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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O testamento do Padre Manoel de Souza



A indicação, à margem do assento de óbito do padre Manuel de Sousa, (VER AQUI) de que este tinha feito testamento no livro de Notas do Tabelião de Porto de Mós, despertou, obviamente, a curiosidade de saber que tipo de bens acumulava um padre da nossa região, no 1º quartel do Séc. XIX.
Houve, pois, que indagar junto do Arquivo Distrital de Leiria sobre o dito testamento que foi encontrado e abaixo transcrevemos.
Como era próprio da época, o dito padre aparece, nuns lados, identificado como Padre Manoel de Sousa, ou Manoel de Sousa Coelho e, noutros lados, como Manoel Coelho.
Quanto ao testamento, o melhor é lê-lo (quem não está habituado a documentos mais antigos terá, de início, algumas dificuldades, mas, à segunda leitura, essas dificuldades já desapareceram) e, sobre ele, apenas diremos que não é claro quantos irmãos (aliás, talvez, todas irmãs) tinha o Padre mas, se atendermos às separações que faz dos (treze, contei eu) sobrinhos, parecem, essas irmãs, terem sido quatro.
Os documentos que conhecemos (o assento de óbito e o testamento) não nos elucidam sobre a idade, nem sobre os progenitores do padre e, nem sabemos que cargos terá desempenhado, que paróquias terá pastoreado mas, uma vez que uma sua sobrinha casou com o capitão José Luís de Sousa, das Pedreiras, vemos aqui um vislumbre das relações do padre com as famílias importantes da região.
Interessante, para nós, é o facto do padre ter designado como seu testamenteiro e herdeiro universal a seu sobrinho Manoel Machado, da Ataíja de Cima.



Testamento que faz aberto nas Nottas o Rdº. Pe. Manoel Coelho dos casais de Stª. Theresa trº. daV.ª  dePorto deMós

Feito em 22 de 9bro. de 1825 e Dado a D. em o mmo diaa fls 134Vº

Saibão quantos este instrumento de Testamento de ultima e derradeira vontade ou como em Direito milhor lugar haja e mais valor possa ter em que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil outto centos vinte sinco anos aos vinte e dois dias domes de Novembro do ditto anno neste lugar dos casais de Santa Theresa termo da Villa de Porto deMos casas de morada do Padre Manoel Bento digo Manoel Coelho onde eu Tabelliaõ aodiante nomeado e assignado vim e sendo ahi presente o ditto Padre Manoel Coelho pessoa conhecida de mim Tabelliaõ e das testemunhas aodiante declaradas e assignadas que dou fe ser o próprio edas mesmas testemunhas; por elle dito Padre Manoel Coelho que estava doente decama mas em seu prefeito juízo eentendimento segundo o parecer de mim Tabeliaõ edas mesmas testemunhas pellas acertadas respostas que deu as perguntas que lhe fizeraõ, me foi ditto na presença das mesmas testemunhas que queria que eu Tabeliaõ lhe tomasse e escrevesse nas minhas nottas o seu Testamento de ultima e derradeira vontadeque estava determinado a fazer de sua livre e expontanea vontadepella maneira e forma seguinte: Determinou que se lhe fizesse o seu funeral conforme ouso e custume destes sítios segundo o Estado Eclesiastico = que selle mandassem dizer pella Sua Alma duzentas missas de esmola de cento evinte reis cada huma, conforme a sua tenção e ditas de huma só vez; e pelas Almas de seus Pays cem missas da mesma esmola epor huma só vez = que deixava a sua creada Clemensia pelas soldadas que lhe deve aterra da Eira neste lugar com as arvores e suas pertenças, que parte do norte com caminho edosul com Francisco André = que pelos bons serviços que a mesma Sua Criada Clemensia lhe tem feito e espera lhe continue atté a sua morte lhe deixa em sua vida huma terra e vinha no sitio da  lameira (?) em a qual  terra e vinha ella ditta criada terá somente o uso efrutto, e por sua morte passara para Maria filha do Cappitaõ Jose Luis de Souza das pedreiras afilhada delle testador ou aos herdeiros della, sendo a esse tempo falecida, e que neste legado se inclue com o mesmo uso efruto as basilhas de levar vinho que elle testador possuir a sua morte; onorada esta propriedade legada á divida de quarenta mil reis que elle testador deve a sua irmã Luisa Coelha do Pé da Serra Avó da ditta sua afilhada Maria = Dice que deixava á ditta Sua Criada Clemensia para ella dispor a seu arbítrio metade detodos os bens moveis que houver asua morte, ehuma maraã, entendendo-se nos moveis taõ bem os frutos que entaõ ouver = Dice deixava a sua sobrinha Francisca dois mil equatro centos reis; a sua sobrinha Joaquina mil eduzentos rei s=;  a sua sobrinha Maria mil eduzentos reis;  a sua sobrinha Rosa mil eduzentos reis; e a seu sobrinho Joaõ mil eduzentos reis; e a seu sobrinho Luis o Rellogio eaEspingarda; e a João, Maria, Bernardo, Joaquim, eSebastiana, filhos de Sua Irmã Maria mil eduzentos reis a cada hum, tudo em dinheiro e por huma só vez: E no Remanescente detodos os mais Seus bens moveis Sobmoventes ede Rais, direitos, eacçoens Institue por Seu Universal herdeiro etestamenteiro a Seu sobrinho Manoel Machado da Ataija de Sima com a obrigação de pagar Suas dividas, funeral, Legados pios e profanos dentro dedois anos; menos o que fica Legado a Sua Criada Clemensia porque esta entrará na posse dos Legados que lhe ficão declarados Logo que aconteça a morte de elle testador; e que o ditto Seu herdeiro pagará o juro de setenta mil reis que elle testador deve emais algumas dividas que se legalizarem, everdadeiras forem: epor esta maneira dice elle testador havia feito Seu testamento de ultima e derradeira vontade, e que queria que Se cumprisse como nelle Se conttem edeclara; assim o outhorgou por bem Escripto emverdade que aceitou eeu Tabeliaõ aceito tanto quanto por direito me he permetido sendo atudo por testemunhas presentes que como atestador assignaram depois desta nota por mim Tabelliaõ ser lida edeclarada oCapitaõ Joaõ da Silva Fialho deAljubarrotta; Agostinho Pinto deste Lugar, Francisco Lourenço deste Lugar, António Dorta deste Lugar, José da Silva da Boieira, José da Silva dos casais deste Lugar e dou fe e dou fe pa por ser verdade todo oreferido eeu Alexandre Duarte Tabelliaõ das Nottas que o escrevi e assigno e declaro que com o testador e a rogo deste, por não poder bem escrever assignou a ditta testemunha oCapitaõ Joaõ da Silva Fialho efis esta declaração o Sobreditto Tabeliaõ declarei e assignei
Como testemunhaeaRogodo Testador por mo pedir e rogar João daSilva Fialho
Manel Coelho (O testador assinou, em letra muito trémula)
Agostinho P.to
(seguem-se assinaturas de cruz das testemunhas Francisco Lourenço, António Dorta, José da Silva da Boieira e José da Silva dos Casais)
Alexandre Duarte



(Com os nossos agradecimentos ao Arquivo Distrital de Leiria e à sua Directora, Dra. Paula Alexandre Cândido)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os Crespos, de Regueira de Pontes, senhorios foreiros na Ataíja de Cima


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Entre as muitas famílias “de fora” que possuíam terras na Ataíja de Cima, assunto a que já dediquei alguns textos aqui publicados, surge agora uma outra:
A família Crespo, de Regueira de Pontes, Leiria, que por aqui conservou prazos foreiros pelo menos desde 1835 e até 1920.

Em 1835, o ataijense Manuel Martins, então ainda solteiro, tornou-se enfiteuta do Dr. António Manuel da Silva Crespo, de Regueira de Pontes, Leiria, ao qual ficou a pagar o foro anual de 5 alqueires, ou 69,825 litros, de trigo pelo domínio útil de “metade de uma terra e oliveiras no sítio dos Arneiros, um olival no sítio dos Caramelos e uma casa térrea na Ataíja”.

Falecido o Dr. Crespo foi, tal foro, objecto de uma escritura de reconhecimento, celebrada em 5 de Fevereiro de 1869, no Cartório do Tabelião Libório, em Alcobaça, na qual o Manuel Martins, e sua mulher Maria Guilhermina e as herdeiras do senhorio, suas irmãs, Dona Ana Joaquina da Silva Crespo e Dona Maria Ignácia da Silva Crespo, representadas na escritura pelo seu procurador José de Bairros, professor de instrução primária em Alcobaça, se reconheceram, mutuamente, como enfiteutas e senhorias.

Cinquenta e um anos mais tarde, em 19 de Março de 1920, um outro Crespo, o Padre Manuel de Sousa Crespo, dos Milagres (a freguesia dos Milagres foi criada por desmembramento das de Regueira de Pontes e Colmeias), vendeu[i] a Francisco Vigário (o Vigário Velho), o domínio directo de um foro anual de oitenta e quatro litros de trigo (6 alqueires), imposto em uma terra de semeadura e vinha no Outeiro, que o vendedor possuía por herança de D. Júlia das Dores da Silva Crespo[ii], de Regeira de Pontes.

Aquele Dr. António Manuel da Silva Crespo foi gente importante. Era filho do Capitão (da Companhia de Ordenanças de Regueira de Pontes?) António Francisco Crespo e foi Bacharel em Cânones e juiz de fora, conselheiro do distrito e vereador da Câmara Municipal de Leiria, integrando, em 1852, a lista dos maiores agricultores do distrito, com interesses em, pelo menos, Regueira de Pontes e Alcobaça onde, aparentemente, se deslocava com frequência e passava temporadas.[iii]

Seria tio[iv] do Dr. António Lúcio Tavares Crespo (1843-1905)[v], ilustre alcobacense que foi um dos promotores da construção do elevador da Nazaré, Bacharel em Direito[vi], Advogado e Conservador do Registo Predial no Porto, deputado às Cortes pelo círculo de Alcobaça em 1865-1868 e 1887-1889 e presidente da mesa da assembleia geral da Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça.


NOTAS:

[i] Escritura celebrada em 19-03-1920, Alcobaça, Notário José Estevam d’Abreu e Oliveira.
[ii] Sobrinha do Dr. António Manuel da Silva Crespo.
[iii] Como se deduz das actas da sessão da Câmara Municipal de Leiria, de 18 de Maio de 1846, citada por Ricardo Charters d’Azevedo, in http://www.familiasdeleiria.com/, (consultado em 30-5-2012). O que parece pressupor que tais interesses excediam os foros da Ataíja de Cima.
[iv] No entanto, este parentesco não parece totalmente esclarecido.
[v] Uma breve biografia do Dr. António Lúcio Tavares Crespo pode ser lida em “Figuras de Alcobaça e sua Região”, por Bernardo Villa Nova, Rebate, 2002, Alcobaça,
[vi] Em 1857/1858, frequentava o 1.º ano do curso de Direito, onde era colega de Thomaz Emilio Rapozo de Magalhães. Não havia, naquele ano, outros estudantes alcobacenses em Coimbra. (v. “Relação e Indice Alphabético dos Estudantes…”, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1857)

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domingo, 29 de janeiro de 2012

A Confraria do Santíssimo Sacramento da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, proprietária na Ataíja de Cima.



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O vasto processo de alteração das relações sociais desencadeado pela Revolução Liberal de 1820, tem um dos seus mais importantes aspectos na reestruturação da propriedade imobiliária que, no antigo Regime, pertencia essencialmente à Coroa e à família Real (Casas da Rainha e do Infantado), à Nobreza e à Igreja.
No entanto, ao contrário do que se possa pensar, as leis tendentes a limitar a propriedade fundiária eclesiástica não são uma invenção do liberalismo. Desde muito cedo foi preocupação dos reis evitar uma larga concentração de bens fundiários nas mãos da Igreja. Neste sentido, já nas Cortes de Coimbra de 1211 foi proibida a sua aquisição pelas corporações religiosas e novas leis foram publicadas sob D. Sancho II e D. Dinis e reforçadas por D. João I e as Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas, todas impõem limitações à aquisição, por compra, doação ou testamento, de bens fundiários por parte de clérigos e congregações.
As reformas do liberalismo vão, no entanto, mais longe ao extinguir, em 1834, as Ordens Religiosas masculinas e nacionalizar e desamortizar (vender em hasta pública) os seus bens fundiários, processo de venda este que, em 1861, se alargou às mitras, cabidos e colegiadas, em 1866, às câmaras, juntas de paróquia, irmandades, hospitais e misericórdias e, por fim, em 1869, aos passais, baldios e bens dos estabelecimentos de instrução pública.

É assim que, em 5 de Dezembro de 1904, em hasta pública que teve lugar na Repartição da Fazenda do Distrito de Leiria, o ataijense Francisco Vigário arrematou, pela quantia de 36$560 (trinta e seis mil trezentos e sessenta réis) o seguinte foro que pertencia à Confraria do Santíssimo Sacramento da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, de Aljubarrota:

“Concelho de Alcobaça, Freguesia de Aljubarrota Foro de 19,800 litros de azeite a safra (dois alqueires) com laudémio de dezena, e vencimento em 30 de Janeiro, imposto em uma terra e olival denominado a Cerca, aos Marcos Brancos, na Ataíja de Cima, enfiteuta João Pimenta dos Casais de Santa Teresa”

Eis, aqui, a reprodução da primeira parte da belíssima "Carta de pura e irrevogável venda" que regista a compra:




Em futuros posts analisaremos a actividade aquisitiva de Francisco Vigário, (que foi avô de José “Bernardo” e de Joaquim “D’Avó”), largamente documentada em numerosas escrituras que a família mantém e teve a amabilidade de nos ceder. O que, penhoradamente, agradeço.



Glossário:
Cabido – Corporação dos  Corporação dos cónegos de sé ou colegiada.
Colegiada - Corporação de sacerdotes com funções de cónegos, em igreja independente da jurisdição do prelado da diocese.
Confraria – Irmandade, associação para fins religiosos. No caso das confrarias do Santíssimo Sacramento, elas eram muito numerosas, existindo uma em quase todas as paróquias e tinha por principal objectivo o culto e louvor do Santíssimo Sacramento.
Desamortização – Colocação (por venda em hasta pública) no comércio jurídico dos bens de mão-morta ou seja, que não eram propriedade de pessoas individuais e, por isso, não podiam ser herdados, doados ou vendidos.
Enfiteuta - Pessoa que tinha o domínio útil do prédio por enfiteuse.
Irmandade – Associação leiga que tem fins devotos.
Junta de paróquia – Anterior designação para Junta de Freguesia.
Laudémio - Pensão que o enfiteuta pagava ao senhorio directo quando alienava o prédio.
Mitra - Barrete de forma cónica, fendido na parte superior, e que em certas solenidades é usado por bispos, arcebispos e cardeais. (Assim, os bens da mitra são os bens da Diocese).
Passal - Terra anexa e pertencente à casa do pároco ou prelado.

Nota: As definições deste glossário foram retiradas, na quase totalidade, do dicionário online da língua portuguesa em: http://www.priberam.pt/

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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A casa do Couto

Um burguês de Alcobaça proprietário na Ataíja de Cima e, ao correr da pena, uma profissão extinta: O carreiro.


O Couto, um comerciante alcobacense de tecidos, foi um dos muitos burgueses que, durante mais de um século, possuíram as maiores e melhores propriedades da Ataíja de Cima.

Foi dele o olival conhecido por Olival do Couto ou, Olival do Sá que, em meados do Séc.XX, era a única propriedade ataijense com caseiro residente (ainda existem as ruínas da casa, com seus cómodos e, em frente, do outro lado da serventia de acesso, a cisterna). Em parte deste olival encontram-se agora as instalações da empresa Germano & Cordeiro, Lda.

Também foi dele a casa abaixo fotografada, perto da Capela de Nossa Senhora da Graça.

Esta casa, anexa à de Sabino Vigário, foi por este comprada ao Couto e usada como “casa do ofício”, onde o Sabino fazia os seus biscates de sapateiro, nos tempos mortos da sua actividade principal que era a de “carreiro”.

O carreiro era quem, com a sua junta de vacas, fazia todos os trabalhos que hoje são desempenhados pelos tractores e camiões: lavrar e gradar, transportar os produtos agrícolas, o mato e a lenha e todos os materiais de construção.

O carreiro ganhava a jorna correspondente a quatro homens e tinha, ainda, direito a almoço que era, sempre, melhorado: um refogado leve, sobre o qual coziam arroz ou massa de meada, com grão-de-bico ou feijão, acompanhados por um apontamento de bacalhau.

Nos primeiros dias de Setembro, quando o serviço da eira já tinha há muito terminado e as palhas já estavam arrecadadas, ainda era cedo para as lavouras de Inverno e as vindimas locais só teriam lugar lá para o fim do mês, pouco trabalho havia para um carreiro.

Então o Sabino (e o mesmo fazia António Matias) metia-se, a pé, com a sua junta de vacas que rebocava dois carros, cada um com sua tina e, lá ia, dois dias de caminho, até ao Bombarral para fazer o transporte das uvas para as adegas.


Não foi há tanto tempo assim. O filho Arnaldo, pouco mais velho do que eu, aí está, vivo e de boa saúde e bem lembrado dos muitos dias que passou conduzindo aquela junta de vacas.

A casa do Couto

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Formação de Uma Casa Rural Ataíjense

1845 - 1942


Nota prévia:
Dizem-me que os posts devem ser curtos e ameaçam-me: Se não, ninguém os lê.
Ora, este post é bastante longo. Podia, talvez, ser subdividido. Mas não. Este blog existe para divulgar a Ataíja de Cima, a sua história e as suas histórias e esta é uma história que, em meu entender, merece bem ser lida na sua totalidade e não às fatias. Espero que os leitores concordem comigo.



Um conjunto de documentos zelosamente conservados na família, permite-nos acompanhar a formação de uma CASA RURAL, - quer dizer, o processo de consolidação da propriedade rústica, liberta de outras peias que não os impostos estaduais, nas mãos de uma família popular – na Ataíja de Cima dos Séc. XIX e XX, imediatamente após o triunfo da Revolução Liberal e a extinção das Ordens Religiosas.

Em 7 de Setembro de 1845, conforme consta de escritura pública lavrada nessa data em Alcobaça, no Cartório do Tabelião Joaquim Eliseu Ribeiro, o carpinteiro Luís Ribeiro, da Ataíja de Cima, comprou, por 40$800 réis, a Paulo dos Santos e mulher Maria Joaquina, dos Covões, uma terra amanhadiça, sita ao Curral do Galego, confrontando a Norte com José Machado, a Sul com Manuel Martins e com ele comprador, a Nascente com António de Horta e a Poente com Luís Dias.

Trata-se de um terreno livre, confinante com terrenos livres e cuja razão da venda parece obedecer a critérios de proximidade. Como noutros casos que adiante veremos, o vendedor é, quase sempre, alguém que mora longe ou relativamente longe (aqui, cerca de 3 a 4 Km o que sempre implicaria o gasto de uma hora e meia ou duas horas, nas deslocações entre o terreno e o domicílio).

Em 2 de Julho de 1848, menos de três anos depois, vamos, no entanto, surpreender Joaquim Heitor e sua mulher Ana Umbelina, sogros do Luís Ribeiro, a proceder à venda a foro, a José Calado da Fonseca e sua mulher Maria da Assumpção Horta, do Juncal, pela quantia de 48$000 réis, de umas cazas com seu quintal, na Ataíja de Cima, que partem de Norte com António Pedro de Aljubarrota, sul com Luís Ribeiro, da Ataíja de Cima, e uma terra de pão e vinha no sítio dos Tubaroens que parte de Norte com João de Sousa, Sul com José Coelho ambos da Ataíja, ficando para si com o domínio útil dos prédios vendidos em regime de aforamento perpétuo, pelo foro anual de oito alqueires e meio de trigo, pago em casa do comprador no dia 15 de Agosto de cada ano, não podendo os foreiros vender, alienar, dar, partir ou dividir, tendo de manter as propriedades unidas em uma só pessoa.

O que significa esta venda? Não sabemos mas, tratando-se, aparentemente, de um revés (enquanto o genro compra, o sogro vende), poderá corresponder a uma forma de financiamento para investimento, ou tratar-se de resolver problemas de solvibilidade do casal alienante.

Em 1867, Luis Ribeiro e sua mulher Ana Coelho e a mãe desta, a referida Ana Umbelina, fizeram as partilhas dos bens do falecido seu pai, sogro e marido Joaquim Heitor. Para a Ana Coelho ficaram o assentamento de casas com um forno, pátio e quintal, uma terra de semeadura à Seixeira e uma terra de pão com uma figueira chamada a Tibarôa. Trata-se, sem dúvida, das mesmas casas e da mesma terra, no sítio dos Tubaroens, de que o Joaquim Heitor e mulher tinham feito a venda a foro atrás referida, foro esse que o Luís Ribeiro libertou em data incerta, como se infere da escritura de 2 de Julho de 1848 que, ao final, tem aposto: “Recebi de Luis Ribeiro da Ataija de sima cinco mil quatro sentos réis Fonseca”.

Em 1870 Luís Ribeiro prosseguia com as compras, desta vez a Manuel Branco, da Ataíja de Baixo, de uma propriedade sita no Casal da Ordem .

Em 1871 comprou a Alfredo Aníbal de Mendonça Heitor, solicitador de causas na Chamusca, e a sua Espoza Dona Roza Carolina do Prado de Macedo, (ou Rosa Carolina do Prado Lacerda de Macedo) o domínio directo de um foro na Cova do Vital. Os vendedores foram representados pelo “Ilustríssimo Snrº” Raimundo de Souza do Prado Lacerda, proprietário, residente em Aljubarrota.

Trata-se, os Prado e os Lacerda, de poderosas e extensas famílias, oriundas de uma nobreza antiga, cujas ligações à nossa região ainda não consegui esclarecer cabalmente mas de que resultaram a titularidade de grandes extensões de terra na Ataíja de Cima, na zona imediatamente a norte do lagar dos frades. Esta aquisição representa por isso, uma das etapas da substituição da pequena nobreza (ou de elementos do funcionalismo, designadamente militares, a ela ligados por laços de casamento), pelos proprietários locais.

No ano de 1874, comprou a José de Sousa Lacerda (familiar do Raimundo referido na compra anterior), o domínio directo sobre um foro de 6 alqueires e meio de trigo, na Cova do Vital, o qual pagava Bento Carreira, foro este constituído em 1866. Ou seja, o crescimento, em número, dos elementos das famílias fundiárias, leva à divisão do domínio directo das propriedades, com consequente redução dos foros individualmente recebidos, de tal modo que, pela redução dos proventos, estes novos proprietários são forçados à sua venda.

Em 1878 comprou ao mesmo José de Sousa Lacerda mais um bocado de terra no mesmo sítio da Cova do Vital. É de notar que a compra incide apenas sobre uma parte da propriedade, uma vez que a parte vendida fica a confrontar, a Norte e a Nascente, com os vendedores.

Em 1885 comprou a Luís João de Sousa, uma terra de semeadura denominada "Os talhos", sita ao Outeiro, na Ataíja de Cima, num dos poucos casos em que a compra é feita um conterrâneo.

Em 1887 comprou a João Coelho, da Cumeira, uma terra no sítio da Cova da Creada.

Em 1890 comprou mais uma terra na Cova do Vital a José Ribeiro da Conceição, da Quinta da Cruz.



Em 1895 tem início um novo ciclo de aquisições, agora pela mão de Luís Ribeiro Júnior, filho de Luís Ribeiro que, nesse ano, comprou uma terra nos Olivais a Joaquim Francisco, solteiro, morador na Quinta das Laranjeiras, Várzea, Santarém.

Em 1909, mais uma compra, esta a José dos Santos Russo, da Boieira, de uma terra no sítio das Tubarôas.

Em 1912, compra dois terrenos a proprietários da Cumeira de Baixo.

No mesmo ano, compra a José Trindade Oliveira e esposa D. Maria do Livramento Sousa e Oliveira, de Alcobaça, “… o domínio directo de um foro de três alqueires e meio de trigo, imposto sobre uma terra de semeadura aos Fiéis de Deus, de que o comprador é enfiteuta, a confrontar de Norte com Genoveva Maria viúva, Sul com Tibúrcio dos Santos, Nascente Constantino dos Santos e Poente com caminho público, que é deles vendedores que a herdaram de sua mãe e sogra D. Maria Amália Trindade Oliveira”.

Em 1915, compra um olival a José Coelho da Silva, de Alcobaça.

Em 1929, compra uma courela com oliveiras, na Cova das Freiras, a Joaquim Pedro da Silva, de Albergaria, Juncal.

Em 1931, compra de umas casas e cómodos e terra de semeadura a Francisco e a Tomé Ribeiro, irmãos, da Ataíja de Cima.



É agora, a vez de o neto entrar em acção:

Em 1938, José Ribeiro compra a José Coelho de Sousa e Manuel Coelho de Sousa, solteiros, da Ataíja de Cima, uma terra de semeadura.

Em 1940 compra a José Alexandre dos Santos Brilhante e mulher Alice Cardoso de Brito Brilhante e a Lucinda de Jesus Brilhante, de Aljubarrota, metade de um olival.

Em 1941 Compra a Joaquim António da Silva e mulher Maria Pereira, dos Molianos, metade indivisa de um prédio rústico denominado Olival da Ponte.

Em 1944 comprou a Raul Ferreira da Bernarda, o muito conhecido industrial de cerãmica, de Alcobaça, a parte que este possuía no Olival do Santíssimo.



O maço de documentos que temos presente inclui, ainda, diversos outros, relativos a negócios de terceiros e cuja presença significa que também os terrenos a que se referem vieram, posteriormente, a ser integrados no património dos Ribeiro:

O testamento, de 1822, (ver AQUI), de Micaella dos Santos, viúva de Manuel Lopes, da Ataíja de Cima; no qual esta institui por universal herdeiro e testamenteiro a Paulo dos Santos e faz deixa a Ricardo dos Santos, exposto do Hospital Real da cidade de Lisboa, de um talho de terra de pão com suas árvores no sítio da Seixeira, que parte do Norte com Joaquim Rodrigues, mais outra fazenda terra de pão e pousio fechada sobre si no sítio da Figueirinha que parte do Nascente com Manuel Vitorino, do Cadoiço.

O emprazamento que, em 1829, fez José da Trindade, do Casal do Pereiro, a Bernardo de Sousa e mulher Maria Joaquina, do Cadoiço, de uma terra de pão com sua testeira de mato aos Fiéis de Deus, a qual confronta de norte com António Carvalho, do Carvalhal, do Sul com Alexandre Rodrigues, de Aljubarrota, Nascente com José de Sousa, do Cadoiço, Poente com José Maria de Sousa, da Ataíja de Cima;

A hipoteca, de 1916, em garantia de empréstimo, constituída por Joaquim Coelho de Sousa e mulher Maria Coelha ou Maria Luísa a favor de Joaquim Marques Alves da Silveira, sobre uma terra de semeadura, oliveiras e mato no sítio do Vale Ruivo, a confrontar de Norte com António Dias, João Luís e outros, Sul com herdeiros de Bento Alexandre, Nascente com Serventia e Poente com Francisco Vigário e uma terra de semeadura chamada Os Talhos, a confrontar de Norte com caminho, Sul com Manuel Ângelo Coelho, Nascente com Manuel Machado Batista e Poente com Francisco Vigário e Luís Ribeiro;

A compra, feita em 1939, pelo Capitão Silva Mendes a Manuel Ângelo da Silva, de 1/8 do Olival dos Frades;



O financiamento de todas estas aquisições e a obtenção da liquidez indispensável à sua adequada exploração exigiu, por várias vezes, o recurso ao crédito.

Para além da venda a foro que os sogros do Luís Ribeiro fizeram, em 1848, da própria casa de morada, como já referimos, temos presentes documentos que comprovam que, pelo menos por quatro vezes, foi necessário recorrer a empréstimos:

Em 1862 quando Luís Ribeiro se confessa devedor a Francisco Pereira, de Aljubarrota, da quantia de 55$000 réis;

Em 1874, um dia antes da compra que nesse ano fez a José de Sousa Lacerda e, certamente, para a financiar, quando o Luís Ribeiro contraiu com Maria Micaela, dos Casais Canários, Vestiaria, um empréstimo da quantia de 48$000 réis, pela qual fica a pagar a retribuição anual de oito alqueires de trigo, compra de que foi fiador José de Oliveira, dos Casais de Santo António, Vestiaria.

Em 1880, quando contrai, com António Delgado, da Fonte Santa, uma dívida de 48$000 réis;

E, em 1898, quando o filho, Luís Ribeiro Júnior, contraiu um empréstimo de 250$000 réis, ao juro de 7%, (dívida que liberará em 1903) dando de garantia a hipoteca de 2 prédios rústicos que, diz-nos a escritura de mútuo, foram adquiridos, um em hasta pública pelo inventário de António Pedro Carreira que foi de Aljubarrota e o outro por compra feita a José Carlos, da Ataíja.



Conclusões:

Ao longo de um século e três gerações, entre meados dos séculos XIX e XX, Luís Ribeiro, o filho Luís Ribeiro Júnior e o neto José Ribeiro, desenvolveram uma notável e persistente actividade de aquisição de terras, de que resultou a constituição da maior CASA RURAL da Ataíja de Cima a qual, à data do falecimento de José Ribeiro, em 1973, abrangia setenta e oito prédios.

As compras foram, na sua grande maioria, feitas a não residentes, num movimento de concentração da propriedade numa área geográfica restrita (num raio de cerca de dois quilómetros, medidos do centro da aldeia), o que se mostrava fundamental para permitir a exploração directa.

Várias das aquisições correspondem a liberação de foros, o que dá a este processo aquisitivo um carácter de modernidade, quer por propiciar a prevalência da propriedade plena quer porque, do mesmo passo, se afastam as famílias “ilustres” antes detentoras do domínio directo da terra.


José Ribeiro, numa fotografia de 1972 (poucos meses antes do seu falecimento), aqui acompanhado da mulher, Emília Faustino, de quatro dos seus muitos netos, (Paula, Pedro, Rafael e José Fernando) e do bisneto Pierre.
 
 
 
Com os meus agradecimentos à Amélia e ao Pedro
 
 
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segunda-feira, 6 de junho de 2011

A propriedade do olival dos Frades da Ataíja de Cima, depois dos frades – II

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À aquisição do olival dos frades - Olival do Santíssimo - da Ataíja de Cima, por Matias Ângelo, em 1918, deve ser atribuído um valor simbólico que é o de coroar um processo, longo de quase um século e, aliás, nunca completado, de apropriação, pelos naturais residentes, das grandes propriedades rurais que no antigo regime pertenciam aos frades e à pequena nobreza e, após a vitória do liberalismo e o fim das Ordens Religiosas, à nova nobreza liberal, e à burguesia de uma Alcobaça que, durante a segunda metade do Séc. XIX gozou – liberta agora do jugo fradesco, - de um crescimento acelerado.

Foi, no entanto, de pouca dura a posse ataíjense do olival dos frades. Com a sucessão de Matias Ângelo, assistiu-se à divisão da propriedade pelos seus herdeiros e, logo de seguida, ao início do processo da sua alienação.

De facto, em 11 de Maio de 1931, apenas cerca de treze anos após a famosa compra, Matias Ângelo e sua mulher, Francisca Rosa que foi conhecida por Francisca Félix, fizeram doação do olival dos frades aos seus filhos, reservando para si o usufruto vitalício, usufruto esse que seria reduzido a metade após a morte de um deles.

Logo, em 29 de Maio de 1933 seguinte, os quatro filhos fizeram a divisão da propriedade entre si e, menos de três meses depois, em 20 de Agosto do mesmo ano, Matias Ângelo faleceu.

Cinco anos depois, em 22 de Outubro de 1938, Manuel Ângelo da Silva comprou a seu irmão José Ângelo da Silva a parte deste no olival.
Um ano depois, em 30 de Outubro de 1939, o mesmo Manuel Ângelo da Silva, vendeu metade do que tinha comprado a seu irmão José: Um oitavo do olival dos Frades, na parte vendida com a área de 63.000 metros quadrados, confrontando a Norte com Basílio Pereira Clemente e herdeiros de José Pereira Clemente, a Sul com José da Fonseca, a Nascente com Serra e a Poente com caminho do Barreirão. O preço declarado foi de 10.000$00 (inferior ao valor da matriz que era de 10.718$40).

O comprador, acabado de regressar dos Açores, foi José Rodrigues da Silva Mendes, o célebre Capitão Silva Mendes, natural de Turquel, que foi por duas vezes Governador Civil de Leiria, a primeira ainda quando tenente, entre 18-02-1930 e 09-09-1931, a segunda, já Capitão, entre 19-04-1933 e 24-04-1935. Governador Civil do Distrito da Horta (Açores) entre 03-03-1937 e 17-03-1939 e, mais tarde (1957-1961), deputado da União Nacional.

Em circunstâncias que ainda não consegui apurar, também o industrial alcobacense Raul Ferreira da Bernarda e sua mulher Mariana Coelho, se tornaram proprietários de uma quarta parte do Olival dos Frades, de que, em 21 de Agosto de 1944, estavam a vender ao ataijense José Ribeiro 7/16.
A propriedade é identificada na respectiva escritura como “Um olival denominado Olival do Santíssimo, confronta Norte com Basílio Pereira Clemente, herdeiros de José Pereira Clemente, Francisco Vigário, herdeiros de Francisco Malhó e outros, Sul com José Fonseca Júnior, Nascente com Serra e Poente com caminho da Ataíja e herdeiros de José Pereira da Conceição. Parte desanexada e vendida: sete dezasseis avos. A parte vendida é olival e confronta a Norte com Basílio Pereira Clemente, Sul com José Fonseca Júnior, Nascente com Serra e Poente com caminho do Forno”.

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Visconde de Costa Veiga

proprietário na Ataíja de Cima


Entre os diversos nobres e burgueses que no Século XIX eram proprietários na Ataíja de Cima encontrava-se o Visconde de Costa Veiga.
No caso de que hoje tratamos, curiosamente, não do costumado olival mas, de terras de vinha e mato, situadas na margem esquerda da Ribeira do Mogo.
De facto, em 23 de Julho de 1890, no escritório do tabelião Francisco Eliseu Ribeiro, em Alcobaça, foi celebrada a escritura da compra que, pelo preço de 72$000 réis, Sabino dos Santos, alfaiate, morador na Ataíja de Cima, fez a Joaquim Matias e mulher Maria Firmina, de:

 “uma vinha e mata, no sítio da Várzea da Ratinha, confrontando a norte com José Carvalho e Visconde de Costa Veiga, a sul com José d’Horta, a nascente com caminho e a poente com regueira”.

O Visconde era filho de António Xavier da Costa Veiga, nascido em Tábua em 4-5-1803 e falecido no Lumiar (Lisboa) em 1876 e a quem, em 1865, foi atribuído o título de Barão de Costa Veiga.
Tratava-se de um rico proprietário que a certa altura comprou o palácio Ludovice, um imponente edifício do Séc. XVIII, na Rua de São Pedro de Alcântara, ao cimo do elevador da Glória, onde actualmente funcionam o Solar do Vinho do Porto e o Instituto Português de Cinema e que foi construído, para sua residência, pelo arquitecto do Convento de Mafra, o alemão Johann Friedrich Ludwig que, nacionalizado português, passou a usar o nome de João Frederico Ludovice.

Sei pouco deste Barão de Costa Veiga mas, aparentemente, a sua fortuna terá sido conseguida no Brasil onde, em São Paulo, existe uma rua com o seu nome.
Certo é que era figura importante já que no seu palácio de Alcobaça pernoitou o Rei D. Luís I, (o que, aliás, aconteceu em 1863, dois anos antes de lhe ter sido concedido o baronato).

O título de Visconde de Costa Veiga foi criado pelo mesmo D. Luís I e concedido por carta de 31-03-1881 ao filho do Barão, de seu nome igualmente António Xavier da Costa Veiga, nascido em Lisboa em 20-10-1839 e aí falecido em 7-3-1906.
Licenciado em direito pela Universidade de Coimbra, o Visconde nunca exerceu qualquer profissão jurídica nem, aparentemente, outra, limitando-se a gerir a herança. A sua ligação a Alcobaça era escassa, apenas aí passando pequenas temporadas. No entanto foi um benemérito da vila, tendo contribuído para a construção e equipamento do Hospital de Alcobaça e do Asilo da Infância Desvalida e, em testamento, fez várias deixas a instituições locais e estabeleceu legados a favor de pobres e donzelas.

Nota:
Em Alcobaça existe uma Rua Costa Veiga (a parte urbana da Estrada Nacional 8-6). Fica-se sem saber se é homenagem ao pai se ao filho.

Estado actual (30.1.2014), do palácio Costa Veiga, na Rua de Baixo (Rua Frei Fortunato), em Alcobaça. 
O edifício encontra-se a caminho de uma acelerada degradação, tendo já ruido parcialmente.

Fontes:
http://revelarlx.cm-lisboa.pt/
http://alcobaca.no.sapo.pt/
http://www.geneall.net/
http://maps.google.pt/
“Figuras de Alcobaça e sua Região”, por Bernardo Villa Nova, Rebate, Alcobaça, 2002

domingo, 30 de janeiro de 2011

A casa do médico

Em 7 de Agosto de 1878 foi celebrada no escritório de F. Eliseu Ribeiro, tabelião em Alcobaça, uma escritura do seguinte teor:

“Saibam quantos esta escriptura de compra e venda virem que no anno do nascimento de nosso senhor Jesus Christo de mil oito centos setenta e oito, aos sete dias do mês de Agosto, n’esta Villa d’Alcobaça, no meu escriptório, compareceram d’uma parte como vendedores Lourenço Quitério, trabalhador e sua mulher Simpliciana Maria, moradores na Ataija de cima, freguesia de Sam Vicente d’Aljubarrota, deste concelho d’Alcobaça e da outra parte como comprador o Doutor José Sanches de Figueiredo Barreto Perdigão, casado, médico-cirúrgico e proprietário, morador n’esta Villa, todos pessoas do meu conhecimento pelo que dou fé serem os próprios … pelos dois primeiros outhorgantes foi dito: Que por herança que houveram de seu pai e sogro Joaquim Quitério, morador que foi na mesma Ataíja, são senhores e possuidores d’uma morada de casas baixas, sitas na sobredita Ataíja de cima, a partirem do norte e do sul com caminhos públicos, de nascente com João de Sousa e poente com José António de Castro. Que da mesma forma que as possuem, livres e dezembaraçadas, as vendem de hoje para sempre ao terceiro outhorgante, pelo preço de trinta e sete mil e oito centos réis, metal, valor que n'este acto receberam da mão do comprador em moedas de ouro e prata legais…”

Pela descrição das confrontações, percebe-se que as casas se encontravam no “coração do “lugar” pois só aí havia ruas paralelas correndo no sentido leste-oeste.

O comprador veio a possuir as referidas casas durante vinte e um anos, até ao dia 28 de Outubro de 1899, quando as vendeu a Sabino dos Santos, da Ataíja, pela quantia de trinta e três mil setecentos e cinquenta réis, conforme se vê de um recibo por si manuscrito, em meia folha de papel branco, contendo um carimbo a óleo com os dizeres “J S F Barreto Perdigão / Médico-Cirúrgico / em Alcobaça” e assinado sobre um selo fiscal de 20 Réis.

Estes documentos têm duas curiosidades que importa realçar:

Por um lado, permitiram-me identificar alguns possíveis antepassados. Por outro, deixam-me uma grande interrogação.

Já sabíamos que, naquela época, os burgueses de Alcobaça eram importantes proprietários rurais na Ataíja. Mas não sabíamos que também tinham sido proprietários, ainda que episódicos, de prédios urbanos.

O Dr. Barreto, como ficou conhecido, nasceu em Alcobaça em 1849 e aí faleceu em 1933. Tinha, pois, vinte e nove anos quando fez a compra, seis anos depois de, em 1872, se ter formado na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Era um jovem médico. A compra das casas que tinham sido de Joaquim Quitério não seria o investimento mais óbvio (se era investimento foi mau, porque vinte e um anos depois as vendeu com prejuízo) e também não tenho notícia de que aí tenha montado consultório.

A dúvida é: Porquê e para quê um médico de Alcobaça quereria, em 1878 (há cento e trinta e três anos), uma casa na Ataíja de Cima?


Notas:

O Dr. José Sanches de Figueiredo Barreto Perdigão foi o primeiro presidente da Câmara de Alcobaça após a implantação da República, tendo tomado posse do cargo no dia 8 de Outubro de 1910 e permanecido em funções até 1 de Janeiro de 1914.
Mais elementos biográficos do Dr. Barreto podem ver-se em “Figuras de Alcobaça e sua Região”, Volume I, por Bernardo Villa Nova, Alcobaça, 1959”, (reedição, Rebate, Alcobaça, 2002).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Olival do Barão

O olival do Barão de Porto de Mós



A generalidade dos muitos olivais que ocupavam toda a borda da serra eram no Séc. XIX e como já dito em posts anteriores, propriedade de “pessoas de fora”, burgueses ou pequenos fidalgos.

Um desses olivais, ou o que resta dele, é, ainda hoje, conhecido por “O Olival do Barão”.

Quem era este Barão?

A resposta encontrámo-la num documento particular, celebrado na Batalha em 22 de Fevereiro de 1890 (já lá vão 120 anos!), pelo qual Fernando Joaquim da Silva e mulher, Carlota Maria de Sousa, moradores na Batalha, vendem a João Coelho, casado, proprietário, da Ataíja de Cima, “… dois bocados de olival, no Citio da Ataija, ou cova do velho, próximo da Sacheira, limite da Ataija, que parte do Norte com António Domingues da Lameira, Sul com Francisco Vrissimo, da Ataija de Cima, Nascente com os Herdeiros do Barão de Porto de Moz, e Poente com António Coelho da Ataija de Cima, pela quantia de vinte mil reis …”.

A localização aproximada dos terrenos em causa é fácil de encontrar: A Cova do Velho é um sítio entre a Rua das Seixeiras e a Rua das Hortas, sensivelmente onde se encontra a Pia da Senhora, local onde, segundo a tradição, foi extraída a pedra de que é feita a imagem da Nossa Senhora da Graça que está na Capela da Ataíja de Cima. O Olival do Barão desenvolvia-se daí para Nascente, para o lado da serra dos Candeeiros.

Este Barão de Porto de Mós, de seu nome Venâncio Pinto do Rego Ceia Trigueiros, obteve o título de D. Maria II, por proposta de Costa Cabral de quem era correlegionário.

Natural de Porto de Mós, onde nasceu em 1801, filho do capitão Honorato da Cunha Pinto do Rego Ceia Trigueiros e de Jacinta Rosa da Conceição, foi grande proprietário rural, senhor dos morgados da Canoeira e da Ribeira da Azóia, junto a Leiria, e do morgado do Esporão, junto a Reguengos de Monsaraz e exerceu diversos e importantes cargos, entre outros os de vereador da Câmara de Porto de Mós, deputado, conselheiro e presidente do Tribunal de Contas.

Casou com uma rica viúva, trinta anos mais velha e morreu sem filhos, com 66 anos de idade, em 1867, assassinado a mando de inimigos políticos (o mandante do crime terá sido o seu cunhado Filisberto Pinto do Rego, escrivão e tabelião do juizo de direito da comarca de Porto de Mós). O seu herdeiro universal foi, por testamento, o seu amigo e correligionário político Dr. Francisco Tavares de Almeida Proença, também ele importante figura política do Cartismo (chegou a Ministro) e grande proprietário rural na região de Castelo Branco.



Para saber mais sobre o Barão de Porto de Mós:
A Câmara Municipal de Porto de Mós editou, em 2005 a biografia “O Barão de Porto de Mós”, da autoria de António Borges Cunha e, muito recentemente, em Setembro de 2010, o CEPAE – Centro de Património da Estremadura e a Folheto Edições & Design, editaram o livro “A Morte do Barão de Porto de Mós” de Ricardo Charters d’Azevedo.

sábado, 1 de maio de 2010

Os Frades e a Ataíja de Cima - III - Outros lagares, antes do lagar dos frades

Quando os frades procederam (ordenaram, o trabalho não foi dos frades) à plantação do Olival do Santíssimo e à necessária construção do Lagar dos Frades da Ataíja de Cima, não o fizeram por uma decisão meramente voluntarista mas, antes, para acompanhar o processo de ocupação e aproveitamento agrícola da zona da base da serra dos Candeeiros onde, como concordam os historiadores, já se vinham plantando oliveiras desde o final do Séc. XVII.


Se, como parece certo, foi no mandato do Abade D. Frei Manuel de Mendonça, (quer dizer, entre 1768 e 1777) que se iniciou ou procedeu à plantação do Olival do Santíssimo e à construção do lagar, então deve recordar-se que o Abade era sobrinho do Marquês de Pombal e, não será exagero dizê-lo, seu correlegionário político. (não por acaso, o abaciato de D. Frei Manuel de Mendonça termina em 1877, o mesmo ano em que morre o Rei D. José I e, consequentemente, o ano em que cessa o poder do Marquês de Pombal).

Estas obras de fomento agrícola promovidas pelo abade podem, por isso, ser enquadradas na política geral pombalina de reforma da economia portuguesa.

É certo que a política económica pombalina foi, sobretudo, uma política industrial (na nossa região o exemplo, de todos conhecido, é a criação da fábrica de vidros dos irmãos Stephens, na Marinha Grande) sendo comparativamente irrelevantes as acções dirigidas à agricultura (aqui com a excepção da atenção dada aos vinhos do Porto, com a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e da primeira região demarcada de produção de vinhos que houve no mundo).

Mas, no caso de Alcobaça e do seu Mosteiro, cujas propriedades eram agrícolas, tudo o que devesse ser feito em termos de reformas havia, necessariamente, de passar pela agricultura. Mas não só. É, ainda, sob o mandato de D. Frei Manuel de Mendonça que se procede a uma funda reorganização dos mosteiros cistercienses portugueses e, com o apoio directo do Marquês de Pombal, é criada no Mosteiro a Real Fábrica de Lençaria e Tecidos de Alcobaça a qual, no âmbito de uma política de privatizações, como hoje se diria, foi vendida a particulares na sequência de uma ordem de 6-7-1892.


Quando Frei Manuel de Figueiredo diz que: “No lugar das ataijas estavam muitas terras incultas, no total domínio do Mosteiro e este as doou ao Administrador das rendas destinadas ao Santíssimo Sacramento e o Administrador mandou aí plantar olival e fazer um lagar que aí se conserva”, isso significa o óbvio: que nem todas as terras estavam no total domínio do Mosteiro.

Havia muitas terras que não eram do Mosteiro (mas sobre as quais e os seus produtos o Mosteiro cobrava impostos diversos e pesados) e foi nestas terras que outros que não os frades plantaram, desde os finais do Séc. XVII, extensas áreas de olival. E, necessariamente, tiveram de construir os lagares para processar a azeitona.

Assim, na nossa região e, certamente, por todos os coutos, os lagares de azeite eram bem mais dos que, hoje, se conseguem identificar através da documentação (designadamente, o inventário a que se procedeu em 1834) do Mosteiro.

Só na pequena distância que vai do Lagar dos Frades da Ataíja de Cima até aos Molianos se identificam, em 1791, três lagares, nenhum deles pertencentes ao Mosteiro (v. “MAPPA TOPOGRAPHICO/ Levantado/ em M.DCC.XCI./ Pelos Officiaes de Infanteria com exercicio de Ingenheiros/ O Coronel Luiz Candido Cordeiro Pinheiro Furtado,/ e o Sargento-Mor Henrique Niemeyer,/ Desenhado/ Pelo segundo Tenente Carlos Luiz Ferreira da Cruz Amarante,/ Para servir de delineamento da estrada desde/ A Serra de Rio-Maior athe Leiria,/ Na conformidade do Alvara de XXVIII de Março do mesmo/anno e das instruçoens dadas/ Pelo Illm°. e Exmo. Sor. Joze de Seabra da Silva/ Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Reino/Ao Dezor. Superintendente Geral das Estradas/ Joze Diogo Mascarennas Neto./ Quartel de Condexa./ 16 de Agosto de 1793”).

O facto de estes lagares estarem representados num mapa elaborado cerca de vinte anos depois da presumível construção do Lagar dos Frades da Ataíja de Cima significa, a nosso ver, duas coisas: (a) que se mantinham, então, em funcionamento e, (b) que eram de construção anterior ao Lagar dos Frades da Ataíja de Cima. Ora, naquele tempo, as oliveiras do olival do Santíssimo apresentavam, ainda e necessariamente, pequeno porte e, por isso, pequena produção, e a capacidade de processamento do lagar da Ataíja de Cima não estava, certamente, esgotada. A manutenção em funcionamento daqueles três lagares significará, assim, a resistência dos povos a, neste domínio, submeterem-se aos interesses imediatos dos frades.

Mas sobre o que, realmente, se passava sabemos muito pouco porque os historiadores têm tendência para se centrar nos frades e no seu ponto de vista. É precisa uma nova leitura dos documentos fradescos (que outros não há ou são muito escassos) que tenha por objectivo encontrar neles as pessoas e as suas vivências.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os olivais da Ataíja, com (a despropósito) uma curiosidade sobre a morte de D. Maria II

Os olivais da Ataíja

Durante mais de duzentos anos, pelo menos desde o início do Séc.XVIII e até passados os meados do Séc. XX, a Ataíja viveu em redor dos grandes olivais que a cercavam e preenchiam todo o espaço até à base da Serra dos Candeeiros.

A importância da cultura da oliveira é, ainda agora, evidente pelo peso que tem na toponímia local e pelo número de lagares que, ainda muito recentemente, existiam na região.

Grande parte dos olivais era, no entanto, propriedade de não residentes. Apenas algumas famílias, em regras as de maiores posses, possuíam terrenos nos “Olivais”, nome que, genericamente, se dava a todos os terrenos situados nas margens do actual IC2. Para os naturais ficavam as terras situadas na crista da margem esquerda da ribeira do Mogo, os respectivos vales e parte da encosta da margem direita.

Exemplos de olivais propriedade de não residentes:

Olival da Maria Almeida, propriedade de uma Maria Almeida que não consegui, ainda, melhor identificar.
Olival do Brilhante, propriedade do Dr. Brilhante (José Maria dos Santos Brilhante, 1821-1880) natural de Alcobaça, onde há uma rua com o seu nome. Foi ilustre médico homeopata e publicista, proprietário e redactor da revista Agulha Médica e da Gazeta Homeopática Lisbonense, escreveu muito em diversos jornais e revistas.
Por curiosidade, aqui fica uma parte do que o Dr. Brilhante escreveu a propósito das condições em que se verificou a morte de D. Maria II, ocorrida em 15 de Novembro de 1853, durante os trabalhos do seu décimo-primeiro parto, tinha então a Rainha 34 anos:
«O boletim destes médicos é o seu corpo delicto. [...] Correm por aqui differentes evasivas e diz-se que já estava profetisada a morte e S. M. advertida disto pelos seus médicos! Sendo assim, e tendo os seus práticos dados sufficientes para esta profecia, deviam ter-lhe praticado o parto prematuro do 4.º mez em diante, e porque não o fizeram?...
A verdade é esta: os seus médicos à excepção de Manoel Carlos Teixeira, não sabiam, nem sabem nada de partos. O doutor Elias e Benevides são dois velhos, médicos exclusivos, e ignorantes de tudo que diz respeito à cirurgia; o doutor Kesseler é um pratico sem experiencia e está no mesmo caso; o Farto é um antiquíssimo cirurgião que apenas sabe ler, se sabe, e nada mais. Foram estes os cinco práticos que deram recursos à Soberana.
Depois de morta, veio o Snr. Marquez de Fronteira buscar o Snr. José Lourenço da Luz, operador conhecidissimo pela sua habilidade, e dizem que tambem fora chamado o Snr. Magalhães Coutinho! O Snr. José Lourenço da Luz entrou no quarto de S. M., achou-a morta, ajoelhou, beijou-lhe a mão e sahiu consternado. Quizeram que elle assignasse o boletim, e ele não quis... As inteligencias só foram chamadas para fiscalizarem a morte!!
Espero que «O Esculapio» se occupe de fustigar a ignorância, para que ela não mova os destinos da minha infeliz pátria. [..]
22 de Novembro de 1853»
In. O ESCULAPIO: Boletim Semanal de Medicina, Cirurgia e Pharmacia, Lisboa, 21 de Dezembro de 1853
Olival do Capitão, ou Olival do Mira. O capitão Silva Mendes, figura muito conhecida na região na primeira metade do Séc. XX, era natural de Turquel, fez parte do Corpo Expedicionário Português que combateu em França durante a Primeira Guerra Mundial e foi, durante muitos anos, Governador Civil de Leiria e Deputado da União Nacional.
Olival do Couto, ou Olival do Sá.
Olival do Frade, ou Olival dos Frades, ou olival do Santíssimo.
Olival do José dos Santos, Um olival que era propriedade de um José dos Santos, dos Montes.
Olival do Mira, é o mesmo olival que foi do Capitão Silva Mendes. O Mira, ao que julgo assim chamado por ser da zona de Mira de Aire, era mais um de vários proprietários absentistas, residentes fora da aldeia. Toleravam e não agradeciam que alguns locais cultivassem as terras e apenas recolhiam para si a azeitona. Neste olival, na parte a oeste do IC 2, estão, actualmente, as instalações dos Armazéns São Vicente.
Olival do Raimundo, o olival que começava Traz do Muro e, em 1834, era propriedade do Coronel Raimundo Veríssimo de Sousa. A designação de Olival do Raimundo mantém-se, aplicada a uma parte desse olival, situada um pouco mais a norte. Na parte a Oeste do IC 2 estão, actualmente, as instalações da empresa Arte e Fogo e outras.
Olival do Sá. O Sá era genro do Couto, a quem sucedeu na propriedade (ambos eram comerciantes em Alcobaça). Assim, o olival do Sá e o do Couto são um e o mesmo. Está, hoje em dia, parcialmente ocupado pelas instalações da Germano & Cordeiro, Lda. Mantém-se, embora ameaçando ruína, a casa dos caseiros, com pátio, curral e cisterna. Nesta cisterna abasteceu-se, durante muitos anos, a família de Porfírio Coelho, até que os filhos, cansados de percorrer quilómetros por um cântaro de água, conseguiram que o pai acedesse a construir uma pequena cisterna no pátio da sua casa.
Olival do Santíssimo, v. Olival dos Frades.
Olival do Zé Militar, O José Militar era um comerciante alcobacense.
Olival dos Frades. Também chamado Olival do Santíssimo por, ao que parece e como já explicamos num outro post, os frades usarem um sistema de contabilidade por consignação, seja, em que as diferentes receitas eram, previamente e por regra, afectas a diferentes tipos de despesa, sendo as receitas deste olival usadas para suportar as despesas do culto e louvor ao Santíssimo Sacramento. Era, em 1885, propriedade do Dr. Zagalo, médico de Alcobaça e foi, depois, de Olímpio Trindade Jorge, comerciante de Alcobaça, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de imponentes marcos, muitos deles ainda hoje existentes. Todos esses marcos têm gravadas, de um dos lados, as iniciais do Santíssimo Sacramento (SS) e, por baixo, as do proprietário (OTJ) e, do outro lado, o número do marco. Mais tarde, em 1918, este olival veio a ser adquirido pelo ataíjense Matias Ângelo.

Sendo os olivais de não residentes, natural era que o mesmo se passasse com os lagares. Eram propriedade de comerciantes alcobacenses o Lagar de Ferro (assim chamado por ter sido o primeiro a ser equipado com prensas hidráulicas), na Ataíja de Baixo e o lagar do Diamantino (de Diamantino dos Santos Vazão), entre a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa.

Outros olivais:

Olival da Burra. Fica a meio da Rua do Martins que há cinquenta anos era lugar de olivais densos. Havia ali várias oliveiras situadas fora de paredes, na margem do caminho. Eram as oliveiras da Senhora, pertença de uma antiga e então já desaparecida, Confraria de Nossa Senhora da Graça. Também havia oliveiras da Senhora em pleno terreno de outrem (vim mais tarde a perceber que se tratava de direitos de superfície), em vários locais. Competia ao Juiz designado da festa de Nossa Senhora da Graça (Nossa Senhora das Candeias, como se chama em outras terras), providenciar o tratamento das oliveiras, designadamente a poda e a apanha da azeitona, a benefício da Capela.
Olival da Casa. Por nele haver uma construção que servia para guarda de utensílios, adubos, sementes, colheitas e alfaias agrícolas e de abrigo contra as intempéries.
Olival da Estrada. Algumas pessoas designam assim as suas respectivas parcelas quando situadas junto do IC 2.
Olival da Raposa. Onde se situam as instalações da cerâmica Safaril (actualmente desactivada).
Olival da Senhora. Na separação entre a Ataíja e os Casais de Santa Teresa, no caminho que, saindo da Rua das Seixeiras para poente, leva aos Casais de Baixo. Foi arrancado quando eu era pequeno e, em seu lugar, semeado pinhal. Era propriedade da Confraria de Nossa Senhora da Graça.

Nota: Este post resume algumas investigações que vimos fazendo sobre a toponímia ataijense. Tenho consciência de que está incompleto e tem, talvez, alguns erros. Agradeço aos leitores que encontrem omissões, erros ou outras deficiências, toda a colaboração que puderem prestar. Contacto: jose.quiterio@sapo.pt


A Ataíja, em meados do Séc. XX era, ainda, um imenso mar de oliveiras:
(fotografia de meados dos anos cinquenta do Séc. XX, publicada na monografia "A Região a Oeste da Serra dos Candeeiros", edição do Centro de Estudos de Economia Agrária da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1961)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

OS MARCOS DO OLIVAL DOS FRADES



O Olival dos Frades foi mandado plantar por D. Frei Manuel de Mendonça que era sobrinho do Marquês de Pombal[1] e foi Abade de Alcobaça entre 1768 e 1777.
Os frades chamavam-lhe Olival do Santíssimo Sacramento por, ao que parece, usarem um sistema de contabilidade por consignação, seja, em que as diferentes receitas eram, previamente e por regra, afectas a diferentes tipos de despesa, sendo as receitas deste olival usadas para suportar as despesas do culto e louvor ao Santíssimo Sacramento.
Vendido em hasta pública na sequência da Lei de 1834 que extinguiu as Ordens religiosas, o olival passou por diversos proprietários sendo, em 1885, propriedade do Dr. Francisco Baptista Pereira Zagallo, Médico de Alcobaça
[2], onde existe uma rua com o seu nome. Foi, a certa altura, também no Séc. XIX, mas em data que ainda não conseguimos apurar, adquirido por Olímpio Trindade Jorge, comerciante de Alcobaça, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de marcos, muitos deles ainda hoje existentes.
Todos esses marcos, um dos quais se encontra junto à estrada que liga a Ataíja de Cima à Ataíja de Baixo, mesmo em frente da fábrica de cerâmica da empresa Destinos, têm gravadas, de um dos lados, as iniciais do Santíssimo Sacramento (SS) e, por baixo dela, as do proprietário (OTJ) e, do outro lado, o número do marco.
Mais tarde, em 1918, este olival veio a ser adquirido por um ataíjense, Matias Ângelo, pela quantia de 100 contos de réis, quantia à época considerada "fabulosa".





Marco contendo as inscrições "SS" e "OTJ"


[1]Salvador Magalhães Mota, A Acção de D. Frei Manoel de Mendonça à Frente dos Destinos da Congregação de Santa Maria de Alcobaça da Ordem de São Bernardo (1768-1777, in Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, p. 771-779[2] Manuel Vieira Natividade, O Mosteiro de Alcobaça (Notas históricas), Coimbra, Imprensa Progresso, 1885

Marco numerado "4."