As alcunhas
nascem, em geral, da necessidade de distinguir uma certa pessoa das demais do
mesmo nome, ou profissão ou que, por qualquer outra razão, possam ser
confundidas.
As alcunhas mais vulgares podem
referir-se à família do nomeado (ex.
Manuel Augusto, Zé da Ilda), ao local de origem ou de residência ( Maria da
Serra, Nuno do Cadoiço), a uma profissão ou característica física (Serrador, Mouço,
Russo, Maneta) um comportamento (Tunante),
uma habilidade ou, até, um facto (Tranca Ruas).
Em alguns casos,
é difícil saber ou sequer imaginar a razão de uma certa
alcunha. É o que se passa com o nosso Maçarico.
Maçarico porquê, se o maçarico é uma ave de arribação, de porte médio e pernas e bico longos, que em Portugal ocorre durante as migrações ou como invernante, vive em zonas ribeirinhas, ou alagadiças, não existe na Ataíja e nada nos seus hábitos ou comportamentos pode ser comparado ao nomeado?
Igualmente, não parece aplicável ao caso qualquer dos outros significados de maçarico, seja o de aparelho a gás usado
pelos soldadores, seja o de novato, inexperiente, como também eram, no meu
tempo, chamados os jovens recrutas no serviço militar.
Seja por que for,
a alcunha pegou e era mesmo universal, já que toda a gente conhecia o José
Carvalho Quitério – n. 1942, f. 2023 - (Quitério porque tínhamos um bisavô
comum), por Maçarico ou Zé Maçarico.
O Zé Maçarico, quando
jovem pré-adolescente e adolescente, era pequeno e ágil como um gato, mestre em
correr e saltar, subir às árvores e descobrir ninhos em lugares recônditos.
Irrequieto e ladino, era capaz de acrobacias e esfolagates, de caminhar sobre
andas, ou de fazer rolar uma barrica equilibrando-se nela, como um artista de
circo. E, quase não havia dia em que não fosse autor de uma qualquer pequena
proeza, em geral, com desagrado dos adultos.
Era um pinante, que
é nome de gente capaz de fazer o pino e de cometer outras proezas acrobáticas.
Ou, talvez não
fosse tanto assim. É que, nestas coisas, vale o ditado que ouvi à minha avó:
ganha fama e deita-te a dormir.
Da ligeireza todos fomos testemunhas. Lembro-me de quando, ele adolescente, houve um domingo
primaveril em que, depois da missa em Aljubarrota, o trabalho colectivo foi
retirar do telhado da Capela os ninhos de pardal que o infestavam. O telhado da
Capela estava então em muito mau estado. Ainda coberto de telhas de canudo,
algumas partidas e muitas deslocadas, debaixo delas achavam-se dezenas, se não
centenas, de ninhos de pardais, pássaros que naquele tempo se viam pela Ataíja em grandes
bandos e, fazendo jus ao seu nome completo de pardal-do-telhado, tinham
carregado para a cobertura da capela grandes massas de palha, pequenos troncos, cabelos e crinas e pelos, de gente, de burros e de cães, bolas de lã que as ovelhas tinham deixado agarradas aos arbustos, pedaços de tecido e o mais
que acharam para fazer os seus toscos e grandes ninhos, enormes para os
pequenos habitantes e mais ou menos informes salvo o centro onde são
depositados os ovos e criados os filhotes, única parte desses ninhos que mostra
evidentes cuidados de construção.
Já chovia dentro
da Capela e era, por isso, necessário remover os ninhos e repor as telhas em
devida posição e lá foi o Maçarico para cima do telhado da igreja, onde
convinha gente equilibrista e leve que fizesse o trabalho e não partisse mais telhas.
A coisa saldou-se
por uma enorme quantidade de palha, muitos ovos e algumas pequenas crias espalhados
em redor da igreja. Hoje, já não se cultivam cereais na Ataíja de Cima e a
população de pardais diminuiu drasticamente.
Mas, as proezas
do jovem Maçarico passaram muito por moer o juízo ao meu avô Agostinho que era
dono da fazenda, o Cerrado, que fica mesmo em frente da casa onde nasceu.
Talvez encorajada
pela irrequietude do Maçarico, uma sua irmã subiu um dia pelo portão do pátio
e, de pé, sobre o pequeno pedaço de parede que o ladeia, separando-o da casa,
levantou a saia, fez força e lançou uma mijareta que atravessou o então
estreito caminho, onde não cabia mais do que um carro de vacas. O pobre do meu
avô ficou embaçado com a proeza e não conseguiu calar-se, pelo que o feito andou
de boca em boca.
O Maçarico fazia
outras judiarias.
De uma vez,
munido de uma bomba de foguete introduziu-a num buraco que havia num dos
esteios que ladeavam o porto por onde os peões acediam ao Cerrado, onde a fez explodir
estilhaçando a pedra. Mais uma irritação, das grandes, para o meu avô e sorte
para o Maçarico que, com a brincadeira podia ter ficado sem alguns dedos, como
aconteceu ao João Pardal.
De uma outra vez,
trepou, só porque sim, a um pinheiro que o meu avô lá tinha, um grande e
solitário pinheiro, como então se via nas margens de terrenos de cultivo,
aguardando a necessidade do proprietário de o transformar em tábuas.
Quando se
preparava para descer, o Maçarico apercebeu-se que o meu avô estava mesmo ali.
- Anda cá meu
malandro, desce daí que eu já te coço!
- Não desço nada! – E, em vez disso, viu-se obrigado a subir mais um pouco,
para se livrar de uma pequena vara que ameaçava chegar-lhe aos fundilhos.
No meio da
propriedade, a mais de cinquenta metros de distância, havia, como era comum em
propriedades de certa dimensão e mais afastadas do centro da aldeia ou da casa
do proprietário, uma pequena construção que servia para abrigo ou guarda
temporária de produtos da terra ou utensílios. Esta tinha anexa, como aliás também era relativamente comum, uma pequena eira onde o meu avô debulhava cereais e legumes.
- Desce daí, malandro!
- Não desço nada!
Depois de algum
tempo passado naquele desce não desço,
diz-lhe o meu avô:
- Ah! Não desces?
Vou ali à casa buscar uma machada, corto o pinheiro e já vês se desces ou não
desces! E virou costas, fingindo iniciar o caminho para ir pela machada.
O malandrim, por receoso de que o homem viesse mesmo de lá com a machada, ou por a ocasião lhe ter parecido boa para se livrar daquele imbróglio, deixou-se escorregar pelo pinheiro e correu a refugiar-se no quintal paterno.
- Quando cheguei
cá abaixo não tinha botão nenhum!
Contou ele, entre
gargalhadas de ambos, quando, aqui já há uns bons anos, tivemos oportunidade de
recordar tropelias de juventude.
Muito bom, belas histórias, Gina Neves
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