segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A Ataíja de Cima no Numeramento de 1527 - 1532



Os recenseamentos populacionais são quase tão antigos como os mais antigos impérios e, à semelhança do que se passa nos estados modernos, tinham por objectivo fornecer indicações úteis aos governos desses impérios, designadamente no que respeita à recolha de impostos, realização de obras públicas e organização de exércitos.

É assim que há notícias de recenseamentos desde há 4900 anos e, até ao nascimento de Cristo, houve recenseamentos em, pelo menos, o Egipto, a China, o Japão e no Império Romano.[i]

É, aliás, comummente conhecido o facto bíblico de que Jesus terá nascido em Belém acidentalmente, apenas porque a família foi obrigada a deslocar-se de Nazaré, onde residia, até Belém (local de origem da família) para responder no recenseamento ordenado por César Augusto.

Porque o recenseamento de César Augusto decorreu em todos os territórios do Império, incluindo a província da Lusitânia esse é, também, o primeiro recenseamento conhecido que terá ocorrido no território actualmente ocupado por Portugal e, depois disso, também os Árabes, durante a sua permanência na Península Ibérica, aqui promoveram diversos recenseamentos.

Após a independência de Portugal, os recenseamentos, então chamados contos, têm objectivos estritamente militares e só no Séc. XVI, reinava D. João III, surge o chamado Numeramento de 1527-1532, o qual tem a ambição de ser um recenseamento geral da população.
Seria, no entanto, necessário esperar até 1864 para a realização do primeiro Recenseamento Geral da População[ii] elaborado segundo bases científicas que, aliás, tinham sido fixadas apenas 11 anos antes, no Congresso Internacional de Estatística de Bruxelas, de 1853.[iii]

O Numeramento de D. João III, sendo o primeiro recenseamento populacional realizado em Portugal é, apesar das suas deficiências, um importante acervo de informação, precioso para o conhecimento da realidade da população portuguesa na época em que foi realizado.

No que diz respeito à área geográfica agora ocupada pelos municípios de Alcobaça e Nazaré, José Eduardo Lopes no excelente texto “O “Numeramento” de 1527 – 1532”[iv], transcreveu a parte relevante do Numeramento e deu preciosas informações sobre o modo como foi elaborado.
Como assinalado no texto referido, o “Numeramento” foi transcrito em português moderno e publicado por Anselmo Braamcamp Freire no Archivo Histórico Portuguêz, tendo a parte relativa à Estremadura sido incluída no Vol. VI, n.º7, Julho de 1908, sob o título “Povoação da Estremadura no XVI. seculo.”[v]

O levantamento dos dados para o Numeramento foi feito por Comarcas e, felizmente para nós, “Jorge Fernandes, a quem coube efectuar o levantamento na Província da Estremadura, é o escrivão que forneceu mais dados sobre as modalidades práticas do seu desempenho,”[vi] donde, o Numeramento apresenta, quanto à Estremadura[vii], dados muito coerentes e fiáveis apesar do que, diversas lacunas ou imprecisões, reais ou aparentes, não deixam de nos provocar interrogações.

Uma dessas interrogações, digo eu, diz respeito às viúvas.
Como se vê no quadro anexo, o número de viúvas por vila tem uma enorme e aparentemente injustificada variação, face ao total de fogos contados e que vai desde os 29,5% em Paredes, a 25% em Turquel, 21% em Évora, (onde, aliás, o rigor da informação chega ao pormenor de distinguir as viúvas que existem no corpo da vila e no termo[viii]), 19,2% na Cela, 11,6% nas Caldas e 3,7% em Alvorninha. Enquanto que nos demais concelhos não é indicada a existência de quaisquer viúvas.
Tal omissão só pode dever-se a lapso, ou na recolha de elementos in loco ou na sua transcrição. É que, por um lado não é compreensível a inexistência de viúvas em todas essas vilas e termos nem, por outro lado, essa é uma omissão menor. O mesmo se diga dos clérigos e outros privilegiados, cuja existência apenas é assinalada na Pederneira, Porto de Mós, Caldas, Batalha e Leiria. 
Vila
No corpo da vila
No seu termo
Total
Dos quais viúvas
Dos quais clérigos e outros privilegiados
Porto de Mós (1)
140
372
512

22
Alpedriz (2)
16
30
46


Cós
38
29
67


Aljubarrota
163
45
208


Pederneira
176
21
197

7
São Martinho
4
9
13


Alfeizerão
60
23
83


Maiorga
87
13
100


Alcobaça
127
159
286


Paredes
27
0
27
8

Évora
146
29
175
32

Turquel
36
21
57
9

Stª Catarina
31
69
100


Cela
104
8
112
20

Alvorninha
14
94
108
4

Salir do Mato
5
11
16


Salir do Porto (3)
15
1
16


Caldas (4)
70
16
86
10
6
Óbidos
160
916
1076


Batalha
77
68
145

8
Leiria
584
1.476
2060

95
(1)     A Vila de Porto de Mós era do Duque de Bragança.
(2)     A Vila de Alpedriz era do Mestrado de Santiago.
(3)     As Vilas de Salir do Porto, das Caldas e de Óbidos, eram da Rainha.
(4)     Da vila das Caldas, diz-se na epígrafe ser “Da Rainha Nossa Senhora” e, no texto, “que he delRei Nosso Senhor”. De facto, a vila das Caldas estava inserta no termo de Óbidos que desde D. Afonso III pertencia às rainhas e pertenceu a D. Leonor, aliás a fundadora da vila das Caldas, até ao seu falecimento em 1525. Em 1527, vacante de rainha, o senhorio estava na esfera do Rei.

Os números do quadro acima referem-se a vizinhos. Sabendo-se que “vizinho” significa o mesmo que morador, ou fogo ou seja, família que habita numa casa e que, em média grosseira, podemos admitir como muito provável a existência de quatro pessoas por família ou casa então teríamos, na soma das vilas correspondentes aos actuais municípios de Alcobaça e Nazaré, um total de cerca de 6000 habitantes.

A norte pontificava Leiria, cabeça de um concelho enorme que ia desde Carnide e Ranha, hoje no município de Pombal, por Espite, agora no concelho de Ourém até ao Alqueidão da Serra e à Calvaria, hoje de Porto de Mós e incluía todo o concelho da Marinha Grande que, então, não existia.
Leiria era um concelho encabeçado pela maior cidade que havia (e há) entre Coimbra e Lisboa, com uma população de 2.300 ou 2.500 pessoas, mais de um quarto do total dos habitantes do concelho que se distribuíam por mais de 150 quintas, casais e aldeias, das quais menos de uma dezena tinha mais de 20 vizinhos.

A maior dessas aldeias era o Reguengo (do Fetal), com 64 vizinhos.
Mais próximo de nós, as Brancas eram também uma grande povoação (melhor, duas povoações[ix], com 34+18 vizinhos), enquanto a Calvaria se ficava pelos 5 vizinhos.
Já no concelho de Porto de Mós, uma outra Calvaria[x] tinha 6 vizinhos, o Juncal 16 e o Pé da Serra e Cumeira (sic.)[xi] somavam 22.

 O concelho da Batalha, cuja criação tinha tido lugar no ano de 1500,-  apenas 27 anos antes, - para dar enquadramento administrativo aos privilegiados “por bem de seus ofiçios do mosteiro da Batalha e obras dele”, estava encravado no de Leiria e reduzia-se a “meia légua” em redor da vila.

 Do concelho de Aljubarrota, diz Jorge Fernandes que:
 It. A vila dAljubarrota, que he do mosteiro dAlcobaça, tem 163 vizinhos no corpo da vila.
E tẽ de termo as aldeas seguintes: - It. Aldea dos Chãos e Cumeira tẽ 15 vizinhos. – Aldea da Tayja de Cima, 10. – Aldea do Carvalhal, 13. – Aldea da Chaqeda, 7.
Esta vila dAljubarrota tem de termo pera parte de Porto de Mos hῦ quarto de mea legoa.
Parte cõ Coz e Porto de Mos e Maiorga e Alcobaça.
Soma ao todo 208 vizinhos.

Diz Jorge Fernandes que Aljubarrota parte (faz fronteira) com Porto de Mós, Maiorga e Alcobaça. Ora, o caso é que fazia, também, fronteira com Évora como se vê, aliás, na descrição que o mesmo faz desta vila: “(A vila d’Evora d’Alcobaça) Parte cõ turuqel e cõ Alcobaça e cõ Aljubarrota.”
Também, quando lemos pela primeira vez esta descrição da vila de Aljubarrota logo uma dúvida nos assaltou: Se o autor se refere a uma Ataíja de Cima, onde está a Ataíja de Baixo? Pois, o caso é que não está e, devia haver uma Ataíja de Baixo pois, de contrário bastaria nominar a aldeia de Ataíja como, aliás, se fez em todos os documentos anteriores de que tenho conhecimento. Mas, não é só a questão de haver uma ou duas ataíjas é, também, a pertença ao mosteiro de Alcobaça. É que, ainda 59 anos antes, como se vê, por exemplo, de um documento de que já falamos nestes blog (http://ataijadecima.blogspot.pt/2010/05/afonso-vicente-e-margarida-vasques-dois.html) a Ataíja se designava, simplesmente, por Ataíja e pertencia ao termo de Porto de Mós.

De Turquel para leste, Jorge Fernandes apenas refere a existência da aldeia dos Candeeiros e casais isolados e, na descrição de Évora, não refere nenhuma aldeia situada a nascente da vila:
     It. A vila dEvora dAlcobaça tem 146 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 31 viuvas.     Tem o termo seginte: – It. Aldea dos Cadavaes tem 8 vizinhos e mais huma viuva. – Aldea do Arrieiro, 16. – Aldea dos Marroos, 6. – Casal do Beqoro, 2.     Esta vila tem de termo pera a parte de Turuqel hum quarto de mea legoa, e outro tamto pera a parte dAljubarrota e outro tanto pera Alcobaça.     Parte cõ Turuqel e cõ Alcobaça e cõ Aljubarrota. – Jorge Fernandez o escrevy.     Soma ao todo, 175 vizinhos. 

Isto dá-nos a informação, relativamente segura, de que, naquele tempo, era muito escassa a povoação na borda da serra, onde apenas se notavam, com alguma dimensão, as aldeias da Ataíja de Cima e a dos Candeeiros. No entanto, esta situação começaria a mudar logo em 1532 quando, por carta assinada pelo Cardeal Infante D. Afonso, (que então tinha 23 anos e já era abade comendatário do Mosteiro de Alcobaça desde a idade de dez anos)[xii], foi criada a freguesia da Benedita e, ainda no Séc. XVI, vão ser construídas capelas em muitas aldeias da região, definindo-se por essa época um esquema de povoamento que, sem grandes alterações, se mantém até aos nossos dias, embora com significativas alterações na importância relativa de cada povoação.

   
Se atentarmos que naquele tempo a população de Portugal oscilaria entre 1,5 e 2 milhões de pessoas e que, na actualidade, esse número é de 10,5 milhões, das quais habitam no concelho de Alcobaça cerca de 57.000 pessoas e no da Nazaré pouco mais de 15.000 então, podemos verificar que, enquanto a população de Portugal cresceu, nestes quase 500 anos, entre 525% e 700%, na região que, grosso modo, corresponde ao domínio de Cister, esse crescimento foi de cerca de 1200%.
Se, cerca de 1530, Portugal tinha uma densidade populacional entre os 16,3 e os 21 habitantes por km2 e, na região a que nos referimos esse valor era de, talvez, uns 12 habitantes por Km2, quase quinhentos anos depois a situação inverteu-se: Agora (2011), Portugal tem em média 115,3 habitantes por km2, enquanto na Nazaré são 183,9 e em Alcobaça 138,9 (média dos dois concelhos: 146,5 hab/km2)

Ou seja, de região escassamente habitada cerca de 1530, os “Coutos de Alcobaça” passaram, na actualidade, a exibir uma densidade populacional que ultrapassa, largamente, a média nacional.


 Pormenor do mapa de Portugal de Álvaro Seco, de 1560 
(apenas 30 anos após o "numeramento") mostrando a nossa região




[i] O mais antigo recenseamento de pessoas de que há notícia terá ocorrido no Egipto no ano de 2900 A.C. Sobre este facto e muitos outros da história da Estatística, veja:  http://www.alea.pt/html/nomesedatas/swf/factos.asp?art=1 (consultado online em 24-2-2016)
[ii] O último recenseamento em Portugal realizou-se em 2011 e foi, talvez, o último realizado por inquérito às famílias, já que a generalidade da informação poderá, de futuro, ser recolhida em bases de dados oficiais.
[iii] Uma lista dos recenseamentos realizados em Portugal até ao Séc. XIX pode ser vista em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=censos_historia_portugal (consultado online em 24-2-2016)
[iv] Publicado em 5-2-2016 no blog “Alfeizerão” (http://alfeizerense.blogspot.pt/2016/02/o-numeramento-de-1527-1532.html?view=flipcard, consultado online em 24-2-2016)
[v] Todas as transcrições que fizermos respeitarão a ortografia usada por Amselmo Braamcamp Freire.
[vi] Daveau, Suzanne, “A Descrição Territorial no Numeramento de 1527 – 32”, consultado em linha em 25-2-2016, in file:///C:/Users/fnac/Documents/Dialnet-ADescricaoTerritorialNoNumeramentoDe152732-2654430%20(3).pdf
[vii] Naquele tempo, a Comarca da Estremadura ocupava o território que, grosso modo, corresponde na actualidade aos Distritos de Lisboa, Santarém, Leiria, Coimbra e Aveiro.
[viii] A vila dEvora dAlcobaça tem 146 vizinhos no corpo da vila, dos quaes sam 31 viuvas. Tem o termo seginte: – It. Aldea dos Cadavaes tem 8 vizinhos e mais huma viúva”
[ix] Aldea de Cima dos Brâcos e Aldea de Baxo dos Brâcos
[x] Corresponderiam, talvez, às actuais Calvaria de Cima e Calvaria de Baixo.
[xi] O que parece confirmar a inexistência, naquele tempo, das diversas aldeias que hoje povoam aquele espaço.
[xii] O Infante D. Afonso, irmão do rei D. João III, foi Bispo da Guarda e de Viseu, feito Cardeal com 8 anos de idade, chegou a acumular, em simultâneo, o arcebispado de Lisboa, o bispado de Évora e a Comenda de Alcobaça. 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Substituição do Pároco

Conforme foi publicado hoje, dia 24-07-2017, no site da Diocese de Leiria-Fátima:

Pároco de São Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres, em Aljubarrota
O Bispo diocesano nomeou Pároco de São Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres, em Aljubarrota, o Revº Padre Dr. Adelino Filipe Guarda, que substitui no cargo o Revº Padre Ramiro Pereira Portela, que foi dispensado das funções que exercia por motivos de idade e de estado de saúde.
O Senhor D. António Marto agradece reconhecidamente ao P. Ramiro Portela o bom serviço que prestou com toda a dedicação, durante 50 anos, nas referidas paróquias e agradece ao P. Adelino Guarda a disponibilidade para aceitar a missão que agora lhe é confiada.
Leiria, 24 de julho de 2017.
Vítor Coutinho, Chefe de Gabinete do Bispo Diocesano
Com esta decisão do Bispo diocesano é toda uma era que termina em Aljubarrota e, assim, na Ataíja de Cima, cuja maioria dos habitantes nunca conheceu outro pároco que não o Sr. Padre Ramiro.

Natural de Meirinhas, Pombal, o Sr. Padre Ramiro chegou a Aljubarrota, há mais de cinquenta anos, para paroquiar São Vicente, em substituição de um outro padre carismático, o Sr. Padre José Casimiro, acabando por também ter a seu cargo a paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres. 
Tendo entrado no seminário muito jovem, como era normal naquele tempo, o Padre Ramiro é, também por isso, um representante de outros tempos, bem diferentes dos actuais em que já não há seminários menores. 

Homem de acção, prático e simples, às vezes controverso, o Padre Ramiro soube ganhar a consideração dos seus paroquianos e foi capaz de manter o seu rebanho unido, podendo orgulhar-se de em anos recentes, ter visto serem ordenados padres dois dos seus jovens paroquianos. De caminho, mostrou uma larga apetências pelas obras físicas, sendo o impulsionador de importantes obras de conservação e remodelação na quase totalidade das capelas e igrejas das suas paróquias e, até, a construção de raiz de, pelo menos, uma nova capela e, por último e mais importante, a criação do interessante museu que é o Núcleo de Arte Sacra, na Igreja de São Vicente.
É este Padre Ramiro que, agora, é substituído por um padre com um perfil profundamente diferente, como se adivinha do respectivo curriculum, também publicado no site da Diocese de Leiria-Fátima aquando da sua nomeação como director do Colégio de São Miguel, em 2012:

O Revº. Padre Dr. Adelino Filipe Guarda foi nomeado, pelo Senhor Bispo de Leiria-Fátima, Diretor do Colégio de São Miguel, em Fátima.
Esta instituição de ensino, da Diocese de Leiria-Fátima, é frequentada por 1150 alunos e conta com a colaboração de cerca de 130 funcionários (docentes e não docentes).
O P. Adelino Guarda, de 49 anos de idade, é natural da Boavista (Leiria) e é padre desta Diocese há 23 anos.
Atualmente desempenha as funções de Diretor do Centro de Formação e Cultura, Diretor do Gabinete de Apoio aos Serviços Pastorais, Diretor do Serviço de Apoio ao Clero, Coordenador do Serviço para o Diaconado Permanente e Assistente Religioso da Escola de Formação Social Rural de Leiria. É também membro do Colégio de Consultores e Secretário do Conselho Presbiteral. Leciona diversas disciplinas de Teologia no Instituto Superior de Estudos Teológicos de Coimbra e no Centro de Formação e Cultu-ra. É ainda docente na Escola de Formação Social Rural de Leiria.
Antes de iniciar os estudos teológicos, terminou o 1º ano do curso de Direito, na Universidade de Co-imbra. Fez licenciatura em Teologia, na Universidade Católica Portuguesa, e frequentou o Mestrado em Teologia Sistemática. Concluiu ainda Licenciatura Canónica / Mestrado em Teologia Pastoral, na Ponti-fícia Universidade Lateranense, em Roma, onde fez também o curriculum para doutoramento. Na sua investigação académica dedicou especial atenção ao acompanhamento em situações de luto e ao acon-selhamento em cuidados de saúde, tendo sido já responsável pelo serviço diocesano de pastoral da saúde.
Há 15 anos que se dedica ao ensino e à formação, a diversos níveis (secundário e superior) e em dife-rentes âmbitos (teológico, pastoral, profissional, cuidados de saúde). Foi também professor no Seminá-rio de Leiria.
Durante 13 anos exerceu o ministério sacerdotal no serviço paroquial, foi assistente diocesano da Ação Católica Rural e do Movimento Católico de Estudantes, foi capelão militar e formador de candidatos ao sacerdócio no Seminário de Coimbra. No Tribunal Eclesiástico da Diocese foi Defensor do Vínculo e Promotor da Justiça.
Tem proferido diversas conferências sobre temas da sua área de especialidade em cursos e seminários. Para além das tarefas oficiais, é solicitado frequentemente para orientar retiros em várias dioceses, so-bretudo a sacerdotes e seminaristas, tendo-se dedicado também ao acompanhamento do clero.
O Padre Dr. Adelino Guarda substitui no cargo o Padre Dr. Joaquim Rodrigues Ventura, que foi Diretor desta instituição desde a sua fundação, em 1962.
O Senhor D. António Marto agradece, em nome da Diocese, ao P. Joaquim Ventura o serviço dedicado que prestou ao Colégio de S. Miguel ao longo de 50 anos, e ao P. Adelino Guarda a disponibilidade para acolher esta nomeação.
Leiria, 10 de maio de 2012.
Vítor Coutinho, Chefe de Gabinete do Bispo Diocesano

O Srs. Padres Ramiro Pereira Portela (à esquerda) e Dr. Adelino Filipe Guarda,
párocos cessante e nomeado das paróquias de Aljubarrota (foto do site da Diocese de Leiria-Fátima)
Nota: O Padre Dr. Adelino Guarda tomou posse no domingo dia 24 de Setembro de 2017

domingo, 25 de junho de 2017

Brasões Plebeus



Os nobres obtinham do rei a “carta de brasão” que os autorizava a mandar lavrar na pedra os símbolos do seu sangue, poder, propriedade e importância, pelo que compunham o brasão com os símbolos familiares dos seus antepassados, de onde lhes vinha a fortuna, a importância social e o poder.
Aos plebeus, sem antepassados ilustres para mostrar, quando queriam e podiam marcar a sua propriedade e importância, restava representavam-se a si mesmos, com o seu nome e a sua profissão, afirmando-se por si e pelo que faziam.

Em Alcobaça, terra de pouca Nobreza (ele era mais clero ordinário e povo trabalhando duro para pagar os foros) não se veem brasões que não os da Ordem, afinal, o verdadeiro e único Senhor feudal destes Termos.

Por outro lado, são por aqui vulgares uns outros brasões plebeus como o são as pedras da era[i] que vulgarmente e até há poucas décadas se colocavam sobre a porta principal da casa. Quase sempre, apenas uma pedra lisa com uma moldura simples e a inscrição em baixo relevo das iniciais do proprietário e o ano da construção da casa. Em casos mais antigos, por exemplo, na casa de Amélia Cordeiro, apenas a data (1794), inscrita na própria verga da porta.
 
Só conheço um caso em que às iniciais do proprietário se juntam as da esposa: a cisterna mandada construir pelo ti Manuel Luís: (16-8-1923/MLS|MG).

Pedras da era de desenho mais complexo são muito raras. A mais curiosa e diferente das demais existentes na Ataíja, é a que encima a porta da casa que foi de Manuel Rebelo.
O Manuel Rebelo que era natural de Turquel e casou na Ataíja com Joaquina Méla, filha de António Orelha e Joaquina Porfíria[ii]. Tinha a profissão de serrador[iii] e por isso, mandou lavrar a sua pedra da era com os símbolos da profissão: o machado e o serrote.



Também um destes dias, encontrei aqui bem perto, nas Pedreiras, uma inusitada padieira ostentando, esculpidos em alto relevo, os atributos profissionais do proprietário: O esquadro, o compasso, a maceta e o escopro. Ao centro, sobre a data, as iniciais do proprietário, entrelaçadas num complicado desenho onde se vê um J e uma outra letra que me parece um C mas, não o juro.
O proprietário da casa foi, certamente, o autor de tal padieira onde orgulhosamente lavrou, com técnica ingénua, denunciadora da falta de estudos artísticos[iv], os instrumentos da sua profissão de canteiro.
  


Os cemitérios são, de há muito, outro lugar privilegiado para cada um exibir o seu brasão, sendo conhecidas lápides funerárias romanas com reproduções de instrumentos de trabalho, como, por exemplo, uma groma (instrumento usado pelos agrimensores na medição de terrenos), em lápide encontrada no Vale de Aosta (Noroeste de Itália).
Entre os avieiros, os pescadores fluviais do Tejo que colhem o nome da Praia da Vieira (Leiria), local de origem dos primitivos pescadores que dalí emigraram no final do século XIX, é comum que nas lápides tumulares se mostrem esculpidos os objectos com que o falecido trabalhou em vida: redes, remos, canastras e peixes e, principalmente, barcos.
Segundo Alberto Costa e Silva,[v] em Moçâmedes (hoje Namibe, em Angola) há um cemitério com sepulturas de pedra, qualificadas por Gilberto Freyre como afro-cristãs, nesse cemitério, diz, não se enterravam os patrões brancos mas eram inumados os seus ex-escravos e serviçais e outros africanos cristianizados.
Diz ele que, aí as sepulturas, em regra uma lápide vertical com cerca de um metro de altura, são decoradas no alto com uma cruz e, em baixo, com relevos de instrumentos de trabalho (um martelo, uma enxada, um serrote), transportando para a lápide a antiga norma de colocar sobre a tumba as insígnias do ofício do morto.
Ainda segundo o mesmo autor, idêntico costume já tinha sido registado, na metade do século XVII, pelo capuchinho Giovanni Antonio Cavazzi de Monteccúcolo, na sua Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola: “punham-se sobre os túmulos dos nobres uma cadeira, o arco, as flechas e outros objectos de seu uso; sobre os dos plebeus, caveiras de feras para um caçador, cítara ou tambores para um músico, martelo e bigorna para um ferreiro”.

Também em Aljubarrota, em tempos idos, teve larga divulgação o uso de gravar instrumentos de trabalho nas lápides tumulares como, nas Memórias Paroquiais[vi], diz o Cura de S. Vicente:

“… pelas visitas[vii] desta freguesia da Era de 1595 em que esta igreja estava quase destruída porque se conservava só uma ermida já muito desbaratada que era a capela-mor desta igreja[viii], consta que era sagrada pelo que o visitador daquele tempo manda que seja reparada mas com a continuação dos tempos e poucas rendas veio de todo arruinar como está conservando só os vestígios com um grande cemitério cheio de muitas sepulturas com pedras brancas levantadas as cabeceiras com as insígnias dos ofícios de cada um ainda que estas hoje estão quebradas , mas ainda se distinguem em muitas os sinais.”[ix]
Sobre este assunto tinha dito o Padre Cardoso, 21 anos antes[x]:
Defronte da vila, duzentos passos de distância, se deixam ver as escassas relíquias da antiquíssima Igreja de Santa Marinha que, por tradição comum compreendia até a vila de Turquel, a duas léguas de distância. Divisam-se ainda hoje no seu adro as sepulturas com pedras lavradas por cabeceiras, com vários instrumentos de ofícios esculpidos, como são, arados e outras insígnias deste género.

Tal costume, de traçar nas lápides funerárias os símbolos da profissão do morto, desapareceu quase tão completamente como desapareceram os vestígios da misteriosa Igreja de Santa Marinha, de que ninguém parece fazer a mais pequena ideia de onde poderá ter existido.






[i] Pedra da Era porque, invariavelmente, dela consta a data da realização da obra em que se insere.
[ii] Como é evidente, tudo alcunhas.
[iii] E a alcunha, sendo conhecido por toda a gente como Manuel Serrador.
[iv] Repare-se como o esquadro se dobra para se sobrepor ao compasso, ou como o escopro “atravessa” o cabo da maceta.
[v] in Francisco Félix de Souza, mercador de escravos, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2004.
[vi] Transcrevemos, em português moderno, a partir de Memórias Paroquiais (1758), Vol. III, João Cosme e José Varandas (introdução, transcrição e índices), Caleidoscópio, Lisboa, 2011), página 25.
[vii] Visitas de inspecção às Paróquias, promovidas pelo Bispado de Leiria.
[viii] Igreja que terá sido a primeira sede da freguesia e terá existido, cerca de “trezentos passos, mais ou menos”, segundo o Cura, ou duzentos segundo o Padre Cardoso, a norte da actual e que terá entrado em ruína no Séc. XVI.
[ix] Negrito nosso.
[x]  Dicionário Geográfico. 

domingo, 4 de junho de 2017

Nossa Senhora dos Enfermos


. 
“A romaria mais original da minha terra é a da Senhora dos Enfermos, na Ataíja.”

Assim começava M. Vieira Natividade (MVN) o capítulo dedicado às romarias, in O Povo da Minha Terra, Notas e Registos de Etnografia Alcobacense, Lisboa, 1917. (1), (2)
O ilustre estudioso alcobacense (nascido, aliás, no Casal do Rei, a escassas centenas de metros do local da romaria) descreve, depois, a festa como era naquele tempo e eu ainda conheci sem grandes alterações, em meados do Séc. XX.

Celebrada no Domingo de Pentecostes, cinquenta dias depois da Páscoa, a Romaria da Senhora dos Enfermos era uma verdadeira festa das colheitas, uma celebração agrícola com origens pré-cristãs, uma festa alegre, momento de estrear novas roupas, uma festa cronológica (MVN) que servia para marcar o tempo.
Apesar da invocação, não era exactamente um festejo mariano. Antes, pentecostal, com rituais que a aproximavam das festas do Espírito Santo. De notável, por comparação com as festas das demais aldeias da região, tinha o círio, abundância de fogaças e os favores da pequena burguesia alcobacence que nesse dia ia ver de perto os serranos, fazer pic-nics nos arvoredos que circundavam o arraial e, talvez, comprar no leilão alguma fogaça.(3)
Este costume, manteve-se, aliás, por muito tempo e, durante anos, a Banda do Mestre Ernesto era animador imprescindível do arraial.(4)
A grande quantidade de gente, alguns divertimentos que, como o jogo do frango, hoje seriam, simplesmente, proibidos pela sua barbaridade, o vinho que corria em abundância e os bailes, propiciavam frequentes desacatos. Por isso, a festa de Nossa Senhora dos Enfermos era, naquele tempo, a única com policiamento permanente.
Foi aí que me lembro de, pela primeira vez, ter visto de perto a GNR em acção de restabelecimento da ordem pública, utilizando como improvisada prisão a casa da eira do Chico Airoso.
Foi na Senhora dos Enfermos que tirei, acompanhado dos meus avós, fará agora sessenta anos, o meu primeiro retrato, no fotógrafo à la minuta, coisa que também só ali havia.(4)

Além de M. Vieira Natividade, também José Diogo Ribeiro, in Turquel Folclórico (1928), dedicou atenção a esta romaria, registando, designadamente, os seguintes versos que o círio dedicava à santa:

Ó Senhora dos Enfermos
Aqui vimos, aqui estemos
Pro ano, se formos vivos,
Ainda cá tornaremos.

Ó Senhora dos enfermos
Cá vos vimos visitar.
Pro ano, se formos vivos,
Havemos de cá tornar

E, o grande etno-musicólogo Michel Giacometti, (5) registou, pelo menos, duas peças musicais tocadas no arraial: uma Música de Arraial e um Fandango.

“Dança-se o fandango, única dança tradicional que se conserva como digno representante dos mais arcaicos batuques”, dizia MVN.
E eu, lembro-me de a minha tia Joaquina Lourença, já idosa, descrever com alegria como tinha dançado o fandango na Senhora dos Enfermos. Ela descalça e o pai equilibrando uma garrafa de vinho na cabeça.

A romaria da Senhora dos Enfermos “É a única que conserva notas que mais interessam a etnografia”, (MVN), o que significa que, a generalidade das romarias da região, já não eram, em 1917, como teriam sido antes.

A mudança radical das condições e estilos de vida nesta zona da borda da serra, onde a economia não é agora agrária, teve como resultado, eu diria que natural, a perda de importância desta romaria que, nos últimos anos, se não realizou.

Tal como, algures entre os Séc.s XVIII e XIX, São Sebastião, o patrono da Capela, perdeu devoção popular e foi substituído por Nossa Senhora dos Enfermos, (6) também estes povos, que já não são camponeses e, por isso, não festejam as colheitas, têm novas devoções.

 (Foto de "O Povo da Minha Terra")



ADENDA:


O texto acima foi publicado neste blog em 29-05-2012 e, em 23-06-2013, foi quase integralmente reproduzido no blog JERO, do jornalista alcobacense José Eduardo Oliveira.

(conf. http://jeroalcoa.blogspot.pt/2013/06/m-450-memorias-das-festas-da-regiao-de.html), que, no final, acrescentou a devida nota: "Relativamente à festa de Nossa Senhora dos Enfermos grande parte do texto reproduzido é da autoria de José Quitério e foi publicado em 29 de Maio de 2012 no seu blog "Ataíja de Cima".


Mas, não é essa a razão desta Adenda.
O facto é que hoje é dia 4-6-2017, Domingo de Pentecostes. 
Haverá, por isso na Ataíja de Baixo, alguma cerimónia em honra de Nossa Senhora dos Enfermos. 
O quê, não sabemos que estamos longe e o google é, a propósito, totalmente omisso. 
Como não o havia de ser quando a economia local é, se possível, ainda menos agrícola do que era há cinco anos e quando a própria Igreja Católica, cada vez mais mariana e menos trinitária, relegou o culto do Espírito Santo para o panteão das curiosidades e, estou convicto, hoje em dia uma boa parte dos fiéis nem sequer saberá o que é o Pentecostes?


Podemos, assim, dizer que sabemos porque e quando morreu a romaria de Nossa Senhora dos Enfermos da Ataíja de Baixo e, não se podendo dizer quando nasceu, pode afirmar-se com segurança que não era muito antiga, ao contrário do que se diz no site da Junta de Freguesia de Aljubarrota.
De facto, há várias devoções e festas na freguesia de que há notícia bem mais antiga. 


A devoção a Nossa Senhora dos Enfermos não surgiu aqui antes da segunda metade do século XVIII, já que ainda em 1758 (ver Nota (6)) não havia notícia da sua presença na Ataíja de Baixo e todos os autores que antes disso se referiram à aldeia apenas assinalam a existência de uma ermida dedicada a São Sebastião. Como é o caso, por exemplo, do Padre Cardoso que, no seu Dicionário Geográfico, Tomo I, de 1747 diz sobre a Ataíja de Baixo que "tem vinte e cinco vizinhos e uma Ermida de São Sebastião, pouco distante do povo".



O cartaz de 2015, mostra como já nesse ano nos encontrávamos 
bem longe das antigas festas em honra de N. Sª. dos Enfermos


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NOTAS:
(       (1)    Reeditado (fac-simile), em 2000, em Alcobaça, por Rebate, movimento de cidadania.
(     (2)    O livro contém numerosas ilustrações, de grande qualidade e interesse etnográfico, da autoria de Alberto Souza.
(      (3)    Fogaça, oferenda ao santo, em pagamento de promessa, no dia da festa anual. Em tempos idos, durante o Antigo Regime, fogaça era um imposto fixo que cada casa (fogo) pagava ao senhorio da terra.
(      (4)    Festas e Romarias do Concelho de Alcobaça, edição da Câmara Municipal de Alcobaça, 2005.
(      (5)    Michel Giacometti, Cancioneiro Popular Português, Círculo de Leitores, Lisboa, 1981.
(     (6)    Em 1758, nas respostas ao inquérito pombalino, as chamadas Memórias Paroquiais, o Cura de São Vicente não faz qualquer menção à Senhora dos Enfermos, dizendo apenas que na Ataíja de Baixo se festejava  São Sebastião.
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domingo, 21 de maio de 2017

Inquirições Sobre a Pureza do Sangue do Reverendo Francisco Xavier da Veiga


O Boletim de Trabalhos Históricos é uma publicação do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, de Guimarães, da qual, entre 1933 e 2003, saíram do prelo cerca de 50 volumes, agora disponíveis na internet, em formato PDF, no endereço: http://www.csarmento.uminho.pt/amap.asp

Entre os muitos textos publicados encontra-se um largo número de transcrições (sem indicação de autor) de Inquirições Sobre a Pureza do Sangue tendo em vista apurar da puritate sanguinis dos candidatos a cargos, conezias e respectivas prebendas, da Insigne e Real Irmandade de Nossa Senhora da Oliveira, de Guimarães.

A inquirição de genere era feita como condição para o exercício de cargos públicos, militares, religiosos e de ingresso em universidades. Não havendo uma lei geral sobre inquirições de genere, elas eram, no caso da Colegiada da N. Senhora da Oliveira, feitas “em observação do Breve de puritate sanguinis do m.to Santo Padre Urbano VIII”[i], nos termos do qual não seriam admitidos nos seus canonicatos e mais benefícios, os descendentes de hereges, mouros, hebreus e judeus, e se ordenava que antes da admissão de qualquer eclesiástico, se lhe fizesse a inquirição testemunhal de puritate sanguinis.

Sem prejuízo das motivações religiosas que os justificavam, os estatutos da limpeza do sangue mostraram sempre uma natureza volúvel, pervertida e manipulada. As suas disposições – que excluíam por motivos étnico-religiosos – foram sempre uma arma eficacíssima no conflito social e, em consequência, serviram para deslegitimar o adversário. E não apenas deslegitimá-lo, quer dizer, desprovê-lo dos seus direitos mas, também, para o excluir do nível social e político que lhe correspondia e, quando a luta alcançou dureza significativa, os estatutos serviram para o anatematizar como herege, forma irreversível de aniquilamento.[ii]

Mais comezinhamente, tais interrogatórios serviam, na prática, como uma forte e intransponível barreira ao acesso aos cargos públicos e eclesiásticos, por todos os que não eram cristãos velhos, seja, da velha nobreza que, assim, reservava para si o controlo das instituições e as inerentes vantagens e delas afastava quer elementos judeus, quer da burguesia ascendente, quer, ainda, eventuais adeptos das novas ideias protestantes.

Os interrogatórios eram os estabelecidos no Assento de 5 de Março de 1637, do Cabido da Colegiada de N. Sra. Da Oliveira,[iii] no qual se definiram as regras a observar para execução do Breve papal, estabelecendo um rigoroso guião de todas as fases do processo, incluindo as perguntas a fazer às testemunhas.
As dez perguntas serviam para a identificação da testemunha, se sabia porque tinha sido chamado[iv] e se tinha recebido instruções sobre o que responder ou não responder, eventual parentesco com o inquirido, conhecimento que tinha do inquirido, de seus pais e avós, paternos e maternos e qual a voz pública e fama do inquirido.

A pergunta chave era a nona:


Como, talvez, seria de esperar, a maioria dos candidatos nomeados para os cargos e prebendas da Colegiada de N. Sra. Da Oliveira, era natural ou originário de Guimarães e seus arredores, num círculo que se vai alargando e esbatendo para diversas localidades do Minho e Douro, chegando a Viana do Castelo, a Mesão Frio, e ao Porto. Mas, também encontramos um natural da Almagreira (hoje no município de Pombal) e – é essa a razão deste texto – um natural de Aljubarrota.
Muitos dos candidatos são parentes, em regra sobrinhos, dos cónegos a que sucedem, mas como sempre, aparecem situações mais insólitas, como a das “Inquirições do Reverendo Pedro Ferreira de Leiva coadjutor de seu avô o Reverendo Cónego Pedro Ferreira de Leiva” ou, as “Inquirições do Reverendo Miguel de Macedo Portugal coadjutor de seu avô Miguel de Macedo Portugal cónego neste Real Colegiada”. 

Mas, isso são contas de outro rosário. O que agora nos interessa são as

Inquirições do Reverendo Francisco Xavier da Veiga provido na meia conezia curada que vagou por falecimento do Reverendo Francisco José V. de Pina, 1779[v]

Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor
Diz Francisco Xavier da Veiga filho legítimo do Dr. Pedro dos Santos da Veiga e de sua mulher Eufrásia Maria Teodora de Niz, natural da Vila de Aljubarrota, Bispado de Leira que achando-se colado na Conezia meia Prebendada que vagou por falecimento do Reverendo Francisco José V. De Pina, deseja tomar a sua posse, e porque o não pode fazer, sem que Vossa Senhoria lhe mande fazer as diligências de genere,
Pede a Vossa Senhoria seja servido nomear-lhe Juízes Comissários para o devido efeito
Espera e Roga Mercê

O requerido obteve provimento e foram nomeados os Inquiridores e mandado que se procedesse às Inquirições do requerente, de seus pais Dr. Pedro Santos da Veiga e sua mulher Eufrásia Maria Teodora de Niz e avós paternos, Manuel Antunes e Catarina Francisca, do lugar de Alvados e maternos António de Niz do Vale e Margarida Amada, todos do Bispado de Leiria.
Em cumprimento do que, em 3 de Fevereiro de 1779, já se encontravam em Aljubarrota os cónegos João Lopes e João Baptista da Silva, da dita Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, de Guimarães e nessa data ouviram as testemunhas.
Foram elas:

Simão Baptista de Sequeira, então com setenta e nove anos de idade[vi], viúvo, natural da vila da Batalha, Capitão de Ordenanças da Vila da Cela[vii], Familiar do Santo ofício, morador em Aljubarrota há mais de cinquenta anos,
Reverendo Padre Joaquim de Proença Saraiva, Presbítero Secular, de cinquenta e quatro anos de idade, natural da freguesia de Souto da Casa, Termo do Fundão, Bispado da Guarda, morador nesta vila de Aljubarrota há quarenta e dois anos,
Veríssimo de Sousa Henriques, de sessenta e nove anos de idade, viúvo, Capitão da Ordenança da freguesia de S. Vicente desta mesma vila de Aljubarrota, natural e baptizado na Colegiada da S. João Baptista da Vila de Coruche, morador nesta vila há cinquenta e dois anos,
Doutor João Baptista de Oliveira Baena, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo, que serviu a Sua Majestade nos Lugares de Letras, natural da vila de Aljubarrota, casado, de setenta anos de idade,
Doutor Silvestre Torres Correia Triaga, de sessenta e quatro anos de idade, viúvo, natural e morador na vila de Aljubarrota,
Reverendo Padre José Gomes Ferreira, Presbítero Secular, de sessenta e seis anos de idade, natural e morador na vila de Aljubarrota,
Sebastião de Barros, lavrador, casado, de sessenta anos de idade, morador no lugar da Cumeira, freguesia de S. Miguel do Juncal, termo da Vila de Porto de Mós e natural do lugar de Alvados, freguesia de N. Senhora da Consolação, do mesmo termo,
Maria da Silva Bonifácia, solteira, de sessenta e quatro anos de idade, que vive de seus bens, moradora no lugar da Cumeira, freguesia de S. Miguel do Juncal, termo da vila de Porto de Mós e natural do lugar de Alvados, freguesia de N. Senhora da Consolação, do mesmo termo,
José de Barros, de sessenta anos de idade, casado, que vive de sua fazenda, morador no lugar da Cumeira, freguesia de S. Miguel do Juncal, termo da Vila de Porto de Mós e natural do lugar e freguesia de Alvados, do mesmo termo,

As testemunhas foram perguntadas aos nove interrogatórios “costumados em semelhantes diligências” e responderam, coerentemente, testemunhando que o Dr. Francisco Xavier da Veiga, Bacharel em Teologia e Clérigo in inmoribus, nasceu na vila de Aljubarrota, no Beco junto da Rua Direita e foi baptizado na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres da mesma vila., sendo filho do Dr. Pedro Santos da Veiga e de sua mulher Eufrásia Maria Teodora de Niz, moradores no dito Beco, ele natural de Alvados, freguesia de Nossa Senhora da Consolação, termo da vila de Porto de Mós e ela da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres da vila de Aljubarrota.
Quanto aos avós do inquirido, as testemunhas naturais de e, ou, residentes em Aljubarrota deixaram para outras as afirmações peremptórias acerca dos avós paternos, mas não hesitaram em confirmar que António de Niz do Vale e sua mulher Margarida Amada, lavradores, avós maternos do habilitando e, ambos, já falecidos naquela data, foram naturais e moradores naquela vila de Aljubarrota, freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres.
Das oito testemunhas ouvidas, duas eram naturais de Alvados e colmataram o menor conhecimento que as demais pudessem ter sobre Manuel Antunes e sua mulher Catarina Francisca, já então falecidos, avós paternos do habilitando, os quais foram naturais e moradores no dito lugar de Alvados
E, todos, que o habilitando era filho legítimo dos pais referidos e, também, neto legítimo dos avós mencionados e por tal sempre foi havido e reputado.
E, que o habilitando não era nem foi herege, “nem apóstata da nossa Santa Fé Católica” e que não era filho de pais ou neto de avós, paternos ou maternos, que cometessem crime de lesa-majestade Divina ou Humana por que fossem sentenciados e condenados nas penas estabelecidas pelas leis do Reino.
E que não sabiam nem nunca ouviram que o habilitando ou seus pais, ou seus avós, alguma vez tivessem sido presos ou penitenciados pelo Santo Ofício, ou incorressem em alguma infâmia pública, ou pena vil, e facto ou de direito.
E que tudo o que testemunharam era publico e notório.

E assim se concluíram, ainda naquele dia 3 de Fevereiro de 1779, as inquirições que foram vistas e aprovadas pelo Cabido de Nossa Senhora da Oliveira logo no dia 10 seguinte, permitindo, assim, que o Dr. Francisco Xavier da Veiga tomasse posse da sua conezia meia-prebendada numa das mais antigas e ricas colegiadas de Portugal.

Os inimigos do nosso padre doutor (que os tinha, certamente), não hão-de ter deixado de dizer, entre dentes, que ele tinha arranjado “um grande tacho”





[i] Breve Exponi Nobis, de 12 de Julho de 1636.
[ii] In Juan Hernandez Franco, Cultura e Limpieza de Sangre en la España Moderna, Universidad de Murcia, 1996.
[iii] O assento está transcrito no Boletim de Estudos Históricos, Vol. I, 1933-1936, p.39-48, disponível na internet (consultado em 5-5-2017) em: http://www.csarmento.uminho.pt/docs/amap/bth/bth1933-1936_13.pdf.
[iv] O processo queria-se inteiramente secreto.
[v] In Boletim de Estudos Históricos, Vol. XXVII, 1967-1974, p.160-172, disponível na internet (consultado em 5-5-2017), em: http://www.csarmento.uminho.pt/docs/amap/bth/bth1967-1974_04.pdf.
[vi] A idade das testemunhas era declarada pelas próprias que, em regra, acrescentavam “pouco mais ou menos”.
[vii] Talvez por parecer insólito que a testemunha residisse num concelho sendo capitão de ordenanças noutro, na transcrição o cargo está seguido de um ponto de interrogação. Mas, era mesmo assim, como se vê em Nuno Gonçalo Pereira Borrego, As Ordenanças e as Milícias em Portugal, Subsídios para o seu Estudo, Vol I, Guarda-Mor, Lisboa 2006, p.292