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segunda-feira, 8 de junho de 2020

Mais Alcunhas Ataíjenses



O post Alcunhas Ataíjenses, aqui publicado em 21-05-2020, mereceu muitas reacções dos leitores, com alguns comentários no blog e muitos outros nas diversas partilhas no Facebook.
Isso é muito bom e sabe muito bem. Quando escrevemos e publicamos não sabemos o que pensam as pessoas que nos leem. Desta vez não foi assim. As pessoas manifestaram-se e mostraram-se agradadas e isso é um forte incentivo para continuar.
Muito obrigado.

Várias pessoas disseram que eu me tinha esquecido de uma ou outra alcunha. Não foi o caso. Como disse, a minha lista de alcunhas ataijenses é muito extensa. O que publiquei foi, apenas, uma selecção.
Mas, tentando satisfazer a curiosidade, vou de seguida tratar de algumas dessas alcunhas “esquecidas”.

Botas Alc. – Quando eu era pequeno, havia dois irmãos Botas: Maria e Manuel.
O Manuel era pastor em casa de Francisca Crispa, uma abastada proprietária da Ataíja de Baixo que foi bisavó do Joel Pereira.
A Maria Botas e o marido Matias de Horta, estavam, nesse tempo, já velhos e falidos e internados no Asilo, em Alcobaça. Lembro-me, era eu muito pequeno, de os ter visto, nas suas vestimentas asilares, de um tecido cinzento semelhante ao das fardas dos soldados, numa visita que fizeram a casa do meu avô que, aliás, ainda era parente dele.
Eram de família abastada, à escala local, tendo sido herdeiros e proprietários da "Serrada", a maior propriedade que havia à saída da aldeia, a caminho do lagar dos frades e da lagoa ruiva, propriedade que, como as demais, perderam por falta de tino, tendo na queda arrastado o Manuel, irmão dela, que era um simples.
Ao que parece, a Maria Botas e o Matias de Horta eram bastante avessos ao trabalho e as coisas lá em casa, passar-se-iam, mais ou menos, assim (reproduzo rigorosamente, como ouvi à minha avó):
Um: - O que é que comemos hoje?
O outro: - Mata-se o galo!
O primeiro: - E eu vou buscar (à taberna) cinco litros!

Cai-bem Alc. - Filho de Joaquina Méla e Manuel Sarrador (e já temos três alcunhas de uma assentada).
A alcunha deve-se ao facto de ter nascido com um defeito físico nos membros inferiores que hoje, sexagenário, o faz andar cambaleante e, quando pequeno, o fazia cair com frequência.
Da alcunha Méla, da mãe, não conheço a razão. De seu nome Joaquina, era filha de um António dito O Orelha e de uma outra Joaquina, dita Porfíria, por ser filha de um Porfírio dos Santos. Algumas das irmãs da Joaquina Méla tinham a alcunha de Traineira que, julgo, já herdaram da mãe (isto de uma pessoa ter mais de uma alcunha também era relativamente vulgar).
Traineira, sabemos o que é: um barco grande que balança nas ondas. Se bem me recordo de como era, em jovem, a tia mais nova do Cai-Bem, Traineira é uma alcunha que faz algum sentido.
O Sarrador, alcunha do pai do Cai-bem é, obviamente, da profissão. O Manuel Rebelo, Manuel Sarrador, veio de Turquel e construiu ou reconstruiu na Rua de Trás, a casa onde o Cai-Bem ainda vive e tem sobre a padieira uma bela pedra da era com os símbolos da profissão. Sobre isso há no blog o texto Brasões Plebeus .
De feitio conflituoso, o Sarrador envolveu-se mais de uma vez em zaragatas e morreu na sequência de uma delas. Assassinado, dizem alguns.

Cordeira Alc. – Maria Cordeira. Minha tia por afinidade, casada com o meu tio António Sapatada (que tinha esta alcunha por ser sapateiro). De seu nome completo Maria Cristina Coelho de Sousa, mas por toda a gente conhecida por Maria Cordeira, sabia ler e escrever, coisa rara naquele tempo e mais rara ainda, entre as mulheres.
Estou a vê-la, na casa de fora, aos Domingos, depois da missa, a receber um corrupio de mulheres a quem lia e escrevia as cartas dos e para os maridos, filhos ou namorados sazonalmente emigrados, “lá para Lisboa”.
A alcunha devia-a ao facto de ser filha de João Cordeiro, natural do Cadoiço (onde ainda reside a grande parte da família) que viveu na Ataíja de Cima na casa que ainda existe, dentro de um pátio, ao lado do Salão Cultural Ataíjense.
Este João Cordeiro merece ficar na memória dos ataijenses porque doou uma antiga casa, que a ele servia de palheiro, (ficava no adro da Capela, frente ao Salão) para aí se fazer a primeira escola da Ataíja de Cima, a qual funcionou entre 1933 e 1973 e onde estudei até à terceira classe.

Faxia Alc. - Francisco Machado, de alcunha o Faxia, a qual se transmitiu a filhos e netos. Foi casado com Luísa Gomes, esta natural dos Casais de Santa Teresa. Era irmão de Ana Coelho (Caseira), casada com José Lourenço e de Emília que casou nos Casais de Santa Teresa.
Foi criado, com os irmãos, numa casa de alpendre, do século XVIII e onde viveu, de empréstimo a minha tia
Papoila. Ficava no Fundo da Igreja à entrada da Rua das Hortas e foi demolida para, no seu lugar, se construir a de Manuel Matias.
Não conheço qualquer explicação para a alcunha e as palavras faxia ou fachia não constam em nenhum dos dicionários consultados.
Já quanto a
Caseira, não havendo por aqui quintas e, portanto, não havendo caseiros, sobra para a alcunha o significado óbvio de pessoa que fica ou gosta de ficar em casa. Como parece que aqui acontecia.
Papoila, era a alcunha porque foi conhecida a minha tia, irmã mais velha do meu pai. Ao que parece, por ser, tal como a flor campestre, um pouco leve (das ideias).

Mosca Alc. – António Faustino Ribeiro. A alcunha deveu-a a um sinal que tinha com a configuração do insecto.
Foi proprietário da primeira moto que existiu na Ataíja (de marca Norton ou AJS, as memórias dividem-se) e na qual, nos anos de 1950, veio a ter o acidente que determinou o futuro do seu amigo e "pendura" António Sabino que, tendo sofrido importantes sequelas que exigiram uma longa recuperação, com isso se afastou definitivamente do trabalho no campo, tomou conta da taberna que era de Luísa Ribeiro e, assim, iniciou a sua vida de comerciante e industrial.
Sabino, diga-se, também é alcunha. Um dos muitos casos em que o nome próprio do pai se transforma em alcunha dos filhos.
O Mosca casou com a Machicha, recentemente falecida, que era filha da Reboicha.
Machicha é mais uma alcunha cuja razão ou significado desconheço. Parecido é machucho, brasileirismo que significa, além do mais, grande, corpulento. Já maxixe é uma dança brasileira, espécie de batuque e, também, um fruto comestível, o chuchu.
Reboicha, significa mulher pequena e gorda. É uma alcunha familiar nos Casais de Santa Teresa onde há (ou havia) Reboichos e Reboichas.
O Mosca faleceu vítima de homicídio perpetrado por José Dias Pereira (José Tita), movido, este, por infundados ciúmes serôdios.

Rebolão Alc. – José Rebolão era filho de João Maurício e neto de Maurício dos Santos, um dos muitos expostos vindos do Hospital dos Expostos de Lisboa que foram criados e constituíram família na Ataíja de Cima.
Gente pobre, casou com Emília Mariano, natural do Cadoiço e moraram, durante anos, de empréstimo, na única casa de piso de terra que ainda conheci habitada na Ataija de Cima. Era a casa do Quintal da Rosalia, propriedade da Luísa Ribeiro. Ficava na Rua das Covas, onde hoje está um grande casarão, propriedade de um casal holandês.
Posteriormente, o José Rebolão comprou a casa que tinha sido do meu tio-avô António Agostinho, junto à igreja, para onde se mudaram.
No tempo da azeitona, o José Rebolão era o chefe do rancho de apanhadores que trabalhava para a Luísa Ribeiro. Noite escura ainda, percorria a aldeia tocando o corno (o corno era um grande búzio) para acordar os contratados que haviam de estar no olival ao nascer do sol pois, naquele tempo, no campo, trabalhava-se de sol a sol quer dizer, do nascer ao pôr-do-sol, situação que só depois da revolução de 1974 se alterou, passando a usar-se também no campo a jornada de oito horas.
Lembro-me de o José Rebolão ter licença para caçar aos coelhos com pau no que, ao que parece, era mestre.
Quanto à alcunha, dos diversos significados que os dicionários dão para rebolão, não se tratando, no caso de um homem gordo ou corpulento e não se vendo ligação com rebolo (pedra cilíndrica de amolar), talvez ela se deva a alguma gabarolice do alcunhado.
Pois, como se diz no Houaiss, rebolão é pessoa que conta bravatas, fanfarrão.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Naturais de Aljubarrota na Grande Guerra de 1914 - 1918



 Porta-Bandeira do Corpo Expedicionário Português. 
Aguarela do pintor e cenógrafo alcobacense Augusto Pina,
originalmente publicada na Revista Quinzenal ilustrada. Ano I, n.º 1, de 1 de Junho de 1917


Cumpriram-se ontem cem anos sobre a desastrosa batalha de La Lys[i] na qual o Corpo Expedicionário Português foi desbaratado por um poderoso exército alemão que, empenhando na ofensiva cerca de 55.000 homens bem armados, não teve dificuldade em vencer um cansado exército de cerca de 15.000 combatentes portugueses, na maioria, pobres camponeses analfabetos que não compreendiam as razões por que combatiam.  

Não é aqui o lugar para discutir a, ainda hoje, controversa participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, mas apenas para homenagear os soldados naturais de Aljubarrota (freguesias de S. Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres) que nela participaram e abaixo se identificam por nome, estado civil, posto, naturalidade (indica-se a naturalidade tal como consta da respectiva ficha)[ii] e filiação.

Foram eles:

António Alberto, solteiro, soldado, S. Vicente                                  
António Bernardo, solteiro, soldado, Casal do Rei                                          
António Carreira, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa                                       
António Carvalho, casado, soldado, Casais, (na morada da mulher - parente mais próximo - escreve-se Casais seguido de "da Fonte", rasurado).
António da Costa, casado, soldado, Prazeres (casado, mas indica como parente mais próximo um irmão residente na Maiorga)
António da Silva, 1º cabo, Aljubarrota                                 
António Ferreira, 2º cabo, Molianos                                     
António Gomes, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Francisco Gomes Froes e de Joaquina de Souza     
António João, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho de João António e África de Jesus
António Joaquim dos Santos, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Joaquim dos Santos e Agripina Joaquina      
Bernardino Coelho, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho natural de Joaquina Coelha. Foi ferido em combate. Punido, por duas vezes, com prisão disciplinar (25 + 4 dias)
Domingos Plácido, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Plácido dos Santos e Maria Luiza. Ferido em combate, veio a falecer três dias depois, em 23 de Outubro de 1917, sendo sepultado no cemitério de Merville, coval B.24 (a cerca de 10 km do Cemitério Português de Richebourg)
Elias Gomes, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Manuel Gomes e de Maria Rita
Ernesto da Silva, solteiro, soldado, Boavista, filho de Francisco da Silva e Maria da Encarnação 
Francisco de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista, filho de Luis de Oliveira e de Maria Roza (no índice consta como Francisco Silveira). Ferido por gases em 7-8-1917
João de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista de Baixo, filho de José de Oliveira e Gertrudes Dionízio. Ferido em combate em 4-2-1918. Louvado. Condenado em múltiplas penas de prisão e de detenção
João de Sousa, casado, soldado, Cadoiço, filho de Francisco de Sousa e Maria Luisa (a ficha diz que é natural de Prazeres, sendo a mulher residente no Cadoiço). Ferido em combate, em 3-4-1917.
João Natalino, solteiro, soldado, S. Vicente, filho de José Natalino e de Teresa André. Punido com 5 dias detenção por conduzir a galope o carro de que era condutor. Punido com 8 dias detenção por castigar com brutalidade uma das muares que lhe estava distribuída.
João Nogueira, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de Manuel Nogueira e Roza de Almeida       
João Ribeiro, casado, soldado, Chãos, filho de João Ribeiro e de Idalina dos Santos, casado com Palmira de Oliveira. Punido com 15 dias de detenção por desrespeito a um sargento.
João Vicente, solteiro soldado, S. Vicente, filho de Vicente dos Santos e de Maria Josefa.            
Joaquim Alexandre, solteiro, 1º cabo, Chãos, filho de António Alexandre e de Maria José. Ferido em combate em 3-7-1917. Faleceu na 1ª linha em virtude de ferimentos recebidos em combate em 20-10-1917. Sepultado no cemitério de Pont du Hem, coval n.º 18 (há-de, como os demais portugueses aí inumados, ter sido trasladado para o Cemitério Português de Richebourg-l'Avoué).
Joaquim Bernardo, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José Bernardo e Gertrudes Veríssima   
Joaquim Carlos, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de José Carlos e de Rosa Coelho. Ferido por gases em 7-8-1917. Em 1-1-1919 punido com 30 dias de prisão correcional (a ficha não indica o motivo).
Joaquim Clemente, solteiro, 1º cabo, Ataija de Baixo, filho de José Clemente e Respícia dos Santos        
Joaquim da Horta, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Luís da Horta e de Guilhermina Martins, casado com Teresa Ribeiro. Foi dado por incapaz para todo o serviço e evacuado para Portugal chegando a Lisboa em 1-10-1917.
Joaquim de Carvalho, solteiro, soldado, Chãos, filho de José Rito de Carvalho e de Francisca Teresa       
Joaquim Machado, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Machado e de Gertrudes Luísa. Ferido em combate, por estilhaços de granada, em 13-3-1918.
Joaquim Manuel, 1º cabo, Prazeres                                      
Joaquim Marques da Silva, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Teodoro Marques da Silva e de Ana Pedro dos Anjos. Condecorado com a medalha comemorativa da expedição a França.
Joaquim Martins, soldado, S. Vicente                                  
José António dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de António dos Santos e de Maria da Piedade.           
José Baltazar, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de António Baltazar e de Maria Rita  
José Branco, solteiro, soldado, Lameira, filho de José Francisco Branco e de Josefina de Jesus. Feito prisioneiro na Batalha de La Lys ou Batalha D'Armentières em 9-4-1918.
José Clemente, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de José Clemente e de Respícia dos Santos. Por razões de saúde que a ficha não indica, foi internado pelo menos 5 vezes no hospital, tendo sido expatriado em Fevereiro de 1919. Era irmão do Joaquim Clemente atrás listado.
José Coelho, solteiro, soldado, Cumeira de Baixo, filho de João Coelho e de Mariana Almeida   
José Constantino, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos. Embarcou em 10-10-1917 em Lisboa com destino a França. De regresso embarcou com a 12ª Bateria de Artilharia Pesada, em 11-5-1919, no "Pedro Nunes" e desembarcou em Lisboa em 14-5-1919. Por razões que a ficha não menciona, em 12-4-1918 embarcou para Inglaterra onde chegou no dia seguinte e, 7 meses depois, voltou a França onde desembarcou a 14-11-1918. Em 7-2-1919, foi punido com 10 dias de detenção "porque estando o Sargento de dia à Bateria perguntando a outra praça a razão por que não descascava batata, aquele sem que o Sargento de dia a ele se dirigisse, declarou que "se fosse com ele não a descascava".
Uma vez que a sua ida para Inglaterra se deu 3 dias depois do desastre deLa Lys, é de presumir que há relação entre os dois factos.
José da Silva, solteiro, soldado-corneteiro, Molianos, filho de Joaquim da Silva e de Maria Joaquina. Embarcou em Lisboa em 20-1-1917. Ferido em combate em 28-7-1917. Julgado incapaz para todo o serviço e de angariar meios de subsistência. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 12-11-1917.
José Dias, solteiro, 1º cabo, Quinta do Mogo, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias. Promovido a 1º cabo do quadro permanente em 26-2-1918
José Joaquim, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Maria Quitéria. Ferido em combate em 18-3-1918. Em 23-9-1918 foi punido com 10 dias de detenção por ter faltado à revista sem motivo justificado. (em PT AHM-DIV-1-35A-2-02-00591, as imagens m0004.jpg e seguintes são de documentos que se não referem a este soldado).
José Ribeiro, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Ermelinda de Jesus. Casado com Maria Nazária. Louvado pela forma como desempenhou os trabalhos de reparação de uma trincheira. Punido com 20 dias de prisão disciplinar por ser encontrado numa casa abandonada, abrindo armários e com algumas garrafas nas mãos. Punido com 5 dias de detenção por ter faltado aos trabalhos nas trincheiras.
José Rodrigues Correia, soldado, Aljubarrota                                    
Luís Dias, casado, 1º cabo, Ataíja de Cima, filho de António Dias e Maria Lourenço. Casado com Ana Dionísio. Promovido a 1º cabo miliciano em 20-8-1918. Conheci-o velho e alcoólico. Faleceu um dia em que, vindo da taberna na noite escura, se terá enganado no caminho para casa, tendo sido encontrado pela manhã, já morto. Sempre ouvi que tinha sido gaseado mas a ficha não o refere. Também usava o nome de Luís Dias Vigário e era conhecido por "Luís Barra". Quando eu era miúdo, era voz corrente que o seu alcoolismo derivava do facto de ter sido “gaseado” na guerra de França mas, a sua ficha não menciona que tenha sido gaseado.
Luís dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Izidro dos Reis e de Maria Joaquina. Ferido por desastre em serviço, em 24-10-1918.
Luís dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José dos Santos e de Maria Feverónia        
Manuel Augusto Pereira, solteiro, soldado-ferrador, Chequeda, filho de Augusto Joaquim e de Maria Fortunata Pereira. Punido com 4 dias de detenção por ter o arreio sujo. Punido com 4 dias de detenção por ter saído do aquartelamento sem polainas, em péssimo estado de asseio. Punido com 4 dias de detenção por ter mais de uma manta e a não entregar quando houve ordem para isso.
Manuel Carvalho, soldado, Chequeda, filho de Joaquim Carvalho e de Narcisa de Jesus. Desaparecido desde 3 de Junho de 1917, sendo feito prisioneiro, apareceu em 16-1-1919.
Manuel Faustino, solteiro, soldado, Molianos, filho de Manuel Faustino e de Adelina Santos. Em 14-2-1918 baixou ao hospital e em 18 seguinte foi considerado incapaz para todo o serviço. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 10 de Abril seguinte.
Manuel Norberto, solteiro, soldado,  S. Vicente, filho de António Norberto e de Maria Benta    
Manuel Rodrigues, soldado, Prazeres                                  
Manuel Teodoro de Sousa, casado, soldado, S. Vicente, filho de José Teodoro de Sousa e de Paulina dos Santos. Casado com Elísia Mónica. Julgado incapaz para todo o serviço regressou a Portugal em Julho, a bordo do "Gil Eanes".
Matias dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Isidoro dos Reis e de Maria Branca. Ferido em combate em 3-7-1917. Hospitalizado diversas vezes num total de mais de 250 dias. Punido, em 7-8-1918, com 8 dias de detenção por, tendo sido nomeado para a polícia do QGB, ter faltado alegando ter adormecido.
Nicolau Duarte, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Duarte e de Maria Joaquina. Punido com 4 dias de detenção por pretender iludir para quem se destinava um pouco de fruta verde que foi encontrada sobre um abrigo.
Silvério Augusto, solteiro, soldado-clarim, S. Vicente, filho de Augusto dos Santos e de Mariana Joaquina. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por na noite de 5 para 6 de Janeiro de 1919, ter num estabelecimento provocado distúrbios, ameaçando a dona da casa com uma navalha e dizendo que lá voltaria e faria ir pelos ares. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por no dia 2-2-1919 ter ameaçado duas francesas dentro do seu estament.
Silvestre Sousa, solteiro, soldado, Molianos, filho de José de Sousa e de Maria José. Punido com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura para serviço nas trincheiras.



Esta lista está eventualmente incompleta.
Faltam, talvez e além de outros, militares que sendo naturais de outras freguesias, tinham residência nas de Aljubarrota. Eu próprio tenho notícias de um Bento, talvez nascido no concelho de Porto de Mós mas que seria então residente na Ataíja de Cima, o qual não é incluído nesta lista por falta de prova documental.
Aos eventuais leitores que conheçam mais elementos relativos ao objecto deste texto, agradecem-se todas as informações que possam contribuir para o seu desenvolvimento e melhoramento



[i] La Lys, o rio Lis, é um rio no Norte de França, na região hoje denominada Hauts-de-France (Altos de França), na fronteira com a Bélgica.
[ii] Boletins Individuais de Militares do CEP. Disponíveis online no site do Arquivo Histórico Militar.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Casamentos na Ataíja de Cima, na década de 1870 a 1879





Na década de 1870 a 1879, realizaram-se na Ataíja de Cima 15 casamentos.

Todos os noivos eram solteiros, com idade média de 32,4 anos, sendo que o mais novo tinha 22 e o mais velho 55 anos.
Das noivas, por sua vez, 12 eram solteiras e 3 (20% do total) viúvas, com idades compreendidas entre os 20 e os 48 anos, o que dá a média de 31,9 anos. Se considerarmos apenas as solteiras, a idade média desce para os 29,2 anos.
E, com isto se desfaz a idéia de que "antigamente" as pessoas casavam mais cedo.

Em um terço dos casos (5 casamentos) a noiva era mais velha do que o noivo (respectivamente, 7, 3, 11, 5 e 4 anos).
E, com isto se desfaz mais uma ideia feita: a de que a mulher tem de ser, sempre, mais nova que o marido.





O casal mais velho era constituído por António de Moura, de 55 anos, solteiro, e Maria dos Santos, de 44, exposta de Lisboa, viúva de Ângelo da Silva, falecido há, exactamente, um ano e uma semana.
Hoje em dia seria, talvez, objecto de fortes críticas a viúva (ou o viúvo) que voltasse a casar apenas um ano e uma semana depois do falecimento do primeiro cônjuge. Mas, quando estudamos factos acontecidos há tanto tempo (138 anos), é importante perceber que, naquela época, numa pequena aldeia rural, e sem apoios familiares (recorde-se que a Maria dos Santos era enjeitada e, assim, não tinha pai, mãe ou irmãos de sangue que, eventualmente, a pudessem auxiliar), era praticamente impossível a sobrevivência de uma mulher viúva, com filhos menores (Maria dos Santos era mãe de 4 filhos: Joaquim, de 21 anos, Luisa, de 19 e Cristina, de 13 e, ainda de Matias Ângelo, nascido a 20 de Novembro de 1859 e que viria a ser, no início do Séc. XX, o homem mais rico da Ataíja de Cima ).

O segundo casal mais velho, era constituído por Matias Coelho e Maria Felizarda, ambos solteiros, ele de 50 e ela de 44 anos de idade.

No acto do casamento, o Matias Coelho reconheceu a paternidade do filho Joaquim, então com dez anos de idade.
O que terá levado um homem de quase quarenta anos a conceber um filho numa mulher de quase trinta e quatro e, quando ambos estavam em boa idade de casar, a não casar nem reconhecer o filho, mantendo-se, durante dez anos a vê-lo crescer sem poder, ou querer, dar-lhe os carinhos e os ensinamentos de pai, enquanto era, certamente, objecto de falatórios de toda a aldeia, que havia de ser sabedora da progenitura e, só depois de tantos anos, finalmente, assumir a paternidade e o casamento?
Estas são perguntas cujas respostas só muito dificilmente viremos a conhecer. Mas, formulá-las serve para recordar que a vida é mais complexa do que, às vezes, parece.
Estes Matias Coelho e Maria Felizarda vieram a ser avós de António, Manuel e Joaquim Matias e, portanto, ascendentes de uma numerosa prole que constitue, hoje em dia, uma das grandes famílias da Ataíja de Cima e, esse, é o fim feliz da história do casal.


Nota: Este texto foi, originalmente, publicado neste Blog em 29-01-2014