quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Imagem e a Capela de Nossa Senhora da Graça da Ataíja de Cima – Lenda e História



Nos “Tesouros Artísticos de Portugal”[i] a imagem de Nossa Senhora da Graça é mencionada nos seguintes termos:

ERMIDA DE NOSSA SENHORA DA GRAÇA. Situa-se em Ataíja e guarda uma escultura de pedra quinhentista[ii] representando o orago, prejudicada por uma infeliz repintura. Neste lugar existiu um convento de frades, hoje reduzido à fachada setecentista, brasonada.”

A infeliz repintura, como lhe chama o autor, que dá à imagem o aspecto que actualmente lhe conhecemos, foi, segundo contava o meu pai que o terá ouvido ao seu, feita em finais do séc. XIX, ou inícios do séc. XX, porque a anterior se encontrava muito degradada, por Manuel Ferreira da Bernarda ou um outro pintor da sua fábrica.
O convento de frades, esse, nunca existiu. Na Ataíja nunca houve um convento de frades. Apenas, um lagar de azeite da Ordem de Cister construído em meados do séc. XVIII e que é a construção a que o autor se refere

Naquele tempo, andavam a construir uma casa e foram tirar a pedra a um sítio, a que agora chamam a Pia da Senhora ou a Cova da Santa.
Carregaram num carro de bois uma grande pedra que daria um bom cunhal e deixaram-na no local da obra. No dia seguinte a pedra não estava onde a tinham deixado mas, perante a incredulidade geral, no sítio de onde a tinham tirado.
Tornaram a carregar a pedra e o acontecido voltou a acontecer e repetiu-se, ainda, uma terceira vez.

Não havia dúvidas. Era um milagre.

Perante tal maravilha, logo o povo ali decidiu que haviam de mandar a um imaginário que fizesse da pedra uma bonita Nossa Senhora que, atentando bem, já ali se vislumbrava e, do mesmo passo, decidiram que a casa que queriam construir já não seria para nela habitar uma família, mas seria a Capela onde passariam a venerar a imagem.



A minha avó Maria Lourenço que me contou esta história e muitas outras, era analfabeta e não podia saber que entre os anos de 1545 e 1563 decorreu em Trento, cidade situada no norte de Itália, um dos mais importantes concílios da história da Igreja Católica, o Concílio de Trento ou Tridentino, convocado pelo Papa Paulo III em reação às divisões provocadas pelo surgimento do protestantismo, na sequência da publicação, em 1517, das 95 Teses de Lutero.

Lembremo-nos igualmente – e a minha avó também o não podia saber – que, por esses tempos, por toda a primeira metade do séc. XVI, se travou em Portugal uma longa disputa em torno da criação e consolidação do Tribunal do Santo Oficio[iii].

Ou seja, na segunda metade do séc. XVI, estavam reunidas todas as condições para que na nossa região, como por todo o Portugal, se fizessem sentir os ventos da Contra-Reforma, erguendo-se nesse tempo a maioria das capelas que ainda hoje existem nas nossas aldeias.

É neste contexto da Contra-Reforma e da acção do Santo ofício que os milagres se multiplicam:
Ao milagre da imagem de Nossa Senhora da Graça, que terá acontecido algures na segunda metade do séc. XVI, época de fabricação da imagem, acrescem pelo menos três milagres supostamente acontecidos em Aljubarrota.

O Couseiro dá-nos conta do aparecimento miraculoso da imagem da Senhora do Laço, acontecido em 1568[iv].
O mesmo milagre é contado em diferente versão nas Memórias Paroquiais[v] onde, por outro lado, se acrescentam outros milagres imputáveis à mesma imagem. No entanto, sem adiantar data, o pároco limita-se a dizer que o milagre do laço “é tradição antiquíssima”.

Segundo o que o Padre Luís Cardoso, por sua vez, diz no Dicionário Geográfico,[vi] este milagre teria acontecido cerca de 1617[vii].
- Um crucifixo que abriu os olhos e suou, milagre este que foi presenciado por “António Coelho, natural da Ataíja de Cima, homem de boa via e honestos procedimentos”, diz o Padre Cardoso.
Não sabemos quando é que a imagem de Nossa Senhora da Graça ganhou o seu nicho. Talvez, como indicia a sua traça, ainda na segunda metade do Séc. XVII ou na primeira do Séc. XVIII. Esse nicho está agora como peça decorativa do Adro, depois de em 2003 ter sido substituído por uma cópia em mármore, aliás fielmente executada.

E, não ficam por aqui os milagres locais.

Em 1611, num mesmo dia, mais dois milagres:

- Uma imagem do Senhor Preso à Coluna que saiu incólume do incêndio que devorou os panos sobre que se encontrava.


Os “milagres”, muitas das vezes consistindo em imagens aparecidas ou semoventes[viii] ou as duas coisas, “aconteceram”, ou foram “recuperados”, em grande quantidade, entre o final do séc. XVI e por todos os séc. XVII e XVIII e estão na origem de muitos edifícios religiosos, por vezes imponentes santuários. (é o caso – e para dar, apenas, três exemplos da nossa região – do Senhor Jesus da Pedra, em Óbidos, do Senhor Jesus dos Milagres, na localidade do mesmo nome, perto de Leiria e do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio)[ix].

A veracidade da maioria destes milagres é, no entanto e hoje em dia, objecto de dúvida generalizada, inclusive por parte da Igreja Católica que não reconhece muitos deles.

Seja como for, o nosso modesto milagre deu origem à também modesta capela. Tão modesta que, ainda em meados do Século XVII, quer dizer, mais ou menos quando o Duque de Bragança, depois D. João IV e os seus companheiros puseram fim à união com a Espanha filipina e recuperaram a independência de Portugal, era descrita no Couseiro, um importante repositório da realidade da Diocese de Leiria o qual contém, designadamente, um completo inventário e descrição das igreja, capelas e ermidas do bispado, nos seguintes termos:

“… (no lugar da Ataíja de cima há uma ermida) da invocação de Nossa Senhora da Graça, a cuja fábrica são obrigados os moradores do mesmo Lugar; a imagem da Senhora é de vulto, pintada, sem nicho, nem retábulo, nem capela, nem igreja forrada, nem sino.”

A imagem era a que conhecemos, eventualmente com diferente pintura. A capela, essa era bem mais pobre. Quatro modestas paredes cobertas de telha vã sem, sequer, um sino que chamasse os fiéis à oração.

Sobre o que seria a arquitectura da capela em meados do Séc.  XVIII não se pronuncia o pároco de São Vicente que, em resposta ao inquérito pombalino[x], apenas diz que:

“… (a freguesia de São Vicente) Tem mais a cappela de Nossa Senhora da Graça cuja imagem parece bem antiga e hé de pedra e do povo daquele lugar que se chama a Athaeja de Sima. Esta cappela está em um largo no meyo do lugar[xi]; tem seu juis e mordomos que lhe administram alguns rendimentos que tem que servem para a fabrica da ditta capella e festa da mesma Senhora que se faz em hῦas das oitavas do Natal, e nesse dia acode a ella bastante gente dos povos vizinhos e tem também esta cappela em o altar a imagem do Menino Jesus.”

Por este tempo estaria a ser plantado o olival dos frades e a ser construído o lagar, de que hoje apenas sobram as ruinas da cerca da quinta em que se inseria e as da casa do monge lagareiro. Factos que não deixaram de ter grande importância na vida Ataíjense e, portanto, também na sua capela.
Mas isso, terá de ficar para uma outra vez.





[i] Tesouros Artísticos de Portugal, orientação e coordenação de José António Ferreira de Almeida, edição Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, 1980
[ii] Quinhentista. Relativo ao séc. XVI.
[iii] V. Marcocci, Giuseppe, A Fundação da Inquisição em Portugal: um novo olhar, in Lusitania Sacra. 23 (Janeiro-Junho 2011) 17-40
[iv]. Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria, Transcrição da 2ª edição de 1898. Colecção Tempos & Vidas, Textiverso, Leiria, 2011. Pág. 263 e nota 23.
[v] Memórias Paroquiais (1758), Volume III, Introdução, Transcrição e Índices, José Cosme e José Varandas, pág. 11, Edição Caleidoscópio e Centro de História da universidade de Lisboa, 2011.
[vi] Padre Luís Cardoso, Dicionário Geográfico, Tomo I, pág. 314, Lisboa, MDCCXLVII.
[vii] “há cerca de trina anos”, diz ele.
[viii] Que se move por si própria
[ix] No Brasil, uma Senhora da Nazaré semovente, aparecida em 1700, deu origem ao Círio de Nossa Senhora da Nazaré de Belém do Pará que é, por muitos, considerado a maior manifestação religiosa católica do país, nela participando mais de 2 milhões de fiéis.
[x] V. Memória Paroquiais (1758),  Volume III, edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, 2011.
[xi] Lugar esse (Ataíja de Cima) que, diz o padre noutro lugar, tem cinquenta e três vizinhos (casas habitadas) e cento e setenta e sete pessoas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Aljubarrota, Prazeres. O ano de 1889 – Baptismos


A necessidade de alargar a ambas as antigas freguesias de Aljubarrota as pesquisas que sustentam os textos que aqui venho colocando, depara com alguns problemas de difícil solução. Sem embargo, as surpresas surgem-nos quando menos esperamos e disso é exemplo o livro de registos de baptismos da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, relativo ao ano de 1889.

Nesse ano foram baptizadas na freguesia 69 crianças, uma das quais exposta na Pedreira (Molianos). 39 eram rapazes e 30 raparigas e vieram à luz em 12 povoados diferentes, como se indica:
Boavista 13, Pedreira (Molianos) 12, Prazeres (casos em que o padre diz apenas que nasceram “nesta freguesia”) 10, Carvalhal 9, Chequeda e Lagoa do Cão 6 em cada, Lameira 4, Ganilhos 3, Fonte do Ouro e Covões 2 em cada e, finalmente, 1 no Carrascal e 1 exposta.

Destas crianças, 11 eram filhos naturais, quer dizer, de mãe solteira e, em regra, pai desconhecido[i].

Quem eram estas mães? Infelizmente, a idade das mães não consta dos registos de nascimento e, obter essa idade[ii] seria tarefa muito difícil e, em alguns casos, impossível. Não fora assim e talvez pudéssemos confirmar com números o que apenas intuímos: que a idade média das mães de filhos naturais é bastante precoce, designadamente por comparação com a idade das demais mães aquando do nascimento do seu primeiro filho legítimo[iii].

Sabemos, por outro lado, as suas profissões ou ocupações.
Quanto a este ponto, aliás, importa ter presente que, se por um lado o padre era em geral muito rigoroso, distinguindo, por ex. entre profissão, (fulano, pedreiro) e ocupação (sicrana, de ocupação doméstica) por outro lado, na maioria dos casos limitava-se a enunciar uma profissão como comum ao casal (António … e Maria … moleiros, por ex.). Há, ainda, que atentar que as profissões indicadas eram resultado do conhecimento pessoal do padre ou de declaração dos interessados. É, por isso, frequente a profissão de uma determinada pessoa variar de assento para assento. Proprietário aqui é lavrador acolá e trabalhador, ou jornaleiro, em outro assento.
O que podemos concluir com relativa segurança é que, proprietário ou lavrador, trabalhador ou jornaleiro, era pessoa que vivia da terra, fosse trabalhando, fosse mandando trabalhar.
Já quando se indica como profissão uma certa arte ou ofício, podemos considerar com alguma segurança que isso correspondia de facto a mister exercido, fosse a título exclusivo, principal, sazonal ou, até, ocasional.
Inequívoca é a indicação de que se trata de criado (ou criada) de servir. Aqui, não há qualquer espécie de dúvida. Trata-se de alguém que vive sozinho em casa de outrem, em regra em aldeia diferente da de nascimento e residência da família e aí trabalha, de cama e mesa.
O criado ocupa os lugares mais baixos da escala social, apenas acima do mendigo e a par ou abaixo do enjeitado[iv] que, quando era criado de leite, se tornava por vezes uma espécie de meio-irmão dos filhos da ama.

Quem eram, então, quanto à profissão/ocupação, as mães das 69 crianças nascidas na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres no ano de Graça de 1889?
41 eram jornaleiras, 11 lavradoras, 8 domésticas, de 4 não sabemos a ocupação, 3 eram criadas de servir e, por fim, temos 1 moleira e 1 proprietária.
Destas 69 mães, 11 foram mães solteiras, das quais o padre declarou serem 5 domésticas, 3 criadas de servir e sobre 3 não deu informação de ocupação/profissão.
Quanto à naturalidade dessas 11 mães, apenas 4 eram naturais da freguesia de Prazeres (e, presume-se, da aldeia onde foram mães[v]), 3 eram expostas, 2 da freguesia de Pataias, 1 do Valado dos Frandes e 1 de Alcanede.
Das 3 criadas de servir 2 eram da freguesia de Pataias e 1 exposta.
Note-se, ainda, que das 3 mães de que o padre não indicou profissão/ocupação 2 eram expostas.

Um ano é, obviamente, curto espaço de tempo para se tirarem conclusões. Mas, não podemos deixar de chamar a atenção dos nossos eventuais leitores para o elevado número de crianças nascidas de mães solteiras e, ainda, para o facto de que a maioria destas não era natural da freguesia. Tal como é de atentar em que 3 eram criadas de servir e de outras 3 não sabemos a ocupação, mas sabemos que 2 delas eram expostas e a terceira expôs[vi] o filho.
Seja, tudo aponta para que o isolamento familiar e social e a dependência são factores muito presentes nestes casos de maternidade de mulheres solteiras.

Como já acima referimos, uma das crianças foi exposta na Pedreira (Molianos). Trata-se de um caso apesar de tudo insólito, porquanto a exposição de crianças tinha geralmente lugar junto de estabelecimentos receptores (“rodas”) ou em locais onde, presumivelmente, haveria mais facilidade de a criança ser encontrada e acolhida. Abandonavam-se crianças às portas dos ricos, do padre ou da igreja na madrugada de domingo. Seria curioso saber quem era a Manoella da Piedade para, talvez, perceber porque é que a criança foi abandonada à sua porta e não à porta de outra pessoa:

“Aos dez dias do mês de Julho do anno de mil oito centos e oitenta e nove nesta egreja parochial de Nossa Senhora dos Prazeres d’Aljubarrota baptizei solennemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Arthur que foi apresentado em casa de Manoella da Piedade, casada, da Pedreira desta freguesia com um bilhete indicando o dito nome e declarando ser filho de Luiza Caçadora que o dera à luz no dia vinte dois de Junho último à meia-noite neto materno de António Rebotim e Maria Caçadora todos da freguesia do Vallado, concelho e diocese supraditos. Foi padrinho Raimundo Manoel, casado, jornaleiro e madrinha Manoella da Piedade, casada, de ocupação domestica, os quaes sei serem os proprios. E para constar lavrei em duplicado este assento,que depois de lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignou o padrinho e não a madrinha por não saber. Era ut supra.
Raimundo Manoel
O Parocho Joaquim Henriques Farto



Moderna “roda de expostos” num hospital de Dortmund, Alemanha.
Foto Reuters, picada do artigo “O regresso da roda dos expostos”, publicado no Expresso de 28.10.2012 (http://expresso.sapo.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582, consultado em 30-12-2017)





[i] Quase sempre, o pai não era, exactamente, desconhecido. Apenas, por razões diversas, não assumia a paternidade.
Note-se que, num destes casos, o pai era conhecido: “…filha natural de Joaquina da Piedade, solteira, de ocupação doméstica, natural da freguesia d’Alcaneide, concelho de Santarem, diocese de Lisboa e Raimundo Ferreiro, solteiro, trabalhador, natural do dito Carvalhal …”.
[ii] Em regra, por recurso aos assentos de casamento e óbito que, esses sim, indicam a idade do nubente ou falecido.
[iii] Legítimo era o filho concebido no âmbito do casamento de seus pais.
[iv] Ser criado de servir era, aliás, um destino natural dos enjeitados.
[v] E, onde viviam os seus pais.
[vi] Ou, alguém por ela.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Gémeos siameses no Carvalhal de Aljubarrota






Os gémeos siameses ou xifópagos, são gémeos monozigóticos, que dizer, formados a partir de um único zigoto.[i]
O termo "siameses" deve-se aos gêmeos Chang e Eng Buncker, que nasceram no Sião, (nome antigo da actual Tailândia), em 1811 e viveram até aos 63 anos, colados pelo peito.

Anunciados como os “gémeos siameses”, Chang e Eng tornaram-se célebres nos anos de 1830, em que viajaram pela Europa e Américas, fazendo exibições e proferindo palestras sobre a sua condição. Acabaram por se fixar nos Estados Unidos, na Carolina do Norte, e aí casaram, tiveram filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.

Vem isto a propósito de que as Inquirições ordenadas em 1758 pelo Marquês de Pombal aos párocos do Reino, continham, na sua primeira parte, uma questão, a última, com o número 27º, pelas respostas à qual se pretendia saber qualquer outro facto digno de memória que não tivesse sido referido nas respostas anteriores.
A pergunta era a seguinte:

27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?

As respostas àquelas Inquirições constituem as chamadas Memórias Paroquiais, de que já falamos várias vezes neste blog e havemos de voltar a falar, já que se trata do maior acervo de dados existente sobre o Portugal do Séc. XVIII.

Como sabemos, naquele tempo, havia em Aljubarrota duas paróquias, S. Vicente e Nossa Senhora dos Prazeres e o Carvalhal situava-se na área da paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, de que, aliás, era a aldeia mais populosa[iv], com setenta e seis vizinhos, mais do que a parte da vila de Aljubarrota que pertencia a esta paróquia[v].

O vigário de Nossa Senhora dos Prazeres, não refere em nenhum ponto das suas respostas o extraordinário caso que é o mote deste texto, quando é certo que ele é e, naquele tempo, certamente era, digno de memória quer por ser fenómeno relativamente raro quer, ainda, porque, face ao fraco desenvolvimento das ciências de então, o seu surgimento havia de ser causa de grande espanto, para dizer o mínimo.
Dos dois párocos locais, o único que a tão inusitado acontecimento se refere – metendo a pena em terra alheia - é o cura de São Vicente, que o faz nos seguintes termos:

“27º O que achei digno de memória nesta terra vay referido nas respostas antecedentes e só de novo acresce o dar noticia de que no lugar do Carvalhal, termo desta villa, algum tempo antes do terramoto de 1755 nasceo hua menina que tendo um so ventre tinha duas cabeças distintas hua da outra, porque cada hua tinha seu pescoço com boa formatura e com quatro braços, por modo de abrasos cingindos ao corpo com quatro pernas bem distinctas huas das outras e tambem proporcionadas como se fosse hua so creatura perfeita. Porem o ventre e peito era so hum e sem desformidade algua.[vi]

A viva descrição permite-nos saber, sem dúvida, que se tratava de gémeos siameses encontrando-se, neste caso, as crianças ligadas pelo tronco.

O nascimento de duas gémeas xifópagas no início do séc. XII será o caso mais antigo de que há relato.
Em Portugal foram as bens sucedidas cirurgias de separação de gémeos siameses pelo Dr. Gentil Martins (v. Nota [ii]) que despertaram o interesse popular sobre o assunto.
No entanto, o relato mais antigo de que temos conhecimento sobre o nascimento de gémeos siameses em Portugal é de 1660. De facto, de acordo com o respectivo assento paroquial:



“No mesmo dia acima declarado (19.03.1660) nasceram nesta vila três crianças todas fêmeas de um ventre filhas de um … Francisco ferreiro e de sua mulher … … as quais levaram água do baptismo e duas delas vieram uma pegada na outra de modo que tinham um só ventre e quatro braços os quais se abraçavam ao pescoço do outro e duas cabeças e quatro pernas de modo que eram duas criaturas perfeitas somente terem uma conexão entre si unidas desde as coxas até quase os ombros as quais vi com meus olhos e as enterrei na capela do espírito santo desta vila (res admirabilis visu) e por me parecer cousa invulgaris lancei(?) aqui este termo o qual assinei no dezanove de março de seis centos e sessenta
Domingos Carvalho
[vii]
(Barcelos, Freguesia de Santa Maria Maior / Arquivo Distrital de Braga / (Registo Civil) /
Concelho Barcelos / Freguesia Barcelos (Colegiada) / Anos 1570-1610 /Livro Nasc / Nº 1)



File:ChangandEng.jpg
Chang e Eng, os Gémeos siameses. (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:ChangandEng.jpg)






[i] Zigoto é a célula que resulta da fecundação do gâmeta feminino pelo gâmeta masculino. Ovo.
[ii] O médico-cirurgião português António Gentil Martins separou sete pares de gémeos siameses, com nove sobreviventes. (in http://medicosportugueses.blogs.sapo.pt/1693.html, consultado em 16-8-2014).
[iii] Alegislação portuguesa permite a interrupção voluntária da gravidez, no caso de malformação do feto, até às 24 semanas.
[iv] Suficientemente grande para possuir duas capelas: “huma Ermida de Santo Amaro dentro do Lugar do Carvalhal, e outra de Sam Romão da parte de fora do mesmo lugar; ambas pertencem aos moradores deste mesmo Lugar”.
[v] Diz o vigário que esta parte da Vila de Aljubarrota tinha 65 vizinhos e 938 pessoas. Há, aqui, um óbvio lapso. O número de pessoas, a estar correcto, refere-se, certamente, à totalidade da paróquia.
[vi] Usamos, aqui, a transcrição do original tal como consta em Memórias Paroquiais, 1758, Volume III, João Cosme | José Varandas, (Introdução, Transcrição e Índices), edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2011.
[vii] Transcrição nossa, a partir da imagem digitalizada, em www.familysearch.org.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Um soldado desconhecido


Porta-Bandeira do Corpo Expedicionário Português.
Aguarela do pintor e cenógrafo alcobacense Augusto Pina,
originalmente publicada na Revista Quinzenal ilustrada. Ano I, n.º 1, de 1 de Junho de 1917


Tal como então demos conta neste blog, num texto precisamente intitulado “Monumento aos combatentes”, no monumento aos combatentes ataíjenses, inaugurado no dia 18 de Maio de 2015, constam os nomes de todos os ataijenses que, no Século XX, participaram nas guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné, em França na 1ª Guerra Mundial e, durante a 2ª Guerra Mundial, em missões de soberania em Cabo Verde e em Timor.

Todos os nomes, não. Já me tinha soado que talvez lá faltasse um nome e, assim é.

Na 1ª Guerra Mundial participaram, como é do conhecimento geral, José Constantino e Luís Dias[i] mas, não só.

Como se pode verificar pelos Boletins Individuais de Militares do Corpo Expedicionário Português, 1914-1918, Sargentos e Praças, documentos agora disponibilizados online pelo Arquivo Histórico Militar, o soldado do Regimento de Infantaria n.º 7 de Leiria, Joaquim Carlos, solteiro, natural de Ataíja, Alcobaça, Leiria, integrou o Corpo Expedicionário Português, tendo embarcado em Lisboa com destino a França em 20 de Janeiro de 1917 e desembarcado, no regresso, também em Lisboa, em 3 de Julho de 1919.
Em França, foi “ferido por gazes”[ii] em 7 de Agosto de 1817, em consequência do que teve 22 dias de baixa hospitalar.
Por razões que a ficha não refere foi, em 1-1-1919, punido com 30 dias de prisão correcional.

Recorrendo aos registos paroquiais de São Vicente de Aljubarrota, Baptismos, verifica-se que em 2 de Agosto de 1893 nasceu na Ataíja de Cima uma criança do sexo masculino que foi baptizada com o nome de Joaquim. Era filho de José Carlos[iii]  e de Rosa Coelho, neto paterno de José Carlos e de Joana de Horta e materno de Joaquim Coelho e de Maria da Costa.
Este Joaquim, teria em 1917 a idade de 23 anos e é, certamente, o mesmo Joaquim Carlos que esteve nas trincheiras da Grande Guerra.
Aliás, no mesmo ano de 1993 nasceu Luís Dias e no ano anterior tinha nascido José Constantino, os outros dois ataijenses[iv] que combateram em França.

Desconheço o que terá posteriormente acontecido ao Joaquim Carlos, pessoa de quem não tenho, sequer, ideia de ter ouvido falar. O mesmo com a maioria dos seus irmãos, dos quais apenas tenho memória do Matias, que foi conhecido por Matias de Horta, nascido em 1896 e que acabou os seus dias no Asilo da Mendicidade de Lisboa, em Alcobaça, depois de uma vida marcada pelo pouco juízo e a falta de gosto pelo trabalho, mas não pelo vinho. Na queda foi acompanhado pela mulher que com ele rumou ao Asilo[v].
O cunhado, a quem chamavam o Manuel Botas, seguiu percurso semelhante e foi, durante muitos anos e até ao fim da vida, pastor na Ataíja de Baixo, em casa de Francisca “Crispa”.

O apelido Carlos que aqui chegou cerca de 1830, está hoje quase extinto na Ataíja de Cima e apenas o conheço em Manuel Carlos Tomé que o recebeu através de sua mãe, Maria “Metina”, filha de Manuel Carlos[vi] e de Emilitina[vii] da Conceição.


Estes são os factos, pelo que me parece que a comissão promotora do Monumento aos Combatentes, havia de providenciar para que o nome de Joaquim Carlos lá fosse inscrito.







[i] Também usava Luís Dias Vigário e foi conhecido por Luís Barra.
[ii] O exército alemão – e depois, aliás, também os aliados -, durante a 1ª Guerra Mundial, recorreu largamente ao uso de gases. Primeiro o gás de cloro e, a partir de 1916 e em larga escala, o gás mostarda. Há cálculos que apontam para que os gases tenham afectado mais de 1.300.000 soldados, dos quais mais de 91.000 faleceram.
O gás que feriu o Joaquim Carlos foi, certamente, o gás mostarda.
[iii] Noutros assentos, este José Carlos usou os nomes de José Carlos de Horta e José Carlos Júnior.
[iv] Da Ataíja de Cima. Outros houve, da Ataíja de Baixo, do que, a seu tempo, aqui daremos conta.
[v] O Matias d’Horta e a mulher encontravam-se já asilados em Alcobaça quando foram à Ataíja e visitaram o meu avô Quitério, de quem, aliás, ele era parente. Isto aconteceu, necessariamente, antes de meados de 1955. Eu era muito pequeno, mas impressionou-me a farda cinzenta do Asilo que ambos vestiam. Isso e o que a minha avó bastas vezes me contava, da falta de cabeça de que ambos sofriam e resumia na “conversa” que atribuía ao Matias d’Horta e à sua mulher Maria Botas:
“O que é que vamos comer? – Mata-se o galo! – E, eu, vou à taberna, buscar 5 litros!”
[vi] Irmão do Joaquim Carlos.
[vii] Emilitina que a linguagem popular converteu em Metina.

domingo, 17 de setembro de 2017

IX Festival das Sopas da Ataíja de Cima



No passado domingo, dia 10, teve lugar, no renovado e aumentado espaço do Largo do Cabouqueiro, o IX Festival de Sopas da Ataíja de Cima.



A organização prometia 19 sopas diversas mas, a verdade, é que acabaram por ser 23 sopas diferentes e, como sempre, pão caseiro feito nos fornos da aldeia, muitos grelhados e, para acompanhar o café, fritaram-se, ali mesmo, muita filhoses. Em stand separado e com os lucros a reverterem para a APEJAC – Associação de Pais da Escola e Jardim da Ataíja de Cima, as sobremesas doces. Ainda, um outro stand, este promovido por um grupo de estudantes ataíjenses do ensino secundário, onde se venderam muitas bolas de Berlim.
No palco brilhou o Grupo de Concertinas Aldeias do Baça que, apesar do nome, tem mais a ver com o Alcoa que com o Baça, já que é mais um fruto da capacidade de iniciativa e realização dos ataijenses.
A história conta-se em poucas palavras: um concertinista diz em conversa que gostava de ter um espaço onde pudesse ensinar outros a tocar. Ao que o Zé da Ilda responde que tem esse espaço.
E, aí está como nasce uma escola e um grupo de concertinas.
Se você também quer aprender a tocar concertina, vá até lá que a escola está em pleno funcionamento.


O festival das sopas nasceu da iniciativa de um grupo de ataijenses que constituía a Comissão do Carnaval e com o objectivo de angariar receitas para os respectivos festejos.
Quando, por imposição de São Pedro que mais de uma vez nos brindou com Carnavais chuvosos uns e gelados outros, se decidiu deixar de organizar o carnaval, era já evidente que o festival das sopas se tinha tornado uma jornada de convívio muito agradável pelo que o Salão Cultural Ataíjense decidiu tomar a seu cargo a organização dos futuros festivais.
Em boa hora o fez.
O Festival das Sopas da Ataíja de Cima não tem parado de crescer e é hoje, sem margem para dúvidas, o maior evento gastronómico da região, tendo, neste ano de 2017, batido o record de sopas e de participantes, que ultrapassaram as 900 pessoas, de tal modo que começa a colocar-se a questão de limitar o número de ingressos. De facto, tratando-se de uma iniciativa exclusivamente local e voluntária que mobiliza muitas dezenas de pessoas na sua organização e na montagem, desmontagem e transporte de todo o mobiliário e estruturas necessárias à realização do evento, na confecção das sopas e das sobremesas e na cozedura do pão e em mais mil e uma pequenas tarefas indispensáveis, coloca-se a questão de que, mantendo-se o Festival nestes moldes, não pode ele crescer para além das forças da aldeia.





Este ano é de eleições autárquicas e, também por isso, tivemos entre os comensais os principais candidatos à presidência da Câmara Municipal de Alcobaça





Foi uma grande festa só possível, é importante frisá-lo, com a generosa participação e o trabalho voluntário de muitas dezenas de ataijenses.
Obrigado a todos.











segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Ataíja de Cima no Numeramento de 1527 - 1532



Os recenseamentos populacionais são quase tão antigos como os mais antigos impérios e, à semelhança do que se passa nos estados modernos, tinham por objectivo fornecer indicações úteis aos governos desses impérios, designadamente no que respeita à recolha de impostos, realização de obras públicas e organização de exércitos.

É assim que há notícias de recenseamentos desde há 4900 anos e, até ao nascimento de Cristo, houve recenseamentos em, pelo menos, o Egipto, a China, o Japão e no Império Romano.[i]

É, aliás, comummente conhecido o facto bíblico de que Jesus terá nascido em Belém acidentalmente, apenas porque a família foi obrigada a deslocar-se de Nazaré, onde residia, até Belém (local de origem da família) para responder no recenseamento ordenado por César Augusto.

Porque o recenseamento de César Augusto decorreu em todos os territórios do Império, incluindo a província da Lusitânia esse é, também, o primeiro recenseamento conhecido que terá ocorrido no território actualmente ocupado por Portugal e, depois disso, também os Árabes, durante a sua permanência na Península Ibérica, aqui promoveram diversos recenseamentos.

Após a independência de Portugal, os recenseamentos, então chamados contos, têm objectivos estritamente militares e só no Séc. XVI, reinava D. João III, surge o chamado Numeramento de 1527-1532, o qual tem a ambição de ser um recenseamento geral da população.
Seria, no entanto, necessário esperar até 1864 para a realização do primeiro Recenseamento Geral da População[ii] elaborado segundo bases científicas que, aliás, tinham sido fixadas apenas 11 anos antes, no Congresso Internacional de Estatística de Bruxelas, de 1853.[iii]

O Numeramento de D. João III, sendo o primeiro recenseamento populacional realizado em Portugal é, apesar das suas deficiências, um importante acervo de informação, precioso para o conhecimento da realidade da população portuguesa na época em que foi realizado.

No que diz respeito à área geográfica agora ocupada pelos municípios de Alcobaça e Nazaré, José Eduardo Lopes no excelente texto “O “Numeramento” de 1527 – 1532”[iv], transcreveu a parte relevante do Numeramento e deu preciosas informações sobre o modo como foi elaborado.
Como assinalado no texto referido, o “Numeramento” foi transcrito em português moderno e publicado por Anselmo Braamcamp Freire no Archivo Histórico Portuguêz, tendo a parte relativa à Estremadura sido incluída no Vol. VI, n.º7, Julho de 1908, sob o título “Povoação da Estremadura no XVI. seculo.”[v]

O levantamento dos dados para o Numeramento foi feito por Comarcas e, felizmente para nós, “Jorge Fernandes, a quem coube efectuar o levantamento na Província da Estremadura, é o escrivão que forneceu mais dados sobre as modalidades práticas do seu desempenho,”[vi] donde, o Numeramento apresenta, quanto à Estremadura[vii], dados muito coerentes e fiáveis apesar do que, diversas lacunas ou imprecisões, reais ou aparentes, não deixam de nos provocar interrogações.

Uma dessas interrogações, digo eu, diz respeito às viúvas.
Como se vê no quadro anexo, o número de viúvas por vila tem uma enorme e aparentemente injustificada variação, face ao total de fogos contados e que vai desde os 29,5% em Paredes, a 25% em Turquel, 21% em Évora, (onde, aliás, o rigor da informação chega ao pormenor de distinguir as viúvas que existem no corpo da vila e no termo[viii]), 19,2% na Cela, 11,6% nas Caldas e 3,7% em Alvorninha. Enquanto que nos demais concelhos não é indicada a existência de quaisquer viúvas.
Tal omissão só pode dever-se a lapso, ou na recolha de elementos in loco ou na sua transcrição. É que, por um lado não é compreensível a inexistência de viúvas em todas essas vilas e termos nem, por outro lado, essa é uma omissão menor. O mesmo se diga dos clérigos e outros privilegiados, cuja existência apenas é assinalada na Pederneira, Porto de Mós, Caldas, Batalha e Leiria. 
Vila
No corpo da vila
No seu termo
Total
Dos quais viúvas
Dos quais clérigos e outros privilegiados
Porto de Mós (1)
140
372
512

22
Alpedriz (2)
16
30
46


Cós
38
29
67


Aljubarrota
163
45
208


Pederneira
176
21
197

7
São Martinho
4
9
13


Alfeizerão
60
23
83


Maiorga
87
13
100


Alcobaça
127
159
286


Paredes
27
0
27
8

Évora
146
29
175
32

Turquel
36
21
57
9

Stª Catarina
31
69
100


Cela
104
8
112
20

Alvorninha
14
94
108
4

Salir do Mato
5
11
16


Salir do Porto (3)
15
1
16


Caldas (4)
70
16
86
10
6
Óbidos
160
916
1076


Batalha
77
68
145

8
Leiria
584
1.476
2060

95
(1)     A Vila de Porto de Mós era do Duque de Bragança.
(2)     A Vila de Alpedriz era do Mestrado de Santiago.
(3)     As Vilas de Salir do Porto, das Caldas e de Óbidos, eram da Rainha.
(4)     Da vila das Caldas, diz-se na epígrafe ser “Da Rainha Nossa Senhora” e, no texto, “que he delRei Nosso Senhor”. De facto, a vila das Caldas estava inserta no termo de Óbidos que desde D. Afonso III pertencia às rainhas e pertenceu a D. Leonor, aliás a fundadora da vila das Caldas, até ao seu falecimento em 1525. Em 1527, vacante de rainha, o senhorio estava na esfera do Rei.

Os números do quadro acima referem-se a vizinhos. Sabendo-se que “vizinho” significa o mesmo que morador, ou fogo ou seja, família que habita numa casa e que, em média grosseira, podemos admitir como muito provável a existência de quatro pessoas por família ou casa então teríamos, na soma das vilas correspondentes aos actuais municípios de Alcobaça e Nazaré, um total de cerca de 6000 habitantes.

A norte pontificava Leiria, cabeça de um concelho enorme que ia desde Carnide e Ranha, hoje no município de Pombal, por Espite, agora no concelho de Ourém até ao Alqueidão da Serra e à Calvaria, hoje de Porto de Mós e incluía todo o concelho da Marinha Grande que, então, não existia.
Leiria era um concelho encabeçado pela maior cidade que havia (e há) entre Coimbra e Lisboa, com uma população de 2.300 ou 2.500 pessoas, mais de um quarto do total dos habitantes do concelho que se distribuíam por mais de 150 quintas, casais e aldeias, das quais menos de uma dezena tinha mais de 20 vizinhos.

A maior dessas aldeias era o Reguengo (do Fetal), com 64 vizinhos.
Mais próximo de nós, as Brancas eram também uma grande povoação (melhor, duas povoações[ix], com 34+18 vizinhos), enquanto a Calvaria se ficava pelos 5 vizinhos.
Já no concelho de Porto de Mós, uma outra Calvaria[x] tinha 6 vizinhos, o Juncal 16 e o Pé da Serra e Cumeira (sic.)[xi] somavam 22.

 O concelho da Batalha, cuja criação tinha tido lugar no ano de 1500,-  apenas 27 anos antes, - para dar enquadramento administrativo aos privilegiados “por bem de seus ofiçios do mosteiro da Batalha e obras dele”, estava encravado no de Leiria e reduzia-se a “meia légua” em redor da vila.

 Do concelho de Aljubarrota, diz Jorge Fernandes que:
 It. A vila dAljubarrota, que he do mosteiro dAlcobaça, tem 163 vizinhos no corpo da vila.
E tẽ de termo as aldeas seguintes: - It. Aldea dos Chãos e Cumeira tẽ 15 vizinhos. – Aldea da Tayja de Cima, 10. – Aldea do Carvalhal, 13. – Aldea da Chaqeda, 7.
Esta vila dAljubarrota tem de termo pera parte de Porto de Mos hῦ quarto de mea legoa.
Parte cõ Coz e Porto de Mos e Maiorga e Alcobaça.
Soma ao todo 208 vizinhos.

Diz Jorge Fernandes que Aljubarrota parte (faz fronteira) com Porto de Mós, Maiorga e Alcobaça. Ora, o caso é que fazia, também, fronteira com Évora como se vê, aliás, na descrição que o mesmo faz desta vila: “(A vila d’Evora d’Alcobaça) Parte cõ turuqel e cõ Alcobaça e cõ Aljubarrota.”
Também, quando lemos pela primeira vez esta descrição da vila de Aljubarrota logo uma dúvida nos assaltou: Se o autor se refere a uma Ataíja de Cima, onde está a Ataíja de Baixo? Pois, o caso é que não está e, devia haver uma Ataíja de Baixo pois, de contrário bastaria nominar a aldeia de Ataíja como, aliás, se fez em todos os documentos anteriores de que tenho conhecimento. Mas, não é só a questão de haver uma ou duas ataíjas é, também, a pertença ao mosteiro de Alcobaça. É que, ainda 59 anos antes, como se vê, por exemplo, de um documento de que já falamos nestes blog (http://ataijadecima.blogspot.pt/2010/05/afonso-vicente-e-margarida-vasques-dois.html) a Ataíja se designava, simplesmente, por Ataíja e pertencia ao termo de Porto de Mós.

De Turquel para leste, Jorge Fernandes apenas refere a existência da aldeia dos Candeeiros e casais isolados e, na descrição de Évora, não refere nenhuma aldeia situada a nascente da vila:
     It. A vila dEvora dAlcobaça tem 146 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 31 viuvas.     Tem o termo seginte: – It. Aldea dos Cadavaes tem 8 vizinhos e mais huma viuva. – Aldea do Arrieiro, 16. – Aldea dos Marroos, 6. – Casal do Beqoro, 2.     Esta vila tem de termo pera a parte de Turuqel hum quarto de mea legoa, e outro tamto pera a parte dAljubarrota e outro tanto pera Alcobaça.     Parte cõ Turuqel e cõ Alcobaça e cõ Aljubarrota. – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 175 vizinhos. 

Isto dá-nos a informação, relativamente segura, de que, naquele tempo, era muito escassa a povoação na borda da serra, onde apenas se notavam, com alguma dimensão, as aldeias da Ataíja de Cima e a dos Candeeiros. No entanto, esta situação começaria a mudar logo em 1532 quando, por carta assinada pelo Cardeal Infante D. Afonso, (que então tinha 23 anos e já era abade comendatário do Mosteiro de Alcobaça desde a idade de dez anos)[xii], foi criada a freguesia da Benedita e, ainda no Séc. XVI, vão ser construídas capelas em muitas aldeias da região, definindo-se por essa época um esquema de povoamento que, sem grandes alterações, se mantém até aos nossos dias, embora com significativas alterações na importância relativa de cada povoação.

   
Se atentarmos que naquele tempo a população de Portugal oscilaria entre 1,5 e 2 milhões de pessoas e que, na actualidade, esse número é de 10,5 milhões, das quais habitam no concelho de Alcobaça cerca de 57.000 pessoas e no da Nazaré pouco mais de 15.000 então, podemos verificar que, enquanto a população de Portugal cresceu, nestes quase 500 anos, entre 525% e 700%, na região que, grosso modo, corresponde ao domínio de Cister, esse crescimento foi de cerca de 1200%.
Se, cerca de 1530, Portugal tinha uma densidade populacional entre os 16,3 e os 21 habitantes por km2 e, na região a que nos referimos esse valor era de, talvez, uns 12 habitantes por Km2, quase quinhentos anos depois a situação inverteu-se: Agora (2011), Portugal tem em média 115,3 habitantes por km2, enquanto na Nazaré são 183,9 e em Alcobaça 138,9 (média dos dois concelhos: 146,5 hab/km2)

Ou seja, de região escassamente habitada cerca de 1530, os “Coutos de Alcobaça” passaram, na actualidade, a exibir uma densidade populacional que ultrapassa, largamente, a média nacional.


 Pormenor do mapa de Portugal de Álvaro Seco, de 1560 
(apenas 30 anos após o "numeramento") mostrando a nossa região




[i] O mais antigo recenseamento de pessoas de que há notícia terá ocorrido no Egipto no ano de 2900 A.C. Sobre este facto e muitos outros da história da Estatística, veja:  http://www.alea.pt/html/nomesedatas/swf/factos.asp?art=1 (consultado online em 24-2-2016)
[ii] O último recenseamento em Portugal realizou-se em 2011 e foi, talvez, o último realizado por inquérito às famílias, já que a generalidade da informação poderá, de futuro, ser recolhida em bases de dados oficiais.
[iii] Uma lista dos recenseamentos realizados em Portugal até ao Séc. XIX pode ser vista em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=censos_historia_portugal (consultado online em 24-2-2016)
[iv] Publicado em 5-2-2016 no blog “Alfeizerão” (http://alfeizerense.blogspot.pt/2016/02/o-numeramento-de-1527-1532.html?view=flipcard, consultado online em 24-2-2016)
[v] Todas as transcrições que fizermos respeitarão a ortografia usada por Amselmo Braamcamp Freire.
[vi] Daveau, Suzanne, “A Descrição Territorial no Numeramento de 1527 – 32”, consultado em linha em 25-2-2016, in file:///C:/Users/fnac/Documents/Dialnet-ADescricaoTerritorialNoNumeramentoDe152732-2654430%20(3).pdf
[vii] Naquele tempo, a Comarca da Estremadura ocupava o território que, grosso modo, corresponde na actualidade aos Distritos de Lisboa, Santarém, Leiria, Coimbra e Aveiro.
[viii] A vila dEvora dAlcobaça tem 146 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 31 viuvas. Tem o termo seginte: – It. Aldea dos Cadavaes tem 8 vizinhos e mais huma viúva”
[ix] Aldea de Cima dos Brâcos e Aldea de Baxo dos Brâcos
[x] Corresponderiam, talvez, às actuais Calvaria de Cima e Calvaria de Baixo.
[xi] O que parece confirmar a inexistência, naquele tempo, das diversas aldeias que hoje povoam aquele espaço.
[xii] O Infante D. Afonso, irmão do rei D. João III, foi Bispo da Guarda e de Viseu, feito Cardeal com 8 anos de idade, chegou a acumular, em simultâneo, o arcebispado de Lisboa, o bispado de Évora e a Comenda de Alcobaça.