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terça-feira, 23 de março de 2021

A Estrada de D. Maria Pia e a Estalagem da Malaposta da Pedreira dos Carvalhos

 


No final do Séc. XVIII, mais precisamente em 1791, quando reinava a Sra. D. Maria I, foi elaborado o projecto da Estrada de Rio Maior a Leiria[i] que, por isso, ainda hoje é conhecida por Estrada de D. Maria Pia.

Aprovada por despacho, de 4 de junho de 1792, do Desembargador superintendente geral das Estradas, José Diogo de Mascarenhas Neto e construída nos anos seguintes, por ela circulou a partir de 1798 a carreira da Malaposta de Lisboa a Coimbra.

O referido despacho que se encontra integralmente transcrito por Ricardo Charters de Azevedo[ii], tal como, aliás, o projecto de “delineamento” da estrada, contém abundante informação sobre a região, incluindo os pontos de água usáveis pelos viajantes e animais de tiro e, por isso, absolutamente indispensáveis: “a maior distancia … he de três legoas desde os Candieiros athe aos Carvalhos[iii], mas quase no meio deste espaço há o poço do Muliano”.

As estalagens, ponto de alimentação e dormida ou descanso de viajantes e bestas e de muda das atrelagens, tinham de estar situadas, ao longo do percurso, a distâncias mais ou menos regulares que permitissem a substituição das parelhas, daí que o despacho não esqueça que “o sitio dos Candieiros necessita de huma estalage, e da mesma forma o dos Carvalhos”, (em 1791, conforme o Mapa, já existia uma estalagem na Cumeira de Cima[iv], no entanto, fora do caminho agora delineado).

Na caracterização da região a que, como justificação pela opção tomada, o despacho procede, o uso do solo também não foi esquecido, notando o desembargador que “a agricultura do terreno compreendido no mappa consiste em azeite, trigo, milho e vinha principalmente na porção que pertence aos Coutos”[v]

Num espaço escassamente povoado, tendo “cada legoa quadrada menos q 1800 habitantes” e muito pobre, onde os povos “respirão pobreza e rusticidade”, a estrada iria ainda, aos olhos do superintendente, contribuir para “o aumento da população e o progresso da agricultura”.

Aquando das Invasões francesas a Malaposta Lisboa – Coimbra já não existia, uma vez que face aos persistentes deficits de exploração o serviço foi extinto, tendo durado escassos seis anos, entre 1978 e 1804.

A partir daí e durante mais seis anos não conhecemos outras referências à estalagem dos Carvalhos, mas em Outubro de 1810, aquando da 3ª Invasão Francesa, a Estrada de D. Maria I foi um dos caminhos seguidos a partir de Leiria, pelos exércitos de Wellington, no seu recuo para as linhas de Torres, bem como pelos exércitos franceses de Massena que o perseguiam. De acordo com o General Koch[vi], em 7 de outubro Soult[vii] instalou-se nos Carvalhos[viii], Sainte-Croix bateu a região entre Molianos e Candeeiros e o General Montbrun instalou-se, com a artilharia, “à direita dos Molianos”.[ix]

Koch não menciona o estado da estrada, que ainda havia de ser bom, mas não podia dizer pior da zona: “É impossível ver uma região mais miseranda que a que vai de Carvalhos a Rio Maior; Candeeiros e Moliano não têm, sequer, o aspecto de lugarejos, e só apresentam meia dúzia de péssimas cabanas esparsas numa planície nua e árida onde não há cereais nem forragem nem água”.

Demos o devido desconto ao militar frustrado e cansado, mas lembremo-nos do que o Desembargador Mascarenhas Neto tinha dito dezoito anos antes.

Enquanto durou, a Malaposta teve na Estalagem dos Carvalhos um importante ponto de apoio, já que era aí que se cruzavam, era servida a ceia[x] e passavam a noite as carruagens vindas de Lisboa e de Coimbra, tudo conforme minuciosamente regulado nas Instruções para o estabelecimento das diligências entre Lisboa e Coimbra[xi].

A estalagem dos Candeeiros, referida no despacho mencionado do Desembargador Mascarenhas Neto, parece não ter chegado a ser construída, mas o lugar continuou a ter a importância resultante da existência de água no Poço dos Candieiros. Nos Molianos é também referida a existência de um poço, “de q uzam os habitantes daquele distrito”, o qual, no entanto, não é assinalado no Mappa de 1791.

Eventualmente relevantes para os viajantes deste troço do caminho terão sido as Vendas nele existentes que eram, segundo o Mappa, a Venda do Vintém, na Moita do Gavião, a Venda dos Candeeiros e a Venda da Laranja, perto da Sra. da Piedade (Molianos).

A falta de uso e de manutenção haviam de arrastar a Estalagem dos Carvalhos, para alguma degradação. Diz Godofredo Ferreira que “com a passagem do exército invasor do comando do General Massena, a casa ficou em ruína e quasi abandonada”. Na verdade, o exército francês não terá usado a estalagem por mais do que alguns dias, pelo que a ruína só poderia ter sido provocada na retirada e, para ser ruína, teria de ter sido incendiada. Mas, não há qualquer indício de isso ter acontecido. Pelo contrário, ela volta a ser arrendada logo em 1814, pelo que não estaria em muito mau estado nessa data.

O desvio da estrada real para as Caldas da Rainha e Alcobaça implicou o abandono da estrada de D. Maria Pia, a qual só veio a retomar importância no início dos anos 60 do Séc. XX, com a construção do actual IC2. Consequentemente, o serviço de diligências, quando é retomado em meados do Séc. XIX, já não passa pelas Pedreiras pelo que a Estalagem nunca voltou à sua função inicial e acabou por ser vendida em hasta pública cerca de 1856[xii]

Depois disso foi mercearia, taberna e habitação. No lugar das cavalariças, houve um lagar de azeite e na cozinha ainda há uns quarenta anos existia a grande chaminé.

Recentemente, sobre as velhas paredes, foi construída uma vivenda cujo primeiro andar assenta na cornija original de cantaria, em meia cana simples, que corre toda a fachada.

O traçado original da Estrada de D. Maria ainda hoje é facilmente reconhecido na quase totalidade do percurso entre a Moita do Gavião e as Pedreiras, constituindo, aliás, a rua principal de diversas localidades, nomeadamente, os Candeeiros, os Molianos e as Pedreiras.

Em Maio de 2020, era este o aspecto da Estalagem dos Carvalhos:


O portão da Estalagem tal como foi construído há mais de 220 anos

Vista Geral da Fachada

Uma habitação moderna construída sobre as velhas paredes



[i] Ver Ricardo Charters de Azevedo, A Estrada Rio Maior a Leiria em 1791, colecção Tempos Vidas, 15, Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] Op.cit., págs. 55 e 56.
[iii] Ou Pedreira dos Carvalhos, que hoje conhecemos por Pedreiras.
[iv] Acima da Cumeira há um lugar chamado Albergaria. Poderiam, albergaria e estalagem, ser uma e a mesma coisa. No entanto, o Mapa assinala ambas.
[v] Aos Coutos da Alcobaça, obviamente.
[vi] General Koch, Memórias de Massena, Campanha de 1810 e 1811 em Portugal, Introdução de António Ventura, Livros Horizonte, Lisboa, 2007
[vii] General de Napoleão. Foi o comandante da 2ª Invasão de Portugal.
[viii] Certamente na Estalagem que, apenas seis anos após o fim do serviço da Malaposta, ainda havia de estar em relativo bom estado de uso e, comparativamente com quaisquer outras construções da região,  com as melhores condições para o alojamento do Estado-Maior da Brigada.
[ix] Em Janeiro de 1834, pouco mais de 23 anos depois destes acontecimentos, de novo a região entre Molianos e as Pedreiras foi objecto de ocupações militares. Ver: neste Blog A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região, in Ataíja de Cima: A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região (ataijadecima.blogspot.com)
[x] A ceia era a refeição da noite, a que agora chamamos jantar. O jantar era a refeição do meio do dia, aa que agora chamamos almoço, servida cerca das duas horas da tarde. Ainda era assim na aldeia da minha infância.
[xi] Godofredo Ferreira, A Mala-Posta em Portugal, Lisboa, 1946, citado em Armindo Vieira, Pequena Monografia das Pedreiras, Pedreiras (Porto de Mós), Maio 2007.
[xii] Armindo Vieira, op.cit., de onde também se retiraram as demais referências aos usos do local.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Naturais de Aljubarrota na Grande Guerra de 1914 - 1918



 Porta-Bandeira do Corpo Expedicionário Português. 
Aguarela do pintor e cenógrafo alcobacense Augusto Pina,
originalmente publicada na Revista Quinzenal ilustrada. Ano I, n.º 1, de 1 de Junho de 1917


Cumpriram-se ontem cem anos sobre a desastrosa batalha de La Lys[i] na qual o Corpo Expedicionário Português foi desbaratado por um poderoso exército alemão que, empenhando na ofensiva cerca de 55.000 homens bem armados, não teve dificuldade em vencer um cansado exército de cerca de 15.000 combatentes portugueses, na maioria, pobres camponeses analfabetos que não compreendiam as razões por que combatiam.  

Não é aqui o lugar para discutir a, ainda hoje, controversa participação portuguesa na 1ª Guerra Mundial, mas apenas para homenagear os soldados naturais de Aljubarrota (freguesias de S. Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres) que nela participaram e abaixo se identificam por nome, estado civil, posto, naturalidade (indica-se a naturalidade tal como consta da respectiva ficha)[ii] e filiação.

Foram eles:

António Alberto, solteiro, soldado, S. Vicente                                  
António Bernardo, solteiro, soldado, Casal do Rei                                          
António Carreira, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa                                       
António Carvalho, casado, soldado, Casais, (na morada da mulher - parente mais próximo - escreve-se Casais seguido de "da Fonte", rasurado).
António da Costa, casado, soldado, Prazeres (casado, mas indica como parente mais próximo um irmão residente na Maiorga)
António da Silva, 1º cabo, Aljubarrota                                 
António Ferreira, 2º cabo, Molianos                                     
António Gomes, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Francisco Gomes Froes e de Joaquina de Souza     
António João, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho de João António e África de Jesus
António Joaquim dos Santos, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Joaquim dos Santos e Agripina Joaquina      
Bernardino Coelho, solteiro, soldado, Casais de Santa Teresa, filho natural de Joaquina Coelha. Foi ferido em combate. Punido, por duas vezes, com prisão disciplinar (25 + 4 dias)
Domingos Plácido, solteiro, soldado, Chequeda, filho de Plácido dos Santos e Maria Luiza. Ferido em combate, veio a falecer três dias depois, em 23 de Outubro de 1917, sendo sepultado no cemitério de Merville, coval B.24 (a cerca de 10 km do Cemitério Português de Richebourg)
Elias Gomes, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Manuel Gomes e de Maria Rita
Ernesto da Silva, solteiro, soldado, Boavista, filho de Francisco da Silva e Maria da Encarnação 
Francisco de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista, filho de Luis de Oliveira e de Maria Roza (no índice consta como Francisco Silveira). Ferido por gases em 7-8-1917
João de Oliveira, solteiro, soldado, Boavista de Baixo, filho de José de Oliveira e Gertrudes Dionízio. Ferido em combate em 4-2-1918. Louvado. Condenado em múltiplas penas de prisão e de detenção
João de Sousa, casado, soldado, Cadoiço, filho de Francisco de Sousa e Maria Luisa (a ficha diz que é natural de Prazeres, sendo a mulher residente no Cadoiço). Ferido em combate, em 3-4-1917.
João Natalino, solteiro, soldado, S. Vicente, filho de José Natalino e de Teresa André. Punido com 5 dias detenção por conduzir a galope o carro de que era condutor. Punido com 8 dias detenção por castigar com brutalidade uma das muares que lhe estava distribuída.
João Nogueira, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de Manuel Nogueira e Roza de Almeida       
João Ribeiro, casado, soldado, Chãos, filho de João Ribeiro e de Idalina dos Santos, casado com Palmira de Oliveira. Punido com 15 dias de detenção por desrespeito a um sargento.
João Vicente, solteiro soldado, S. Vicente, filho de Vicente dos Santos e de Maria Josefa.            
Joaquim Alexandre, solteiro, 1º cabo, Chãos, filho de António Alexandre e de Maria José. Ferido em combate em 3-7-1917. Faleceu na 1ª linha em virtude de ferimentos recebidos em combate em 20-10-1917. Sepultado no cemitério de Pont du Hem, coval n.º 18 (há-de, como os demais portugueses aí inumados, ter sido trasladado para o Cemitério Português de Richebourg-l'Avoué).
Joaquim Bernardo, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José Bernardo e Gertrudes Veríssima   
Joaquim Carlos, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de José Carlos e de Rosa Coelho. Ferido por gases em 7-8-1917. Em 1-1-1919 punido com 30 dias de prisão correcional (a ficha não indica o motivo).
Joaquim Clemente, solteiro, 1º cabo, Ataija de Baixo, filho de José Clemente e Respícia dos Santos        
Joaquim da Horta, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Luís da Horta e de Guilhermina Martins, casado com Teresa Ribeiro. Foi dado por incapaz para todo o serviço e evacuado para Portugal chegando a Lisboa em 1-10-1917.
Joaquim de Carvalho, solteiro, soldado, Chãos, filho de José Rito de Carvalho e de Francisca Teresa       
Joaquim Machado, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Machado e de Gertrudes Luísa. Ferido em combate, por estilhaços de granada, em 13-3-1918.
Joaquim Manuel, 1º cabo, Prazeres                                      
Joaquim Marques da Silva, solteiro, soldado, Prazeres, filho de Teodoro Marques da Silva e de Ana Pedro dos Anjos. Condecorado com a medalha comemorativa da expedição a França.
Joaquim Martins, soldado, S. Vicente                                  
José António dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de António dos Santos e de Maria da Piedade.           
José Baltazar, solteiro, soldado, Aljubarrota, filho de António Baltazar e de Maria Rita  
José Branco, solteiro, soldado, Lameira, filho de José Francisco Branco e de Josefina de Jesus. Feito prisioneiro na Batalha de La Lys ou Batalha D'Armentières em 9-4-1918.
José Clemente, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de José Clemente e de Respícia dos Santos. Por razões de saúde que a ficha não indica, foi internado pelo menos 5 vezes no hospital, tendo sido expatriado em Fevereiro de 1919. Era irmão do Joaquim Clemente atrás listado.
José Coelho, solteiro, soldado, Cumeira de Baixo, filho de João Coelho e de Mariana Almeida   
José Constantino, solteiro, soldado, Ataíja de Cima, filho de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos. Embarcou em 10-10-1917 em Lisboa com destino a França. De regresso embarcou com a 12ª Bateria de Artilharia Pesada, em 11-5-1919, no "Pedro Nunes" e desembarcou em Lisboa em 14-5-1919. Por razões que a ficha não menciona, em 12-4-1918 embarcou para Inglaterra onde chegou no dia seguinte e, 7 meses depois, voltou a França onde desembarcou a 14-11-1918. Em 7-2-1919, foi punido com 10 dias de detenção "porque estando o Sargento de dia à Bateria perguntando a outra praça a razão por que não descascava batata, aquele sem que o Sargento de dia a ele se dirigisse, declarou que "se fosse com ele não a descascava".
Uma vez que a sua ida para Inglaterra se deu 3 dias depois do desastre deLa Lys, é de presumir que há relação entre os dois factos.
José da Silva, solteiro, soldado-corneteiro, Molianos, filho de Joaquim da Silva e de Maria Joaquina. Embarcou em Lisboa em 20-1-1917. Ferido em combate em 28-7-1917. Julgado incapaz para todo o serviço e de angariar meios de subsistência. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 12-11-1917.
José Dias, solteiro, 1º cabo, Quinta do Mogo, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias. Promovido a 1º cabo do quadro permanente em 26-2-1918
José Joaquim, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Maria Quitéria. Ferido em combate em 18-3-1918. Em 23-9-1918 foi punido com 10 dias de detenção por ter faltado à revista sem motivo justificado. (em PT AHM-DIV-1-35A-2-02-00591, as imagens m0004.jpg e seguintes são de documentos que se não referem a este soldado).
José Ribeiro, casado, soldado, Aljubarrota, filho de Ermelinda de Jesus. Casado com Maria Nazária. Louvado pela forma como desempenhou os trabalhos de reparação de uma trincheira. Punido com 20 dias de prisão disciplinar por ser encontrado numa casa abandonada, abrindo armários e com algumas garrafas nas mãos. Punido com 5 dias de detenção por ter faltado aos trabalhos nas trincheiras.
José Rodrigues Correia, soldado, Aljubarrota                                    
Luís Dias, casado, 1º cabo, Ataíja de Cima, filho de António Dias e Maria Lourenço. Casado com Ana Dionísio. Promovido a 1º cabo miliciano em 20-8-1918. Conheci-o velho e alcoólico. Faleceu um dia em que, vindo da taberna na noite escura, se terá enganado no caminho para casa, tendo sido encontrado pela manhã, já morto. Sempre ouvi que tinha sido gaseado mas a ficha não o refere. Também usava o nome de Luís Dias Vigário e era conhecido por "Luís Barra". Quando eu era miúdo, era voz corrente que o seu alcoolismo derivava do facto de ter sido “gaseado” na guerra de França mas, a sua ficha não menciona que tenha sido gaseado.
Luís dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Izidro dos Reis e de Maria Joaquina. Ferido por desastre em serviço, em 24-10-1918.
Luís dos Santos, solteiro, soldado, Prazeres, filho de José dos Santos e de Maria Feverónia        
Manuel Augusto Pereira, solteiro, soldado-ferrador, Chequeda, filho de Augusto Joaquim e de Maria Fortunata Pereira. Punido com 4 dias de detenção por ter o arreio sujo. Punido com 4 dias de detenção por ter saído do aquartelamento sem polainas, em péssimo estado de asseio. Punido com 4 dias de detenção por ter mais de uma manta e a não entregar quando houve ordem para isso.
Manuel Carvalho, soldado, Chequeda, filho de Joaquim Carvalho e de Narcisa de Jesus. Desaparecido desde 3 de Junho de 1917, sendo feito prisioneiro, apareceu em 16-1-1919.
Manuel Faustino, solteiro, soldado, Molianos, filho de Manuel Faustino e de Adelina Santos. Em 14-2-1918 baixou ao hospital e em 18 seguinte foi considerado incapaz para todo o serviço. Repatriado, desembarcou em Lisboa em 10 de Abril seguinte.
Manuel Norberto, solteiro, soldado,  S. Vicente, filho de António Norberto e de Maria Benta    
Manuel Rodrigues, soldado, Prazeres                                  
Manuel Teodoro de Sousa, casado, soldado, S. Vicente, filho de José Teodoro de Sousa e de Paulina dos Santos. Casado com Elísia Mónica. Julgado incapaz para todo o serviço regressou a Portugal em Julho, a bordo do "Gil Eanes".
Matias dos Reis, solteiro, soldado, Ataíja de Baixo, filho de Isidoro dos Reis e de Maria Branca. Ferido em combate em 3-7-1917. Hospitalizado diversas vezes num total de mais de 250 dias. Punido, em 7-8-1918, com 8 dias de detenção por, tendo sido nomeado para a polícia do QGB, ter faltado alegando ter adormecido.
Nicolau Duarte, solteiro, soldado, Carvalhal, filho de António Duarte e de Maria Joaquina. Punido com 4 dias de detenção por pretender iludir para quem se destinava um pouco de fruta verde que foi encontrada sobre um abrigo.
Silvério Augusto, solteiro, soldado-clarim, S. Vicente, filho de Augusto dos Santos e de Mariana Joaquina. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por na noite de 5 para 6 de Janeiro de 1919, ter num estabelecimento provocado distúrbios, ameaçando a dona da casa com uma navalha e dizendo que lá voltaria e faria ir pelos ares. Punido com 10 dias de prisão disciplinar por no dia 2-2-1919 ter ameaçado duas francesas dentro do seu estament.
Silvestre Sousa, solteiro, soldado, Molianos, filho de José de Sousa e de Maria José. Punido com 6 dias de detenção por ter faltado à formatura para serviço nas trincheiras.



Esta lista está eventualmente incompleta.
Faltam, talvez e além de outros, militares que sendo naturais de outras freguesias, tinham residência nas de Aljubarrota. Eu próprio tenho notícias de um Bento, talvez nascido no concelho de Porto de Mós mas que seria então residente na Ataíja de Cima, o qual não é incluído nesta lista por falta de prova documental.
Aos eventuais leitores que conheçam mais elementos relativos ao objecto deste texto, agradecem-se todas as informações que possam contribuir para o seu desenvolvimento e melhoramento



[i] La Lys, o rio Lis, é um rio no Norte de França, na região hoje denominada Hauts-de-France (Altos de França), na fronteira com a Bélgica.
[ii] Boletins Individuais de Militares do CEP. Disponíveis online no site do Arquivo Histórico Militar.

quarta-feira, 7 de março de 2018

A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região



Durante grande parte da primeira metade do século XIX a nossa região foi palco de sucessivas movimentações militares.

Primeiro, as invasões francesas. Há documentos relatando a presença dos exércitos, quer franceses quer ingleses, desde Agosto de 1808 e, quase sem interrupções, até, pelo menos, Março de 1811.

Tinham passado pouco mais de vinte anos sobre as guerras e os sofrimentos provocados pelas Invasões Francesas quando, de novo, por aqui andaram as botas cardadas dos militares. Agora, era a Guerra Civil travada entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, na verdade, a guerra entre o Antigo Regime agonizante e a sociedade moderna que emergia.

Passados pouco mais de três anos sobre o fim da guerra civil, novas incursões militares pela nossa terra. Agora, a chamada Revolta dos Marechais, reacção ao Setembrismo encabeçada pelos mesmos Saldanha e Terceira que tinham vencido a Guerra Civil.
Um dos mais importantes, embora inconclusivo, dos combates havidos durante a Revolta dos Marechais ocorreu no Chão da Feira, praticamente no mesmo local onde 452 anos antes se tinha travado a Batalha de Aljubarrota. 

Mais tarde, em 1846 e 1847, a Revolta da Maria da Fonte e a Guerra da Patuleia haviam de trazer novos e sucessivos movimentos de tropas a toda a nossa região.

Mas, do que queremos falar hoje é da Guerra Civil.

Depois das Cortes de 1828 onde D. Miguel se fez proclamar Rei absoluto, os liberais foram perseguidos e presos aos milhares, muitos foram mortos e grande número foi forçado a exilar-se. D. Pedro abdica então do trono brasileiro e em 1831 desembarca nos Açores para, a partir daí, organizar um exército que desembarcou nos arredores do Porto em Julho de 1832, aí ficando sitiado pelos miguelistas durante longos 13 meses, até Agosto de 1833.

No início desse ano de 1833, os liberais contrataram para comandar as suas forças navais um oficial da marinha inglesa, Charles Napier[i] o qual escreveu um pormenorizado relato da sua participação nesta guerra, relato esse que, sob o título An Account of the War in Portugal, foi publicado em Londres em 1836 e, traduzido com o título Guerra da Sucessão em Portugal, foi publicado em Lisboa em 1841.

Apesar de a tomada de Lisboa pelos liberais e o fim do Cerco do Porto terem ocorrido em meados de 1833 (Julho e Agosto, respectivamente), a guerra continuou e só veio a terminar em Maio de 1834 com a assinatura da Convenção de Évora Monte.

Nesses longos meses, as operações militares tiveram particular incidência na Estremadura onde Leiria permanecia fiel a D. Miguel e no Ribatejo,  já que o mesmo D. Miguel, tinha instalado o seu quartel-general em Santarém. O último dos grandes combates desta guerra aconteceu precisamente em Maio de 1834, na Asseiceira, perto de Tomar, apenas dez dias antes da assinatura da Convenção de Évora Monte.

A paginas 125 do Tomo II do referido Guerra Civil em Portugal, o almirante Charles Napier descreve a conquista de Leiria e os movimentos de tropas que a precederem:

No dia 12 de Janeiro[ii] tomou o Duque da Terceira o Comando do Exército e estabeleceu o seu Quartel-General no Cartaxo. Saldanha partiu no mesmo dia para Rio Maior, para onde tinha destacado uma força na tarde anterior, para formar uma junção com as tropas já estacionadas, ali e em Alcobaça, perfazendo ao todo cerca de quatrocentos a quinhentos homens.
No dia 13 a Cavalaria ocupou os Carvalhos[iii], e a Infantaria os Molianos e povoações adjacentes. O Tenente-Coronel Vasconcellos com o 1.° Regimento de Infantaria Ligeira da Rainha marchou no mesmo dia para Cós e no dia seguinte chegou à Batalha.
Uma copiosa chuva que durou quarenta e oito horas sem interrupção tinha inundado todo o terreno, mas não obstante estas dificuldades as colunas estavam empenhadas em marchar sobre Leiria e atacar aquela Cidade, antes que o inimigo tivesse tempo de se escapar. Contudo, as dificuldades de uma marcha noturna eram tão grandes que o Marechal decidiu esperar para o dia seguinte.

(E, no dia seguinte, Leiria foi tomada e, quando os últimos defensores miguelistas a abandonavam, fugindo pela estrada de Coimbra …)

A Cavalaria foi no seu alcance pelo espaço de uma légua. Matou muitos, e fez muitos prisioneiros
Os Oficiais do Estado Maior acompanharam a Cavalaria e acharam muita satisfação em tingir as suas espadas em sangue Miguelista.

Tal é a guerra civil.


Almirante Sir Charles John Napier, pintura atribuída a John Simpson [Public domain], via Wikimedia Commons



[i] O Almirante Sir Charles John Napier foi um importante e controverso militar e político, com uma carreira longa e recheada, durante a qual serviu com brilhantismo as armadas britânica e portuguesa. A sua biografia merece bem uma leitura. (v. https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_John_Napier)
[ii] De 1834.
[iii] O lugar que hoje chamamos Pedreiras

sábado, 30 de dezembro de 2017

Aljubarrota, Prazeres. O ano de 1889 – Baptismos


A necessidade de alargar a ambas as antigas freguesias de Aljubarrota as pesquisas que sustentam os textos que aqui venho colocando, depara com alguns problemas de difícil solução. Sem embargo, as surpresas surgem-nos quando menos esperamos e disso é exemplo o livro de registos de baptismos da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, relativo ao ano de 1889.

Nesse ano foram baptizadas na freguesia 69 crianças, uma das quais exposta na Pedreira (Molianos). 39 eram rapazes e 30 raparigas e vieram à luz em 12 povoados diferentes, como se indica:
Boavista 13, Pedreira (Molianos) 12, Prazeres (casos em que o padre diz apenas que nasceram “nesta freguesia”) 10, Carvalhal 9, Chequeda e Lagoa do Cão 6 em cada, Lameira 4, Ganilhos 3, Fonte do Ouro e Covões 2 em cada e, finalmente, 1 no Carrascal e 1 exposta.

Destas crianças, 11 eram filhos naturais, quer dizer, de mãe solteira e, em regra, pai desconhecido[i].

Quem eram estas mães? Infelizmente, a idade das mães não consta dos registos de nascimento e, obter essa idade[ii] seria tarefa muito difícil e, em alguns casos, impossível. Não fora assim e talvez pudéssemos confirmar com números o que apenas intuímos: que a idade média das mães de filhos naturais é bastante precoce, designadamente por comparação com a idade das demais mães aquando do nascimento do seu primeiro filho legítimo[iii].

Sabemos, por outro lado, as suas profissões ou ocupações.
Quanto a este ponto, aliás, importa ter presente que, se por um lado o padre era em geral muito rigoroso, distinguindo, por ex. entre profissão, (fulano, pedreiro) e ocupação (sicrana, de ocupação doméstica) por outro lado, na maioria dos casos limitava-se a enunciar uma profissão como comum ao casal (António … e Maria … moleiros, por ex.). Há, ainda, que atentar que as profissões indicadas eram resultado do conhecimento pessoal do padre ou de declaração dos interessados. É, por isso, frequente a profissão de uma determinada pessoa variar de assento para assento. Proprietário aqui é lavrador acolá e trabalhador, ou jornaleiro, em outro assento.
O que podemos concluir com relativa segurança é que, proprietário ou lavrador, trabalhador ou jornaleiro, era pessoa que vivia da terra, fosse trabalhando, fosse mandando trabalhar.
Já quando se indica como profissão uma certa arte ou ofício, podemos considerar com alguma segurança que isso correspondia de facto a mister exercido, fosse a título exclusivo, principal, sazonal ou, até, ocasional.
Inequívoca é a indicação de que se trata de criado (ou criada) de servir. Aqui, não há qualquer espécie de dúvida. Trata-se de alguém que vive sozinho em casa de outrem, em regra em aldeia diferente da de nascimento e residência da família e aí trabalha, de cama e mesa.
O criado ocupa os lugares mais baixos da escala social, apenas acima do mendigo e a par ou abaixo do enjeitado[iv] que, quando era criado de leite, se tornava por vezes uma espécie de meio-irmão dos filhos da ama.

Quem eram, então, quanto à profissão/ocupação, as mães das 69 crianças nascidas na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres no ano de Graça de 1889?
41 eram jornaleiras, 11 lavradoras, 8 domésticas, de 4 não sabemos a ocupação, 3 eram criadas de servir e, por fim, temos 1 moleira e 1 proprietária.
Destas 69 mães, 11 foram mães solteiras, das quais o padre declarou serem 5 domésticas, 3 criadas de servir e sobre 3 não deu informação de ocupação/profissão.
Quanto à naturalidade dessas 11 mães, apenas 4 eram naturais da freguesia de Prazeres (e, presume-se, da aldeia onde foram mães[v]), 3 eram expostas, 2 da freguesia de Pataias, 1 do Valado dos Frandes e 1 de Alcanede.
Das 3 criadas de servir 2 eram da freguesia de Pataias e 1 exposta.
Note-se, ainda, que das 3 mães de que o padre não indicou profissão/ocupação 2 eram expostas.

Um ano é, obviamente, curto espaço de tempo para se tirarem conclusões. Mas, não podemos deixar de chamar a atenção dos nossos eventuais leitores para o elevado número de crianças nascidas de mães solteiras e, ainda, para o facto de que a maioria destas não era natural da freguesia. Tal como é de atentar em que 3 eram criadas de servir e de outras 3 não sabemos a ocupação, mas sabemos que 2 delas eram expostas e a terceira expôs[vi] o filho.
Seja, tudo aponta para que o isolamento familiar e social e a dependência são factores muito presentes nestes casos de maternidade de mulheres solteiras.

Como já acima referimos, uma das crianças foi exposta na Pedreira (Molianos). Trata-se de um caso apesar de tudo insólito, porquanto a exposição de crianças tinha geralmente lugar junto de estabelecimentos receptores (“rodas”) ou em locais onde, presumivelmente, haveria mais facilidade de a criança ser encontrada e acolhida. Abandonavam-se crianças às portas dos ricos, do padre ou da igreja na madrugada de domingo. Seria curioso saber quem era a Manoella da Piedade para, talvez, perceber porque é que a criança foi abandonada à sua porta e não à porta de outra pessoa:

“Aos dez dias do mês de Julho do anno de mil oito centos e oitenta e nove nesta egreja parochial de Nossa Senhora dos Prazeres d’Aljubarrota baptizei solennemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Arthur que foi apresentado em casa de Manoella da Piedade, casada, da Pedreira desta freguesia com um bilhete indicando o dito nome e declarando ser filho de Luiza Caçadora que o dera à luz no dia vinte dois de Junho último à meia-noite neto materno de António Rebotim e Maria Caçadora todos da freguesia do Vallado, concelho e diocese supraditos. Foi padrinho Raimundo Manoel, casado, jornaleiro e madrinha Manoella da Piedade, casada, de ocupação domestica, os quaes sei serem os proprios. E para constar lavrei em duplicado este assento,que depois de lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignou o padrinho e não a madrinha por não saber. Era ut supra.
Raimundo Manoel
O Parocho Joaquim Henriques Farto
”


Moderna “roda de expostos” num hospital de Dortmund, Alemanha.
Foto Reuters, picada do artigo “O regresso da roda dos expostos”, publicado no Expresso de 28.10.2012 (http://expresso.sapo.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582, consultado em 30-12-2017)





[i] Quase sempre, o pai não era, exactamente, desconhecido. Apenas, por razões diversas, não assumia a paternidade.
Note-se que, num destes casos, o pai era conhecido: “…filha natural de Joaquina da Piedade, solteira, de ocupação doméstica, natural da freguesia d’Alcaneide, concelho de Santarem, diocese de Lisboa e Raimundo Ferreiro, solteiro, trabalhador, natural do dito Carvalhal …”.
[ii] Em regra, por recurso aos assentos de casamento e óbito que, esses sim, indicam a idade do nubente ou falecido.
[iii] Legítimo era o filho concebido no âmbito do casamento de seus pais.
[iv] Ser criado de servir era, aliás, um destino natural dos enjeitados.
[v] E, onde viviam os seus pais.
[vi] Ou, alguém por ela.