domingo, 19 de fevereiro de 2012

A Casa do Monge Lagareiro - III


O Lagar dos Frades da Ataíja de Cima


Nos textos aqui publicados anteriormente sobre a Casa do Monge Lagareiro, da Ataíja de Cima, (Ver AQUI  e AQUI),  procurámos sintetizar o conhecimento actual sobre o monumento e desfizemos um erro que vinha sendo sistemática e acriticamente repetido, o de que a fachada principal seria dominada por “um janelão cego”, demonstrando que tal janelão nunca existiu ou, melhor, nunca passou de uma mera decoração feita em reboco.
Sobre este falso janelão, aliás, bom seria que os conhecedores da arquitectura setecentista – área em que não possuo quaisquer qualificações – observassem o estado actual do monumento, com vista ao esclarecimento da interessante questão de saber se tal era solução corrente na época ou, se se trata de uma curiosidade rara, como me parece que se trata, já que não tenho conhecimento de outros casos semelhantes.
Acresce que a solução adoptada para “fingir” o dito janelão, é de grande qualidade de execução técnica, de tal modo que, durante cerca de 250 anos, foi capaz de iludir todos os estudiosos e leigos que a contemplaram, todos eles convencidos de que se tratava da moldura de pedra de um janelão entaipado.
Esse equívoco está hoje sanado e, na sequência de uma intervenção e apresentação de provas fotográficas que fizemos junto do IGESPAR, no site deste instituto já não se fala, como antes, num “janelão cego” dizendo-se, apenas, que “Ao centro, uma molduração integra a pedra de armas de Alcobaça” (ver: http://www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/74418/)
No entanto, idêntica actualização não foi, ainda, feita no SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, onde, em: http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3336, continua a referir-se a existência de um “janelão cego, de moldura recortada”.

Um outro aspecto deste monumento que interessaria ser objecto de estudo é que, de facto, nada na literatura nos elucida sobre como realmente ele seria aquando de sua construção e pleno funcionamento.
É preciso notar, em primeiro lugar que, da escassa literatura que se refere ao lagar dos frades da Ataíja de Cima, apenas J. Vieira Natividade, (v. As Granjas do Mosteiro de Alcobaça, in Obras Várias, II), declara tê-lo visto em funcionamento, cerca de 1915, e faz uma breve descrição das instalações, descrição essa, no entanto, insuficiente para com base nela se tentar reconstituir a respectiva planta.
Curiosamente o texto, publicado inicialmente, em 1944, no Boletim da Província da Estremadura, refere-se a dois dos compartimentos do lagar indicando as respectivas dimensões (o das prensas, com 21,80mx11,10m e o dos moinhos com 35,50mx9,50m), com uma minúcia que indicia terem, tais medições, sido feitas com cuidado e rigor. Como, de seguida, diz que as dependências do lagar já não existem (em 1944), isso significa que aquelas medidas foram tomadas anteriormente.
Talvez, na época em que viu o lagar em funcionamento (em 1915, JVN tinha 16 anos de idade), certamente acompanhando o pai nas suas explorações.

Sendo de admitir que as medidas foram, como é normal, tomadas sobre um esboço (que ainda existiria em 1944), deve admitir-se a possibilidade de, entre os papéis de J. Vieira Natividade, ainda poder vir a encontrar-se uma "planta" do lagar dos frades de Ataíja de Cima.

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