segunda-feira, 19 de maio de 2014

Enjeitados - nomes de baptismo - critérios de atribuição


Em meados do Séc. XIX entravam, por ano, mais de 2000 crianças no hospital dos Expostos de Lisboa (foram 2373 em 1852) pelo que, o nome que se deveria atribuir a cada uma no baptismo a que imediatamente se procedia[i], havia de obedecer a alguns critérios.

Um desses critérios vê-se claramente nos próprios registos de baptismo onde, geralmente, consta a indicação de o nome ser “nome da Casa” quer dizer, atribuído por decisão dos baptizantes ou, “nome do escrito” quer dizer, ser o que constava de algum papel que acompanhasse a criança com o pedido de se lhe atribuir esse nome[ii].
Quando havia um papel com indicação do nome a atribuir à criança, essa vontade era, em regra, aceite. Por vezes atribuía-se à criança nome diferente do “nome do escrito”. Nos assentos não se registavam as razões mas, talvez o nome proposto não fosse considerado suficientemente cristão, já que o nome de substituição, esse, é sempre o nome de um santo.

Foi o caso de um menino entrado em 2 de Novembro de 1852, acompanhado de um papel onde se pedia que fosse baptizado com o nome de Leónidas Tubarão[iii], mas foi baptizado com o nome de Malaquias.

Ora, este facto, de uma criança entrada em um dia 2 de Novembro ter sido baptizada com o nome de Malaquias conduz-nos àquele que seria o principal critério de nominação dos expostos: o Santo do dia.

Malaquias foi o último dos profetas menores do Antigo Testamento, tendo escrito, cerca de 430 a.C., o chamado Livro de Malaquias.
O seu nome foi atribuído cerca de 1400 anos depois, a uma criança irlandesa que a história reteve sob o nome de São Malaquias, canonizado em 1199, pelo Papa Clemente III, quando tinham passado 51 anos sobre a sua morte, ocorrida em 2 de Novembro de 1148, no mosteiro de Clairvaux (Claraval), onde era abade São Bernardo.

Em 26 de Janeiro de 1852, entraram no H.E.L. um total de nove crianças das quais cinco traziam papéis com a indicação do nome que se pretendia lhe fosse atribuído, o que, em todos os casos, foi respeitado:
Elvira, Maria Joaquina, Maria, Daniel Bonifácio Fernandes, João.

As restantes quatro crianças foram baptizadas com os nomes de, respectivamente:
Paula, Policarpo, Cristiano e Alexandrino.

Santa Paula, padroeira das viúvas, diz a Wikipédia, é uma santa cristã venerada pelas igrejas Católica e Ortodoxa, nascida em Itália em 5 de maio de 347 e falecida em Belém, onde se encontra sepultada na Basílica da Natividade, no ano de 404. Na Igreja Católica tem a sua festa litúrgica no dia 26 de Janeiro.

Actualmente, a Igreja Católica comemora neste dia São Timóteo e São Tito mas, “antigamente”, São Policarpo[iv] era celebrado a 26 de Janeiro[v].

Cristiano, é nome que não carece de justificação. É palavra de origem latina que significa, literalmente, cristão.

Alexandrino é um diminuitivo de Alexandre, nome antigo que, segundo o dicionário de nomes próprios[vi], significará protector do homem ou, defensor da humanidade. O mais célebre dos Alexandres foi Alexandre o Grande, rei da Macedónia. Na juventude teve por perceptor o grande filósofo Aristóteles. Foi o maior conquistador da Antiguidade e, apesar da sua curta vida e governo[vii], criou um Império que se estendeu desde os Balcãs e o Egipto até às portas da India e ao Uzbequistão. Após a sua morte, o Império desmembrou-se dividido entre os seus generais.
Santos e Beatos com o nome de Alexandre contam-se mais de vinte, além de algumas Alexandras e, pelo menos, uma Alexandrina, esta, portuguesa do Séc. XX, beatificada pelo Papa João Paulo II. No entanto, nenhum destes santos e beatos tem a sua festa litúrgica no dia 26 de Janeiro.

Cerca de seis meses depois dos acima referidos, em 2 de Julho de 1852, entraram no Hospital dos Expostos de Lisboa, seis crianças:
Rachel Lia da Conceição, António Martins, Rita e Joaquim Pedro Pereira, assim baptizados de acordo com os nomes que constavam dos escritos que os acompanhavam.
Todas estas quatro crianças vieram a falecer. O António e o Joaquim, respectivamente, logo em 4 e em 31 de Agosto seguintes, a Rita em 19 de Abril de 1853 e a Rachel em 30 de Outubro de 1856.
Era esta, também, infelizmente, a crua realidade do acolhimento de crianças abandonadas: uma grande ou a maior parte delas, não sobrevivia.
As outras duas crianças, foram baptizadas com “nome da casa”:
Um Manuel, também não sobreviveu para além do dia 11 de Setembro seguinte.

Ao outro, o único dos seis que sobreviveu, foi dado o nome de Constantino.

Santos e Beatos com o nome de Constantino, contei cinco[viii].
Um São Constantino, viveu no Séc. VI, foi rei da Cornualha e martirizado na Escócia.
Um outro terá sido um nobre georgiano do Séc. IX, mártir do qual se sabe muito pouco.
Os beatos Constantino Carbonell, jesuíta, e Constantino Fernandez Alvarez, dominicano, ambos espanhóis e mortos em 1936 durante a guerra civil não podem, por isso, ter inspirado o baptismo do nosso Constantino.
São Constantino de Gap (França), Bispo que viveu no Séc. V.
O mais célebre dos Constantinos, o Imperador Romano, não chega a ser santo mas foi, no ano de 313, co-autor do Édito de Milão que tornou o Imperio religiosamente neutro com o que, consequentemente, acabaram as perseguições aos cristãos. É controversa a sua religiosidade cristã, pelo que apenas foi reconhecido como santo pela Igreja Ortodoxa.
Transferiu a capital do Império de Roma para Bizâncio que mais tarde foi, em sua honra, designada Constantinopla e é a actual Istambul, durante séculos a maior e mais rica cidade da Europa e que, hoje em dia, continua a ser uma das maiores e mais fascinantes cidades do mundo.

Etimologicamente, Constantino significa constante, firme, perseverante. Tudo qualidades muito úteis a um exposto e, certamente, as tinha o Constantino que aqui nos trouxe e de cuja “história” já falamos em três posts recentes (ver AQUI, AQUI e AQUI).


Os padrões de nomes de expostos que se apreendem numa vista de olhos pelos Livros de Baptismos existentes no Arquivo histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa não são diferentes dos casos que agora vimos.
Assim, os critérios de atribuição de nomes de baptismo às crianças entradas no Hospital dos Expostos, parecem ser os seguintes:
Em primeiro lugar, respeitava-se a vontade do abandonante, presumível progenitor, atribuindo-se à criança o nome proposto em algum escrito que o acompanhasse.
Essa vontade não era respeitada em alguns casos, aparentemente por o nome proposto não ser “suficientemente” cristão.
Nos casos em que a criança não era acompanhada de sugestão de nome, o “nome da casa” preferido era o do “santo do dia”.
Nos casos em que, nesse dia, se comemorava mais de um santo, a tarefa ficava facilitada. Ao invés, em dias de grande afluência de expostos, a útil diversidade de nomes exigia o recurso a outros “nomes cristãos”. Não é possível, no âmbito deste curto texto e relativamente a estes últimos nomes, vislumbrar critérios ou encontrar padrões de escolha, se é que existem.



Sinal de exposto - Os expostos da roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Catálogo da exposição - 503º aniversário da SCML, 2001





[i] Em raríssimos casos, a criança chegava acompanhada de um escrito onde se dizia que já era baptizada, indicando-se o nome e, por vezes o local e, ou, a data do baptismo.
[ii] Muitas crianças eram expostas acompanhadas de “sinais”, escritos e, ou, objectos (fitas ou outras pequenas peças de tecido, medalhas ou estampas de santos etc.) os quais se destinavam a permitir a identificação da criança em caso de os pais se apresentarem a reclamá-la.
[iii] Leónidas foi um rei e herói grego, (espartano) que, acompanhado de 300 homens da sua guarda pessoal, lutou até à morte contra Xerxes o rei persa e o seu exército na batalha de Termópilas.
[iv] São Policarpo, Bispo de Esmirna (actual Izmir, na Turquia) é um dos santos e mártires da Igreja primitiva, tendo sido discípulo do Apóstolo João.
[vii] Viveu 32 anos, entre 356 e 323 A.C. e reinou durante 12 anos.

2 comentários:

  1. Muitas vezes, caso punham nomes de origem religiosa, Caso da Família Espírito Santo ,
    José Maria Espírito
    Santo e Silva
    O fundador do
    grupo nasceu em
    Lisboa a 12 de Maio
    de 1850, filho de
    pais anónimos.
    Dado como autodidacta, lançou
    uma casa de câmbio, com venda
    de lotarias, créditos e operações
    sobre títulos. Foi o início de um
    império que gravitou à volta das
    finanças.
    Outo caso que conheço deram o nme de Ignês da Glória

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  2. Sr. João Barão: obrigado pelo seu comentário. A participação dos leitores
    e um incentivo indispensável. Bem haja.

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