segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Um livro do Séc. XVIII na Ataíja de Cima


Conhecedora das minhas deambulações pelo passado ataíjense, mão amiga fez-me chegar um livro publicado há 233 anos.

Trata-se do “THESOURO BIBLICO, OU DICCIONARIO HISTORICO, E ETYMOLOGICO DOS Nomes próprios dos Póvos, Provincias, e Cidades, com as suas respectivas interpretações. E relação succinta das noticias, e acções principaes da maior parte das pessoas, que se encontrão nos veneráveis Livros da Sagrada Escritura. OBRA UTILISSIMA PARA A MELHOR INTELLIGENCIA DO ANTIGO, E NOVO TESTAMENTO E ASSIM MESMO PARA A LIÇÃO DA HISTORIA DA SANTA IGREJA, Lisboa, na oficina de Simão Thadeu Ferreira, ANNO M.DCC.LXXXV, Com Licença da Real Mesa Censoria”. (teve uma reedição, impressa no Porto, Typographia da Revista, em 1869)

O longo título e subtítulo que, como era uso naquela época preenche toda a página de rosto (acima reproduzida), é só por si esclarecedor do conteúdo do livro: Trata-se de, sob a forma de dicionário, explicar resumidamente, o essencial sobre as pessoas, povos, locais e factos referidos na Bíblia.

A necessidade deste tipo de livros – que, por outro lado, se inserem no movimento de publicação de dicionários e enciclopédias que, por aquele tempo, no chamado século das Luzes, percorreu a Europa – resulta do facto de a Bíblia não se encontrar traduzida e de os actos litúrgicos serem proclamados em latim.

O autor, que no livro é referido, apenas, pelas iniciais do seu nome: F.F.D.J.M.S., foi Frei Francisco de Jesus Maria Sarmento, frade e provincial da Ordem Terceira de São Francisco, o qual publicou diversas obras de cariz religioso e foi um dos responsáveis pela reconstrução do Convento de Jesus (onde, actualmente, funciona a Academia das Ciências de Lisboa) cujos edifícios sofreram, com o terramoto de 1755, gravíssimos danos que o deixaram inabitável.

O livro encontra-se disponível na internet em
http://books.google.com/books?id=qs4pAAAAYAAJ&pg=PA260&lpg=PA260&dq=thesouro+biblico&source=bl&ots=3tVTeWopPe&sig=mfqFq9hFsJgWbj78zja_U0w6sZs&hl=pt-PT&ei=M6UPTYTbD8K4jAfl5JzEDg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CCYQ6AEwAw#v=onepage&q&f=false, digitalizado a partir de um exemplar existente na Harvard University Library e é, também, passível de ser encontrado em alfarrabistas.


Não é isso, no entanto, o que nos leva a falar dele neste blog mas, antes, o facto extraordinário de o exemplar que temos presente ter sido preservado e em razoável bom estado, durante tanto tempo, sobretudo, quando sabemos que foi encontrado no espólio hereditário de uma ataijense  que, apesar de ser analfabeta, o conservou durante dezenas de anos, durante toda a vida.

O livro foi encontrado, após a morte da proprietária, em casa da que foi conhecida por Maria Marreca, a qual era meia-irmã da minha avó e o terá recebido o livro por herança paterna.
O livro contém, manuscritas, três indicações de propriedade: No verso da capa, a tinta, “este livro he de ..(ilegível) .. Cortez”, e uma outra, a lápis, “Este livro he” (sem indícios de ter sido escrito o nome que, naturalmente, devia seguir-se). No verso da contra-capa, perfeitamente legível, a terceira marca: “Este livro é de António Maria Cláudio”.


Pela grafia (é em vez de he) deve presumir-se que esta terceira marca é a mais recente.

Quem seria este António Maria Cláudio?

A minha avó falava-me do seu avô João Cláudio que combateu nas tropas anglo-portuguesas durante a Terceira Invasão Francesa e, com Wellington, atravessou toda a Espanha na perseguição aos exércitos napoleónicos.

Assim, talvez o António Maria Cláudio fosse descendente do João Cláudio e, por isso, meu familiar, talvez tio-avô ou tio-bisavô.

Hei-de investigar isso melhor quando e se me decidir a entrar a sério pelos caminhos, sempre tortuosos, da genealogia.

Até lá, resta-me agradecer à actual proprietária do livro e desejar que ela e os seus descendentes o saibam conservar, por mais 233 anos, como o souberam fazer os seus ancestrais.

(Reprodução das págs. 92 e 93 do Thesouro nas quais se vê, entre outras, uma descrição moral da figura bíblica de Caim)




Nota: O presente texto substitui uma primeira versão que foi publicada neste blog em 07-01-2011


domingo, 16 de setembro de 2018

Uma foto da 1945




Com o recente texto O Moleiro, que aqui publiquei em 24 de Agosto passado, atingiu o blog Ataíja de Cima o redondo número de 333 posts ou mensagens publicadas.

É um bonito número, como diria o outro e são, também, uns bonitos quase nove anos de publicação regular, sempre atento ao objectivo que me propus de divulgar a Ataíja de Cima, a sua história e as suas histórias, gentes, costumes, tradições e actualidade, com destaque para a economia e os mais importantes factos e os eventos (agora já ninguém diz acontecimento) que moldam a vida social.


De algum modo, achei que aquele interessante número das 333 mensagens publicadas merecia ser assinalado e isso fez com que tivesse andado a pensar em qual havia de ser o tema do 334º post, questão que ficou, agora, resolvida porque mão amiga me fez chegar uma deliciosa fotografia, de um grupo de 14 jovens ataíjenses, tirada na festa de S. João, nos Olheiros, talvez em 1945.

À frente, da esquerda para a direita: Maria Jorge, Piquete, Maria Carlota, João Veríssimo, Joaquina Jorge.
Atrás, pela mesma ordem: Maria Tomé, Luísa (filha de José Ribeiro), Teresa Neto, Joaquina Tomé, Maria (filha de José Ribeiro), Maria Florinda, Manuel Branco, Joaquina Júlia, Francisco Rosa

Dos jovens aqui representados todos os homens já faleceram e, das mulheres, julgo que estão vivas apenas duas. Os outros, alguns cedo de mais, foram falecendo como é da ordem natural das coisas.
Duas das mulheres faleceram, precocemente.

A primeira foi a Joaquina Júlia (Joaquina Gomes, Júlia era alcunha, por ser filha de uma Júlia) que casou com João Frade (João da Graça de Sousa) e viveu o seu curto casamento na casa que ocupou o lugar do moinho referido no post O Moleiro. Foi mãe da Morena, do Zé Frade e de outra filha que saiu jovem da aldeia. A Joaquina Júlia faleceu muito cedo, em Maio de 1954, deixando aquelas três crianças muito pequenas, tinha a Morena, a mais velha das três, apenas cinco anos e sete meses.

A segunda, julgo que também ainda nos anos de 1950, foi a Teresa Neto (era irmã do recentemente falecido José Henriques ou José Neto, mais conhecido por Zé Diabo), a qual casou com um natural do Valado dos Frades que conhecíamos por Joaquim Cuco, residiu na casa que actualmente é do Paulo Carreira (Rodinhas) e foi a última camponesa da Ataíja de Cima a falecer de tétano, tal como contámos no post, Tétano.


À excepção do Piquete (Manuel Ângelo), que morreu solteiro e conheci a viver com o irmão António na casa que tinha sido de seus pais, na Rua dos Arneiros, onde hoje está a casa de um dos netos do João Veríssimo, todos os demais casaram e deixaram descendência, mas apenas dois dos retratados, a Maria Florinda e o Manuel Branco, formaram entre si um casal.

Note-se que quatro das raparigas nem para ir à festa largaram o lenço da cabeça e assim denunciam a sua condição de camponesas pobres. Não são, aliás, as únicas camponesas pobres presentes na foto. A minha mãe, Maria Joaquina da Graça que foi conhecida por Maria Carlota (a Maria filha da Carlota), ao centro à frente, não era menos pobre. Mas sempre a conheci opiniosa, preocupada com o próprio aspecto e o do seu João. Lembro-me, por ex., do cuidado com que passava a ferro e apertava os grandes laços com que atava os aventais que usava na venda do leite e isso torna-me mais feliz a sua memória.

No trajar do conjunto das raparigas as blusas brancas, que todas usam, denunciam que se trata de um dia de descanso, que o uso do branco era incompatível com o trabalho do campo. Talvez os lenços sejam mais bonitos do que parecem na foto e o que julgamos preto seja, antes, azul escuro e os lenços tenham cornucópias, volutas ou flores, mas, seja como for, uma rapariga solteira queria-se discreta e casta e, para isso, o branco chega.

Os homens, esses, como galos de crista no ar ou pavões de leque, podem ser mais vaidosos e têm melhores condições para o mostrarem. Vão vestidos para a festa. Penteados cuidados, camisas brancas, casaco e, dois deles, até gravata. Gostos e dinheiro para os sustentar obtidos, certamente, nas maltesias das vindimas no Bombarral e das quintas de Lisboa.


As duas filhas de José Ribeiro, como conta a ti Luísa Emília, ainda felizmente viva, foram à festa sem o pai saber.

___________
Um penhorado agradecimento à Maria Amélia Cordeiro, ilustre ataijense e querida amiga, através da qual a foto me chegou às mãos e ainda me ajudou a identificar a grande maioria dos fotografados.
Agradeço aos leitores ataíjenses que me informem de qualquer erro ou imprecisão que deva ou mereça ser corrigida. Como lhes agradeço que me emprestem as fotos interessantes que, certamente, andam lá por casa. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Moleiro



Ainda estão vivos alguns que se podem lembrar de ter ouvido os seus búzios assobiar ou de ter visto as suas velas a rodar ao vento, mas as memórias começam a ficar difusas e, dele, não se conhecem fotografias ou desenhos, mas não havia de ser muito diferente (ao menos no que diz respeito ao mecanismo de moagem) do que se mostra no desenho abaixo, o moinho de vento que, algures pelos finais dos anos 30 ou inícios dos anos 40 do século passado, o ti Manuel Luís mandou construir no quintal.

Teve curta duração e dele não há ruínas ou quaisquer indícios que atestem a sua existência, já que se erguia no lugar onde depois foi construída a casa de João Frade, filho do proprietário, mesmo ao lado de onde agora está a do neto Zé Frade, um lugar alto aonde o vento podia chegar, sem obstáculos, de todas as direcções.

Ali se moía o milho de que se fazia a broa dos vizinhos e o próprio e das maquias com que se alimentava a numerosa prole e algum trigo para o pão-alvo dos domingos e dias santos.

Mas, naqueles dias de Agosto, havia mais de uma semana que sobre a terra tinha caído uma calmaria tal que nem as folhas das nogueiras buliam. Nada, nem uma brisa ligeira. Apenas, dia sobre dia, aquele calor seco que tão bem conhecemos, quando o sol queima na pele, os pássaros não voam, os cães se arrastam nas sombras e só o canto das cigarras rasga o silêncio.

Era Domingo. Talvez no ano de 1941 ou 1942, quando a Europa sofria sob a guerra e Portugal sofria sob a pobreza de sempre, agora agravada pelo racionamento. Na casa da ti Maria da Graça o pão, fossem os restos do pão-alvo do domingo passado, fosse a broa semanal, já tinham acabado. Nem uma côdea sobrava na arca.

O Padre Casimiro marcava as missas em São Vicente para muito cedo, quase de madrugada, o que por outro lado era bom que, assim, não tinha a gente de torrar sob o sol naquela viagem de seis quilómetros, ida e volta. 

Estava todo o povo na missa, as mulheres e as crianças pequenas no corpo da igreja, os homens ocupando a capela-mor e o coro, como era uso naquele tempo e ainda me lembra e o meu pai contava-me que, quando ele era pequeno e ainda ficava com a mãe no corpo da igreja, que se os homens se ajoelhavam, (apenas o joelho esquerdo no chão, mão direita segurando firmemente o pau, cotovelo apoiado na coxa) ficava a capela-mor feita uma floresta de paus. Nos anos cinquenta os paus já tinham desaparecido – pelo menos da missa - mas o resto mantinha-se muito parecido.

Estava o povo na missa, dizia eu, e o ti António da Graça, então um jovem dos seus dezoito ou dezanove anos, assistia no coro quando ouviu lá fora o rumor de uma rabanada de vento. Benzeu-se à pressa, desceu à rua e, não havia dúvidas, fazia um vento suão que levantava a poeira seca dos caminhos.

 Não pensou duas vezes: desatou a correr quanto pode e, num ápice, galgou os três quilómetros que o separavam de casa e do moinho. Despiu a camisa domingueira que o suor colara ao corpo e foi-se ao moinho. Verificou brevemente o engenho. Desenrolou as velas e amarou-as às varas das escotas.  Despejou a saca de trigo no tegão. Manobrou o sarilho, fazendo girar o capelo para alinhar as velas com a direcção do vento.
Sob a força da entrosga todo o engenho rangeu e a mó andadeira começou a rodar, o grão a escorrer pela calha e a farinha a surdir no panal.


Acabada a missa, a ti Maria da Graça vasculhou o adro em busca do filho que não encontrou. Levantou o rosto para sueste e os seus olhos saltaram o vale e chegaram ao seu moinho e pode ver, destacando-se no cenário de fundo da serra dos Candeeiros, as velas brancas a girar.

Graças a Deus!

O meu António já tem o moinho a trabalhar!

Estugou o passo e, também ela, chegou ofegante a casa e ao moinho onde o António já tinha a farinha suficiente. Peneirou-a e amassou-a brevemente, abafou-a com uma manta para levedar mais depressa e, usando o azeite que, esse, felizmente, ainda abundava na talha, fez filhoses que polvilhou moderadamente com açúcar e esse foi o almoço de todos.


Corte longitudinal de um moinho de vento, permitindo ver o mecanismo 
(imagem retirada, com a devida vénia, de Museu da Memória Rural, uma realização da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, com um excelente site na internet, in https://museudamemoriarural.pt/)

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Há um problema de segurança em Alcobaça?



Motivados por uma desusada vaga de assaltos a residências na Ataíja de Cima, publicámos no semanário Região de Cister, de 22 de Março de 2018, um texto com o título acima.
Depois disso, têm-se multiplicado quer na imprensa local quer, sobretudo, nas redes sociais, relatos de uma persistente criminalidade, relativa a assaltos, roubos e tráfico de drogas, entre outros.
Tudo perante o silêncio das autoridades municipais e policiais e a ausência de notícias que nos digam que os criminosos vão sendo apanhados, julgados e condenados, ou de estatísticas que nos mostrem que as coisas estão a melhorar (e não a piorar como parece ser o sentimento geral).
É por tudo isso que me parece que mantém pertinência a pergunta e se justifica a republicação, aqui no blog, do referido texto.



Há um problema de segurança em Alcobaça?

Há muitos anos, calhou-me integrar a associação de pais de uma escola secundária, então frequentada pelos meus filhos.
Uma das questões recorrentes era o enorme rol de queixas relativas a pequenos furtos que afectavam os alunos e, quase sempre, apontavam numa direcção: um ou dois bairros próximos da escola onde, a par com habitação social, existiam muitas casas clandestinas e algumas habitações precárias.
Um dos colegas da direcção era um prestigiado militar que não só conhecia bem as questões de segurança como quem tinha o dever de a garantir naquela área e lá fomos ambos falar com o então Chefe da esquadra da PSP do Campo Grande, a quem demos conta dos problemas existentes, solicitando-lhe que reforçasse o patrulhamento no local.
Depois de nos escutar atentamente, o responsável deu-nos conta dos meios que tinha à disposição, em homens e viaturas e um mapa da parte da cidade cuja segurança pública era sua responsabilidade. O dito mapa mostrava com clareza as zonas onde realmente existiam os problemas de segurança a que a PSP tinha de dar atenção. A área da escola dos meus filhos não era uma dessas áreas, porque o volume de queixas, fossem relativas a furtos e roubos fosse a outros crimes contra as pessoas ou a propriedade, era absolutamente residual.
Resumindo, havia muitas queixas na associação de pais e poucas na PSP.
Não sei qual é a situação no que respeita a Alcobaça e aos crimes contra a propriedade. Não sei se a PSP e a GNR têm muitas ou poucas queixas, nem as zonas do concelho onde são mais ou menos frequentes.
Mas sei que no curto espaço de cerca de treze meses, entre os primeiros dias de fevereiro de 2017 e meados de março de 2018, numa única aldeia do concelho, numa única rua e na curta distância de 300 metros, houve seis furtos com arrombamento, a um estabelecimento comercial e a cinco residências e seus anexos.
Nesses furtos, além dos danos provocados nos edifícios para arrombamento, desapareceram dinheiro, alimentos e bebidas, ferramentas, máquinas, e até a porta do estabelecimento assaltado e veículos motorizados, tudo no valor de muitos milhares de euros.
Num dos casos, quando a GNR chegou ainda o ladrão se encontrava dentro da casa assaltada.
Não muito longe, há uns poucos meses atrás, furtaram equipamentos em pedreiras. Num caso, com ameaças a uma pessoa. Noutro caso, foi identificada a viatura em que se deslocavam os assaltantes e, consequentemente, os próprios assaltantes.
Ou seja, em pelo menos dois dos casos referidos conhecem-se os autores e sabe-se onde habitualmente param e com quem andam.
Na época da azeitona foi furtado pelo menos um motosserra que, por pouco tempo, tinha sido deixado num olival.
E, há outros casos, como aquele do estrangeiro residente no Casal do Rei a quem, - obviamente sabendo que ele se tinha ausentado para ir à sua terra, - levaram todo o recheio da casa, incluindo a mobília.
Ou o estabecimento comercial, na mesma aldeia, onde furtaram as bilhas de gás que ali estavam para venda.
Talvez a GNR não tenha tido conhecimento da totalidade destes furtos, mas sei que recebeu as correspondentes queixas da maioria deles.
Talvez não haja um problema de segurança em Alcobaça. Mas, os factos que acabo de relatar mostram, inequivocamente, que existe um problema de segurança em algumas partes do concelho de Alcobaça.
Na Ataíja de Cima, claramente, há um problema de segurança.
18-03-2018

sábado, 30 de junho de 2018

Ainda sobre o nome Ataíja




(Ataíja e Atalaia, em Vestígios da Língua Arábica em Portugal)


Quando andava à procura de coisa absolutamente diferente, tropecei no 3º volume do curioso livro intitulado TENTATIVA ETYMOLOGICO-TOPONYMICA ou Investigação da Etymologia ou Proveniencia dos Nomes das Nossas Povoações, por Pedro Augusto Ferreira, bacharel formado em Teologia, continuador do Portugal Antigo e Moderno e Abade de Miragaya aposentado, Terceiro Volume, Porto, Typographia Mendonça (a vapor), Rua da Picaria 30, 1915.

Só o longo título é todo um programa pelo que não resisti a dar uma vista de olhos e, a páginas 64, deparei com uma, para mim, nova explicação para a origem do nome Ataíja, a qual não resisto a partilhar com os leitores do blog.

Atalaia é, diz o nosso abade aposentado, vigia, torres maiores ou menores que se faziam outrora em sítios altos e algo distantes das praças de guerra, como vedetas[i], sentinelas ou guardas avançadas para vigiar o movimento dos invasores e evitar surpresas. Aproveitavam-se mesmo algumas vezes penhascos nativos, próximos das praças e com vistas largas, para suprir as atalaias.[ii]

Quanto à origem da palavra, cita Cândido de Figueiredo que ”no seu Novo Dicionário da Língua Portugueza diz que atalaia vem do árabe at-talia” mas, contrapõe, Viterbo diz que dos árabes nos ficou esta palavra que eles pronunciavam atalaia, vinda do verbo tália que na oitava conjugação significa vigiar” e, acrescenta o nosso autor em nota que, nos Vestígios da Língua Arábica em Portugal[iii] lê-se Atalaia, Attallaâ. Vila da Província da Estremadura, Patriarcado de Lisboa. Significa lugar alto. Torre de onde as vigias descobrem o campo. Lugar eminente. Deriva-se do verbo tálea, subir, e na VIII conjugação é vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista. Também se chamam atalaias os homens que vigiam os campos, fortalezas, praças e presídios.

Delas (as atalaias) tomaram o nome talvez mais de cem povoações nossas, mencionadas na Chorographia Moderna.[iv] Taes são: Atalaia, Atalaias, Atalainha, Ataia, por Atalaia, ; Ataija por Ataya, o mesmo que Ataia ; Taias por Ataias ; Taijas por Ataijas ; Talaeiros por Atalaeiros ; Talaia por Atalaia ; e Tayão, aferese do Atalaião, augmentativo de Atalaia.[v]


E, aqui está como o nome Ataíja pode provir da palavra árabe attllaâ, atalaia, com o significado de vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista e, também, os homens que vigiavam os campos, ou os lugares altos donde o faziam.

É com o mesmo significado que a palavra subsiste, até hoje, na língua portuguesa. Veja-se o Priberam:
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino 
1. Torre, guarita ou lugar alto donde se vigia. substantivo de dois géneros 2. Pessoa que está de vigia. = SENTINELA
(Estar de) atalaia • De vigia a ou à espera de algo ou alguém. Numa posição ou postura que permite estar a espreitar ou alerta para algo.[vi]


Ora, em toda esta região não há melhor atalaia que a serra dos candeeiros. De facto, dela se alcança o mar e, por muitos quilómetros em redor, uma vastíssima extensão de território.

É, pois, bem plausível que o nome Ataíja venha daí, como é igualmente plausível que provenha, como sustentou Frei João de Sousa[vii],[viii], de uma outra palavra árabe, como já dissemos no post A Origem do Nome Ataíja, aqui publicado em 17de Novembro de 2009.

Em qualquer caso, será à serra que a Ataíja vai buscar o seu nome.






[i] Vedeta, diz-nos o dicionário online Priberam, é italiano e significa lugar elevado onde se colocava uma sentinela mas, também, em terminologia militar antiga, sentinela a cavalo.
[ii] Pág. 61.
[iii] Vestígios da Língua Arábica em Portugal, ou Lexicon Etymologico das palavras e nomes portuguezes que tem origem arábica, por Fr. João de Sousa, Lisboa, na oficina da Academia Real das Sciências, anno MDCCLXXXIX. Edição (fac-smille) de A. Farinha de Carvalho, 1981.
[iv] Chorographia Moderna do Reino de Portugal, por João Maria Baptista, Coronel de Artilharia Reformado, Coadjuvado por seu filho João Justino Baptista de Oliveira, Volume I, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias. Obra em vários volumes, o primeiro saído em 1864 e o quarto, que contém a Província da Estremadura, em 1876.
[v] Pág. 64.
[vi] "atalaia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/atalaia [consultado em 14-06-2018]
[vii] Op.Cit. na Nota iii
[viii] Ver (ler) imagem acima.

terça-feira, 19 de junho de 2018

5º Aniversário da Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça




A Escola de Concertinas Aldeias de Alcobaça nascida da curiosidade do Zé da Ilda que, passados já os sessenta anos, quis realizar o desejo de aprender a tocar concertina, tornou-se um projecto sério que cresceu de um modo que os seus iniciadores nunca terão previsto e, passados apenas cinco anos, mantém essa vertente de escola de música,  agora mais viva do que nunca e despertando mais interesse do que nunca e, por outro lado, é um grupo de concertinistas capaz de se apresentar em publico com êxito e agrado geral, o  que vem acontecendo cada vez mais amiúde e em diferentes palcos.

Este pessoal das concertinas, digamos assim, é gente que gosta de se divertir e de conviver e, por isso, o convívio entre grupos de concertinistas é uma vertente importante da actividade.

É assim que, para comemorar o 5º aniversário da Escola, foi possível reunir no passado domingo, dia 17 de Junho de 2018, no Largo do Cabouqueiro, na Ataíja de Cima, um grande número de muitas dezenas de concertinistas, pertencentes a 14 grupos diferentes, que abaixo listamos como forma de agradecimento pela excelente tarde que lograram propiciar às centenas de pessoas que acorreram a assistir ao espectáculo.

Escola de Concertinas aldeias de Alcobaça
Grupo de Concertinas de Machio (Pampilhosa da Serra)
Grupo de Concertinas da Barrenta
Grupo de Concertinas de Santa Maria da Feira
Grupo de Concertinas Sons da Serra (Oliveira do Hospital)
Grupo de Concertinas da Casa do Benfica da Charneca da Caparica
Concertinas João Tomás
Grupo de Concertinas de Dornes (Ferreira do Zêzere)
Grupo de Concertinas Michel Neves, de Vila Facaia (Pedrógão Grande)
Grupo Verde Minho (Loures)
André Vieira (Pero Negro)
Escola de Concertinas Filipe Oliveira (Sintra)
Augusto e Filipe Martinho
Escola de Concertinas da Cabeça Veada

Há igualmente que agradecer todos os apoios e patrocínios, quer os institucionais, Câmara Municipal de Alcobaça e Junta de Freguesia de Aljubarrota, quer as muita pessoas da Ataíja que com o seu trabalho e esforço contribuíram para a realização do evento quer, ainda, às cerca de quarenta empresas sem cujo patrocínio tudo teria sido mais difícil.

Ficam algumas fotos que fizemos durante a festa.



 




quinta-feira, 7 de junho de 2018

Restaurante Doces Sabores

Um excelente restaurante na Ataíja de Cima





O texto com o título "Doces Sabores", aqui publicado em 28 de Março de 2011 tornou-se um dos textos mais vistos deste blog, contando actualmente com cerca de 4000 visualizações, sendo certo que não há semana em que não venha alguém consultar o texto, sinal de que o Doces Sabores é cada vez mais conhecido.

Visto o tempo decorrido (mais de sete anos) sobre o referido texto, é altura de o actualizar até porque, bem o sabemos, um tal tempo é mais do que suficiente para mudar tudo num restaurante. Adiante-se, desde já que, no Doces Sabores, se alguma coisa mudou foi para melhor.

O antigo restaurante Apeadeiro, que Francisco Vigário Salgueiro abriu após o seu regresso da emigração em França, foi objecto de profunda remodelação e modernização em 2010 e reabriu, no início de 2011, sob a direcção de sua filha Silvie e com o novo nome de "Doces Sabores".

Muito bem situado, ao Km 98 do IC2, à entrada da Ataíja de Cima e junto de um conjunto de importantes empresas que, pelo menos ao almoço, lhe fornecem a maioria dos comensais, no entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades (Estrada Municipal n.º 553), com um espaçoso parque de estacionamento e uma vista privilegiada sobre a Serra dos Candeeiros, é dotado de salas separadas, uma para pastelaria/café e outra para restaurante, esta com design e decoração da autoria da conhecida designer de interiores Patrícia Carvalho (http://www.patriciacarvalho.pt/), uma sala relativamente pequena, acolhedora, com decoração e mobiliário simples mas confortável, que tem resistido muito bem ao decurso do tempo.

Pouco depois da reabertura a gestão passou para a responsabilidade de Criações Gourmet e a cozinha foi confiada à direcção do Chef Carlos Roxo.

Desde então o Doces Sabores, que temos frequentado com regularidade, vem-se confirmando como um dos melhores restaurantes da região, onde a preços muito razoáveis se pode comer comida simples e bem confecionada, mas também carnes maturadas ou peixe no pão e saborosas sobremesas e, porque os olhos também comem, tudo empratado e apresentado com cuidado e gosto e suportado num serviço eficiente e simpático.


Tal como no texto original de 2011, podemos agora terminar dizendo que, em termos de relação qualidade/preço, o "Doces Sabores" merece a nota de MUITO BOM!

O "Doces Sabores" é um estabelecimento que valoriza a Ataíja de Cima.