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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Amonites


As amonites eram animais marinhos (moluscos), cefalópodes[i], com olhos laterais e tentáculos e possuíam uma concha encaracolada com câmaras. O animal vivia na 1ª câmara, servindo as demais como flutuadores.
Estes animais terão surgido há cerca de 400 milhões de anos, ainda na era paleozóica[ii], muito antes de quaisquer vertebrados. Assistiram ao aparecimento dos dinossauros, há cerca de 230 milhões de anos e desaparecem, uns e outros, há 65 milhões de anos.   
Actualmente, como último representante desta classe de animais, sobrevive ainda na zona sudoeste do Oceano Pacífico o náutilo, de que dois exemplares foram recentemente filmados nos mares da Papua-Nova-Guiné.

As amonites evoluíram rapidamente (enfim, em termos geológicos) e espalharam-se por todos os mares, de tal modo que, um pouco por todo o lado e um pouco por todos os estratos[iii] do Mesozóico, é possível encontrar fósseis de amonites e, porque há muitos tipos diferentes de amonites, sendo que cada tipo tende a apresentar-se distribuído por um estrato diferente, isso torna-as excelentes indicadores da idade geológica, permitindo datar rochas com grande precisão (inferior a um milhão de anos).

A Ataíja de Cima situa-se na margem oeste do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) e do Maciço Calcário Estremenho, o qual se terá começado a formar há cerca de 200 milhões de anos e se caracteriza por constituir a maior formação calcária de Portugal.
As suas rochas pertencem, na generalidade, ao período Jurássico designadamente ao Jurássico Médio, ou seja, ao período popularizado pelo cinema como o tempo dos dinossauros.
Por tal razão é fácil encontrar fosseis variados[iv] designadamente de amonites e, também se encontraram pegadas de dinossauro[v]. Estas pegadas, descobertas durante os trabalhos numa pedreira, têm cerca de 175 milhões de anos e são constituídas por diversos trilhos, entre os quais um com cerca de 147 metros de comprimento o que o torna o mais longo do mundo até agora conhecido.
E, se o trilho dos dinossáurios foi descoberto ao desmontar-se uma bancada (uma camada, um estrato) na “pedreira do Galinha”, no caso das amonites, em vários lugares do Maciço[vi], elas estão ali, à vista de toda a gente, embora seja nas pedreiras que mais facilmente se encontram. De facto, “Muitos dos locais privilegiados para observações de índole geológica correspondem a frentes de exploração em pedreiras que atualmente se encontram em atividade.”[vii]

As fotos seguintes mostram três amonites recentemente encontradas em pedreiras da região (concelhos de Alcobaça e Porto de Mós).

Esta amonite, com cerca de 50 cm de diâmetro, surgiu durante a movimentação do bloco que se partiu deixando ver o fóssil que se encontrava no seu interior.

Esta amonite, com cerca de 30 cm de diâmetro, surgiu numa situação semelhante à anterior sendo que, aqui, toda a amonite se soltou do bloco quando ele se fracturou.

Neste caso, o bloco não apresentava quaisquer sinais de conter a amonite que tem cerca de 30 cm de diâmetro. Apenas em fábrica e depois da serragem, se verificou que a serra tinha cortado longitudinalmente a amonite, praticamente pelo plano médio da concha, deixando cada metade numa chapa diferente.






[i] Classe a que pertencem os chocos, as lulas e os polvos. Cefalópode significa, literalmente, “com os pés na cabeça”
[ii] Uma escala do tempo geológico pode ser vista, por ex., no artigo com o mesmo título na Wikipédia: (https://pt.wikipedia.org/wiki/Escala_de_tempo_geol%C3%B3gico)
[iii] Como é fácil notar, nomeadamente nas arribas e nas pedreiras, os solos sedimentares são formados por camadas, estratos.
[iv] Na freguesia de Alcaria, Porto de mós, ocorre uma formação rochosa com tal quantidade de fósseis que é conhecida por “pedra-bicho”.
[v] O Monumento Nacional das Pegadas de Dinossáurio, fica situado na estrada de Ourém a Torres Novas, no extremo oriental do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. (ver: http://www.icnf.pt/portal/ap/nac/mon-nat-peg-dino-ourem-torres)
[vi] Em particular na zona da Fórnea, onde os geocachers já definiram um percurso a que chamam o “trilho das amonites” (ver: https://www.geocaching.com/seek/log.aspx?LUID=ca58a651-d0c7-4349-a466-538721e92fef&IID=c08fb6b3-d935-435d-be0b-c9f7793b6e3d)  
[vii] INEG, “Maciço Calcário Estremenho Caracterização da Situação de Referência” - Relatório Interno - Jorge M. F. Carvalho, Carla Midões, Susana Machado, José Sampaio, Augusto Costa e Vítor Lisboa, 2011, consultado em linha em 5-5-2016

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

de Trás-da-Serra


Vista do outro lado, de “trás-da-serra”, era assim a Serra dos Candeeiros, em 6 de Abril de 1758, segundo o relatório do Pároco da freguesia de Serro Ventosos, o Cura Manoel Martins Vasconcelos, incluído nas chamadas Memórias Paroquiais (transcrevemos, com a devida vénia, do livro “Porto de Mós – Colectânea Histórica e Documental, Séculos XII a XIX”, do professor Saul António Gomes, editado em 2005 pelo Município de Porto de Mós, no âmbito das comemorações dos 700 anos de foral da Vila dado em 1305- pág. 908, Doc. 481):

(Optámos por manter a grafia original, tal como consta do livro de que a transcrevemos, certos de que a generalidade dos leitores não terá qualquer dificuldade em compreender a totalidade do texto.)

“Quanto a Serra que fica pera a parte do poente.
He um braço de serra que principia junto da villa de Porto de Mos a acaba junto a Rio Mayor. Tem quatro pera cinco legoas de comprido e quazi huma legoa de largura na distancia de duas legoas. Nam asiste[i] pessoa alguma em sima na Serra. Algumas terras tem que se coltivam. Os frutos que dam sam semente, milho e feygois, algum linho e tem por nome a Serra da Figueyra[ii], no destrito de tres legoas. Nam sey que nasça rio della, nem tem fonte ou lagoa, antes hé muito falta de agoa. Nesta vam pastar muntos gados de varias freguezias e algumas egoas de codelaria. Há nella muntas canteyras[iii] de pedra branca. Há também muitos fojos[iv] com grandes bocas alguns e muito fundos. Hé do mesmo temperamento que a outra Serra[v]. Há nella alguns lobos, muitas rapozas e senam foram as montarias que nella se fazem cada anno, ninguém poderia habitar nestas Serras. E huma que se fez o primeyro deste mês de Abril em que se mataram dous lobos e huma loba que tinha sette na barriga e quatro rapozas. Há também nesta Serra bastante alecrim, lingoa servina, munta arrodinha, munta erva alcar e alguma abertonica, algumas perdizes, poucas porquanto sam muntas as áves de rapina que as apanham que se criam nos pinhascos destas Serras, o que eu tenho visto muntas vezes.”

Para além dos mais aspectos curiosos do texto, designadamente as circunstanciadas referências à fauna selvagem, interessa-nos, agora, uma especial atenção às plantas medicinais existentes. Tenha-se presente que, em meados do Séc. XVIII, a medicina era muito insipiente e a maioria dos remédios eram bebidas, unguentos ou emplastros, obtidos por processos simples, a partir de plantas da flora local.
Daí, também, a importância que no texto adquire a descrição das, aos olhos do padre, mais importantes plantas medicinais existentes.

Vejamos, então, que plantas eram essas e quais as suas utilizações:

Alecrim - Alecrim - Planta de usos culinário, medicinal e religioso. Muito abundante na encosta ocidental da serra, tem vindo a regredir por força dos sucessivos incêndios e a ceder espaço ao carrasco.
O seu néctar dá ao mel um sabor característico e muito apreciado, pelo que é costume cultivá-lo perto das colmeias. Na Ataíja da minha infância não lhe conheci usos culinários nem medicinais. Apenas, se usava em defumadoiros e para queimar nas fogueiras dos santos populares.

Lingua servina - Língua-cervina, ou escolopendra. Trata-se de uma espécie de feto que era utilizada em infusões, como remédio para a diarreia e infecções intestinais.

Arrudinha – Arruda - Julgo que se trata da arruda (Ruta graveolens), cujas folhas eram usadas para fazer um chá calmante. Parece que também servia para combater os piolhos e tinha efeitos fortemente emenagogos quer dizer, capazes de restabelecer ou provocar a menstruação, podendo ser altamente perigosa quando usada com intenções abortivas. São-lhe, ainda, atribuídas uma série de qualidade mágicas sendo, designadamente, famosa pelos seus “poderes” contra o mau-olhado.
Um texto fácil e interessante sobre as “qualidades” da arruda pode ser lido em:

Erva alcar - Erva-alcar – Também chamada, apenas, alcar, ou alcária, é uma planta nativa do mediterrâneo, também chamada erva-das-sete-sangrias ou sargaço-híspido, erva-das-túberas e sargacinha. Tradicionalmente usada no tratamento de inflamações e úlceras.

Abertonica - Também chamada betónia-bastarda, cidreira-bastarda, etc., é uma planta que se encontra um pouco por toda a Europa, da Inglaterra à Turquia e é tradicionalmente usada para as dores de barriga, facilita a menstruação e alivia as dores menstruais e é indicada na cicatrização de feridas e no alívio da dor de contusões e inflamações


De facto, as aplicações medicinais tradicionais destas plantas são bem mais vastas do que as aqui referidas. Quem tiver muita curiosidade sobre o assunto pode procurar na internet onde existe muita informação (nem sempre de boa qualidade) designadamente, sobre plantas medicinais das serras de Aire e Candeeiros.






[i] Vive.
[ii] Como já referimos em outro post, a serra era conhecida por uma grande diversidade de nomes, sendo que o nome de serra dos Candeeiros não se encontra antes do Séc. XIX.
[iii] Pedreiras.
[iv] Covas, cavernas, algares.
[v] A outra serra a que o padre se refere e a que chamou Serra do Patelo e, actualmente, chamamos de Serra de Santo António é, diz ele, de temperamento demasiado frio, de tal sorte que no tempo frio congela a água.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Festa em Honra de Nossa Senhora da Graça


Há mais de duzentos e cinquenta anos, em 1747, já se realizava na Ataíja de Cima a festa em honra de Nossa Senhora da Graça, como nos dá conta o Dicionário Geográfico do Padre Luiz Cardoso.

 Naquele tempo, no entanto, era a festa celebrada na oitava do Natal (dia de Ano Novo) e, 11 anos depois, de acordo com o relato do Pároco de São Vicente, no relatório de 1758 inserto nas chamadas Memórias Paroquiais, a ela acudia bastante gente dos povos vizinhos.

 Assim continua a ser nos dias de hoje, já não na oitava do Natal nem, como sucedeu há uns anos atrás em fins-de-semana diversos, no mês de Maio mas, como era tradição e até quando remontava a memória dos vivos do lugar, no dia 2 de Fevereiro. 

A procissão à Serra, que é o momento alto da festa, talvez se realize há menos tempo, uma vez que nenhum desses antigos textos a refere. Certo é que se realiza há mais anos do que alcança a memória dos vivos. Antes para abençoar os olivais e, agora que já quase não há olivais, para abençoar os campos – embora, diga-se, também estes tenham sido, em grande parte, substituídos pela indústria e já não desempenhem na vida ataíjense o lugar central que foi seu durante tantos séculos. 

Seja como for, o São Pedro que, como se sabe, preside à meteorologia, resolveu intervalar no rigoroso inverno, brindando-nos com um Domingo de clima ameno e sem chuva, o que propiciou a uma razoável multidão subir à Serra, como o fizeram os seus antepassados.


O dia começa com o peditório na aldeia. Aqui, o Francisco Quitério nas suas funções de juíz da festa:

 
 

O local até onde vai a procissão é marcado por um cruzeiro (erigido no ano de 1949 pela respectiva comissão de festas, de que foi juiz o meu pai):



Daí, tem-se uma larga vista que vai até à Nazaré:

 
 No limite das propriedades privadas com o baldio serrano, pode-se passear numa vereda chamada o Caminho do Guarda:


 
 Depois de uma caminhada de pouco mais de 2 km, a procissão aproxima-se do seu destino:  
 

O Sr. Padre Ramiro na sua alocução aos fiéis:



Cumprida a tradição e a devoção religiosa, a tarde prolonga-se em convívio que contou com a animação do Rancho Folclórico dos Casais de Santa Teresa, aqui, aguardando o momento de iniciar a sua actuação:


E, uma comissão de festas jovem, inovou apresentando, com grande sucesso,  uma quermesse que era uma farmville ao vivo, onde as rifas premiadas davam direito a levar para casa legumes e frutas, ovos e uma grande quantidade de bichos, de coelhos a galinhas e, até, um porco (uma porca, como se vê pelo colar):

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Gisbarbeiro


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Gisbarbeiro s.m. - Gilbardeira (António Flor, in “Plantas a proteger no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros”, edição do Instituto da Conservação da Naturesa, 2005), diz que o nome gilbardeira foi corrompido, localmente, para gisbardeira.
António Houaiss, in “Dicionário Houaiss da Lìngua Portuguesa”, edição do Círculo de Leitores, Lisboa, 2002, anota, ainda, as variações: gibaldeira e gilbarbeira e outras denominações: azevinho-espinhoso, azevinho pequeno, erva-de-basculho, erva dos vasculhos, murta-espinhosa e brusca, derivando, este brusca, do carácter espinhoso, rude, áspero da planta.
Conforme as regiões adquire, também, outras denominações: azevinho-menor, rusco, pica-rato e sazevinho-menor.

Há que acrescentar que na Ataíja se diz, como quase sempre ouvi dizer, gisbarbeiro ou - também já ouvi - xisbarbeiro).

Trata-se, o gisbarbeiro, Ruscus aculeatus L., (e seguimos A. Flor, op.cit.), de uma planta herbácea, perene e rizomatosa, com altura até um metro e numerosos ramos laterais de onde partem pequenos ramos achatados, simulando folhas que terminam em espinho. As flores são pequenas e de cor branca e os frutos são bagas globosas vermelhas.

Pela sua semelhança com o azevinho (o arranque, corte total ou parcial, transporte e venda do azevinho, Ilex aquifolium L., também conhecido por pica-folha, visqueiro ou zebro, foram proibidos pelo DL n.º 423/89, de 4 de Dezembro) é colhida e usada em substituição deste, sobretudo na época do Natal, para usos ornamentais.

O gisbarbeiro é, ainda, relativamente vulgar na região da Ataíja de Cima. No entanto, o seu interesse decorativo pode vir a pôr esta espécie em risco, como já antes pôs o azevinho e muitas outras espécies. Exige-se, pois, moderação e responsabilidade no corte de ramos destas plantas. Afinal, nenhum de nós gostaria que os nossos netos nos viessem a responsabilizar pelo desaparecimento de uma espécie vegetal.


As bagas do gisbarbeiro, apesar da sua beleza quando maduras, não são comestíveis e podem, se ingeridas, provocar vómitos, diarreias e convulsões.

Veja, de seguida, algumas semelhanças (e diferenças) entre o gisbarbeiro e o azevinho:


Gisbarbeiro
foto de António Flor, in "Plantas a proteger no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros",
 Instituto da Conservação da Natureza, 2005

Azevinho
Ilustração retirada de http://pt.wikipedia.org/wiki/Azevinho


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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Festejos em Honra de Nossa Senhora da Graça



No fim-de-semana de 2 e 3 de Fevereiro, realizaram-se mais uma vez, na Ataíja de Cima, os festejos em honra de Nossa Senhora da Graça, cujo momento alto é a procissão à serra dos Candeeiros.

As cerimónias religiosas tiveram início na noite de sábado, com uma procissão de velas:

(foto de Anabela Matias)

A Capela encheu-se de flores, em homenagem à padroeira do lugar:

 (foto de Anabela Matias)

No domingo, a procissão à serra, agora a para benção dos campos e já não dos olivais que quase não existem, substituídos por pinheiros, eucaliptos e fábricas.




(fotos de Ricardo Tomé)




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Cruzeiros



Cruzeiro s.m. Cruz grande, de pedra, ao ar livre.


 Existem actualmente, na Ataíja de Cima, três cruzeiros:
Um no adro da capela de Nossa Senhora da Graça, reconstruído já no Séc. XXI, após a destruição (ocorrida no final dos anos oitenta, quando foram demolidas a escola e o palheiro do Mira), de um semelhante ali existente e que se situava, então, no meio do Adro, tendo-se aproveitado o fuste.

Outro, na serra, ao cimo da Serventia (coordenadas GPS N 39 32.573 W 8 52.990).
Este tem na coluna a seguinte inscrição: 

N. S.
DA
GRAÇA
ABENÇOAI
OS
OLIVAIS
2-2-1949

 e foi mandado edificar pela comissão de festas desse ano, de que foi juiz o meu pai, João Lourenço Quitério.
Até aqui se desloca a procissão, no dia da festa de N. S. da Graça, em 2 de Fevereiro (realiza-se, actualmente, no Domingo seguinte àquela data) para se proceder à cerimónia da bênção dos campos.
Esta procissão parava, no regresso, junto da lagoa ruiva que era, igualmente, abençoada.

Um terceiro cruzeiro existe junto do Largo do Outeiro.
Era local de paragem dos cortejos de enterro e conhecido, por isso, como o Cruzeiro das Almas. 
O anteriormente existente, uns metros mais a nascente, foi derrubado nos anos de mil novecentos e oitenta e o actual foi erguido em 2008.

Houve, ainda, um quarto cruzeiro, no caminho dos Murtais (Rua da Ponte), junto à ponte sobre a ribeira do Mogo, do lado esquerdo do caminho e na margem direita da "rigueira", cravado na parede da propriedade confinante, o Olival da Ponte que foi de José Ribeiro.
Esta ponte era, apenas, uma grande lage, com menos de um metro de largura, permitindo somente a passagem de peões e animais. Os carros, esses, passavam ao lado, a vau.
Lembro-me de, nessa zona, na pequena subida em direcção aos Murtais, em invernos rigorosos, rebentarem, em pleno caminho, abundantes olhos de água.
Este cruzeiro era, igualmente, ponto de paragem dos cortejos funerários.
Entrou em desuso quando este antigo caminho para Aljubarrota foi substituído pelo actual (EM 553) e, quando eu era pequeno, dele já só sobrava a coluna, entretanto desaparecida.

O cruzeiro da serra - foto de 5-2-2011

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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Serra dos Candeeiros

Dissemos no post anterior que o nome de serra dos Candeeiros para designar a serra fronteira à Ataíja de Cima, é um nome recente.

É o que se pode ver em “ CHOROGRAPHIA MODERNA / DO / REINO DE PORTUGAL / POR / JOÃ0 MARIA BAPTISTA / CORONEL DE ARTILHERIA REFORMADO / COADJUVADO POR SEU FILHO / JOÃO JUSTINO BAPTISTA DE OLIVEIRA / OBRA PREMIADA NO CONGRESSO INTERNACIONAL DE GEOGRAPHIA E ESTATÍSTICA / REUNIDO EM PARIS EM 1875 / VOLUME IV / LISBOA / TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS / 1876” (o exemplar consultado pertence à Biblioteca da Universidade de Toronto, Canadá e encontra-se disponível na Internet em http://www.archive.org/details/chorographiamode04baptuoft)

onde, ao descrever a situação geográfica das diversas localidades que se situam nas abas da serra dos Candeeiros (e também na serra de Aire) se usam as mais diversas denominações para identificar essas serras e, quando se refere a serra dos Candeeiros (nos casos de Alcobertas, Arrimal e Turquel), considera este nome, apenas, uma alternativa.

(transcrevemos apenas a parte do texto que se refere à localização das povoações)

ALCANEDE - Está situada junto das serras de Alcanede e Mendiga.
ALCOBERTAS - Está situado o lugar das Alcobertas em valle, na serra das Alcobertas ou dos Candieiros.
ALJUBARROTA - Está situada na estrada real de Leiria para as Caldas da Rainha, na aba da serra de Porto de Moz para a parte do poente.
ALQUEIDÃO DA SERRA (CONCELHO DE TORRES NOVAS) - Está situado o lugar de Alqueidão na aba da serra d'Aire.
ARRIMAL - Está situado o lugar de Arrimal em campina, entre as serras de Figueira ou dos Candieiros e de Pias.
MENDIGA - Está situado o Lugar da Mendiga na aba da serra da Mendiga, na estrada de Porto de Moz para Torres Novas.
MIRA – (Mira de Aire) Está situado o Lugar de Mira na aba da serra d'Azambuja (ramificação da serra d'Aire).
PORTO DE MOZ - Está situado em um recosto na aba da serra do Alqueidão, na margem esquerda do rio Lena.
SERRO VENTOSO - Está situado o Lugar de Serro Ventoso entre as serras de Carvalho e dos Penedos Negros (ramificações da grande serrania de Minde) em alta portella mui ventosa.
TURQUEL - Está situada na aba da serra dos Molianos ou dos Candieiros pela parte do poente.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Serra dos Candeeiros

O nome de Serra dos Candeeiros, por que hoje conhecemos a serra fronteira à Ataíja de Cima, é muito recente e não o encontramos em quaisquer documentos antigos. Mesmo no Séc. XIX, era, ainda, a serra chamada frequentemente por diversos nomes, como serra dos Molianos, serra de Rio Maior, serra de Porto de Mós, serra das Ataíjas, etc.

No caso do Relatório de 1758, do pároco de Nossa Senhora dos Prazeres, elaborado a mando do Marquês de Pombal e a que já fizemos referência no post de 29-5-2010 "Quando a festa de Nossa Senhora da Graça se celebrava no dia 1 de Janeiro", a serra dos Candeeiros é chamada "Serra das Taíjas"

Transcrevemos a Parte Segunda do referido relatório (as reticências referem-se a pequenas partes do texto que não conseguimos decifrar), onde se faz uma interessante, pormenorizada e, certamente, bem informada descrição do que era, naquele tempo, a parte da serra dos Candeeiros que pertencia ao termo de Aljubarrota:

Parte segunda

Em a qual se responde aos seus interrogatórios e se da verídica informaçaõ, e noticia da Sérra das Taijas
1 Em distancia de huma legoa da Villa de Aljubarrota pêra a parte do Sul esta huma fragoza, e alta Sérra a qual tem por nome a Sérra das Taijas, e tem o seu assento em lugar tam decuberto e desafrontado que do pé da Praça de Badajós em distancia de quarenta legoas se logra claramente a sua vista.
2 Esta Sérra tem dés legoas de comprimento e quasi meya legoa de largo, e tem o seu principio junto á Villa de Portodemos, donde discorrendo via recta pela parte do Sul, no fim dellas junto ao Lugar de Riomayor … e logo mais adiante em pouca distancia se torna a levantar e continuando mais tres legoas vai finalmente acabar ao pé da Serra de Montejunto.
3 Esta Sérra não tem braço algum antes é reunião de muytos que assim ella como a serra de Minde, a de Alvados, e outras mais, que com ela são braços da Sérra da Estrela.
4 No districto e termo da Villa de Aljubarrota naõ nasce Rio algum.
5 Dentro do termo da Villa de Aljubarrota naõ há no districto desta Sérra nem Villas, nem Lugares, porém no mesmo termo ao longo desta estaõ os lugares de Taija de baixo, o Lugar de Taija de Sima, o Lugar dos Casais de Santa Tereza, o Lugar do Casal do Rey, o Lugar dos Covoeñs, o Lugar porem das pedreiras esta situado nas raizes della.

6 No districto desta Sérra dentro no termo desta Villa de Aljubarrota naõ há fonte de qualidade alguma.
7 Dentro do termo da Villa de Aljubarrota não há nem nunca em tempo algum se descobrio nesta Sérra mina alguma de metaes; porem há nella immensidade de excelentes cantarias de pedra branca molar, de que se tem feito admiráveis e sumptuosos edifícios assim antigos, como modernos.
8 Esta Sérra he povoada de muyto rosmaninho, pimenteira, e alecrim, e nella naõ há outras ervas medicinais, nem se cultiva em parte alguma, nem produz género algum de fructos, nas raízes porem della se admira uma dilatada planície de mays de tres legoas de comprimento, e um quarto de largo, a qual toda se cultiva, e he plantada de fecundíssimos olivais, cujo arvoredo a faz muyto vistoza e aprazível.
9 Nesta Sérra naõ há Mosteiros, Igrejas de Romagem, nem Imageñs milagrosas.
10 Há nesta Serra criaçoeñs de gados, e bastante caça de Coelhos, Lebres, perdizes, pombos bravos; e principalmente de lobos, e Rapozas he muyto asssistida e vizitada; sem que sejam bastantes pera os extinguir, as muitas montarias que lhes fazem.
11 Nesta Sérra esta um Arco de Cantaria chamado o Arco da Memoria em cujo lugar, se diz, que o Senhor Rey Dom Affonso Henriques fizera voto de dar á Ordem Cisterciense tudo o que desse lugar avistasse athé ao Mar pela occasião da expugnação da Villa de Santarem como consta de hum padraõ que está no mesmo arco com a inscripçaõ seguinte
Hic scalabim expugnaturus Alfonsus … Portugalia Rex votum vo.. Christo daturum se Ordini Cister ..ensi cincta qua oculus cernere po… decurrentibus aquis in mare, st maritis Divi patris Bernardi fretus verbem capissete Quod dum Pater Sanctus suis st orumque orationibus obtinet, Rex promissa adimplet Surgit Alcobatiae Regale cenobium cujus Principatus ic in ora marítimo terminum habet Gesta sunt hoc omnia anno Domini MCXLVII …

Notas: Voltaremos a falar deste texto. Por agora, quero chamar a atenção dos leitores para duas coisas:
- Quando, no ponto 5, se fala do Lugar das pedreiras, não se está a referir as Pedreiras que pertecem ao conselho de Porto de Mós mas, antes, os Molianos. De facto os Molianos eram conhecidos por a Pedreira, ou a Pedreira dos Molianos e ainda quando eu era pequeno assim lhe chamava a generalidade das pessoas mais velhas.
- Outro ponto interessante do texto é a prova de que já em meados do Séc. XVIII, portanto antes da construção do lagar dos Frades da Ataíja de Cima e da plantação do Olival do Santíssimo (o olival dos frades da Ataíja de Cima) já toda a nossa região era largamente povoada de oliveiras.