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segunda-feira, 21 de março de 2022

Ataíjenses nas Américas (II)

 

No final do século XIX e nas primeiras décadas do séc. XX verificou-se um período de forte emigração, essencialmente com destino ao Brasil e aos Estados Unidos da América.

Entre 1900 e 1930 terão emigrado para o Brasil uns 750.000 portugueses, cerca de três quartos do total de emigrantes do período. Entre esses emigrantes para o Brasil encontravam-se, já o sabíamos, os ataíjenses António e Luís Ribeiro, de quem já falámos neste blog no texto Dois Ataijenses na Amazónia

Eis que agora, quando procurávamos vestígios de um outro ataíjense que andou emigrado na América, não encontrámos o que procurávamos, mas, em compensação, encontrámos quatro novos emigrantes ataíjenses e mais elementos sobre os irmãos Ribeiro. É o que justifica este terceiro texto dedicado à emigração ataíjense (depois do já referido Dois Ataíjenses na Amazónia e um outro texto, mais antigo, Ataíjenses na(s) América(s) escrito quando eu ainda não tinha identificado qualquer ataíjense como emigrante no Brasil.

Vejamos então os resultados de uma consulta aos Livros de Registo de Passaportes, do Arquivo Distrital de Leiria, relativos ao 2º semestre de 1911:

António Catarino,

Nascido em 10-11-1892, filho legítimo de José Catarino (dos Casais de Santa Teresa) e de Maria Carvalho, com a idade de 18 anos emigrou para Nova Iorque, tendo-lhe sido concedido passaporte em 24-08-1911.

Manuel Coelho,

nascido em 11-08-1885, também emigrou para Nova Iorque, com a idade de 26 anos e sendo já casado, tendo-lhe sido concedido passaporte em 24 de Agosto de 1911.

Era filho de Ângelo Coelho e de Luísa Maria, neto paterno de Joaquim Coelho e de Maria da Costa e materno de Tomás de Sousa e Maria Joaquina.
Não é o Manuel Coelho, nascido em 1879, filho de João Coelho e Maria Teresa ou Maria de Sousa, que também terá emigrado e foi casado com Felismina Maria.

António Ângelo,

Nascido em 17-02-1892, filho de Manuel Tomás e Cristina Santa, neto paterno de Tomás de Sousa e de Maria Joaquina e materno de Ângelo da Silva e Maria dos Santos, emigrou aos 19 anos para Nova Iorque, tendo-lhe sido concedido passaporte em 24 de Agosto de 1911.

Parece tratar-se do sogro da minha tia Angélica da Graça e pai de António Ângelo (o Rospiço), João Ângelo (o João Santo, marido da minha tia) e Manuel Ângelo, o Piquete

O António Ângelo e o Manuel Coelho eram primos, por serem netos de Tomás de Sousa e de Maria Joaquina e, por isso, parentes de Abílio Tomás de Sousa, recentemente falecido

 

Mais para o final desse ano de 1911, outros três ataíjenses haviam de emigrar, estes com destino a Manaus, na Amazónia Brasileira, que nesse tempo apresentava grande desenvolvimento devido à florescente actividade de extracção da borracha. Foram eles:

Manuel dos Santos,

Nascido em 16-05-1889, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias, foi-lhe concedido passaporte em 30-10-1911, tinha 21 anos.

António Ribeiro,

Nascido em 22-08-1888 filho de José Ribeiro, pré-falecido, e de Maria de Jesus, foi-lhe concedido passaporte em 02-11-1911 quando tinha 23 anos. e veio a morrer, em data e circunstâncias que ainda não logrei apurar, mas, aparentemente, antes de 1920 ou 1921.

Luís Ribeiro,

Nascido em 01-05.1890 (e falecido em 12-05-1979, no Rio de Janeiro), irmão do anterior, foi-lhe concedido passaporte em 30-10-1911 quando tinha 21 anos.
Abandonou a Amazónia após a morte do irmão e instalou-se no Rio de Janeiro onde foi comerciante, constituiu família e mantém descendência.

 

Todos estes ataíjenses eram jornaleiros quer dizer, trabalhavam no campo, contratados ao dia, à jorna, e, naturalmente, apenas quando havia trabalho. Só um, o Manuel Coelho, era casado e, também, o mais velho, de 26 anos de idade. A idade dos demais, variava entre os 23 anos do António Ribeiro e os 18 do mais novo, o António Catarino. Os registos de passaporte contêm a indicação escreve/não escreve e metade deles não escreve.


O luxuoso Teatro Amazonas, em Manaus, inaugurado em 1896, símbolo das riquezas obtidas na extração da borracha

terça-feira, 16 de junho de 2020

Dois Ataijenses na Amazónia



No final do século XIX e princípios do século XX, muitos portugueses rumaram à Amazónia, tentando a sorte de colher algumas migalhas das fabulosas riquezas criadas pela exploração da borracha, riquezas essas que fizeram da Manaus daquele tempo uma cidade moderna e faustosa, onde a electricidade e outros benefícios da civilização chegaram mais cedo do que à maior parte do mundo.

Desses tempos de ouro restam ainda em Manaus diversos testemunhos, com destaque para Mercado Municipal e o Teatro Amazonas, este inaugurado em 1896, um grande e luxuoso teatro, ao nível dos melhores da Europa (https://cultura.am.gov.br/portal/teatro-amazonas/)

Em 1912, também Alberto o protagonista do romance A Selva, de Ferreira de Castro, tomou rumo semelhante e encontrou trabalho no seringal Paraíso.
Os leitores saberão das condições de quase escravatura em que decorria a vida dos seringueiros. Àqueles que o não sabem, recomendo vivamente a leitura desse grande romance que é A Selva.

Pouco antes, nos fins do ano de 1911, tinha sido a vez de os irmãos António Ribeiro, de 23 anos de idade e Luiz Ribeiro, de 21, naturais e residentes em Ataíja de Cima, requereram passaporte para sair de Portugal com destino a Manaus.

O seu pai, José Ribeiro, era filho de Luiz Ribeiro, carpinteiro, filho de José Ribeiro e de Guilhermina Maria, dos Casais de Santa Teresa que casou na Ataíja de Cima com Luísa Coelho ou Luísa Heitor, esta com raízes ataíjenses mais antigas, filha de Joaquim Heitor e Ana Umbelina.
Do Joaquim Heitor, nascido em 1789, sabemos ainda que era filho de Manuel Coelho e Maria Vicente e neto paterno de Luís Coelho e Maria Heitor e materno de Manuel Vicente e Maria Cordeiro.

O Luís Ribeiro e a sua mulher Luisa Coelho, tiveram outros filhos. Dez, no total, se não me engano. Seis raparigas, três de nome Maria, uma Felizarda, uma Francisca e uma Joaquina e quatro rapazes: João, João, José e Luiz.
Das Marias, sabemos que uma, nascida em 20.4.1848, faleceu com apenas três meses de idade. As outras duas Marias não as conseguimos localizar nos assentos paroquiais de casamento e óbito. Terão tido destino semelhante à irmã, como era comum naquele tempo ou talvez ainda as encontremos ou a uma delas em buscas mais atentas.
A Felizarda, a Francisca e a Joaquina casaram e tiveram descendência. Três, três e quatro filhos, respectivamente.

Do modo como Luís Ribeiro, o seu filho Luís Ribeiro Júnior e o seu neto José Ribeiro, através de sucessivas compras que se prolongaram por cerca de 100 anos, construíram uma das maiores Casas da Ataíja de Cima, a qual atingiu o seu apogeu em meados do século XX, quando abrangia mais de oitenta prédios rústicos e urbanos, já falámos no texto A Formação de Uma Casa Rural Ataijense 
Mas, porque é que foi o Luiz, o penúltimo dos filhos e o mais novo dos homens, a suceder a Luiz Ribeiro na posse e direcção da casa familiar?

Pois, pela razão de que era o único filho homem vivo.

Um João havia falecido inocente. O outro faleceu em 1877, solteiro, com a idade de 24 anos.
O José casou com Maria de Jesus, filha de João Maria Cláudio e de Maria da Graça e tiveram dois filhos: o António e o Luiz, os aventureiros que foram até à Amazónia.
Quando se casaram, em 9 de setembro de 1889, já o filho António, (nascido em 22 de Agosto de 1888) tinha mais de um ano de idade. Oito meses depois, em 1.5.1890, nasceu o segundo filho, Luiz como o seu avô e o seu tio. Mas, nessa altura já o pai José havia falecido, cerca de um mês antes, em 7.4.1890, depois de um curto casamento de apenas sete meses.

A Maria de Jesus achou-se assim, uma jovem ainda na casa dos vinte anos, viúva e com dois filhos pequenos.

Aquele não era um tempo, nem a Ataíja o lugar, para viúvas com filhos e, a Maria de Jesus, ao fim de trinta e dois meses de viuvez, em 8.12.1892, casou, em 2ªs núpcias, com Porfírio dos Santos, um sapateiro de 24 anos com quem teve uma filha, Joaquina, que foi conhecida por Joaquina Porfíria.

A ligação à família do marido, se é que ainda existia, há-de ter praticamente cessado por via deste segundo casamento.

Estas vicissitudes ajudam-nos, talvez, a entender melhor as razões que terão levado os filhos do seu primeiro casamento a emigrar.

Não sabemos qual foi a vida e ocupação dos nossos conterrâneos nas paragens amazónicas. Mas, sabemos, por memória familiar da descendência do Luiz, que o António aí faleceu, vítima da febre amarela, uma das doenças que, com a malária e a hepatite e, ainda, os ataques de animais selvagens como onças e serpentes, matou milhares de seringueiros.

Em data incerta, após a morte do irmão, Luiz Ribeiro abandonou a Amazónia e instalou-se no Rio de Janeiro, na Tijuca, onde se estabeleceu com um próspero negócio de alfaiataria e tinturaria.
Casou-se, teve pelo menos uma filha e faleceu em 12 de Maio de 1979, no Rio de Janeiro, com a bonita idade de 89 anos.


Luis Ribeiro no Rio de Janeiro, com a sua mulher Isabel Alves e a filha Hilda Alves Ribeiro





quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Gente da Ataíja de Cima - Francisco da Silva Salgueiro - O Chico Patoixo




Como já anteriormente escrevi, esta rubrica - Gente da Ataíja de Cima -, serve para trazer aqui histórias de pessoas extraordinárias, incomuns, pessoas que, por alguma razão, fosse a singularidade da sua condição ou inteligência, a importância das suas acções ou os acasos da vida, se tornaram diferentes dos demais mortais que as rodeavam ou rodeiam e tiveram, ou têm, papel relevante na vida da aldeia.

É por isso que agora vamos falar do Chico Patoixo que, pela sua intensa actividade empresarial e desportiva, foi um dos protagonistas da transição da economia agrícola de subsistência, para a economia industrial e de serviços.

Eu e o Francisco da Silva Salgueiro (Patoixo é alcunha herdada da mãe, Ana Lourenço da Silva, recentemente falecida aos 96 anos) nascemos, ele dois anos antes, em 11-12-1946, a escassos metros de distância, pegados que são os terenos onde se situa a casa que foi dos meus pais e aquele onde se impantaram as que foram de seus pais e dos avós maternos.
Embora o seu avô, e também o seu pai, possuísse uma casa mais abastada do que a generalidade dos ataijenses, isso não o livrou do percurso comum aos rapazes da sua idade, pelo que terminada a quarta, se seguiu a quinta, quer dizer, feito o então ensino obrigatório, a quarta classe, (hoje quarto ano) a sua ocupação passou a ser o trabalho do campo nas terras familiares.

Mas, se o trabalho do campo não era, por si, especialmente atractivo, menos o era quando prestado exclusivamente e sem remuneração nas terras familiares.

Por isso, logo que pode, em 1964, com dezoito anos, o Francisco tratou de fugir ao diário jugo paterno e foi trabalhar para a Cerâmica Vala, uma das grandes fábricas de telha e tijolo das muitas que então havia na Cruz da Légua e arredores.
Seguiu-se, entre 1966 e 1968, o serviço militar, incluindo dois anos na Guerra Colonial, na Guiné.
De regresso, voltou a trabalhar na Cerâmica Vala e aí se manteve até ao início de 1972 quando se casou com Luísa Gomes Henriques.
Logo de seguida, em Maio desse ano, emigrou com a mulher para França, para a região da Loire onde, em Blois, se dedicaram à apanha de morangos.
No ano seguinte mudaram-se para Orleans, ainda na Loire e aí trabalharam em estufas e na condução de máquinas agrícolas até 1977, quando se mudou para Valence, onde trabalhou numa empresa de limpezas e lhe nasceu a única filha.

Regressou a Portugal em 1985.

Nesse ano de 1985 abriu o restaurante Apeadeiro, junto ao entroncamento da Estrada do Lagar dos Frades com a Estrada Nacional nº 1, um lugar então pouco mais do que desértico (havia por ali, desde há alguns anos, a fábrica de cerâmica decorativa Safaril e pouco mais), pelo que a clientela prevista do restaurante seria constituída pelos passantes da EN 1, designadamente os motoristas de camião. Mas, se o restaurante nunca chegou a encher-se de camionistas, em contrapartida o aparecimento de diversas unidades industriais nas redondezas trouxe uma nova clientela que se mantém.
O nome Apeadeiro deve-se ao facto de ali fazer paragem, quando solicitado, o autocarro da carreira Expresso que ligava Leiria a Lisboa.


Deixando a mulher no restaurante, logo no ano seguinte, em 1986, criou a LIMPEC, que foi a primeira empresa de limpezas que houve em toda a região.
Hoje são vulgares as empresas de limpeza e todas as grandes e médias e muitas pequenas empresas, os bancos e os organismos públicos etc, contratam a limpeza das suas instalações a empresas  especializadas mas, quando o Francisco Salgueiro criou a LIMPEC não havia nada disso, salvo em Lisboa e poucas outras cidades do país.
A sua decisão, baseada na experiência que obteve em França, foi absolutamente inovadora.

Entre 1989 e 2001 foi o Presidente e a alma do Clube Desportivo e Recreativo Ataíjense, que hoje está inactivo mas nesse período chegou a militar no Campeonato da 1ª Divisão da Associação de Futebol de Leiria.
Ao Clube Desportivo e Recreativo Ataijense dedicámos, anteriormente, dois textos neste blog, aos quais os leitores interessados podem aceder clicando (CRTL+Clique) AQUI e 
 AQUI

Entretanto, em 1994, criou uma nova empresa de limpezas, a Restaurilimpa, Lda, a qual se mantém em plena actividade, agora com novos proprietários e sede em Alfeizerão, Alcobaça.

Por esta época, remodelou a casa e cómodos (adega e palheiro das vacas) que foram de seu avô Francisco Dionísio (Francisco da Silva Vigário, Dionísio por ser filho de Dionízia dos Santos) e, em 1996, ali abriu um café-restaurante, um mini-mercado e uma loja “dos trezentos”, tudo sob a designação de Novo Espaço.
No local, exactamente onde eram o palheiro das vacas e a eira onde muito brinquei quando era pequeno, funciona actualmente, por arrendamento, o café-restaurante e padaria Pátio dos Sabores.

No ano de 2000, no que julgo ter sido a sua última iniciativa empresarial criou, ainda, a empresa Mega Serviços de Francisco Salgueiro, Unipessoal Lda que dissolveu em 2015.

Em 2010 e após profundas obras de remodelação e modernização, o restaurante Apeadeiro reabriu com o novo nome de Doces Sabores e mantém-se ainda hoje na sua propriedade, embora já não sobre a sua gerência e, com uma excelente relação qualidade preço, é um bom restaurante cuja cozinha, dirigida pelo Chef Carlos Roxo, atrai comensais de toda a região.

Ao restaurante Doces Sabores dedicámos, antes, o texto com o mesmo nome, a que os leitores podem aceder (CRTL+Clique) 
AQUI


Por tudo isto, o Chico Patoixo é um dos protagonistas do processo de modernização da Ataíja de Cima e merece bem integrar esta galeria de ataijenses extraordinários.

Em Maio de 1999, o Chico Patoixo (de pé, 2º, da direita para a esquerda) com a "sua" equipa do Grupo Desportivo e Recreativo Ataíjense, 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Ataíjenses na(s) América(s)



Há vários indícios de que no Século XIX, pelo menos a partir da extinção das Ordens Religiosas e das profundas alterações na propriedade e no sistema produtivo que, na nossa região, se verificaram em virtude da saída dos frades de Alcobaça e da consequente venda dos bens fradescos a uma burguesia emergente, havia na Ataíja escassez de mão-de-obra.

Será isso que justifica a fixação na nossa aldeia de um relativamente elevado número de enjeitados, de tal modo que a generalidade dos actuais ataíjenses têm entre os seus ancestrais, avós, bisavós e trisavós, que eram enjeitados.

Talvez por essas razões, a Ataíja de Cima não acompanhou o fortíssimo movimento que, a partir do primeiro quartel do Séc. XIX e durante cem anos, levou cerca de 1.300.000 portugueses pelos caminhos da emigração, sobretudo para os Estados Unidos e o Brasil.

Apesar disso, alguns ataíjenses emigraram no inicio do Séc. XX. Nenhum, que eu saiba, para o Brasil mas um (meu tio-avô) emigrou para a Argentina e por lá faleceu sem que os familiares tivessem tido outras notícias dele.

Pelo menos três emigraram para os Estados Unidos: Um deles foi Francisco Sabino, avô paterno do nosso amigo Américo de Sousa Sabino, o qual em 20 de Agosto de 1913 vivia em New Bedford, Massachussets, conforme se vê de uma procuração que nessa data passou a sua mulher Maria Coelho. Outro, de quem apenas sei que tinha o apelido Ângelo que transmitiu aos filhos, foi o sogro da minha tia Angélica. Outro ainda, de quem apenas sei que foi marido da Benedita, uma senhora cuja naturalidade desconheço, sempre conheci viúva e só e morava no início da Rua das Seixeiras, numas casas que agora são de António Baptista Vigário (António Sabino).

Possuo a foto de um desses emigrantes, (ou outro, não sei, chamava-se, talvez, Joaquim Batista que é o nome que aparece repetidamente escrito a lápis no verso da fotografia) o qual se fez fotografar por M. B. Pereira, um célebre fotógrafo açoriano que tinha estabelecimento no n.º  574 de South Water Street, em New Bedford.[i]


(no verso da foto, escrito a lápis: "Joaquim Batista")



(Foto, de 2010, da casa que foi da minha tia Angélica da Graça e, antes, de seus sogros. A parte da casa a partir do postalete de electricidade, para o lado da estrada, corresponde a dois quartos que se ligam à "casa de fora" por uma grossa parede de pedra. Um dia, estranhando eu esse facto, por inabitual, a minha tia explicou-me que tinham sido mandados construir (e acrescentados à casa original) pela sua sogra, "com dinheiro que o meu sogro mandou da América")


  
Mais tarde, nos anos 50, Manuel Sabino (filho de Francisco Sabino) emigrou também, fixando-se no Canadá

Posteriormente, pelo menos mais quatro ataijenses emigraram para o continente norte-americano e aí vivem actualmente.






[i] O fotógrafo já não existe mas New Bedford é, ainda, hoje, um lugar onde não é indispensável falar inglês, nem comer hamburgers ou beber coca cola, já que a cada esquina se encontra um português e um estabelecimento de nome português, onde é possível comprar de tudo e comer e beber exclusivamente produtos portugueses.


domingo, 11 de novembro de 2018

El Rey Del Mundo





El Rey del Mundo é uma marca cubana de charutos cujas origens remontam a 1848 e no auge do seu prestígio, no início do séc. XX, era a marca de charutos mais famosa e mais cara do mundo.
A partir dos anos de 1960, 1970, os gostos dos fumadores começaram a evoluir para sabores mais fortes e El Rey del Mundo com os seus charutos de sabor suave (que ainda se mantém) deixou de ser a principal marca de havanos.

Em 1905 a fábrica que produzia estes charutos foi adquirida por Diaz Hermanos & Co., que mais tarde mudou o nome para Rey del Mundo Cigar Co, para beneficiar do prestígio do seu mais valioso produto.
Actualmente, os charutos El Rey del Mundo são produzidos pela empresa estatal Habanos S. A.
Por razões que não logramos esclarecer com rigor e pelo menos desde cerca de 1956, sob a mesma marca El Rey del Mundo e usando logotipo semelhante, existem no mercado charutos que nada têm a ver com os verdadeiros havanos, fabricados, até 2009 nas Honduras e depois disso, na Nicarágua, por uma empresa americana designada Villazon & Co.

A caixa que temos presente e cujo interior da tampa acima reproduzimos terá mais de cem anos e é, sem dúvida, posterior a 1912 e anterior a 1920.
De facto, se o logo já ostenta a nova denominação da empresa, Rey del Mundo Cigar Co, no papel que cobre a parte lateral da caixa é visível a legenda Diaz Hermanos & Co, o que nos remete para o período de transição entre ambas as denominações da empresa proprietária. O “Sello de Garantia Nacional de Procedência”, cujos restos se encontram colados no fundo da caixa, mostra que ela é posterior a 1912, data da criação daquele selo e anterior a 1931, data em que o selo sofreu ligeiras alterações.
Tudo, aliás, é bem coerente com o facto de a caixa fazer parte do que foi o espólio hereditário da ataijense Joaquina Coelho, que a terá recebido de seu pai Francisco Sabino que, no início do séc.XX, foi emigrante na América.


Nome bem posto: El Rey del Mundo.
Assim se havia de sentir o emigrante regressado, ainda que com escassos dólares no bolso, a fumar um verdadeiro e perfumado charuto cubano.

O cabelo bem cortado e bem penteado, o bigode encerado, a camisa branca onde brilhava uma gravata de seda, os sapatos, o fato completo de calça, cinto de cabedal, casaco com um decorativo botão na lapela e um lenço branco, bordado, a emergir do bolso, o colete atravessado pela corrente do relógio, tudo havia de fazer um brutal contraste com os seus bisonhos vizinhos, diariamente descalços, cabeça sempre coberta por um negro barrete de borla, vestindo camisas sem colarinho e calças de cós alto onde se enrolava uma longa e negra cinta de pontas pendentes. 

Assim era o emigrante regressado de New Beresford, Massachussetts, América, nos inícios do Séc. XX. Como havemos de ver em próximo post.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Vaqueiros


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Uma das soluções a que, durante toda a primeira metade do Séc. XX, os ataijenses recorreram, para fugir às agruras e carências da vida local, foi a emigração para a região de Lisboa, para tratar de vacas leiteiras.
Do que alguns fizeram profissão onde se mantiveram longos anos.

Entre muitos outros, seguiram esse caminho os irmãos João e Manuel Luís de Sousa (Ver Aqui), Porfírio Coelho e o irmão José Coelho (Ver Aqui), Francisco Jorge (ainda vivo e de quem me lembro, há muitos anos, como responsável de uma grande vacaria que então existia na Quinta do Carmo, em Sacavém, mesmo colada à Portela) e, episodicamente, muito jovem, João Rosa Dias (Janita).

Não que a vida de vaqueiro fosse uma boa vida, que o não era, desde logo por ser um trabalho sem folgas, sem domingos ou feriados. Os animais comem todos os dias e todos os dias as vacas tinham de ser tratadas e mungidas.

Mas, se todos os dias se trabalhava, todos os dias se ganhava alguma coisa. Isso fazia a diferença já que, na Ataíja daquele tempo, não havia trabalho, não havia onde se ganhasse um tostão, salvo na época da azeitona e pouco mais.

Sobre as condições em que esse trabalho de vaqueiro se realizava, é bem elucidativa a fotografia seguinte.



Nela vemos Porfírio Coelho, ainda jovem (a fotografia é, talvez, dos anos de 1930 ou inícios de 1940), numa dessas quintas dos arredores de Lisboa, descalço, camisa e calças arregaçadas, estas de cós largo, onde se enrola uma cinta. Junto à porta da vacaria, a bilha de boca larga, afunilada, para onde se mungia.

A cena é crua, como num filme neo-realista e, à evidente pobreza do vaqueiro, alia-se a decadência do cenário, quase ruínas, apenas contrapontada pela presença dos fios telefónicos, por onde, imagina-se, passará algum progresso, no entanto, muito longe e muito acima do protagonista.

Porfírio Coelho foi por muitos anos vaqueiro (a isso o obrigava as necessidades da vasta família que chegou aos sete filhos - de dois casamentos - e um enteado), trabalhando, segundo a memória familiar “em casa de uns Condes”, até 1948, quando teve de regressar definitivamente, por ter adoecido “dos pulmões”.

Esse regresso à aldeia, quando a filha mais velha tinha apenas 13 anos e o mais novo ainda estava para nascer, teve como consequência inevitável o prolongamento da pobreza, de que o Porfírio nunca se conseguiu livrar.

Apesar dessa pobreza, a casa do ti’ Porfírio foi uma casa onde, sempre, me senti bem e onde gostava muito de estar: Uma chuva de primos para brincar, um tio e uma tia sempre tolerantes com as crianças e … carapaus secos dentro de um crivo.
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domingo, 15 de abril de 2012

Um emigrante ataíjense no Canadá


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Como dissémos no post “Ataíjense(s) na(s) América(s)”, [VER AQUI], Os ataíjenses escaparam ao forte surto emigratório que percorreu Portugual nos finais do Séc. XIX e inícios do Séc. XX e, até à vaga dos anos sessenta e setenta do Séc. XX que levou cerca de um milhão de portugueses, para a França e a Alemanha, entre eles bastantes ataíjenses, foram raros os que emigraram para o estrangeiro.

Um desses, foi Manuel Sabino (Manuel Coelho), cujo pai, aliás, na década de 1910, já tinha estado emigrado nos Estados Unidos.
No final dos anos de 1950, o Manuel Coelho emigrou, também ele, para o Canadá e, de lá, mandou uma fotografia à mãe (Maria Coelha).

Ei-lo, em 21 de Janeiro de 1959, em Montreal, Canadá, num parque Lafontaine, coberto de neve:



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