quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A minha avó e o Marquês de Pombal




Pode estabelecer-se uma ligação entre Sebastião José de Carvalho e Melo, o todo-poderoso Ministro de D. José I, Conde Oeiras e Marquês de Pombal e a Ataíja de Cima porquanto, no âmbito da sua política de modernização do sistema produtivo em Portugal, não descurou a agricultura sendo no seu tempo que, sob a direcção do então abade geral da Ordem de Cister, aliás seu sobrinho,  Frei Manuel de Mendonça[i], foi mandado plantar um extenso olival e construído um moderno (para o tempo) lagar de azeite de que hoje sobram ruínas conhecidas por a Casa do Monge Lagareiro.

Pombal quis, à viva força, tornar Portugal um país moderno pelo que, entre os seus poderosos inimigos estavam todos os avessos à mudança: a Nobreza que perdeu privilégios ou foi mesmo sentenciada e perdeu tudo (caso dos Távora), o povo do Douro que se amotinou contra a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, os Jesuítas e outros clérigos.

Após a morte de D. José I, o velho Marquês caiu em desgraça e foi remetido para Pombal e regressaram ao poder as velhas forças conservadoras que tanto tinha afrontado.
Rejubilando com a queda e o exílio do velho leão e julgando que os velhos tempos tinham regressado (e, os velhos tempos nunca regressam) fizeram reviver por uma vez a Inquisição e, nesse ano de 1781, em autos-de-fé realizados em Coimbra e Évora foram queimadas vivas 25 pessoas.
Terá sido por esse tempo que o Marquês, a caminho do exílio em Pombal , terá passado por aqui perto uma última vez.  

O que tem a minha avó a ver com isto, perguntarão?
Tem que, também as estórias que vos vou contar revelam esse carácter muito português que é a capacidade de conjugar a fé com o anticlericalismo, pecado que o Marquês parece ter cometido e, vejo agora, talvez, também, a minha avó.

A minha avó, mulher de fé que nunca iniciava uma refeição sem orar em agradecimento, nem  se deitava sem encomendar as almas dos familiares falecidos, que ia à missa aos Domingos e dias Santos e me ensinou os Mandamentos que rigorosamente toda a vida cumpriu, gostava do Marquês e não gostava de Jesuítas.
Nas longas noites de Inverno, vão lá sessenta anos ou quase, depois da ceia, sentavam-se o menino e a velha ao aconchego da lareira e, era então que, como já o sabem os leitores deste blog, a minha avó me contava histórias.

Contava-me ela, deliciada, como o Marquês tinha enganado o Embaixador espanhol ao levá-lo, perante as ameaças de invasão, para a varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, na pequena e fechada Praça do Município, a fim de assistirem a uma parada militar.
Sendo os efectivos do exército português diminutos[ii], o astuto marquês pôs os militares a andar em círculo e a mudar de fardamentos quando se encontravam nas traseiras dos edifícios.
Depois de três ou quatro passagens, estando o embaixador já intimamente convencido de que seria perigosa aventura enfrentar tão grande exército, o Marquês colocou-lhe paternalmente a mão sobre o ombro e segredou-lhe ao ouvido:

E saiba mais Vossa Excelência que, cada um em sua casa pode tanto que, mesmo depois de morto, são preciso quatro para o tirarem de lá![iii] 

Hoje, lendo um pouco de história de Portugal, percebo que a estória tem fundamento nas movimentações diplomáticas que antecederam a chamada Guerra Fantástica[iv].
Os leitores interessados poderão procurar na internet por este interessantíssimo episódio das sempre atribuladas relações luso-espanholas[v].

Numa segunda estória de louvor ao Marquês e à sua suprema inteligência, contava a minha avó que, estando ele desterrado e sujeito a uma sentença que o condenava a, até à morte, não pisar outra terra que a de Pombal, matutou de ir a Lisboa.
Mais esperto que todos, o velho marquês mandou forrar uma carroça de terra pombalense e sentando-se sobre ela, lá foi até Lisboa e Oeiras, onde se passeou sem infracção e tratou dos seus negócios, para grande desespero e impotência dos seus inimigos.

De facto, falecido D. José I em 1777 e substituído no trono pela filha, a qual veio a ser a primeira mulher rainha de Portugal sob o Título de D. Maria I e o cognome de D. Maria Pia que bem lhe assentou vista a sua encarniçada devoção, a fortuna de Pombal sofreu um sério revez:
Eram os seus inimigos que agora estavam no poder e, logo em 4 de Março, foi o Marquês demitido das suas funções.
E, em 1779 foi acusado de abuso do poder, corrupção e fraudes.
Em 1781 foi julgado e, considerado culpado, condenado ao desterro, devendo manter-se a, pelo menos, vinte léguas da Corte, não lhe sendo aplicada outra pena vista a sua avançada idade e estado de saúde que, aliás, o havia de levar a falecer no ano seguinte sem, certamente, ter tido a ideia que a minha avó louvava nem, muito menos, saúde para a pôr em prática.
Nesse ano de 1781, a Inquisição a quem ele tinha tirado o terrível poder, como que escarnecendo do velho leão, condenou 25 pessoas à fogueira e, no que foram os últimos autos-de-fé realizados em Coimbra e em Évora foram queimadas vivas, respectivamente, 17 e 8 pessoas.

E, quanto aos Jesuítas, contava a minha avó, também com evidente satisfação, que o Marquês os tinha enfiado num barco que mandou afundar ao largo de Lisboa.
Não me recordo de que tenha dado explicação plausível ou indicado facto concreto que justificasse tão drástico castigo.
Tanto quanto me lembro, era razoavelmente confusa a lista de críticas aos Jesuítas que, isso era fora de dúvida, eram maus cristãos. 
O Marquês, esse, teria feito, apenas, o que devia ser feito.
Fosse como fosse, os Jesuítas tornaram-se, para mim, durante longos anos, gente pouco recomendável.

Claro que a estória de o Marquês ter afundado os frades da Companhia não tem fundamento histórico.
O que se passou foi que o Marquês, que tinha ideias próprias sobre como desenvolver o Brasil a bem da Coroa, chocou com opiniões diferentes dos missionários Jesuítas ali presentes e de onde, em 1759, acabou por os expulsar. Os confrontos entre o Ministro e a Companhia, já vinham, pelo menos, desde 1757 quando lhe retirou o papel de confessores, (que concedeu a padres mais colaborantes, designadamente, oratorianos) e de 1758, quando os acusou de cumplicidade no atentado ao Monarca.
A persistente luta contra a Companhia prosseguiu em 1766, com a organização da aliança das monarquias católicas contra a Companhia de Jesus, até 1772 quando reformou a Universidade de Coimbra subtraindo-a ao poder dos Jesuitas que aí haviam pontificado durante quase 200 anos.
Tudo culminou em 1773[vi] quando, por Breve do Papa Clemente XIV «Dominus Ac Redeptor Noster», foi extinta a Companhia de Jesus.


O mistério que subsiste é: 
Qual a razão porque uma mulher analfabeta, na Ataíja de Cima dos anos 50 do Séc. XX, mantinha uma tal admiração pelo Marquês e um tal desafecto pelos Jesuítas?


Brazão da Ordem de Cister na Casa do Monge Lagareiro, na Ataíja de Cima (foto de cerca de 1940). 
Anexa a um lagar de azeite do Séc. XVIII que foi destruído na década de 1940, a Casa do Monge Lagareiro, apesar de edifício classificado, encontra-se actualmente em estado de degradação muito avançado





[i] Veja-se Mota, Salvador Magalhães, “A Acção de Frei Manuel de Mendonça à frente dos destinos da Congregação de Sta Maria de Alcobaça da Ordem de São Bernardo (1768-1777)”, in Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004, (p. 771-779), disponível online em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/5011.pdf, consultado em linha em 2-2-2016.
[ii] Uma reforma do exército conduzida pelo Marquês tinha, em 1754, reduzido fortemente os efectivos militares.
[iii] Verdade que todos os exércitos modernos aprenderam amargamente, mostrando-se incapazes de vencer guerras onde exista um forte envolvimento da população local.
[iv] Também chamada Guerra do Mirandum ou, Guerra do Pacto de Família. Corresponde aos episódios portugueses da Guerra dos 7 Anos a qual, por sua vez, foi a primeira guerra a ter âmbito mundial, com batalhas na Europa, nas Américas do Norte e do Sul (Portugal perdeu a Colónia de Sacramento) e na Ásia.
[v] Nos curtos seis meses que esta guerra durou, entre Maio e Novembro de 1762, os exércitos franco-espanhóis invadiram Portugal, tomando Miranda do Douro, Chaves e Bragança e numa segunda invasão, Almeida e Castelo Branco. Houve, ainda, batalhas e escaramuças no Douro, em Valencia de Alcântara (Espanha) Vila Velha de Ródão, Montalegre, Marvão e Ouguela. Em Miranda do Douro a explosão de um paiol provocou mais de quatrocentos mortos e determinou a decadência irreversível da cidade.
Os invasores, por sua vez, tiveram perdas terríveis que se calculam num total de cerca de 25.000 homens, entre mortos, feridos, prisioneiros e desertores.
[vi] A generalidade das referências cronológicas à disputa entre o Ministro de D. José I e a Companhia de Jesus foi colhida em: Camões, Revista de letras e Culturas Lusófonas, número 15 – 16, Janeiro – Junho de 2003, Cronologia Marquês de Pombal (1699 – 1782), por Patrícia Cardoso Correia. Consultada, online em http://www.instituto-camoes.pt/revista/revista15s.htm, em 01-02-2016.


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