segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

ATAÍJA, 7 OUTUBRO DE 1810


Tal como a minha avó me contou à lareira, em longos serões de Inverno, naquele tempo em que não havia electricidade e em casa nos iluminávamos com a luz da candeia ou, simplesmente, com a que vinha da lenha a arder na lareira e o serão se iniciava, por isso, ao pôr-do-sol, o povo fugiu aterrorizado à notícia da chegada dos franceses, escondendo-se nos matos altos que havia na borda da serra e nos vales.
Os franceses desapontados, gritavam falsamente fingindo-se quem não eram: Maria! Vem-te embora que já lá vão os franceses! Mas, ao que parece, a prudência imperou e não tenho notícia de homem que tenha caído na esparrela, nem de virgem que, neste interim, tenha deixado de o ser, ao menos, a mãos estrangeiras. Se é verdade o que contava a minha avó (que o terá ouvido ao seu avô que, esse, foi contemporâneo dos acontecimentos) na Ataíja não houve mortos pelo que a aldeia terá, assim, escapado a um flagelo que na nossa região atingiu dimensões quase incompreensíveis e de onde resultou uma diminuição da população para menos de metade.
Os franceses, continuava a minha avó, entraram, assim, livremente, pelas casas abandonadas e comeram o que quiseram e tomados daquela malvadez de que, julgava eu, só os franceses são capazes (vim, mais tarde, a perceber que todos os exércitos são iguais), tombaram e arrombaram talhas e pias de azeite que eu, empolgado com a vivacidade da descrição, via a correr em rios pelas ruas da aldeia e foram-se às arcas e trouxeram-nas para a rua e deram de comer aos cavalos, trigo, cevada, aveia e milho. Levados a beber água na Lagoa Ruiva os animais rebentaram pelo inchar dos grãos secos e, partidos os franceses, era grande a mortandade de cavalos e mulas em todo o redor da lagoa.
Estas histórias impressionaram-me fortemente, de tal modo que se seguiram sonhos agitados durante os quais, por mais de uma vez, em luta com os malvados franceses, cheguei a cair da cama. Mas, essas vivas descrições ajudaram mais ao meu gosto pela História que os professores todos que, depois, havia de ter.

Quando é que os franceses estiveram na Ataíja e fizeram as tropelias de que falava a minha avó Maria Lourenço?

Provavelmente, passaram por lá por mais de uma vez entre 1808 e 1811 mas, de certeza, por lá passaram no curto período entre a tarde do dia 6 e a manhã do dia 8 de Outubro de 1810 e foi então, certamente, que cometeram as pilhagens e destruições de que me falou a minha avó.

A Batalha do Bussaco tinha tido lugar em 27 de Setembro e de seguida, os exércitos anglo-portugueses iniciaram a sua retirada para as Linhas de Torres, reunindo-se em Leiria de onde partiram no dia 6 de Outubro, de manhã, dividindo-se em três partes, uma das quais seguiu por Alcobaça e Óbidos, a outra pela Estrada de D. Maria I (actual IC 2), a caminho de Rio Maior e Alcoentre e a terceira, por Tomar, para Santarém.
Logo atrás, vinham os Franceses que saquearam a cidade de Coimbra abandonada e, no dia 7 (há, precisamente, 199 anos), Soult já estava nas Pedreiras e Lamotte na Calvaria, de onde enviou patrulhas até Alcobaça, onde ficou a brigada do general Ornano e, no dia seguinte, todo o grosso do exército estava acampado entre Porto de Mós, Molianos e Candeeiros, com Montbrun instalado “à direita dos Molianos” com infantaria e artilharia. Ainda no dia 8, as primeiras tropas puseram-se em marcha para Rio Maior.

Wellington, adoptou na retirada uma política de terra queimada, destruindo tudo o que pudesse ser aproveitado pelo inimigo, os franceses, esses, possuíam uma logística mínima e alimentavam-se e alimentavam os cavalos do que conseguiam pilhar nos locais por onde passavam.

Houve, pois, uma primeira destruição provocada pelos exércitos portugueses e ingleses o que terá provocado o desespero dos franceses, fortemente castigados com mais de 5.000 mortos numa manhã no Bussaco e, muitos mais, fracos e doentes que foram ficando pelo caminho, incapazes de acompanhar as marchas forçadas. A fome e a desorientação provocada pelos conflitos entre os generais e um incompreensível desconhecimento do terreno que obrigava Massena a “navegar à vista” e a dar ordens e contra-ordens, também não hão-de ter contribuído para elevar a moral do exército,

Entende-se, assim, o desprezo amargo que ressalta das palavras do General Koch nas suas “Memórias de Massena”: “É impossível ver uma região mais miseranda que a que vai de Carvalhos[i] a Rio Maior; Candeeiros e Moliano não têm, sequer, o aspecto de lugarejos, e só apresentam meia dúzia de péssimas cabanas esparsas numa planície nua e árida onde não há cereais nem forragem nem água”.

NOTAS:
[i] Carvalhos, é o sítio que conhecemos por Pedreiras
A ler: Leiria no Tempo das Invasões Francesas, Jorge Estrela, Gradiva, Lisboa, 2009


(Este texto foi nicialmente publicado neste blog em 07-10-2009)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Quando se jogava futebol na Ataíja de Cima

 


Arrumações nas estantes permitem-nos encontrar papéis de que já não nos lembrávamos ou julgávamos desaparecidos.

E, eis que encontrei um recorte de jornal com uma foto e um texto sobre o Ataíjense, que motiva este quarto post sob o título “Quando se jogava futebol na Ataíja de Cima”.
Este é um recorte que andava perdido há mais de onze anos pois, de outra maneira e para respeitar a ordem cronológica, teria sido ele o objecto do primeiro post sobre este assunto que publiquei em 13 de Novembro de 2009 ((VER AQUI).

No dia 3 de Fevereiro de 1994, sob o título “Carolice Ajuda Ataíjense”, o Correio da Manhã dava destaque ao Grupo Desportivo e Recreativo Ataíjense com uma fotografia da equipa no alto, a 2/3 da página e, no texto, fruto de uma conversa com o secretário Manuel Luís, um breve resumo da história do clube, as ambições desportivas e os projectos para o futuro.

Agora, quando há projectos para transformar o Estádio da Rã numa coisa nova, diferente, capaz de permitir uma utilização desportiva mais diversificada e para mais pessoas, é justo lembrar os precursores.


Na foto, na fila de cima, da esquerda para a direita: Paulo Rui, Aníbal Tomé, Vítor Ribeiro, Rivelino Sousa, Pedro Vitorino, Carlos Sousa, José António (Tano), Vítor "Lagarto" e os dirigentes, Francisco Salgueiro (presidente), Manuel Luís (secretário) e José Vigário Bernardino (tesoureiro).
Na fila de baixo, da esquerda para a direita: Luís Vigário, Sérgio "Galinha", Sérgio, Gualter Constantino, Pedro Machado, Diamantino Quitério (jogador/treinador) e Ramiro Sousa.

Com agradecimentos ao Hélder Matias pela ajuda na identificação dos retratados.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Centro Pastoral e Casa de Velório

 


Em 28 de Janeiro do corrente ano demos conta do início da construção do Centro Pastoral e Casa de Velório

Agora, decorridos que estão cerca de oito meses em que os trabalhos, apesar de alguns constrangimentos causados pela pandemia, continuaram em bom ritmo, já se vislumbra com nitidez o que vai ser essa obra, a mais ambiciosa e dispendiosa a que os ataijenses meteram ombros.

A obra está a entrar em fase de acabamentos, pelo que a comissão tem em curso mais uma ronda de recolha de fundos que, mais do que nunca, carece da colaboração de todos, porque a obra é de todos. Lembremo-nos que a pandemia limitou fortemente as acções de recolha de fundos, designadamente os almoços-convívio e outras iniciativas de grupo, mas que as necessidades de financiamento se mantiveram.

Lembro a quem quiser conhecer ou rever o projecto (que como é normal tem já algumas pequenas alterações), que pode vê-lo na pagina do facebook do gabinete projectista, CSLaureano, Arquitectos, Lda, em:

https://www.facebook.com/1399813913615484/videos/666366993748812

Junto algumas fotos, tiradas no passado dia 10 do corrente mês de Outubro, que dão conta do estado actual das obras:

 

As obras vistas da Rua de Trás

 

Do terraço alcança-se uma larga vista sobre a serra dos Candeeiros


Fachada principal, preservando a memória da casa que foi de Sabino Vigário e Joaquina Baptista



Padieira de porta ostentando a data de 1795, agora integrada na fachada do edifício, lembrando a todos a antiguidade das edificações que existiam no local.

 

O nicho de Nossa Senhora da Graça, obra do final do Séc. XVII ou inícios do Séc. XVIII, o qual havia sido substituído aquando das obras de 2003 e se achava desde então no Adro, encontrou agora um digno lugar, na cabeceira da sala de velório

 

Um secular peso de lagar, que desejo venha ainda a encontrar o seu lugar na obra


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Maria Mulata

 

 As pesquisas nos assentos paroquiais, em busca da história das pessoas comuns, levam-nos a tropeçar, frequentemente, em pessoas e situações incomuns.

É o caso de Maria, criança mulata, baptizada em vinte e sete de Março de 1786 e enterrada em 20 de Outubro do ano seguinte, em S. Vicente de Aljubarrota.

Vejamos o que dizem os assentos dos seus baptismo e óbito:

Villa

Maria

Aos vinte e sete dias do Mes de Março de mil sete centos outenta e seis; Baptizei e pus os Santos Oleos a Maria filha de Juliana escrava de João Maria Baiana desta villa, e de Pai incógnito. Tocou como Padrinho o Douttor Francisco Correia desta villa e Nossa Sra do Carmo. Tocou com prenda da mesma Theodósio Maria Solteiro desta villa, de que fiz este assento dia mes e anno ut supra

O Cura José dos Santos Rino

Villa

Maria Molla-

ta crioula

Aos vinte dias do Mes de outubro de Mil Sete Centos outenta e outto faleceu dentro desta Parochial Igreija de S. Vicente foi sepultado o Corpo de Maria Mollata Innocente que criava Juliana escrava de Francisco Correia Triaga desta villa teria de idade quinze mezes de que fiz este assento dia mes e anno ut supra

O Cura José dos Santos Rino

 

Há factos em que não podemos deixar de reparar:

Por um lado, na presença de escravos negros em Aljubarrota no final do século XVIII, facto que, aliás, já tínhamos referido anteriormente, noutras postagens.

Por outro, as várias discrepâncias ou ambiguidades que podemos surpreender nos assentos, a começar pela progenitura e a terminar na idade da criança.

No baptismo diz o padre Rino que se trata de uma filha da escrava Juliana que era – o padre não o diz mas tal deduz-se sem esforço – de raça negra, no óbito já não diz que era filha da escrava mas, apenas ou diferentemente, que era criada pela escrava (“que criava Juliana”).

A paternidade, que no assento de baptismo era atribuída a pai incógnito (e de raça branca- o que também não é dito, mas, igualmente, se deduz sem esforço face à alcunha/apelido “molata” (mulata) e, ainda, à anotação na margem relativa à raça: crioula), é no óbito inteiramente omitida o que, aliás, só a ambiguidade do “que criava Juliana” possibilita.

Quanto à idade, declara o padre no assento de óbito que a falecida “teria de idade quinze mezes”. Na verdade, e admitindo que a criança foi baptizada logo nos primeiros dias de vida, como era costume, a sua idade à data do falecimento era de dezanove meses.

Ora, numa freguesia onde em cada um dos anos em causa (1786 e 1787) foram baptizadas apenas 16 crianças, das quais uma única era de diferente raça e filha de escrava, não é crível que o padre possa razoavelmente ter esquecido tais factos ou a sua data. Assim, temos de concluir que o padre mentiu deliberadamente quando disse que a criança falecida teria de idade quinze meses, quando sabia muito bem que tinha dezanove (e, dúvidas tivesse, sempre poderia ter ido ao livro dos assentos de baptismo conferir), como mentiu ao usar a fórmula ambígua “que criava Juliana”, quando bem sabia que a criança era filha da escrava e, certamente, de quem mais. Vejamos:

Diz-se no baptismo que a Juliana é escrava de João Maria Baiana. Não sabemos quem era este João Maria Baiana mas temos por certo que, onde se diz Baiana, bem se podia dizer Baena, apelido que, ao contrário daquele, nos aparece com frequência quando investigamos a Aljubarrota do final do século XVIII, onde João Baptista de Oliveira Baena foi Doutor, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo e “serviu a Sua Majestade nos Lugares de Letras”, Manuel do Rosário de Oliveira Baena foi capitão da Ordenança da vila, e o Teodósio Maria, que no baptismo da Maria Mulata tocou com prenda de Nossa Senhora do Carmo, era também um Oliveira Baena.
Entretanto, a escrava mudou de dono e, enquanto no baptismo era do João Maria Baiana, no falecimento da filha já era de Francisco Correia Triaga o qual, aliás, era o mesmo Doutor Francisco Correia, de seu nome completo Francisco Correia Triaga de Mendonça, que tinha apadrinhado a Maria e era familiar do Doutor Silvestre Torres Correia Triaga e do Capitão Joaquim Bernardes (ou Bernardo) Correia Triaga.

 

Talvez não seja especular demasiado se concluirmos que os erros, omissões e imprecisões do padre, foram uma contribuição deliberada para desvanecer o que, à luz do pensamento e preconceitos da época, foi o infeliz resultado do envolvimento de um membro de uma das mais importantes famílias locais com uma escrava negra.

 

 

Nota:
Sobre as elites locais de Aljubarrota no final do século XVIII podem ver-se neste blog, entre outros, os textos:
Inquirições Sobre a Pureza do Sangue do Reverendo Francisco Xavier da Veiga, in https://ataijadecima.blogspot.com/search?q=Inquiri%C3%A7%C3%B5es+da+pureza+do+sangue
e Capitães de Aljubarrota, in: https://ataijadecima.blogspot.com/2014/03/capitaes-de-aljubarrota.html

domingo, 12 de julho de 2020

Restaurante Doces Sabores

Um excelente restaurante na Ataíja de Cima





O texto com o título "Doces Sabores", aqui publicado em 28 de Março de 2011 e actualizado em 7-6-2018, tornou-se um dos textos mais vistos deste blog, contando actualmente com cerca de 4000 visualizações, sendo certo que não há semana em que não venha alguém consultar o texto, sinal de que o Doces Sabores é cada vez mais conhecido.

Visto o tempo decorrido de mais de noveanos sobre o texto original e dois anos sobre a sua actualização, é altura de, de novo, o actualizar até porque, bem o sabemos, um tal tempo é mais do que suficiente para mudar tudo num restaurante. Adiante-se, desde já que, no Doces Sabores, se alguma coisa mudou foi para melhor.

O antigo restaurante Apeadeiro, que Francisco Vigário Salgueiro abriu após o seu regresso da emigração em França, foi objecto de profunda remodelação e modernização em 2010 e reabriu, no início de 2011, sob a direcção de sua filha Silvie e com o novo nome de "Doces Sabores".

Muito bem situado, ao Km 98 do IC2, à entrada da Ataíja de Cima e junto de um importante conjunto de empresas que, pelo menos ao almoço, lhe fornecem a maioria dos comensais, no entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades (Estrada Municipal n.º 553), com um amplo parque de estacionamento e uma vista privilegiada sobre a Serra dos Candeeiros, é dotado de salas separadas, uma para pastelaria/café e outra para restaurante, esta com design e decoração da autoria da conhecida designer de interiores Patrícia Carvalho (http://www.patriciacarvalho.pt/), uma sala relativamente pequena, acolhedora, com decoração e mobiliário simples mas confortável, que tem resistido muito bem ao decurso do tempo.

Pouco depois da reabertura a gestão passou para a responsabilidade de Criações Gourmet e a cozinha foi confiada à direcção do Chef Carlos Roxo.

Desde então o Doces Sabores, que temos frequentado com regularidade, vem-se confirmando como um dos melhores restaurantes da região, onde a preços muito razoáveis se pode comer comida simples e bem confecionada, mas também carnes maturadas ou peixe no pão e saborosas sobremesas e, porque os olhos também comem, tudo empratado e apresentado com cuidado e gosto e suportado num serviço eficiente e simpático.

Sabemos como os tempos que atravessamos foram e estão a ser particularmente adversos para toda a indústria do turismo e serviços de restauração e similares. Para fazer face à dificil contingência o Doces Sabores passou a dispôr de um serviço de Take Away, não tendo, nunca,deixado de colocar os seus serviços à disposição dos seus clientes.

Por razões pessoais ainda não pude lá voltar depois do início da pandemia. Espero fazê-lo em breve e sair de lá satisfeito, como sempre. Entretanto, para os que não conhecem, deixamos aqui a nota de que o Doces Sabores tem no Google Maps um total de duzentas e doze comentários, na esmagadora maioria (e, em nossa opinião) merecidamente elogiosos, o que lhe dá a excelente apreciação de 4,3 valores em cinco.

Tal como no texto original de 2011 e na actualização de 2018, posso terminar dizendo que, em termos de relação qualidade/preço, o "Doces Sabores" merece a nota de MUITO BOM!

O "Doces Sabores" é um estabelecimento que valoriza a Ataíja de Cima.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

Um cirurgião no Carvalhal


Em 27 de Outubro de mil oitocentos e dois, já lá vão quase duzentos e dezoito anos, foi enterrado dentro da Igreja Paroquial de São Vicente de Aljubarrota, António Francisco da Silva, casado, com Luísa Francisca, moradores na Ataíjade Baixo.

Era Pároco de S. Vicente o Cura Thomás de Aquino da Costa que foi, de todos os padres que paroquiaram a freguesia nos últimos duzentos e cinquenta anos, o de melhor caligrafia. Uma letra bonita e clara, que nos permite ler sem a mais leve dúvida tudo o que escreveu, para grande sorte de todos os que escarafuncham nos assentos paroquiais, à procura de pedacinhos da história da gente comum.

Sobre o morto, o padre nada nos diz para além do seu nome, do nome do seu cônjuge e da localidade onde residiam. Não sabemos qual era a sua profissão, que idade tinha, nem porque morreu, ou onde nasceu, ou quem foram os seus progenitores, se deixou filhos ou não.

Em contrapartida, explica-nos detalhadamente as razões por que o António Francisco da Silva faleceu sem sacramentos e, apesar disso, foi enterrado dentro da igreja paroquial.
Para percebermos as razões é preciso lembrar-nos de que, em 1802, nos encontrávamos, ainda, em pleno Antigo Regime, não havia separação entre a Igreja e o Estado, a religião oficial do país, obrigatória para todos os nacionais, era a religião católica e havia multas para quem fosse responsável pela não administração dos sacramentos ao moribundo. 
A preocupação do padre era a salvação da alma do falecido e, por isso, o seu estado de graça. Daí, a longa explicação para o facto de ter falecido sem sacramentos:

“... não recebeo os sacramentos por afirmar o cirurgião Manuel Luis Cordeiro do Carvalhal Freguesia de Prazeres desta dita Villa ...”

E, eis aqui duas passagens interessantes: uma, que o doente foi assistido por um cirurgião, outra, que no Carvalhal havia um cirurgião.

Um cirurgião, naquele tempo, não era a mesma coisa que um cirurgião hoje. Desde logo, “... a cirurgia era extra-universitária. Aprendia-se fora da Universidade – o que não impedia que um médico pudesse também ser cirurgião”[i]. O doente era visto “como um corpo dividido em duas partes, interna e externa, sujeitas a diferentes patologias, alvo da atenção diferenciada do Médico e do Cirurgião”[ii] e, como se isso não bastasse, a situação era, na realidade, bastante pior “… ao lado dos médicos saídos da única Faculdade do País, a da Universidade de Coimbra, … havia …os cirurgiões mata-sanos ou inchacorvos, os barbeiros sangradores, os curandeiros idiotas, os algebristas, os boticários, as parteiras, os oculistas, os dentistas…”[iii]

No final do século XVIII já há notícias da existência de, pelo menos, dois cirurgiões no concelho de Aljubarrota. Um no Carvalhal, identificado num assento de 1785 como Manuel Vicente, provavelmente o mesmo Manuel a que este assento se refere e, outro, o cirurgião do partido, quer dizer, o cirurgião contratado pela Câmara do Concelho, também com o encargo de assistir gratuitamente aos mais pobres, o qual foi identificado em 1784 como João da Silva e em 1788 como José da Silva, tratando-se, certamente, da mesma pessoa. Em 1803, há notícia de um outro cirurgião no concelho de Aljubarrota e freguesia de S. Vicente: António Ribeiro, nos Chãos.

O ensino da Cirurgia era, naquele tempo, inteiramente distinto do ensino da Medicina que se ensinava na Universidade de Coimbra e conferia o grau e as vantagens de Doutor, enquanto a cirurgia só ganhará foros universitários com a criação da escolas médico-cirúrgicas de Lisboa e Porto, pelo governo presidido por Passos Manuel, em 1836.

O ensino da cirurgia fazia-se em ambiente hospitalar, em especial no Hospital Real de Todos-os-Santos e, depois do terramoto, no Hospital de São José, em Lisboa.

Para a admissão no respectivo curso exigia-se, além do mais, que os candidatos a cirurgiões soubessem ler e escrever português. Esta exigência não é de somenos. O ensino universitário fazia-se, então, em latim[iv]. O ensino da cirurgia, que era essencialmente um ensino prático, era feito nas línguas nacionais. Os estudantes de medicina eram gente das classes abastadas que tinha podido dedicar-se à aprendizagem prévia do latim. Os cirurgiões eram, na generalidade, pessoas de origem popular, barbeiros, como o francês Ambroise Paré[v] ou o português Manuel Constâncio[vi]


E, o nosso padre continua com as explicações:

“... que o dito defunto não tinha necessidade de Sacramentos porque a moléstia não era de perigo e por certificar isto a dita sua mulher e filhos, que querião sacramentare elles me não vierão chamar para lhe ministrar os Sacramentos, e sem embargo de tudo isto da dita moléstia morreo ...”

Infelizmente e ao contrário do que acontece noutros casos, desta vez o padre não dá qualquer indicação sobre a natureza da moléstia de que sofria e de que morreu o falecido. Ficamos, apenas, a saber que o seu estado de saúde se agravou repentinamente.

Finalmente, o padre conclue:

“... e informando-me com pessoas de fé achei não haver culpa em nenhum dos sobreditos”

Ou seja, não assaca responsabilidades ao cirurgião pelo óbvio erro de diagnóstico e do mesmo passo inocenta os familiares, livrando-os da responsabilidade de não terem chamado o padre, por confiarem no cirurgião. 
É que a lei previa multas para os familiares responsáveis pelo não chamamento atempado do padre para administração dos Sacramentos ao moribundo e, em caso de negligência ou culpa, essas multas eram efectivamente cominadas. Foi o que aconteceu, por ex., a Rosa Maria, mulher de Manuel de Sousa Tomásio, dos Casais de Santa Teresa, falecido em 22-7-1804, a qual foi condenada porque "não chamou a tempo em que ele estava em seo juízo para eu lhos hir administrar"

Neste caso, como em geral em todos que contenham matérias que envolvam terceiros, as declarações do padre são abonadas por testemunhas:

“Testemunhas: Miguel Francisco e António Vicente da dita Ataija ...”



[i] Salvador Dias Arnaut, citado in José Manuel Vasconcelos, “Antecedentes da Escola Médico-Cirúrgica do Porto. A caminho da fusão da Medicina com a Cirurgia. Etapas da afirmação institucional de uma profissão” História. Revista da FLUP Porto, IV Série, vol. 4 - 2014, pp 241-269, PDF disponível online em http://ojs.letras.up.pt/index.php/historia (consultado em 26-06-2020)
[ii] Ribeiro Sanches, citado in José Manuel Vasconcelos, loc. cit.
[iii] Idem, idem.
[iv] O que permitia que professores, alunos e todo o conhecimento universitário, circulassem facilmente pela Europa. Curiosamente, na actualidade caminhamos para situação semelhante, com cada vez mais cursos universitários a serem ministrados em inglês, o latim do nosso tempo.
[v] Fiolhais, Carlos “Sobre o início da cirurgia no mundo e em Portugal” conferência, Revista Portuguesa de Cirurgia, n.º 29, Lisboa jun. 2014, disponível online em http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-69182014000200009
(consultado em 1-7-2020)
[vi] Graça, L. – Valorização Técnica e Social da Cirurgia no Antigo Regime – disponível online em https://www.ensp.unl.pt/luis.graca/textos69.html (consultado em 1-7-2020)


terça-feira, 16 de junho de 2020

Dois Ataijenses na Amazónia



No final do século XIX e princípios do século XX, muitos portugueses rumaram à Amazónia, tentando a sorte de colher algumas migalhas das fabulosas riquezas criadas pela exploração da borracha, riquezas essas que fizeram da Manaus daquele tempo uma cidade moderna e faustosa, onde a electricidade e outros benefícios da civilização chegaram mais cedo do que à maior parte do mundo.

Desses tempos de ouro restam ainda em Manaus diversos testemunhos, com destaque para Mercado Municipal e o Teatro Amazonas, este inaugurado em 1896, um grande e luxuoso teatro, ao nível dos melhores da Europa (https://cultura.am.gov.br/portal/teatro-amazonas/)

Em 1912, também Alberto o protagonista do romance A Selva, de Ferreira de Castro, tomou rumo semelhante e encontrou trabalho no seringal Paraíso.
Os leitores saberão das condições de quase escravatura em que decorria a vida dos seringueiros. Àqueles que o não sabem, recomendo vivamente a leitura desse grande romance que é A Selva.

Pouco antes, nos fins do ano de 1911, tinha sido a vez de os irmãos António Ribeiro, de 23 anos de idade e Luiz Ribeiro, de 21, naturais e residentes em Ataíja de Cima, requereram passaporte para sair de Portugal com destino a Manaus.

O seu pai, José Ribeiro, era filho de Luiz Ribeiro, carpinteiro, filho de José Ribeiro e de Guilhermina Maria, dos Casais de Santa Teresa que casou na Ataíja de Cima com Luísa Coelho ou Luísa Heitor, esta com raízes ataíjenses mais antigas, filha de Joaquim Heitor e Ana Umbelina.
Do Joaquim Heitor, nascido em 1789, sabemos ainda que era filho de Manuel Coelho e Maria Vicente e neto paterno de Luís Coelho e Maria Heitor e materno de Manuel Vicente e Maria Cordeiro.

O Luís Ribeiro e a sua mulher Luisa Coelho, tiveram outros filhos. Dez, no total, se não me engano. Seis raparigas, três de nome Maria, uma Felizarda, uma Francisca e uma Joaquina e quatro rapazes: João, João, José e Luiz.
Das Marias, sabemos que uma, nascida em 20.4.1848, faleceu com apenas três meses de idade. As outras duas Marias não as conseguimos localizar nos assentos paroquiais de casamento e óbito. Terão tido destino semelhante à irmã, como era comum naquele tempo ou talvez ainda as encontremos ou a uma delas em buscas mais atentas.
A Felizarda, a Francisca e a Joaquina casaram e tiveram descendência. Três, três e quatro filhos, respectivamente.

Do modo como Luís Ribeiro, o seu filho Luís Ribeiro Júnior e o seu neto José Ribeiro, através de sucessivas compras que se prolongaram por cerca de 100 anos, construíram uma das maiores Casas da Ataíja de Cima, a qual atingiu o seu apogeu em meados do século XX, quando abrangia mais de oitenta prédios rústicos e urbanos, já falámos no texto A Formação de Uma Casa Rural Ataijense 
Mas, porque é que foi o Luiz, o penúltimo dos filhos e o mais novo dos homens, a suceder a Luiz Ribeiro na posse e direcção da casa familiar?

Pois, pela razão de que era o único filho homem vivo.

Um João havia falecido inocente. O outro faleceu em 1877, solteiro, com a idade de 24 anos.
O José casou com Maria de Jesus, filha de João Maria Cláudio e de Maria da Graça e tiveram dois filhos: o António e o Luiz, os aventureiros que foram até à Amazónia.
Quando se casaram, em 9 de setembro de 1889, já o filho António, (nascido em 22 de Agosto de 1888) tinha mais de um ano de idade. Oito meses depois, em 1.5.1890, nasceu o segundo filho, Luiz como o seu avô e o seu tio. Mas, nessa altura já o pai José havia falecido, cerca de um mês antes, em 7.4.1890, depois de um curto casamento de apenas sete meses.

A Maria de Jesus achou-se assim, uma jovem ainda na casa dos vinte anos, viúva e com dois filhos pequenos.

Aquele não era um tempo, nem a Ataíja o lugar, para viúvas com filhos e, a Maria de Jesus, ao fim de trinta e dois meses de viuvez, em 8.12.1892, casou, em 2ªs núpcias, com Porfírio dos Santos, um sapateiro de 24 anos com quem teve uma filha, Joaquina, que foi conhecida por Joaquina Porfíria.

A ligação à família do marido, se é que ainda existia, há-de ter praticamente cessado por via deste segundo casamento.

Estas vicissitudes ajudam-nos, talvez, a entender melhor as razões que terão levado os filhos do seu primeiro casamento a emigrar.

Não sabemos qual foi a vida e ocupação dos nossos conterrâneos nas paragens amazónicas. Mas, sabemos, por memória familiar da descendência do Luiz, que o António aí faleceu, vítima da febre amarela, uma das doenças que, com a malária e a hepatite e, ainda, os ataques de animais selvagens como onças e serpentes, matou milhares de seringueiros.

Em data incerta, após a morte do irmão, Luiz Ribeiro abandonou a Amazónia e instalou-se no Rio de Janeiro, na Tijuca, onde se estabeleceu com um próspero negócio de alfaiataria e tinturaria.
Casou-se, teve pelo menos uma filha e faleceu em 12 de Maio de 1979, no Rio de Janeiro, com a bonita idade de 89 anos.


Luis Ribeiro no Rio de Janeiro, com a sua mulher Isabel Alves e a filha Hilda Alves Ribeiro