia do interessado, quando apontam para características físicas, actos ou factos da vida, são, em geral, malvistas ou consideradas ofensivas pelos próprios.
Sem embargo, as alcunhas foram úteis, necessárias e, às vezes, indispensáveis para identificar devidamente as pessoas e muitas transformaram-se em apelidos e apelidos houve que se transformaram em alcunhas.
Agora, ajudam-nos a compreender melhor as comunidades onde se desenvolveram.
É esse o objectivo desta pequena selecção de alcunhas ataíjenses, escolhidas de entre as muitas dezenas que já inventariámos. Tentámos ir de A a Z, mas faltam-nos alcunhas começadas pelas letras H, I, U e X. Em contrapartida vão cinco alcunhas começadas pela letra M.

Álvaro Alc. - Joaquim do Álvaro (Joaquim, filho do Álvaro) tinha, em Aljubarrota, no Largo da Padeira, uma taberna e, ao lado desta, uma oficina de sapateiro. Nessas casas, funciona hoje o café-restaurante O Torcato (o Torcato é seu filho).
Aí paravam as camionetas da carreira e se faziam os despachos dos cabazes que se enviavam aos homens a trabalhar em Lisboa e se levantavam cartas e encomendas que tinham vindo nas mesmas camionetas da carreira. Nos fundos da loja havia uma divisão, onde os que tinham sido designados pelo Cabo-de-Ordens para transportar o caixão tinham direito a comer uma bucha à conta da família do falecido.
Quando ainda não havia telefone na Ataíja de Cima, telefonava-se para o Joaquim do Álvaro pedindo que mandasse recado, para que a pessoa com quem se queria falar lá estivesse a certa hora. Hora à qual se voltava a ligar para, então, falar com a pessoa desejada.
Badalhoiça Alc. - Desconheço a razão da alcunha. Há, no entanto, uma espécie de figos a que chamam badalhoiços e, segundo o blog Aveiras de Cima – Fotomemórias, também aí, em Aveiras de Cima, badalhoiça é alcunha.
Barra Alc. - A alcunha, transmitida a filhos e netos, já vem, pelo menos, desde Luís Dias ou Luis Dias Vigário que foi soldado no Corpo Expedicionário Português em França durante a 1ª Guerra Mundial, onde terá sido "gaseado". Era filho da Pota Sarrana.
Para o fim da vida era cliente assíduo da taberna e veio a falecer numa noite escura em que se enganou no caminho para casa, tendo sido encontrado morto na beira da estrada para Aljubarrota junto aos Caramelos.
Carvalha Alc. - Feminização de Carvalho. Joaquina Carvalho, era natural dos Casais de Santa Teresa (Casais de Baixo), foi casada com António Matias, falecido aquando da Pneumónica , mãe de Manuel, António e Joaquim Matias e de Delfina, falecida nas mesmas circunstâncias do pai.
Foi proprietária da casa alta do Outeiro.
Uma outra Carvalha, Maria Carvalho de Sousa, filha de João Luís de Sousa e de Rosalia Carvalho, foi freira no Instituto das Franciscanas Missionárias de Maria, com o nome religioso de Irmã Maria Amália Teresa.
Da Serra Alc. - Por ser natural de uma aldeia "de traz da serra". Transmitiu-se a filhas e netas que, apesar de nascidas e criadas na Ataíja, continuaram a ser "da Serra".
Esquininha Alc. - Ou Esquinica. Por Joaquininha, ou Joaquinica.
Frade Alc. - O ti'João Frade fez tropa em Cabo Verde por alturas da Segunda Guerra Mundial. Falando comigo em vésperas da minha partida para cumprir serviço militar na Guiné, sabendo que eu ia fazer escala em Cabo Verde, avisou-me: Tem cuidado Zé! Em São Vicente, até as pedras têm doenças venéreas!
O filho (Zé Frade) herdou a alcunha que era original do pai.
Guilhermina Alc. - Joaquina Guilhermina. Guilhermina era o nome próprio da mãe. Os irmãos, por sua vez, foram conhecidos por Guilhermino
Janita Alc. - Diminutivo de João (aplicável num único caso: João Rosa Dias).
Luísinha Alc. - Diminutivo para Luísa que continua a designar a nomeada, agora septuagenária. É filha do Pato-marreco e mãe do primeiro descendente de ataíjenses a formar-se em engenharia, João Pedro Dias Quitério, actualmente alto quadro no grupo Visabeira.
Mal-das-vinhas Alc. - Grande bebedor, era irmão do meu avô Quitério. A alcunha dever-se-à ao facto de não tratar bem das suas próprias vinhas, deixando-as cheias de ervas daninhas, designadamente, escalracho. Certa vez, interpelado por isso, terá respondido que o vinho nunca lhe tinha sabido a escalracho. Passou dias e noites inteiras na taberna, na Ataíja de Baixo, onde chegava a comer e dormir, bebendo e jogando.
Em dada noite, resolveu encomendar um coelho para a ceia na taberna. A taberneira, vendo o seu estado alcoolizado, achou que se podia aproveitar disso, mas quando chegou com o jantar, ouviu logo o responso: Então Maria! O coelho era coxo?
Mariola Alc. - De seu nome Manuel, era meio-irmão da minha avó paterna. Mariola (patife), talvez por ter sido o responsável involuntário (era ainda uma criança) pela queda da irmã (Marreca), o que lhe provocou a corcunda e o nanismo.
Antigamente, mariolas eram os moços de fretes e os que carregavam e descarregavam os barcos, mais tarde chamados estivadores
Minderico Alc. - Minderico é um natural de Minde. Havia dois Mindericos na Ataíja.
Um deles, Joaquim Constantino, era filho de José Constantino e herdou a alcunha do avô materno, Bento Minderico, do Casal do Rei. O outro, também Joaquim e também oriundo do Casal do Rei, foi casado com uma filha de Alfredo Ângelo, Assunção.
Eis um caso curioso de topónimo originalmente dado como alcunha, posteriormente transformado em apelido e, mais tarde, de novo, em alcunha, como tantas vezes acontecia.
Mira Alc. - Por ser natural de Mira de Aire. Foi proprietário de um olival que ia desde as traseiras do lagar de Luísa Ribeiro até à serra e onde, hoje, estão implantados os "Armazéns São Vicente", de um palheiro que ficava entre a escola e a adega de José Ribeiro e que está, agora, integrado no Adro e da casa e taberna na Rua das Seixeiras que, depois, foram do Petinga.
Deixou a Ataíja de Cima, em 1951, como se vê de uma carta escrita por Joaquina Rosalia a seu marido em 19-5 desse ano: “…José o mira vendeu tudo cuanto ca tinha eu compreilhe dois barris axeios baratos porque são muitos bons são novos so levaram vinho uma vez custaram 85$00 cada um não sei se tu ficaras contente ele já se foi embora para a Mira já cá não tem nada o Olival e a caza baixa é dum Senhor de Lisboa e a caza ca de Cima é do padrinho José maneta…”.
Morena Alc. - Maria da Assunção Gomes de Sousa. Nunca me pareceu especialmente morena mas carrega a alcunha desde pequena. Ficou órfã de mãe antes dos sete anos e a partir daí foi a verdadeira mulher da casa, embora com alguma ajuda da avó e das tias que eram vizinhas. Foi com essa idade que teve de começar a assegurar a lida da casa e a tomar conta dos dois irmãos mais novos. Sempre cantou e canta, muito bem.
Novo Alc. - Quim Novo, para se distinguir do tio, de idade próxima que, por sua vez, ficou Quim Velho desde criança.
Orelha Alc. - Alcunha de António Maria de Sousa, transmitido aos filhos. Um deles, igualmente António Maria de Sousa e, por isso, Júnior, era um pouco exuberante e tinha uma bicicleta, também ela com alcunha: Era o satélite.
Pequena Alc. – (ou Pequeno). Várias pessoas, sem ligação entre si, tinham a alcunha de Pequeno ou Pequena. Não tem a ver com tamanho, mas com o serem as crianças mais novas da família. Era a própria família que assim as denominava, para as distinguir de outro elemento mais velho com o mesmo nome próprio. Por vezes, a alcunha passou aos filhos (Da Pequena).
Qué-Pão Alc. - Assim andava a criança atrás da mãe, pedindo pão (tratava-se de José Maria Felismino, que toda a vida foi conhecido por Zé Qué-pão).
Redondo Alc. - Alcunha comum a dois meios-irmãos da minha avó paterna.
João Redondo era sapateiro e, como era uso naquele tempo, deslocava-se a casa dos clientes e aí ficava durante vários dias reparando, de uma vez, todo o calçado familiar e às vezes fazendo, de caminho, alguma obra nova. Lembro-me dele a concertar o calçado da família de José Ribeiro instalado no alpendre da casa que é hoje da Amélia. Foi casado com uma Emília natural de Aljubarrota e faleceu sem filhos.
António Redondo casou para os Milagres e na família era, por isso, chamado de "António dos Milagres".
Sabino Alc. - O nome próprio do pai transformou-se em alcunha dos filhos José e António e não do Arnaldo por óbvia desnecessidade, devido à singularidade do nome.
Tarasco Alc. - É natural dos Molianos. A alcunha já a trazia da sua terra e significa, diz o DPLP, arisco, impertinente, esquivo.
Veneno Alc. - Alcunha de João Augusto Lúcio, natural do Casal Boieiro, Pedreiras, onde residia e terá adquirido experiência trabalhando na extracção da pedra local que chamávamos de "pedra de cantaria", uma pedra bastante macia que foi usada para ombreiras de portas e molduras de janelas e, durante séculos, para fazer pias de azeite.
Foi o primeiro a explorar o Vidraço de Ataíja e, assim, o iniciador de uma revolução na economia local. Começou nos anos cinquenta do Séc. XX a escavar num terreno onde José Henriques (que foi, também, conhecido por José Neto e José Carago) veio a construir a sua casa, ao lado da actual pedreira “Caramelo 3”, propriedade da empresa Mármores Vigário, Lda, no sítio dos Caramelos.
Zé d’Avó Alc. - Eu próprio. Por ter sido criado entre os 3 e os 10 anos pela minha avó paterna, estando os meus pais emigrados em Lisboa, como leiteiros.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910



J. Leite de Vasconcelos queixava-se, em Antroponímia portuguesa: tratado comparativo da origem, sig­nificação, classificação, e vida do conjunto dos nomes próprios, sobrenomes…. Lisboa, Imprensa Nacional, 1928 (citado por  Nuno Gonçalo Monteiro, Os nomes de família em Portugal: uma breve perspectiva histórica, in etnográfica, maio de 2008, 12 (1): 45-58) que: “actu­almente há muita liberdade na escolha do apelido: cada pessoa toma, por assim dizer, o apelido que lhe parece, de que gosta, ou que lhe convém...”
De facto, antes da imposição do Registo Civil, o que só aconteceu sob o governo republicano, em 1911, não vigoravam em Portugal quaisquer normas legais que regulassem o uso dos apelidos.
A igreja católica, nos assentos de baptismo, registava, apenas, o nome próprio ou prenome. O apelido ou sobrenome, ou a conjugação de apelidos. ia-se consolidando ao sabor de acasos, gostos ou conveniências e só tinham consagração formal (escrita), em regra, pelo casamento[i].
O primeiro apelido era geralmente o paterno, embora se pudessem escolher livremente de entre os usados pelos pais ou pelos quatro avós e, até, o de padrinhos, patrões, ou amos no caso dos escravos, sendo frequentes os casos de irmãos que não usavam o mesmo apelido.
Na Ataíja de Cima, durante o Século XIX foi corrente, como veremos a seu tempo, a transformação em apelido de família do nome próprio do patriarca (como aconteceu, por exemplo, com Constantino, Veríssimo, Maurício ou Matias, entre outros).
Comum era, também, a transformação em apelido do lugar de origem ou da profissão.

Dos apelidos ou sobrenomes havemos, no entanto, de tratar em outra ocasião. Por agora, ficar-nos-emos pelos nomes próprios que, nome próprio, todos possuíam desde o baptismo.


Nos assentos de baptismo de São Vicente de Aljubarrota, entre os anos de 1875 e 1910 (excluindo os anos de 1860 a 1880, a cujos registos ainda não nos foi possível aceder), temos um total de 416 crianças nascidas na Ataíja de Cima, sendo 199 do sexo feminino, às quais foram atribuídos 29 nomes diferentes e 217 do sexo masculino, às quais foram atribuídos 22 nomes diferentes.

No caso dos nomes femininos, a uma maior diversidade corresponde uma maior concentração nos nomes mais comuns, com um único nome, Maria, a ser usado 83 vezes, a que corresponde um peso de 41,7%, seguido de Joaquina, a grande distância com 32 casos, correspondentes a 16%. O terceiro nome mais comum, Luísa, foi escolhido 17 vezes, correspondentes a 8,5%.
Treze nomes (44,8%), foram usados uma única vez.
  



Quanto aos nomes próprios masculinos, a uma menor diversidade (22 nomes) corresponde uma maior dispersão das preferências, com 8 nomes (36,4%) a serem usados uma única vez e
Os quatro nomes mais usados a oscilar entre os 17,1% (37 vezes) e os 14,7% (32 vezes).



Se nos ativer-mos, apenas, aos anos de 1785 a 1799, num total de 50 baptizados, 23 femininos e 27 masculinos, encontramos um total de 11 nomes femininos e 10 nomes masculinos.
Os nomes Maria e Joaquim já eram, neste período, os preferidos.

Na parte final do período em análise (1900/1910), por sua vez, em 58 baptizados (24 raparigas, 34 rapazes), assiste-se a uma drástica contracção na diversidade dos nomes femininos, agora reduzidos a 6 (quatro deles com apenas um caso) e fortemente concentrados em Maria e Joaquina, com 10 ocorrências cada, enquanto cada um dos demais quatro nomes ocorre apenas em um caso.
Esta situação, algo anormal, era bem apercebida pelos próprios locais, como o ilustra uma expressão corrente que ouvi muitas vezes:

Na Ataíja de Cima todas as mulheres são Marias ou Joaquinas. Nos Casais (de Santa Teresa) todas são ou Rosas ou Delfinas.

e decorria do costume - que se foi desenvolvendo com maior intensidade à medida do avanço do Séc. XIX – de impor ao baptizando o nome próprio do padrinho (ou da madrinha no caso de se tratar de rapariga)[ii], agravado, o costume, pelo facto de, tendencialmente, haver um restrito número de pessoas que, em geral por não terem filhos[iii] e, ou, serem gente de algumas posses, eram padrinhos preferenciais.

É que, ao padrinho, compete ajudar o afilhado e, como diz o ditado, “quem não tem padrinho morre mouro”.

Em muitos casos, o padrinho era encontrado dentro da família próxima, frequentemente, o avô ou a avó e, por essa via, se obtinha a alternância de nomes a cada duas gerações, como havia sido costume antigo das famílias ilustres.

Quando o padrinho era um tio, tal como quando era uma pessoa de fora da família, o novo elo do compadrio criado pelo apadrinhamento tinha uma tal importância que se sobrepunha às relações familiares.
Pais e padrinho deixavam de ser irmãos para passar a tratar-se, mutuamente, por “compadres”.

Voltando ao nosso tema;

A prof. Iria Gonçalves, no seu estudo Antroponímia das Terras Alcobacenses nos Fins da Idade Média[iv] analisa os nomes que se usavam na nossa região (nos Coutos de Alcobaça) em dois períodos do final da idade média, 1370-1400 e 1430-1460. Comparando os resultados a que a ilustre professora chegou com os que obtivemos – para a Ataíja de Cima - a partir dos assentos de baptismo da Paróquia de São Vicente de Aljubarrota nos anos entre 1785 e 1910 e, ainda, com os dados mais recentes relativos à totalidade do país[v], chegamos a interessantes conclusões:

No que diz respeito aos nomes próprios masculinos, apenas João aparece sempre entre os sete nomes preferidos sendo, aliás, o mais comum no final do Séc. XIV e em meados do Séc. XV nos Coutos de Alcobaça e, na actualidade, em Portugal. Na Ataíja de Cima, desde o final do Séc. XVIII ao início do Séc. XX, mantém-se bem posicionado e bastante estável ao nível das preferências.[vi]

A importância do nome Joaquim na Ataíja de Cima em 1785/1910, em que é o nome masculino mais comum, embora em acelerada queda na parte final desse período, deve-se, tal como se passa com o correspondente feminino, Joaquina, a razões particulares.[vii]



Quanto aos nomes femininos, é indiscutível a predominância do nome Maria, só interrompida, na Ataíja de Cima dos anos de 1900/1910 pelas mesmas razões particulares já referidas.
[viii] 









[i] Em casos extremos, mesmo isso podia não ser “suficiente” para dar à pessoa um apelido formal. Foi o caso de um casamento, celebrado em 9 de novembro de 1836, no qual a nubente é identificada, apenas, pelo nome próprio e filiação: Maria, filha de José Machado e Maria de Horta.  
[ii] A conferência dos padrinhos, mostra que assim é, de facto, como é evidente, por ex., nos casos dos nomes masculinos mais exóticos (Matias, Alfredo, Sabino, Porfírio).
O mesmo, com os nomes mais vulgares, como o feminino Joaquina onde, dos 27 casos recenseados, em 7 deles foi madrinha a mesma Joaquina Quitério.
[iii] É o caso da Joaquina Quitério referida na Nota anterior.
[iv] Publicado inicialmente em Do Tempo e da História, Vol. V, 1972, pág.s 159-200 e, posteriormente, em Gonçalves, Iria, Imagens do Mundo Medieval, Livros Horizonte, Lisboa, 1988, pág.s. 105-142
[v] Os dados relativos a Portugal, 2013, foram recolhidos em http://www.maemequer.pt/estou-gravida/prepare-a-chegada-do-bebe/top-50-nomes-mais-registados-em-2013, consultado em 20-2-2014
[vi] João era, tb., o nome mais comum na área do almoxarifado de Évora em 1475, entre os titulares do empréstimo contraído por D. Afonso V para financiar a guerra com Castela (conf. Gonçalves, Iria, Amostra de Antroponímia Alentejana do Séc. XV, igualmente incluído em Imagens do Mundo Medieval, referido na nota iv.
[vii] Entre 1795 e 1804 o Padre Joaquim de Sousa é padrinho de 5 rapazes, todos baptizados com o nome do padrinho.
[viii] Como já dito, Joaquina Quitério, casada, sem filhos e com fama de ser relativamente abastada foi, entre 1899 e 1910, madrinha, além de vários rapazes que aqui não importa contabilizar, de 7 raparigas, todas baptizadas com o nome da madrinha.