sexta-feira, 22 de julho de 2016

Marca Corneta



A expressão “és de marca corneta” que se usava na Ataíja de Cima da minha meninice, é um jogo de palavras que, aproveitando a fama dos instrumentos de corte (ferramentas manuais de trabalhar madeira, facas, tesouras e navalhas) da marca Corneta, brinca com a etimologia da palavra corneta que, obviamente, deriva de corno e a dureza do corno que é osso.
Ser “de marca corneta” é ser duro, teimoso, inflexível.


Lembrei-me disto a propósito de que entre o espólio do meu pai, se encontra uma velha navalha de barbear da marca Corneta.
  



A navalha em questão apresenta, gravada num dos lados da espiga, entre a lâmina e a articulação com o cabo, a  inscrição:
Gebr Weyersberg Solingen – Ohligs

Do outro lado, o símbolo da corneta e o número 2211

O cabo é feito de celuloide, imitando o marfim.

Quando terá sido fabricada esta navalha? Não sabemos mas, seguramente, não foi antes de 1896 já que esse foi o ano em que a marca foi registada nem, sequer, antes de 1909 porque só neste ano a fábrica dos irmãos Weyersberg se mudou para Solingen – Ohligs.[i]

A navalha, acusando embora claras marcas de intenso uso, chegou-me às mãos bem tratada e cuidadosamente guardada numa caixa apropriada que, no entanto, é de diferente marca.
Num dos lados dessa caixa temos a identificação do produto:

Navalha Bismarck / Producto Allemão / Marca Registrada

No outro lado, dois textos longos, um elogiando as qualidades do produto (a navalha de barbear Bismarck) e o outro dando indicações pormenorizadas sobre o uso e conservação da navalha (escritos em português, estes textos demonstram os cuidados da marca em se adaptar às necessidades de cada mercado específico).

O que é que faz uma navalha de barbear da marca Corneta, dentro da caixa de uma navalha de barbear da marca Bismarck, isso é mistério que não consiguirei esclarecer.

Mas, como o melhor da aposentação é não ter de fazer a barba e poder ocupar o tempo a aprender coisas inúteis, investigando, vim a saber que a marca Bismarck – BISMARCK, RAZOR WORKS, SOLINGEN – GERMANY - foi fundada em 1892 por August Müller e subsistiu até 1957 quando foi adquirida pela Fritz Bracht (DOVO) Company, a qual, actualmente, ainda usa a marca Bismarck para algumas das navalhas de barbear que continua a fabricar.

De facto, a indústria das navalhas de barba que esteve à beira do desaparecimento em meados do Século XX[ii], em resultado da generalização do uso da máquina de barbear eléctrica e, sobretudo, das lâminas descartáveis inventadas pelo Sr. Gillette, recebeu o golpe fatal com o surgimento de doenças modernas como a SIDA que, devido aos riscos de infecção, levaram ao abandono do seu uso pelos profissionais. Apesar disso continua a existir um nicho de mercado que justifica que se continuem a fabricar e, entretanto, os profissionais passaram a usar uma versão em que a tradicional lâmina forjada foi substituída por um suporte para lâminas descartáveis.

De acordo com o site http://www.barbearclassico.com, a DOVO (de Solingen, http://www.dovo.com/, fundada em 1906) é, como referido, uma das marcas que continuam, ainda hoje, a fabricar boas navalhas de barbear, a par com THIERS ISSARD (francesa, http://www.thiers-issard.fr/, fundada em 1884), BOKER, (de Solingen, https://www.boker.de/, fundada em 1869 mas, com antecedentes familiares no ramo que remontam ao Séc. XVII), HENCKELS (fundada em 1895 em Solingen, http://www.j-a-henckels.com/ e, actualmente, integrada no grupo ZWILLING, sendo que a marca Zwilling, por sua vez, existe desde 1731) e REVISOR, (fundada em 1919 em Solingen, http://www.revisor-solingen.de/.

Os leitores já terão notado duas coisas: que se fala aqui muito de Solingen e que as marcas acima mencionadas têm todas mais de 100 anos.

Solingen é uma cidade alemã, no Estado da Renânia do Norte – Vestefália, não longe de Colónia, conhecida por a “cidade das lâminas” e famosa desde a Idade Média por se ter especializado na metalurgia do aço, especialmente na fabricação de espadas e outros instrumentos de corte. 
Ainda hoje, a grande maioria das ferramentas de corte e talheres da Alemanha é fabricada em Solingen, por marcas famosas como Wüsthof, J. A .Henckels, Bokar, Villeroy & Boch e também aí são fabricadas as lâminas de barbear Wilkinson Sword. 

O facto de as marcas de que temos vindo a falar terem, todas, mais de 100 anos, remete-nos para o funcionamento do poderoso cluster[iii] que, vindo dos confins da Idade Média, atravessou os séculos e conseguiu resistir a todas (e foram muitas) as situações adversas que se lhe depararam.


Valerá a pena fazer aqui um breve parêntesis para falar de King Camp Gillette, o americano que inventou a lâmina de barbear descartável[iv].
Gillette era caixeiro viajante de ferragens, ferramentas e maquinetas diversas (tudo o que nos EUA se chama hardware) e terá sido o seu patrão a lançar a Gillette o desafio de inventar uma coisa que pudesse ser utilizada uma única vez para que o cliente voltasse a comprar.
Ao que parece, esse patrão era William Painter inventor de outros objectos de extrema utilidade como a carica e o respectivo abridor[v]).

Mas, isto era na América.

Em Portugal as coisas corriam mais lentamente e, ainda em meados do Século XX, uma grande parte dos homens não usava a gillette, nem possuía navalha. Simplesmente e isto era absolutamente verdade no campo, fazia a barba uma vez por semana, no barbeiro[vi].

O meu pai, quando recém-casado e antes de emigrar para Lisboa, na tentativa de acrescentar alguns tostões aos magros rendimentos familiares, exerceu também, em part-time, o ofício de barbeiro, montando oficina na casa-de-fora.[vii]

Eu era muito pequeno, dois anos e menos, ou nem sequer nascido e, desta actividade do meu pai, só me lembro, por ele e a minha mãe me contarem que, a primeira das poucas palmadas que levei foi, precisamente, por ter uma birra de choro que incomodava os clientes ou, pelo menos, o barbeiro.

Lembro-me, também, de uma tesoura que sobreviveu ao fim da barbearia e a minha mãe levou para Lisboa e usou para cortar as barbatanas dos peixes, até perto dos meus quinze anos quando, finalmente, se desconjuntou. 
Contava-me o meu pai que essa tesoura lhe tinha custado, talvez aí por 1947 ou 1948, a módica quantia de 17$50. Isso, quando um homem na Ataija de Cima ganhava, a cavar de sol a sol, quando havia trabalho, 12$50.


A marca Corneta está hoje desaparecida na Alemanha onde nasceu (encerrou a produção em 1997 e foi excluída em 2005 do Registo Alemão de Marcas e Patentes, segundo leio na internet).
No entanto, subsiste no Brasil, onde foram criadas fábricas a partir do final da 1ª Guerra Mundial, para ali levada por um membro da família proprietária e onde é, como o era na Alemanha, uma prestigiada marca de ferramentas.
A história da empresa, desde o final do Séc. XVIII até aos dias de hoje pode ser vista no site do brasileiro Grupo Corneta, em http://www.corneta.com.br/br/


A minha navalha, essa, acompanhada dos acessórios que o tempo não levou, vai ficar muito bem guardada e arrumada, em memória do efémero barbeiro que foi o meu pai.










[ii] Cerca de 1950, havia em Solingen, 600 a 700 fabricantes de lâminas. Em 2009 eram, apenas, 6. As navalhas de barbear eram, na sua maioria, parcialmente produzidas para as marcas pelos trabalhadores, à peça, em suas casas. (conf. http://www.revisor-solingen.de/index.php/en/history)
[iii] O que é um cluster, como funciona, quais os seus pontos fortes e pontos fracos, são conceitos que interessam muito à Ataíja de Cima e à região, actualmente dependente do que já é o cluster das rochas ornamentais.
[iv] A fábrica começou a trabalhar em 1903 e no final de 1904 já tinha vendido mais de 12.000.000 de lâminas. Gillette usou uma estratégia comercial agressiva, hoje corrente nos produtos de consumo de massa, vendendo as máquinas com prejuízo para, assim, alargar o leque dos compradores de lâminas.
[v] William Painter patenteou cerca de 85 invenções entre as quais a carica e o sistema que lhe está associado foram as de maior utilidade e complexidade, já que o sistema para funcionar exige a “carica”, a máquina para a aplicar, o abridor e, mais complicado, que todos os gargalos das garrafas sejam idênticos. Painter teve, pois, de convencer os fabricantes de garrafas a adoptar um novo e único modelo de gargalo que suportasse as suas “caricas”.
[vi] Lembro-me, desde sempre, do ti João Pereira cortando cabelos e fazendo barbas no “salão” que montou na casa que foi do Pote Serrano.
Não havia cadeira de barbeiro, sentando-se os clientes numa comum cadeira de madeira e o fio da navalha tinha por assentador o próprio cinto das calças do barbeiro que, para isso, o usava deliberada e exageradamente comprido.
[vii] A casa-de-fora era a sala para onde se entrava pela porta principal da casa e a partir da qual se acedia directamente aos quartos e à cozinha.

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