quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Gémeos siameses no Carvalhal de Aljubarrota






Os gémeos siameses ou xifópagos, são gémeos monozigóticos, que dizer, formados a partir de um único zigoto.[i]
O termo "siameses" deve-se aos gêmeos Chang e Eng Buncker, que nasceram no Sião, (nome antigo da actual Tailândia), em 1811 e viveram até aos 63 anos, colados pelo peito.

Anunciados como os “gémeos siameses”, Chang e Eng tornaram-se célebres nos anos de 1830, em que viajaram pela Europa e Américas, fazendo exibições e proferindo palestras sobre a sua condição. Acabaram por se fixar nos Estados Unidos, na Carolina do Norte, e aí casaram, tiveram filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.

Hoje em dia, em casos em que ambas as crianças estão suficientemente formadas e não partilham órgãos essenciais consegue-se, através de cirurgia, proceder à sua separação.[ii]


Vem isto a propósito de que as Inquirições ordenadas em 1758 pelo Marquês de Pombal aos párocos do Reino, continham, na sua primeira parte, uma questão, a última, com o número 27º, pelas respostas à qual se pretendia saber qualquer facto digno de memória que não tivesse sido referido nas respostas anteriores.
A pergunta era a seguinte:

27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?

As respostas àquelas Inquirições constituem as chamadas Memórias Paroquiais, de que já falamos várias vezes neste blog e havemos de voltar a falar, já que se trata do maior acervo de dados existente sobre o Portugal do Séc. XVIII.

Como sabemos, naquele tempo, havia em Aljubarrota duas paróquias; S. Vicente e Nossa Senhora dos Prazeres e, o Carvalhal situava-se na área da paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, de que, aliás, era a aldeia mais populosa[iii], com setenta e seis vizinhos, mais do que a parte da vila de Aljubarrota que pertencia a esta paróquia[iv].

O vigário de Nossa Senhora dos Prazeres, não refere em nenhum ponto das suas respostas o extraordinário caso que é o mote deste texto, quando é certo que ele é e, naquele tempo, certamente era, digno de memória quer por ser fenómeno relativamente raro quer, ainda, porque, face ao fraco desenvolvimento das ciências de então, o seu surgimento havia de ser causa de grande espanto, para dizer o mínimo.
Dos dois párocos locais, o único que a tão inusitado acontecimento se refere – metendo a pena em terra alheia - é o cura de São Vicente, que o faz nos seguintes termos:

“27º O que achei digno de memória nesta terra vay referido nas respostas antecedentes e só de novo acresce o dar noticia de que no lugar do Carvalhal, termo desta villa, algum tempo antes do terramoto de 1755 nasceo hua menina que tendo um so ventre tinha duas cabeças distintas hua da outra, porque cada hua tinha seu pescoço com boa formatura e com quatro braços, por modo de abrasos cingindos ao corpo com quatro pernas bem distinctas huas das outras e tambem proporcionadas como se fosse hua so creatura perfeita. Porem o ventre e peito era so hum e sem desformidade algua.[v]


A viva descrição permite-nos saber, sem dúvida, que se tratava de gémeos siameses encontrando-se, neste caso, as crianças ligadas pelo tronco.



File:ChangandEng.jpg
Chang e Eng, os Gémeos siameses. (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:ChangandEng.jpg)




[i] Zigoto é a célula que resulta da fecundação do gâmeta feminino pelo gâmeta masculino. Ovo.
[ii] O médico-cirurgião português António Gentil Martins separou sete pares de gémeos siameses, com nove sobreviventes. (in http://medicosportugueses.blogs.sapo.pt/1693.html, consultado em 16-8-2014).
[iii] Suficientemente grande para possuir duas capelas: “huma Ermida de Santo Amaro dentro do Lugar do Carvalhal, e outra de Sam Romão da parte de fora do mesmo lugar; ambas pertencem aos moradores deste mesmo Lugar”.
[iv] Diz o vigário que esta parte da Vila de Aljubarrota tinha 65 vizinhos e 938 pessoas. Há, aqui, um óbvio lapso. O número de pessoas, a estar correcto, refere-se, certamente, à totalidade da paróquia.
[v] Usamos, aqui, a transcrição do original tal como consta em Memórias Paroquiais, 1758, Volume III, João Cosme | José Varandas, (Introdução, Transcrição e Índices), edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2011. 

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