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quarta-feira, 19 de abril de 2017

As Tapadas - património cisterciense esquecido




Nas Tapadas, os frades plantaram laranjeiras, dizia a minha avó.

Fig. 1


Vistas da Ataíja, são três longas linhas de pedra (agora quase ocultas no matagal), correndo a serra na horizontal, como traços de giz num quadro negro, servindo de remate ao olival do Santíssimo, ali, na parte inferior da encosta, à cota dos 250m, a partir de onde o solo se inclina demasiado para permitir qualquer cultivo.

Fig. 2
Perfil da Serra dos Candeeiros na zona do Olival dos Frades da Ataíja de Cima
(elaboração própria com base em Mapbox e OpenStreetMap):


Nessa transição de declives, por um momento, o solo é menos inclinado do que ao redor. Por isso havia quem, em vez de Tapadas, chamasse ao lugar as Covadas.

Nos anos de 1950 e 1960, o Ti José Ribeiro ainda cultivava a sua parte das Tapadas. Entretanto, as coisas mudaram e hoje o mar de oliveiras que bordejava todo o poente da Serra dos Candeeiros foi substituído, quase totalmente, por pinheiros e eucaliptos e, nas margens do IC2, por uma fila quase contínua de fábricas, oficinas, restaurantes e armazéns diversos. As Tapadas, essas, já quase se não veem, seja cá de longe, seja mesmo lá ao pé, submersas que estão em matos e silvas e moitas e em carrasqueiras impenetráveis, bem mais altas que um homem.

Numa visita recente foi, apesar de tudo, possível perceber o essencial da estrutura, como se mostra no esboço de planta do conjunto, tal como o pudemos observar (elaboração própria com base em Google Maps e observação no local):
Fig. 3


 
O muro interrompido que se vê à direita no desenho não faz parte da estrutura. Antes, indica o limite a montante da propriedade e serve de suporte a um carreiro conhecido por o caminho do guarda.
À esquerda do desenho, a jusante da estrutura, veem-se um pedaço de parede, com argamassa de barro (Fig. 4), incluindo o cunhal (Fig. 5) e um pedaço de muro, de construção idêntica (Fig. 6), correndo de montante para jusante (ESE/ONO) e aparentemente sem ligação com o anterior. Entre ambos, uma ligeira elevação do terreno revela-se uma escombreira onde são visíveis pequenos pedaços de telha de canudo (Fig. 7) e, muito perto, debaixo de uma carrasqueira (Fig. 8), mais restos de um muro, de características e orientação semelhantes ao antes referido.










As Tapadas ocupam uma extensa área, de mais de 2 hectares, e têm um comprimento de cerca de 360 metros. Os três muros longitudinais, são sensivelmente paralelos e afastados entre si de cerca de 30 metros. A estrutura fecha-se nos topos por muros cujas características não pudemos confirmar devido às dificuldades de acesso.
Em posição relativa que também não pudemos confirmar, pelo menos o espaço entre os muros médio e superior é interiormente seccionado por, pelo menos, um muro secundário. Na parte do muro superior que visitámos, observamos, ainda, a existência de duas aberturas, uma das quais se mostra, parcialmente, na foto abaixo.
Fig. 9


Os três muros principais, têm perfis diferentes, como se evidencia nos desenhos abaixo (elaboração própria).
Fig. 10


O muro de montante é o mais forte, com uma largura no topo (na zona que visitámos), variando entre 190 e 220 cm, a que acresce um socalco de 70 cm de largura e, considerando que, de jusante, a parede apresenta uma inclinação de cerca de 15%, a largura total na base atingirá os 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
O muro intermédio é mais estreito, com uma largura de 120 cm no topo, a que acrescem dois socalcos de 40cm cada, numa total de 200 cm. Ambas as faces são verticais. De montante mediu-se a altura de 200 cm e de jusante 150 cm até ao primeiro socalco, mais 80 cm até ao segundo socalco e outros 80 centímetros até ao topo, somando a altura total de 310 cm.
O terceiro muro, que fecha o conjunto a jusante, é o de dimensões e formas mais simples, sendo constituído por uma parede com 120 cm de largura e uma altura, idêntica em ambas as faces, de cerca de 200 cm.


Vista do muro superior, com o seu socalco:
Fig. 11



Muro intermédio com os seus socalcos
Fig. 12



Muro Inferior
Fig. 13
Muro inferior

No topo e fazendo parte da propriedade a que os frades chamaram olival do Santíssimo e por aqui era conhecido como Olival dos Frades, o qual vindo desde o caminho dos Arneiros, numa extensão de cerca de 2400 metros era, no início do Séc. XIX, com os seus cerca de 100 hectares e mais de 18.000 pés de oliveira, o maior olival da região, as Tapadas ainda hoje não passam despercebidas a um olhar atento que se lance sobre a serra, a partir da Ataíja, do Cadoiço, ou de Aljubarrota e seus arredores.

Trata-se, sem qualquer espécie de duvida de uma construção fradesca.

Apesar disso e do muito que tenho lido a propósito dos monges cistercienses de Alcobaça, nunca vi, que me lembre, qualquer referência escrita a esta estrutura monumental.

Da tradição popular, apenas se retém localmente essa ideia de que nas Tapadas os frades plantavam laranjeiras. E, está bem vivo quem, há mais de 50 anos lá andou a lavrar com os bois do ti Zé Ribeiro que ali terá semeado batatas. Nesse tempo, havia por lá uma figueira, mas não havia vestígios de laranjeiras.

Verdade é que o volume de pedra usado na construção dos 3 muros principais, ultrapassa largamente os 5.500 m3 a que há que acrescentar o volume dos muros transversais, de fecho e de divisão, cujo volume não conseguimos estimar. Um tal volume de construção e, ainda, o que parece ter sido um edifício anexo, implicou, necessariamente, uma gigantesca quantidade de trabalho e dinheiro, num investimento que, certamente, se esperava recuperar a prazo.

Não me parece credível que um pomar de laranjeiras pudesse, por si só, garantir um adequado retorno financeiro e, por outro lado, só uma total ausência de terrenos igualmente aptos à cultura justificaria o virem plantar-se em local tão difícil e de tão onerosa preparação, pelo que se nos afigura que as laranjas que a tradição popular recorda, não terão sido a razão principal, muito menos a única, que levou à construção das Tapadas.

Subsistem, assim, vários mistérios em torno desta construção:

- Quando e com que objectivos terá sido construída?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um lagar desconhecido

No largo do Fundo da Igreja, entre a rua de Nossa Senhora da Graça e a de Santo António, ao lado da que foi a casa de Maria Constantino e mesmo em frente à porta da cave da Capela, existe um pequeno edifício que agora serve de garagem e serviu, antes, além de outras coisas, como o palheiro das vacas de João Pereira que foi pai do actual proprietário.
Na festa em honra de Santo António que, como é tradição, se realizou no passado dia 15, o referido edifício serviu como bar de apoio aos festejos e, por isso, o seu portão esteve aberto, deixando ver o que a generalidade dos ataijenses desconhece:

Embebidas na parede do lado esquerdo, em excelente estado de conservação, podem ver-se as “virgens” onde articulava a vara de um lagar.

Atenta a reduzida dimensão do edifício e a sua localização, é certo de que se tratou, não de um lagar de azeite mas de um lagar de vinho.

Esse lagar de vinho, no entanto, já deixou de laborar há muitos anos, mais do que alcança a memória de qualquer ataijense vivo. É o que concluo da conversa que mantive com o António Pereira, o qual apenas sabe que o edifício foi comprado pelo seu pai (mas não sabe quem foi o vendedor) e desconhecia que aquelas pedras na parede serviam para propiciar a articulação da vara do lagar. O que quer dizer que o seu pai nunca lhe terá falado nisso, muito provavelmente por, à data da compra da propriedade, já nela não haver outros indícios da antiga função.

Na Ataíja de Cima escasseiam os vestígios do passado e os que sobram estão, muitos deles, arruinados ou em vias de ruína.
No caso do antigo lagar de que falamos, apenas sobram os vestígios que, por se encontrarem embebidos na parede, não dificultaram os sucessivos usos que foram dados ao edifício. Esperemos que esse facto permita que se mantenham intactos por outros tantos anos.



Notas: Para conhecer melhor o funcionamento dos lagares de varas, veja, Lagares de azeite - As prensas, aliás, o post mais lido deste blog.

domingo, 26 de maio de 2013

A Debulhadeira do Pirata - II

As Fotos

Não há certezas sobre a data exacta das fotografias que se seguem. Talvez sejam de 1993, ou de um ano antes, ou depois.
Certo é que por estes anos se deu uma segunda, efémera e última ( ao menos até agora), época de cultura do trigo na Ataíja.
O fim da actividade da debulhadeira do Pirata foi, também, o fim da cultura do trigo na nossa terra.

Que o mundo estava a mudar vê-se bem do facto de não existirem animais em nenhuma das fotos seguintes.
Agora, ao contrário do que aconteceu durante séculos, já não há juntas de vacas com os seus carros a transportar o trigo e tudo é feito com tractores e seus respectivos reboques.
Essa é, seguramente, a mudança mais importante. Não o facto de se ter deixado de cultivar o trigo, já que as terras ataijenses nunca tiveram grande aptidão para o cereal que, tradicionalmente, era cultivado para pagar foros, destinando-se o sobrante – se sobrava – a fazer pão que se comia em raros dias de festas. Nos restantes dias, apenas se comia pão de milho.



Nesta primeira foto vê-se a correia que, a partir da tomada de força do tractor, acciona todo o sistema e quatro dos homens necessários ao funcionamento da debulhadora:
Sobre a debulhadora, o homem de camisa negra tem por função cortar o atilho do molho do trigo.
O segundo homem sobre a máquina é o aumentador. A sua função é “enfiar” o trigo na tremonha, garantindo um regular e adequado abastecimento do sistema de debulha.
À direita da imagem, o homem que suporta um molho de trigo numa forquilha sobre a cabeça, para o colocar na debulhadora, não faz parte da equipa de debulha. É o proprietário do trigo a debulhar ou um seu familiar. É ao dono do trigo que compete colocá-lo sobre a debulhadora.
Finalmente, sob a correia motora, vê-se o saqueiro. É a ele que compete medir, ou pesar e ensacar o trigo debulhado e, consequentemente, apurar a maquia que cabe ao proprietário da debulhadora. Desempenha, por isso, um papel de grande importância e é, geralmente, o encarregado, responsável por todo o sistema: 



Enquanto o trigo limpo sai por um dos lado da debulhadora, pelo lado oposto sai a palha que, elevada pelo tapete rolante, vai cair junto do homem que vemos sobre uma plataforma anexa à enfardadeira. É o aumentador da enfardadeira, cujo trabalho é o de encaminhar, nas quantidades e com a regularidade certas, a palha para a tremonha, de onde cairá no leito onde vai ser feito o fardo: 



Aproveitando os primeiros fardos fabricados, constrói-se ao redor da enfardadeira uma espécie de tenda, onde os arameiros podem fazer o seu trabalho protegidos do sol.
A enfardadeira é como um molde que enforma e onde se vai comprimindo a palha, separando-se os fardos uns dos outros por aquelas peças de madeira (como se chamam, alguém sabe?) que se veem à esquerda da foto e que, entre cada uma das tábuas, possuem ranhuras por onde o arameiro faz passar o arame que ata enquanto o fardo está comprimido: 



Uma paisagem inteiramente mecânica: As juntas de vacas foram substituídas por tractores e seus reboques e carrinhas de caixa aberta:



domingo, 19 de maio de 2013

A debulhadeira do Pirata - I




Em Novembro de 2009, publicamos um post relativo à debulha do trigo que, em meados dos anos setenta (as fotos então publicadas são de 1976), era feita pela debulhadora do Leonídio e tinha lugar na eira que se fazia no Quintal da Rosalia ((VER AQUI).

Entretanto, nos anos seguintes, o desenvolvimento das indústrias locais, quer a da faiança decorativa quer a da extração do vidraço de Ataíja, que absorviam a totalidade da mão-de-obra disponível, levou a uma rápida e acentuada quebra nas quantidades de cereal semeado e, como uma coisa leva a outra, ao desinteresse pela sementeira somou-se o desinteresse do Leonídio pela debulha.
Em resultado do que a debulhadora ficou “encostada” e a falta dela mais desmotivou os eventuais agricultores e a cultura do trigo quase desapareceu, então, da nossa aldeia.

No início dos anos de 1990, o Zé Pirata, comprou ao Leonídio a tal debulhadora que já há vários anos não trabalhava ou, melhor, comprou, por pouco mais de seiscentos contos, todo o sistema de debulha: Debulhadora, enfardadeira, tractor, a bancada para “fazer” os arames que haviam de atar os fardos da palha e todos os demais acessórios necessários ao funcionamento do sistema.

No primeiro ano, o trabalho foi pouco que na época da sementeira os produtores, ou alguns deles, ainda não sabiam que iria haver, de novo, debulhadeira.
Mas, no segundo ano parecia que toda a gente quiz semear trigo e, por isso, houve quem tivesse de esperar mais de cinco dias para ver chegar a sua vez de debulhar.
A partir daí, a quantidade de cereal que chegava à debulhadora começou a diminuir rapidamente, o Pirata resolveu cessar a actividade e a debulhadora foi, de novo e definitivamente, “encostada”.

O Pirata teve alguma dificuldade em livrar-se do que agora, para ele, era apenas sucata. Sucata com muita madeira, demasiada madeira, e um volume enorme. Nenhum sucateiro a queria, senão desmontada ou reduzida a pedaços manuseáveis e transportáveis e liberta da madeira.
  
A solução foi queimá-la no quintal, num dia nevoento de inverno. Com bons resultados, diga-se de passagem:, os sucateiros, finalmente, lá se interessaram pelo ferro que sobrou do fogo e, tudo junto, com a enfardadeira que, essa sim, era quase tudo ferro, ainda rendeu “uma boa maquia”, como por aqui se diz.
O tractor, um velho NUFFIELD de 1967, esse, foi vendido para os lados do Valado, com vista ao aproveitamento do seu motor para mover uma bomba de água.

Por esse tempo (em 1995), também a Metalúrgica Duarte Ferreira, a construtora destas máquinas agrícolas da marca TRAMAGAL (que aliás, há muito tempo – 30 anos - tinha virado as costas à agricultura), chegava ao fim

Foi também por estes anos que chegou ao fim a época das debulhadoras e enfardadeiras fixas.

A debulhadora que havia sido do Leonídio e agora era do Pirata, em plena laboração, na 1ª metade dos anos de 1990. 
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terça-feira, 9 de abril de 2013

O Mangual




A palavra mangual deriva do latim manualis, significando manual.

O Mangual, a que em algumas regiões chamam malho, é um antiquíssimo instrumento agrícola que serve para malhar e debulhar cereais e legumes.
Durante muitos séculos foi usado (e ainda o é) em todo o hemisfério norte, da Europa à China.
Teve, também, largo uso como arma de guerra, sobretudo em versões mais pequenas que o mangual agrícola, destinadas a ser manejadas com uma só mão.


É composto por dois paus ligados por uma correia de couro, sendo um deles, o que os dicionários designam por mango e serve de cabo, mais comprido, (cerca de 150cm) e fino (4,5-6cm de diâmetro) e o outro, a que os mesmos dicionários chamam pírtigo, mais curto (65 a 70cm) e um pouco mais grosso (6-7cm de diâmetro) e serve para bater os cereais.

Malhar era um dos mais duros e fisicamente exigentes trabalhos agrícolas.
No Verão, com temperaturas rondando os trintas graus, em eiras que se queriam ensolaradas e à hora de maior calor (que os grãos, quanto mais secos, mais facilmente se desprendiam da maçaroca ou melhor se abriam as vagens e cascas protectoras), malhar era trabalho para homens fortes.
Dependendo das dimensões da eira e da quantidade de cereal a debulhar, o número de malhadores variava entre o solitário dono de pobre colheita, até dois grupos de quatro homens cada, postados frente-a-frente, batendo a palha alternadamente, à voz do mandador.

Por vezes, havia lugar a disputas entre os malhadores, para ver quem batia mais forte e durante mais tempo. Eram momentos privilegiados de exibição de força masculina perante as raparigas que, em redor, desempenhavam as tarefas auxiliares.

Mas, a extrema dureza da tarefa, limitava o uso do mangual à debulha de relativamente pequenas quantidades de cereais ou legumes. Para quantidades maiores recorria-se, preferencialmente, ao trilho. Como já dizia no Séc. XII um frade espanhol: outros debulham com mangual que é o mais pobre debulhar de todos.




Este mangual é uma peça recente.
Foi construído pelo meu pai, haverá cerca de trinta anos e destinava-se a malhar pequenas quantidades de vagens, resultantes de uma agricultura pouco mais do que recreativa que ele praticava quando já reformado.
A tradicional correia de couro foi aqui substituída por uma simples corda.



Uma ilustração medieval francesa (Martirológio da Abadia de Saint Germain-des-Prés, séc. XIII), representando a debulha com mangual

 Mangual, numa pintura (detalhe de A Terra da Abundância) de Pieter Bruegel, O Velho (séc. XVI)

 Mangual como arma de guerra (gravura alemã de Hans Lutzelberger - Séc. XVI)


Nota: Quem gostar de dançar salsa pode procurar, no Youtube, por José Mangual Jr.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Gente da Ataíja de Cima - Joaquina Ribeiro Vigário


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Nesta rubrica - Gente da Ataíja de Cima -, temos trazido aqui histórias de pessoas extraordinárias, incomuns, pessoas que, por alguma razão, fosse a sua inteligência, as suas acções ou os acasos da vida, se tornaram diferentes dos demais mortais que as rodeavam.

Nessa galeria, de pessoas singulares, cabe bem Joaquina Ribeiro Vigário, nascida em 1947, filha de Luísa Ribeiro e de José Vigário, então titulares de uma das casas mais abastadas da aldeia.

O infortúnio que havia de marcar a sua vida manifestou-se cedo, ainda antes do nascimento, já que o pai faleceu quando ela ainda se encontrava na barriga de sua mãe.

A orfandade não era, no entanto, ao menos em termos materiais, um problema.
Na abastada casa de sua mãe havia sempre criados, abegão e, nas épocas próprias, ranchos de gente a garantir os diversos trabalhos agrícolas.
O pão, o vinho e o azeite eram em grandes quantidades, com largos excedentes para venda.
Do azeite, nos melhores anos de safra da sua criancice e adolescência, entre produção dos olivais próprios e maquias do lagar, chegaram a juntar-se mais de vinte pipas[i].
O dinheiro guardava-se numa burra.

A pequena Joaquina ia crescendo, rodeada dos cuidados da mãe, dos dois irmãos mais velhos, do padrasto e dos criados da casa e, numa sociedade ainda absolutamente rural, a filha da Viúva[ii] parecia destinada a ter uma vida muito melhor do que a generalidade dos seus conterrâneos, a fazer-se mulher consciente da sua posição social e, era certo, a casar bem, quer dizer, a casar com alguém de posses equivalentes.
Num mundo aparentemente imóvel, como aparentam ser todos os mundos rurais, ninguém ousaria prever coisa diferente.

Mas, a má-fortuna resolveu atravessar-se, mais uma vez, na vida da criança.
Com cerca de sete anos de idade, aquela que parecia ter todas as condições para vir a ser a jovem mais requestada da aldeia, sofreu um estúpido acidente, uma marrada de carneiro que havia de lhe fracturar a espinha, condenando-a ao nanismo e à dependência.

Faleceu em 7-2012.




[i] 10.000 litros. Note-se que, na campanha de 1951, uma mulher a apanhar azeitona ganhou 15$00 por dia e um homem 27$00. O almude de 20 litros de azeite bom (3 graus) vendeu-se a 270$00.
[ii] Apesar de ter casado, em 2ªs núpcias, com José “Maneta”, Luísa Ribeiro foi conhecida, sempre, por a Viúva.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A Candeia

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A chuva forte não permitiu, hoje de tarde, a continuação da apanha da azeitona.
Continuaremos amanhã, se o São Pedro quiser.

É, por isso, altura apropriada para relembrar que o azeite, ainda hoje um importante elemento da cozinha portuguesa e mediterrânica que tanto apreciamos, como tempero, em cru, de vegetais e  peixes cozidos ou grelhados e, cozinhado, como base de sopas, refogados e estufados, foi historicamente, muito mais do que isso.
Em toda a bacia mediterrânica, desde tempos muito antigos, o azeite foi a única fonte de iluminação doméstica.
Não, não era o petróleo que, antes da electricidade, servia de combustível de iluminação. Isso, foi apenas a partir de meados do Século XIX, quando começaram as modernas explorações de petróleo.
Ainda há cinquenta anos atrás, na Ataíja de Cima como em todas as aldeias de Portugal, havia, é certo, um candeeiro a petróleo em quase todas as casas.

Mas, a mais vulgar luminária era a candeia que, na cozinha, tinha a "ajuda" do fogo que ardia na lareira.



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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Os Burros


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Os burros já mereceram outras referências neste blog, fosse a propósito de uma visão pessoal do que era a Ataíja de Cima em meados do Séc. XX (AQUI),  fosse a propósito dessa figura que foi o José Barata (AQUI),  fosse, ainda, a propósito desse acessório, indispensável para atrelar o burro ao carro a que, na Ataíja, chamamos brunil. (AQUI)

Dois dos últimos (não sei, mesmo, se não serão os últimos) burros ainda existentes na Ataíja pertencem, um, a Manuel Carlos Tomé:


 E, o outro, ao meu primo João da Graça Coelho (João Porfírio):



Longe vão os tempos em que em cada casa havia um burro, auxiliar indispensável dos trabalhos agrícolas.
Já não há, sequer, tosquiadores ou ferradores como se vê do pelo e dos cascos dos animais fotografados. 

Mas, dos muitos burros que havia quando eu era pequeno, lembro-me, particularmente, de dois ou três casos:
O meu tio Porfírio (pai do João) herdou do meu avô José Agostinho um burro de corpo pequeno, pelagem totalmente preta (era o africano) e um feitio irrascível:
Detestava, especialmente, ser tocado na garupa, fraqueza que nós os miúdos explorávamos quando estava preso à manjedoura, picando-o com paus, o que dava azo a monumentais sessões de coices e pinchos.
Também o meu tio António Coelho Quitério (Sapatada) teve um burro com muito mau feitio. A esse não se lhe podia tocar nas orelhas que ficava completamente desvairado, tentando morder o autor da ofensa. Resultado: nunca se lhe tirava o cabresto.
Um outro burro deste meu tio foi, também, um animal notável: Sabia de cor o caminho para todas as terras do dono.
Chegado ao cruzamento com a Rua dos Arneiros, se virado para o lado da Ataíja de Baixo e mandado andar, era certo e sabido que só ia parar junto ao terreno que o meu tio aí tinha e a que chamávamos Terra da Ana, junto à Lagoa Cova.
Se, entrado na Rua das Seixeiras, se lhe soltasse a arreata, só pararia na Figueirinha e, assim, sucessivamente.
Mais complicado era levá-lo a Aljubarrota já que, passado o Penedo Furado, o bicho recusava-se a seguir em frente, enfiando-se para o caminho que aí existe, para o lado direito e, por sua vontade só pararia numa fazenda que o dono ali possuía. Só depois dessa manobra se conseguia dar-lhe a volta e continuar, então, para Aljubarrota ou Alcobaça.

Era burro e teimoso mas, tinha uma memória notável!


Glossário:
Pincho s.m. - Cabriola. O coice do burro, dado elevando a garupa, com as duas patas traseiras ao mesmo tempo. 
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segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Pensão


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A segurança Social e o sistema público de pensões de reforma – aliás, actualmente, em crise - são realidades muito recentes.
O primeiro sistema de previdência social da história foi criado na Prússia, na década de 1880, quando era chanceller Otto von Bismark.
Institui-se, de início, em 1883, o seguro de doença para os trabalhadores da indústria, em 1884, o seguro contra acidentes de trabalho e, em 1889, o seguro de invalidez e a reforma por velhice.
A partir daí, os sistemas de segurança social tiveram rápido desenvolvimento por toda a Europa.
Em Portugal as coisas evoluíram mais lentamente e, ainda em 1960, apenas pouco mais de um terço da população activa tinha algum tipo de previdência social, do que estava totalmente afastada toda a população rural.
De facto, o regime salazarista entendia que os riscos sociais, como a velhice ou a doença, deviam ser geridos pelas próprias famílias e, se necessário, pela caridade.
Só com Marcelo Caetano, em 1969, foi criado um sistema de segurança social para as populações rurais (não sem que, antes, tenham havido, no interior do regime, acesas divergências sobre o assunto, como se pode ver, por ex., em Vítor Pereira, “Emigração e Previdência Social em Portugal”, in Análise Social, vol. 64 (192), 2009, 471-510).

Como era então que na, Ataíja de Cima, os mais velhos subsistiam quando a idade ou a doença os impediam de trabalhar e angariar sustento?

A solução comum era a “partilha em vida”, através da qual os pais, velhos e inaptos para o trabalho, dividiam as terras familiares pelos filhos, ficando cada um destes obrigados ao pagamento, anual, de uma pensão em géneros.

Assim aconteceu com os meus avós, falecidos entre 1955 e 1972, nenhum dos quais teve, jamais, qualquer reforma paga pelo Estado.

Não é aqui o lugar para nos alargarmos com considerações sobre os complexos aspectos jurídicos da partilha em vida, nem sobre os seus, não menos complexos, aspectos sócio-culturais. Diremos, apenas que, ao contrário do que é normalmente referido como um dos seus objectivos fundamentais, a partilha em vida tal como a pude ainda observar na Ataíja de Cima, em contexto inteiramente rural, não se destinava a garantir a continuidade da exploração económica familiar.
Ao contrário, a partilha em vida tinha por efeito necessário e irrevogável, o desmembramento daquela exploração e destinava-se a propiciar a constituição de novas explorações agrícolas, centradas nas novas famílias formadas pelos descendentes dos autores.
Para isso, tinha-se em especial atenção a necessidade da divisão equilibrada, de modo que essas novas famílias dispusessem de um conjunto, coerente, de parcelas agrícolas e florestais que a todos permitisse o acesso a um conjunto diversificado de bens indispensáveis à subsistência. Era preciso que, a todos e a cada um, coubessem oliveiras, terra de semear, vinha e matos.

Só assim se conseguia o duplo escopo da partilha em vida: Propiciar a criação de novas explorações agrícolas (uma por cada filho) e, fundamentalmente, assegurar as necessidades de alimentação dos autores, (o que é comum a todas as formas de partilha em vida), suprindo a inexistência de sistemas de segurança social e de pensões de reforma.

Como se vê de uma escritura de venda, de 15 de Novembro de 1910, na qual o doador (na realidade, o autor da partilha em vida – pai de um dos vendedores), interveio para declarar que:

“Declaro eu sobredito Ângelo Coelho, que o prédio vendido conjuntamente com outros foi por mim doado aos vendedores com a obrigação de lhe (me) darem uma certa pensão mas que autoriza esta venda como livre dessa pensão a qual fica garantida com os outros prédios.”

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

As Solas e a Charrua

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O insólito nome de solas (sólas) era dado na Ataíja de Cima (e não só, uma vez que o DPLP [in http://www.priberam.pt] identifica a palavra, com o mesmo significado, como um regionalismo português) a um tronco de madeira, prolongado por uma corrente com um gancho que, funcionando como cabeçalha, ou timão (ou temão) servia à junta das vacas para rebocar as alfaias.

As solas que hoje aqui trazemos pertenceram ao meu tio António Agostinho da Graça, são constituídas por um tronco de cerca de 12 centímetros de diâmetro e um metro de comprimento (32 cm da ponta até ao furo para a chavelha) ao qual se fixa uma forte corrente de ferro terminada no gancho de engate na alfaia agrícola (a charrua, a grade, ou o trilho, às vezes, uma zorra). Tem o comprimento total de 3,07 metros.



A charrua a que aquelas solas serviram para atrelar, é uma charrua Tramagal, de aiveca reversível, inteiramente construída em ferro, do que foi o último modelo que foi corrente na fase final das alfaias agrícolas de tracção animal.

 
 
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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A casa do Couto

Um burguês de Alcobaça proprietário na Ataíja de Cima e, ao correr da pena, uma profissão extinta: O carreiro.


O Couto, um comerciante alcobacense de tecidos, foi um dos muitos burgueses que, durante mais de um século, possuíram as maiores e melhores propriedades da Ataíja de Cima.

Foi dele o olival conhecido por Olival do Couto ou, Olival do Sá que, em meados do Séc.XX, era a única propriedade ataijense com caseiro residente (ainda existem as ruínas da casa, com seus cómodos e, em frente, do outro lado da serventia de acesso, a cisterna). Em parte deste olival encontram-se agora as instalações da empresa Germano & Cordeiro, Lda.

Também foi dele a casa abaixo fotografada, perto da Capela de Nossa Senhora da Graça.

Esta casa, anexa à de Sabino Vigário, foi por este comprada ao Couto e usada como “casa do ofício”, onde o Sabino fazia os seus biscates de sapateiro, nos tempos mortos da sua actividade principal que era a de “carreiro”.

O carreiro era quem, com a sua junta de vacas, fazia todos os trabalhos que hoje são desempenhados pelos tractores e camiões: lavrar e gradar, transportar os produtos agrícolas, o mato e a lenha e todos os materiais de construção.

O carreiro ganhava a jorna correspondente a quatro homens e tinha, ainda, direito a almoço que era, sempre, melhorado: um refogado leve, sobre o qual coziam arroz ou massa de meada, com grão-de-bico ou feijão, acompanhados por um apontamento de bacalhau.

Nos primeiros dias de Setembro, quando o serviço da eira já tinha há muito terminado e as palhas já estavam arrecadadas, ainda era cedo para as lavouras de Inverno e as vindimas locais só teriam lugar lá para o fim do mês, pouco trabalho havia para um carreiro.

Então o Sabino (e o mesmo fazia António Matias) metia-se, a pé, com a sua junta de vacas que rebocava dois carros, cada um com sua tina e, lá ia, dois dias de caminho, até ao Bombarral para fazer o transporte das uvas para as adegas.


Não foi há tanto tempo assim. O filho Arnaldo, pouco mais velho do que eu, aí está, vivo e de boa saúde e bem lembrado dos muitos dias que passou conduzindo aquela junta de vacas.

A casa do Couto

sábado, 25 de junho de 2011

Alqueire

Quanto mede um alqueire?



Alqueire, palavra que vem do árabe, era uma antiga medida portuguesa para sólidos, usada desde o final do Séc. XI ou princípios do Séc. XII. Teve uso legal até meados do Séc. XIX, quando foi adoptado o sistema métrico. Apesar disso, continuou a ser largamente usada durante mais cem anos, sobretudo nas zonas rurais e, na Ataíja de Cima, era até há poucas décadas a única medida corrente para grãos.

Mediam-se em alqueires todos os grãos que a terra dava: trigo, milho, feijão, grão-de-bico, favas, ervilhas, chícharos, cevada e aveia, etc.

Do mesmo modo que com a generalidade das demais medidas antigas e apesar das diversas tentativas, nunca foi possível adoptar um padrão que fosse respeitado por todos, pelo que a capacidade do alqueire variava de região para região.

Até dentro da mesma região, a capacidade do alqueire variava com frequência.

Como se vê de uma escritura de 15 de Janeiro de 1912, celebrada no cartório do notário José da Encarnação Lopes Pelayo, de Alcobaça, pela qual Luis Ribeiro, da Ataíja de Cima, comprou a José Trindade Oliveira e esposa D. Maria do Livramento Sousa e Oliveira, de Alcobaça …
“… o domínio directo de um foro de três alqueires e meio ou quarenta e nove litros de trigo, imposto sobre uma terra de semeadura aos Fiéis de Deus, de que o comprador é enfiteuta, a confrontar de Norte com Genoveva Maria viúva, Sul com Tibúrcio dos Santos, Nascente Constantino dos Santos e Poente com caminho público, que é deles vendedores que a herdaram de sua mãe e sogra D. Maria Amália Trindade Oliveira”.

As contas são fáceis de fazer e conclui-se que, aqui, um alqueire correspondia a 14 litros.

No entanto, trinta e oito anos antes, um outro Luís Ribeiro, pai daquele acima referido, numa escritura celebrada em 25 de Janeiro de 1874, em Alcobaça, no cartório do tabelião Francisco Eliseu Ribeiro, confessou-se devedor a Maria Micaela, dos Casais Canários, Vestiaria, da quantia de quarenta e oito mil réis (48$000), de que ficava a pagar uma retribuição anual de …
“… oito alqueires de trigo, correspondentes a noventa e sete litros e setecentos e tetenta e cinco mililitros”.

Feitas as contas, vê-se que, desta vez, um alqueire correspondia a 12,219375 litros.

Há dias, encontrei um velho meio-alqueire que, por pouco, escapou ao tempo e ao caruncho:


É construído em tábuas de madeira com 15mm de espessura e tem, interiormente, as medidas de 225x225x135mm ou seja, a capacidade de 6,834375 litros, pelo que o correspondente alqueire há-de ser equivalente a 13,668750 litros.


NOTAS:
- A volatilidade das medidas tradicionais, fica aqui bem clara, já que, no curto espaço de cem anos, temos - na mesma localidade -  três capacidades diferentes para o alqueire.
- A equivalência que nestas escrituras se faz, entre alqueires e litros, destina-se a compatibilizar a exigência legal da adopção do sistema métrico com as medidas que, efectivamente, se usavam.
- Da segunda escritura referida extrai-se um outro dado interessante:
Sabendo-se que, naquela época, os juros normais eram de 7%, podemos calcular o preço do trigo:
7% de 48$000 = 3$360 réis = 8 alqueires de trigo, logo, 1 alqueire de trigo = 420 réis.
- O alqueire subdividia-se em meios-alqueires, quartas e oitavas.
- Complemento indispensável do alqueire era a rasoira, pequena régua ou rolo de madeira que se fazia deslizar sobre o bordo da medida, para retirar todo o grão que estivesse acima dele.
- Também se mediam em alqueires as batatas, as nozes e as castanhas. Mas estas não se rasoiravam, sendo, aliás, costume deixar algumas acima do bordo (o cogulo).
- Em algumas regiões - que não na Ataíja de Cima - também os líquidos se mediam em alqueires. Ainda hoje, na região de Tomar, se diz que dez litros de azeite é um alqueire de azeite.
- Repara-se na(s) pega(s) do meio-alqueire fotografado. O posicionamento na vertical, destina-se a facilitar o basculamento para o despejo do grão no recipiente de armazenamento ou transporte.


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terça-feira, 17 de maio de 2011

A Arilhada

Vara ou pá?


Arilhada é palavra que não encontrei nos dicionários que, apenas registam uma palavra muito parecida: aguilhada s.f. Vara com ferrão para instigar os bois.


Neste sentido, quase todas as varas para tocar bois são aguilhadas, já que quase todas têm ferrão e a pá para limpar a charrua há-de ter, noutros locais, um outro nome qualquer mas, na Ataíja, arilhada era uma pequena pá de forma triangular que se usava para, durante a lavoura, limpar a charrua, designadamente no final do rego quando era preciso virar a aiveca. A vara que lhe servia de cabo (a vara da arilhada) era simultaneamente utilizada para tocar as vacas (e, curiosamente, quase nunca tinha ferrão. É que, durante a lavra, a instigação dos animais tem de ser especialmente suave e controlada, já que o que se pretende é um rego bem direito, para que a leiva fique uniforme, garantindo-se, assim, uma correcta lavra do terreno).

A vara da arilhada tinha, assim, de ser suficientemente comprida para ultrapassar todo o comprimento da charrua e chegar aos quartos traseiros dos animais, para os poder tocar (ficando ainda, para trás da mão do lavrador, uma extensão suficiente de vara que, com o peso da arilhada, a pudesse equilibrar). Daí resultava uma vara grande e pesada, cujo manejo (a uma só mão que a outra mão era necessária para segurar a rabiça e, por aí, conduzir a charrua) exigia perícia.



 
 
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domingo, 8 de maio de 2011

A Canga

da junta das vacas


A canga, também chamada jugo, é uma peça de madeira que serve para unir a junta dos bovídeos e, repousando sobre o cachaço dos animais, permite a atrelagem do carro através da cabeçalha, ou da charrua, da grade e do trilho, através do timão (ou temão a que, na Ataíja, chamávamos “as solas”).

A canga, com os seus acessórios, que agora apresentamos, serviu à junta de vacas que trabalhava com o carro referido no post “O carro das vacas” (AQUI), e pode ser vista em pleno trabalho (AQUI).



No caso concreto, trata-se de uma peça com o comprimento de 156 cm e uma secção de forma sensivelmente rectangular (com todos os vértices boleados, sem arestas) e, com dimensões variáveis entre 6x9 cm e 6x15cm, aproximadamente.

Da canga, fazem parte os cangalhos, que são quatro peças de madeira com cerca de 25 cm de comprimento que cingem o pescoço das vacas. Estão cravados obliquamente na canga, os de fora a cerca de dez centímetros do extremo da canga e os de dentro afastados dos primeiros 22 cm, afastamento esse que nas respectivas pontas aumenta para 30 cm.

A amarração da canga às vacas e ao carro ou outras alfaias faz-se através de um conjunto de peças de couro que se podem ver na fotografia e são as seguintes:


Brochas – Par de tiras de couro, às vezes entrançadas, colocadas na parte inferior dos cangalhos, que ligam a canga ao pescoço das vacas, passando-lhe sob a barbela. (a)

Piaças – Par de tiras fortes de couro, com fivela, que ligam as bases dos cornos das vacas à canga. É por aí que os animais fazem a força para puxar o carro ou as alfaias.

Sobrebrocha - Tira forte de couro que, fortemente fixado na canga e passando por um furo horizontal existente na frente da cabeçalha, liga canga e carro em tensão.

Tamboeiro – (Tamoeiro). Peça de couro forte com as pontas cozidas uma à outra, formando um círculo e que, dobrada, ocupa o centro da canga onde encaixa em ranhuras apropriadas, deixando abaixo dela uma abertura por onde entra a cabeçalha que, travada pela chavelha, aí fica em suspensão.


 
(a) Num sentido completamente diferente, também se chamavam brochas às cardas (pregos curtos de cabeça larga e arredondada) que se pregavam nas solas de botas e sapatos e, também, dos tamancos de madeira, para impedir o desgaste pelo uso.
 
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terça-feira, 19 de abril de 2011

O carro das vacas

Antes dos tractores


Possuir uma junta de bovinos implicava já, na Ataíja da minha infância, algum poder económico.
A maioria, ficava-se por um burro.

Juntas de bois havia apenas uma, a de José Ribeiro que era, então e a par com a sua prima Luísa Ribeiro, o maior proprietário da aldeia. Havia, depois, uma meia dúzia de juntas de vacas: a de Luísa Ribeiro e a de Francisco Dionísio que também tinham abegões permanentes e trabalhavam, em exclusivo, para a “casa”. Sabino Vigário era “carreiro” profissional. Com as suas vacas trabalhava “para fora”, fazendo os transportes e lavrando, a troco de uma jorna equivalente à de quatro homens, com direito, ainda, a almoço.

Tinham, ainda, juntas de vacas, António Matias, António do Casal, José Lourenço, Joaquim D’Avó, José Dionísio e mais uns quantos. Trabalhavam, essencialmente nos terrenos próprios e alguns deles faziam, ocasionalmente, serviços para terceiros.

Havia, depois, um pequeno grupo que, quase sempre, tinha bezerras. Compravam os animais muito jovens e ensinavam-nos a trabalhar vendendo-os de seguida.

O meu tio António Agostinho da Graça, possuía uma junta de vacas jovens e um carro que actualmente ainda existe mas se encontra muito deteriorado. Trata-se de um carro moderno, de eixo de ferro e rodas "doidas", já muito diferente dos tradicionais carros de eixo rígido, de madeira. (ver este carro, em 1976, fazendo o transporte de trigo da seara para a eira, Aqui).

Desse carro fizemos o desenho seguinte:

Legenda: a) chavelha, b) comando do travão, c) cabeçalha, d) moço, e) descanso do moço, f) fueiro, g) leito do carro, h) roda, i) dormente, j) torno, k) chazeiro, l) travão, m) cubo da roda, n) raio, o) travessa

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domingo, 8 de novembro de 2009

O Trigo

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Nos anos setenta do Séc. XX ainda se cultivava trigo na Ataíja de Cima e era corrente o uso de tracção animal.
A eira do trigo era no terreno chamado "quintal da Rosalía", na Rua das Covas onde, anualmente, se instalava a debulhadora do Leonídio (ou debulhadeira, como também se dizia por cá) .
As fotografias seguintes foram tiradas, por mim, em data que não posso precisar, no verão de 1976.
A consertar a carrada está o Joaquim da Pequena e, a dar os molhos, o António Matias, vislumbrando-se, atrás deste, António Agostinho da Graça, meu tio, já falecido e que era pai do Joaquim e sogro do António e proprietário do trigo e das vacas (e do carro, está claro!).
A terceira fotografia é já na eira, no quintal da Rosalia. A debulhadora e a enfardadeira (que lhe estava acopulada e se não vê na fotografia) eram movidas pelo tractor que se vê em primeiro plano.
Sobre a debulhadora vêem-se dois homens: um recebe os molhos do trigo e corta o atilho, o outro introduz o cereal por um alcapão para ser debulhado (era chamado o aumentador).
Em baixo, sob a correia que liga o tractor à debulhadora vê-se um outro homem que está a receber os grãos de trigo já debulhados para sacos de sarapilheira (era o saqueiro). Este era o chefe da eira, o que comandava todas  as operações, pesava o trigo debulhado e cobrava as maquias.
Há, na cena, mais três homens: dois carregam, à forquilha, os molhos do trigo para cima da debulhadora, o terceiro, sobre a meda (a amoreia, dizíamos nós), coloca os molhos (dizía-se os feixes) a jeito de serem espetados pela forquilha.
O trabalho na eira envolvia mais gente. Às vezes a meda ficava relativamente longe e, aí, toda a gente era pouca para chegar os molhos para junto da debulhadora. Havia, ainda, para a enfardadeira, pelo menos mais cinco pessoas: O rapaz que preparava os arames de fardo, o aumentador que, munido de uma forquilha, empurrava a palha, vinda da debulhadora, para dentro da prensa, dois homens, um de cada lado, para colocar os arames no fardo, um outro para os retirar da enfardadeira e os carregar até local próximo, onde os empilhava para serem, posteriormente, recolhidos pelo proprietário.