quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ataíjenses na(s) América(s)



Há vários indícios de que no Século XIX, pelo menos a partir da extinção das Ordens Religiosas e das profundas alterações na propriedade e no sistema produtivo que, na nossa região, se verificaram em virtude da saída dos frades de Alcobaça e da consequente venda dos bens fradescos a uma burguesia emergente, havia na Ataíja escassez de mão-de-obra.

Será isso que justifica a fixação na nossa aldeia de um relativamente elevado número de enjeitados, de tal modo que a generalidade dos actuais ataíjenses têm entre os seus ancestrais, avós, bisavós e trisavós, que eram enjeitados.

Talvez por essas razões, a Ataíja de Cima não acompanhou o fortíssimo movimento que, a partir do primeiro quartel do Séc. XIX e durante cem anos, levou cerca de 1.300.000 portugueses pelos caminhos da emigração, sobretudo para os Estados Unidos e o Brasil.

Apesar disso, alguns ataíjenses emigraram no inicio do Séc. XX. Nenhum, que eu saiba, para o Brasil mas um (meu tio-avô) emigrou para a Argentina e por lá faleceu sem que os familiares tivessem tido outras notícias dele.

Pelo menos três emigraram para os Estados Unidos: Um deles foi Francisco Sabino, avô paterno do nosso amigo Américo de Sousa Sabino, o qual em 20 de Agosto de 1913 vivia em New Bedford, Massachussets, conforme se vê de uma procuração que nessa data passou a sua mulher Maria Coelho. Outro, de quem apenas sei que tinha o apelido Ângelo que transmitiu aos filhos, foi o sogro da minha tia Angélica. Outro ainda, de quem apenas sei que foi marido da Benedita, uma senhora cuja naturalidade desconheço, sempre conheci viúva e só e morava no início da Rua das Seixeiras, numas casas que agora são de António Baptista Vigário (António Sabino).

Possuo a foto de um desses emigrantes, (ou outro, não sei, chamava-se, talvez, Joaquim Batista que é o nome que aparece repetidamente escrito a lápis no verso da fotografia) o qual se fez fotografar por M. B. Pereira, um célebre fotógrafo açoriano que tinha estabelecimento no n.º  574 de South Water Street, em New Bedford.[i]


(no verso da foto, escrito a lápis: "Joaquim Batista")



(Foto, de 2010, da casa que foi da minha tia Angélica da Graça e, antes, de seus sogros. A parte da casa a partir do postalete de electricidade, para o lado da estrada, corresponde a dois quartos que se ligam à "casa de fora" por uma grossa parede de pedra. Um dia, estranhando eu esse facto, por inabitual, a minha tia explicou-me que tinham sido mandados construir (e acrescentados à casa original) pela sua sogra, "com dinheiro que o meu sogro mandou da América")


  
Mais tarde, nos anos 50, Manuel Sabino (filho de Francisco Sabino) emigrou também, fixando-se no Canadá

Posteriormente, pelo menos mais quatro ataijenses emigraram para o continente norte-americano e aí vivem actualmente.






[i] O fotógrafo já não existe mas New Bedford é, ainda, hoje, um lugar onde não é indispensável falar inglês, nem comer hamburgers ou beber coca cola, já que a cada esquina se encontra um português e um estabelecimento de nome português, onde é possível comprar de tudo e comer e beber exclusivamente produtos portugueses.


domingo, 11 de novembro de 2018

El Rey Del Mundo





El Rey del Mundo é uma marca cubana de charutos cujas origens remontam a 1848 e no auge do seu prestígio, no início do séc. XX, era a marca de charutos mais famosa e mais cara do mundo.
A partir dos anos de 1960, 1970, os gostos dos fumadores começaram a evoluir para sabores mais fortes e El Rey del Mundo com os seus charutos de sabor suave (que ainda se mantém) deixou de ser a principal marca de havanos.

Em 1905 a fábrica que produzia estes charutos foi adquirida por Diaz Hermanos & Co., que mais tarde mudou o nome para Rey del Mundo Cigar Co, para beneficiar do prestígio do seu mais valioso produto.
Actualmente, os charutos El Rey del Mundo são produzidos pela empresa estatal Habanos S. A.
Por razões que não logramos esclarecer com rigor e pelo menos desde cerca de 1956, sob a mesma marca El Rey del Mundo e usando logotipo semelhante, existem no mercado charutos que nada têm a ver com os verdadeiros havanos, fabricados, até 2009 nas Honduras e depois disso, na Nicarágua, por uma empresa americana designada Villazon & Co.

A caixa que temos presente e cujo interior da tampa acima reproduzimos terá mais de cem anos e é, sem dúvida, posterior a 1912 e anterior a 1920.
De facto, se o logo já ostenta a nova denominação da empresa, Rey del Mundo Cigar Co, no papel que cobre a parte lateral da caixa é visível a legenda Diaz Hermanos & Co, o que nos remete para o período de transição entre ambas as denominações da empresa proprietária. O “Sello de Garantia Nacional de Procedência”, cujos restos se encontram colados no fundo da caixa, mostra que ela é posterior a 1912, data da criação daquele selo e anterior a 1931, data em que o selo sofreu ligeiras alterações.
Tudo, aliás, é bem coerente com o facto de a caixa fazer parte do que foi o espólio hereditário da ataijense Joaquina Coelho, que a terá recebido de seu pai Francisco Sabino que, no início do séc.XX, foi emigrante na América.


Nome bem posto: El Rey del Mundo.
Assim se havia de sentir o emigrante regressado, ainda que com escassos dólares no bolso, a fumar um verdadeiro e perfumado charuto cubano.

O cabelo bem cortado e bem penteado, o bigode encerado, a camisa branca onde brilhava uma gravata de seda, os sapatos, o fato completo de calça, cinto de cabedal, casaco com um decorativo botão na lapela e um lenço branco, bordado, a emergir do bolso, o colete atravessado pela corrente do relógio, tudo havia de fazer um brutal contraste com os seus bisonhos vizinhos, diariamente descalços, cabeça sempre coberta por um negro barrete de borla, vestindo camisas sem colarinho e calças de cós alto onde se enrolava uma longa e negra cinta de pontas pendentes. 

Assim era o emigrante regressado de New Beresford, Massachussetts, América, nos inícios do Séc. XX. Como havemos de ver em próximo post.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Gente da Ataíja de Cima - Emília Florinda - A Perna-Torta


Emília Florinda, filha de José Constantino, tinha a alcunha de A Perna-Torta devido à deficiência física de que sofria.

Era de estatura diminuta, já que sofria de nanismo desproporcional severo e ambas as tíbias apresentavam forte curvatura, o que justificava a alcunha e a obrigava a um andar bamboleante.

A primeira vez que vi um espectáculo circense, algures por meados dos anos de mil novecentos e cinquenta, foi com um pequeno grupo, uma família de saltimbancos que se deslocava em modesta carroça puxada por uma mula velha e com ar de estar mal alimentada.

Foi ao lado da taberna do Sarrano e encostado à parede do quintal da Riteira - Riteira era a alcunha de uma senhora já velha e viúva de quem nunca soube o nome (Ana, talvez, mas não tenho certezas) e que sempre conheci vivendo com a sua filha Maria Cordeira e o genro Manuel Matias - a tal parede delimitava o terreno no exacto sítio onde hoje se encontra a casa do Pirata, aliás, irmão da Perna-Torta e foi em plena rua, aproveitando o pequeno largo que ali se forma, que a troupe montou o seu estaminé e lá foi fazendo as suas habilidades, à luz de um petromax, enquanto um passo atrás, mesmo colada à parede, a mulher mais velha ia preparando, numa trempe, a ceia da companhia.

As labaredas ajudavam à iluminação do ambiente já que, naquele tempo as noites, salvo as de luar, eram puro breu, pois não havia electricidade na Ataíja de Cima.

O palco era  na traseira da carroça, o que permitia ao chefe esticar o braço lá para dentro e retirar algum adereço necessário à função. Os espectadores dispuseram-se em semi-círculo ao redor, as crianças colocadas à frente, misturadas com os mais precavidos, estes, sentados em cadeiras ou tripeças que tinham trazido de casa.

Um dos números precisava de um anel ou aliança, coisa que quase ninguém usava.
A Perna-Torta, naturalmente, estava na fila da frente e tinha um anel que, depois de muitas insistências, disponibilizou ao mágico o qual, obviamente, o fez desaparecer no lenço.

Seguiram-se outros números e do anel, nada.

Às tantas, quando o espectáculo se aproximava do final e o speaker já anunciava que a troupe iria comer a ceia que a velha tinha preparado, a inquietude da Perna-Torna alastrou-se à assistência e levantou-se um grande sururu, com toda a gente a reclamar a devolução do anel.
As coisas estavam quase a azedar e em vias de fazer perigar a integridade física dos artistas, (o chefe da troupe, experiente, esticou a corda até quase ao limite) quando, em milagre muito aplaudido, o anel, afinal, estava dentro de uma das batatas acabadas de cozer.





Nota: Uma primeira versão deste texto, que agora se substitui, foi aqui publicada em 24-10-2010

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Um livro do Séc. XVIII na Ataíja de Cima


Conhecedora das minhas deambulações pelo passado ataíjense, mão amiga fez-me chegar um livro publicado há 233 anos.

Trata-se do “THESOURO BIBLICO, OU DICCIONARIO HISTORICO, E ETYMOLOGICO DOS Nomes próprios dos Póvos, Provincias, e Cidades, com as suas respectivas interpretações. E relação succinta das noticias, e acções principaes da maior parte das pessoas, que se encontrão nos veneráveis Livros da Sagrada Escritura. OBRA UTILISSIMA PARA A MELHOR INTELLIGENCIA DO ANTIGO, E NOVO TESTAMENTO E ASSIM MESMO PARA A LIÇÃO DA HISTORIA DA SANTA IGREJA, Lisboa, na oficina de Simão Thadeu Ferreira, ANNO M.DCC.LXXXV, Com Licença da Real Mesa Censoria”. (teve uma reedição, impressa no Porto, Typographia da Revista, em 1869)

O longo título e subtítulo que, como era uso naquela época preenche toda a página de rosto (acima reproduzida), é só por si esclarecedor do conteúdo do livro: Trata-se de, sob a forma de dicionário, explicar resumidamente, o essencial sobre as pessoas, povos, locais e factos referidos na Bíblia.

A necessidade deste tipo de livros – que, por outro lado, se inserem no movimento de publicação de dicionários e enciclopédias que, por aquele tempo, no chamado século das Luzes, percorreu a Europa – resulta do facto de a Bíblia não se encontrar traduzida e de os actos litúrgicos serem proclamados em latim.

O autor, que no livro é referido, apenas, pelas iniciais do seu nome: F.F.D.J.M.S., foi Frei Francisco de Jesus Maria Sarmento, frade e provincial da Ordem Terceira de São Francisco, o qual publicou diversas obras de cariz religioso e foi um dos responsáveis pela reconstrução do Convento de Jesus (onde, actualmente, funciona a Academia das Ciências de Lisboa) cujos edifícios sofreram, com o terramoto de 1755, gravíssimos danos que o deixaram inabitável.

O livro encontra-se disponível na internet em
http://books.google.com/books?id=qs4pAAAAYAAJ&pg=PA260&lpg=PA260&dq=thesouro+biblico&source=bl&ots=3tVTeWopPe&sig=mfqFq9hFsJgWbj78zja_U0w6sZs&hl=pt-PT&ei=M6UPTYTbD8K4jAfl5JzEDg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CCYQ6AEwAw#v=onepage&q&f=false, digitalizado a partir de um exemplar existente na Harvard University Library e é, também, passível de ser encontrado em alfarrabistas.


Não é isso, no entanto, o que nos leva a falar dele neste blog mas, antes, o facto extraordinário de o exemplar que temos presente ter sido preservado e em razoável bom estado, durante tanto tempo, sobretudo, quando sabemos que foi encontrado no espólio hereditário de uma ataijense  que, apesar de ser analfabeta, o conservou durante dezenas de anos, durante toda a vida.

O livro foi encontrado, após a morte da proprietária, em casa da que foi conhecida por Maria Marreca, a qual era meia-irmã da minha avó e o terá recebido o livro por herança paterna.
O livro contém, manuscritas, três indicações de propriedade: No verso da capa, a tinta, “este livro he de ..(ilegível) .. Cortez”, e uma outra, a lápis, “Este livro he” (sem indícios de ter sido escrito o nome que, naturalmente, devia seguir-se). No verso da contra-capa, perfeitamente legível, a terceira marca: “Este livro é de António Maria Cláudio”.


Pela grafia (é em vez de he) deve presumir-se que esta terceira marca é a mais recente.

Quem seria este António Maria Cláudio?

A minha avó falava-me do seu avô João Cláudio que combateu nas tropas anglo-portuguesas durante a Terceira Invasão Francesa e, com Wellington, atravessou toda a Espanha na perseguição aos exércitos napoleónicos.

Assim, talvez o António Maria Cláudio fosse descendente do João Cláudio e, por isso, meu familiar, talvez tio-avô ou tio-bisavô.

Hei-de investigar isso melhor quando e se me decidir a entrar a sério pelos caminhos, sempre tortuosos, da genealogia.

Até lá, resta-me agradecer à actual proprietária do livro e desejar que ela e os seus descendentes o saibam conservar, por mais 233 anos, como o souberam fazer os seus ancestrais.

(Reprodução das págs. 92 e 93 do Thesouro nas quais se vê, entre outras, uma descrição moral da figura bíblica de Caim)




Nota: O presente texto substitui uma primeira versão que foi publicada neste blog em 07-01-2011


domingo, 16 de setembro de 2018

Uma foto da 1945




Com o recente texto O Moleiro, que aqui publiquei em 24 de Agosto passado, atingiu o blog Ataíja de Cima o redondo número de 333 posts ou mensagens publicadas.

É um bonito número, como diria o outro e são, também, uns bonitos quase nove anos de publicação regular, sempre atento ao objectivo que me propus de divulgar a Ataíja de Cima, a sua história e as suas histórias, gentes, costumes, tradições e actualidade, com destaque para a economia e os mais importantes factos e os eventos (agora já ninguém diz acontecimento) que moldam a vida social.


De algum modo, achei que aquele interessante número das 333 mensagens publicadas merecia ser assinalado e isso fez com que tivesse andado a pensar em qual havia de ser o tema do 334º post, questão que ficou, agora, resolvida porque mão amiga me fez chegar uma deliciosa fotografia, de um grupo de 14 jovens ataíjenses, tirada na festa de S. João, nos Olheiros, talvez em 1945.

À frente, da esquerda para a direita: Maria Jorge, Piquete, Maria Carlota, João Veríssimo, Joaquina Jorge.
Atrás, pela mesma ordem: Maria Tomé, Luísa (filha de José Ribeiro), Teresa Neto, Joaquina Tomé, Maria (filha de José Ribeiro), Maria Florinda, Manuel Branco, Joaquina Júlia, Francisco Rosa

Dos jovens aqui representados todos os homens já faleceram e, das mulheres, julgo que estão vivas apenas duas. Os outros, alguns cedo de mais, foram falecendo como é da ordem natural das coisas.
Duas das mulheres faleceram, precocemente.

A primeira foi a Joaquina Júlia (Joaquina Gomes, Júlia era alcunha, por ser filha de uma Júlia) que casou com João Frade (João da Graça de Sousa) e viveu o seu curto casamento na casa que ocupou o lugar do moinho referido no post O Moleiro. Foi mãe da Morena, do Zé Frade e de outra filha que saiu jovem da aldeia. A Joaquina Júlia faleceu muito cedo, em Maio de 1954, deixando aquelas três crianças muito pequenas, tinha a Morena, a mais velha das três, apenas cinco anos e sete meses.

A segunda, julgo que também ainda nos anos de 1950, foi a Teresa Neto (era irmã do recentemente falecido José Henriques ou José Neto, mais conhecido por Zé Diabo), a qual casou com um natural do Valado dos Frades que conhecíamos por Joaquim Cuco, residiu na casa que actualmente é do Paulo Carreira (Rodinhas) e foi a última camponesa da Ataíja de Cima a falecer de tétano, tal como contámos no post, Tétano.


À excepção do Piquete (Manuel Ângelo), que morreu solteiro e conheci a viver com o irmão António na casa que tinha sido de seus pais, na Rua dos Arneiros, onde hoje está a casa de um dos netos do João Veríssimo, todos os demais casaram e deixaram descendência, mas apenas dois dos retratados, a Maria Florinda e o Manuel Branco, formaram entre si um casal.

Note-se que quatro das raparigas nem para ir à festa largaram o lenço da cabeça e assim denunciam a sua condição de camponesas pobres. Não são, aliás, as únicas camponesas pobres presentes na foto. A minha mãe, Maria Joaquina da Graça que foi conhecida por Maria Carlota (a Maria filha da Carlota), ao centro à frente, não era menos pobre. Mas sempre a conheci opiniosa, preocupada com o próprio aspecto e o do seu João. Lembro-me, por ex., do cuidado com que passava a ferro e apertava os grandes laços com que atava os aventais que usava na venda do leite e isso torna-me mais feliz a sua memória.

No trajar do conjunto das raparigas as blusas brancas, que todas usam, denunciam que se trata de um dia de descanso, que o uso do branco era incompatível com o trabalho do campo. Talvez os lenços sejam mais bonitos do que parecem na foto e o que julgamos preto seja, antes, azul escuro e os lenços tenham cornucópias, volutas ou flores, mas, seja como for, uma rapariga solteira queria-se discreta e casta e, para isso, o branco chega.

Os homens, esses, como galos de crista no ar ou pavões de leque, podem ser mais vaidosos e têm melhores condições para o mostrarem. Vão vestidos para a festa. Penteados cuidados, camisas brancas, casaco e, dois deles, até gravata. Gostos e dinheiro para os sustentar obtidos, certamente, nas maltesias das vindimas no Bombarral e das quintas de Lisboa.


As duas filhas de José Ribeiro, como conta a ti Luísa Emília, ainda felizmente viva, foram à festa sem o pai saber.

___________
Um penhorado agradecimento à Maria Amélia Cordeiro, ilustre ataijense e querida amiga, através da qual a foto me chegou às mãos e ainda me ajudou a identificar a grande maioria dos fotografados.
Agradeço aos leitores ataíjenses que me informem de qualquer erro ou imprecisão que deva ou mereça ser corrigida. Como lhes agradeço que me emprestem as fotos interessantes que, certamente, andam lá por casa. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Moleiro



Ainda estão vivos alguns que se podem lembrar de ter ouvido os seus búzios assobiar ou de ter visto as suas velas a rodar ao vento, mas as memórias começam a ficar difusas e, dele, não se conhecem fotografias ou desenhos, mas não havia de ser muito diferente (ao menos no que diz respeito ao mecanismo de moagem) do que se mostra no desenho abaixo, o moinho de vento que, algures pelos finais dos anos 30 ou inícios dos anos 40 do século passado, o ti Manuel Luís mandou construir no quintal.

Teve curta duração e dele não há ruínas ou quaisquer indícios que atestem a sua existência, já que se erguia no lugar onde depois foi construída a casa de João Frade, filho do proprietário, mesmo ao lado de onde agora está a do neto Zé Frade, um lugar alto aonde o vento podia chegar, sem obstáculos, de todas as direcções.

Ali se moía o milho de que se fazia a broa dos vizinhos e o próprio e das maquias com que se alimentava a numerosa prole e algum trigo para o pão-alvo dos domingos e dias santos.

Mas, naqueles dias de Agosto, havia mais de uma semana que sobre a terra tinha caído uma calmaria tal que nem as folhas das nogueiras buliam. Nada, nem uma brisa ligeira. Apenas, dia sobre dia, aquele calor seco que tão bem conhecemos, quando o sol queima na pele, os pássaros não voam, os cães se arrastam nas sombras e só o canto das cigarras rasga o silêncio.

Era Domingo. Talvez no ano de 1941 ou 1942, quando a Europa sofria sob a guerra e Portugal sofria sob a pobreza de sempre, agora agravada pelo racionamento. Na casa da ti Maria da Graça o pão, fossem os restos do pão-alvo do domingo passado, fosse a broa semanal, já tinham acabado. Nem uma côdea sobrava na arca.

O Padre Casimiro marcava as missas em São Vicente para muito cedo, quase de madrugada, o que por outro lado era bom que, assim, não tinha a gente de torrar sob o sol naquela viagem de seis quilómetros, ida e volta. 

Estava todo o povo na missa, as mulheres e as crianças pequenas no corpo da igreja, os homens ocupando a capela-mor e o coro, como era uso naquele tempo e ainda me lembra e o meu pai contava-me que, quando ele era pequeno e ainda ficava com a mãe no corpo da igreja, que se os homens se ajoelhavam, (apenas o joelho esquerdo no chão, mão direita segurando firmemente o pau, cotovelo apoiado na coxa) ficava a capela-mor feita uma floresta de paus. Nos anos cinquenta os paus já tinham desaparecido – pelo menos da missa - mas o resto mantinha-se muito parecido.

Estava o povo na missa, dizia eu, e o ti António da Graça, então um jovem dos seus dezoito ou dezanove anos, assistia no coro quando ouviu lá fora o rumor de uma rabanada de vento. Benzeu-se à pressa, desceu à rua e, não havia dúvidas, fazia um vento suão que levantava a poeira seca dos caminhos.

 Não pensou duas vezes: desatou a correr quanto pode e, num ápice, galgou os três quilómetros que o separavam de casa e do moinho. Despiu a camisa domingueira que o suor colara ao corpo e foi-se ao moinho. Verificou brevemente o engenho. Desenrolou as velas e amarou-as às varas das escotas.  Despejou a saca de trigo no tegão. Manobrou o sarilho, fazendo girar o capelo para alinhar as velas com a direcção do vento.
Sob a força da entrosga todo o engenho rangeu e a mó andadeira começou a rodar, o grão a escorrer pela calha e a farinha a surdir no panal.


Acabada a missa, a ti Maria da Graça vasculhou o adro em busca do filho que não encontrou. Levantou o rosto para sueste e os seus olhos saltaram o vale e chegaram ao seu moinho e pode ver, destacando-se no cenário de fundo da serra dos Candeeiros, as velas brancas a girar.

Graças a Deus!

O meu António já tem o moinho a trabalhar!

Estugou o passo e, também ela, chegou ofegante a casa e ao moinho onde o António já tinha a farinha suficiente. Peneirou-a e amassou-a brevemente, abafou-a com uma manta para levedar mais depressa e, usando o azeite que, esse, felizmente, ainda abundava na talha, fez filhoses que polvilhou moderadamente com açúcar e esse foi o almoço de todos.


Corte longitudinal de um moinho de vento, permitindo ver o mecanismo 
(imagem retirada, com a devida vénia, de Museu da Memória Rural, uma realização da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, com um excelente site na internet, in https://museudamemoriarural.pt/)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Há um problema de segurança em Alcobaça?



Motivados por uma desusada vaga de assaltos a residências na Ataíja de Cima, publicámos no semanário Região de Cister, de 22 de Março de 2018, um texto com o título acima.
Depois disso, têm-se multiplicado quer na imprensa local quer, sobretudo, nas redes sociais, relatos de uma persistente criminalidade, relativa a assaltos, roubos e tráfico de drogas, entre outros.
Tudo perante o silêncio das autoridades municipais e policiais e a ausência de notícias que nos digam que os criminosos vão sendo apanhados, julgados e condenados, ou de estatísticas que nos mostrem que as coisas estão a melhorar (e não a piorar como parece ser o sentimento geral).
É por tudo isso que me parece que mantém pertinência a pergunta e se justifica a republicação, aqui no blog, do referido texto.



Há um problema de segurança em Alcobaça?

Há muitos anos, calhou-me integrar a associação de pais de uma escola secundária, então frequentada pelos meus filhos.
Uma das questões recorrentes era o enorme rol de queixas relativas a pequenos furtos que afectavam os alunos e, quase sempre, apontavam numa direcção: um ou dois bairros próximos da escola onde, a par com habitação social, existiam muitas casas clandestinas e algumas habitações precárias.
Um dos colegas da direcção era um prestigiado militar que não só conhecia bem as questões de segurança como quem tinha o dever de a garantir naquela área e lá fomos ambos falar com o então Chefe da esquadra da PSP do Campo Grande, a quem demos conta dos problemas existentes, solicitando-lhe que reforçasse o patrulhamento no local.
Depois de nos escutar atentamente, o responsável deu-nos conta dos meios que tinha à disposição, em homens e viaturas e um mapa da parte da cidade cuja segurança pública era sua responsabilidade. O dito mapa mostrava com clareza as zonas onde realmente existiam os problemas de segurança a que a PSP tinha de dar atenção. A área da escola dos meus filhos não era uma dessas áreas, porque o volume de queixas, fossem relativas a furtos e roubos fosse a outros crimes contra as pessoas ou a propriedade, era absolutamente residual.
Resumindo, havia muitas queixas na associação de pais e poucas na PSP.
Não sei qual é a situação no que respeita a Alcobaça e aos crimes contra a propriedade. Não sei se a PSP e a GNR têm muitas ou poucas queixas, nem as zonas do concelho onde são mais ou menos frequentes.
Mas sei que no curto espaço de cerca de treze meses, entre os primeiros dias de fevereiro de 2017 e meados de março de 2018, numa única aldeia do concelho, numa única rua e na curta distância de 300 metros, houve seis furtos com arrombamento, a um estabelecimento comercial e a cinco residências e seus anexos.
Nesses furtos, além dos danos provocados nos edifícios para arrombamento, desapareceram dinheiro, alimentos e bebidas, ferramentas, máquinas, e até a porta do estabelecimento assaltado e veículos motorizados, tudo no valor de muitos milhares de euros.
Num dos casos, quando a GNR chegou ainda o ladrão se encontrava dentro da casa assaltada.
Não muito longe, há uns poucos meses atrás, furtaram equipamentos em pedreiras. Num caso, com ameaças a uma pessoa. Noutro caso, foi identificada a viatura em que se deslocavam os assaltantes e, consequentemente, os próprios assaltantes.
Ou seja, em pelo menos dois dos casos referidos conhecem-se os autores e sabe-se onde habitualmente param e com quem andam.
Na época da azeitona foi furtado pelo menos um motosserra que, por pouco tempo, tinha sido deixado num olival.
E, há outros casos, como aquele do estrangeiro residente no Casal do Rei a quem, - obviamente sabendo que ele se tinha ausentado para ir à sua terra, - levaram todo o recheio da casa, incluindo a mobília.
Ou o estabecimento comercial, na mesma aldeia, onde furtaram as bilhas de gás que ali estavam para venda.
Talvez a GNR não tenha tido conhecimento da totalidade destes furtos, mas sei que recebeu as correspondentes queixas da maioria deles.
Talvez não haja um problema de segurança em Alcobaça. Mas, os factos que acabo de relatar mostram, inequivocamente, que existe um problema de segurança em algumas partes do concelho de Alcobaça.
Na Ataíja de Cima, claramente, há um problema de segurança.
18-03-2018