(Ataíja e Atalaia, em
Vestígios da Língua Arábica em Portugal)
Quando andava à procura de coisa absolutamente diferente,
tropecei no 3º volume do curioso livro intitulado TENTATIVA ETYMOLOGICO-TOPONYMICA
ou Investigação da Etymologia ou Proveniencia dos Nomes das Nossas Povoações,
por Pedro Augusto Ferreira, bacharel formado em Teologia, continuador do
Portugal Antigo e Moderno e Abade de Miragaya aposentado, Terceiro Volume,
Porto, Typographia Mendonça (a vapor), Rua da Picaria 30, 1915.
Só o longo título é todo um programa pelo que não resisti a
dar uma vista de olhos e, a páginas 64, deparei com uma, para mim, nova
explicação para a origem do nome Ataíja, a qual não resisto a partilhar com os
leitores do blog.
Atalaia é, diz o nosso abade aposentado, vigia, torres
maiores ou menores que se faziam outrora em sítios altos e algo distantes das
praças de guerra, como vedetas[i],
sentinelas ou guardas avançadas para vigiar o movimento dos invasores e evitar
surpresas. Aproveitavam-se mesmo algumas vezes penhascos nativos, próximos das
praças e com vistas largas, para suprir as atalaias.[ii]
Quanto à origem da palavra, cita Cândido de Figueiredo que ”no
seu Novo Dicionário da Língua Portugueza
diz que atalaia vem do árabe at-talia”
mas, contrapõe, Viterbo diz que dos árabes nos ficou esta palavra que eles
pronunciavam atalaia, vinda do verbo tália
que na oitava conjugação significa vigiar” e, acrescenta o nosso autor em nota
que, nos Vestígios da Língua Arábica em
Portugal[iii] lê-se
Atalaia, Attallaâ. Vila da Província
da Estremadura, Patriarcado de Lisboa. Significa lugar alto. Torre de onde as
vigias descobrem o campo. Lugar eminente. Deriva-se do verbo tálea, subir, e na VIII conjugação é
vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista. Também se chamam atalaias os
homens que vigiam os campos, fortalezas, praças e presídios.
Delas (as atalaias)
tomaram o nome talvez mais de cem povoações nossas, mencionadas na Chorographia Moderna.[iv]
Taes
são: Atalaia, Atalaias, Atalainha, Ataia, por Atalaia, ; Ataija por Ataya, o
mesmo que Ataia ; Taias por Ataias ; Taijas por Ataijas ; Talaeiros por
Atalaeiros ; Talaia por Atalaia ; e Tayão, aferese do Atalaião, augmentativo de
Atalaia.[v]
E, aqui está como o nome Ataíja pode
provir da palavra árabe attllaâ,
atalaia, com o significado de vigiar, olhar ao longe, descobrir com a vista e,
também, os homens que vigiavam os campos, ou os lugares altos donde o faziam.
É com o mesmo significado que a
palavra subsiste, até hoje, na língua portuguesa. Veja-se o Priberam:
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino
a-ta-lai-a (árabe atalai’a, plural de talaaiâ, lugar alto para vigilância, sentinela) substantivo feminino
1. Torre, guarita ou lugar alto donde se vigia.
substantivo de dois géneros 2. Pessoa que está de vigia. = SENTINELA
(Estar de) atalaia • De vigia a ou à espera de algo ou alguém.
Numa posição ou postura que permite estar a espreitar ou alerta para algo.[vi]
Ora, em toda esta região não há melhor atalaia que a
serra dos candeeiros. De facto, dela se alcança o mar e, por muitos quilómetros
em redor, uma vastíssima extensão de território.
É, pois, bem plausível que o nome Ataíja venha daí, como é
igualmente plausível que provenha, como sustentou Frei João de Sousa[vii],[viii], de
uma outra palavra árabe, como já dissemos no post A Origem do Nome Ataíja, aqui publicado em 17de Novembro de 2009.
Em qualquer caso, será à serra que a Ataíja vai buscar o seu nome.
[i] Vedeta,
diz-nos o dicionário online Priberam, é italiano e significa lugar elevado onde
se colocava uma sentinela mas, também, em terminologia militar antiga,
sentinela a cavalo.
[ii] Pág.
61.
[iii] Vestígios da Língua Arábica em Portugal, ou
Lexicon Etymologico das palavras e nomes portuguezes que tem origem arábica,
por Fr. João de Sousa, Lisboa, na oficina da Academia Real das Sciências, anno MDCCLXXXIX.
Edição (fac-smille) de A. Farinha de Carvalho, 1981.
[iv] Chorographia Moderna do Reino de Portugal,
por João Maria Baptista, Coronel de Artilharia Reformado, Coadjuvado por seu
filho João Justino Baptista de Oliveira, Volume I, Lisboa, Typographia da
Academia Real das Sciencias. Obra em vários volumes, o primeiro saído em 1864 e
o quarto, que contém a Província da Estremadura, em 1876.
[v] Pág. 64.
[vi] "atalaia", in
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/atalaia [consultado
em 14-06-2018]
[vii]
Op.Cit. na Nota iii
[viii] Ver (ler) imagem acima.
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