terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pneumónica, Gripe A e outras epidemias

Nos anos de 1918 e 1919, no rescaldo da primeira guerra mundial, o mundo foi assolado por uma epidemia de gripe provocada por um vírus da estirpe A (tal como a actual gripe) que ficou conhecida por gripe espanhola ou, mais vulgarmente, por pneumónica.

As grandes epidemias são de toda a história e a mais famosa delas é, talvez, a peste negra que assolou a Europa no Século XIV e terá reduzido a população europeia para cerca de metade, tendo sido precisos quase duzentos anos para recuperar a população perdida. Nesse tempo Portugal teria cerca de dois milhões de habitantes.

As pessoas do meu tempo aprenderam na escola sobre as epidemias de cólera-morbo e febre-amarela que afectou Portugal em meados do Século XIX, com gravíssimas consequências, tendo, só em Lisboa, falecido mais de 5.000 pessoas.

Os navegadores e conquistadores espanhóis levaram para a América Central a gripe que os índios locais desconheciam e há quem diga que isso foi uma das maiores causas do quase total desaparecimento daqueles povos. Em contrapartida, logo na primeira viagem de Colombo, no Haiti, adquiriram esses navegadores a sífilis, doença que era desconhecida na Europa onde se veio a disseminar com tanta rapidez e intensidade que no hospital Real de Todos-os-Santos, mandado construir por D. Manuel I em Lisboa, já havia uma “casa das boubas” para internar os doentes por ela afectados. Da Europa, a doença espalhou-se rapidamente por todo o mundo e dela sofreram milhões de pessoas, durante 450 anos, até à descoberta da penicilina, em 1941. Desta doença veio a morrer o rei Filipe IV de Espanha, III de Portugal. As pessoas da minha geração lembram-se de um homem do Cadoiço que sempre conheci por Joaquim Doente, o qual nasceu cego e com a pele escamosa em razão da sífilis de que o seu pai sofria.


A pneumónica, essa, correu o mundo no final da Grande Guerra num curto período de pouco mais de 18 meses e os seus efeitos foram devastadores: terão morrido, em todo o mundo, entre vinte a quarenta milhões de pessoas, o que, em qualquer caso, torna a pneumónica na doença epidémica mais mortífera de todos os tempos.

Em Portugal, (segundo o professor João Frada in “A gripe pneumónica em Portugal Continental – 1918”. 1ª edição, Lisboa: Sete Caminhos, 2005), terão havido um pouco mais de sessenta mil falecimentos provocados pela pneumónica, mas outros cálculos falam em cem mil e, até, em duzentos mil mortes.

A incidência da pneumónica no distrito de Leiria foi particularmente grave, o que levou à proibição de feiras e romarias na tentativa de limitar as situações de contágio:


Também a Ataíja de Cima não ficou imune à doença, tendo eu conhecimento de a pneumónica aqui ter provocado, pelo menos, duas mortes: António Matias que era proprietário da casa alta do Outeiro e uma sua filha, Delfina.


As condições sanitárias e os conhecimentos da medicina são, hoje em dia, completamente diferentes do que eram em 1918 (só cerca de 1930 é que se estabeleceu que o vírus da pneumónica era um vírus da estirpe A já que, em 1918, os conhecimentos da medicina o não permitiam). A capacidade de isolar o vírus muito cedo e de produzir rapidamente vacinas e medicamentos e, talvez mais importante, a monitorização a nível mundial da evolução da doença, a massiva divulgação de informação sobre os comportamentos adoptar pelos doentes e os sistemas que por todo o lado se estabeleceram com vista a prestar assistência às pessoas afectadas e, ainda, no caso de Portugal e da generalidade dos países desenvolvidos o acesso universal a cuidados de saúde, tem permitido limitar drasticamente os efeitos mortais da doença.

Mas isso não dispensa que cada um de nós tenha os cuidados adequados para evitar ou limitar as possibilidades de contágio.

Sem comentários:

Enviar um comentário