segunda-feira, 24 de abril de 2017
quarta-feira, 19 de abril de 2017
As Tapadas - património cisterciense esquecido
Vistas da Ataíja, são três longas linhas de pedra (agora quase ocultas no matagal), correndo
a serra na horizontal, como traços de giz num quadro negro, servindo de remate
ao olival do Santíssimo, ali, na parte inferior da encosta, à cota dos 250m, a
partir de onde o solo se inclina demasiado para permitir qualquer cultivo.
Fig. 2
Perfil da Serra dos Candeeiros na zona do Olival dos Frades da Ataíja de Cima
(elaboração própria com base em Mapbox e OpenStreetMap):
Nessa transição de declives, por um momento, o solo é menos inclinado do que ao redor. Por isso havia quem, em vez de Tapadas, chamasse ao lugar as Covadas.
Nos anos de 1950 e 1960, o Ti José Ribeiro ainda cultivava a sua parte das Tapadas. Entretanto, as coisas mudaram e hoje o mar de oliveiras que bordejava todo o poente da Serra dos Candeeiros foi substituído, quase totalmente, por pinheiros e eucaliptos e, nas margens do IC2, por uma fila quase contínua de fábricas, oficinas, restaurantes e armazéns diversos. As Tapadas, essas, já quase se não veem, seja cá de longe, seja mesmo lá ao pé, submersas que estão em matos e silvas e moitas e em carrasqueiras impenetráveis, bem mais altas que um homem.
Numa visita recente foi, apesar de tudo, possível perceber o
essencial da estrutura, como se mostra no esboço de planta do conjunto, tal
como o pudemos observar (elaboração própria com base em Google Maps e
observação no local):
Fig. 3
O muro interrompido que se vê à direita no desenho não faz parte da estrutura. Antes, indica o limite a montante da propriedade e serve de suporte a um carreiro conhecido por o caminho do guarda.
À esquerda do desenho, a jusante da estrutura, veem-se um pedaço de parede, com argamassa de barro (Fig. 4), incluindo o cunhal (Fig. 5) e um pedaço de muro, de construção idêntica (Fig. 6), correndo de montante para jusante (ESE/ONO) e aparentemente sem ligação com o anterior. Entre ambos, uma ligeira elevação do terreno revela-se uma escombreira onde são visíveis pequenos pedaços de telha de canudo (Fig. 7) e, muito perto, debaixo de uma carrasqueira (Fig. 8), mais restos de um muro, de características e orientação semelhantes ao antes referido.
As Tapadas ocupam
uma extensa área, de mais de 2 hectares, e têm um comprimento de cerca de 360
metros. Os três muros longitudinais, são sensivelmente paralelos e afastados entre si de cerca de 30 metros. A estrutura fecha-se nos topos por
muros cujas características não pudemos confirmar devido às dificuldades de
acesso.
Em posição relativa que também não pudemos confirmar, pelo
menos o espaço entre os muros médio e superior é interiormente seccionado por,
pelo menos, um muro secundário. Na parte do muro superior que visitámos,
observamos, ainda, a existência de duas aberturas, uma das quais se mostra,
parcialmente, na foto abaixo.
Fig. 9
Os três muros principais, têm perfis diferentes, como se evidencia nos desenhos abaixo (elaboração própria).
Fig. 10
O muro de montante é o mais forte, com uma largura no topo
(na zona que visitámos), variando entre 190 e 220 cm, a que acresce um socalco
de 70 cm de largura e, considerando que, de jusante, a parede apresenta uma
inclinação de cerca de 15%, a largura total na base atingirá os 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
O muro intermédio é mais estreito, com uma largura de 120 cm
no topo, a que acrescem dois socalcos de 40cm cada, numa total de 200 cm. Ambas
as faces são verticais. De montante mediu-se a altura de 200 cm e de jusante
150 cm até ao primeiro socalco, mais 80 cm até ao segundo socalco e outros 80
centímetros até ao topo, somando a altura total de 310 cm.
O terceiro muro, que fecha o conjunto a jusante, é o de
dimensões e formas mais simples, sendo constituído por uma parede com 120 cm de
largura e uma altura, idêntica em ambas as faces, de cerca de 200 cm.
No topo e fazendo parte da propriedade a que os frades chamaram
olival do Santíssimo e por aqui era conhecido como Olival dos Frades, o qual vindo
desde o caminho dos Arneiros, numa extensão de cerca de 2400 metros era, no
início do Séc. XIX, com os seus cerca de 100 hectares e mais de 18.000 pés de
oliveira, o maior olival da região, as Tapadas ainda hoje não passam
despercebidas a um olhar atento que se lance sobre a serra, a partir da Ataíja,
do Cadoiço, ou de Aljubarrota e seus arredores.
Trata-se, sem qualquer espécie de duvida de uma construção
fradesca.
Apesar disso e do muito que tenho lido a propósito dos
monges cistercienses de Alcobaça, nunca vi, que me lembre, qualquer referência
escrita a esta estrutura monumental.
Da tradição popular, apenas se retém localmente essa ideia
de que nas Tapadas os frades plantavam laranjeiras. E, está bem vivo quem, há
mais de 50 anos lá andou a lavrar com os bois do ti Zé Ribeiro que ali terá
semeado batatas. Nesse tempo, havia por lá uma figueira, mas não havia
vestígios de laranjeiras.
Verdade é que o volume de pedra usado na construção dos 3 muros
principais, ultrapassa largamente os 5.500 m3 a que há que acrescentar o volume
dos muros transversais, de fecho e de divisão, cujo volume não conseguimos
estimar. Um tal volume de construção e, ainda, o que parece ter sido um
edifício anexo, implicou, necessariamente, uma gigantesca quantidade de
trabalho e dinheiro, num investimento que, certamente, se esperava recuperar a
prazo.
Não me parece credível que um pomar de laranjeiras pudesse, por
si só, garantir um adequado retorno financeiro e, por outro lado, só uma total ausência de terrenos igualmente aptos à cultura justificaria o virem plantar-se em local tão difícil e de tão onerosa preparação, pelo que se nos afigura que as
laranjas que a tradição popular recorda, não terão sido a razão principal,
muito menos a única, que levou à construção das Tapadas.
Subsistem, assim, vários mistérios em torno desta
construção:
- Quando e com que objectivos terá sido construída?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?
terça-feira, 11 de abril de 2017
Quaresma
No passado sábado, dia 8, também na Ataíja se assinalou
condignamente o tempo Quaresmal que atravessamos, encenando um excerto da vida
de Cristo, mais exactamente o período da Semana Santa que vai do Domingo de
Ramos até ao beijo de Judas e à prisão de Jesus.
O acto, modestamente referido, no pequeno cartaz de divulgação, como
uma “Representação de uma Passagem Bíblica (feita pelos pais e crianças da
catequese)”, foi, na verdade uma iniciativa das catequistas que lograram entusiasmar
e mobilizar crianças e pais e foram capazes de construir cenários bastante simples
mas rigorosamente adequados e um texto muito escorreito (que, apenas por ser
demasiado longo aqui se não transcreve), o qual foi muito bem lido, com voz
clara e bem ritmada, pelo Luís Vigário (Sabino), enquanto os demais pais
representaram Cristo e os Apóstolos, Juízes do Sinédrio e guardas e as crianças
e as mães (e algumas avós) foram o povo, tudo servido por uma encenação discreta,
no entanto, elaborada e moderna.
Tudo foi seguido com muita atenção e agrado pela numerosa
assistência que acorreu ao Salão Cultural Ataíjense e, no final, prolongou o
convívio em redor das filhós e do café das velhas.
A Cena 1, decorreu
logo na entrada da sala e no caminho até o palco e representou a entrada
triunfal de Jesus e os seus apóstolos em Jerusalém, no Domingo de Ramos,
acompanhados pelos festejos do povo que cantava Hossanas, agitando ramos de
palmeira e lançando flores e as próprias capas no caminho por onde o cortejo havia
de passar.
A Cena 2, a mais
longa, passou-se no palco e constou, na verdade, de 4 quadros: a preparação da
mesa para a ceia, o lava-pés, a sagração do pão e do vinho e num quadro final (que
teve lugar num palco secundário), a negociação da traição de Judas.
A Cena 3, igualmente
passada num outro palco secundário, retratou a ida de Jesus e dos seus
Apóstolos para o Jardim de Getsémani, ou Jardim das Oliveiras onde Judas
aparece, acompanhando os Doutores das Leis e os soldados, efectiva a traição e
Jesus é preso.
O povo
aguarda a chegada de Jesus e seus Apóstolos
Entrada de Jesus em Jerusalém
A Ceia
O Lava-pés
Uma assistência interessada e atenta
Nota:
Na ausência de uma ficha técnica, não nos é possível indicar todos os que contribuíram para a realização do “espectáculo”, muito menos, indicar os respectivos papéis ou tarefas.
quinta-feira, 6 de abril de 2017
A(s) Escola(s) da Ataíja de Cima - I
.
Um ataíjense andava a estudar para Padre quando, numa mesma semana, lhe morreram pai e mãe. Então e por razões que não sabemos, fosse o desgosto ou a necessidade de tomar conta da casa familiar, abandonou os estudos teológicos, regressou à Ataíja de Cima, casou-se uma primeira vez e, tendo viuvado, voltou a casar-se, tinha então 72 anos e a noiva 25. Faleceram, ambos, com a idade de 98 anos.(Como explicamos num outro post, esta descrição não condiz totalmente com os factos documentados)
Foram os avós paternos de João Veríssimo.
Segundo os meus cálculos, este Veríssimo há-de ter nascido com o Séc.XIX e é um dos mais antigos ataíjenses letrados de que tenho conhecimento.
Os demais ataijenses daquele tempo eram, como quase todos os portugueses, analfabetos.
É certo que, em 1822, já havia em Aljubarrota um professor de primeiras letras mas, não tenho notícia de o seu saber ter chegado a esta borda da serra.
Ainda em 1874, mesmo o carpinteiro Luís Ribeiro não sabia assinar, isto apesar de ser um mestre de ofício e de, nesse tempo, já haver em Aljubarrota um professor do ensino primário.
Tal como, em 1898, o filho daquele, Luís Ribeiro Júnior, também não sabia assinar, pese embora já fosse um abastado proprietário rural.
Por esse tempo, o meu avô Joaquim Coelho Quitério estava na tropa e foi aí que aprendeu a ler e escrever.
Antes disso, o meu trisavô João Maria de Sousa Cláudio, assinou, em trémula letra, pelo menos um assento paroquial. Isto, apesar de, em outros assentos que testemunhou, o Pároco ter declarado que não sabia assinar.
O primeiro esboço de escola que existiu na Ataíja, talvez tenha tido as suas instalações na casa alta que pertenceu ao referido Luís Ribeiro Júnior. Talvez tenha sido aí que o filho José Ribeiro, nascido em 1900, aprendeu a ler e escrever.
Facto é que, naquela casa, (no lugar onde o Rafael Mosca construiu a sua e onde, quando eu era pequeno, funcionava um palheiro no rés-do-chão, o primeiro andar servia de quartel ao rancho da azeitona e sobre o telhado girava o aerogerador que alimentava a única telefonia da aldeia) foram encontrados, após o falecimento de José Ribeiro, restos de um quadro preto, de lousa, e alguns sólidos geométricos de madeira.
A geração seguinte de ataijenses aprendeu a ler, os que aprenderam, com Joaquim Rôzo que por aqui ensinou nos anos de 1920 e, ou, princípios de 1930.
A escola oficial e formal, essa, só chegaria em 1933 e foi construída por adaptação de um palheiro, doado por João Cordeiro, na empena do qual, para iluminar o espaço, se abriram quatro grandes janelas.
Era no Adro, entre o palheiro do Mira, também já desaparecido e a Capela, com entrada pela, agora chamada, Rua de Nossa Senhora da Graça, tinha uma placa com os dizeres: "Obra da Ditadura - 1933" e funcionou até ao ano lectivo de 1972 / 1973.
Apesar da placa, tudo ou quase tudo foi suportado pelos ataijenses que ofereceram, além do edifício, trabalho, madeiras e dinheiro.
A escola tinha uma única sala, cuja porta dava directamente para a rua e não havia electricidade, nem água, nem recreio, nem instalações sanitárias.
Apenas a secretária da professora, três filas de carteiras duplas (na fila do lado direito as carteiras eram maiores e aí se sentavam os alunos da quarta classe) e um quadro preto sobre o qual estavam os retratos do Salazar e do Carmona (que por lá se manteve mesmo muitos anos depois de falecido e substituído na função, primeiro por Craveiro Lopes e, depois, por Américo Tomaz), ladeando um crucifixo.
Aí estudavam as crianças de ambas as Ataíjas.
Uma vez que havia uma única sala, de manhã estudavam os da primeira e os da quarta classe e de tarde os da segunda e os da terceira (ou ao contrário, já não me lembro bem), em turmas mistas.
Aí estudei, da primeira à terceira classes.
Foi demolida, para alargamento do Adro, alguns anos depois da construção da escola actual.
___________________________
ADENDA:
No semanário Região de Cister, n.º 1227, de 23 de Fevereiro de 2017, na rubrica Arco da Memória, da autoria de José Eduardo Reis de Oliveira, sob o título: "Recordando Joaquim Augusto de Carvalho" diz-se, a certa altura que o dito Joaquim Augusto de Carvalho, na sua qualidade de presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, cargo que desempenhou entre Outubro de 1953 e 1962, "Esteve também ligado à edificação das cantinas escolares em Pataias, Aljubarrota e Ataíja".
Ora, tal não corresponde à verdade dos factos.
Na Ataíja de Baixo não havia escola e a escola da Ataíja de Cima era, naquele tempo, constituída por uma única sala, cuja única porta dava, directamente, para a rua, sem qualquer espaço de recreio ou anexo, sem rede de electricidade ou de água (que só chegariam à Ataíja de Cima em, respectivamente, 1969 e 1993) nem, sequer, instalações sanitárias nem, muito menos, cantina.
Só no novo edifício escolar, aberto no ano lectivo de 1973/1974, houve cantina e não desde o seu início. De facto, a cantina escolar só chegou à Ataíja de Cima em data que ainda não consigo precisar mas, seguramente, não antes do 1980.
É esta a verdade histórica.
.
Um ataíjense andava a estudar para Padre quando, numa mesma semana, lhe morreram pai e mãe. Então e por razões que não sabemos, fosse o desgosto ou a necessidade de tomar conta da casa familiar, abandonou os estudos teológicos, regressou à Ataíja de Cima, casou-se uma primeira vez e, tendo viuvado, voltou a casar-se, tinha então 72 anos e a noiva 25. Faleceram, ambos, com a idade de 98 anos.(Como explicamos num outro post, esta descrição não condiz totalmente com os factos documentados)
Foram os avós paternos de João Veríssimo.
Segundo os meus cálculos, este Veríssimo há-de ter nascido com o Séc.XIX e é um dos mais antigos ataíjenses letrados de que tenho conhecimento.
Os demais ataijenses daquele tempo eram, como quase todos os portugueses, analfabetos.
É certo que, em 1822, já havia em Aljubarrota um professor de primeiras letras mas, não tenho notícia de o seu saber ter chegado a esta borda da serra.
Ainda em 1874, mesmo o carpinteiro Luís Ribeiro não sabia assinar, isto apesar de ser um mestre de ofício e de, nesse tempo, já haver em Aljubarrota um professor do ensino primário.
Tal como, em 1898, o filho daquele, Luís Ribeiro Júnior, também não sabia assinar, pese embora já fosse um abastado proprietário rural.
Por esse tempo, o meu avô Joaquim Coelho Quitério estava na tropa e foi aí que aprendeu a ler e escrever.
Antes disso, o meu trisavô João Maria de Sousa Cláudio, assinou, em trémula letra, pelo menos um assento paroquial. Isto, apesar de, em outros assentos que testemunhou, o Pároco ter declarado que não sabia assinar.
O primeiro esboço de escola que existiu na Ataíja, talvez tenha tido as suas instalações na casa alta que pertenceu ao referido Luís Ribeiro Júnior. Talvez tenha sido aí que o filho José Ribeiro, nascido em 1900, aprendeu a ler e escrever.
Facto é que, naquela casa, (no lugar onde o Rafael Mosca construiu a sua e onde, quando eu era pequeno, funcionava um palheiro no rés-do-chão, o primeiro andar servia de quartel ao rancho da azeitona e sobre o telhado girava o aerogerador que alimentava a única telefonia da aldeia) foram encontrados, após o falecimento de José Ribeiro, restos de um quadro preto, de lousa, e alguns sólidos geométricos de madeira.
A geração seguinte de ataijenses aprendeu a ler, os que aprenderam, com Joaquim Rôzo que por aqui ensinou nos anos de 1920 e, ou, princípios de 1930.
A escola oficial e formal, essa, só chegaria em 1933 e foi construída por adaptação de um palheiro, doado por João Cordeiro, na empena do qual, para iluminar o espaço, se abriram quatro grandes janelas.
Era no Adro, entre o palheiro do Mira, também já desaparecido e a Capela, com entrada pela, agora chamada, Rua de Nossa Senhora da Graça, tinha uma placa com os dizeres: "Obra da Ditadura - 1933" e funcionou até ao ano lectivo de 1972 / 1973.
Apesar da placa, tudo ou quase tudo foi suportado pelos ataijenses que ofereceram, além do edifício, trabalho, madeiras e dinheiro.
A escola tinha uma única sala, cuja porta dava directamente para a rua e não havia electricidade, nem água, nem recreio, nem instalações sanitárias.
Apenas a secretária da professora, três filas de carteiras duplas (na fila do lado direito as carteiras eram maiores e aí se sentavam os alunos da quarta classe) e um quadro preto sobre o qual estavam os retratos do Salazar e do Carmona (que por lá se manteve mesmo muitos anos depois de falecido e substituído na função, primeiro por Craveiro Lopes e, depois, por Américo Tomaz), ladeando um crucifixo.
Aí estudavam as crianças de ambas as Ataíjas.
Uma vez que havia uma única sala, de manhã estudavam os da primeira e os da quarta classe e de tarde os da segunda e os da terceira (ou ao contrário, já não me lembro bem), em turmas mistas.
Aí estudei, da primeira à terceira classes.
Foi demolida, para alargamento do Adro, alguns anos depois da construção da escola actual.
Reconstituição da escola, desenhada a partir de fotos antigas. Aguarela de Inês Neves.
___________________________
ADENDA:
No semanário Região de Cister, n.º 1227, de 23 de Fevereiro de 2017, na rubrica Arco da Memória, da autoria de José Eduardo Reis de Oliveira, sob o título: "Recordando Joaquim Augusto de Carvalho" diz-se, a certa altura que o dito Joaquim Augusto de Carvalho, na sua qualidade de presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, cargo que desempenhou entre Outubro de 1953 e 1962, "Esteve também ligado à edificação das cantinas escolares em Pataias, Aljubarrota e Ataíja".
Ora, tal não corresponde à verdade dos factos.
Na Ataíja de Baixo não havia escola e a escola da Ataíja de Cima era, naquele tempo, constituída por uma única sala, cuja única porta dava, directamente, para a rua, sem qualquer espaço de recreio ou anexo, sem rede de electricidade ou de água (que só chegariam à Ataíja de Cima em, respectivamente, 1969 e 1993) nem, sequer, instalações sanitárias nem, muito menos, cantina.
Só no novo edifício escolar, aberto no ano lectivo de 1973/1974, houve cantina e não desde o seu início. De facto, a cantina escolar só chegou à Ataíja de Cima em data que ainda não consigo precisar mas, seguramente, não antes do 1980.
É esta a verdade histórica.
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quarta-feira, 5 de abril de 2017
A casa onde eu nasci
Em 1948, a maioria dos portugueses não tinha acesso regular
a cuidados de saúde, muito menos, a cuidados de saúde materno-infantil. Nasci,
por isso e tal como todos os meus conterrâneos daquele tempo, em casa de meus
pais, numa cama onde muitas vezes dormi em adulto.
No local já existia uma casa (quatro paredes, melhor dizendo), atualmente com mais de cem anos e que tinha sido construída por um irmão da minha avó para sua morada. Nunca a chegou
a acabar, nem, muito menos, a usar por ter falecido, ainda no tempo da
monarquia, durante o serviço militar.
Esta "casa", durante a sua já longa existência, já teve várias "vidas":
Foi adega do meu avô até ao seu falecimento em 1955. Foi, depois e durante cerca de vinte e cinco anos, salão amplo que serviu, designadamente, para nele se realizarem as festas familiares e as de mais de uma dúzia de casamentos. Foi, de novo, adega e há-de voltar a ser um salão familiar.
Foi adega do meu avô até ao seu falecimento em 1955. Foi, depois e durante cerca de vinte e cinco anos, salão amplo que serviu, designadamente, para nele se realizarem as festas familiares e as de mais de uma dúzia de casamentos. Foi, de novo, adega e há-de voltar a ser um salão familiar.
A casa do meu pai foi, por ele, construída no ano de 1946, adossada àquela. Uma casa modesta, para não dizer pobre, cerca de 50 m2, uma casa de fora, dois quartos minúsculos, uma cozinha e uma despensa.
O espaço sobrante, da frente do terreno, passou a ser o pátio onde viviam os porcos, os coelhos e as galinhas e, mais tarde, foi aí construído um anexo que serviu e serve de garagem e arrecadação.
O espaço sobrante, da frente do terreno, passou a ser o pátio onde viviam os porcos, os coelhos e as galinhas e, mais tarde, foi aí construído um anexo que serviu e serve de garagem e arrecadação.
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ADENDA:
No texto supra, publicado inicialmente, neste blog, em 14 de Março de 2012, deixei expressa a minha vontade de recuperar a casa onde nasci.
Trata-se de tarefa exigente, demorada e custosa essa de pretender recuperar uma casa "antiga". Desde logo porque tratando-se de casas construídas por gente pobre, com materiais pobres e feitas para servir num tipo de vida muito diferente do que é o nosso, o que se pode "salvar" é, sempre, menos do que inicialmente se quereria.
Felizmente, foi possível manter o essencial da "personalidade" da casa, agora dotada do mínimo de conforto exigível no nosso tempo.
Antes - A casa em 2012, numa excelente aguarela de Inês Neves:
Depois - A casa em 2017, numa fotografia de Alessandro Puccinelli:
Ainda, outra foto de Alessandro Puccinelli, mostrando a cozinha, realizada com o precioso contributo de Perpedra:
No texto supra, publicado inicialmente, neste blog, em 14 de Março de 2012, deixei expressa a minha vontade de recuperar a casa onde nasci.
Trata-se de tarefa exigente, demorada e custosa essa de pretender recuperar uma casa "antiga". Desde logo porque tratando-se de casas construídas por gente pobre, com materiais pobres e feitas para servir num tipo de vida muito diferente do que é o nosso, o que se pode "salvar" é, sempre, menos do que inicialmente se quereria.
Felizmente, foi possível manter o essencial da "personalidade" da casa, agora dotada do mínimo de conforto exigível no nosso tempo.
Antes - A casa em 2012, numa excelente aguarela de Inês Neves:
Depois - A casa em 2017, numa fotografia de Alessandro Puccinelli:
Ainda, outra foto de Alessandro Puccinelli, mostrando a cozinha, realizada com o precioso contributo de Perpedra:
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Casamentos na Ataíja de Cima, na década de 1870 a 1879
Na década de 1870 a 1879, realizaram-se na Ataíja de Cima 15
casamentos.
Todos os noivos eram solteiros, com idade média de 32,4 anos,
sendo que o mais novo tinha 22 e o mais velho 55 anos.
Das noivas, por sua vez, 12 eram solteiras e 3 (20% do
total) viúvas, com idades compreendidas entre os 20 e os 48 anos, o que dá a
média de 31,9 anos. Se considerarmos apenas as solteiras, a idade média desce
para os 29,2 anos.
E, com isto se desfaz a idéia de que "antigamente" as pessoas casavam mais cedo.
Em um terço dos casos (5 casamentos) a noiva era mais velha
do que o noivo (respectivamente, 7, 3, 11, 5 e 4 anos).
E, com isto se desfaz mais uma ideia feita: a de que a mulher tem de ser, sempre, mais nova que o marido.
O casal mais velho era constituído por António de Moura, de
55 anos, solteiro, e Maria dos Santos, de 44, exposta de Lisboa, viúva de
Ângelo da Silva, falecido há, exactamente, um ano e uma semana.
Hoje em dia seria, talvez, objecto de fortes críticas a viúva
(ou o viúvo) que voltasse a casar apenas um ano e uma semana depois do falecimento
do primeiro cônjuge. Mas, quando estudamos factos acontecidos há tanto tempo (138
anos), é importante perceber que, naquela época, numa pequena aldeia rural, e sem apoios familiares (recorde-se que a Maria dos Santos era enjeitada e, assim, não tinha pai, mãe ou irmãos de sangue que, eventualmente, a pudessem auxiliar), era praticamente impossível a sobrevivência de uma mulher
viúva, com filhos menores (Maria dos Santos era mãe de 4 filhos: Joaquim, de 21 anos, Luisa, de 19 e Cristina, de 13 e, ainda de Matias Ângelo, nascido a 20 de Novembro
de 1859 e que viria a ser, no início do Séc. XX, o homem mais rico da Ataíja de
Cima ).
O segundo casal mais velho, era constituído por Matias
Coelho e Maria Felizarda, ambos solteiros, ele de 50 e ela de 44 anos de idade.
No acto do casamento, o Matias Coelho reconheceu a paternidade do filho
Joaquim, então com dez anos de idade.
O que terá levado um homem de quase quarenta anos a conceber
um filho numa mulher de quase trinta e quatro e, quando ambos estavam em boa idade de casar,
a não casar nem reconhecer o filho, mantendo-se, durante dez anos a vê-lo
crescer sem poder, ou querer, dar-lhe os carinhos e os ensinamentos de pai, enquanto
era, certamente, objecto de falatórios de toda a aldeia, que havia de ser
sabedora da progenitura e, só depois de tantos anos, finalmente, assumir a
paternidade e o casamento?
Estas são perguntas cujas respostas só muito dificilmente
viremos a conhecer. Mas, formulá-las serve para recordar que a vida é mais
complexa do que, às vezes, parece.
Estes Matias Coelho e Maria Felizarda vieram a ser avós
de António, Manuel e Joaquim Matias e, portanto, ascendentes de uma numerosa
prole que constitue, hoje em dia, uma das grandes famílias da Ataíja de Cima e,
esse, é o fim feliz da história do casal.Nota: Este texto foi, originalmente, publicado neste Blog em 29-01-2014
terça-feira, 29 de novembro de 2016
O Poço do Moura
Quando eu era pequeno, no início da segunda metade do século
passado, a casa da ti’ Maria Rosa, no sítio da Pedra Branca, era a última da
Rua dos Arneiros.
Depois disso eram, apenas, campos de cultivo, quase todos plantados de oliveiras e só mesmo na Ataíja de Baixo voltávamos a ver casas. A primeira, a chegar à Senhora dos Enfermos, era a de Joaquim Pio que foi casado com uma nossa conterrânea, filha de António Orelha e Joaquina Porfíria (curiosamente, também, era de uma outra filha do mesmo casal a primeira casa que encontraríamos se, ali ao Casal da Ordem, seguíssemos para o caminho que vai pela esquerda, para a Lagoa Cova).
Depois disso eram, apenas, campos de cultivo, quase todos plantados de oliveiras e só mesmo na Ataíja de Baixo voltávamos a ver casas. A primeira, a chegar à Senhora dos Enfermos, era a de Joaquim Pio que foi casado com uma nossa conterrânea, filha de António Orelha e Joaquina Porfíria (curiosamente, também, era de uma outra filha do mesmo casal a primeira casa que encontraríamos se, ali ao Casal da Ordem, seguíssemos para o caminho que vai pela esquerda, para a Lagoa Cova).
A casa da ti´ Maria Rosa estava ali, quase sozinha, tendo
por vizinhos mais próximos o ti’ António Catarino, onde agora é uma oficina de
lareiras, o ti’ Francisco Faxia, onde o Zé da Ilda faz garagem e, em frente a
esta, a casa agora inteiramente arruinada que foi de António Orelha (filho).
Na Rua dos Arneiros encontrávamos mais, as casas de José Lourenço, António da Graça, Joaquina da Piedade, António da Piedade, António Guilhermino, José Dionísio, a do meu pai João Lourenço Quitério, Francisco Dionísio, João Salgueiro, Joaquina Cordeira, Toni, Augusto Ribeiro, António Ângelo (Rospiço) e José Veríssimo e, estávamos no Outeiro.
Na Rua da Pedra Branca, estava, além da referida de António Catarino, a casa de José da Graça.
Na Rua das Covas, havia cinco habitações: a de José Guilhermino, a de Guilhermina Vigário , a de António Lourenço, a do Quintal da Rosalia, então habitada pela família de José Rebolão e a do meu tio António Coelho Quitério (Sapatada)
A Rua do Martins não tinha casas e a Travessa dos Arneiros não existia ou seja, havia em todos os Arneiros um total de vinte e quatro casas habitadas.[i]
Na Rua dos Arneiros encontrávamos mais, as casas de José Lourenço, António da Graça, Joaquina da Piedade, António da Piedade, António Guilhermino, José Dionísio, a do meu pai João Lourenço Quitério, Francisco Dionísio, João Salgueiro, Joaquina Cordeira, Toni, Augusto Ribeiro, António Ângelo (Rospiço) e José Veríssimo e, estávamos no Outeiro.
Na Rua da Pedra Branca, estava, além da referida de António Catarino, a casa de José da Graça.
Na Rua das Covas, havia cinco habitações: a de José Guilhermino, a de Guilhermina Vigário , a de António Lourenço, a do Quintal da Rosalia, então habitada pela família de José Rebolão e a do meu tio António Coelho Quitério (Sapatada)
A Rua do Martins não tinha casas e a Travessa dos Arneiros não existia ou seja, havia em todos os Arneiros um total de vinte e quatro casas habitadas.[i]
Junto à casa da ti’ Maria Rosa há um poço a que todos chamam
(ou, melhor, todos naquele tempo chamavam que, hoje, os poços já não têm nome)
o poço do Moura.
O que sempre me fez alguma confusão.
O que sempre me fez alguma confusão.
Quem seria esse tal Moura que tinha dado o nome ao poço se,
na Ataíja daquele tempo, nem sequer havia nenhum Moura?
Certezas, não tenho. O que descobri parece, no entanto, ter alguma lógica. Talvez eu tenha descoberto quem era esse Moura que deu o nome ao poço.
Certezas, não tenho. O que descobri parece, no entanto, ter alguma lógica. Talvez eu tenha descoberto quem era esse Moura que deu o nome ao poço.
O homem mais rico da Ataija de Cima nos inícios do Séc. XX
era Matias Ângelo, o qual é geralmente conhecido por, em 1918 e como já falamos
em mais de um texto neste blog, ter comprado ao burguês de Alcobaça Olímpio
Trindade Jorge, o Olival dos Frades.
Ora, o Matias Ângelo era filho de Ângelo da Silva, natural
dos Covões e de Maria dos Santos, exposta da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa a qual, tendo ficado viúva e com quatro filhos a cargo, veio a casar, em
segundas núpcias dela, no dia 21 de Fevereiro de 1876, tinha então quarenta e
quatro anos, com António de Moura, solteiro, de 55 anos de idade.
Eis aqui como, com alta probabilidade, o poço do Moura (do
António de Moura?) veio à posse de Maria de Matos Ângelo, que todos conhecemos
por Maria Rosa e é bisneta da dita Maria dos Santos.
O António de Moura, esse, foi baptizado em 02.07.1821 e era o
filho mais velho de Bernardo de Moura e Úrsula dos Santos (também enjeitada e
ama de enjeitados)[ii].
Sendo que, Bernardo de Moura foi baptizado em 23.11.1792 e era filho de João de Moura da Ataíja de Baixo e de Maria Guitéria da Ataíja de Cima, falecida esta em 6.6.1827 e ele em data desconhecida mas, antes disso.
João de Moura, por sua vez, era filho de Luiz de Moura e de Caterina Antunes, ambos da Ataíja de Baixo
Sendo que, Bernardo de Moura foi baptizado em 23.11.1792 e era filho de João de Moura da Ataíja de Baixo e de Maria Guitéria da Ataíja de Cima, falecida esta em 6.6.1827 e ele em data desconhecida mas, antes disso.
João de Moura, por sua vez, era filho de Luiz de Moura e de Caterina Antunes, ambos da Ataíja de Baixo
E, assim, chegamos a gente que foi contemporânea do
Marquês de Pombal e do grande terramoto de 1755
O poço, esse, é um dos poucos exemplares sobrantes do tipo mais comum de poço ataijense. Aberto em terreno de barro naturalmente impermeabilizante em cuja escavação, quase sempre, se encontrava pedra em quantidade suficiente para construir a parede, tecida em seco, sem qualquer argamassa. Acima da terra a parede subia para suportar um telhado de uma água sobre estrutura de madeira, com o beirado do lado oposto ao do acesso, lançando as águas para um valado que recolhia não só essas mas também as águas que caiam no terreno em redor e que, a partir daí, por infiltração e através da parede – de pedra seca como se disse – eram conduzidas para dentro do poço.
O poço do Moura apresenta a parede acima do solo rebocada
exteriormente e caiada e, a porta de acesso, fechada na metade inferior por um parapeito
feito de uma grande laje aparelhada, mostra um requintado acabamento, com a
parte superior em arco, ao invés da normal, simples, verga feita
de laje toscamente aparelhada.
Ao lado direito da porta, a parede é atravessada por uma grande pedra aparelhada que, do lado de dentro do poço se abre numa pia para a qual é despejada a água do balde que, daí e através de um furo longitudinal, chega a uma bela torneira de latão[iii], sob a qual se colocava o cântaro.
O objectivo era não perder uma única gota de água potável, bem precioso que, aqui nesta borda da serra, durante séculos e até ao ano de 1993, apenas em poços como este se encontrava e, por isso, era parcimoniosamente racionada, em regra limitada a um cântaro por dia e por família[iv] e, também por isso, naqueles tempos as portas das casas ficavam no trinco mas, os poços eram fechados à chave.
Ao lado direito da porta, a parede é atravessada por uma grande pedra aparelhada que, do lado de dentro do poço se abre numa pia para a qual é despejada a água do balde que, daí e através de um furo longitudinal, chega a uma bela torneira de latão[iii], sob a qual se colocava o cântaro.
O objectivo era não perder uma única gota de água potável, bem precioso que, aqui nesta borda da serra, durante séculos e até ao ano de 1993, apenas em poços como este se encontrava e, por isso, era parcimoniosamente racionada, em regra limitada a um cântaro por dia e por família[iv] e, também por isso, naqueles tempos as portas das casas ficavam no trinco mas, os poços eram fechados à chave.
[i] E, duas
desabitadas: A que tinha sido do Combasteiro e já naquele tempo era um casebre
velho, utilizado como palheiro, e ficava onde está a Casa do Ramiro e a que
tinha sido de João Maurício, onde agora é a de seu neto João Pérídes.
[ii] Ver,
neste blog “Amas de Expostos”, in http://ataijadecima.blogspot.pt/search?q=Amas+de+expostos
[iii] A
torneira é, certamente, um acrescento tardio.
[iv] Nem
todas as casas possuíam poço pelo que era comum abastecer-se
do mesmo poço mais de uma família, fosse por razões de parentesco, fosse por contrato.
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