quinta-feira, 4 de julho de 2019

sobre A Indústria da pedra e o PNSAC



No âmbito das comemorações do quadragésimo aniversário do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, teve lugar no passado dia 28 de Junho de 2019, nas instalações da empresa Solancis (http://www.solancis.com/pt/), na Benedita, um evento subordinado ao tema “Inovação tecnológica e economia circular na utilização de recursos geológicos”

Os cerca de cem participantes receberam as boas vindas do CEO da Solancis, Sr. Samuel Delgado que se congratulou com o facto de ser possível este evento que, disse, ficará na história do sector da pedra e deixa a Solancis muito orgulhosa, por juntar no mesmo propósito  a indústria, o PNSAC, e a escola representada pelo Instituto Politécnico de Leiria, constituindo uma recompensa por muitos anos de trabalho.
Víamos a PNSAC como um inimigo e agora vê-mo-lo como um parceiro. Disse.

O Engº Carlos Neves, professor no Instituto Politécnico de Leiria, proferiu uma palestra subordinada ao tema Fábricas do futuro: A relação connosco e com o cotidiano, na qual percorreu brevemente as caraterísticas distintivas das 1ª, 2ª e 3ª revoluções industriais e a 4ª revolução, que agora desperta e na qual a fábrica, a fábrica do futuro que agora começa, será bastante diferente das que conhecemos, cada vez mais automatizada e robotizada constituída por sistemas ciberfísicos, capazes de produzir produtos inteligentes e centrada no serviço.

Chamou a atenção para o facto de que esta 4ª revolução já começou embora, como aconteceu com as anteriores revoluções industriais, muitos disso se não apercebam.


Célia Marques, Diretora de qualidade, ambiente e território da ASSIMAGRA, falou sobre A sustentabilidade da indústria extrativa no PNSAC: Compatibilizar e cooperar para a exploração racional de massas minerais e a valorização do território, debruçando-se sobre os constrangimentos à actividade extractiva, designadamente a necessidade de assegurar a sustentabilidade ambiental das explorações na área do parque natural,  respeitando o rico património paisagístico, geomorfológico e paleontológico, bem como a sociedade, as populações e a economia tradicional que ainda subsiste em largas zonas e enunciou os problemas para as cerca de 350 pedreiras (de todos os tipos, apenas 98 de rochas ornamentais) que laboram na área e nas novas formas, nomeadamente através de comissões mistas, que vêm sendo encontradas para o diálogo entre o PNSAC, os municípios e a indústria extractiva.

A Dra. Maria de Jesus Fernandes, directora do Departamento Regional de Conservação da Natureza e Biodiversidade de Lisboa e Vale do Tejo, moderou um breve debate, durante o qual o sr. Samuel Delgado referiu a necessidade de breve aprovação do PDM (de Alcobaça) que está em revisão desde o ano 2000 e, do mesmo modo o Plano de Ordenamento do Parque que, igualmente, carece de revisão.

Engº Geólogo Marco Aniceto, da Solancis, falou sobre alguns dos aspectos da actividade da Solancis de cujas 12 pedreiras, 9 se situam na área do PNSAC, centrando-se na recuperação paisagística das pedreiras abandonadas (para cujo enchimento se aproveitam quer as escombreiras locais, quer desperdícios das pedreiras). Mencionou, a este propósito, números interessantes:

As pedreiras existentes do PNSAC ocupam uma área de  776 ha, correspondente a  1,94% da área total do parque que é de 40.000 ha.
As pedreiras da Solancis ocupam 34 ha, correspondente a 4,45% da área total das pedreiras.

Na área do parque foram já objecto de recuperação 80 ha, dos quais 21,7%, correspondentes a 17 ha, foram recuperados pela Solancis.

Enunciou medidas tendentes a assegurar a sustentabilidade das explorações, designadamente o facto de que as pedreiras produzem, quase exclusivamente, para alimentar as necessidades da fábrica (sendo que a fábrica só trabalha para satisfazer encomendas), extraindo-se apenas o necessário e quando necessário, minimizando-se os stocks.

Na fábrica, de imponentes dimensões, que visitámos de seguida, prenderam a atenção deste visitante o elevado grau de automatização, o sistema de recolha de desperdícios (toda a fábrica é percorrida por túneis onde correm tapetes rolantes que recolhem os desperdícios de pedra e os encaminham para o local onde são carregados nos camiões que os conduzem ao seu destino final), a produção própria de energia eléctrica, por recurso a painéis fotovoltaicos que já corresponde a quase 20% do consumo, (respectivamente, 1111 kwh/dia e 6098 kwh/dia) e os números, igualmente impressionantes, relativos à ETAR própria, com capacidade de tratamento de 8000 litros de água por minuto e a produção de lamas que atinge as 30 toneladas diárias.

Ao terminar a visita passamos por um veículo plug-in que estava a carregar as suas baterias e a provar que na Solancis as questões ambientais são levadas a sério.

Numa das paredes da recepção da Solancis este painel mostra diferentes acabamentos da pedra, que a entrada de designers na fábrica e a moderna maquinaria CNC (controlo numérico computorizado) agora permitem.


O PNSAC ofereceu aos participantes algumas das suas publicações:

- Plantas a Proteger no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros;
- Guia de Aves do PNSAC;
- Guia de Recuperação de Áreas Degradadas.

No decurso da visita tive a oportunidade de cumprimentar dois ataíjenses que ali trabalham e se hão-de ter interrogado sobre o que eu fazia ali. A resposta a essa interrogação é simples: Por um lado, a minha convicção de que o assunto interessa à Ataíja de Cima e o objectivo de dar conta dele neste blog. Por outro lado, a tentativa – conseguida – de aprender alguma coisa. É que eu acredito firmemente que, enquanto aprendemos, não envelhecemos verdadeiramente.

A jornada terminou com um pic-nic na Casa Florestal de Vale de Ventos, uma degustação de produtos regionais oferecida pela CMA, que constituiu uma excelente oportunidade para a troca informal de impressões entre os participantes.



quinta-feira, 23 de maio de 2019

Gente da Ataíja de Cima – José Sabino – o José Coelho

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José Sabino que foi por todos conhecido como José Coelho, nasceu na Ataíja de Cima em 29 de Janeiro de 1920 e faleceu em 13 de Outubro de 1991.

Era filho de Francisco Sabino que teve uma vida aventurosa, incluindo a imigração para a América (New Beresford, Massachusetts)  e morreu jovem, com 41 anos de idade e de Maria Coelho, tecedeira de mantas e tapetes de trapo.

Ficou órfão de pai com vinte e um meses de idade e veio a casar, em Dezembro de 1944 com Joaquina Rosalia de Sousa, conhecida por Joaquina Rosalia, tendo construído a casa que ainda existe no largo do Outeiro.

A falta de trabalho que então havia na Ataíja, a necessidade de fazer face ao sustento da família que começava a crescer rapidamente e a de pagar as dívidas resultantes da construção do lar familiar, obrigaram-no a seguir o caminho que era, então, o de quase todos os homens ataíjenses: a emigração sazonal, para trabalhos agrícolas nas quintas da região de Lisboa.

Acabou por se fixar, primeiro como vaqueiro e por fim como caseiro, numa quinta em Camarate onde, em 1953, juntou a família.

Tinha então quatro filhos, (entre eles o Américo de Sousa Sabino, já mais de uma vez, justamente, referido neste blog) e aí haviam de nascer mais outros quatro.

Manteve sempre uma estreita ligação à Ataíja e um forte empenho no progresso da aldeia, sendo de destacar a doação que fez do terreno para se construir a actual Escola Básica de 1.º Ciclo e Jardim de Infância, bem como a actividade que desenvolveu na comissão que, nos anos de 1975 e 1976, muito trabalhou para conseguir o alcatroamento da estrada municipal n.º 553 que liga a EN 8 em Aljubarrota à Ataíja de Cima e ao IC 2, passando pelo Cadoiço.

Faleceu em 13 de Outubro de 1991, depois de ter regressado à aldeia, quando a quinta de Camarate, nos arredores de Lisboa, onde vivera e criara os filhos, começou a ceder à pressão imobiliária que, entretanto, a submergiu.

Nessa quinta existe hoje uma rua com o seu nome e, assim, o José Coelho é, tanto quanto sei, o único ataijense a ter uma rua, ou outro espaço público, com o seu nome.

Foi por deliberação da Câmara Municipalde Loures, tomada na reunião ordinária de 18 de Janeiro de 2012 que, acolhendo a proposta aprovada, em 29 de Abril de 2011, pela Assembleia de Freguesia de Camarate, foi dado o nomede José Sabino à Rua sita na Quinta da Marvila, em Camarate, com início na Rua dos Escuteiros e fim na Rua Quinta da Marvila.

Da proposta e como seu fundamento, consta uma breve biografia de José Sabino que de seguida transcrevemos:

          "José Sabino, mais conhecido por Zé Coelho, nasceu em Ataíja de Cima, Aljubarrota - Alcobaça.
          José Sabino fixou-se em Camarate por volta de 1950. Trabalhou na "Quinta dos Militões" e explorou a Quinta das Areias, Quinta da Arieira, Quinta dos Polvorais, Quinta do Salter e Terras do Grilo.
          Em 1953 tornou-de rendeiro da Quinta da Marvila, onde se manteve até ao fim dos seus dias.
          Em 1983 adquiriu para propriedade sua parte da Quinta que fora rendeiro muitos anos.
          Nos terrenos sob sua administração, sempre houve lugar ao acolhimento de pessoas particularmente carenciadas e para famílias pobres, a quem cedia pequenas parcelas de terreno, para cultivo próprio, proporcionando meios de subsistência.
          José Sabino foi o impulsionador do Jardim de Infância Nossa Senhora dos Anjos em Camarate, e de igual modo esteve envolvido na reconstrução/remodelação das instalações do Grupo Desportivo Águias de Camarate.
          A actual sede das actividades do Corpo Nacional de Escutas fora um edifício que foi sua pertença.
          Nasceu em 20/1/1920, faleceu em 13/10/1991."


A colecção das cartas que trocou com sua mulher, entre 1948 e 1952, nos anos em que – forçados pelas contingências económicas - viveram separados, ela na Ataíja cuidando das poucas terras familiares e dos filhos e ele em Camarate, constitue um importante acervo documental, um raro e poderoso testemunho, sobre as condições de vida na nossa região em meados do Séc. XX.

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quarta-feira, 17 de abril de 2019

Évora nas Memórias Paroquiais de 1758



Quando comecei estas pesquisas o meu propósito era investigar, apenas, o passado Ataíjense. Mas, rapidamente percebi que tinha de alargar as buscas a toda a freguesia de São Vicente (e, agora, não há desculpa para não abranger a freguesia de Prazeres) e, por vezes, é absolutamente necessário ir até às freguesias vizinhas, como é o caso de Évora, Évora de Alcobaça que, aliás, sempre partilhou com as freguesias de Aljubarrota a povoação dos Molianos, ou da Pedreira como, durante séculos, foi chamada.
É por isso que, depois de ler e reler as respostas que o Coadjutor Luis Ferreira Fragoso deu ao inquérito pombalino de 1958[i], acabei por transcrever[ii] as ditas respostas e aqui as partilho com os eventuais interessados

(S. Tiago Maior - Baixo relevo na fachada lateral da sua Igreja em Évora de Alcobaça)

Évora de Alcobaça nas Memórias Paroquiais (1758)

Esta vila de Évora pertence à província da Estremadura do Patriarcado de Lisboa, Comarca de Leiria termo da mesma vila e freguesia.
Sam donatários dela os religiosos do Real Mosteiro de Santa Maria da Vila de Alcobaça
Compreende em si o número de trezentos e oitenta vizinhos tem pessoas de salvamento mil e vinte e menores duzentas e dez
Está situada em Monte donde se descobrem a Villa de Alcobaça, que dista meya légoa, o lugar da Vestearia que dista huma legoa, e a Villa da Cella, que também dista huma legoa
Tem termo seu o qual comprehende nove casais, o Casal da Ortiga que consta de cento e trinta e duas pessoas o Casal do Pereira que tem cinquenta e duas pessoas o Casal de Mendalvo que tem sessenta e nove pessoas, o Casal do Abegão que tem quarenta e oito, o Casal do Pinheiro que consta de cinquenta e três, o Casal dos Fragosos e Acipreste que tem cento e vinte e nove, o Casal do Arieiro que consta de cento e quarenta e uma pessoas,
O lugar da Pedreira e Portela tem cinquenta e quatro pessoas
A sua Parochia esta situada dentro da Villa.
O seu Orago e o Apostolo Sam Tiago Mayor, tem sinco altares, o Altar do Sacramento; hum de Nossa Senhora do Rosario; outro de Sam Sebastiam; outro da Santa Ana; e outro de Santo Andre; tem duas naves a Igreja; e tem quatro confrarias; huma do Santíssimo; outra da Senhora do Rosario; outra de Sam Sebastiam; e outra das Almas.
O Parocho da sua Igreja he Vigario, cuja apresentaçam he do Dom Abbade Geral do Mosteiro de Alcobaça; e tem de Renda duzentos mil Reis pouco mais ou menos.
Nam tem beneficiados.
Nesta Freguesia há hum Convento de Religiosos Arrabidos, de quem sam padroeiros os Religiosos de Sam Bernardo de Alcobaça.
Tem hospital esta villa do qual he Administradora a Santa Casa da Misericórdia, nam tem mais que quarenta alqueires de trigo e sete centos e sincoenta em dinheiro.
A dita Santa Casa da Misericordia nam há noticia da sua origem, por ser antigua, e tem de Renda sento e cinquenta mil Reis, e nenhuma das Referidas Casas tem cousa notável para referir.
Tem duas Ermidas ambas situadas fora desta villa, a saber huma de Sam Vicente outra de Santa Marta, pertencem, esta aos Relegiosos de Sam Bernardo, aquela aos moradores desta villa.
Nam concorre nellas gente de romagem antes por arruinadas, nem nellas estam os sanctos há alguns anos.
 A terra tem suficiente abundancia de todo o género de ...(?)… ainda que a mayor seja de frutas, azeite e trigo
He governada por dois juízes ordinários e pela Câmara da mesma villa
Nam he couto nem cabeça
Nam há memoria de que houvessem homens insignes em armas, letras e so de opinada (?) virtude Frei Joseph da Esperança Relegioso Arrabido
Nam festas nesta villa mais do que huma que (?) na feira no dia do orago da freguesia, a qual dura poucas horas e se cobra somente portagem
Nam tem correyo, e se serve do de Alcobaça, que dista desta Villa meya legoa.
Dista dezouto legoas da cidade de Lisboa, capital do Patriarcado, a que pertence esta villa.
Em si nam conserva previlegio, antiguidade, nem cousa digna de memoria.
Nam tem lagoa, nem fontes celebres, antes he falta de agoas, nas quais nam se tem examinado qualidades especiais.
De porto de mar esta distante duas legoas.
Nam he murada, praça de armas, nem em seu destrito há castelo nem torre antigua.
No terremoto de mil sete centos e cinquenta e sinco
Nam cahio casa alguma, e ainda que ficaram algumas paredes arruinadas, athe ao presente se nam tem feito nellas mais reparo, que alguns espeques que logo lhes puzeram.
No destrito desta freguesia e seu termo se nam comprehende de serra mais do que huma legoa, aonde tem dous pequenos lugares, e nella nam ha cousa alguma notável das referidas no Interrogatorio.
Nem tem rios de agoa nativa, mas tem dois que nam tem outra agoa, mays que a que recebem no tempo do Inverno.
O Coadjutor Luís Ferreira Fragoso



[i] O inquérito pombalino de 1758 tinha por objectivo averiguar dos prejuízos que o terramoto de 1755 tinha provocado por todo o país e, de caminho, recolhia-se um precioso conjunto de informações relativas a cada freguesia: se tinha rios, fontes, lagoas ou serras, castrelos, conventos ou outros edifícios notáveis, as pricipais produções agrícolas, as povoações que a constituíam e respectiva população, a que distância de situava das principais terras em redor, etc., etc.
Enviado, através dos Bispos diocesanos, a todos os párocos do Reino, as suas respostas foram reunidas num conjunto que ficou conhecido por Memórias Paroquiais, as quais constituem o maior acervo de dados que existe sobre o Portugal do Séc. XVIII e permitem construir um retrato bastante rigoroso do país naquela época.
As Memórias Paroquiais encontram-se digitalizadas e são de acesso livre no site da Torre do Tombo.
[ii] Eventuais erros ou deficiências da transcrição são, assim, da minha inteira responsabilidade.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Artistas Ataijenses - Lurdes Ribeiro (2)



A rubrica Artistas Ataijenses já há alguns anos que não tem novos posts. Não por falta de artistas ou de actividades e obras que mereçam divulgação mas, mais, por deficiente contacto entre os artistas e o autor do blog. 

No entanto, agora, não há como deixar de trazer aqui de novo (fizemo-lo uma primeira vez há cerca de oito anos - VER AQUI), o trabalho de Lurdes Ribeiro.

Desde aquele tempo a Lurdes Ribeiro evoluiu e amadureceu, fixando-se agora, essencialmente, na pintura em tecido e nos enxovais para bébés, trabalho que divulga, sobretudo, pela página do Facebook Magia das Cores 2010.

Uma vista de olhos pela dita página pode fornecer-nos uma pequena amostra da qualidade do trabalho da Lurdes Ribeiro.

Essa qualidade acaba de ser reconhecida pela Editorial Nascimento, a maior editora portuguesa de revistas temáticas especialmente dedicadas às artes decorativas e manualidades em geral, segundo as mais diversas técnicas, desde o bricolage e a decoração, aos bordados, ao corte e costura e aos trabalhos manuais, etc., num total de mais de uma dezena de revistas de publicação regular.  
Uma dessas revistas “Arte Ideias Pintura em Tecido”, com uma tiragem de 23 000 exemplares, acaba de chegar às bancas com uma edição especial, totalmente dedicada ao trabalho da nossa conterrânea Lurdes Ribeiro.

Ao longo das 32 páginas da revista os leitores podem apreciar alguns dos trabalhos da artista (artesã, como se define) incluindo a descrição das tintas e pincéis usados na sua realização, uma página inteira de conselhos técnicos, a descrição pormenorizada, com todos os passos, da realização de um trabalho concreto e diversos desenhos para decalcar e pintar.

Nestes Dia Internacional da Mulher é-me muito grato trazer aqui uma conterrânea, uma mulher que faz o que quer, gosta do que faz e faz bem. E cria beleza.

Parabéns Lurdes Ribeiro.




domingo, 20 de janeiro de 2019

20º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense


Porque hoje é o terceiro domingo de janeiro, realizou-se o 20º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense. Realizou-se é uma maneira de dizer. Está a realizar-se porque, a esta hora, ainda há por lá muita comida, alegria e animação.
Mais de 250 pessoas estiveram envolvidas na realização do almoço, algumas dezenas delas prestando uma inestimável colaboração ao Salão, assegurando toda a logística do evento, ajudando na confecção das refeições e servindo às mesas.
Muito do êxito do Salão deve-se, aliás, a esse facto de nunca lhe terem faltado voluntários, para a realização das muitas e custosas tarefas que uma associação como a nossa sempre exige.
A todos, o meu muito obrigado.
Pessoalmente foi com grande satisfação que participei no almoço, acompanhado de toda a minha família.

Como vem acontecendo com impressionante regularidade, também hoje havia para apreciar (e usar) novas melhorias nas instalações:
Uma nova sala para fumadores, uma renovada sala de jogos, o mobiliário da sala do café igualmente reparado e renovado.

Como de costume, a Direcção apresentou as contas do ano de 2018, as quais se encontram afixadas.

O almoço, esse, foi muito bom, mesmo muito bom.
Bons salgados para entrada (rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau)
As sopas foram canja e sopa de pedra, sendo que a sopa de pedra que comi era de grande qualidade.
O mesmo se diga do bacalhau que era de boa qualidade e com bons acompanhamentos (salada mista e batata frita às rodelas) e do cozido à portuguesa, sendo certo que, deste, já pouco comi, porque a capacidade para comer muito também vai diminuindo com os anos.
Para sobremesa, muita fruta e uma enorme quantidade e variedade de doces, estes, como de costume, oferecidos pelos participantes no almoço.

Ficam aqui algumas das fotos que fiz hoje e ilustram, melhor do que o posso dizer, o que foi o 20º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense.

Umas instalações cada vez melhores:



O Almoço:




As pessoas






Se tudo correr como desejamos, voltaremos a encontrar-nos, no dia 19 de janeiro de 2020, no 21º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Gente da Ataíja de Cima - Francisco da Silva Salgueiro - O Chico Patoixo




Como já anteriormente escrevi, esta rubrica - Gente da Ataíja de Cima -, serve para trazer aqui histórias de pessoas extraordinárias, incomuns, pessoas que, por alguma razão, fosse a singularidade da sua condição ou inteligência, a importância das suas acções ou os acasos da vida, se tornaram diferentes dos demais mortais que as rodeavam ou rodeiam e tiveram, ou têm, papel relevante na vida da aldeia.

É por isso que agora vamos falar do Chico Patoixo que, pela sua intensa actividade empresarial e desportiva, foi um dos protagonistas da transição da economia agrícola de subsistência, para a economia industrial e de serviços.

Eu e o Francisco da Silva Salgueiro (Patoixo é alcunha herdada da mãe, Ana Lourenço da Silva, recentemente falecida aos 96 anos) nascemos, ele dois anos antes, em 11-12-1946, a escassos metros de distância, pegados que são os terenos onde se situa a casa que foi dos meus pais e aquele onde se impantaram as que foram de seus pais e dos avós maternos.
Embora o seu avô, e também o seu pai, possuísse uma casa mais abastada do que a generalidade dos ataijenses, isso não o livrou do percurso comum aos rapazes da sua idade, pelo que terminada a quarta, se seguiu a quinta, quer dizer, feito o então ensino obrigatório, a quarta classe, (hoje quarto ano) a sua ocupação passou a ser o trabalho do campo nas terras familiares.

Mas, se o trabalho do campo não era, por si, especialmente atractivo, menos o era quando prestado exclusivamente e sem remuneração nas terras familiares.

Por isso, logo que pode, em 1964, com dezoito anos, o Francisco tratou de fugir ao diário jugo paterno e foi trabalhar para a Cerâmica Vala, uma das grandes fábricas de telha e tijolo das muitas que então havia na Cruz da Légua e arredores.
Seguiu-se, entre 1966 e 1968, o serviço militar, incluindo dois anos na Guerra Colonial, na Guiné.
De regresso, voltou a trabalhar na Cerâmica Vala e aí se manteve até ao início de 1972 quando se casou com Luísa Gomes Henriques.
Logo de seguida, em Maio desse ano, emigrou com a mulher para França, para a região da Loire onde, em Blois, se dedicaram à apanha de morangos.
No ano seguinte mudaram-se para Orleans, ainda na Loire e aí trabalharam em estufas e na condução de máquinas agrícolas até 1977, quando se mudou para Valence, onde trabalhou numa empresa de limpezas e lhe nasceu a única filha.

Regressou a Portugal em 1985.

Nesse ano de 1985 abriu o restaurante Apeadeiro, junto ao entroncamento da Estrada do Lagar dos Frades com a Estrada Nacional nº 1, um lugar então pouco mais do que desértico (havia por ali, desde há alguns anos, a fábrica de cerâmica decorativa Safaril e pouco mais), pelo que a clientela prevista do restaurante seria constituída pelos passantes da EN 1, designadamente os motoristas de camião. Mas, se o restaurante nunca chegou a encher-se de camionistas, em contrapartida o aparecimento de diversas unidades industriais nas redondezas trouxe uma nova clientela que se mantém.
O nome Apeadeiro deve-se ao facto de ali fazer paragem, quando solicitado, o autocarro da carreira Expresso que ligava Leiria a Lisboa.


Deixando a mulher no restaurante, logo no ano seguinte, em 1986, criou a LIMPEC, que foi a primeira empresa de limpezas que houve em toda a região.
Hoje são vulgares as empresas de limpeza e todas as grandes e médias e muitas pequenas empresas, os bancos e os organismos públicos etc, contratam a limpeza das suas instalações a empresas  especializadas mas, quando o Francisco Salgueiro criou a LIMPEC não havia nada disso, salvo em Lisboa e poucas outras cidades do país.
A sua decisão, baseada na experiência que obteve em França, foi absolutamente inovadora.

Entre 1989 e 2001 foi o Presidente e a alma do Clube Desportivo e Recreativo Ataíjense, que hoje está inactivo mas nesse período chegou a militar no Campeonato da 1ª Divisão da Associação de Futebol de Leiria.
Ao Clube Desportivo e Recreativo Ataijense dedicámos, anteriormente, dois textos neste blog, aos quais os leitores interessados podem aceder clicando (CRTL+Clique) AQUI e 
 AQUI

Entretanto, em 1994, criou uma nova empresa de limpezas, a Restaurilimpa, Lda, a qual se mantém em plena actividade, agora com novos proprietários e sede em Alfeizerão, Alcobaça.

Por esta época, remodelou a casa e cómodos (adega e palheiro das vacas) que foram de seu avô Francisco Dionísio (Francisco da Silva Vigário, Dionísio por ser filho de Dionízia dos Santos) e, em 1996, ali abriu um café-restaurante, um mini-mercado e uma loja “dos trezentos”, tudo sob a designação de Novo Espaço.
No local, exactamente onde eram o palheiro das vacas e a eira onde muito brinquei quando era pequeno, funciona actualmente, por arrendamento, o café-restaurante e padaria Pátio dos Sabores.

No ano de 2000, no que julgo ter sido a sua última iniciativa empresarial criou, ainda, a empresa Mega Serviços de Francisco Salgueiro, Unipessoal Lda que dissolveu em 2015.

Em 2010 e após profundas obras de remodelação e modernização, o restaurante Apeadeiro reabriu com o novo nome de Doces Sabores e mantém-se ainda hoje na sua propriedade, embora já não sobre a sua gerência e, com uma excelente relação qualidade preço, é um bom restaurante cuja cozinha, dirigida pelo Chef Carlos Roxo, atrai comensais de toda a região.

Ao restaurante Doces Sabores dedicámos, antes, o texto com o mesmo nome, a que os leitores podem aceder (CRTL+Clique) 
AQUI


Por tudo isto, o Chico Patoixo é um dos protagonistas do processo de modernização da Ataíja de Cima e merece bem integrar esta galeria de ataijenses extraordinários.

Em Maio de 1999, o Chico Patoixo (de pé, 2º, da direita para a esquerda) com a "sua" equipa do Grupo Desportivo e Recreativo Ataíjense, 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ataíjenses na(s) América(s)



Há vários indícios de que no Século XIX, pelo menos a partir da extinção das Ordens Religiosas e das profundas alterações na propriedade e no sistema produtivo que, na nossa região, se verificaram em virtude da saída dos frades de Alcobaça e da consequente venda dos bens fradescos a uma burguesia emergente, havia na Ataíja escassez de mão-de-obra.

Será isso que justifica a fixação na nossa aldeia de um relativamente elevado número de enjeitados, de tal modo que a generalidade dos actuais ataíjenses têm entre os seus ancestrais, avós, bisavós e trisavós, que eram enjeitados.

Talvez por essas razões, a Ataíja de Cima não acompanhou o fortíssimo movimento que, a partir do primeiro quartel do Séc. XIX e durante cem anos, levou cerca de 1.300.000 portugueses pelos caminhos da emigração, sobretudo para os Estados Unidos e o Brasil.

Apesar disso, alguns ataíjenses emigraram no inicio do Séc. XX. Nenhum, que eu saiba, para o Brasil mas um (meu tio-avô) emigrou para a Argentina e por lá faleceu sem que os familiares tivessem tido outras notícias dele.

Pelo menos três emigraram para os Estados Unidos: Um deles foi Francisco Sabino, avô paterno do nosso amigo Américo de Sousa Sabino, o qual em 20 de Agosto de 1913 vivia em New Bedford, Massachussets, conforme se vê de uma procuração que nessa data passou a sua mulher Maria Coelho. Outro, de quem apenas sei que tinha o apelido Ângelo que transmitiu aos filhos, foi o sogro da minha tia Angélica. Outro ainda, de quem apenas sei que foi marido da Benedita, uma senhora cuja naturalidade desconheço, sempre conheci viúva e só e morava no início da Rua das Seixeiras, numas casas que agora são de António Baptista Vigário (António Sabino).

Possuo a foto de um desses emigrantes, (ou outro, não sei, chamava-se, talvez, Joaquim Batista que é o nome que aparece repetidamente escrito a lápis no verso da fotografia) o qual se fez fotografar por M. B. Pereira, um célebre fotógrafo açoriano que tinha estabelecimento no n.º  574 de South Water Street, em New Bedford.[i]


(no verso da foto, escrito a lápis: "Joaquim Batista")



(Foto, de 2010, da casa que foi da minha tia Angélica da Graça e, antes, de seus sogros. A parte da casa a partir do postalete de electricidade, para o lado da estrada, corresponde a dois quartos que se ligam à "casa de fora" por uma grossa parede de pedra. Um dia, estranhando eu esse facto, por inabitual, a minha tia explicou-me que tinham sido mandados construir (e acrescentados à casa original) pela sua sogra, "com dinheiro que o meu sogro mandou da América")


  
Mais tarde, nos anos 50, Manuel Sabino (filho de Francisco Sabino) emigrou também, fixando-se no Canadá

Posteriormente, pelo menos mais quatro ataijenses emigraram para o continente norte-americano e aí vivem actualmente.






[i] O fotógrafo já não existe mas New Bedford é, ainda, hoje, um lugar onde não é indispensável falar inglês, nem comer hamburgers ou beber coca cola, já que a cada esquina se encontra um português e um estabelecimento de nome português, onde é possível comprar de tudo e comer e beber exclusivamente produtos portugueses.