Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pessoas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Gente da Ataíja de Cima – Luís da Graça

.




Luís da Graça de Sousa, nasceu na Ataíja de Cima em 12 de Maio de 1931, (tendo, no entanto, sido registado como nascido a 27 do mesmo mês), filho de Manuel Luís de Sousa e de Maria da Graça.

Para sustentar a numerosa prole, o pai emigrava sazonalmente para a região de Lisboa onde, a meias com seu irmão João Luís de Sousa, era responsável por uma vacaria (os irmãos revezavam-se na função, em períodos de cerca de três meses. Enquanto um ficava por Lisboa, o outro estava na Ataíja cuidando das magras terras familiares e olhando pelas famílias) e foram os tostões assim amealhados que lhe permitiram construir uma cisterna de abóboda que ainda existe junto à casa que foi sua, na Rua das Seixeiras e, a escassos metros, um moinho de vento que existiu onde na segunda metade dos anos de 1940 o seu filho, que foi conhecido por João Frade, construiu a sua casa.

(Sobre essa cisterna publicámos um texto neste blog, em 23-02-2011 - ver AQUI)

(Sobre o moínho publicámos um texto neste blog em 24-08-2018 - ver AQUI)


Tudo isso não obstava à continuada pobreza da família pelo que ao Luís coube, aos 12 anos de idade, ir “servir”, ou seja, como criado de cama e mesa, em casa de um agricultor de Serro Ventoso, onde se manteve até aos 17 anos e ganhou para as primeiras botas.
Regressado à Ataíja, iniciou-se nos negócios de compra e venda de peles de coelho, chinelos velhos, azeite e tudo o que pudesse ajudá-lo a escapar à incerta vida de jornaleiro.

Mais tarde havia de seguir a aventura de se tornar leiteiro, em Lisboa, o mesmo caminho percorrido por muitos alcobacenses da “borda da serra” (conheci pessoalmente leiteiros oriundos de Aljubarrota, Ataíja de Baixo, Casal do Rei, Molianos, etc.e, da Ataíja de Cima, foram leiteiros, entre outros, os meus pais, João Lourenço Quitério e Maria Joaquina da Graça (Maria Carlota).
Naquele tempo, os naturais de uma determinada região emigravam para a capital para exercer uma determinada profissão (ía-se para a profissão de um amigo ou conhecido: galegos e minhotos para tabernas e restaurantes, os tomarenses para a construção civil, os de Tábua para padeiros, alcobacenses também, muitos, para vaqueiros (da Ataíja de Cima foram vaqueiros em Lisboa - cito de memória - Porfírio Coelho, António e Francisco Jorge, João Dias (Janita), João Ângelo e outros) e os alentejanos para operários, fixando-se nos arrabaldes industriais do Barreiro, Amadora e Moscavide).

Em Lisboa se manteve até 1958 – tinha, entretanto, casado em, em 8 de Abril de 1956, com Luísa Cordeiro Catarino - quando regressou à Ataíja, instalando-se na casa dos meus pais, agora minha, onde ficou até que construiu a sua, indo nós ocupar a “parte de casa” onde ele vivia, na cave de um prédio que já não existe, na Rua Luís Monteiro, nº 28, no Alto do Pina). 

Aproveitando a recente descoberta do valor comercial do vidraço de Ataíja, que o "Veneno" tinha começado a explorar pouco antes, começou também ele a escavar uma pedreira, num pequeno terreno no Vale Cordeiro que era propriedade do seu sogro, António Catarino. O negócio foi crescendo e a escola que, no tempo próprio, se tinha ficado pela segunda classe, foi retomada aos 37 anos quando, feita a quarta classe, pode tirar a carta de condução, e ter o seu primeiro automóvel.



O resto da história é conhecido:

Dotado de inteligência e carácter e impulsionado por uma enorme vontade de trabalhar, extraordinária visão empresarial, espírito inovador,  – Luís da Graça foi sempre um pioneiro, o primeiro a usar nas suas pedreiras cada uma das novas tecnologias e equipamentos que iam surgindo - e capacidade de gestão, o negócio não parou de crescer.

E, a par do negócio, apoiado na divisa que tanto gostava de repetir: “Quanto mais dou, mais tenho!”, cresceu o Benemérito:

Bombeiros, Misericórdias, Autarquias e Associações, de todas as terras onde exerceu actividade industrial, beneficiaram largamente dos donativos de Luís da Graça.



No dia 25 de Maio de 2008, a pretexto da inauguração do monumento aos Cabouqueiros que ofertou à Ataíja, foi objecto de uma grande e merecida homenagem que incluiu o descerramento do seu busto, cuja fotografia ilustra este texto

Manteve-se até perto dos oitenta anos de idade, à frente da sua empresa Sousa & Catarino, Lda (http://sousaecatarino.pt).

Pouco depois, o curso inexorável do tempo impôs-se e Luís da Graça deixou aos seus filhos a direcção efectiva da empresa.
Os últimos anos viveu-os no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça.

Luís da Graça de Sousa foi um grande industrial, um grande filantropo, um grande ataijense e foi um amigo.

Faleceu no dia 23 de outubro de 2021



----------------------------------------------------------------------------------
O texto acima foi inicialmente publicado em 22 de Março de 2011, actualizado em 23 de Outubro de 2021 e hoje, 30 de Maio de 2024, de novo actualizado, agora a pretexto da inserção do seu diploma da 4ª Classe, cuja disponibilização agradecemos ao seu neto Marcelo Paulino.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Gente da Ataíja de Cima - António Baptista Vigário - o António Sabino



Sob a epígrafe Gente da Ataíja de Cima pretendemos construir uma galeria que lembre aos mais velhos e ensine aos mais novos, algumas pessoas que, pelas suas características ou pela sua acção deixaram, na vida da aldeia, uma marca de importância que merece ser conhecida.
A transição da economia agrícola de subsistência, que durante séculos caracterizou a vida local, para a economia industrial que começou (e continua) pela extracção de pedra (a apreciada rocha ornamental que tem a designação comercial de Vidraço de Ataíja), a que se seguiu a faiança e agora, a transformação de pedra e todas as actividades subsidiárias que entretanto foram surgindo, por serem indispensáveis à vida normal de uma comunidade industrial e ao evoluir dos tempos. Essa transição, dizíamos, também teve os seus protagonistas.
Já falamos neste blog do pioneiro João Veneno e de Luís da Graça (VER AQUI).

Falemos, agora, de António Baptista Vigário, o António Sabino.



Nascido em 6 de Julho de 1932, foi um dos três filhos de Sabino[i] Vigário e de Joaquina Baptista e, pelo lado paterno, neto de José Lourenço e Luísa Sabino, alfaiates e bisneto de José Vigário e Ana Lourenço e de Sabino dos Santos, também alfaiate e Maria Branca.
Teve dois irmãos:
José, o mais velho dos três, já falecido e que fez a maior parte da sua vida “lá para Lisboa”[ii], também teve por alcunha o nome do pai e foi, por sua vez, ao que se dizia, responsável pela alcunha do Manuel “Mochila”. É que o José Sabino era acordeonista ou aprendiz de acordeonista[iii] e, transportava o instrumento às costas, à laia de mochila. O dito Manuel “Mochila” nasceu de mãe solteira e mais não é preciso contar que os filhos de mãe solteira eram, sempre, alcunhados por referência ao pai presumido.
O outro irmão, o mais novo, é o Arnaldo que, pela raridade - durante décadas, mesmo, singularidade - do nome, nunca precisou de alcunha.

Desde novo que o António Sabino mostrou apetência para os negócios e pouca vontade de seguir as pisadas do pai que era carreiro[iv] profissional e, nos tempos mortos da sua actividade principal, também arriscava o ofício de sapateiro, o qual exercia na Casa do Couto.
Negociar tudo o que podia ser negociado, fossem peles de coelho ou chinelos velhos e, no devido tempo, candonga de azeite, foram actividades a que o António Sabino se dedicou logo na adolescência, muitas vezes tendo por companheiro de aventuras o amigo Luís da Graça, apenas alguns meses mais velho.
Os negócios corriam bem como o demonstra o facto de, aos dezoito anos, ter sido emancipado para poder tirar a carta de condução e, de seguida, comprar (já nem o próprio se lembra bem, se em 1950, se em 1951) um automóvel, um velho Opel que foi o primeiro veículo automóvel ligeiro de passageiros que houve na Ataíja de Cima. (VER AQUI)

Em 4 de Março de 1956, aos 23 anos de idade, essa tendência para o negócio ficou definitiva e necessariamente fixada. Nesse dia, quando ia à "pendura" na moto (eu tinha a memória de que era uma Norton mas, há quem jure que era uma AJS) do seu amigo António Faustino Ribeiro, “O Mosca” o qual, por vezes, também era companheiro nas aventuras da candonga do azeite[v], um grave acidente levou-o por largo tempo ao hospital, deixou-o a coxear para o resto da vida e livrou-o, de vez, de ter de vir a trabalhar no campo ou em outra actividade de igual exigência física.

Por essa altura, tinha sido construída no Largo do Outeiro a “casa do Maneta”, destinada a armazém de alfaias, adubos e produtos agrícolas, taberna e casa do rancho[vi].
Curado tomou então, em 1957, a exploração da taberna e aí ficou durante cerca de seis anos, até ao seu casamento, em 1963.

Em 1959, tornou-se um dos pioneiros da exploração da pedra VIDRAÇO de ATAÍJA, abrindo uma pedreira nos Caramelos.
A pedreira ainda existe. É a Pedreira “Caramelo 3”, propriedade de Mármores Vigário, Lda.

Em data que não consegui apurar, por volta de 1969/70, foi episódico (durante cerca de um ano) proprietário, ou co-proprietário da Safaril[vii], a primeira fábrica de faiança que existiu na Ataíja de Cima[viii].

Em 1984 entrou em novo ramo de negócio abrindo, sempre na Ataíja de Cima, uma fábrica de recauchutagem de pneus.

Entretanto, em 1963, tinha-se casado com Maria do Rosário, oriunda das Pedreiras e, infelizmente, precocemente falecida. Para instalar a nova família, comprou a casa e quintal da Benedita (a Benedita era uma senhora que sempre conheci viúva e, vim a sabê-lo mais tarde, o era de um marido que tinha falecido “na América”, não tenho a certeza se nos EUA se no Canadá) e aí construiu uma casa de dois pisos, sendo o primeiro andar destinado à habitação e o rés-do-chão a taberna e mercearia.
Esta foi a primeira casa da Ataíja de Cima equipada, de raíz, com casa(s) de banho(s) (2).


Hoje, aos 82 anos de idade, o António Sabino contempla, com justificado orgulho, o trabalho dos filhos, o Rogério e o Luís que dão, brilhantemente, continuidade ao pioneirismo do pai, dedicando-se à extracção e transformação de pedra, através das empresas Mármores Vigário, Lda e MVC - Mármores de Alcobaça, Lda.

À MVC – Mármores de Alcobaça, Lda., uma empresa com instalações fabris de grande dimensão, altamente sofisticada, dotada dos equipamentos e tecnologias mais modernas, o que lhe permite produtos de grande qualidade e, consequentemente, actuar nos mais exigentes mercados de exportação, já dedicamos um texto neste blog. (VER AQUI)

Sítio de internet da MVC – Mármores de Alcobaça, Lda:




_______________________________________________

O texto acima foi publicado neste blog em 27 de setembro de 2014.

António Baptista Vigário, António Sabino, faleceu hoje, dia 04 de novembro de 2021, aos 89 anos, escassos dias após o seu amigo de sempre, Luis da Graça. Com ele, com eles, morre a geração de pioneiros que levou a Ataíja de Cima da agricultura de subsistência à economia industrial.






[i] Como é muito comum, o nome próprio do pai tornou-se alcunha do filho.
[ii] “lá para Lisboa” era uma expressão corrente que muitas vezes ouvi na boca de mulheres mais velhas que só escassamente faziam idéia de onde andavam os seus maridos e filhos.
[iii] É minha a hipótese de ter sido, apenas, aprendiz e nunca terá efectivamente feito carreira de acordeonista ou, então, desistiu cedo dela. É que nunca lhe conheci acordéon e nem me lembro de alguém, alguma vez, me ter dito que o ouviu tocar.
[iv] Carreiro, era o profissional que conduzia o seu carro de bois, com o qual faz transportes e, com as alfaias, - charrua, grade, trilho, etc. - prestava outros serviços agrícolas com a sua junta de bois (ou vacas, o que era o caso). Não confundir com abegão que desempenhava funções semelhantes mas enquanto trabalhador ao serviço de uma exploração agrícola.
[v] O cerrado controlo estatal sobre os abastecimentos alimentares que tinha atingido o seu pico durante a guerra com o racionamento, era o pretexto perfeito para o trânsito ilícito dos bens mais valiosos como o azeite.
[vi] Naquele tempo, em que não havia empregos fixos, eram cíclicas as deslocações de grandes grupos para tarefas agrícolas exigentes de muita mão-de-obra. Para a Ataíja, cujos campos eram um enorme mar de oliveiras, vinham, no devido tempo, grupos de pessoas – ranchos - de fora da aldeia para trabalhar na apanha da azeitona.
[vii] A fábrica começou a ser construída em 1969, na perspectiva da chegada da electricidade que viria a acontecer em Outubro desse ano. Embora a escritura de constituição da Safaril seja de 1972, o início da laboração é anterior.
[viii] Que adquiriu a uns tais Caetano e Fróis que julgo terem sido os empreendedores iniciais. Daquele Fróis, lembro-me de um dia em que, na adega do meu pai, bebeu mais do que a conta e foi o filho, então com uns escassos doze anos, quem conduziu o carro até a casa.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

A Rua de Nossa Senhora da Graça em Meados do Século XX




A agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça vai, a breve prazo, sofrer uma alteração profunda e duradoura com a construção do Centro Paroquial e Casa Mortuária, que vão ocupar a totalidade do espaço dos edifícios que foram propriedade de Sabino Vigário e, ainda, o que sobra do que foi a Rua da Penicheira, chegando à Rua de Traz.

É, por isso, adequado deixar aqui uma memória de como era, em meados do Séc. XX, aquela foi uma das principais ruas da aldeia e, naquele tempo, já tinha algumas peculiaridades. 
Desde logo, o nome que nunca soube ou que, de todo, me não lembra. E, no entanto, os homens precisam de dar nomes às coisas, pelo que é certo que aquela rua há-de ter tido um outro nome, antes de há cerca de vinte anos ter recebido o actual.
Depois, porque a rua era em alguns pontos mais estreita, por ter um piso mais acidentado, incluindo uma espécie de degrau, em frente da porta da escola, e uma enorme lage que a estrangulava em frente da casa de Manuel Branco (esta casa não tinha alicerces e assentava sobre a dita lage), ou por não haver nela qualquer portão de pátio, (salvo o pequeno portão que se vê na foto junta), o certo é que a rua era, na prática, pedonal.

Começando lá por baixo, pelo largo do Fundo da Igreja:
Do lado direito, a norte, havia um lagar. O edifício ainda lá está e funciona agora como garagem do Diamantino Pereira. Tratava-se, certamente e vistas as suas dimensões, de um lagar de vinho. As virgens onde articulava a vara ainda são bem visíveis na parede que, precisamente, confina com a nossa rua. Há sessenta anos, essa parede não era rebocada e as virgens eram visíveis do exterior, embutidas na parede, no que me parecia, quando ainda não conhecia o interior, uma antiga e estreita porta emparedada.
Do lado sul, a capela. Sem a sacristia que, naquele tempo era do outro lado, provocando um estrangulamento da estrada que só foi eliminado na segunda metade dos anos de 1970, aquando do alcatroamento e da construção da sacristia actual.
Ao lagar seguia-se a casa de Maria Serafina ou Maria Constantina (era filha de Serafina dos Santos e de Constantino dos Santos, ambos enjeitados) que aí vivia viúva e só, estando a filha Delfina já casada na Rua dos Arneiros.
Logo, adossada, a casa de Manuel Maurício e da sua mulher Silvina. Esta era natural do Lorvão e foi a parteira que ajudou a nascer muitos ataíjenses. Naquele tempo, ainda ali viviam alguns dos filhos que foram, ao que julgo, quatro. Um Manuel, uma Zaida, uma Isaura e o António (da Silvina) que já estava casado, nas Pedras Brancas, num casal que fora da bisavó da sua mulher, e tem um poço, O Poço do Moura, de que já falamos neste blog.
Estas duas casas, as da Silvina e as da Maria Serafina são hoje propriedade de João Salgueiro, foram objecto de obras profundas e estão unidas em uma única residência.
Segue-se uma antiga casa de habitação que naquele tempo já era um palheiro de José Ribeiro, hoje do neto Vitor que a utiliza ou utilizou, como garagem e a casa que era da viúva Maria “da Serra” que foi casada com António Agostinho, meu tio-avô. Tiverem três filhos. O António Agostinho, a Joaquina “da Serra” que foi casada com Francisco Salgueiro e a Maria “da Serra” que foi casada com José Veríssimo. Esta casa foi, posteriormente, adquirida por José “Rebolão” e até há pouco tempo aí viveu a sua viúva, falecida em 1.1.2018.
Segue-se uma pequena travessa que liga à Rua de Trás e ligava, também, à desaparecida A Rua da Penicheira.

Seguem-se uns palheiros que hoje são do José Constantino (Zé Gordo) e, depois, o lugar onde eram as casas que foram de Sabino Vigário e onde este vivia com a sua esposa Joaquina Baptista e os filhos, António “Sabino” e Arnaldo, ainda solteiros, enquanto o mais velho, José, estava “lá para Lisboa”. Seguiam-se mais duas casas do mesmo dono. Uma, pequena, que sempre conheci sem telhado e, entre esta e a de residência, havia uma outra casa onde ele fazia biscates de sapateiro e, por isso, a família chamava de casa do ofício, mas outros chamavam de A Casa do Couto, por a certa altura ter sido propriedade de um comerciante alcobacense desse nome.

Do lado sul, à igreja segue-se o adro que, naquele tempo, era bastante mais pequeno pois lá faltam a  A Escola e o palheiro ou casa do Mira.
Segue-se adega que foi de José Ribeiro e hoje é do neto Rafael mas que não tem acesso senão pela Estrada do Lagar dos Frades. Segue-se a casa onde, naquele tempo, vivia, ainda solteiro, José Henriques, Também conhecido por José Neto e, vulgarmente, por Zé Diabo, primo de um outro José Henriques, também José Neto, conhecido por José Carago. Esta casa foi depois vendida e aí viveu a Badalhoiça com o seu filho Francisco “Casalinho”. 
Encostada, ainda lá está uma pequena casa que pertenceu aos pais do dito José Diabo. Casa antiga onde foi criado o enjeitado Tomé dos Santos, avô de Francisco Rosa Tomé e de Manuel Carlos Tomé que aí estão, vivos, felizmente e de, pelo menos, três raparigas, já falecidas.
Vem, depois, a casa onde viviam o “Cuco”, a sua mulher Teresa Neto, falecida de Tétano, e três filhos. Encostada a esta última estava a casa da “Viana” ou da “Biana”, que o meu tio Porfírio Coelho usava como arrecadação. 
Estas duas casas estão hoje recuperadas e unidas e nelas reside o Paulo Carreira, “o Rodinhas”.
Seguia-se (segue-se) um espaço onde antes houve casas, mas que nos anos cinquenta já era local de depósito de lenhas e, depois, uma pequena construção que agora tem dois pisos mas, naquele tempo, era apenas o palheiro onde vivia o burro do ti Manuel Branco.
Voltando ao lado norte da rua, aos cómodos de Sabino Vigário segue-se a casa que foi do meu tio Porfírio Coelho que então aí vivia com a sua segunda mulher, a minha tia Luísa e cinco filhos e no pátio da qual foi, posteriormente, construída a casa onde hoje vive a viúva do meu primo João “Porfírio”. 
A seguir, uma  travessa que liga ao largo que se forma na Rua de Trás e para onde dão o que resta da Rua da Penicheira e um beco onde havia a casa de O Padrinho Fialho , então já falecido, aquela onde vivia a minha tia Ana como o marido, dois filhos e a sogra viúva e o alpendre das traseiras da casa do ti João Redondo, hoje, tudo, propriedade do José Luís.
Voltando à Rua de Nossa Senhora da Graça, a seguir à dita travessa vem a casa, que ainda lá está, de António Daniel, o ti António Seabra, que aí vivia, julgo que já viúvo, com as três filhas e um filho, todos ainda solteiros.
Agora que a filha Maria, que a habitou nas últimas décadas, está internada num lar de idosos, o destino da casa está, talvez, traçado. O que é pena porque se trata como se vê a um simples olhar, de construção antiquíssima, uma das mais antigas, das poucas antigas que se mantém de pé na Ataíja de Cima. Ora, nesta coisa de conservar edifícios antigos, os mais fáceis de conservar são os mais ricos. A evidente modéstia da casa do Seabra fará, talvez, com que espíritos práticos achem que não merece ser conservada. É pena.
Seguiam-se a casa de Manuel Branco e Maria Custódia que sempre conheci sozinhos. Conheci-lhes, pelo menos, um filho. Um Manuel “Custódio” que morava para os Covões ou Lagoa do Cão, se me não falha a memória. A casa era minúscula e possuía um pequeno pátio nas traseiras. Não havendo outra serventia, tudo entrava e saía do pátio pela porta da casa.
No dito pátio viveu uma porca que, um dia, comeu o braço de uma criança filha do casal. 
Encostada, estava a casa dos meus avós paternos, onde vivi entre os meus três e dez anos de idade e, depois disso passei muitas vezes, as férias grandes. Mas, isso, são contas de outro rosário.
Esta casa já estava no pequeno largo formado pelo entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades, mas sendo esta muito mais recente, temos de considerar que a nossa rua seguia até onde está o supermercado da Lúcia “do Serrano”, onde, naquele tempo, eram as casas de Alfredo Ângelo da Silva. Antes dela, a casa, que agora é de Manuel Tomé e Francelina e, nos anos de mil novecentos e cinquenta, era de Maria “Caseira” e de seu marido Manuel “Barra”, no que eram as segundas núpcias dela, que tinha perdido o primeiro marido nas trágicas circunstâncias que descrevo no post Tétano, já acima mencionado.

Tudo visto, moram actualmente nesta rua umas oito pessoas. 

Há sessenta anos moravam aí mais de quarenta 


Vista actual (8-9-2019), da casa que foi de António Daniel, O Seabra




quinta-feira, 23 de maio de 2019

Gente da Ataíja de Cima – José Sabino – o José Coelho

.



José Sabino que foi por todos conhecido como José Coelho, nasceu na Ataíja de Cima em 29 de Janeiro de 1920 e faleceu em 13 de Outubro de 1991.

Era filho de Francisco Sabino que teve uma vida aventurosa, incluindo a imigração para a América (New Beresford, Massachusetts)  e morreu jovem, com 41 anos de idade e de Maria Coelho, tecedeira de mantas e tapetes de trapo.

Ficou órfão de pai com vinte e um meses de idade e veio a casar, em Dezembro de 1944 com Joaquina Rosalia de Sousa, conhecida por Joaquina Rosalia, tendo construído a casa que ainda existe no largo do Outeiro.

A falta de trabalho que então havia na Ataíja, a necessidade de fazer face ao sustento da família que começava a crescer rapidamente e a de pagar as dívidas resultantes da construção do lar familiar, obrigaram-no a seguir o caminho que era, então, o de quase todos os homens ataíjenses: a emigração sazonal, para trabalhos agrícolas nas quintas da região de Lisboa.

Acabou por se fixar, primeiro como vaqueiro e por fim como caseiro, numa quinta em Camarate onde, em 1953, juntou a família.

Tinha então quatro filhos, (entre eles o Américo de Sousa Sabino, já mais de uma vez, justamente, referido neste blog) e aí haviam de nascer mais outros quatro.

Manteve sempre uma estreita ligação à Ataíja e um forte empenho no progresso da aldeia, sendo de destacar a doação que fez do terreno para se construir a actual Escola Básica de 1.º Ciclo e Jardim de Infância, bem como a actividade que desenvolveu na comissão que, nos anos de 1975 e 1976, muito trabalhou para conseguir o alcatroamento da estrada municipal n.º 553 que liga a EN 8 em Aljubarrota à Ataíja de Cima e ao IC 2, passando pelo Cadoiço.

Faleceu em 13 de Outubro de 1991, depois de ter regressado à aldeia, quando a quinta de Camarate, nos arredores de Lisboa, onde vivera e criara os filhos, começou a ceder à pressão imobiliária que, entretanto, a submergiu.

Nessa quinta existe hoje uma rua com o seu nome e, assim, o José Coelho é, tanto quanto sei, o único ataijense a ter uma rua, ou outro espaço público, com o seu nome.

Foi por deliberação da Câmara Municipalde Loures, tomada na reunião ordinária de 18 de Janeiro de 2012 que, acolhendo a proposta aprovada, em 29 de Abril de 2011, pela Assembleia de Freguesia de Camarate, foi dado o nomede José Sabino à Rua sita na Quinta da Marvila, em Camarate, com início na Rua dos Escuteiros e fim na Rua Quinta da Marvila.

Da proposta e como seu fundamento, consta uma breve biografia de José Sabino que de seguida transcrevemos:

          "José Sabino, mais conhecido por Zé Coelho, nasceu em Ataíja de Cima, Aljubarrota - Alcobaça.
          José Sabino fixou-se em Camarate por volta de 1950. Trabalhou na "Quinta dos Militões" e explorou a Quinta das Areias, Quinta da Arieira, Quinta dos Polvorais, Quinta do Salter e Terras do Grilo.
          Em 1953 tornou-de rendeiro da Quinta da Marvila, onde se manteve até ao fim dos seus dias.
          Em 1983 adquiriu para propriedade sua parte da Quinta que fora rendeiro muitos anos.
          Nos terrenos sob sua administração, sempre houve lugar ao acolhimento de pessoas particularmente carenciadas e para famílias pobres, a quem cedia pequenas parcelas de terreno, para cultivo próprio, proporcionando meios de subsistência.
          José Sabino foi o impulsionador do Jardim de Infância Nossa Senhora dos Anjos em Camarate, e de igual modo esteve envolvido na reconstrução/remodelação das instalações do Grupo Desportivo Águias de Camarate.
          A actual sede das actividades do Corpo Nacional de Escutas fora um edifício que foi sua pertença.
          Nasceu em 20/1/1920, faleceu em 13/10/1991."


A colecção das cartas que trocou com sua mulher, entre 1948 e 1952, nos anos em que – forçados pelas contingências económicas - viveram separados, ela na Ataíja cuidando das poucas terras familiares e dos filhos e ele em Camarate, constitue um importante acervo documental, um raro e poderoso testemunho, sobre as condições de vida na nossa região em meados do Séc. XX.

.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Gente da Ataíja de Cima - Francisco da Silva Salgueiro - O Chico Patoixo




Como já anteriormente escrevi, esta rubrica - Gente da Ataíja de Cima -, serve para trazer aqui histórias de pessoas extraordinárias, incomuns, pessoas que, por alguma razão, fosse a singularidade da sua condição ou inteligência, a importância das suas acções ou os acasos da vida, se tornaram diferentes dos demais mortais que as rodeavam ou rodeiam e tiveram, ou têm, papel relevante na vida da aldeia.

É por isso que agora vamos falar do Chico Patoixo que, pela sua intensa actividade empresarial e desportiva, foi um dos protagonistas da transição da economia agrícola de subsistência, para a economia industrial e de serviços.

Eu e o Francisco da Silva Salgueiro (Patoixo é alcunha herdada da mãe, Ana Lourenço da Silva, recentemente falecida aos 96 anos) nascemos, ele dois anos antes, em 11-12-1946, a escassos metros de distância, pegados que são os terenos onde se situa a casa que foi dos meus pais e aquele onde se impantaram as que foram de seus pais e dos avós maternos.
Embora o seu avô, e também o seu pai, possuísse uma casa mais abastada do que a generalidade dos ataijenses, isso não o livrou do percurso comum aos rapazes da sua idade, pelo que terminada a quarta, se seguiu a quinta, quer dizer, feito o então ensino obrigatório, a quarta classe, (hoje quarto ano) a sua ocupação passou a ser o trabalho do campo nas terras familiares.

Mas, se o trabalho do campo não era, por si, especialmente atractivo, menos o era quando prestado exclusivamente e sem remuneração nas terras familiares.

Por isso, logo que pode, em 1964, com dezoito anos, o Francisco tratou de fugir ao diário jugo paterno e foi trabalhar para a Cerâmica Vala, uma das grandes fábricas de telha e tijolo das muitas que então havia na Cruz da Légua e arredores.
Seguiu-se, entre 1966 e 1968, o serviço militar, incluindo dois anos na Guerra Colonial, na Guiné.
De regresso, voltou a trabalhar na Cerâmica Vala e aí se manteve até ao início de 1972 quando se casou com Luísa Gomes Henriques.
Logo de seguida, em Maio desse ano, emigrou com a mulher para França, para a região da Loire onde, em Blois, se dedicaram à apanha de morangos.
No ano seguinte mudaram-se para Orleans, ainda na Loire e aí trabalharam em estufas e na condução de máquinas agrícolas até 1977, quando se mudou para Valence, onde trabalhou numa empresa de limpezas e lhe nasceu a única filha.

Regressou a Portugal em 1985.

Nesse ano de 1985 abriu o restaurante Apeadeiro, junto ao entroncamento da Estrada do Lagar dos Frades com a Estrada Nacional nº 1, um lugar então pouco mais do que desértico (havia por ali, desde há alguns anos, a fábrica de cerâmica decorativa Safaril e pouco mais), pelo que a clientela prevista do restaurante seria constituída pelos passantes da EN 1, designadamente os motoristas de camião. Mas, se o restaurante nunca chegou a encher-se de camionistas, em contrapartida o aparecimento de diversas unidades industriais nas redondezas trouxe uma nova clientela que se mantém.
O nome Apeadeiro deve-se ao facto de ali fazer paragem, quando solicitado, o autocarro da carreira Expresso que ligava Leiria a Lisboa.


Deixando a mulher no restaurante, logo no ano seguinte, em 1986, criou a LIMPEC, que foi a primeira empresa de limpezas que houve em toda a região.
Hoje são vulgares as empresas de limpeza e todas as grandes e médias e muitas pequenas empresas, os bancos e os organismos públicos etc, contratam a limpeza das suas instalações a empresas  especializadas mas, quando o Francisco Salgueiro criou a LIMPEC não havia nada disso, salvo em Lisboa e poucas outras cidades do país.
A sua decisão, baseada na experiência que obteve em França, foi absolutamente inovadora.

Entre 1989 e 2001 foi o Presidente e a alma do Clube Desportivo e Recreativo Ataíjense, que hoje está inactivo mas nesse período chegou a militar no Campeonato da 1ª Divisão da Associação de Futebol de Leiria.
Ao Clube Desportivo e Recreativo Ataijense dedicámos, anteriormente, dois textos neste blog, aos quais os leitores interessados podem aceder clicando (CRTL+Clique) AQUI e 
 AQUI

Entretanto, em 1994, criou uma nova empresa de limpezas, a Restaurilimpa, Lda, a qual se mantém em plena actividade, agora com novos proprietários e sede em Alfeizerão, Alcobaça.

Por esta época, remodelou a casa e cómodos (adega e palheiro das vacas) que foram de seu avô Francisco Dionísio (Francisco da Silva Vigário, Dionísio por ser filho de Dionízia dos Santos) e, em 1996, ali abriu um café-restaurante, um mini-mercado e uma loja “dos trezentos”, tudo sob a designação de Novo Espaço.
No local, exactamente onde eram o palheiro das vacas e a eira onde muito brinquei quando era pequeno, funciona actualmente, por arrendamento, o café-restaurante e padaria Pátio dos Sabores.

No ano de 2000, no que julgo ter sido a sua última iniciativa empresarial criou, ainda, a empresa Mega Serviços de Francisco Salgueiro, Unipessoal Lda que dissolveu em 2015.

Em 2010 e após profundas obras de remodelação e modernização, o restaurante Apeadeiro reabriu com o novo nome de Doces Sabores e mantém-se ainda hoje na sua propriedade, embora já não sobre a sua gerência e, com uma excelente relação qualidade preço, é um bom restaurante cuja cozinha, dirigida pelo Chef Carlos Roxo, atrai comensais de toda a região.

Ao restaurante Doces Sabores dedicámos, antes, o texto com o mesmo nome, a que os leitores podem aceder (CRTL+Clique) 
AQUI


Por tudo isto, o Chico Patoixo é um dos protagonistas do processo de modernização da Ataíja de Cima e merece bem integrar esta galeria de ataijenses extraordinários.

Em Maio de 1999, o Chico Patoixo (de pé, 2º, da direita para a esquerda) com a "sua" equipa do Grupo Desportivo e Recreativo Ataíjense, 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Gente da Ataíja de Cima - Emília Florinda - A Perna-Torta


Emília Florinda, filha de José Constantino, nascida em data que não logrei apurar, na primeira metade da década de 1930 e falecida em data que, igualmente, desconheço, tinha a alcunha de A Perna-Torta devido à deficiência física de que sofria.

Era de estatura diminuta, já que sofria de nanismo desproporcional severo e ambas as tíbias apresentavam forte curvatura, o que justificava a alcunha e a obrigava a um andar bamboleante.

A primeira vez que vi um espectáculo circense, algures por meados dos anos de mil novecentos e cinquenta, foi com um pequeno grupo, uma família de saltimbancos que se deslocava em modesta carroça puxada por uma mula velha e com ar de estar mal alimentada.

Foi ao lado da taberna do Sarrano e encostado à parede do quintal da Riteira - Riteira era a alcunha de uma senhora já velha e viúva de quem nunca soube o nome (Ana, talvez, mas não tenho certezas) e que sempre conheci vivendo com a sua filha Maria Cordeira e o genro Manuel Matias - a tal parede delimitava o terreno no exacto sítio onde hoje se encontra a casa do Pirata, aliás, irmão da Perna-Torta e foi em plena rua, aproveitando o pequeno largo que ali se forma, que a troupe montou o seu estaminé e lá foi fazendo as suas habilidades, à luz de um petromax, enquanto um passo atrás, mesmo colada à parede, a mulher mais velha ia preparando, numa trempe, a ceia da companhia.

As labaredas ajudavam à iluminação do ambiente já que, naquele tempo as noites, salvo as de luar, eram puro breu, pois não havia electricidade na Ataíja de Cima.

O palco era  na traseira da carroça, o que permitia ao chefe esticar o braço lá para dentro e retirar algum adereço necessário à função. Os espectadores dispuseram-se em semi-círculo ao redor, as crianças colocadas à frente, misturadas com os mais precavidos, estes, sentados em cadeiras ou tripeças que tinham trazido de casa.

Um dos números precisava de um anel ou aliança, coisa que quase ninguém usava.
A Perna-Torta, naturalmente, estava na fila da frente e tinha um anel que, depois de muitas insistências, disponibilizou ao mágico o qual, obviamente, o fez desaparecer no lenço.

Seguiram-se outros números e do anel, nada.

Às tantas, quando o espectáculo se aproximava do final e o speaker já anunciava que a troupe iria comer a ceia que a velha tinha preparado, a inquietude da Perna-Torna alastrou-se à assistência e levantou-se um grande sururu, com toda a gente a reclamar a devolução do anel.
As coisas estavam quase a azedar e em vias de fazer perigar a integridade física dos artistas, (o chefe da troupe, experiente, esticou a corda até quase ao limite) quando, em milagre muito aplaudido, o anel, afinal, estava dentro de uma das batatas acabadas de cozer.





Nota: Uma primeira versão deste texto, que agora se substitui, foi aqui publicada em 24-10-2010

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O Moleiro



Ainda estão vivos alguns que se podem lembrar de ter ouvido os seus búzios assobiar ou de ter visto as suas velas a rodar ao vento, mas as memórias começam a ficar difusas e, dele, não se conhecem fotografias ou desenhos, mas não havia de ser muito diferente (ao menos no que diz respeito ao mecanismo de moagem) do que se mostra no desenho abaixo, o moinho de vento que, algures pelos finais dos anos 30 ou inícios dos anos 40 do século passado, o ti Manuel Luís mandou construir no quintal.

Teve curta duração e dele não há ruínas ou quaisquer indícios que atestem a sua existência, já que se erguia no lugar onde depois foi construída a casa de João Frade, filho do proprietário, mesmo ao lado de onde agora está a do neto Zé Frade, um lugar alto aonde o vento podia chegar, sem obstáculos, de todas as direcções.

Ali se moía o milho de que se fazia a broa dos vizinhos e o próprio e das maquias com que se alimentava a numerosa prole e algum trigo para o pão-alvo dos domingos e dias santos.

Mas, naqueles dias de Agosto, havia mais de uma semana que sobre a terra tinha caído uma calmaria tal que nem as folhas das nogueiras buliam. Nada, nem uma brisa ligeira. Apenas, dia sobre dia, aquele calor seco que tão bem conhecemos, quando o sol queima na pele, os pássaros não voam, os cães se arrastam nas sombras e só o canto das cigarras rasga o silêncio.

Era Domingo. Talvez no ano de 1941 ou 1942, quando a Europa sofria sob a guerra e Portugal sofria sob a pobreza de sempre, agora agravada pelo racionamento. Na casa da ti Maria da Graça o pão, fossem os restos do pão-alvo do domingo passado, fosse a broa semanal, já tinham acabado. Nem uma côdea sobrava na arca.

O Padre Casimiro marcava as missas em São Vicente para muito cedo, quase de madrugada, o que por outro lado era bom que, assim, não tinha a gente de torrar sob o sol naquela viagem de seis quilómetros, ida e volta. 

Estava todo o povo na missa, as mulheres e as crianças pequenas no corpo da igreja, os homens ocupando a capela-mor e o coro, como era uso naquele tempo e ainda me lembra e o meu pai contava-me que, quando ele era pequeno e ainda ficava com a mãe no corpo da igreja, que se os homens se ajoelhavam, (apenas o joelho esquerdo no chão, mão direita segurando firmemente o pau, cotovelo apoiado na coxa) ficava a capela-mor feita uma floresta de paus. Nos anos cinquenta os paus já tinham desaparecido – pelo menos da missa - mas o resto mantinha-se muito parecido.

Estava o povo na missa, dizia eu, e o ti António da Graça, então um jovem dos seus dezoito ou dezanove anos, assistia no coro quando ouviu lá fora o rumor de uma rabanada de vento. Benzeu-se à pressa, desceu à rua e, não havia dúvidas, fazia um vento suão que levantava a poeira seca dos caminhos.

 Não pensou duas vezes: desatou a correr quanto pode e, num ápice, galgou os três quilómetros que o separavam de casa e do moinho. Despiu a camisa domingueira que o suor colara ao corpo e foi-se ao moinho. Verificou brevemente o engenho. Desenrolou as velas e amarou-as às varas das escotas.  Despejou a saca de trigo no tegão. Manobrou o sarilho, fazendo girar o capelo para alinhar as velas com a direcção do vento.
Sob a força da entrosga todo o engenho rangeu e a mó andadeira começou a rodar, o grão a escorrer pela calha e a farinha a surdir no panal.


Acabada a missa, a ti Maria da Graça vasculhou o adro em busca do filho que não encontrou. Levantou o rosto para sueste e os seus olhos saltaram o vale e chegaram ao seu moinho e pode ver, destacando-se no cenário de fundo da serra dos Candeeiros, as velas brancas a girar.

Graças a Deus!

O meu António já tem o moinho a trabalhar!

Estugou o passo e, também ela, chegou ofegante a casa e ao moinho onde o António já tinha a farinha suficiente. Peneirou-a e amassou-a brevemente, abafou-a com uma manta para levedar mais depressa e, usando o azeite que, esse, felizmente, ainda abundava na talha, fez filhoses que polvilhou moderadamente com açúcar e esse foi o almoço de todos.


Corte longitudinal de um moinho de vento, permitindo ver o mecanismo 
(imagem retirada, com a devida vénia, de Museu da Memória Rural, uma realização da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, com um excelente site na internet, in https://museudamemoriarural.pt/)

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Na Rua dos Arneiros



Regularmente me tenho queixado neste blog da escassez de fotografias capazes de documentar o quotidiano ataijense e a sua evolução.

Muito gostaria de poder publicar mais fotos mas para isso é necessária a colaboração dos leitores ataijenses que as possuam.

Todas têm interesse, quando mostrem pessoas ou situações do passado ataijense. Sobretudo, têm muito interesse para as gerações mais jovens que devem poder conhecer o passado porque, sem se conhecer o passado não é fácil perspectivar o futuro.

Não desisti, ainda, de aqui reunir um repositório, também fotográfico, do que foram, na nossa aldeia, as décadas mais recentes e todo o século XX.
Talvez, com a colaboração de todos, seja possível fazer sobre a Ataíja de Cima algo como está a ser feito para Turquel e pode ser visto em:  https://sites.google.com/site/turquelvelhinho/

Por hoje, ficamos com uma excelente fotografia da autoria do fotógrafo Rogério Coelho, da Maiorga, o qual em Agosto de 2013 fotografou na Rua dos Arneiros uma cena que não nos é desconhecida, mas que ele encenou com grande qualidade e apuro estético.

Ao Rogério Coelho os nossos agradecimentos por ter autorizado a reprodução no blog deste seu excelente trabalho.




De pé, três amigos franceses do fotógrafo Rogério Coelho. Sentados, da esquerda para a direita: Zé Delfino, Zé Maçarico, Avelino, Chico Nazaré [já falecido] Almerindo, João Pérídes e Diogo.

sábado, 10 de março de 2018

Francisco Veríssimo

(um quase padre na Ataíja de Cima do Séc. XIX ou, as incongruências da memória)

(assento do primeiro casamento de Francisco Veríssimo)

Desde criança que me lembro de ouvir a história:

Francisco Veríssimo estava prestes a terminar os estudos para padre quando, numa mesma semana, lhe faleceram pai e mãe, em consequência do que abandonou os estudos.
Dizem uns que por desgosto, dizem outros que por necessidade de tomar conta da sua “Casa”.
Veio a casar uma primeira vez e, tendo viuvado, casou de novo, tinha então 72 anos e a mulher 25.
Deste segundo casamento nasceram dois filhos e faleceram, ambos os cônjuges, com a idade de 98 anos.

A última vez que ouvi a história, de boca autorizada, foi ao seu neto João Veríssimo que para tanto o interpelei, não muito antes do seu falecimento ocorrido em 2013.
Nessa conversa o ti João Veríssimo confirmou a história, ponto por ponto, tal como sempre a ouvi e acima transcrevo.

O assento do óbito de Francisco Veríssimo, ocorrido em 11.11.1894, diz que ele faleceu no estado de casado com Joaquina Coelho, sendo filho de Veríssimo Amado e de Ana Lopes e tendo a idade de 98 anos, o que parece confirmar a tradição.


Mas, este é um dos casos em que não só a memória não é confirmada pelos factos, como se verifica que apenas um documento não chega para certificar a verdade.
É o que, adiante, se verá.

Os factos históricos comprovados são os seguintes:

Veríssimo Amado, lavrador, filho de Manuel Amado Rebelo e de Luísa Pereira, já era casado com Ana Maria em 1787, quando foram pais de João, baptizado em 30 de Maio desse ano. Podemos, assim, admitir que o Veríssimo Amado terá nascido cerca de trinta anos antes, o que nos leva para os anos de 1755 a 1760, seja, a época do terramoto.

O apelido Amado já existia na Ataíja desde há mais de cento e cinquenta anos antes e aí chegara vindo de Aljubarrota, através de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, este, descendente de D. João II, fidalgo com Carta de Brasão de Armas de 17.06.1545.
Nos cerca de noventa anos que vão de 1721 até, 1807, vésperas das Invasões Francesas, o apelido Amado aparece-nos sempre intimamente ligado às elites locais[i].
De facto, nesse período, encontramos José Gomes Anes Amado de Azambuja, nascido em Aljubarrota, fidalgo de Cota de Armas, por Carta de 5.10.1721; Joaquim de Sousa Amado, Capitão de Ordenanças da Vila de Aljubarrota, por Carta patente de 24.10.1785; José Tavares Amado e Azambuja, nomeado capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota em 21-04-1790 (por morte do Capitão Veríssimo de Sousa Henriques) e, em 1804 e 1807, há notícias de um alferes José Tavares ou José Tavares Amado, de Aljubarrota.

O nome próprio do nosso Veríssimo Amado, esse, bem que poderia ser uma homenagem ao mártir[ii] mas, é nossa convicção de que a razão estará mais próxima, já que o vamos encontrar em Veríssimo de Sousa Henriques, capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota, falecido, como já vimos, antes de 21.04.1790.

Talvez não seja, assim, demasiado temerário pensar que o Manuel Amado Rebelo pertencia à mesma família dos demais Amados que, naquela época, encontramos em Aljubarrota desempenhando importantes cargos e que dessa importância social resultaram as relações que terão levado o Capitão Veríssimo de Sousa Henriques a apadrinhar a criança que tomou o nome de Veríssimo Amado.[iii]

Consultando os assentos de baptismo, da freguesia de São Vicente de Aljubarrota, encontram-se registos de Veríssimo Amado ter tido 5 filhos: João, nascido em 1787; Joaquim, nascido em 1793; Maria, nascida em 1796; Luís, nascido em 1799 e Francisco, nascido em 1806.
Destes, por enquanto e para além do Francisco que é objecto deste texto, apenas sabemos que o Joaquim viveu até aos 67 anos, vindo a falecer em 21.12.1860, no estado de viúvo de Joaquina Marques e não teve filhos.
Parece ter havido uma sexta filha, Joaquina, de que não encontrei o assento de baptismo mas, encontrei o assento de casamento com Luís Dias (em 5.11.1826) e os assentos de baptismo (em 1827, 1830 e 1842) de três filhos seus e onde é identificada como Joaquina Mónica ou Joaquina Veríssimo, filha de Veríssimo Amado e de Ana Maria.

Sabemos, assim, que o Francisco Veríssimo era o mais novo dos filhos de Veríssimo Amado, lavrador e de Ana Maria, também dita Ana Lopes ou Ana Vicente e neto paterno de Manuel Amado, ou Manuel Amado Rebelo, lavrador, da Ataíja de Cima e Luísa Pereira, esta, dos Casais de Santa Teresa onde estes avós paternos moravam e neto materno de Vicente Coelho, lavrador e de Maria Francisca, ambos da Ataíja de Cima, onde moravam.

Sabemos que o Francisco Veríssimo se casou duas vezes :
Uma primeira vez, em 25 de Novembro de 1849, com Rosa Coelho, a qual faleceu em 10-11-1860, com a idade de 53 anos e que era filha de João Coelho e Sebastiana Bernardo.
Consequentemente, trata-se da mesma Rosa, nascida nos Casais de Santa Teresa em 01-11-1807, filha de João Coelho, dos Casais de Santa Teresa e de Sebastiana Bernarda, da Ataíja de Cima, neta paterna de José Coelho da Cabeça dos Casais de Santa Teresa e de Mariana de Sousa da Ataíja de Cima e materna de Bernardo João e Maria Vicente, ambos da Ataíja de Cima.

Deste primeiro casamento não consta que tenha havido filhos.

Em segundas núpcias dele, após seis anos de viuvez, em 30-11-1866, diz-nos o respectivo assento de casamento, o Francisco Veríssimo, então com 60 anos de idade, viúvo de Rosa Coelho ligou-se a Joaquina da Costa, solteira, de 22 anos de idade, filha de Joaquim Coelho e de Maria da Costa, esta natural de Lisboa, neta paterna de Francisco Coelho, lavrador e de Rosa Vicente e materna de António da Costa, proprietário, natural de Asseiceira, Tomar e de Luísa Maria, da Ataíja de Cima.
Este assento, como verificamos, dá o Francisco Veríssimo como tendo, então, a idade de 60 anos ou seja, confirma que ele nasceu em 1806.

De acordo com o respectivo assento de óbito, em 11.11.1894, faleceu o “…Francisco Veríssimo, casado com Joaquina Coelho, trabalhador, da idade de noventa e oito anos …”
Mas, se como vimos e parece certo, o Francisco Veríssimo nasceu em 1806, então, diferentemente do que dizem o assento e a tradição, faleceu com a idade de 88 anos e não de noventa e oito anos, .

Mas, a história que a tradição oral conservou tem outras incongruências já que, de acordo com os respectivos assentos:

Em 18-07-1832 faleceu Veríssimo Amado, casado com Ana Maria.
Em 17-01-1845 faleceu Ana Lopes, viúva de Veríssimo Amado.
Ou seja, diferentemente da tradição, o pai e a mãe do Francisco Veríssimo não morreram na mesma semana, antes, com treze anos de diferença.

Parece, pois, poder concluir-se que a história de Francisco Veríssimo se terá passado de modo algo diferente:

Francisco Veríssimo, filho de Veríssimo Amado e de Ana Maria, ou Ana Lopes, andava a estudar para padre e, em 1832 quando tinha 26 anos de idade e esses estudos estavam quase concluídos, faleceu o seu pai.

Terá sido por isso e por essa altura que, levado pela tristeza e o desgosto, como diz a tradição ou, qualquer outra razão mais prosaica,abandonou os estudos e regressou à Ataíja de Cima onde, seguindo a tradição familiar, se tornou agricultor.
A hipótese de ser movido pela necessidade de tomar conta da “Casa” agrícola também precisa de melhores argumentos já que, nesse tempo, estaria na casa, ainda solteiro, o seu irmão Joaquim, então com cerca de trinta e nove anos de idade. Porque razão não tomou este o encargo? Tanto mais que a destinação de um filho a Padre, pressupunha  que a direcção da casa agrícola estava destinada a outro, ou outros dos irmãos. Para intentar resolver melhor estas dúvidas precisávamos de conhecer a situação concreta de cada um deles. 

Seja como for, o que os registos paroquiais mostram é que o Francisco Veríssimo casou pela primeira vez com Rosa Coelho, ou Rosa Vicente, nascida nos Casais de Santa Teresa, a qual veio a falecer com a idade de 53 anos, em 1860.
O casamento foi celebrado, sob licença do Vigário paroquial, o ataijense Luis João de Sousa, pelo Reverendo Rufino José da Fonseca, da Vila, na capela de Nossa Senhora da Graça, da Ataíja de Cima, em 25 de Novembro de 1849 tinha então o Francisco a idade de 43 anos e a noiva a idade de 42 anos.
Não se conhecem filhos deste casamento.

Na data em que se realizou este primeiro casamento do Francisco Veríssimo, já o seu pai havia falecido há dezassete anos e a mãe há quase cinco anos.

Após 6 anos de viuvez, em 1866, o Francisco Veríssimo, então com a idade de 60 anos casou, em segundas núpcias dele, com Joaquina da Costa ou Joaquina Coelho, solteira de 22 anos de idade.

Deste casamento nasceram, pelo menos, dois filhos:
- José, falecido em 15.9.1883, com 14 anos de idade;
- João o qual veio a casar com Maria Ribeiro, dos Casais de Santa Teresa, filha de Joaquim d'Horta Moura e de Maria Ribeira e foram pais de, pelo menos, quatro filhos:
- Maria nascida em 1906;
- Teresa (Teresa Ribeiro), falecida solteira nos anos de 1960, tendo então 50 e alguns anos de idade;
- José;
- João, este falecido muito recentemente, em 2013.
Os dois últimos deixaram descendência.

A sua mulher, Joaquina da Costa, ou Joaquina Coelho essa, talvez tenha falecido com a idade de 98 anos, (portanto, cerca de 1942) como diz a tradição, já que o ti’João Veríssimo me contava que faleceu quando ele era jovem.


Duas notas, para terminar:

A casa, no início da Rua das Hortas, onde terá vivido Veríssimo Amado e seguramente viveram Francisco Veríssimo, o seu filho e o seu neto e, agora, vive um bisneto e é, sem dúvida uma das mais antigas casas da Ataíja de Cima é, talvez, a mesma onde a partir de meados do Séc. XVII, já viveram os seus antepassados Manuel Coelho e sua mulher Antónia Amado, esta, filha de António Amado, o Moço, filho de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, fidalgo da Casa Real, filho de Brites Anes Baracho, filha de Brites Anes de Santarém, filha de Brites Anes, a Boa Dona e do Senhor Dom João II, Rei de Portugal.

Desconheço as razões que terão levado o Francisco Veríssimo a abandonar o apelido familiar Amado e a adoptar como apelido o nome próprio do pai (como era prática comum entre os camponeses[iv]), tanto mais que o apelido Amado, cuja ascendência conduzia directamente ao Senhor Dom João II, tinha notável peso na sociedade local no Antigo Regime e desse peso haviam de beneficiar, também, ainda que menos intensamente, aqueles ramos da família que se tinham tornados lavradores. 
Facto é que o falecimento de Veríssimo Amado e o presumível abandono do Seminário pelo Francisco Veríssimo acontecem em pleno fim de regime, quando decorre o cerco do Porto, durante a guerra civil entre Miguelistas e Liberais e, talvez estes acontecimentos políticos não sejam alheios ao abandono do velho apelido Amado e ao nascimento do novo apelido Veríssimo.
Certo é que quando morre, em 1894, já não é um Amado, nem sequer um lavrador. Apenas, a acreditar no assento de óbito, Francisco Veríssimo, trabalhador.


Nota: Este texto foi publicado, inicialmente, neste blog em 31 de Outubro de 2014. É agora republicado (10-03-2018), actualizado com novos elementos relativos ao primeiro casamento do Francisco Veríssimo.


[i] Ver, neste blog, o texto Capitães de Aljubarrota.
[ii] Segundo a tradição São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia ou, simplesmente, Veríssimo. Máxima e Júlia, os Mártires de Lisboa, alcançaram a santidade pelo martírio no dia 1 de outubro do ano de 303 ou 304, por ocasião de uma perseguição aos cristãos pelo Imperador romano Diocleciano (compare-se com o que, neste blog, a propósito de São Vicente, dissemos no texto Padre Fábio Bernardino - Uma Iconografia.
[iii] Tenha-se presente que, naquela época, as crianças eram baptizadas, em regra, apenas com um nome próprio. O apelido, esse, só o passavam a usar em adulto (esta é uma matéria que será desenvolvida num outro texto).
[iv] Veja-se, neste blog, o texto ""Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Casamentos na Ataíja de Cima, na década de 1870 a 1879





Na década de 1870 a 1879, realizaram-se na Ataíja de Cima 15 casamentos.

Todos os noivos eram solteiros, com idade média de 32,4 anos, sendo que o mais novo tinha 22 e o mais velho 55 anos.
Das noivas, por sua vez, 12 eram solteiras e 3 (20% do total) viúvas, com idades compreendidas entre os 20 e os 48 anos, o que dá a média de 31,9 anos. Se considerarmos apenas as solteiras, a idade média desce para os 29,2 anos.
E, com isto se desfaz a idéia de que "antigamente" as pessoas casavam mais cedo.

Em um terço dos casos (5 casamentos) a noiva era mais velha do que o noivo (respectivamente, 7, 3, 11, 5 e 4 anos).
E, com isto se desfaz mais uma ideia feita: a de que a mulher tem de ser, sempre, mais nova que o marido.





O casal mais velho era constituído por António de Moura, de 55 anos, solteiro, e Maria dos Santos, de 44, exposta de Lisboa, viúva de Ângelo da Silva, falecido há, exactamente, um ano e uma semana.
Hoje em dia seria, talvez, objecto de fortes críticas a viúva (ou o viúvo) que voltasse a casar apenas um ano e uma semana depois do falecimento do primeiro cônjuge. Mas, quando estudamos factos acontecidos há tanto tempo (138 anos), é importante perceber que, naquela época, numa pequena aldeia rural, e sem apoios familiares (recorde-se que a Maria dos Santos era enjeitada e, assim, não tinha pai, mãe ou irmãos de sangue que, eventualmente, a pudessem auxiliar), era praticamente impossível a sobrevivência de uma mulher viúva, com filhos menores (Maria dos Santos era mãe de 4 filhos: Joaquim, de 21 anos, Luisa, de 19 e Cristina, de 13 e, ainda de Matias Ângelo, nascido a 20 de Novembro de 1859 e que viria a ser, no início do Séc. XX, o homem mais rico da Ataíja de Cima ).

O segundo casal mais velho, era constituído por Matias Coelho e Maria Felizarda, ambos solteiros, ele de 50 e ela de 44 anos de idade.

No acto do casamento, o Matias Coelho reconheceu a paternidade do filho Joaquim, então com dez anos de idade.
O que terá levado um homem de quase quarenta anos a conceber um filho numa mulher de quase trinta e quatro e, quando ambos estavam em boa idade de casar, a não casar nem reconhecer o filho, mantendo-se, durante dez anos a vê-lo crescer sem poder, ou querer, dar-lhe os carinhos e os ensinamentos de pai, enquanto era, certamente, objecto de falatórios de toda a aldeia, que havia de ser sabedora da progenitura e, só depois de tantos anos, finalmente, assumir a paternidade e o casamento?
Estas são perguntas cujas respostas só muito dificilmente viremos a conhecer. Mas, formulá-las serve para recordar que a vida é mais complexa do que, às vezes, parece.
Estes Matias Coelho e Maria Felizarda vieram a ser avós de António, Manuel e Joaquim Matias e, portanto, ascendentes de uma numerosa prole que constitue, hoje em dia, uma das grandes famílias da Ataíja de Cima e, esse, é o fim feliz da história do casal.


Nota: Este texto foi, originalmente, publicado neste Blog em 29-01-2014