terça-feira, 2 de maio de 2017

Capitães de Aljubarrota



Oficial de Ordenanças - 1806
(Arquivo Histórico Militar)


Os leitores deste blog sabem que o objecto do nosso estudo é a Ataíja de Cima mas, ao procurar no passado ataijense, inevitavelmente, deparamo-nos com factos que, podendo parecer-lhe relativamente laterais, se apresentam como úteis ou necessários à compreensão da aldeia. É o caso das estruturas de poder no então concelho de Aljubarrota, a que a Ataíja pertenceu até à sua extinção.

Entre os elementos mais relevantes dessas estruturas de poder estavam os oficiais de Ordenanças e Milícias, cuja existência fomos surpreendendo através dos factos da vida objecto de registo paroquial: os nascimentos, casamentos e óbitos.
Não é aqui o lugar para discorrer sobre o que foram as Ordenanças e as Milícias em Portugal[i], desde a sua regulamentação no tempo de D. Sebastião até ao Séc. XIX. Para o que nos interessa – a identificação das elites locais que, no Séc. XIX e na região onde se insere a Ataíja de Cima, exerciam funções de oficiais de Ordenanças e de Milícias – suficiente será saber que os oficiais de Ordenanças eram escolhidos na área territorial da respectiva unidade, de entre as pessoas “que forem as mais principais desses territórios, pela sua riqueza, nobreza e representação e em que concorram as outras qualidades de inteligência, desinteresse e agilidade própria para semelhantes empregos”[ii].
O facto de, depois da Restauração de 1640 e com funções de exército de 2ª linha, terem sido criados os Terços de Auxiliares (a partir de 1796, denominados Regimentos de Milícias), daí resultando que, no final do Séc. XVIII, as Ordenanças estavam transformadas em “simples” estruturas de recrutamento militar, não nos deve iludir: A origem social, em regra a pequena nobreza rural, a importância económica e as atribuições relativas ao recrutamento davam aos oficiais, sobretudo aos Capitães de Ordenanças, um imenso poder.

Até aos anos 30 do Séc. XIX Aljubarrota foi concelho e teve, também, a sua Companhia de Ordenanças, uma das dezassete que, em 1833, havia nos Coutos de Alcobaça onde, igualmente, havia um Regimento de Milícias.

Não surpreende, por isso, que ao estudar os Registos Paroquiais de São Vicente de Aljubarrota, nos deparemos com os oficiais de Ordenanças residentes em Aljubarrota, fossem da Companhia de Ordenanças desse concelho, fossem da Capitania-Mor de Alcobaça, ou do respectivo Regimento de Milícias.

Nem a vitória do liberalismo nem a extinção das Ordens Religiosas nem, muito menos, a do concelho de Aljubarrota, na década de 1830, tiveram, por si, o efeito mágico de fazer desaparecer as estruturas e os personagens que conformaram a sociedade local no Antigo Regime. De facto, satisfeito o apetite dos novos enriquecidos com a aquisição dos bens do Mosteiro, continuaram a subsistir os grandes proprietários que já o eram e o essencial da imensa teia de servidões e ameaças que impendiam sobre os camponeses. O recrutamento e conscrição militar não eram as menores dessas ameaças.

Não parece, por isso, possível compreender as estruturas do poder concelhio, nessa época vertiginosa que foi toda a primeira parte do Séc. XIX, sem conhecer quem foram os oficiais de Ordenanças e de Milícias.

Numa listagem não exaustiva, elaborada quase totalmente, a partir da referida obra de Nuno Borrego e dos registos paroquiais de São Vicente de Aljubarrota, encontrámos os seguintes, que se indicam por ordem cronológica, da referência mais antiga para a mais moderna:

Em 3.2.1779, no âmbito das Inquirições sobre a Pureza do Sangue de Francisco Xavier da Veiga, foi inquirido "Veríssimo de Sousa Henriques, capitão de ordenanças da freguesia de São Vicente desta mesma vila de Aljubarrota, natural e baptizado na Colegiada de São João Baptista da vila de Coruche e morador nesta vila há cinquenta e dois anos, viúvo, de idade que disse ser de sessenta e nove anos..."

Em 24.10.1785, Joaquim de Sousa Amado[iii], recebeu a carta patente de Capitão de Ordenanças da Vila de Aljubarrota, dos Coutos de Alcobaça, lugar que vagou por morte de Luís Nunes de Barros.[iv]

Em 21.04.1790, José Tavares Amado e Azambuja[v] é Capitão de Ordenanças da Companhia de São Vicente da vila de Aljubarrota, dos Coutos de Alcobaça, cargo que vagou por morte de Veríssimo de Sousa Henriques.[vi]

Obs.1: Antes deste José Tavares Amado e Azambuja, encontramos José Gomes Anes Amado de Azambuja, nascido em Aljubarrota, “Fidalgo de Cota de Armas por Carta de Brazão de Armas, de 5.10.1721, registada na Câmara de Coimbra”, conforme nos informa o GeneAll (www.geneall.net, consultado em 07-03-2014).
Talvez, o José Tavares Amado e Azambuja e o José Gomes Anes Amado de Azambuja, sejam parentes.
Obs.2: Em Aljubarrota existiam, provavelmente, pelo menos, duas Companhias de Ordenanças, uma em S. Vicente, outra em Nossa Senhora dos Prazeres.

O Capitão Bartolomeu Rodrigues Carreira é referido num assento de baptismo de 29-05-1799, onde o seu filho José tocou com procuração da madrinha (e, vale a pena transcrever o nome) D. Joana Crisóstomo Angélica de Jesus de Sequeira Pote.
12 de Junho de 1801 – falecimento do Capitão Bartolomeu Rodrigues Carreira, casado com “Dona Maria Dorothea desta dita Villa e Freguesia”. Recebeu os Sacramentos. Fez testamento selado e foi enterrado dentro da Igreja Paroquial de São Vicente de Aljubarrota.

Obs.: Houve um outro Bartolomeu Rodrigues Carreira, também capitão e, certamente, familiar deste, como deduzo dos factos de, em 17-08-1805, um Bartolomeu Rodrigues Carreira ter sido testemunha de um casamento em S. Vicente e por, no livro Aljubarrota Villa[vii], uma das estampas insertas entre págs. 34 e 35, reproduzir uma fotografia do “Capitão Bartholomeu Rodrigues Carreira”.

O Alferes João da Silva[viii], da Vila, é mencionado num assento de óbito ocorrido em 09-11-1800. Não encontrámos outras referências a este indivíduo.

Em 29-05-1801, o Sargento-Mor Engenheiro, Tomás Rodrigues da Costa[ix] é mencionado no assento de óbito da sua viúva, D. Maria Rosalia Lourenço, ocorrido nessa data. Não temos outra informação sobre este oficial que, aparentemente, residiu em Aljubarrota


Segundo Nuno Borrego[x], Gregório José Gomes Botelho recebeu, em 24.05.1802, a patente de Capitão da Companhia de Ordenanças de Aljubarrota, sucedendo no cargo a Bartolomeu Rodrigues Carreira, por morte deste.
Foi, ainda segundo Nuno Borrego, reformado em 17.12.1808.

Obs.: Tomás José Maria Botelho, quase sempre referido pelo Pároco apenas como Tomás José Maria, era filho do Capitão Gregório Botelho e foi, frequente e continuadamente, testemunha de actos litúrgicos objecto de assento, cujos assinava. Aparentemente, desempenhava funções na Igreja de S. Vicente mas, essas funções nunca são identificadas nos assentos a que tivemos acesso.

Em 24.11.1804, o Alferes José Tavares[xi], de Aljubarrota, foi padrinho de casamento de Manuel João, da Ataíja de Cima, com Luisa Coelho da Ataíja de Baixo, onde o casal ficou morador.           
Em, 25-11-1807, o Alferes José Tavares (assim o identifica o assento) que assinou José Tavares Amado, foi testemunha do casamento de João Carreira, da Ataíja de Baixo, com Mónica Joaquina, do Cadouço, onde o casal ficou a residir.

Obs.: Trata-se, certamente, da mesma pessoa em ambos estes casos.

Capitão Manuel Pedro Gomes Botelho, reformado em 17.12.1808[xii].

Obs.: Não encontrámos, nos assentos paroquiais, referência a um Capitão Manuel Pedro Gomes Botelho mas, aparentemente, trata-se de um familiar (talvez irmão) do Capitão Gregório José Gomes Botelho.

Em 20.02.1812, António Maria Correia de Almeida, recebeu carta patente de Capitão de Ordenanças da freguesia de São Vicente da vila de Aljubarrota, dos Coutos de Alcobaça, lugar que vagou por morte de José Joaquim Tavares.[xiii]

Obs.: Não encontrámos, nos assentos paroquiais, referência a um Capitão António Maria Correia de Almeida. Em contrapartida, encontrámos em 30-09-1818 e em 20-11-1825, um Capitão António Maria, em 18-12-1856 um Capitão António Maria Correia e, em 22-04-1861,um Capitão António Maria Correia de Mendonça e Olivença.
Pertenceu ao Capitão António Maria (e ainda se encontra na família), a bela residência que é conhecida por “Casa dos Capitães”, um dos edifícios civis mais interessantes de Aljubarrota, junto à Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres e cuja actual traça é resultado de uma reconstrução de 1779.

José Joaquim Tavares, Capitão de ordenanças de São Vicente de Aljubarrota, antes de 1812, como se deduz da informação de Nuno Borrego segundo a qual terá falecido e sido substituído, no início desse ano, pelo Capitão António Maria.

Em 12.09.1815, Manuel do Rosário de Oliveira Baena, Capitão da 6ª Companhia de Ordenanças, da vila de Aljubarrota, que vagou pela promoção de António Maria Correia a Capitão de milícias.[xiv]

Obs.: Não encontrámos, nos assentos paroquiais, referências a este Capitão Manuel do Rosário de Oliveira Baena. Em contrapartida encontramos, com os apelidos Oliveira Baena, alguns Doutores e, até, um escravo. Havemos de voltar a este assunto.

Alferes António Gomes (que assinou António gomes Coelho), do Lugar da Boavista. Foi testemunha, em 12 de Janeiro de 1822, na escritura de testamento de Micaela dos Santos, da Ataíja de Cima, o qual foi celebrado em Aljubarrota, no Cartório do Tabelião do Público, Judicial e Notas daquela Vila, José Gomes Coelho.
http://ataijadecima.blogspot.pt/2011/05/um-testamento-de-1822.html

Luís José Baptista de Sequeira[xv], é identificado como Tenente em 25-11-1825 e, a partir de 13-06-1830, passa a ser referido como Capitão, como acontece em 15-04-1833, 19-10-1834, 26-09-1840 (quando foi testemunha no casamento de D. Maria do Laço, filha do Sargento-Mor António José Baptista de Sequeira), 18-12-1856, 13-05-1858 e, finalmente, em 07-03-1859, quando foi padrinho de baptismo de 1 criança, neta dos ataijenses Manuel de Carvalho e Joaquina Rosalia.
Trata-se do oficial que mais vezes encontrámos nos assentos paroquiais, pelo que mais se estranha a sua ausência do importante trabalho de Nuno Borrego.

O Sargento-Mor António José Baptista de Sequeira foi, de acordo com Nuno Borrego (op.cit.), em 24.07.1780, nomeado Capitão de Ordenanças da vila da Cela, dos Coutos de Alcobaça, lugar que vagou por escusa de seu pai Simão Baptista de Sequeira.
Posteriormente, em 27.5.1782, foi promovido a sargento-mor de Ordenanças dos Coutos de Alcobaça, lugar que vagou por morte de António Maria Brazão das Neves.

Obs.: Como já acima referido, no casamento de sua filha, ocorrido em 26-09-1840, (quando o Sargento-Mor já era viúvo), foi testemunha o Capitão Luís José Baptista de Sequeira. Eram, certamente, familiares.
Atente-se, ainda que, desde a sua nomeação como capitão tinham, já, decorrido 60 anos. O Sargento-Mor era, naquela data, muito velho.

Tenente Raimundo José de Sousa[xvi], casado com D. Mariana Bárbara da Purificação, “ambos desta Villa”, referido num assento de baptismo de 08-04-1827 no qual o seu filho José foi padrinho e, também, num outro assento de baptismo de 28-12-1827, onde ele próprio foi padrinho

Obs.: Não encontrámos outras referências a este Tenente que, aparentemente, seria filho do Desembargador do mesmo nome e, portanto, neto do Capitão de Ordenanças de Aljubarrota e Familiar do Santo Ofício, Veríssimo de Sousa Henriques.
O Desembargador Raimundo José de Sousa foi Cavaleiro de Cristo, Juiz de Fora da Golegã, Senhor da Quinta do Porto da Lage (perto de Tomar) e Auditor do Regimento da Praça de Moura e do Regimento de Beja, Senhor do Morgado de Aljubarrota e pai de Raimundo Veríssimo de Sousa Lacerda, nascido em 1785, de seu nome completo Raimundo Veríssimo de Sousa Lacerda e Silva o qual foi Capitão, tenente-coronel e Coronel graduado do Regimento de Milícia de Tomar e, posteriormente, Coronel do Regimento de Milícias de Leiria.
Há quem sustente que se trata da mesma pessoa que encontrámos referida como o Tenente Raimundo José de Sousa mas, enquanto o nosso Tenente é, segundo o pároco de S. Vicente, casado com D. Mariana Bárbara da Purificação, o Coronel parece ter sido casado uma única vez e, com Maria da Graça Freire do Prado.
É assunto que carece de melhor esclarecimento.

Conforme se vê do assento do casamento, celebrado em 21-08-1861, do seu filho Joaquim Vitorino, então com 41 anos de idade[xvii], o Capitão Joaquim Bernardes (ou Bernardo) Correia Triaga[xviii], era filho do Doutor Silvestre Torres Correia Triaga e genro do Capitão Bartolomeu Rodrigues Carreira, com cuja filha, Gertrudes Cândida do Carmo de Sequeira, casou em 30-07-1817.

O nome do Capitão Francisco António[xix] “desta dita Villa”, apareceu-nos pela primeira vez no assento do baptismo, realizado em 30-12-1799, de Honorata, filha de Teodósio Maria de Oliveira Baena e neta do Doutor João Baptista de Oliveira Baena, de quem foi padrinho.
A baptizanda era neta materna de Leonardo Gomes Botelho e, portanto, sobrinha do Alferes Gregório José Gomes Botelho que, aliás, passados oito dias havia de, também, baptizar uma filha.
Em 09-02-1800, o Capitão Francisco António baptizou o seu filho Francisco, o qual viria a ser o Almirante Francisco António Gonçalves Cardoso, cujo o essencial da biografia já demos conta neste blog, no Post O Almirante Cardoso. Por este assento, ficamos a saber que o Capitão Francisco António era natural de Lisboa e filho de açorianos da cidade de Angra (que, naquele tempo, ainda não era do Heroísmo).
O filho do Almirante, João Luís Gonçalves Cardoso, foi também militar, conforme se vê do assento do casamento de sua irmã, celebrado em 15-12-1884, onde é referido como “oficial do Batalhão de Caçadores n.º 3 d’África”.

Outros oficiais de Ordenanças e de Milícias h(aver)á, (e alguns de tropas de linha, quase sempre descendentes daqueles, como será o caso do Almirante Cardoso). A sua completa inventariação e o estudo das suas relações familiares e com os povos, será um contributo de grande importância para o conhecimento das estruturas económicas e sociais e das relações de poder no concelho de Aljubarrota, na viragem do Antigo Regime para o Liberalismo.



(Texto publicado neste blog em 13-03-2014. Revisto em 02-05-2017)


[i] Sobre este assunto pode ler-se Borrego, Nuno Gonçalo Pereira, As Ordenanças e as Milícias em Portugal, subsídios para o seu estudo, Volume I, Guarda-Mor, Lisboa, 2006, a cujo conteúdo recorremos abundantemente para a elaboração deste texto.
[ii] Regulamento de Ordenanças de 21 de Fevereiro de 1816. (Na prática, pouco se alterou desde o Séc. XVI, sendo as funções de oficial das Companhias de Ordenanças privilégio da nobreza local e, ou, dos mais abastados proprietários).
[iii] Identificado por Nuno Borrego, op.cit.
[iv] Identificado por Nuno Borrego, op.cit.
[v] Identificado por Nuno Borrego, op.cit.
[vi] Identificado por Nuno Borrego, op.cit.
[vii] Santos, Ana Maria Olivença Trindade dos e Rodrigues, José Casimiro, Aljubarrota Villa, VI Centenário da Batalha de Aljubarrota, 14 de Agosto de 1985, Edição da Paróquia de Aljubarrota
[viii] Não é referido em Nuno Borrego, op.cit.
[ix] Vista a especialidade, não faria parte das Ordenanças nem das Mílicias mas, talvez, do Real Corpo de Engenheiros do Exército Português, o qual foi organizado, com esta designação, em 1793.
[x] Nuno Borrego, op.cit.
[xi] Nuno Borrego, op.cit. identifica um alferes José Tavares no Regimento de Milícias da Guarda. Não será a mesma pessoa
[xii] Nuno Borrego, op.cit.
[xiii] Nuno Borrego, op.cit.
[xiv] Nuno Borrego, op.cit.
[xv] Não é referido em Nuno Borrego, op.cit.
[xvi] Não é referido em Nuno Borrego, op.cit.
[xvii] A noiva, de 24 anos, era filha do Capitão António Maria Correia
[xviii] Não é referido em Nuno Borrego, op.cit.
[xix] Não é referido em Nuno Borrego, op.cit.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

As Tapadas - património cisterciense esquecido




Nas Tapadas, os frades plantaram laranjeiras, dizia a minha avó.

Fig. 1


Vistas da Ataíja, são três longas linhas de pedra (agora quase ocultas no matagal), correndo a serra na horizontal, como traços de giz num quadro negro, servindo de remate ao olival do Santíssimo, ali, na parte inferior da encosta, à cota dos 250m, a partir de onde o solo se inclina demasiado para permitir qualquer cultivo.

Fig. 2
Perfil da Serra dos Candeeiros na zona do Olival dos Frades da Ataíja de Cima
(elaboração própria com base em Mapbox e OpenStreetMap):


Nessa transição de declives, por um momento, o solo é menos inclinado do que ao redor. Por isso havia quem, em vez de Tapadas, chamasse ao lugar as Covadas.

Nos anos de 1950 e 1960, o Ti José Ribeiro ainda cultivava a sua parte das Tapadas. Entretanto, as coisas mudaram e hoje o mar de oliveiras que bordejava todo o poente da Serra dos Candeeiros foi substituído, quase totalmente, por pinheiros e eucaliptos e, nas margens do IC2, por uma fila quase contínua de fábricas, oficinas, restaurantes e armazéns diversos. As Tapadas, essas, já quase se não veem, seja cá de longe, seja mesmo lá ao pé, submersas que estão em matos e silvas e moitas e em carrasqueiras impenetráveis, bem mais altas que um homem.

Numa visita recente foi, apesar de tudo, possível perceber o essencial da estrutura, como se mostra no esboço de planta do conjunto, tal como o pudemos observar (elaboração própria com base em Google Maps e observação no local):
Fig. 3


 
O muro interrompido que se vê à direita no desenho não faz parte da estrutura. Antes, indica o limite a montante da propriedade e serve de suporte a um carreiro conhecido por o caminho do guarda.
À esquerda do desenho, a jusante da estrutura, veem-se um pedaço de parede, com argamassa de barro (Fig. 4), incluindo o cunhal (Fig. 5) e um pedaço de muro, de construção idêntica (Fig. 6), correndo de montante para jusante (ESE/ONO) e aparentemente sem ligação com o anterior. Entre ambos, uma ligeira elevação do terreno revela-se uma escombreira onde são visíveis pequenos pedaços de telha de canudo (Fig. 7) e, muito perto, debaixo de uma carrasqueira (Fig. 8), mais restos de um muro, de características e orientação semelhantes ao antes referido.










As Tapadas ocupam uma extensa área, de mais de 2 hectares, e têm um comprimento de cerca de 360 metros. Os três muros longitudinais, são sensivelmente paralelos e afastados entre si de cerca de 30 metros. A estrutura fecha-se nos topos por muros cujas características não pudemos confirmar devido às dificuldades de acesso.
Em posição relativa que também não pudemos confirmar, pelo menos o espaço entre os muros médio e superior é interiormente seccionado por, pelo menos, um muro secundário. Na parte do muro superior que visitámos, observamos, ainda, a existência de duas aberturas, uma das quais se mostra, parcialmente, na foto abaixo.
Fig. 9


Os três muros principais, têm perfis diferentes, como se evidencia nos desenhos abaixo (elaboração própria).
Fig. 10


O muro de montante é o mais forte, com uma largura no topo (na zona que visitámos), variando entre 190 e 220 cm, a que acresce um socalco de 70 cm de largura e, considerando que, de jusante, a parede apresenta uma inclinação de cerca de 15%, a largura total na base atingirá os 330 cm.
Não foi medida a altura pelo exterior do recinto. Pelo interior foram medidos 200 cm até ao socalco e, daí 130 cm até ao topo, num total de 330 cm.
O muro intermédio é mais estreito, com uma largura de 120 cm no topo, a que acrescem dois socalcos de 40cm cada, numa total de 200 cm. Ambas as faces são verticais. De montante mediu-se a altura de 200 cm e de jusante 150 cm até ao primeiro socalco, mais 80 cm até ao segundo socalco e outros 80 centímetros até ao topo, somando a altura total de 310 cm.
O terceiro muro, que fecha o conjunto a jusante, é o de dimensões e formas mais simples, sendo constituído por uma parede com 120 cm de largura e uma altura, idêntica em ambas as faces, de cerca de 200 cm.


Vista do muro superior, com o seu socalco:
Fig. 11



Muro intermédio com os seus socalcos
Fig. 12



Muro Inferior
Fig. 13
Muro inferior

No topo e fazendo parte da propriedade a que os frades chamaram olival do Santíssimo e por aqui era conhecido como Olival dos Frades, o qual vindo desde o caminho dos Arneiros, numa extensão de cerca de 2400 metros era, no início do Séc. XIX, com os seus cerca de 100 hectares e mais de 18.000 pés de oliveira, o maior olival da região, as Tapadas ainda hoje não passam despercebidas a um olhar atento que se lance sobre a serra, a partir da Ataíja, do Cadoiço, ou de Aljubarrota e seus arredores.

Trata-se, sem qualquer espécie de duvida de uma construção fradesca.

Apesar disso e do muito que tenho lido a propósito dos monges cistercienses de Alcobaça, nunca vi, que me lembre, qualquer referência escrita a esta estrutura monumental.

Da tradição popular, apenas se retém localmente essa ideia de que nas Tapadas os frades plantavam laranjeiras. E, está bem vivo quem, há mais de 50 anos lá andou a lavrar com os bois do ti Zé Ribeiro que ali terá semeado batatas. Nesse tempo, havia por lá uma figueira, mas não havia vestígios de laranjeiras.

Verdade é que o volume de pedra usado na construção dos 3 muros principais, ultrapassa largamente os 5.500 m3 a que há que acrescentar o volume dos muros transversais, de fecho e de divisão, cujo volume não conseguimos estimar. Um tal volume de construção e, ainda, o que parece ter sido um edifício anexo, implicou, necessariamente, uma gigantesca quantidade de trabalho e dinheiro, num investimento que, certamente, se esperava recuperar a prazo.

Não me parece credível que um pomar de laranjeiras pudesse, por si só, garantir um adequado retorno financeiro e, por outro lado, só uma total ausência de terrenos igualmente aptos à cultura justificaria o virem plantar-se em local tão difícil e de tão onerosa preparação, pelo que se nos afigura que as laranjas que a tradição popular recorda, não terão sido a razão principal, muito menos a única, que levou à construção das Tapadas.

Subsistem, assim, vários mistérios em torno desta construção:

- Quando e com que objectivos terá sido construída?
- Qual a razão porque é sistematicamente ignorada nos estudos sobre a actividade agrícola dos monges cistercienses de Alcobaça?

terça-feira, 11 de abril de 2017

Quaresma



No passado sábado, dia 8, também na Ataíja se assinalou condignamente o tempo Quaresmal que atravessamos, encenando um excerto da vida de Cristo, mais exactamente o período da Semana Santa que vai do Domingo de Ramos até ao beijo de Judas e à prisão de Jesus.

O acto, modestamente referido, no pequeno cartaz de divulgação, como uma “Representação de uma Passagem Bíblica (feita pelos pais e crianças da catequese)”, foi, na verdade uma iniciativa das catequistas que lograram entusiasmar e mobilizar crianças e pais e foram capazes de construir cenários bastante simples mas rigorosamente adequados e um texto muito escorreito (que, apenas por ser demasiado longo aqui se não transcreve), o qual foi muito bem lido, com voz clara e bem ritmada, pelo Luís Vigário (Sabino), enquanto os demais pais representaram Cristo e os Apóstolos, Juízes do Sinédrio e guardas e as crianças e as mães (e algumas avós) foram o povo, tudo servido por uma encenação discreta, no entanto, elaborada e moderna.

Tudo foi seguido com muita atenção e agrado pela numerosa assistência que acorreu ao Salão Cultural Ataíjense e, no final, prolongou o convívio em redor das filhós e do café das velhas.

A Cena 1, decorreu logo na entrada da sala e no caminho até o palco e representou a entrada triunfal de Jesus e os seus apóstolos em Jerusalém, no Domingo de Ramos, acompanhados pelos festejos do povo que cantava Hossanas, agitando ramos de palmeira e lançando flores e as próprias capas no caminho por onde o cortejo havia de passar.
A Cena 2, a mais longa, passou-se no palco e constou, na verdade, de 4 quadros: a preparação da mesa para a ceia, o lava-pés, a sagração do pão e do vinho e num quadro final (que teve lugar num palco secundário), a negociação da traição de Judas.
A Cena 3, igualmente passada num outro palco secundário, retratou a ida de Jesus e dos seus Apóstolos para o Jardim de Getsémani, ou Jardim das Oliveiras onde Judas aparece, acompanhando os Doutores das Leis e os soldados, efectiva a traição e Jesus é preso.


O povo aguarda a chegada de Jesus e seus Apóstolos 


Entrada de Jesus em Jerusalém


A Ceia


O Lava-pés


Uma assistência interessada e atenta





Nota:
Na ausência de uma ficha técnica, não nos é possível indicar todos os que contribuíram para a realização do “espectáculo”, muito menos, indicar os respectivos papéis ou tarefas.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A(s) Escola(s) da Ataíja de Cima - I

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Um ataíjense andava a estudar para Padre quando, numa mesma semana, lhe morreram pai e mãe. Então e por razões que não sabemos, fosse o desgosto ou a necessidade de tomar conta da casa familiar, abandonou os estudos teológicos, regressou à Ataíja de Cima, casou-se uma primeira vez e, tendo viuvado, voltou a casar-se, tinha então 72 anos e a noiva 25. Faleceram, ambos, com a idade de 98 anos.(Como explicamos num outro post, esta descrição não condiz totalmente com os factos documentados)

Foram os avós paternos de João Veríssimo.

Segundo os meus cálculos, este Veríssimo há-de ter nascido com o Séc.XIX e é um dos mais antigos ataíjenses letrados de que tenho conhecimento.
Os demais ataijenses daquele tempo eram, como quase todos os portugueses, analfabetos.

É certo que, em 1822, já havia em Aljubarrota um professor de primeiras letras mas, não tenho notícia de o seu saber ter chegado a esta borda da serra.

Ainda em 1874, mesmo o carpinteiro Luís Ribeiro não sabia assinar, isto apesar de ser um mestre de ofício e de, nesse tempo, já haver em Aljubarrota um professor do ensino primário.

Tal como, em 1898, o filho daquele, Luís Ribeiro Júnior, também não sabia assinar, pese embora já fosse um abastado proprietário rural.

Por esse tempo, o meu avô Joaquim Coelho Quitério estava na tropa e foi aí que aprendeu a ler e escrever.

Antes disso, o meu trisavô João Maria de Sousa Cláudio, assinou, em trémula letra, pelo menos um assento paroquial. Isto, apesar de, em outros assentos que testemunhou, o Pároco ter declarado que não sabia assinar.

O primeiro esboço de escola que existiu na Ataíja, talvez tenha tido as suas instalações na casa alta que pertenceu ao referido Luís Ribeiro Júnior. Talvez tenha sido aí que o filho José Ribeiro, nascido em 1900, aprendeu a ler e escrever.

Facto é que, naquela casa, (no lugar onde o Rafael Mosca construiu a sua e onde, quando eu era pequeno, funcionava um palheiro no rés-do-chão, o primeiro andar servia de quartel ao rancho da azeitona e sobre o telhado girava o aerogerador que alimentava a única telefonia da aldeia) foram encontrados, após o falecimento de José Ribeiro, restos de um quadro preto, de lousa, e alguns sólidos geométricos de madeira.

A geração seguinte de ataijenses aprendeu a ler, os que aprenderam, com Joaquim Rôzo que por aqui ensinou nos anos de 1920 e, ou, princípios de 1930.

A escola oficial e formal, essa, só chegaria em 1933 e foi construída por adaptação de um palheiro, doado por João Cordeiro, na empena do qual, para iluminar o espaço, se abriram quatro grandes janelas.

Era no Adro, entre o palheiro do Mira, também já desaparecido e a Capela, com entrada pela, agora chamada, Rua de Nossa Senhora da Graça, tinha uma placa com os dizeres: "Obra da Ditadura - 1933" e funcionou até ao ano lectivo de 1972 / 1973.

Apesar da placa, tudo ou quase tudo foi suportado pelos ataijenses que ofereceram, além do edifício, trabalho, madeiras e dinheiro.

A escola tinha uma única sala, cuja porta dava directamente para a rua e não havia electricidade, nem água, nem recreio, nem instalações sanitárias.
Apenas a secretária da professora, três filas de carteiras duplas (na fila do lado direito as carteiras eram maiores e aí se sentavam os alunos da quarta classe) e um quadro preto sobre o qual estavam os retratos do Salazar e do Carmona (que por lá se manteve mesmo muitos anos depois de falecido e substituído na função, primeiro por Craveiro Lopes e, depois, por Américo Tomaz), ladeando um crucifixo.

Aí estudavam as crianças de ambas as Ataíjas.

Uma vez que havia uma única sala, de manhã estudavam os da primeira e os da quarta classe e de tarde os da segunda e os da terceira (ou ao contrário, já não me lembro bem), em turmas mistas.

Aí estudei, da primeira à terceira classes.

Foi demolida, para alargamento do Adro, alguns anos depois da construção da escola actual.


Reconstituição da escola, desenhada a partir de fotos antigas. Aguarela de Inês Neves.




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ADENDA:
No semanário Região de Cister, n.º 1227, de 23 de Fevereiro de 2017, na rubrica Arco da Memória, da autoria de José Eduardo Reis de Oliveira, sob o título: "Recordando Joaquim Augusto de Carvalho" diz-se, a certa altura que o dito Joaquim Augusto de Carvalho, na sua qualidade de presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, cargo que desempenhou entre Outubro de 1953 e 1962, "Esteve também ligado à edificação das cantinas escolares em Pataias, Aljubarrota e Ataíja".

Ora, tal não corresponde à verdade dos factos.

Na Ataíja de Baixo não havia escola e a escola da Ataíja de Cima era, naquele tempo, constituída por uma única sala, cuja única porta dava, directamente, para a rua, sem qualquer espaço de recreio ou anexo, sem rede de electricidade ou de água (que só chegariam à Ataíja de Cima em, respectivamente, 1969 e 1993) nem, sequer, instalações sanitárias nem, muito menos, cantina.
Só no novo edifício escolar, aberto no ano lectivo de 1973/1974, houve cantina e não desde o seu início. De facto, a cantina escolar só chegou à Ataíja de Cima em data que ainda não consigo precisar mas, seguramente, não antes do 1980.

É esta a verdade histórica.
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quarta-feira, 5 de abril de 2017

A casa onde eu nasci




Em 1948, a maioria dos portugueses não tinha acesso regular a cuidados de saúde, muito menos, a cuidados de saúde materno-infantil. Nasci, por isso e tal como todos os meus conterrâneos daquele tempo, em casa de meus pais, numa cama onde muitas vezes dormi em adulto.

No local já existia uma casa (quatro paredes, melhor dizendo), atualmente com mais de cem anos e que  tinha sido construída por um irmão da minha avó para sua morada. Nunca a chegou a acabar, nem, muito menos, a usar por ter falecido, ainda no tempo da monarquia, durante o serviço militar.
Esta "casa", durante a sua já longa existência, já teve várias "vidas":
Foi adega do meu avô até ao seu falecimento em 1955. Foi, depois e durante cerca de vinte e cinco anos, salão amplo que serviu, designadamente, para nele se realizarem as festas familiares e as de mais de uma dúzia de casamentos. Foi, de novo, adega e há-de voltar a ser um salão familiar.

A casa do meu pai foi, por ele, construída no ano de 1946, adossada àquela. Uma casa modesta, para não dizer pobre, cerca de 50 m2, uma casa de fora, dois quartos minúsculos, uma cozinha e uma despensa.
O espaço sobrante, da frente do terreno, passou a ser o pátio onde viviam os porcos, os coelhos e as galinhas e, mais tarde, foi aí construído um anexo que serviu e serve de garagem e arrecadação.


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ADENDA:

No texto supra, publicado inicialmente, neste blog, em 14 de Março de 2012, deixei expressa a minha vontade de recuperar a casa onde nasci.
Trata-se de tarefa exigente, demorada e custosa essa de pretender recuperar uma casa "antiga". Desde logo porque tratando-se de casas construídas por gente pobre, com materiais pobres e feitas para servir num tipo de vida muito diferente do que é o nosso, o que se pode "salvar" é, sempre, menos do que inicialmente se quereria.

Felizmente, foi possível manter o essencial da "personalidade" da casa, agora dotada do mínimo de conforto exigível no nosso tempo.


Antes - A casa em 2012, numa excelente aguarela de Inês Neves:

Depois - A casa em 2017, numa fotografia de Alessandro Puccinelli:

Ainda, outra foto de Alessandro Puccinelli, mostrando a cozinha, realizada com o precioso contributo de Perpedra:





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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Casamentos na Ataíja de Cima, na década de 1870 a 1879





Na década de 1870 a 1879, realizaram-se na Ataíja de Cima 15 casamentos.

Todos os noivos eram solteiros, com idade média de 32,4 anos, sendo que o mais novo tinha 22 e o mais velho 55 anos.
Das noivas, por sua vez, 12 eram solteiras e 3 (20% do total) viúvas, com idades compreendidas entre os 20 e os 48 anos, o que dá a média de 31,9 anos. Se considerarmos apenas as solteiras, a idade média desce para os 29,2 anos.
E, com isto se desfaz a idéia de que "antigamente" as pessoas casavam mais cedo.

Em um terço dos casos (5 casamentos) a noiva era mais velha do que o noivo (respectivamente, 7, 3, 11, 5 e 4 anos).
E, com isto se desfaz mais uma ideia feita: a de que a mulher tem de ser, sempre, mais nova que o marido.





O casal mais velho era constituído por António de Moura, de 55 anos, solteiro, e Maria dos Santos, de 44, exposta de Lisboa, viúva de Ângelo da Silva, falecido há, exactamente, um ano e uma semana.
Hoje em dia seria, talvez, objecto de fortes críticas a viúva (ou o viúvo) que voltasse a casar apenas um ano e uma semana depois do falecimento do primeiro cônjuge. Mas, quando estudamos factos acontecidos há tanto tempo (138 anos), é importante perceber que, naquela época, numa pequena aldeia rural, e sem apoios familiares (recorde-se que a Maria dos Santos era enjeitada e, assim, não tinha pai, mãe ou irmãos de sangue que, eventualmente, a pudessem auxiliar), era praticamente impossível a sobrevivência de uma mulher viúva, com filhos menores (Maria dos Santos era mãe de 4 filhos: Joaquim, de 21 anos, Luisa, de 19 e Cristina, de 13 e, ainda de Matias Ângelo, nascido a 20 de Novembro de 1859 e que viria a ser, no início do Séc. XX, o homem mais rico da Ataíja de Cima ).

O segundo casal mais velho, era constituído por Matias Coelho e Maria Felizarda, ambos solteiros, ele de 50 e ela de 44 anos de idade.

No acto do casamento, o Matias Coelho reconheceu a paternidade do filho Joaquim, então com dez anos de idade.
O que terá levado um homem de quase quarenta anos a conceber um filho numa mulher de quase trinta e quatro e, quando ambos estavam em boa idade de casar, a não casar nem reconhecer o filho, mantendo-se, durante dez anos a vê-lo crescer sem poder, ou querer, dar-lhe os carinhos e os ensinamentos de pai, enquanto era, certamente, objecto de falatórios de toda a aldeia, que havia de ser sabedora da progenitura e, só depois de tantos anos, finalmente, assumir a paternidade e o casamento?
Estas são perguntas cujas respostas só muito dificilmente viremos a conhecer. Mas, formulá-las serve para recordar que a vida é mais complexa do que, às vezes, parece.
Estes Matias Coelho e Maria Felizarda vieram a ser avós de António, Manuel e Joaquim Matias e, portanto, ascendentes de uma numerosa prole que constitue, hoje em dia, uma das grandes famílias da Ataíja de Cima e, esse, é o fim feliz da história do casal.


Nota: Este texto foi, originalmente, publicado neste Blog em 29-01-2014