sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O azeite na Ataíja de Cima, cerca de 1950

Durante mais de dois séculos e até há menos de 50 anos atrás, a produção de azeite foi a actividade económica mais importante na Ataíja de Cima e em toda a região.

Os grandes olivais foram no entanto, quase todos, durante muito tempo, propriedade de não residentes. Em 1950 ainda assim era com, entre outros, o olival do Mira e o olival do Sá. Grandes produtores locais de azeite eram os donos dos lagares: Luísa Ribeiro, José Ribeiro e Francisco dos Casais que herdara parte do olival dos frades e poucos mais.

A generalidade das famílias possuía pequenos olivais, muitas vezes, pés de oliveira isolados e os mais pobres ocupavam-se, no final da apanha, no “rabisco” seja, a catar das oliveiras alheias os bagos que ficavam após a apanha, fosse na árvore fosse no chão para, com isso, juntarem mais uns quantos litros de azeite à magra colheita familiar.

O azeite era, em geral, de muito má qualidade, em razão dos processos arcaicos em uso: As oliveiras, quando o terreno se não encontrava já limpo pelas lavouras das culturas de inverno, eram “enterreiradas”, o que consistia em raspar cuidadosamente o terreno para o libertar de ervas (trabalho que se fazia logo em Setembro ou no inicio de Outubro, após as vindimas) e sobre esse terreiro iam caindo as azeitonas mais fracas e doentes, gafadas ou picadas da mosca e também, no dia da colheita caiam todas as varejadas que era esse o processo corrente de apanha, sendo raro o recurso ao ripanço, por mais moroso e, assim, mais caro.

A apanha propriamente dita fazia-se do chão do terreiro, aproveitando-se tudo: as azeitonas sãs que tinham acabado de ser varejadas e todas as que se encontravam na terra, às vezes há mais de um mês.

Seguia-se o entulhamento, muitas vezes em casa do proprietário, por insuficiência de tulhas nos lagares e ali ficavam as azeitonas, deficientemente limpas de folhas e sujas de terra, salgadas para retardar e fermentação e o apodrecimento, a aguardar a sua vez de serem moídas e transformadas em azeite.

Hoje sabe-se que, idealmente, as azeitonas devem ser desfeitas até 24 horas após serem colhidas, sem prejuízo de estarem disponíveis no mercado sacos plásticos, certificados para uso em produtos alimentares onde, quando bem fechados, com o mínimo possível de ar e não empilhados e estando as azeitonas sãs, enxutas e limpas, se conservam em bom estado por alguns dias.

Com os métodos do enterreiramento e entulhamento fazia-se tudo ao contrário e, quando chegava a altura da moenda, as azeitonas eram, frequentemente, uma massa quase informe e malcheirosa de que resultavam azeites de muito má qualidade.

Era assim por todo o lado e só isso justifica que, em 1950, o proprietário de uma quinta em Camarate (arredores de Lisboa) se mostrasse interessado em adquirir azeite na nossa região.

Numa carta de 16 de Dezembro de 1950, enviada a José Coelho, o seu amigo Joaquim Pio (da Ataíja de Baixo) dá conta desse interesse e das condições para o negócio:

 Nesse ano de 1950 a colheita de azeite terá sido, como de costume, abundante na Ataíja. À qualidade, designadamente à acidez, todos hoje torceríamos um pouco o nariz. Os métodos que então se usavam não permitiam, no entanto, melhor qualidade: O bom azeite tinha 3,1 graus de acidez, o corrente 6 ou 7 graus. E contam-me que, nesse tempo, se chegava a fazer azeite com 12 e 13 graus.

Em 9 de Dezembro de 1951 (na colheita seguinte àquela a que se refere a carta acima reproduzida), Joaquina Rosalia (mulher do José Coelho atrás referido) escreve a seu marido dizendo que o azeite se está a vender a “200$00 e mais, é conforme o grau” (este preço refere-se ao almude - 20 litros) e, numa carta anterior, de 25 de Novembro, dava conta que os homens estavam a ganhar 27$00 e as mulheres 15$00 e fornece outros elementos interessantes: que uma medura de 24 sacos deu 97 litros de azeite “livres” (quer dizer, após o lagar ter cobrado a respectiva maquia) e que vendeu o bagaço por 75$00.

Veja-se o valor do bagaço que, naquele tempo, salgado e depositado em pequenos poços a que chamávamos “covas do bagaço”, se aproveitava para alimentar porcos.

Em 31 de Março de 1952, o José Coelho há-de escrever a sua mulher dando-lhe ordem para vender algum azeite “mas só se te derem a 205$00 ou a 210$00”.

Hoje é possível comprar um bom azeite por menos de € 5,00 o litro. Ora, como vemos, naquele tempo a jorna de um homem dava para comprar apenas 2,7 litros de azeite e a de uma mulher para, apenas, 1,5 litros. O correspondente, hoje, respectivamente, a € 13,50 e € 7,50.

E, no entanto, esses eram valores de remuneração relativamente atraentes para os nossos pais e avós. Tanto que, na mesma carta, de 25 de Novembro, a Joaquina Rosalia diz a seu marido, certamente em resposta a um pedido para encontrar na Ataíja de Cima uma rapariga que estivesse interessada em ir para Lisboa como criada de servir: “José, quanto a criada, agora não se arranja por cá nenhuma porque agora há cá boa jorna e ninguém quer ir servir”.

2010, Novembro: O lagar de Francisco Vigário, o único actualmente existente naAtaíja de Cima

domingo, 26 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Festival das Sopas


Ontem, dia 5 de Setembro, no Largo do Cabouqueiro, com o magestoso cenário da Serra dos Candeeiros em fundo e a par das ruínas da Casa do Monge Lagareiro, gozando um dia maravilhoso à sombra das jovens mas já frondosas árvores, mais de quinhentos ataijenses e amigos, participaram no Festival das Sopas, uma iniciativa da Comissão do Carnaval da Ataíja, com o objectivo da angariar fundos para a organização do Carnaval de 2011.


Sopa castanha, sopa de peixe, massada de bacalhau, sopa de abóbora, sopa de pedra, misturadas de chícharos, canja, misturadas, sopa de legumes, caldo verde (e acho que me esqueci de algumas), tudo fruto de trabalho voluntário, complementadas com sardinhas escaladas e assadas, febras grelhadas e caracóis, fizeram as delícias dos presentes que não arrancaram pé até depois das 20H00. As sobremesas, essas adquiriam-se numa banca cujos proveitos revertem a favor da APEJAC -Associação de Pais, Escola e Jardim de Infância da Ataíja de Cima (http://centroescolarataija.blogspot.com/) e vão ser aplicadas no SAF (Serviço de Apoio à Família) da Escola e Jardim de Infãncia da Ataíja de Cima.


Misturadas de Chícharos


Sopa de Peixe


Caldo Verde


Canja


Sopa de Abóbora


Misturadas

Cronologia dos acontecimentos:

13H28 - Abertura das hostilidades


14H19 - em pleno ataque às sopas


18H07 - À mesa, na sombra, num dia de Verão. Nada melhor para pôr a conversa em dia.

18H30 - Um pézinho de dança para ajudar a digestão


19H34 - O convívio continua


20H16 - Tem de ser ... o dia está muito bom, a Serra dos Candeeiros é muito bonita mas ... comecem a levantar-se das mesas que amanhã é dia de trabalho e hoje ainda há muito que fazer, muita coisa para arrumar e limpar.


A Comissão organizadora do Carnaval da Ataíja de Cima, está de parabéns, pela impecável organização, onde nem sequer faltou um parque infantil insuflável. A ela e aos muitos voluntários cujo trabalho propiciou o grande êxito que foi este evento, os nossos agradecimentos.

Até para o ano, para mais um Festival das Sopas da Ataíja de Cima.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Artistas Ataijenses - Inês Neves

O Verão de 2010 tem sido de intensa actividade para Inês Neves que, depois de ter apresentado no passado mês de Julho, no salão da Adega Cooperativa de Alcobaça uma magnifica exposição onde, além de outros trabalhos, mostrou aguarelas representando todos os edifícios religiosos do concelho de Alcobaça, voltou a expôr alguns desses trabalhos no âmbito da Aljubarrota Medieval.

Continuando a mostrar o meritório trabalho que vem realizando, de inventariação e divulgação do património religioso da nossa região, teremos brevemente mais duas exposições de aguarelas de Inês Neves:

Na galeria do Posto de Turismo da Nazaré de 3 a 30 de Setembro e com o patrocínio da Cãmara Municipal da Nazaré, todas as igrejas e capelas do respectivo concelho, como sempre, em aguarelas de grande qualidade técnica e valor iconográfico, como se pode  adivinhar do cartaz representando o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré que abaixo se reproduz:



Também na Batalha, na galeria municipal Mouzinho de Albuquerque, no edifício Mouzinho de Albuquerque que já foi a sede da Cãmara Municipal da Batalha e onde hoje funcionam, além da Galeria, o Arquivo Municipal e diversas organizações com destaque para o CPAE - Centro do Património da Alta Estremadura, poderá o público apreciar, entre 11 e 26 de Setembro, as aguarelas de Inês Neves que representam a totalidade do património religioso do respectivo concelho.
Mais uma vez, o cartaz da exposição exemplifica a qualidade do trabalho de Inês Neves:



Para saber mais sobre o trabalho de Inês Neves:

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Da estrada do Diamantino ao IC9

Na “fronteira” entre a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa erguia-se, em meados do Séc. XX, o lagar de azeite conhecido localmente por lagar do Diamantino, por ter sido mandado construir e ser propriedade do comerciante alcobacense Diamantino dos Santos Vazão. O lagar foi desactivado já há algumas décadas e aí funciona, actualmente, uma oficina de serralharia e tornearia.

Para facilitar o acesso ao lagar, mandou o Diamantino construir um caminho desde o Largo do Outeiro, pela Rua das Seixeiras e, a partir daí, para nascente, até ao lagar no que foi, talvez e excluindo, naturalmente, a estrada de D. Maria Pia, a primeira estrada pavimentada existente por estes lados.

Da qualidade do trabalho então realizado diz bem o troço onde ainda é visível o pavimento inicial, entre a Rua das Seixeiras e o prolongamento da Rua das Hortas, o qual se mantém em muito bom estado de conservação, conforme se pode ver na fotografia seguinte, tirada em 15-08-2010:


 (Estrada do Diamantino)

Muito perto da Estrada do Diamantino estão agora em curso as obras de construção do IC9 que ligará a Nazaré a Tomar.

Desta estrada está já aberto à circulação automóvel o trecho entre Tomar (IC3) e Carregueiros, numa extensão de 8.350 metros, inaugurado em 30-03-2008 e encontra-se praticamente concluído o troço entre Carregueiros e Vale dos Ovos.

Quando estiver totalmente em funcionamento, o IC9, mudará profundamente o sistema de acessibilidades da nossa região uma vez que, cruzando a A8, o IC2 e a A1 e as linhas ferroviárias do Oeste e do Norte, facilitará extraordinariamente as ligações às principais vias de comunicação do nosso país, à Beira Interior e ao Norte Alentejano.

Espera-se, pois, que o IC9 venha a ter um importante impacte económico na nossa região, inclusive na área do turismo e do lazer, quer por facilitar o acesso ao litoral das populações do interior quer, sobretudo, por ligar três monumentos que fazem parte da lista do património mundial da UNESCO: Os Mosteiros de Alcobaça e da Batalha e o Convento de Cristo de Tomar e, ainda, o Santuário de Fátima.


(obras do IC9, junto à estrada entre Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa, vendo-se Aljubarrota ao fundo. Foto tirada em 15.8.2010)

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Serra dos Candeeiros

Dissemos no post anterior que o nome de serra dos Candeeiros para designar a serra fronteira à Ataíja de Cima, é um nome recente.

É o que se pode ver em “ CHOROGRAPHIA MODERNA / DO / REINO DE PORTUGAL / POR / JOÃ0 MARIA BAPTISTA / CORONEL DE ARTILHERIA REFORMADO / COADJUVADO POR SEU FILHO / JOÃO JUSTINO BAPTISTA DE OLIVEIRA / OBRA PREMIADA NO CONGRESSO INTERNACIONAL DE GEOGRAPHIA E ESTATÍSTICA / REUNIDO EM PARIS EM 1875 / VOLUME IV / LISBOA / TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS / 1876” (o exemplar consultado pertence à Biblioteca da Universidade de Toronto, Canadá e encontra-se disponível na Internet em http://www.archive.org/details/chorographiamode04baptuoft)

onde, ao descrever a situação geográfica das diversas localidades que se situam nas abas da serra dos Candeeiros (e também na serra de Aire) se usam as mais diversas denominações para identificar essas serras e, quando se refere a serra dos Candeeiros (nos casos de Alcobertas, Arrimal e Turquel), considera este nome, apenas, uma alternativa.

(transcrevemos apenas a parte do texto que se refere à localização das povoações)

ALCANEDE - Está situada junto das serras de Alcanede e Mendiga.
ALCOBERTAS - Está situado o lugar das Alcobertas em valle, na serra das Alcobertas ou dos Candieiros.
ALJUBARROTA - Está situada na estrada real de Leiria para as Caldas da Rainha, na aba da serra de Porto de Moz para a parte do poente.
ALQUEIDÃO DA SERRA (CONCELHO DE TORRES NOVAS) - Está situado o lugar de Alqueidão na aba da serra d'Aire.
ARRIMAL - Está situado o lugar de Arrimal em campina, entre as serras de Figueira ou dos Candieiros e de Pias.
MENDIGA - Está situado o Lugar da Mendiga na aba da serra da Mendiga, na estrada de Porto de Moz para Torres Novas.
MIRA – (Mira de Aire) Está situado o Lugar de Mira na aba da serra d'Azambuja (ramificação da serra d'Aire).
PORTO DE MOZ - Está situado em um recosto na aba da serra do Alqueidão, na margem esquerda do rio Lena.
SERRO VENTOSO - Está situado o Lugar de Serro Ventoso entre as serras de Carvalho e dos Penedos Negros (ramificações da grande serrania de Minde) em alta portella mui ventosa.
TURQUEL - Está situada na aba da serra dos Molianos ou dos Candieiros pela parte do poente.