terça-feira, 2 de março de 2021

Os meus primeiros livros

 


Na velha casa onde vivi entre os meus três e os dez anos e, depois disso, em largos verões durante toda a minha adolescência, havia dois livros e diversos papéis impressos, recibos de pagamento de décimas, vários exemplares, relativos a anos diversos, da Bula da Cruzada, raras cartas dos filhos emigrados, alguns velhos exemplares de A Voz do Domingo que o meu avô comprava religiosamente todos os domingos, à saída da missa em São Vicente e a sua caderneta militar, tudo guardado numa das gavetas da pequena mesa da casa de fora. Havia também uma buraca na parede da casa das talhas onde, sob uma espessa camada de pó, encontrei um dia, entre outros papéis que já não recordo, uma escritura pela qual o meu avô comprou, pela módica quantia de 4$200, o talho onde hoje está a casa da minha prima Felismina.

Mas, voltemos aos livros

Os livros eram uma Cartilha Maternal, entretanto desaparecida, sobre a qual se havia derramado um tinteiro e por isso com as páginas muito manchadas de um azul desmaiado. Nessa cartilha aprendi a reconhecer as letras e os números e a soletrar as primeiras sílabas.

Além deste, havia um outro livrinho que ainda guardo, pequenino de apenas de 13,8x7,8 cm, já muito velho e sem lombada, as capas gastas presas apenas pelas cordas da encadernação. Acaba abruptamente na página 194, faltando-lhe, pelo menos, uma ou duas folhas.

Na folha de guarda apresenta algumas palavras manuscritas de difícil leitura que me parece serem: Ataija / Aljubª (Aljubarrota?) / Aljubaª, (mais uma palavra ilegível) / Comarca de Alcobaça.

O que, aliás, nem parece fazer ali muito sentido.

Trata-se da segunda impressão mais acrescentada, impressa em Lisboa, na Régia Oficina Tipográfica, no ano de 1774, com licença da Real Mesa Censória de

O CHRISTÃO ENFERMO, E MORIBUNDO, CONFORMANDO-SE A JESUS CHRISTO nas diferentes circumstancias da sua Paixão e, da sua Morte, Extrahido e abreviado da Obra, que sobre este assumpto compoz na Lingua Francesa M. PERONNET, Conego Regular, e Prior Curado de Santo Ambrosio de Melun. por Fr. FRANCISCO de jesus maria sarmento, Comissario Visitador da Veneravel Ordem Terceira do Convento de N. Senhora de Jesus de Lisboa.

O título diz tudo e o livro é isso mesmo: um rol de curtos conselhos ao cristão enfermo e moribundo e as extensas orações com que deve ele cristão, na companhia dos familiares e amigos, preparar-se para o próximo encontro com Deus. As orações estão escritas em tom proclamatório, fazendo juz à fama de pregador do Fr. Francisco de Jesus Maria Sarmento (como, por ex., a páginas 151: “Creio Senhor firmissimamente em tudo quanto manda crer a Santa Igreja Católica Apostólica romana.; Fortalecei meu Jesus a minha Fé, Espero Senhor salvar-me pelos vossos infinitos merecimentos …”).

Na página 155 tem início o OFFICIO DA AGONIA com a seguinte introdução: “Tanto que o moribundo estiver agonizando se lhe porá na mão uma vela acesa e estando todos de joelhos, dirá o Sacerdote (e em sua ausência, qualquer Pessoa) as seguintes preces, ordenadas pela Igreja para esta ocasião”. A partir daqui as orações estão em latim, começando no Kyrie eleison e prosseguindo durante cerca de quarenta densas páginas.

O autor ou, melhor, o tradutor / adaptador foi uma conhecida figura do seu tempo que, tendo entrado na Universidade de Coimbra aos 9 anos foi bacharel em Direito Civil e Mestre em Artes aos 17 e decidiu, pouco depois, iniciar a vida monástica na Ordem Terceira da Penitência (franciscanos) onde foi pregador, visitador e geral provincial.

Famoso pregador, estão dele publicados diversos sermões e várias outras obras, todas de carácter religioso, das quais o verso da folha de capa do nosso livrinho anuncia seis que, “Vendem-se na Portaria do Convento de Nossa Senhora de Jesus de Lisboa”.

Curiosamente, uma aturada busca na internet não reporta qualquer resultado para o livrinho que tenho em mãos e não consta de nenhuma das listas das obras do Frade Sarmento aí disponíveis.[i]

Trata-se, este “Cristão Enfermo e Moribundo” de um belo testemunho de como ainda era entendida a morte, naquele final do Século XVIII. A morte era uma passagem à vida eterna, um momento crucial no qual se decidia a eternidade do falecido. Era fundamental ter uma “boa morte” e para isso o moribundo era assistido por familiares e amigos. Buscava-se “a "morte dôce", a agonia conduzida por Deus, através do padre, e acompanhada pelos mais próximos vivos, com orações e cânticos, como se tratasse de um processo e não de um instante definitivo e restricto.”[ii]

Estavamos, no entanto, num tempo de mudança. Quando Fr. Sarmento escrevia O Cristão Enfermo e Moribundo, já pela Europa circulavam escritos sobre a incerteza dos sinais de morte e se criavam sociedades dedicadas ao estudo da “animação suspensa”, a morte aparente, “para que se não enterre gente viva, como frequentes vezes tem acontecido em muitas partes”, como a literatura tão impressivamente deixou relatado.

Os avanços na ciência e na filosofia e as preocupações de saúde pública, como as que levaram à proibição dos enterramentos nas igrejas e à criação dos cemitérios públicos, iriam ter por objectivo “a descoberta de um sinal de morte incontroverso”, o que tornou o corpo humano “no lugar privilegiado da experiência médica” e, finalmente, permitiu ao “Estado tomar posse de um aspecto complexo da vida humana, enfrentando a morte com objectividade, … retirando o corpo em agonia da influência nefasta de familiares e, também, das autoridades religiosas e entregando-o a quem se considerava competente para a gestão do processo final, no espaço e no tempo da incerteza entre a vida e a morte”[iii],[iv]

 


Como é que este curioso livrinho chegou à gaveta da mesa da casa de fora dos meus avós, que é o aspecto que do ponto de vista da história familiar e local, verdadeiramente me interessaria, isso vai ficar sem resposta.






[i] Não é referido, por ex., em ASSISTÊNCIA AO DOENTE MORIBUNDO NO SÉCULO XVIII Dissertação apresentada ao Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa para obtenção do grau de Mestre em Cuidados Paliativo,s por Ana Filipa Ladeira Félix da Costa Sob orientação da Professora Doutora Margarida Vieira, Abril de 2012,
[ii] As provas do corpo, os sinais da morte nos séculos XVIII-XIX, Jorge Crespo (da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa). Pro-Posições, v. 14, n. 2 (41) - maio/ago. 2003, disponível in 41-dossie-crespoj.pdf (unicamp.br), consultado em 02-03-2021.
[iii] Idem, idem. (as citaçõe sentre aspas e sem outra indicação referem-se a este texto)
[iv] Uma aproximação à evolução da ideia de morte ao longo dos tempos, na civilização ocidental pode se vista em Emanuel Guerreiro, A Ideia de morte: do medo à libertação, in Revista Diacrítica, vol. 28 n.º 2, Universidade do Minho, Braga 2014. Disponível online em: A Ideia de morte: do medo à libertação (mec.pt), consultado em 02-03-2021.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

A Construção da Sacristia Nova da Capela de Nossa Senhora da Graça

 

 

Em Outubro de 1969, oito dias antes das eleições legislativas desse ano, foi inaugurada a luz eléctrica na Ataíja de Cima, o que foi pretexto para luzida cerimónia que contou com a presença de grosso número de dignitários do Distrito.
Nunca se tinha visto tanta gente importante na Ataíja de Cima, nem nunca mais se viu.

Nos discursos fizeram-se convites - ao voto na União Nacional. E promessas – a estrada seria alcatroada no ano seguinte.

O povo cumpriu a sua parte e, esquecido de que nunca recebera dos poderes públicos mais do que os avisos para pagar a “décima”, ou o recibo das multas por falta de licença no carro do burro ou na coleira do cão, foi votar na UN[i].

As autoridades, essas, contaram os votos e esqueceram a promessa.

O macadame ia desaparecendo e a estrada ficando cada vez mais um caminho de cabras, cedendo ao peso das muitas toneladas dos camiões carregados de pedra que por lá passavam. Pó no Verão, lama no Inverno.

Só depois do 25 de Abril, levados na onda de esperança que nos submergiu a todos, alguns homens da Ataíja, dos quais me permito salientar o Ti’ Zé Coelho e o meu pai, começaram a pensar a sério na necessidade de conseguir alcatroar a estrada.

Numa primeira reunião das populações da Ataíja e do Cadoiço, no início de 1975, foi decidida a criação de uma comissão com duas tarefas fundamentais: recolher contribuições e solicitar à Câmara a realização do imprescindível melhoramento (ver, neste blog, o post: O Alcatroamento da Estrada do Lagar dos Frades).

Com a colaboração do povo e da Câmara a estrada fez-se, provando que quando as pessoas trabalham unidas tudo é possível de ser feito!

As pessoas prescindiram de quaisquer direitos a indemnizações e elas próprias procederam aos trabalhos de alargamento do leito da estrada e todos concordaram que era necessário arrasar a sacristia da Capela de Nossa Senhora da Graça, para evitar que no local ficasse a estrada mais estreita, com uma inestética e perigosa garganta. Os responsáveis municipais garantiram que a nova sacristia podia ser construída a nascente da capela, com dispensa das habituais licenças.

Em 1981, finalmente, a aldeia encontrou forças para pôr de pé a desejada sacristia. Eu próprio fiz as necessárias medições e desenhei um projecto da sacristia que com base nele se construiu, onde está, nas traseiras da capela mor, a que se liga através de um corredor adossado à parede norte da igreja, ocupando uma pequena parte e estreitando o arruamento aí existente, então e desde há vários anos praticamente sem uso por não habitar ninguém nas duas casas (hoje unidas numa) aí existentes.

Estes são os factos que antecederam e justificaram a necessidade de construção da nova sacristia.

(O que fica escrito era, com pequeníssimas adaptações, a primeira parte de um texto que em Dezembro de 1981 enviei ao jornal O Alcoa e que, por ser muito extenso, foi reformulado, pelo que apenas a 2ª parte   foi publicada no jornal O ALCOA de 7 de Janeiro de 1982, como a seguir se transcreve)

 

ATAÍJA DE CIMA – obras na Capela

Quando, há uns meses atrás começaram as obras de construção da nova sacristia, (a anterior havia sido arrasada aquando do alcatroamento da estrada) logo três homens da Ataíja se movimentaram no sentido de as impedir.

Um porque é proprietário de um prédio situado num arruamento que vai ficar parcialmente ocupado pela nova construção e pensa (erradamente no meu entender) que, por isso vai ficar prejudicado. Outros dois, sem interesses directos a serem afectados e em consequência, penso eu, sem qualquer razão.

Começou então um autêntico rodopio para a Câmara, dos que são pró e dos que são contra. Lamentável é que, ao que parece, a certa altura havia na Câmara maior confusão do que na Ataíja, pelo que às tantas ninguém se entendia, as obras um dia paravam, outro andavam, com sucessivos embargos e desembargos, tendo mesmo um dos opositores chegado à “acção directa” arrasando parte do que estava construído.

A própria Junta de Freguesia encontra-se neste momento numa grave crise com a demissão de vários dos seus membros, facto a que não é alheio “o caso da sacristia”.

Na sexta-feira (4/12) o povo decidiu que no sábado as obras iriam prosseguir.

Foi bonito de ver dezenas de pessoas trabalhando unidas na realização de uma obra que interessa a todos. Trabalhando, comendo e bebendo o que a solidariedade de muitos logo lá fez chegar: pão fresco (que sábado é dia de acender o forno), sardinhas, vinho e bagaço em abundância, numa festa que se prolongou pela noite fora – dizem-me que às seis da manhã havia quem assasse frango na fogueira com que aqueceram a noite – e houve quem se não deitasse e só fosse a casa trocar de roupa para a missa dominical. Nem a poesia faltou:

Ataíja decidiu
E o povo construiu
Todos querem a capela
Só três são contra ela

No sábado passado (19/12) e de acordo com o previsto, procedeu-se à colocação da segunda placa e do telhado da sacristia e de novo se repetiram as cenas da jornada anterior.

Um imenso churrasco foi montado para assar dezenas de frangos, que foram acompanhados de pão fresco, ainda fumegante do forno.

O Sr. Presidente da Câmara, correspondendo ao convite que, entretanto, lhe havia sido dirigido, confraternizou durante algum tempo com o povo da Ataíja e acompanhado de um grupo de pessoas, percorreu algumas ruas da aldeia enquanto ia ouvindo várias sugestões no sentido de resolver algumas das mais urgentes carências do lugar.

O povo da Ataíja tem razão para estar satisfeito. Mais uma vez provou a si próprio que um homem só pouco pode e que muitos homens juntos podem muito.

E porque assim é pensa-se já em levar a cabo outras obras igualmente importantes e, para assinalar condignamente a inauguração da sacristia, prepara-se uma festa, para a qual existem já valiosas ofertas.


Entrada exterior para a sacristia tal como foi construída inicialmente, em 1981.
Foto de 1995, SIPA-Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (hhttp://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1810)

 

 

APELO: Agradeço a quem possuir fotografias onde seja visível a sacristia antiga da capela o favor de me permitir a sua digitalização.


________________________________________

[i] Em rigor, não se pode dizer o povo porquanto, naquele tempo, o recenseamento não era obrigatório, (salvo para os funcionários públicos que eram oficiosamente recenseados).
Legalmente, o recenseamento dependia de inscrição voluntária e, na prática efectivava-se arbitrariamente, ao gosto do presidente de Junta e do Regedor (Nestas eleições de 1969 eu próprio e alguns amigos deslocámo-nos à Junta da freguesia onde morávamos, para nos recencearmos, o que fizemos. Mas, no dia das eleições, não constávamos dos cadernos eleitorais).
Em aldeias como a Ataíja o recenseamento era oficioso no sentido de que as autoridades inscreviam quem queriam e era a esses que convidavam a votar, distribuindo previamente os boletins de voto, dos quais constava uma única lista.
É, ainda, importante lembrar que as mulheres, salvo as chefes de família e as licenciadas, não tinham direito de voto.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

ATAÍJA, 7 OUTUBRO DE 1810


Tal como a minha avó me contou à lareira, em longos serões de Inverno, naquele tempo em que não havia electricidade e em casa nos iluminávamos com a luz da candeia ou, simplesmente, com a que vinha da lenha a arder na lareira e o serão se iniciava, por isso, ao pôr-do-sol, o povo fugiu aterrorizado à notícia da chegada dos franceses, escondendo-se nos matos altos que havia na borda da serra e nos vales.
Os franceses desapontados, gritavam falsamente fingindo-se quem não eram: Maria! Vem-te embora que já lá vão os franceses! Mas, ao que parece, a prudência imperou e não tenho notícia de homem que tenha caído na esparrela, nem de virgem que, neste interim, tenha deixado de o ser, ao menos, a mãos estrangeiras. Se é verdade o que contava a minha avó (que o terá ouvido ao seu avô que, esse, foi contemporâneo dos acontecimentos) na Ataíja não houve mortos pelo que a aldeia terá, assim, escapado a um flagelo que na nossa região atingiu dimensões quase incompreensíveis e de onde resultou uma diminuição da população para menos de metade.
Os franceses, continuava a minha avó, entraram, assim, livremente, pelas casas abandonadas e comeram o que quiseram e tomados daquela malvadez de que, julgava eu, só os franceses são capazes (vim, mais tarde, a perceber que todos os exércitos são iguais), tombaram e arrombaram talhas e pias de azeite que eu, empolgado com a vivacidade da descrição, via a correr em rios pelas ruas da aldeia e foram-se às arcas e trouxeram-nas para a rua e deram de comer aos cavalos, trigo, cevada, aveia e milho. Levados a beber água na Lagoa Ruiva os animais rebentaram pelo inchar dos grãos secos e, partidos os franceses, era grande a mortandade de cavalos e mulas em todo o redor da lagoa.
Estas histórias impressionaram-me fortemente, de tal modo que se seguiram sonhos agitados durante os quais, por mais de uma vez, em luta com os malvados franceses, cheguei a cair da cama. Mas, essas vivas descrições ajudaram mais ao meu gosto pela História que os professores todos que, depois, havia de ter.

Quando é que os franceses estiveram na Ataíja e fizeram as tropelias de que falava a minha avó Maria Lourenço?

Provavelmente, passaram por lá por mais de uma vez entre 1808 e 1811 mas, de certeza, por lá passaram no curto período entre a tarde do dia 6 e a manhã do dia 8 de Outubro de 1810 e foi então, certamente, que cometeram as pilhagens e destruições de que me falou a minha avó.

A Batalha do Bussaco tinha tido lugar em 27 de Setembro e de seguida, os exércitos anglo-portugueses iniciaram a sua retirada para as Linhas de Torres, reunindo-se em Leiria de onde partiram no dia 6 de Outubro, de manhã, dividindo-se em três partes, uma das quais seguiu por Alcobaça e Óbidos, a outra pela Estrada de D. Maria I (actual IC 2), a caminho de Rio Maior e Alcoentre e a terceira, por Tomar, para Santarém.
Logo atrás, vinham os Franceses que saquearam a cidade de Coimbra abandonada e, no dia 7 (há, precisamente, 199 anos), Soult já estava nas Pedreiras e Lamotte na Calvaria, de onde enviou patrulhas até Alcobaça, onde ficou a brigada do general Ornano e, no dia seguinte, todo o grosso do exército estava acampado entre Porto de Mós, Molianos e Candeeiros, com Montbrun instalado “à direita dos Molianos” com infantaria e artilharia. Ainda no dia 8, as primeiras tropas puseram-se em marcha para Rio Maior.

Wellington, adoptou na retirada uma política de terra queimada, destruindo tudo o que pudesse ser aproveitado pelo inimigo, os franceses, esses, possuíam uma logística mínima e alimentavam-se e alimentavam os cavalos do que conseguiam pilhar nos locais por onde passavam.

Houve, pois, uma primeira destruição provocada pelos exércitos portugueses e ingleses o que terá provocado o desespero dos franceses, fortemente castigados com mais de 5.000 mortos numa manhã no Bussaco e, muitos mais, fracos e doentes que foram ficando pelo caminho, incapazes de acompanhar as marchas forçadas. A fome e a desorientação provocada pelos conflitos entre os generais e um incompreensível desconhecimento do terreno que obrigava Massena a “navegar à vista” e a dar ordens e contra-ordens, também não hão-de ter contribuído para elevar a moral do exército,

Entende-se, assim, o desprezo amargo que ressalta das palavras do General Koch nas suas “Memórias de Massena”: “É impossível ver uma região mais miseranda que a que vai de Carvalhos[i] a Rio Maior; Candeeiros e Moliano não têm, sequer, o aspecto de lugarejos, e só apresentam meia dúzia de péssimas cabanas esparsas numa planície nua e árida onde não há cereais nem forragem nem água”.

NOTAS:
[i] Carvalhos, é o sítio que conhecemos por Pedreiras
A ler: Leiria no Tempo das Invasões Francesas, Jorge Estrela, Gradiva, Lisboa, 2009


(Este texto foi nicialmente publicado neste blog em 07-10-2009)

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Quando se jogava futebol na Ataíja de Cima

 


Arrumações nas estantes permitem-nos encontrar papéis de que já não nos lembrávamos ou julgávamos desaparecidos.

E, eis que encontrei um recorte de jornal com uma foto e um texto sobre o Ataíjense, que motiva este quarto post sob o título “Quando se jogava futebol na Ataíja de Cima”.
Este é um recorte que andava perdido há mais de onze anos pois, de outra maneira e para respeitar a ordem cronológica, teria sido ele o objecto do primeiro post sobre este assunto que publiquei em 13 de Novembro de 2009 ((VER AQUI).

No dia 3 de Fevereiro de 1994, sob o título “Carolice Ajuda Ataíjense”, o Correio da Manhã dava destaque ao Grupo Desportivo e Recreativo Ataíjense com uma fotografia da equipa no alto, a 2/3 da página e, no texto, fruto de uma conversa com o secretário Manuel Luís, um breve resumo da história do clube, as ambições desportivas e os projectos para o futuro.

Agora, quando há projectos para transformar o Estádio da Rã numa coisa nova, diferente, capaz de permitir uma utilização desportiva mais diversificada e para mais pessoas, é justo lembrar os precursores.


Na foto, na fila de cima, da esquerda para a direita: Paulo Rui, Aníbal Tomé, Vítor Ribeiro, Rivelino Sousa, Pedro Vitorino, Carlos Sousa, José António (Tano), Vítor "Lagarto" e os dirigentes, Francisco Salgueiro (presidente), Manuel Luís (secretário) e José Vigário Bernardino (tesoureiro).
Na fila de baixo, da esquerda para a direita: Luís Vigário, Sérgio "Galinha", Sérgio, Gualter Constantino, Pedro Machado, Diamantino Quitério (jogador/treinador) e Ramiro Sousa.

Com agradecimentos ao Hélder Matias pela ajuda na identificação dos retratados.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Centro Pastoral e Casa de Velório

 


Em 28 de Janeiro do corrente ano demos conta do início da construção do Centro Pastoral e Casa de Velório

Agora, decorridos que estão cerca de oito meses em que os trabalhos, apesar de alguns constrangimentos causados pela pandemia, continuaram em bom ritmo, já se vislumbra com nitidez o que vai ser essa obra, a mais ambiciosa e dispendiosa a que os ataijenses meteram ombros.

A obra está a entrar em fase de acabamentos, pelo que a comissão tem em curso mais uma ronda de recolha de fundos que, mais do que nunca, carece da colaboração de todos, porque a obra é de todos. Lembremo-nos que a pandemia limitou fortemente as acções de recolha de fundos, designadamente os almoços-convívio e outras iniciativas de grupo, mas que as necessidades de financiamento se mantiveram.

Lembro a quem quiser conhecer ou rever o projecto (que como é normal tem já algumas pequenas alterações), que pode vê-lo na pagina do facebook do gabinete projectista, CSLaureano, Arquitectos, Lda, em:

https://www.facebook.com/1399813913615484/videos/666366993748812

Junto algumas fotos, tiradas no passado dia 10 do corrente mês de Outubro, que dão conta do estado actual das obras:

 

As obras vistas da Rua de Trás

 

Do terraço alcança-se uma larga vista sobre a serra dos Candeeiros


Fachada principal, preservando a memória da casa que foi de Sabino Vigário e Joaquina Baptista



Padieira de porta ostentando a data de 1795, agora integrada na fachada do edifício, lembrando a todos a antiguidade das edificações que existiam no local.

 

O nicho de Nossa Senhora da Graça, obra do final do Séc. XVII ou inícios do Séc. XVIII, o qual havia sido substituído aquando das obras de 2003 e se achava desde então no Adro, encontrou agora um digno lugar, na cabeceira da sala de velório

 

Um secular peso de lagar, que desejo venha ainda a encontrar o seu lugar na obra


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Maria Mulata

 

 As pesquisas nos assentos paroquiais, em busca da história das pessoas comuns, levam-nos a tropeçar, frequentemente, em pessoas e situações incomuns.

É o caso de Maria, criança mulata, baptizada em vinte e sete de Março de 1786 e enterrada em 20 de Outubro do ano seguinte, em S. Vicente de Aljubarrota.

Vejamos o que dizem os assentos dos seus baptismo e óbito:

Villa

Maria

Aos vinte e sete dias do Mes de Março de mil sete centos outenta e seis; Baptizei e pus os Santos Oleos a Maria filha de Juliana escrava de João Maria Baiana desta villa, e de Pai incógnito. Tocou como Padrinho o Douttor Francisco Correia desta villa e Nossa Sra do Carmo. Tocou com prenda da mesma Theodósio Maria Solteiro desta villa, de que fiz este assento dia mes e anno ut supra

O Cura José dos Santos Rino

Villa

Maria Molla-

ta crioula

Aos vinte dias do Mes de outubro de Mil Sete Centos outenta e outto faleceu dentro desta Parochial Igreija de S. Vicente foi sepultado o Corpo de Maria Mollata Innocente que criava Juliana escrava de Francisco Correia Triaga desta villa teria de idade quinze mezes de que fiz este assento dia mes e anno ut supra

O Cura José dos Santos Rino

 

Há factos em que não podemos deixar de reparar:

Por um lado, na presença de escravos negros em Aljubarrota no final do século XVIII, facto que, aliás, já tínhamos referido anteriormente, noutras postagens.

Por outro, as várias discrepâncias ou ambiguidades que podemos surpreender nos assentos, a começar pela progenitura e a terminar na idade da criança.

No baptismo diz o padre Rino que se trata de uma filha da escrava Juliana que era – o padre não o diz mas tal deduz-se sem esforço – de raça negra, no óbito já não diz que era filha da escrava mas, apenas ou diferentemente, que era criada pela escrava (“que criava Juliana”).

A paternidade, que no assento de baptismo era atribuída a pai incógnito (e de raça branca- o que também não é dito, mas, igualmente, se deduz sem esforço face à alcunha/apelido “molata” (mulata) e, ainda, à anotação na margem relativa à raça: crioula), é no óbito inteiramente omitida o que, aliás, só a ambiguidade do “que criava Juliana” possibilita.

Quanto à idade, declara o padre no assento de óbito que a falecida “teria de idade quinze mezes”. Na verdade, e admitindo que a criança foi baptizada logo nos primeiros dias de vida, como era costume, a sua idade à data do falecimento era de dezanove meses.

Ora, numa freguesia onde em cada um dos anos em causa (1786 e 1787) foram baptizadas apenas 16 crianças, das quais uma única era de diferente raça e filha de escrava, não é crível que o padre possa razoavelmente ter esquecido tais factos ou a sua data. Assim, temos de concluir que o padre mentiu deliberadamente quando disse que a criança falecida teria de idade quinze meses, quando sabia muito bem que tinha dezanove (e, dúvidas tivesse, sempre poderia ter ido ao livro dos assentos de baptismo conferir), como mentiu ao usar a fórmula ambígua “que criava Juliana”, quando bem sabia que a criança era filha da escrava e, certamente, de quem mais. Vejamos:

Diz-se no baptismo que a Juliana é escrava de João Maria Baiana. Não sabemos quem era este João Maria Baiana mas temos por certo que, onde se diz Baiana, bem se podia dizer Baena, apelido que, ao contrário daquele, nos aparece com frequência quando investigamos a Aljubarrota do final do século XVIII, onde João Baptista de Oliveira Baena foi Doutor, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo e “serviu a Sua Majestade nos Lugares de Letras”, Manuel do Rosário de Oliveira Baena foi capitão da Ordenança da vila, e o Teodósio Maria, que no baptismo da Maria Mulata tocou com prenda de Nossa Senhora do Carmo, era também um Oliveira Baena.
Entretanto, a escrava mudou de dono e, enquanto no baptismo era do João Maria Baiana, no falecimento da filha já era de Francisco Correia Triaga o qual, aliás, era o mesmo Doutor Francisco Correia, de seu nome completo Francisco Correia Triaga de Mendonça, que tinha apadrinhado a Maria e era familiar do Doutor Silvestre Torres Correia Triaga e do Capitão Joaquim Bernardes (ou Bernardo) Correia Triaga.

 

Talvez não seja especular demasiado se concluirmos que os erros, omissões e imprecisões do padre, foram uma contribuição deliberada para desvanecer o que, à luz do pensamento e preconceitos da época, foi o infeliz resultado do envolvimento de um membro de uma das mais importantes famílias locais com uma escrava negra.

 

 

Nota:
Sobre as elites locais de Aljubarrota no final do século XVIII podem ver-se neste blog, entre outros, os textos:
Inquirições Sobre a Pureza do Sangue do Reverendo Francisco Xavier da Veiga, in https://ataijadecima.blogspot.com/search?q=Inquiri%C3%A7%C3%B5es+da+pureza+do+sangue
e Capitães de Aljubarrota, in: https://ataijadecima.blogspot.com/2014/03/capitaes-de-aljubarrota.html

domingo, 12 de julho de 2020

Restaurante Doces Sabores

Um excelente restaurante na Ataíja de Cima





O texto com o título "Doces Sabores", aqui publicado em 28 de Março de 2011 e actualizado em 7-6-2018, tornou-se um dos textos mais vistos deste blog, contando actualmente com cerca de 4000 visualizações, sendo certo que não há semana em que não venha alguém consultar o texto, sinal de que o Doces Sabores é cada vez mais conhecido.

Visto o tempo decorrido de mais de noveanos sobre o texto original e dois anos sobre a sua actualização, é altura de, de novo, o actualizar até porque, bem o sabemos, um tal tempo é mais do que suficiente para mudar tudo num restaurante. Adiante-se, desde já que, no Doces Sabores, se alguma coisa mudou foi para melhor.

O antigo restaurante Apeadeiro, que Francisco Vigário Salgueiro abriu após o seu regresso da emigração em França, foi objecto de profunda remodelação e modernização em 2010 e reabriu, no início de 2011, sob a direcção de sua filha Silvie e com o novo nome de "Doces Sabores".

Muito bem situado, ao Km 98 do IC2, à entrada da Ataíja de Cima e junto de um importante conjunto de empresas que, pelo menos ao almoço, lhe fornecem a maioria dos comensais, no entroncamento com a Estrada do Lagar dos Frades (Estrada Municipal n.º 553), com um amplo parque de estacionamento e uma vista privilegiada sobre a Serra dos Candeeiros, é dotado de salas separadas, uma para pastelaria/café e outra para restaurante, esta com design e decoração da autoria da conhecida designer de interiores Patrícia Carvalho (http://www.patriciacarvalho.pt/), uma sala relativamente pequena, acolhedora, com decoração e mobiliário simples mas confortável, que tem resistido muito bem ao decurso do tempo.

Pouco depois da reabertura a gestão passou para a responsabilidade de Criações Gourmet e a cozinha foi confiada à direcção do Chef Carlos Roxo.

Desde então o Doces Sabores, que temos frequentado com regularidade, vem-se confirmando como um dos melhores restaurantes da região, onde a preços muito razoáveis se pode comer comida simples e bem confecionada, mas também carnes maturadas ou peixe no pão e saborosas sobremesas e, porque os olhos também comem, tudo empratado e apresentado com cuidado e gosto e suportado num serviço eficiente e simpático.

Sabemos como os tempos que atravessamos foram e estão a ser particularmente adversos para toda a indústria do turismo e serviços de restauração e similares. Para fazer face à dificil contingência o Doces Sabores passou a dispôr de um serviço de Take Away, não tendo, nunca,deixado de colocar os seus serviços à disposição dos seus clientes.

Por razões pessoais ainda não pude lá voltar depois do início da pandemia. Espero fazê-lo em breve e sair de lá satisfeito, como sempre. Entretanto, para os que não conhecem, deixamos aqui a nota de que o Doces Sabores tem no Google Maps um total de duzentas e doze comentários, na esmagadora maioria (e, em nossa opinião) merecidamente elogiosos, o que lhe dá a excelente apreciação de 4,3 valores em cinco.

Tal como no texto original de 2011 e na actualização de 2018, posso terminar dizendo que, em termos de relação qualidade/preço, o "Doces Sabores" merece a nota de MUITO BOM!

O "Doces Sabores" é um estabelecimento que valoriza a Ataíja de Cima.