domingo, 24 de janeiro de 2010

Gente da Ataíja de Cima - A Perna-Torta

Emília Constantino tinha por alcunha a Perna-Torta devido à deficiência física de que sofria.
 Era de estatura diminuta e ambas as tíbias apresentavam forte curvatura convexa, o que justificava a alcunha e a obrigava a um andar bamboleante.
A primeira vez que vi um espectáculo circense, algures nos anos cinquenta, foi com um pequeno grupo, uma família de saltimbancos que se deslocava em modesta carroça puxada por uma mula velha e com ar de estar mal alimentada.
Montaram o estaminé junto à taberna do Sarrano, encostado a uma parede do quintal da Riteira que existia onde hoje é a casa do Zé Pirata, aliás, irmão da Perna-Torta e lá foram fazendo as suas habilidades, à luz de um petromax, enquanto a mulher mais velha ia preparando, numa trempe ali ao lado, a ceia da companhia.
As labaredas ajudavam à iluminação do ambiente já que, naquele tempo, não havia electricidade na Ataíja de Cima.
Os espectadores fizeram círculo em redor, as crianças colocaram-se à frente, misturadas com os mais precavidos, estes, sentados em cadeiras ou tripeças que tinham trazido de casa.
Um dos números precisava de um anel ou aliança, coisa que quase ninguém usava. A Perna-torta tinha um e lá o disponibilizou ao mágico que, obviamente, o fez desaparecer no lenço.
Seguiram-se outros números e do anel, nada.
Às tantas, quando o espectáculo se aproximava do final e o speaker anunciava que a troupe iria comer a ceia que a velha tinha preparado, levantou-se um grande sururu, com toda a gente a reclamar a devolução do anel e as coisas estavam quase a azedar e em vias de fazer perigar a integridade física dos artistas, (o chefe da troupe, experiente, esticou a corda até quase ao limite) quando, em milagre muito aplaudido, o anel, afinal, estava dentro de uma das batatas acabadas de cozer.

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