sábado, 30 de junho de 2018

Ainda sobre o nome Ataíja




(Ataíja e Atalaia, em Vestígios da Língua Arábica em Portugal)


Quando andava à procura de coisa absolutamente diferente, tropecei no 3º volume do curioso livro intitulado TENTATIVA ETYMOLOGICO-TOPONYMICA ou Investigação da Etymologia ou Proveniencia dos Nomes das Nossas Povoações, por Pedro Augusto Ferreira, bacharel formado em Teologia, continuador do Portugal Antigo e Moderno e Abade de Miragaya aposentado, Terceiro Volume, Porto, Typographia Mendonça (a vapor), Rua da Picaria 30, 1915.

Só o longo título é todo um programa pelo que não resisti a dar uma vista de olhos e, a páginas 64, deparei com uma, para mim, nova explicação para a origem do nome Ataíja, a qual não resisto a partilhar com os leitores do blog.

Atalaia é, diz o nosso abade aposentado, vigia, torres maiores ou menores que se faziam outrora em sítios altos e algo distantes das praças de guerra, como vedetas[i], sentinelas ou guardas avançadas para vigiar o movimento dos invasores e evitar surpresas. Aproveitavam-se mesmo algumas vezes penhascos nativos, próximos das praças e com vistas largas, para suprir as atalaias.[ii]

Quanto à origem da palavra, cita Cândido de Figueiredo que ”no seu Novo Dicionário da Língua Portugueza diz que atalaia vem do árabe at-talia” mas, contrapõe, Viterbo diz que dos árabes nos ficou esta palavra que eles pronunciavam atalaia, vinda do verbo tália que na oitava conjugação significa vigiar” e, acrescenta o nosso autor em nota que, nos Vestígios da Língua Arábica em Portugal[iii] lê-se Atalaia, Attallaâ. Vila da Província da Estremadura, Patriarcado de Lisboa. Significa lugar alto. Torre de onde as vigias descobrem o campo. Lugar eminente. Deriva-se do verbo tálea, subir, e na VIII conjugação é vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista. Também se chamam atalaias os homens que vigiam os campos, fortalezas, praças e presídios.

Delas (as atalaias) tomaram o nome talvez mais de cem povoações nossas, mencionadas na Chorographia Moderna.[iv] Taes são: Atalaia, Atalaias, Atalainha, Ataia, por Atalaia, ; Ataija por Ataya, o mesmo que Ataia ; Taias por Ataias ; Taijas por Ataijas ; Talaeiros por Atalaeiros ; Talaia por Atalaia ; e Tayão, aferese do Atalaião, augmentativo de Atalaia.[v]


E, aqui está como o nome Ataíja pode provir da palavra árabe attllaâ, atalaia, com o significado de vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista e, também, os homens que vigiavam os campos, ou os lugares altos donde o faziam.

É com o mesmo significado que a palavra subsiste, até hoje, na língua portuguesa. Veja-se o Priberam:
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino 
1. Torre, guarita ou lugar alto donde se vigia. substantivo de dois géneros 2. Pessoa que está de vigia. = SENTINELA
(Estar de) atalaia • De vigia a ou à espera de algo ou alguém. Numa posição ou postura que permite estar a espreitar ou alerta para algo.[vi]


Ora, em toda esta região não há melhor atalaia que a serra dos candeeiros. De facto, dela se alcança o mar e, por muitos quilómetros em redor, uma vastíssima extensão de território.

É, pois, bem plausível que o nome Ataíja venha daí, como é igualmente plausível que provenha, como sustentou Frei João de Sousa[vii],[viii], de uma outra palavra árabe, como já dissemos no post A Origem do Nome Ataíja, aqui publicado em 17de Novembro de 2009.

Em qualquer caso, será à serra que a Ataíja vai buscar o seu nome.





[i] Vedeta, diz-nos o dicionário online Priberam, é italiano e significa lugar elevado onde se colocava uma sentinela mas, também, em terminologia militar antiga, sentinela a cavalo.
[ii] Pág. 61.
[iii] Vestígios da Língua Arábica em Portugal, ou Lexicon Etymologico das palavras e nomes portuguezes que tem origem arábica, por Fr. João de Sousa, Lisboa, na oficina da Academia Real das Sciências, anno MDCCLXXXIX. Edição (fac-smille) de A. Farinha de Carvalho, 1981.
[iv] Chorographia Moderna do Reino de Portugal, por João Maria Baptista, Coronel de Artilharia Reformado, Coadjuvado por seu filho João Justino Baptista de Oliveira, Volume I, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias. Obra em vários volumes, o primeiro saído em 1864 e o quarto, que contém a Província da Estremadura, em 1876.
[v] Pág. 64.
[vi] "atalaia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/atalaia [consultado em 14-06-2018]
[vii] Op.Cit. na Nota iii
[viii] Ver (ler) imagem acima.

terça-feira, 19 de junho de 2018

5º Aniversário da Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça




A Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça nascida da curiosidade do Zé da Ilda que, passados já os sessenta anos, quis realizar o desejo de aprender a tocar concertina, tornou-se um projecto sério que cresceu de um modo que os seus iniciadores nunca terão previsto e, passados apenas cinco anos, mantém essa vertente de escola de música,  agora mais viva do que nunca e despertando mais interesse do que nunca e, por outro lado, é um grupo de concertinistas capaz de se apresentar em publico com êxito e agrado geral, o  que vem acontecendo cada vez mais amiúde e em diferentes palcos.

Este pessoal das concertinas, digamos assim, é gente que gosta de se divertir e de conviver e, por isso, o convívio entre grupos de concertinistas é uma vertente importante da actividade.

É assim que, para comemorar o 5º aniversário da Escola, foi possível reunir no passado domingo, dia 17 de Junho de 2018, no Largo do Cabouqueiro, na Ataíja de Cima, um grande número de muitas dezenas de concertinistas, pertencentes a 14 grupos diferentes, que abaixo listamos como forma de agradecimento pela excelente tarde que lograram propiciar às centenas de pessoas que acorreram a assistir ao espectáculo.

Escola de Concertinas aldeias de Alcobaça
Grupo de Concertinas de Machio (Pampilhosa da Serra)
Grupo de Concertinas da Barrenta
Grupo de Concertinas de Santa Maria da Feira
Grupo de Concertinas Sons da Serra (Oliveira do Hospital)
Grupo de Concertinas da Casa do Benfica da Charneca da Caparica
Concertinas João Tomás
Grupo de Concertinas de Dornes (Ferreira do Zêzere)
Grupo de Concertinas Michel Neves, de Vila Facaia (Pedrógão Grande)
Grupo Verde Minho (Loures)
André Vieira (Pero Negro)
Escola de Concertinas Filipe Oliveira (Sintra)
Augusto e Filipe Martinho
Escola de Concertinas da Cabeça Veada

Há igualmente que agradecer todos os apoios e patrocínios, quer os institucionais, Câmara Municipal de Alcobaça e Junta de Freguesia de Aljubarrota, quer as muita pessoas da Ataíja que com o seu trabalho e esforço contribuíram para a realização do evento quer, ainda, às cerca de quarenta empresas sem cujo patrocínio tudo teria sido mais difícil.

Ficam algumas fotos que fizemos durante a festa.



 




quinta-feira, 7 de junho de 2018

Restaurante Doces Sabores

Um excelente restaurante na Ataíja de Cima





O texto com o título "Doces Sabores", aqui publicado em 28 de Março de 2011 tornou-se um dos textos mais vistos deste blog, contando actualmente com cerca de 4000 visualizações, sendo certo que não há semana em que não venha alguém consultar o texto, sinal de que o Doces Sabores é cada vez mais conhecido.

Visto o tempo decorrido (mais de sete anos) sobre o referido texto, é altura de o actualizar até porque, bem o sabemos, um tal tempo é mais do que suficiente para mudar tudo num restaurante. Adiante-se, desde já que, no Doces Sabores, se alguma coisa mudou foi para melhor.

O antigo restaurante Apeadeiro, que Francisco Vigário Salgueiro abriu após o seu regresso da emigração em França, foi objecto de profunda remodelação e modernização em 2010 e reabriu, no início de 2011, sob a direcção de sua filha Silvie e com o novo nome de "Doces Sabores".

Muito bem situado, ao Km 98 do IC2, à entrada da Ataíja de Cima e junto de um conjunto de importantes empresas que, pelo menos ao almoço, lhe fornecem a maioria dos comensais, no entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades (Estrada Municipal n.º 553), com um espaçoso parque de estacionamento e uma vista privilegiada sobre a Serra dos Candeeiros, é dotado de salas separadas, uma para pastelaria/café e outra para restaurante, esta com design e decoração da autoria da conhecida designer de interiores Patrícia Carvalho (http://www.patriciacarvalho.pt/), uma sala relativamente pequena, acolhedora, com decoração e mobiliário simples mas confortável, que tem resistido muito bem ao decurso do tempo.

Pouco depois da reabertura a gestão passou para a responsabilidade de Criações Gourmet e a cozinha foi confiada à direcção do Chef Carlos Roxo.

Desde então o Doces Sabores, que temos frequentado com regularidade, vem-se confirmando como um dos melhores restaurantes da região, onde a preços muito razoáveis se pode comer comida simples e bem confecionada, mas também carnes maturadas ou peixe no pão e saborosas sobremesas e, porque os olhos também comem, tudo empratado e apresentado com cuidado e gosto e suportado num serviço eficiente e simpático.


Tal como no texto original de 2011, podemos agora terminar dizendo que, em termos de relação qualidade/preço, o "Doces Sabores" merece a nota de MUITO BOM!

O "Doces Sabores" é um estabelecimento que valoriza a Ataíja de Cima.


segunda-feira, 4 de junho de 2018

Na Rua dos Arneiros



Regularmente me tenho queixado neste blog da escassez de fotografias capazes de documentar o quotidiano ataijense e a sua evolução.

Muito gostaria de poder publicar mais fotos mas para isso é necessária a colaboração dos leitores ataijenses que as possuam.

Todas têm interesse, quando mostrem pessoas ou situações do passado ataijense. Sobretudo, têm muito interesse para as gerações mais jovens que devem poder conhecer o passado porque, sem se conhecer o passado não é fácil perspectivar o futuro.

Não desisti, ainda, de aqui reunir um repositório, também fotográfico, do que foram, na nossa aldeia, as décadas mais recentes e todo o século XX.
Talvez, com a colaboração de todos, seja possível fazer sobre a Ataíja de Cima algo como está a ser feito para Turquel e pode ser visto em:  https://sites.google.com/site/turquelvelhinho/

Por hoje, ficamos com uma excelente fotografia da autoria do fotógrafo Rogério Coelho, da Maiorga, o qual em Agosto de 2013 fotografou na Rua dos Arneiros uma cena que não nos é desconhecida, mas que ele encenou com grande qualidade e apuro estético.

Ao Rogério Coelho os nossos agradecimentos por ter autorizado a reprodução no blog deste seu excelente trabalho.




De pé, três amigos franceses do fotógrafo Rogério Coelho. Sentados, da esquerda para a direita: Zé Delfino, Zé Maçarico, Avelino, Chico Nazaré [já falecido] Almerindo, João Pérídes e Diogo.

domingo, 27 de maio de 2018

Um comerciante ataijense na Lisboa do Séc. XIX





A Rua do Amparo em Lisboa é, hoje, uma curta passagem entre o Rossio e a Praça da Figueira ao lado norte desta, e paralela à igualmente curta Rua da Betesga que, ao sul, liga o mesmo Rossio à dita Praça[i] da Figueira.
Mas, nem sempre foi assim.

Até 1950 a Rua do Amparo, cujo nome vem de uma Capela de Nossa Senhora do Amparo que, antes do terramoto, por ali existiu fazendo parte do Hospital de Todos-os-Santos, começava na Rua do Arco do Marquês do Alegrete (actual Poço do Borratém), prolongando-se pelo lado norte da Praça da Figueira até ao Rossio.
Foi nos terrenos libertados pela ruína do Hospital Real de Todos-os-Santos que a seguir ao terramoto se começou a comerciar na zona da actual Praça da Figueira e, no projecto de reconstrução pombalina da Baixa, foi esse espaço destinado a mercado.
Esse mercado foi evoluindo e, pelo menos desde meados do Séc. XIX era já uma área de cerca de 8. 000 m2 fechada por um muro encimado por gradeamento a cujo interior se acedia por oito portas ocupando todo o quarteirão formado pelas ruas do Amparo, da Betesga, dos Correeiros e Nova da Princesa (actual Rua dos Fanqueiros). [ii]
Nesse tempo já o espaço era, como hoje, limitado pelos prédios do projecto pombalino que definem uma área de cerca de 12.000 m2.
Foi aí que se ergueu, entre os anos de 1882 e 1885, um grande edifício da chamada arquitectura do ferro, a “praça da Figueira”, que foi durante 64 anos, desde 1885 até 1949, (a par do mercado abastecedor da 24 de Julho inaugurado três anos antes, em 1 de Janeiro de 1882 e, ainda, parcialmente em funcionamento)[iii] um dos mais importantes mercados de Lisboa (no dizer de Fernando Pessoa, in “Lisboa – O que o turista deve ver”, o mercado central de Lisboa).

Em 1949 a “praça da Figueira” foi demolida e, no ano seguinte, a Câmara Municipal decidiu dar ao troço inicial da Rua do Amparo o nome de Rua João das Regras e integrar o troço central na nova Praça da Figueira, agora um grande espaço público, reduzindo a Rua do Amparo ao troço sobrante, de ligação com o Rossio.

Era aí, no nº 21 da Rua do Amparo, na hoje designada Rua João das Regras, numa porta onde há pouco funcionava (não sei se ainda funciona), sinal dos tempos, o Istanbul Kebab, comida Halal[iv], que o ataíjense Francisco Caetano Branco tinha o seu estabelecimento

Sabemos muito pouco deste Francisco Caetano branco. Apenas, que em 3 de Janeiro de 1883 foi celebrada a escritura de ratificação e confirmação da doação intervivos que fizeram Mariana Branca viúva e seus filhos Luísa, Francisca e Francisco, todos da Ataíja de Cima, e outra sua filha Maria e seu marido, a favor destes últimos,  Maria Branca e Sabino dos Santos Trindade, alfaiates, de “umas casas com seu pátio confrontando de norte e sul com ruas, nascente com José António de Castro e poente com Joaquim Felizardo”, que haviam sido verbalmente doadas pela Mariana Branca a sua filha Maria, uns seis anos antes, a título de dote pelo seu casamento com o referido Sabino dos Santos Trindade.

Qual seria a casa objecto da doação, só o poderemos saber quando soubermos quem eram os vizinhos José António de Castro e Joaquim Felizardo. Certo, certo, é que ela se situava no coração da aldeia, ente as ruas de Trás e a do lagar dos Frades, porque só aí há ruas próximas paralelas, só aí há casas que se confrontem a norte e a sul com ruas.

A escritura foi celebrada, como se disse, em 3 de Janeiro de 1883, em Alcobaça, no cartório do tabelião Francisco Eliseu Ribeiro e, nela, o Francisco Caetano Branco foi representado, mediante a competente procuração, por João Ângelo da Silva, casado, também da Ataíja de Cima. Na dita procuração o Francisco Caetano Branco é identificado como “solteiro, maior e sui juris[v], comerciante, morador na Rua do Amparo vinte e um”.

Tendo estabelecimento junto ao principal mercado de Lisboa, tinha a passar-lhe à porta um grande número de potenciais clientes e, por isso, talvez, um próspero negócio. Se assim era ou não, não o sabemos, nem sabemos qual era o ramo do seu negócio, nem mais nada sabemos sobre ele.

Duas curiosidades, para terminar:
Ao tempo da celebração da escritura, em 1883, a Mariana Branca era já duplamente viúva: Das 1ªs núpcias com Caetano dos Santos, casamento do qual lhe ficaram dois filhos, os referidos Francisco e Maria. Das 2ªs núpcias com António Dias, das quais lhe ficaram as filhas Luísa e Francisca.
A Mariana Branca e o Caetano dos Santos foram trisavós do nosso amigo Américo de Sousa Sabino.



 A praça da Figueira.



[i] Neste texto vai ser frequente o uso da palavra praça quer no sentido de mercado quer no de espaço público
[ii] Ver Carta Topográfica da Cidade de Lisboa, levantada entre 1856 e 1858 por Filipe Folque, in http://purl.pt/index/cart/aut/PT/44818.html
[iii] Embora ainda funcione como mercado – retalhista e já não abastecedor – o mercado 24 de Julho foi parcialmente transformado pela empresa multinacional Time Out num Food Market de grande êxito, com mais de 40 espaços gastronómicos diferentes.
[iv] Comida Halal refere-se aos alimentos autorizados e preparados de acordo com os preceitos da religião islâmica.
[v] Sui juris, é uma expressão latina usada em Direito Civil para significar que a pessoa é autónoma e livre, capaz de determinar-se sem depender de outrem. Em Direito Canónico refere-se às igrejas particulares, autónomas, que se encontram em comunhão com o Papa.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Naturais de Aljubarrota na Grande Guerra de 1914 - 1918



 Porta-Bandeira do Corpo Expedicionário Português. 
Aguarela do pintor e cenógrafo alcobacense Augusto Pina,
originalmente publicada na Revista Quinzenal ilustrada. Ano I, n.º 1, de 1 de Junho de 1917


Cumpriram-se ontem cem anos sobre a desastrosa batalha de La Lys[i] na qual o Corpo Expedicionário Português foi desbaratado por um poderoso exército alemão que, empenhando na ofensiva cerca de 55.000 homens bem armados, não teve dificuldade em vencer um cansado exército de cerca de 15.000 combatentes portugueses, na maioria, pobres camponeses analfabetos que não compreendiam as razões por que combatiam.  

Não é aqui o lugar para discutir a, ainda hoje, controversa participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, mas apenas para homenagear os soldados naturais de Aljubarrota (freguesias de S. Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres) que nela participaram e abaixo se identificam por nome, estado civil, posto, naturalidade (indica-se a naturalidade tal como consta da respectiva ficha)[ii] e filiação.

Foram eles:

António Alberto, solteiro, soldado, S. Vicente                                  
António Bernardo, solteiro, soldado, Casal do Rei                                          
António Carreira, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa                                       
António Carvalho, casado, soldado, Casais, (na morada da mulher - parente mais próximo - escreve-se Casais seguido de "da Fonte", rasurado).
António da Costa, casado, soldado, Prazeres (casado, mas indica como parente mais próximo um irmão residente na Maiorga)
António da Silva, 1º cabo, Aljubarrota                                 
António Ferreira, 2º cabo, Molianos                                     
António Gomes, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Francisco Gomes Froes e de Joaquina de Souza     
António João, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho de João António e África de Jesus
António Joaquim dos Santos, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Joaquim dos Santos e Agripina Joaquina      
Bernardino Coelho, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho natural de Joaquina Coelha. Foi ferido em combate. Punido, por duas vezes, com prisão disciplinar (25 + 4 dias)
Domingos Plácido, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Plácido dos Santos e Maria Luiza. Ferido em combate, veio a falecer três dias depois, em 23 de Outubro de 1917, sendo sepultado no cemitério de Merville, coval B.24 (a cerca de 10 km do Cemitério Português de Richebourg)
Elias Gomes, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Manuel Gomes e de Maria Rita
Ernesto da Silva, solteiro, soldado, Boavista, filho de Francisco da Silva e Maria da Encarnação 
Francisco de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista, filho de Luis de Oliveira e de Maria Roza (no índice consta como Francisco Silveira). Ferido por gases em 7-8-1917
João de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista de Baixo, filho de José de Oliveira e Gertrudes Dionízio. Ferido em combate em 4-2-1918. Louvado. Condenado em múltiplas penas de prisão e de detenção
João de Sousa, casado, soldado, Cadoiço, filho de Francisco de Sousa e Maria Luisa (a ficha diz que é natural de Prazeres, sendo a mulher residente no Cadoiço). Ferido em combate, em 3-4-1917.
João Natalino, solteiro, soldado, S. Vicente, filho de José Natalino e de Teresa André. Punido com 5 dias detenção por conduzir a galope o carro de que era condutor. Punido com 8 dias detenção por castigar com brutalidade uma das muares que lhe estava distribuída.
João Nogueira, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de Manuel Nogueira e Roza de Almeida       
João Ribeiro, casado, soldado, Chãos, filho de João Ribeiro e de Idalina dos Santos, casado com Palmira de Oliveira. Punido com 15 dias de detenção por desrespeito a um sargento.
João Vicente, solteiro soldado, S. Vicente, filho de Vicente dos Santos e de Maria Josefa.            
Joaquim Alexandre, solteiro, 1º cabo, Chãos, filho de António Alexandre e de Maria José. Ferido em combate em 3-7-1917. Faleceu na 1ª linha em virtude de ferimentos recebidos em combate em 20-10-1917. Sepultado no cemitério de Pont du Hem, coval n.º 18 (há-de, como os demais portugueses aí inumados, ter sido trasladado para o Cemitério Português de Richebourg-l'Avoué).
Joaquim Bernardo, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José Bernardo e Gertrudes Veríssima   
Joaquim Carlos, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de José Carlos e de Rosa Coelho. Ferido por gases em 7-8-1917. Em 1-1-1919 punido com 30 dias de prisão correcional (a ficha não indica o motivo).
Joaquim Clemente, solteiro, 1º cabo, Ataija de Baixo, filho de José Clemente e Respícia dos Santos        
Joaquim da Horta, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Luís da Horta e de Guilhermina Martins, casado com Teresa Ribeiro. Foi dado por incapaz para todo o serviço e evacuado para Portugal chegando a Lisboa em 1-10-1917.
Joaquim de Carvalho, solteiro, soldado, Chãos, filho de José Rito de Carvalho e de Francisca Teresa       
Joaquim Machado, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Machado e de Gertrudes Luísa. Ferido em combate, por estilhaços de granada, em 13-3-1918.
Joaquim Manuel, 1º cabo, Prazeres                                      
Joaquim Marques da Silva, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Teodoro Marques da Silva e de Ana Pedro dos Anjos. Condecorado com a medalha comemorativa da expedição a França.
Joaquim Martins, soldado, S. Vicente                                  
José António dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de António dos Santos e de Maria da Piedade.           
José Baltazar, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de António Baltazar e de Maria Rita  
José Branco, solteiro, soldado, Lameira, filho de José Francisco Branco e de Josefina de Jesus. Feito prisioneiro na Batalha de La Lys ou Batalha D'Armentières em 9-4-1918.
José Clemente, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de José Clemente e de Respícia dos Santos. Por razões de saúde que a ficha não indica, foi internado pelo menos 5 vezes no hospital, tendo sido expatriado em Fevereiro de 1919. Era irmão do Joaquim Clemente atrás listado.
José Coelho, solteiro, soldado, Cumeira de Baixo, filho de João Coelho e de Mariana Almeida   
José Constantino, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos. Embarcou em 10-10-1917 em Lisboa com destino a França. De regresso embarcou com a 12ª Bateria de Artilharia Pesada, em 11-5-1919, no "Pedro Nunes" e desembarcou em Lisboa em 14-5-1919. Por razões que a ficha não menciona, em 12-4-1918 embarcou para Inglaterra onde chegou no dia seguinte e, 7 meses depois, voltou a França onde desembarcou a 14-11-1918. Em 7-2-1919, foi punido com 10 dias de detenção "porque estando o Sargento de dia à Bateria perguntando a outra praça a razão por que não descascava batata, aquele sem que o Sargento de dia a ele se dirigisse, declarou que "se fosse com ele não a descascava".
Uma vez que a sua ida para Inglaterra se deu 3 dias depois do desastre deLa Lys, é de presumir que há relação entre os dois factos.
José da Silva, solteiro, soldado-corneteiro, Molianos, filho de Joaquim da Silva e de Maria Joaquina. Embarcou em Lisboa em 20-1-1917. Ferido em combate em 28-7-1917. Julgado incapaz para todo o serviço e de angariar meios de subsistência. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 12-11-1917.
José Dias, solteiro, 1º cabo, Quinta do Mogo, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias. Promovido a 1º cabo do quadro permanente em 26-2-1918
José Joaquim, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Maria Quitéria. Ferido em combate em 18-3-1918. Em 23-9-1918 foi punido com 10 dias de detenção por ter faltado à revista sem motivo justificado. (em PT AHM-DIV-1-35A-2-02-00591, as imagens m0004.jpg e seguintes são de documentos que se não referem a este soldado).
José Ribeiro, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Ermelinda de Jesus. Casado com Maria Nazária. Louvado pela forma como desempenhou os trabalhos de reparação de uma trincheira. Punido com 20 dias de prisão disciplinar por ser encontrado numa casa abandonada, abrindo armários e com algumas garrafas nas mãos. Punido com 5 dias de detenção por ter faltado aos trabalhos nas trincheiras.
José Rodrigues Correia, soldado, Aljubarrota                                    
Luís Dias, casado, 1º cabo, Ataíja de Cima, filho de António Dias e Maria Lourenço. Casado com Ana Dionísio. Promovido a 1º cabo miliciano em 20-8-1918. Conheci-o velho e alcoólico. Faleceu um dia em que, vindo da taberna na noite escura, se terá enganado no caminho para casa, tendo sido encontrado pela manhã, já morto. Sempre ouvi que tinha sido gaseado mas a ficha não o refere. Também usava o nome de Luís Dias Vigário e era conhecido por "Luís Barra". Quando eu era miúdo, era voz corrente que o seu alcoolismo derivava do facto de ter sido “gaseado” na guerra de França mas, a sua ficha não menciona que tenha sido gaseado.
Luís dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Izidro dos Reis e de Maria Joaquina. Ferido por desastre em serviço, em 24-10-1918.
Luís dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José dos Santos e de Maria Feverónia        
Manuel Augusto Pereira, solteiro, soldado-ferrador, Chequeda, filho de Augusto Joaquim e de Maria Fortunata Pereira. Punido com 4 dias de detenção por ter o arreio sujo. Punido com 4 dias de detenção por ter saído do aquartelamento sem polainas, em péssimo estado de asseio. Punido com 4 dias de detenção por ter mais de uma manta e a não entregar quando houve ordem para isso.
Manuel Carvalho, soldado, Chequeda, filho de Joaquim Carvalho e de Narcisa de Jesus. Desaparecido desde 3 de Junho de 1917, sendo feito prisioneiro, apareceu em 16-1-1919.
Manuel Faustino, solteiro, soldado, Molianos, filho de Manuel Faustino e de Adelina Santos. Em 14-2-1918 baixou ao hospital e em 18 seguinte foi considerado incapaz para todo o serviço. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 10 de Abril seguinte.
Manuel Norberto, solteiro, soldado,  S. Vicente, filho de António Norberto e de Maria Benta    
Manuel Rodrigues, soldado, Prazeres                                  
Manuel Teodoro de Sousa, casado, soldado, S. Vicente, filho de José Teodoro de Sousa e de Paulina dos Santos. Casado com Elísia Mónica. Julgado incapaz para todo o serviço regressou a Portugal em Julho, a bordo do "Gil Eanes".
Matias dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Isidoro dos Reis e de Maria Branca. Ferido em combate em 3-7-1917. Hospitalizado diversas vezes num total de mais de 250 dias. Punido, em 7-8-1918, com 8 dias de detenção por, tendo sido nomeado para a polícia do QGB, ter faltado alegando ter adormecido.
Nicolau Duarte, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Duarte e de Maria Joaquina. Punido com 4 dias de detenção por pretender iludir para quem se destinava um pouco de fruta verde que foi encontrada sobre um abrigo.
Silvério Augusto, solteiro, soldado-clarim, S. Vicente, filho de Augusto dos Santos e de Mariana Joaquina. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por na noite de 5 para 6 de Janeiro de 1919, ter num estabelecimento provocado distúrbios, ameaçando a dona da casa com uma navalha e dizendo que lá voltaria e faria ir pelos ares. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por no dia 2-2-1919 ter ameaçado duas francesas dentro do seu estament.
Silvestre Sousa, solteiro, soldado, Molianos, filho de José de Sousa e de Maria José. Punido com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura para serviço nas trincheiras.



Esta lista está eventualmente incompleta.
Faltam, talvez e além de outros, militares que sendo naturais de outras freguesias, tinham residência nas de Aljubarrota. Eu próprio tenho notícias de um Bento, talvez nascido no concelho de Porto de Mós mas que seria então residente na Ataíja de Cima, o qual não é incluído nesta lista por falta de prova documental.
Aos eventuais leitores que conheçam mais elementos relativos ao objecto deste texto, agradecem-se todas as informações que possam contribuir para o seu desenvolvimento e melhoramento



[i] La Lys, o rio Lis, é um rio no Norte de França, na região hoje denominada Hauts-de-France (Altos de França), na fronteira com a Bélgica.
[ii] Boletins Individuais de Militares do CEP. Disponíveis online no site do Arquivo Histórico Militar.

sábado, 10 de março de 2018

Francisco Veríssimo

(um quase padre na Ataíja de Cima do Séc. XIX ou, as incongruências da memória)

(assento do primeiro casamento de Francisco Veríssimo)

Desde criança que me lembro de ouvir a história:

Francisco Veríssimo estava prestes a terminar os estudos para padre quando, numa mesma semana, lhe faleceram pai e mãe, em consequência do que abandonou os estudos.
Dizem uns que por desgosto, dizem outros que por necessidade de tomar conta da sua “Casa”.
Veio a casar uma primeira vez e, tendo viuvado, casou de novo, tinha então 72 anos e a mulher 25.
Deste segundo casamento nasceram dois filhos e faleceram, ambos os cônjuges, com a idade de 98 anos.

A última vez que ouvi a história, de boca autorizada, foi ao seu neto João Veríssimo que para tanto o interpelei, não muito antes do seu falecimento ocorrido em 2013.
Nessa conversa o ti João Veríssimo confirmou a história, ponto por ponto, tal como sempre a ouvi e acima transcrevo.

O assento do óbito de Francisco Veríssimo, ocorrido em 11.11.1894, diz que ele faleceu no estado de casado com Joaquina Coelho, sendo filho de Veríssimo Amado e de Ana Lopes e tendo a idade de 98 anos, o que parece confirmar a tradição.


Mas, este é um dos casos em que não só a memória não é confirmada pelos factos, como se verifica que apenas um documento não chega para certificar a verdade.
É o que, adiante, se verá.

Os factos históricos comprovados são os seguintes:

Veríssimo Amado, lavrador, filho de Manuel Amado Rebelo e de Luísa Pereira, já era casado com Ana Maria em 1787, quando foram pais de João, baptizado em 30 de Maio desse ano. Podemos, assim, admitir que o Veríssimo Amado terá nascido cerca de trinta anos antes, o que nos leva para os anos de 1755 a 1760, seja, a época do terramoto.

O apelido Amado já existia na Ataíja desde há mais de cento e cinquenta anos antes e aí chegara vindo de Aljubarrota, através de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, este, descendente de D. João II, fidalgo com Carta de Brasão de Armas de 17.06.1545.
Nos cerca de noventa anos que vão de 1721 até, 1807, vésperas das Invasões Francesas, o apelido Amado aparece-nos sempre intimamente ligado às elites locais[i].
De facto, nesse período, encontramos José Gomes Anes Amado de Azambuja, nascido em Aljubarrota, fidalgo de Cota de Armas, por Carta de 5.10.1721; Joaquim de Sousa Amado, Capitão de Ordenanças da Vila de Aljubarrota, por Carta patente de 24.10.1785; José Tavares Amado e Azambuja, nomeado capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota em 21-04-1790 (por morte do Capitão Veríssimo de Sousa Henriques) e, em 1804 e 1807, há notícias de um alferes José Tavares ou José Tavares Amado, de Aljubarrota.

O nome próprio do nosso Veríssimo Amado, esse, bem que poderia ser uma homenagem ao mártir[ii] mas, é nossa convicção de que a razão estará mais próxima, já que o vamos encontrar em Veríssimo de Sousa Henriques, capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota, falecido, como já vimos, antes de 21.04.1790.

Talvez não seja, assim, demasiado temerário pensar que o Manuel Amado Rebelo pertencia à mesma família dos demais Amados que, naquela época, encontramos em Aljubarrota desempenhando importantes cargos e que dessa importância social resultaram as relações que terão levado o Capitão Veríssimo de Sousa Henriques a apadrinhar a criança que tomou o nome de Veríssimo Amado.[iii]

Consultando os assentos de baptismo, da freguesia de São Vicente de Aljubarrota, encontram-se registos de Veríssimo Amado ter tido 5 filhos: João, nascido em 1787; Joaquim, nascido em 1793; Maria, nascida em 1796; Luís, nascido em 1799 e Francisco, nascido em 1806.
Destes, por enquanto e para além do Francisco que é objecto deste texto, apenas sabemos que o Joaquim viveu até aos 67 anos, vindo a falecer em 21.12.1860, no estado de viúvo de Joaquina Marques e não teve filhos.
Parece ter havido uma sexta filha, Joaquina, de que não encontrei o assento de baptismo mas, encontrei o assento de casamento com Luís Dias (em 5.11.1826) e os assentos de baptismo (em 1827, 1830 e 1842) de três filhos seus e onde é identificada como Joaquina Mónica ou Joaquina Veríssimo, filha de Veríssimo Amado e de Ana Maria.

Sabemos, assim, que o Francisco Veríssimo era o mais novo dos filhos de Veríssimo Amado, lavrador e de Ana Maria, também dita Ana Lopes ou Ana Vicente e neto paterno de Manuel Amado, ou Manuel Amado Rebelo, lavrador, da Ataíja de Cima e Luísa Pereira, esta, dos Casais de Santa Teresa onde estes avós paternos moravam e neto materno de Vicente Coelho, lavrador e de Maria Francisca, ambos da Ataíja de Cima, onde moravam.

Sabemos que o Francisco Veríssimo se casou duas vezes :
Uma primeira vez, em 25 de Novembro de 1849, com Rosa Coelho, a qual faleceu em 10-11-1860, com a idade de 53 anos e que era filha de João Coelho e Sebastiana Bernardo.
Consequentemente, trata-se da mesma Rosa, nascida nos Casais de Santa Teresa em 01-11-1807, filha de João Coelho, dos Casais de Santa Teresa e de Sebastiana Bernarda, da Ataíja de Cima, neta paterna de José Coelho da Cabeça dos Casais de Santa Teresa e de Mariana de Sousa da Ataíja de Cima e materna de Bernardo João e Maria Vicente, ambos da Ataíja de Cima.

Deste primeiro casamento não consta que tenha havido filhos.

Em segundas núpcias dele, após seis anos de viuvez, em 30-11-1866, diz-nos o respectivo assento de casamento, o Francisco Veríssimo, então com 60 anos de idade, viúvo de Rosa Coelho ligou-se a Joaquina da Costa, solteira, de 22 anos de idade, filha de Joaquim Coelho e de Maria da Costa, esta natural de Lisboa, neta paterna de Francisco Coelho, lavrador e de Rosa Vicente e materna de António da Costa, proprietário, natural de Asseiceira, Tomar e de Luísa Maria, da Ataíja de Cima.
Este assento, como verificamos, dá o Francisco Veríssimo como tendo, então, a idade de 60 anos ou seja, confirma que ele nasceu em 1806.

De acordo com o respectivo assento de óbito, em 11.11.1894, faleceu o “…Francisco Veríssimo, casado com Joaquina Coelho, trabalhador, da idade de noventa e oito anos …”
Mas, se como vimos e parece certo, o Francisco Veríssimo nasceu em 1806, então, diferentemente do que dizem o assento e a tradição, faleceu com a idade de 88 anos e não de noventa e oito anos, .

Mas, a história que a tradição oral conservou tem outras incongruências já que, de acordo com os respectivos assentos:

Em 18-07-1832 faleceu Veríssimo Amado, casado com Ana Maria.
Em 17-01-1845 faleceu Ana Lopes, viúva de Veríssimo Amado.
Ou seja, diferentemente da tradição, o pai e a mãe do Francisco Veríssimo não morreram na mesma semana, antes, com treze anos de diferença.

Parece, pois, poder concluir-se que a história de Francisco Veríssimo se terá passado de modo algo diferente:

Francisco Veríssimo, filho de Veríssimo Amado e de Ana Maria, ou Ana Lopes, andava a estudar para padre e, em 1832 quando tinha 26 anos de idade e esses estudos estavam quase concluídos, faleceu o seu pai.

Terá sido por isso e por essa altura que, levado pela tristeza e o desgosto, como diz a tradição ou, qualquer outra razão mais prosaica,abandonou os estudos e regressou à Ataíja de Cima onde, seguindo a tradição familiar, se tornou agricultor.
A hipótese de ser movido pela necessidade de tomar conta da “Casa” agrícola também precisa de melhores argumentos já que, nesse tempo, estaria na casa, ainda solteiro, o seu irmão Joaquim, então com cerca de trinta e nove anos de idade. Porque razão não tomou este o encargo? Tanto mais que a destinação de um filho a Padre, pressupunha  que a direcção da casa agrícola estava destinada a outro, ou outros dos irmãos. Para intentar resolver melhor estas dúvidas precisávamos de conhecer a situação concreta de cada um deles. 

Seja como for, o que os registos paroquiais mostram é que o Francisco Veríssimo casou pela primeira vez com Rosa Coelho, ou Rosa Vicente, nascida nos Casais de Santa Teresa, a qual veio a falecer com a idade de 53 anos, em 1860.
O casamento foi celebrado, sob licença do Vigário paroquial, o ataijense Luis João de Sousa, pelo Reverendo Rufino José da Fonseca, da Vila, na capela de Nossa Senhora da Graça, da Ataíja de Cima, em 25 de Novembro de 1849 tinha então o Francisco a idade de 43 anos e a noiva a idade de 42 anos.
Não se conhecem filhos deste casamento.

Na data em que se realizou este primeiro casamento do Francisco Veríssimo, já o seu pai havia falecido há dezassete anos e a mãe há quase cinco anos.

Após 6 anos de viuvez, em 1866, o Francisco Veríssimo, então com a idade de 60 anos casou, em segundas núpcias dele, com Joaquina da Costa ou Joaquina Coelho, solteira de 22 anos de idade.

Deste casamento nasceram, pelo menos, dois filhos:
- José, falecido em 15.9.1883, com 14 anos de idade;
- João o qual veio a casar com Maria Ribeiro, dos Casais de Santa Teresa, filha de Joaquim d'Horta Moura e de Maria Ribeira e foram pais de, pelo menos, quatro filhos:
- Maria nascida em 1906;
- Teresa (Teresa Ribeiro), falecida solteira nos anos de 1960, tendo então 50 e alguns anos de idade;
- José;
- João, este falecido muito recentemente, em 2013.
Os dois últimos deixaram descendência.

A sua mulher, Joaquina da Costa, ou Joaquina Coelho essa, talvez tenha falecido com a idade de 98 anos, (portanto, cerca de 1942) como diz a tradição, já que o ti’João Veríssimo me contava que faleceu quando ele era jovem.


Duas notas, para terminar:

A casa, no início da Rua das Hortas, onde terá vivido Veríssimo Amado e seguramente viveram Francisco Veríssimo, o seu filho e o seu neto e, agora, vive um bisneto e é, sem dúvida uma das mais antigas casas da Ataíja de Cima é, talvez, a mesma onde a partir de meados do Séc. XVII, já viveram os seus antepassados Manuel Coelho e sua mulher Antónia Amado, esta, filha de António Amado, o Moço, filho de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, fidalgo da Casa Real, filho de Brites Anes Baracho, filha de Brites Anes de Santarém, filha de Brites Anes, a Boa Dona e do Senhor Dom João II, Rei de Portugal.

Desconheço as razões que terão levado o Francisco Veríssimo a abandonar o apelido familiar Amado e a adoptar como apelido o nome próprio do pai (como era prática comum entre os camponeses[iv]), tanto mais que o apelido Amado, cuja ascendência conduzia directamente ao Senhor Dom João II, tinha notável peso na sociedade local no Antigo Regime e desse peso haviam de beneficiar, também, ainda que menos intensamente, aqueles ramos da família que se tinham tornados lavradores. 
Facto é que o falecimento de Veríssimo Amado e o presumível abandono do Seminário pelo Francisco Veríssimo acontecem em pleno fim de regime, quando decorre o cerco do Porto, durante a guerra civil entre Miguelistas e Liberais e, talvez estes acontecimentos políticos não sejam alheios ao abandono do velho apelido Amado e ao nascimento do novo apelido Veríssimo.
Certo é que quando morre, em 1894, já não é um Amado, nem sequer um lavrador. Apenas, a acreditar no assento de óbito, Francisco Veríssimo, trabalhador.


Nota: Este texto foi publicado, inicialmente, neste blog em 31 de Outubro de 2014. É agora republicado (10-03-2018), actualizado com novos elementos relativos ao primeiro casamento do Francisco Veríssimo.


[i] Ver, neste blog, o texto Capitães de Aljubarrota.
[ii] Segundo a tradição São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia ou, simplesmente, Veríssimo. Máxima e Júlia, os Mártires de Lisboa, alcançaram a santidade pelo martírio no dia 1 de outubro do ano de 303 ou 304, por ocasião de uma perseguição aos cristãos pelo Imperador romano Diocleciano (compare-se com o que, neste blog, a propósito de São Vicente, dissemos no texto Padre Fábio Bernardino - Uma Iconografia.
[iii] Tenha-se presente que, naquela época, as crianças eram baptizadas, em regra, apenas com um nome próprio. O apelido, esse, só o passavam a usar em adulto (esta é uma matéria que será desenvolvida num outro texto).
[iv] Veja-se, neste blog, o texto ""Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910"