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terça-feira, 30 de março de 2021

Um “marroquino” no Carrascal

 


No livro dos casamentos da freguesia de N. S. dos Prazeres de Aljubarrota surge-nos, em 21 de setembro de 1790, o casamento de António de Melo enjeitado do Hospital Real da Cidade de Marzagam.

Ora, Marzagam, Marzagão, há, pelo menos, três:

A freguesia de Marzagão, em Carrazeda de Ansiães;

Um município no Estado de Goiás, no Brasil, fundado no Século XX e actualmente com cerca de 2.500 habitantes;

Um distrito, no município de Rosário Oeste, no Estado do Mato Grosso, no Brasil, igualmente fundado no Século XX e actualmente com cerca de 1.400 habitantes;

Nenhuma destas teve alguma vez um Hospital Real pelo que não era a nenhuma delas que o padre se referia.

Mazagão é nome parecido, mas há também diversas. Vejamos:

Mazagão (Mazagaon), no século XVI uma ilha e hoje uma área da cidade de Bombaim, (Mumbai) na União Indiana, cujo nome alguns atribuem a colonos portugueses do século XVI. Também não foi esta a localidade em que o António de Melo foi enjeitado, desde logo porque Bombaim já não estava na posse dos portugueses desde 1661, quando passou ao domínio inglês incluída no dote de D. Catarina de Bragança que então casou com o rei de Inglaterra, Carlos II.

Mazagão, inicialmente chamada Nova Mazagão, hoje uma pequena povoação chamada Mazagão Velho[i] a trinta quilómetros da Mazagão Nova, actual sede do município, tudo na margem do Rio Amazonas, no Estado do Amapá, Brasil, foi fundada em 1770 por determinação do Marquês de Pombal que para aí quis forçar a emigração de todos os portugueses retirados da praça marroquina de Mazagão na sequência do abandono desta nos termos do Tratado de Paz celebrado com o Sultão de Marrocos.

Mazagão, hoje El Jadida, em Marrocos, foi uma praça militar na orla costeira atlântica, uma das mais importantes cidades fortificadas que os portugueses ali detiveram. Foi ocupada entre 1486 e 1769, tendo sido a última do norte de África a ser abandonada, depois de Ceuta perdida para Espanha na sequência da Guerra da Restauração, e de Tânger que, tal como Bombaim, passou para Inglaterra como parte do dote de D. Catarina de Bragança. [ii], [iii]

Tudo visto, o nosso António Mello, enjeitado do Hospital Real da Cidade de Marzagam, que em 21 de Setembro de 1791 casou em N. S. dos Prazeres de Aljubarrota com Teodora Machado, com quem foi morar na aldeia do Carrascal, só pode ter sido enjeitado na cidade marroquina de Mazagão, nos últimos anos da sua ocupação portuguesa.

Sendo de admitir que o António Mello teria na data do seu casamento uma idade próxima aos 30 anos (o que, talvez, o assento do seu óbito poderá melhor precisar) significa isso que terá nascido cerca de 1760 e era uma criança quando Mazagão foi abandonada pelos portugueses.

Mazagão era, ao tempo do provável nascimento do António Mello, uma cidade sitiada, alvo de frequentes ataques e cercos, tendo o mar como única porta de saída e dependendo da metrópole portuguesa como fonte de abastecimentos. Lá residiam, todos com as suas famílias, os militares, os burocratas, os comerciantes, os artesãos e os seus criados e escravos, perfazendo menos de duas mil pessoas.

O que terá levado ao seu enjeitamento?

Quem seriam os seus pais? Era filho de portugueses? De português(a) e escravo(a)? De português(a) e mouro(a)? O seu aspecto físico denunciava a sua progenitura?

Como chegou ao Carrascal?

Terá vindo bébé de Mazagão para Portugal e aqui sido dado a criar a uma ama, como acontecia aos enjeitados do Real Hospital de Lisboa, ou terá vindo com os demais portugueses que em 1769 aqui fizeram escala antes de serem reencaminhados para o Brasil onde, aliás, chegou apenas cerca de metade, umas 340 famílias, tendo os outros logrado ficar em Portugal?

 

A cidadela de Mazagão em meados do Séc. XVIII

 



[i] Quando andava em busca de elementos que me permitissem deslindar o local de enjeitamento do António de Mello encontrei um interessantíssimo relatório de trabalhos arqueológicos intitulado Uma Vila Pombalina na Amazônia - Mazagão Velho Em Uma Perspectiva Arqueológica, de Marcos Albuquerque e Veleda Lucena, Editora CRV, Curitiba, Brasil, 2020, que não só dá um amplo relato da fundação e vicissitudes da Mazagão amazónica, como constitui um límpido roteiro dos trabalhos arqueológicos ali realizados.

[ii] É extensa a bibliografia sobre a presença portuguesa em Marrocos muita dela acessível gratuitamente na internet mas, por toda, recomendo Os Portugueses em Marrocos, de António Dias Farinha, Edição Instituto Camões, Lisboa, 1999.

[iii] As fortificações portuguesas de Mazagão fazem parte, desde 2004, da lista do Património da humanidade da UNESCO.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Casamentos na Ataíja de Cima, na década de 1870 a 1879





Na década de 1870 a 1879, realizaram-se na Ataíja de Cima 15 casamentos.

Todos os noivos eram solteiros, com idade média de 32,4 anos, sendo que o mais novo tinha 22 e o mais velho 55 anos.
Das noivas, por sua vez, 12 eram solteiras e 3 (20% do total) viúvas, com idades compreendidas entre os 20 e os 48 anos, o que dá a média de 31,9 anos. Se considerarmos apenas as solteiras, a idade média desce para os 29,2 anos.
E, com isto se desfaz a idéia de que "antigamente" as pessoas casavam mais cedo.

Em um terço dos casos (5 casamentos) a noiva era mais velha do que o noivo (respectivamente, 7, 3, 11, 5 e 4 anos).
E, com isto se desfaz mais uma ideia feita: a de que a mulher tem de ser, sempre, mais nova que o marido.





O casal mais velho era constituído por António de Moura, de 55 anos, solteiro, e Maria dos Santos, de 44, exposta de Lisboa, viúva de Ângelo da Silva, falecido há, exactamente, um ano e uma semana.
Hoje em dia seria, talvez, objecto de fortes críticas a viúva (ou o viúvo) que voltasse a casar apenas um ano e uma semana depois do falecimento do primeiro cônjuge. Mas, quando estudamos factos acontecidos há tanto tempo (138 anos), é importante perceber que, naquela época, numa pequena aldeia rural, e sem apoios familiares (recorde-se que a Maria dos Santos era enjeitada e, assim, não tinha pai, mãe ou irmãos de sangue que, eventualmente, a pudessem auxiliar), era praticamente impossível a sobrevivência de uma mulher viúva, com filhos menores (Maria dos Santos era mãe de 4 filhos: Joaquim, de 21 anos, Luisa, de 19 e Cristina, de 13 e, ainda de Matias Ângelo, nascido a 20 de Novembro de 1859 e que viria a ser, no início do Séc. XX, o homem mais rico da Ataíja de Cima ).

O segundo casal mais velho, era constituído por Matias Coelho e Maria Felizarda, ambos solteiros, ele de 50 e ela de 44 anos de idade.

No acto do casamento, o Matias Coelho reconheceu a paternidade do filho Joaquim, então com dez anos de idade.
O que terá levado um homem de quase quarenta anos a conceber um filho numa mulher de quase trinta e quatro e, quando ambos estavam em boa idade de casar, a não casar nem reconhecer o filho, mantendo-se, durante dez anos a vê-lo crescer sem poder, ou querer, dar-lhe os carinhos e os ensinamentos de pai, enquanto era, certamente, objecto de falatórios de toda a aldeia, que havia de ser sabedora da progenitura e, só depois de tantos anos, finalmente, assumir a paternidade e o casamento?
Estas são perguntas cujas respostas só muito dificilmente viremos a conhecer. Mas, formulá-las serve para recordar que a vida é mais complexa do que, às vezes, parece.
Estes Matias Coelho e Maria Felizarda vieram a ser avós de António, Manuel e Joaquim Matias e, portanto, ascendentes de uma numerosa prole que constitue, hoje em dia, uma das grandes famílias da Ataíja de Cima e, esse, é o fim feliz da história do casal.


Nota: Este texto foi, originalmente, publicado neste Blog em 29-01-2014

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Dionísia dos Santos



Conforme o Livro de Matrícula de expostos Fêmeas, do ano de 1863 (Lvº 91, fl. 363, nº 494) que se conserva no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, deu entrada no Hospital dos Expostos de Lisboa em 2 de Dezembro de 1863 e foi baptizada nesse mesmo dia (Lvº Baptismos do anno de 1863, fl. 404, nº 2420), uma criança do sexo feminino a que foi posto o nome de Dionyzia ou Dionisia

No dia seguinte, 3 de Dezembro de 1863, foi a dita menor entregue a Joaquina Coelha, solteira, moradora no Andaínho, freguesia de São Miguel do Juncal, concelho de Porto de Moz, recebendo pelo encargo a quantia de 1$600 (mil e seiscentos réis) mensais, durante 12 meses, no total de 19$200 (dezanove mil e duzentos réis). Recebeu, ainda, para as despesas da jornada, a quantia de 2$000, tudo somando 21$200.

Um ano depois, foi acordado entre o Hospital dos Expostos de Lisboa e a Joaquina Coelho que esta continuasse a criar a Dyonizia por mais 24 meses, a contar do dia 3 de Dezembro de 1864, recebendo, agora, a quantia de 1$000 por mês, seja, o total de 24$000.

Por razões que os livros consultados não esclarecem este contrato não foi executado na sua totalidade tendo a Dionísia sido entregue, em 6 de Abril de 1866, a Joaquina Bárbara, casada com José Coelho, carpinteiro, moradores no logar de Ataíja de Cima, Freguesia de São Vicente de Aljubarrota, concelho de Alcobaça. O contrato então celebrado estipulava que a Joaquina Bárbara receberia pelo encargo a quantia mensal de $800 réis, pelo período de 8 meses quer dizer, até Dezembro desse ano, até ao tempo que seria o do fim normal do contrato celebrado com a Joaquina Coelha.

O contrato cumpriu-se efectivamente nos termos acordados e por ele recebeu a Joaquina Bárbara a quantia de 6$400 e celebrou-se novo contrato, agora pelo valor mensal de $500 e pelo período de 48 meses, contados a partir de 19 de Novembro de 1866, somando o total de 24$000, a que se seguiu novo contrato, pelo período de três anos que terminaram em 18 de Novembro de 1873.
Neste último período a Joaquina Bárbara foi remunerada à razão de $300 mensais, no total, portanto, de 10$800

Quinze dias depois, em 02 de Dezembro de 1873, a Dionisia completou dez anos de idade e, portanto e de acordo com as regras vigentes nesse tempo, cessaram os pagamentos feitos à ama.

Ou seja, naquele tempo, uma criança de dez anos havia de ser capaz de se sustentar a si própria. Porque assim era, este era um momento muitas vezes dramático na vida dos enjeitados: se calhavam estar ao cuidado de alguém que procurava apenas o rendimento dos pagamentos pela criação ou se, por qualquer outra razão não tinha logrado integrar-se na família da ama a criança era entregue ao cuidado de outra pessoa que a quisesse e muitos, aproveitavam a circunstância e fugiam.

Felizmente, neste caso como na generalidade dos casos que estudei de crianças enjeitadas criadas na Ataíja de Cima, o que se passou foi uma total integração da criança na família de acolhimento de tal modo que, a Dionísia foi entregue (sem remuneração, recorde-se), à mesma Joaquina Bárbara pelo tempo de oito anos

O respectivo Termo consta dos chamados Livros de Vestir (Lvº 1 V, fl 115v) e está escrito em letra pré-impressa e completado em cursivo bem legível, pelo que aqui o reproduzimos deixando ao leitor mais curioso o encargo de o ler com cuidado, que bem o merece, por estes autos serem clara explicação de um certo entendimento do mundo e das coisas.

Cópia do Termo de Vestir de Dionísia, gentilmente cedida pelo
 Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa


O processo da Dionísia contém, ainda, um despacho interessante por esclarecer o procedimento em caso de doença do menor:

Por despacho da Exma Mesa de 12 de Janeiro de 1874 foi concedida a gratificação mensal de 1$200 enquanto mostrar por atestado do facultativo que a exposta continua no mesmo estado de doença, sendo a contar desta data.
a)      Caldeira
Sem efeito mas sim o que se acha a fls. 366

Fls. 366:
Por despacho de 12 de Janeiro de 1874 foi concedida a gratificação mensal de 1$200 enquanto continuar no mesmo estado de doença.
a)      Caldeira
1874 Maio 19 Pago três mil cento e vinte réis


Depois disto, só voltamos a ter notícias da Dionísia quando ela já era, inequivocamente, uma ataijense como as demais. É o que prova o facto de, em 2-4-1880, ter nascido na Ataíja de Cima uma criança a que foi posto o nome de Dionísia, filha de Manuel Joaquim e Maria Custódia.
Foi madrinha Dionísia dos Santos, solteira (a criança veio a falecer em 15-4-1885)

A FAMÍLIA

Em 9 de Agosto de 1885 nasceu uma criança a que foi posto o nome de Maria, filha de pai incógnito e de Dionísia de Jesus, solteira, doméstica, exposta da SCML.
Em 16 de Agosto de 1888 casaram-me Manuel da Silva Vigário, de 24 anos de idade, filho de José Vigário e de Ana Lourenço e Dionísia dos Santos, solteira, de 24 anos de idade, exposta SCML.
No acto do casamento, o nubente reconheceu uma filha comum, Maria, nascida em 15.4.1885.
Em 15 de Fevereiro de 1891 nasceu uma criança a que foi posto o nome de Francisco, filho legítimo de Manuel da Silva Vigário e de Dionísia dos Santos, ela exposta da SCML
Em 20 de Dezembro de 1892 nasceu uma criança a que foi posto o nome de Ana, filha legítima de Manuel da Silva Vigário e de Dionísia dos Santos, ela exposta da SCML
Em 15 de Abril de 1899 nasceu uma criança a que foi posto o nome de José, filho legítimo de Manuel da Silva Vigário e de Dionísia dos Santos, ela exposta da SCML

Destas crianças apenas não sabemos o destino do José que presumimos tenha falecido jovem.

A Ana que todos conheciam por Ana Denísia, casou-se na Ataíja com Luís Dias que também usava Luís Dias Vigário, foi conhecido por Luís Barra e era, certamente, seu parente pelo lado paterno.
O Luís Dias foi um dos ataijenses que integrou o Corpo Expedicionário Português que nos campos do Noroeste de França participou na 1ª Guerra Mundial de onde, diziam, tinha vindo gaseado.
Conheci-os bem a ambos.
Moravam numa casa na Rua dos Arneiros que tem anexa uma original cisterna e, entretanto, perdeu o patim que a protegia do movimento da rua, foi transformada em oficina e, depois de anos ao abandono, iniciou no passado inverno um processo de derrocada irreversível.

Também conheci o irmão Francisco, a quem chamávamos Francisco Denísio e casou com Joaquina Lourenço, instalando-se na mesma Rua dos Arneiros em casa que ainda existe, embora transformada e há vários anos sem função, salvo o que eram, no meu tempo de miúdo, a eira e o curral das vacas, agora transformados no Café-Concerto a Casa do Maltês.

Da Maria Dionízio sabemos, graças a um leitor deste blog, o seu neto materno Sr. José Almeida, que casou e foi viver para a Boieira.
Anos depois, um seu filho, que foi conhecido por Manuel Lérias, regressou à origem, casando na Ataíja de Cima com Joaquina Machado.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Bernardino dos Santos




No Livro n.º 53, de Matrícula de Expostos Varões, do ano de 1857[i], a fl. 313, consta a matrícula n.º 1192, de uma criança do sexo masculino, entrada e baptizada (Lvº 137 dos Baptismos, fl. 309, nº 1067) nesse dia 28 de Maio de 1857 e a quem foi posto o nome de Bernardino.

No dia seguinte, 29 de Maio de 1857, foi a criança entregue à ama-de-leite Miquelina Augusta, moradora na Rua do Vale de Santo António, nº 154, freguesia de Santa Engrácia (actualmente freguesia de S. Vicente de Fora), em Lisboa[ii].

De acordo com as regras em vigor naquele tempo, a ama foi contratada por doze meses para a criação e amamentação do exposto, pagando-lhe o Hospital dos Expostos de Lisboa (que, era como que uma divisão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) a quantia mensal de 1$600 (mil e seiscentos réis) e total de 19$200.
Como normalmente acontecia, esse contrato foi renovado uma e duas vezes, para que a mesma ama continuasse a criação do exposto, agora alimentado a seco, sendo a primeira renovação por 12 meses de seco a 1$100, a contar de 29 de Maio de 1858, valor total – 13$200 e a segunda por 12 meses de seco a $900, a contar de 29 de Maio de 1859, valor total – 10$800.
E, temos a criança chegada à idade de três anos.
Era a altura de, reavaliadas as condições da ama e da criança, contratar a sua criação até à idade de sete anos. Dependendo dos resultados da avaliação da situação da ama e da criança, este contrato podia ser feito com a mesma ou outra ama.
No caso, ter-se-á concluído que a criança estava de boa saúde e bem tratada e que a ama Miquelina Augusta tinha todas as condições indispensáveis para continuar com a responsabilidade da criação. Fez-se, assim, o contrato: 48 meses de seco a $500, a contar de 29 de Maio de 1860, total  – 24$000

No entanto, passado pouco tempo, menos de nove meses, algo aconteceu com a ama que levou a que a criança fosse, em 25 de Fevereiro de 1861, entregue a Carlota Júlia da Silva, solteira[iii], moradora na Rua das Freiras, nº 8, loja, freguesia de Santa Maria de Belém[iv].
39 meses[v] de seco a $500 – 19$500

Também esta ama não pode ou não quis cumprir o acordo e, menos de três meses depois, em 6 de Maio de 1861, o Bernardino foi forçado a mudar de casa, sendo entregue a Maria da Paixão, casada com José Francisco Marques, moradores na Calçadinha do Tijolo, nº 48, Freguesia de São Vicente (de Fora), ali às Escolas Gerais, bem no coração da velha Lisboa, entre a Graça e Alfama e S. Vicente de Fora e as Portas do Sol.
Aí devia ter ficado pelos 37 meses que lhe faltavam para atingir os sete anos de idade.

Mais uma vez o Bernardino não tinha, ainda, encontrado o seu poiso e, 13 meses depois, em 18 de Junho de 1862, estava a ser entregue a Joaquina Coelho, casada com José Machado, lavrador, “moradores no logar de Atouguia de Cima (sic), freguesia de São Vicente de Aljubarrota”…

Finalmente, aos cinco anos de idade, o Bernardino tinha chegado a casa.

Cino anos depois, em 7 de Maio de 1867, quando o Bernardino atinge a idade de dez anos, é celebrado o último termo de entrega, o chamado “Termo de Vestir”[vi]. A entrega é feita à mesma Joaquina Coelho, casada com José Machado, lavrador, residente no lugar de Ataíja de Cima, freguesia de S. Vicente de Aljubarrota, concelho de Alcobaça[vii].

Termo de Vestir de Bernardino dos Santos
(foto gentimente cedida pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa)


Agora já não se trata da entrega da criança a uma ama que, contra pagamento, se encarrega de o alimentar, cuidar e vestir.
Supõe-se que a criança, aos dez anos de idade, já é capaz de produzir trabalho que vale a sua alimentação, educação e o vestir. Por isso, o hospital dos Expostos, embora continue a vigiar o seu desenvolvimento, já não pagará mais.
O jovem (hoje diríamos, a criança) trabalhará para a família de acolhimento que, em contrapartida, deve  “… tratal-o como seu próprio filho, educando-o e instruindo-o quanto lhe for possível … fazêl-o cumprir todos os deveres da nossa religião … procurar ou ensinar-lhe uma profissão …”[viii]


Em 27 de Novembro de 1889 Bernardino dos Santos, solteiro, criado de servir, exposto da SCML, de 32 anos de idade, casou-se com Francisca Branca, solteira, doméstica, de 25 anos de idade, filha de António Dias e Mariana Branca, todos naturais da Ataíja de Cima.



[i] Conservado no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
[ii] A Rua do Vale de Santo António desce, por um vale, da Rua dos Sapadores, à Graça, para o Rio, na zona de Santa Apolónia e deve o seu nome à Capela do Vale de Santo António, ou Ermida de Santo António do Vale, ali existente, construída na 2ª metade do século XVIII, no local onde, segundo a tradição, descansou Santo António quando se dirigia ao Tejo, vindo do Convento de São Vicente de Fora, para embarcar para o Norte de África.
O interior da capela é decorado com valiosos azulejos que narram milagres de Santo António e cenas da vida de Nossa Senhora. (v. http://www.cm-lisboa.pt/en/equipments/equipment/info/capela-do-vale-de-santo-antonio, consultado em 17-04-2015)
[iii] As amas de seco podiam ser casadas, solteiras ou viúvas ou, até, homens. (ver o que a propósito escrevemos em “Amas de Expostos” http://ataijadecima.blogspot.pt/2013/04/amas-de-expostos.html
[iv] A rua não existe actualmente, ao menos com aquele nome.
[v] Ou seja, para completar p tempo que faltava até aos sete anos, idade em que
[vi] No final deste texto reproduzimos o Termo de Vestir do Bernardino. Vale a pena clicar sobre a imagem para a ampliar e ler, com atenção, todo o seu texto.
[vii] Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lvº 25 de Vestir, fl. 227, Lvº 42 reforma, fl. 227
[viii] No final deste texto reproduzimos o Termo de Vestir do Bernardino. Vale a pena clicar sobre a imagem para a ampliar e ler, com atenção, todo o seu texto.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Enjeitados - nomes de baptismo - critérios de atribuição


Em meados do Séc. XIX entravam, por ano, mais de 2000 crianças no hospital dos Expostos de Lisboa (foram 2373 em 1852) pelo que, o nome que se deveria atribuir a cada uma no baptismo a que imediatamente se procedia[i], havia de obedecer a alguns critérios.

Um desses critérios vê-se claramente nos próprios registos de baptismo onde, geralmente, consta a indicação de o nome ser “nome da Casa” quer dizer, atribuído por decisão dos baptizantes ou, “nome do escrito” quer dizer, ser o que constava de algum papel que acompanhasse a criança com o pedido de se lhe atribuir esse nome[ii].
Quando havia um papel com indicação do nome a atribuir à criança, essa vontade era, em regra, aceite. Por vezes atribuía-se à criança nome diferente do “nome do escrito”. Nos assentos não se registavam as razões mas, talvez o nome proposto não fosse considerado suficientemente cristão, já que o nome de substituição, esse, é sempre o nome de um santo.

Foi o caso de um menino entrado em 2 de Novembro de 1852, acompanhado de um papel onde se pedia que fosse baptizado com o nome de Leónidas Tubarão[iii], mas foi baptizado com o nome de Malaquias.

Ora, este facto, de uma criança entrada em um dia 2 de Novembro ter sido baptizada com o nome de Malaquias conduz-nos àquele que seria o principal critério de nominação dos expostos: o Santo do dia.

Malaquias foi o último dos profetas menores do Antigo Testamento, tendo escrito, cerca de 430 a.C., o chamado Livro de Malaquias.
O seu nome foi atribuído cerca de 1400 anos depois, a uma criança irlandesa que a história reteve sob o nome de São Malaquias, canonizado em 1199, pelo Papa Clemente III, quando tinham passado 51 anos sobre a sua morte, ocorrida em 2 de Novembro de 1148, no mosteiro de Clairvaux (Claraval), onde era abade São Bernardo.

Em 26 de Janeiro de 1852, entraram no H.E.L. um total de nove crianças das quais cinco traziam papéis com a indicação do nome que se pretendia lhe fosse atribuído, o que, em todos os casos, foi respeitado:
Elvira, Maria Joaquina, Maria, Daniel Bonifácio Fernandes, João.

As restantes quatro crianças foram baptizadas com os nomes de, respectivamente:
Paula, Policarpo, Cristiano e Alexandrino.

Santa Paula, padroeira das viúvas, diz a Wikipédia, é uma santa cristã venerada pelas igrejas Católica e Ortodoxa, nascida em Itália em 5 de maio de 347 e falecida em Belém, onde se encontra sepultada na Basílica da Natividade, no ano de 404. Na Igreja Católica tem a sua festa litúrgica no dia 26 de Janeiro.

Actualmente, a Igreja Católica comemora neste dia São Timóteo e São Tito mas, “antigamente”, São Policarpo[iv] era celebrado a 26 de Janeiro[v].

Cristiano, é nome que não carece de justificação. É palavra de origem latina que significa, literalmente, cristão.

Alexandrino é um diminuitivo de Alexandre, nome antigo que, segundo o dicionário de nomes próprios[vi], significará protector do homem ou, defensor da humanidade. O mais célebre dos Alexandres foi Alexandre o Grande, rei da Macedónia. Na juventude teve por perceptor o grande filósofo Aristóteles. Foi o maior conquistador da Antiguidade e, apesar da sua curta vida e governo[vii], criou um Império que se estendeu desde os Balcãs e o Egipto até às portas da India e ao Uzbequistão. Após a sua morte, o Império desmembrou-se dividido entre os seus generais.
Santos e Beatos com o nome de Alexandre contam-se mais de vinte, além de algumas Alexandras e, pelo menos, uma Alexandrina, esta, portuguesa do Séc. XX, beatificada pelo Papa João Paulo II. No entanto, nenhum destes santos e beatos tem a sua festa litúrgica no dia 26 de Janeiro.

Cerca de seis meses depois dos acima referidos, em 2 de Julho de 1852, entraram no Hospital dos Expostos de Lisboa, seis crianças:
Rachel Lia da Conceição, António Martins, Rita e Joaquim Pedro Pereira, assim baptizados de acordo com os nomes que constavam dos escritos que os acompanhavam.
Todas estas quatro crianças vieram a falecer. O António e o Joaquim, respectivamente, logo em 4 e em 31 de Agosto seguintes, a Rita em 19 de Abril de 1853 e a Rachel em 30 de Outubro de 1856.
Era esta, também, infelizmente, a crua realidade do acolhimento de crianças abandonadas: uma grande ou a maior parte delas, não sobrevivia.
As outras duas crianças, foram baptizadas com “nome da casa”:
Um Manuel, também não sobreviveu para além do dia 11 de Setembro seguinte.

Ao outro, o único dos seis que resistiu, cresceu e fez-se homem, casou e deu origem a uma extensa prol de que conheço bem a maioria dos membros e muitos fazem o favor de ser meus amigos, a esse, foi dado o nome de Constantino.

Santos e Beatos com o nome de Constantino, contei cinco[viii].
Um São Constantino, viveu no Séc. VI, foi rei da Cornualha e martirizado na Escócia.
Um outro terá sido um nobre georgiano do Séc. IX, mártir do qual se sabe muito pouco.
Os beatos Constantino Carbonell, jesuíta, e Constantino Fernandez Alvarez, dominicano, ambos espanhóis e mortos em 1936 durante a guerra civil não podem, por isso, ter inspirado o baptismo do nosso Constantino.
São Constantino de Gap (França), Bispo que viveu no Séc. V.
O mais célebre dos Constantinos, o Imperador Romano, não chega a ser santo mas foi, no ano de 313, co-autor do Édito de Milão que tornou o Imperio religiosamente neutro com o que, consequentemente, acabaram as perseguições aos cristãos. É controversa a sua religiosidade cristã, pelo que apenas foi reconhecido como santo pela Igreja Ortodoxa.
Transferiu a capital do Império de Roma para Bizâncio que mais tarde foi, em sua honra, designada Constantinopla e é a actual Istambul, durante séculos a maior e mais rica cidade da Europa e que, hoje em dia, continua a ser uma das maiores e mais fascinantes cidades do mundo.

Etimologicamente, Constantino significa constante, firme, perseverante. Tudo qualidades muito úteis a um exposto e, certamente, as tinha o Constantino que aqui nos trouxe e de cuja “história” já falamos em três posts recentes (ver AQUI, AQUI e AQUI).


Os padrões de nomes de expostos que se apreendem numa vista de olhos pelos Livros de Baptismos existentes no Arquivo histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa não são diferentes dos casos que agora vimos.
Assim, os critérios de atribuição de nomes de baptismo às crianças entradas no Hospital dos Expostos, parecem ser os seguintes:
Em primeiro lugar, respeitava-se a vontade do abandonante, presumível progenitor, atribuindo-se à criança o nome proposto em algum escrito que o acompanhasse.
Essa vontade não era respeitada em alguns casos, aparentemente por o nome proposto não ser “suficientemente” cristão.
Nos casos em que a criança não era acompanhada de sugestão de nome, o “nome da casa” preferido era o do “santo do dia”.
Nos casos em que, nesse dia, se comemorava mais de um santo, a tarefa ficava facilitada. Ao invés, em dias de grande afluência de expostos, a útil diversidade de nomes exigia o recurso a outros “nomes cristãos”. Não é possível, no âmbito deste curto texto e relativamente a estes últimos nomes, vislumbrar critérios ou encontrar padrões de escolha, se é que existem.



Sinal de exposto - Os expostos da roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Catálogo da exposição - 503º aniversário da SCML, 2001





[i] Em raríssimos casos, a criança chegava acompanhada de um escrito onde se dizia que já era baptizada, indicando-se o nome e, por vezes o local e, ou, a data do baptismo.
[ii] Muitas crianças eram expostas acompanhadas de “sinais”, escritos e, ou, objectos (fitas ou outras pequenas peças de tecido, medalhas ou estampas de santos etc.) os quais se destinavam a permitir a identificação da criança em caso de os pais se apresentarem a reclamá-la.
[iii] Leónidas foi um rei e herói grego, (espartano) que, acompanhado de 300 homens da sua guarda pessoal, lutou até à morte contra Xerxes o rei persa e o seu exército na batalha de Termópilas.
[iv] São Policarpo, Bispo de Esmirna (actual Izmir, na Turquia) é um dos santos e mártires da Igreja primitiva, tendo sido discípulo do Apóstolo João.
[vii] Viveu 32 anos, entre 356 e 323 A.C. e reinou durante 12 anos.

Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a Patriarca de uma família ataíjense - III


Atendendo às idades que lhe são atribuídas nos assentos dos seus dois casamentos, como já vimos antes, (VER AQUI e AQUI) o Constantino terá nascido em 1852 ou 1853. Ora, nesses dois anos entraram mais de 4.000 crianças na SCML (2373 em 1852) das quais 8, pelo menos, foram baptizadas com o nome de Constantino (houve, ainda, uma Constantina e um João Constantino).
Destes 8 Constantinos, 5 faleceram, o mais novo aos 15 dias de vida e o mais velho antes de atingir os dezanove meses de idade.
Dos três restantes, um, entrado na SCML em 25-04-1852 (Lº 26 Matrículas, Varões, fls. 253. Nº 999), foi entregue a uma ama moradora na Tourinha, freguesia de Nossa Senhora do Desterro dos Pousos, concelho de Leiria e aí se manteve até depois dos dez anos, tendo o Termo de Vestir sido celebrado com a mesma ama (Lº 20 de Vestir, fls. 24v.).
Outro, entrado na SCML em 18-09-1853, foi entregue a uma ama moradora no Furadouro, freguesia de São Pedro de Dois Portos, Concelho da Ribaldeira[i] e aí ficou até, pelo menos, os dez anos de idade (Lº Matrículas n.º 33, Varões, fls 461, nº 755).

O terceiro e último dos três Constantinos sobreviventes, entrou no Hospital dos Expostos de Lisboa em 2 de Julho de 1852 e foi baptizado nesse dia com o nome de Constantino, nome da Casa[ii]:

“No dia dois de Julho de mil oito centos cincoenta e dois anos às duas e meia horas da tarde entrou pela Roda para esta Real Casa dos Expostos um Menino com os signais seguintes, camiza e fralda d’algodão, coeiro de baetilha branca, vistido de chita azul, volvedouro(?)  de pano cru, na cabeça meio lensso de/ branco com pintas encarnadas, tudo uzado. Foi solenemente baptizado com o nome de Constantino por mim abaixo assignado; padrinho João Victor Caldas; Ana Candida de Jesus; e para constar fis este assento.
O Pe João Rafael Nunes”
(Lº 130 dos Baptismos, fls. 317v., nº 1226).

No dia 19 seguinte, foi o Constantino entregue à ama-de-leite Maria Joaquina, casada com José Joaquim, trabalhador, moradora no lugar do Carvalhal, freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres de Aljubarrota, concelho de Alcobaça.
Entre a SCML e a ama foram celebrados, sucessivamente, os seguintes contratos:

- 11 meses de leite a 1$600, com início a 19-07-1852
- 17$600
- 12 meses de seco a 1$100, com início a 19-06-1853
- 13$200
- 12 meses de seco a   $900, com início a 19-06-1854
- 10$800
- 48 meses de seco a   $500, com início a 19-06-1855
- 24$000
- 36 meses de seco a   $300, com início a 19-06-1859
- 10$800

- 76$400

Chegado, assim, o Constantino há idade de dez anos, foi celebrado com a mesma ama o costumado Termo de Vestir:

Aos 18 de Outubro de 1862 foi entregue a Maria Joaquina. Casada com José Joaquim, trabalhador, moradora no lugar do Carvalhal ……
O exposto Constantino por tempo de seis anos para o sustentar, vestir… etc…[iii]
(Livro nº 20 de Vestir, fls. 166v.)

Criado aqui ao lado da Ataíja de Cima, tudo aponta para que este seja o nosso Constantino, o Constantino dos Santos. Não sabemos porquê, como e quando passou do Carvalhal para a Ataíja. Certo é que, se era criado de servir em casa da ama, criado de servir continuou e assim é identificado no assento do seu primeiro casamento.
Era esse o seu estatuto desde os dez anos de idade: criado de servir.
Como, inequivocamente, se dizia nos Termos de Abertura dos Livros de Vestir, estes destinavam-se a registar os expostos “dados a servir sem soldada”.

Como já vimos antes, o Constantino dos Santos casou, em segundas núpcias dele, no dia 26 de Julho de 1886, tinha então 34 anos de idade, com Serafina de Jesus, solteira, doméstica, de 28 anos de idade e, também ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Tal como no primeiro casamento, foram testemunhas João Coelho e José Carvalho e, deste último sabemos que foi quem criou a Serafina desde os 5 anos dela.

Do casamento nasceram cinco filhos (o primeiro, aliás, apenas três semanas depois do consórcio), dos quais sobreviveram três:
Maria, nascida em 16-08-1886; José, nascido em 19-01-1890 e outra Maria, nascida em 21-01-1894.

A Maria que conhecemos por Maria Constantina, casou uma primeira vez e ficou viúva com pouco mais de trinta anos e uma filha pequena que foi conhecida por Delfina Constantina e lhe deu dez netos, todos, felizmente, vivos.
O marido, que até agora apenas identificamos pelo apelido Tomás, foi uma das vítimas ataijenses da pneumónica.
De um segundo casamento não houve filhos.

A segunda Maria recebeu, por esse facto, a alcunha de Pequena. Foi, pois, conhecida por Maria Pequena e, às vezes, por Maria Serafina.
Foi mãe de, pelo menos, cinco filhos, dos quais quatro deram origem a uma vasta prole. Estão vivos vários netos.

O José, José Constantino, um dos ataíjenses que integrou o Corpo Expedicionário Português que combateu em França durante a 1ª Guerra Mundial, esse foi pai de sete filhos, dos quais dois estão vivos.

(A "Roda" do Convento dos Cardais, em Lisboa)



[i] Concelho extinto em 1855 e integrado no concelho de Torres Vedras.
[ii] À margem dos assentos de baptismo consta, geralmente, a indicação de o nome ser “da Casa” quer dizer, atribuído por decisão do baptizante ou, “nome do escrito” quer dizer, ser o que constava de algum papel que acompanhava a criança com o pedido de se lhe atribuir esse nome.
Quando havia um papel com indicação do nome a atribuir à criança, essa vontade era, em regra, aceite. Por vezes atribuía-se à criança nome diferente do “nome do escrito”. Em geral, por o nome proposto não ser considerado suficientemente cristão, (por ex., uma criança entrada em 2 de Novembro de 1852, acompanhada de um papel onde se pedia que fosse baptizada com o nome de Leónidas Tubarão, foi baptizada com o nome de Malaquias.
[iii] Veja, integralmente transcrito, o Termo de Vestir relativo à primeira mulher de Constantino dos Santos. 

Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a patriarca de uma família ataíjense - II



Como vimos (AQUI), o Constantino dos Santos que, em 10 de Janeiro de 1882, ainda não tinha trinta anos, havia ficado viúvo de Guilhermina dos Santos, voltou a casar, em 26 de Julho de 1886, tinha agora 34 anos de idade, com Serafina de Jesus ou Serafina dos Santos, solteira, doméstica, de 28 anos de idade e, também ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Quem era esta Serafina?

No AHSCML[i], o Livro de Matrícula, Fêmeas, nº 50, a fls. 241, sob o nº 591, regista a entrada em 7 de Janeiro de 1857 de uma Serafina que, em 8 de Janeiro de 1857, foi entregue à ama-de-leite Maria Joaquina casada com João Gomes moradora no Casal do Leonardo, freguesia de Santa Anna da Carnota, concelho de Alenquer, ao cuidado de quem se manteve até aos três anos de idade.
Em 12 de Janeiro de 1860, foi a Serafina entregue a Rozalia Maria casada com José Maria, trabalhador, moradora no Campo de Santa Clara[ii] nº 56, da freguesia de Santa Engrácia em Lisboa.
Em 11 de Março de 1862, tinha a Serafina 5 anos quando foi entregue a Maria Joaquina, casada com José Carvalho, trabalhador, moradora na Ataíja de Cima.
Em 17 de Setembro de 1864 e a contar de 11 de Janeiro de 1864, a SCML renovou o contrato com a Maria Joaquina, por mais 36 meses, quer dizer, até a criança completar dez anos de idade.

Completados os dez anos, como já antes se disse, a SCML deixava de pagar às amas e a criança era entregue (nesta época, em regra), pelo período de seis anos quer dizer, até completar os dezasseis anos, a quem se comprometesse a vestir, calçar, educar na religião cristã e ensinar um ofício de acordo com o seu sexo, naturalmente, em troca do trabalho a prestar pela criança. Sobre este assunto já transcrevemos, no post anterior, o “termo de vestir” da 1ª mulher do Constantino, pelo que nos dispensamos de transcrever agora o da Serafina que é de teor idêntico, como, aliás, o do próprio Constantino.

Esse contrato ou Termo de Vestir da Serafina, consta do Livro nº 25, de Vestir, fls. 229
(Serafina Lº 137 fls 241 nº 591):

Aos sete de Junho de 1867 entregue a Maria Joaquina casada com José Carvalho, trabalhador, moradora na Ataíja de Cima freguesia de São Vicente de Aljubarrota[iii] concelho de Alcobaça
Por tempo de seis anos….

A partir da celebração do Termo de Vestir não há, em regra, mais informação sobre os expostos no AHSCML. Daqui até ao casamento, passos documentados da vida da Serafina, a haver, há-de ser nos Róis dos Confessados ou no competente Juízo dos Órfãos.
Segue-se, pois, um longo período de dezoito anos durante os quais nada sabemos da Serafina.

Apenas, sabemos que é a mesma pessoa que se casou com Constantino dos Santos porque não há notícia de uma outra Serafina na aldeia e, também, porque uma das testemunhas do casamento foi José Carvalho, precisamente, o dono da casa onde foi criada, certamente, o mais próximo da figura parental que ela conheceu e, talvez, um verdadeiro pai.


Roda dos expostos da vila de Almeida
(foto retirada de: http://beira.pt/portal/diretorio/nucleo-museologico-da-roda-dos-expostos/)



[i] Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
[ii] Onde se realiza a Feira da Ladra.
[iii] A Freguesia de São Vicente de Aljubarrota tinha sido, entretanto, restaurada.