sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Vocações Religiosas na Ataíja de Cima

No séc. XX, cinco ataíjenses seguiram a sua vocação religiosa.
Uma freira, é neta de Matias Ângelo.
Os restantes quatro, curiosamente, pertenciam à mesma família:
Um padre, Manuel Tomás de Sousa, que foi conhecido por Padre Tomás e era filho de José Luís de Sousa e irmão de Abílio Tomás de Sousa, e de João Tomás de Sousa que foi conhecido por "O Petinga";
Uma freira era neta de Manuel Luís de Sousa. É a mais nova de todas e terá, actualmente, 59 ou 60 anos;
Duas irmãs, filhas do terceiro irmão, João Luís de Sousa e de Rosalia de Carvalho.
Eram elas:
Maria Carvalho de Sousa, conhecida por "Carvalha" a qual professou no Instituto Franciscanas Missionárias de Maria, onde adoptou o nome religioso de Irmã Maria Amália Teresa e foi, no final dos anos quarenta e princípois dos anos cinquenta, missionária em África (em Agosto de 1951, prestava serviço no hospital Miguel Bombarda, em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique);
Luísa Carvalho de Sousa que professou, sob o nome religioso de Irmã Maria Lúcia Jacinta, na Congregação de São José de Cluny, tendo vivido longo tempo na casa-mãe da congregação, em Paris (França).

Na fotografia seguinte, tirada em 1970, vemos estas duas freiras, numa visita à família, fotografadas junto à casa onde nasceram, a qual ficava no início da Rua das Seixeiras logo a seguir à casa, que ainda existe, da sua irmã Joaquina Rosalia.

À esquerda, Luísa Carvalho de Sousa, à direita, Maria Carvalho de Sousa, entre ambas, a sua irmã que todos conhecemos por Maria Rosalia e foi também, a seu modo, uma missionária: Não possuía habilitação específica mas era a enfermeira, correndo toda a aldeia e aldeias vizinhas a dar injecções, desinfectando a agulha da seringa pelo fogo que lançava a um pedaço de algodão embebido em álcool, numa cena que surgia aos meus olhos de criança como um poderoso ritual com o seu quê de sagrado.
À frente, sentada, está a mãe, Rosalia de Carvalho.

(com um agradecimento à Amália Sabino, sobrinha e neta das fotografadas)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Carnaval


O Carnaval deste ano foi, como todos sabemos, muito frio em todo o país.
Na Ataíja, no Domingo, assistimos ao dia 14 de Fevereiro mais frio dos últimos anos. Embora o termómetro do meu carro marcasse sete graus, um vento agreste, vindo do lado da serra, absolutamente gelado, um frio que bem conhecemos de outros invernos, transmitia uma sensação térmica muito inferior àqueles sete graus.
Com isso sofreram os festejos carnavalescos, desde logo porque muita gente não teve sequer coragem para se deslocar até ao Largo do Cabouqueiro, junto da Casa do Monge Lagareiro, optando por ficar no quentinho do Salão, onde a festa continuou, completada com a "Festa das Chouriças" e à noite com um baile animado por Zé Café e Guida.
Na terça-feira, agora com a participação de "delegações" do Cadoiço e do Carvalhal, embora com menos frio, foi a chuva que prejudicou o corso.
Foi pena, até porque o carnaval ataíjense está a ganhar notoriedade no concelho e este ano já mereceu uma referência, com fotografia, no semanário Região de Cister, hoje publicado.

Eis algumas fotografias do corso de Domingo, 14 de Fevereiro de 2010. Sempre com o magestoso cenário da Serra dos Candeeiros em fundo.

O barco dos piratas que, não fizera tanto frio, iria cheio de piratinhas:

Pioneiros da aviação enregelados:

Arlequins:

Um arlequim indecoroso que se ía cagando (cagando em quê?). Uma memória, talvez involuntária, de quando o Carnaval era Entrudo:

Fadistas:

Mas houve quem soubesse escolher máscaras adequadas ao tempo que fazia:

Fotografias de: José Quitério e Anabela Matias


Para o ano há mais.


domingo, 14 de fevereiro de 2010

Carnaval

O regresso das postagens estava prometido para amanhã.
Mas o o frio não se podia aturar e por isso o Carnaval hoje acabou mais cedo.


Os reis do carnaval ataíjense, a Mandonna e o Maikel Jaquim, lutando contra o frio e o vento:
(fotografia de Anabela Matias)

E, por hoje, é tudo ... que com o tempo que está, nem a internet se mexe.
Voltamos amanhã, como prometido.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Durante esta semana não haverá novos posts.
Estaremos de volta no dia 15, com notícias sobre o Carnaval da Ataíja.
Até lá!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Gente da Ataíja de Cima - O Quim Velho

Era o mais novo dos filhos de Manuel Luís e Maria da Graça (que teve treze partos, de que sobreviveram nove filhos).

A alcunha, que carregou desde muito pequeno, foi-lhe atribuída pela família para o distinguir do sobrinho, de idade próxima e também Joaquim que, por isso, era o Quim Novo.

Tinha as características típicas dos doentes que sofrem de trissomia 21, ou sindroma de Down, (a antiga designação de mongolismo, resultava de algumas semelhanças faciais com os povos mongóis, mas foi banida da linguagem científica), incluindo os olhos amendoados, cabeça pequena, orelhas pequenas, pescoço curto e largo, mãos e pés pequenos e quadrados, baixa estatura, língua fora da boca, (não é a língua que é grande, é a cavidade bocal que é pequena) e, consequentemente, uma grave deficiência na fala que o tornava, em regra, quase ininteligível. No entanto, quando se irritava ou bebia um copo a mais (que muitos lhe ofereciam para grande contrariedade da mãe) debitava chorrilhos de palavrões então, esses, bastante inteligíveis.

Os portadores do sindroma de Down têm, além de dificuldades cognitivas acentuadas (capacidade de aprendizagem lenta e limitada) grande propensão para doenças diversas, nomeadamente cardíacas e tendência para a cegueira, de que o Quim Velho também sofreu nos últimos anos de vida.

O sindroma de Down é provocado por uma alteração cromossómica que ocorre durante a gestação e é uma doença bastante vulgar que afecta mais de uma criança em cada mil nascimentos e tem relação com a idade da mãe, uma vez que quanto mais velha é a mãe maior a probabilidade de a criança nascer com a doença.

Para as mulheres de idade superior a 35 anos, o risco de ter um filho com trissomia 21 é significativamente mais elevado (aos 35, aos 40 e aos 45 anos de idade materna, há o risco de, respectivamente, um em cada 400, um em cada 110 e um em cada 35 recém-nascidos serem portadores de trissomia 21). Contudo, por razões que se prendem essencialmente com as taxas de fecundidade dos diferentes grupos etários, mais de 70% das crianças com trissomia 21 têm uma mãe de idade inferior aos 35 anos.

A doença não tem cura mas pode ser detectada em exames realizados durante a gravidez (amniocentese).

Muitos dos portadores do sindroma de Down falecem logo nos primeiros anos de vida mas o Quim Velho viveu até depois dos sessenta anos, ultrapassando, largamente, a expectativa de vida das pessoas com a sua doença.

Lembro-me da ti’Maria da Graça, já velha, magra e curvada, correndo, em passo miúdo e apressado, as ruas da aldeia, ao fim da tarde, perguntando se "não viram o meu Quim?".

A um irmão, ouvi dizer, com carinho: O meu Quim? É o único inteligente da família. É o único que consegue viver sem trabalhar.

Quando vejo passar uma carrinha de uma instituição de ensino especial cheia de portadores do sindroma de Down, penso sempre no Quim Velho que, naquele tempo, podia percorrer, como fazia diariamente, livre, despreocupado e em segurança, a aldeia onde conhecia toda a gente (que, quando estava alegre, cumprimentava com grandes e longos abraços) e toda a gente o conhecia e respeitava na sua diferença.

O Quim Velho foi um mongolóide feliz.

Pelos Santos populares, um grupo de rapazes foi à serra colher o alecrim com que se havia de fazer a fogueira.
O Quim Velho está de pé, de casaco, junto ao tractor.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ataíja de Cima na Blogosfera

Não sei quem era António Joel Sineiro Canha, cujo nome, aliás, só hoje aprendi ao ler no blog http://jeroalcoa.blogspot.com/, a notícia do seu falecimento.

Conhecia-o como Toju por seguir os blogs que mantinha: http://tempolivretoju.blogspot.com/, e Penedo da Velha (http://carvalhalmoirame.blogspot.com/).
Nestes blogs publicou o Toju posts muito interessantes sobre a nossa região, incluindo um, publicado em 23 de Fevereiro de 2009 no http://tempolivretoju.blogspot.com/, contendo diversas fotografias da Ataíja de Cima, as quais aqui republicamos, como uma homenagem ao autor e um agradecimento pela atenção que dispensou à nossa aldeia:

Capela de Nossa Senhora da Graça
Coordenadas GPS: N39 33.298 W8 54.044

Cruzeiro na Serra, onde se desloca a procissão no dia 2 de Fevereiro, para a benção dos olivais.
coordenadas GPS: N39 32.573 W8 52.990

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Gente da Ataíja de Cima - O Salazar

O nosso pequeno "Salazar", às vezes dito o Salazar do Mogo era, também, conhecido por Manuel Matias ou Manel do Mogo, onde morava pelo casamento com uma filha de José Faustino, nasceu na Ataíja de Cima, filho de Matias Ângelo.
Era o Regedor da Freguesia e foi vereador da Câmara Municipal de Alcobaça.
A alcunha veio-lhe do poder que, no tempo da ditadura, o cargo lhe dava e exercia e excedia sem pudores. Uma das suas fontes de rendimento eram as propinas que recebia dos fregueses pelo exercício das funções de mediador social que desempenhava nas mais diversas situações, designadamente como conselheiro dos bancos alcobacenses, à porta dos quais passava as segundas-feiras, dia de mercado.
Se um camponês analfabeto precisava de um empréstimo bancário, para comprar um pedaço de terra ou uma junta de vacas, tinha de arranjar um fiador e obter o aval verbal do Regedor que garantia ao gerente que podia fazer o empréstimo porque o mutuário era gente de confiança.
O camponês, agradecido, queria pagar o favor e ouvia a resposta dada em voz grossa: "Não é nada rapaz, vais lá um dia com as vacas".
Quem não tinha vacas ia também.
Era assim que conseguia, quase sem despender um tostão, trazer cultivada a parte do Olival dos Frades que lhe coubera em herança do pai.
Sempre o conheci de fato preto, casaco assertoado e chapéu, como o Salazar ele próprio.
Montado numa égua, (coisa rara em terra onde os pobres não iam além do burro e os remediados da mula) estou a vê-lo a distribuir, a residentes seleccionados pelo seu critério pessoal, os boletins de voto que obedientemente seriam depositados nas urnas no domingo seguinte, para "eleger" o Almirante Américo Tomás.
Este nosso Regedor era mais temido (e usado) que respeitado. Os que tinham ido à tropa (ele não) riam-se da cena em que, durante a missa e à frente de um grupo de Legionários que prestavam guarda de honra ao altar, deu convicto a ordem: "armas ao ombro!" (a expressão militar, correcta, é: Ombro! Armas!) e o meu pai deliciava-se a contar que, discursando o Salazar numa homenagem pública a um professor primário (Ventura?), elogiou o homenageado dizendo deste que,  "... apesar do seu ar enfezado, é um grande homem".