sábado, 10 de janeiro de 2015

Almoço Anual do Salão


16º Almoço Anual

do

Salão Cultural Ataíjense


3º domingo de janeiro

dia

18-01-2015


Ementa:
Almoço 

- Sopa da Pedra e Canja de galinha,
Bacalhau à Salão,
Galo do Campo com massa e legumes salteados.


Jantar
- Grelhados mistos e as sobras do almoço

As bebidas são incluidas, excepto cafés e bebidas espirituosas que são servidos no bar.


Preços: 
Crianças até 6 anos, grátis;
Crianças dos 6 aos 12 anos 6,50€
Adultos 18,00€



INSCREVE-TE JÁ, na sede do salão, ou através de: scataijense@hotmail.com ,ou 918201194



https://www.facebook.com/events/651581178284665/
https://www.facebook.com/SalaoCulturalAtaijense

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Ataíja, terra natal de Teresa Lourenço, a Pinheira, mãe do futuro rei D. João I, o da Boa Memória

“E he asy a maey del Rey Dom Yoam da Boa memoria chamada Tareyja Lourenço a Pinheyra era dahy do pee daquela serra das Ataijaas”


É um curioso documento o trazido, pelo Professor Saul António Gomes, ao fascículo dedicado ao foral de Aljubarrota[i], do projeto “comemorações 500 anos da outorga dos forais do concelho de Alcobaça por D. Manuel I”, com o título “Ataíja, terra natal de Teresa Lourenço, a pinheira, mãe do futuro Rei D. João I, o da Boa Memória”.

O autor, que diz escrever em 1516 e se identifica como João de Arruda, irmão de Vaz de Arruda guarda-roupa do Rei D. Manuel II, diz querer ajudar Garcia de Resende “pondo aquy huns passos que elle (o Rei D. João II) dixe e fez que nom acho escritos na sua (de Garcia de Resende) leytura e coronica”.

Para isso relata o supostamente acontecido de uma vez em que D. João II, indo de Alcobaça para a Batalha foi abordado, além da vila de Aljubarrota, por um grupo de camponeses, que, disse o Rei a João de Aveiro, seu moço de esporas que o acompanhava, alguns deles seriam parentes do próprio Rei.
É que, explica de seguida o dito João de Arruda, “E he asy a maey del Rey Dom Yoam da Boa memoria chamada Tareyja Lourenço a Pinheyra era dahy do pee daquela serra das Ataijaas”.
Por isso, D. João I teria dado àquela gente da Ataíja alguns privilégios (isenção dos impostos de oitava e jugada e do serviço em cargos do concelho), privilégios esses que, com o tempo, “…os almoxarifes[ii] dos duques senhores de Porto de Mós[iii] lhe foram tirando …”
Apresentar queixa ao Rei desses comportamentos dos almoxarifes era o propósito que movia o tal grupo de camponeses.

Quem, efectivamente, seria esta Teresa Lourenço, mãe de D. João I, isso é questão que, de todo, não está esclarecida.
Fernão Lopes autor das mais antigas referências escritas à mãe de D. João I, dá-a como uma dama galega[iv].
Outros, dizem-na filha de “Lourenço Martins, a quem chamaraõ o da Praça, Cidadaõ honrado de Lisboa, filho de Martim Lourenço, que jaz sepultado na Freguesia de S. Mamede, e de sua mulher Sancha Martins, de que se conserva ilustre descendência na Familia dos Almadas”.
Frei Manuel dos Santos, diz que Teresa Lourenço seria filha de Rui Fernandes de Almeida, fidalgo de entre Douro e Minho.
João de Arruda, no documento que motiva este texto, diz, como vimos, que Teresa Lourenço, a Pinheira era do pé da serra das Ataíjas.
António Caetano de Sousa no Tomo II, publicado em 1736, da “História Genealógica da Casa Real Portugueza”, trata a questão em profundidade, passando em revista as várias teses então existentes, refutando-as, uma a uma:
- A hipótese de ser fidalga galega, por não haver documento que o sustente;
- A de ser filha de Lourenço Martins por não haver documento nem, muito menos, “Author vizinho daquele tempo” que a confirme, embora reconheça que “… se alguma das opiniões sem documentos podia ter probabilidade na conjectura, e nas circunstancias era esta…”[v]
A de ser filha de um fidalgo de entre Douro e Minho, ainda menos a aceita porque, diz, não só não se encontram as cartas em que a hipótese se baseia como, porque, entre aquelas onde eram suposto estarem as ditas cartas, “… se vem algumas das que são inverosímeis à Historia daquele tempo…”
Conclue, no entanto, dizendo que “…ninguém duvida da nobreza desta Dama;…” mas, dessa nobreza não faz prova, pelo que, usando os seus próprios argumentos, isso não é de aceitar, sem mais. 
De facto, tal conclusão é meramente ideológica: O autor conclui que a mãe do Rei D. João I seria nobre porque, no sistema de classes vigente à época, inadmissível seria que o Rei de Portugal fosse de origem vilã.

E, chegámos ao Séc. XX, continuando sem novas provas mas, agora, com uma linguagem mais solta, como se vê, por exemplo, nas “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança”, onde o Abade do Baçal diz que:
“El-rei D. Pedro, consolado da perda de D. Inês de Castro, tomou-se de amores com a formosa Teresa Lourenço, que, em paga, lhe deu … D. João, Mestre de Avis, depois primeiro deste nome rei de Portugal.
Alguns dizem que esta régia barregã era simples tendeira ou regateira da Ribeira Velha, em Lisboa, facto que não destoa do carácter plebeu do real amante.”

Neste início do Século XXI, surge esta nova hipótese, afirmada por João de Arruda, da naturalidade ataijense da mãe do D. João I.
Esta é, no entanto, hipótese tão incerta como as demais mas, tendo sido escrita 159 anos depois do nascimento de D. João I, tem as vantagens da razoável proximidade aos factos (três ou quatro gerações teriam sido suficientes para a transmissão oral da “verdade”) e, ao mesmo tempo, um igualmente razoável afastamento dos mesmos factos que dispensaria, agora, os cuidados com que a questão da ascendência materna do Rei teve, naturalmente, de ser tratada na época do nascimento da dinastia.
Acresce que, o ter nascido aqui ao “pee daquela serra das Ataijaas” não seria, por si, absolutamente incompatível com a hipótese de ser filha de Lourenço Martins e de sua mulher Sancha Martins.

Certo é que D. João I “Era filho del Rey D. Pedro, e de Thereza Lourenço, com quem depois da morte da Rainha D. Ignez teve El Rey trato” e, também é certo que esse trato, essa relação, não foi coisa acidental, antes assumida, estável e durável, como se deve concluir do facto de o Rei ter assumido logo a paternidade e ter-se interessado pela educação do filho[vi] e segurança da mãe a quem, em 1366, fez doação de umas casas e outros bens em Aviz, o que parece justificar-se com o facto de, dois anos antes, em 1364, o jovem João, então com sete anos de idade, ter sido feito cavaleiro e Mestre da Ordem de Aviz, onde passou a viver “e nesta Villa se creou”. Ou seja, bem parece que a doação teve o fito de levar a mãe para perto do filho.

Era a mãe de D. João I ataíjense?

Não o creio e, menos creio que tal se possa vir a provar. Mas, o texto de João de Arruda e a escrita deste já me levaram a ler, de um fôlego, a Crónica de D. Pedro I (disponível online em purl.pt/422) que recomendo vivamente porque, está lá tudo: Guerras várias, terror e justiça, crueldade, amor e ódio, sexo, fidelidade e traição, ganância e crime, perseguições e fugas etc., etc. Como num romance dos bons.




Loudel de D. João I
O Loudel, ou laudel, era uma veste destinada a proteger o corpo dos golpes de espada. O loudel de D. João I (actualmente exposto no Museu de Alberto Sampaio, em Guimarães) tem forma de colete cintado que se estende até aos joelhos. É composto por várias camadas de linho e enchimento de lã, acolchoadas. Aperta-se na parte frontal através de vários botões pouco intervalados (adaptado do site do Museu Alberto Sampaio, em http://masampaio.culturanorte.pt/pt-PT/colec/textil/ContentDetail.aspx?id=330)


[i] Distribuído com a edição 1104 do semanário Região de Cister, de 16 de Outubro de 2014.
[ii] Funcionário responsável pela cobrança e arrecadação de impostos.
[iii] Mais uma vez se confirma o que, aliás, há muito é sabido: historicamente, sempre a Ataíja pertenceu a Porto de Mós que, por sua vez pertencia a Ourém. Os “duques senhores de Porto de Mós” são os duques de Bragança, também, condes de Ourém.
[iv] “Uma dona natural da Galiza que chamavam Dona Tareija Lourenço, que pariu dele um filho, que houve nome D. João, que foi Mestre de Aviz e depois Rey” –in, Crónica de D. Pedro I, de Fernão Lopes, copiada do original e acrescentada pelo Padre José Pereira Baião, Lisboa, 1735, pág. 53.

[v] Faria sentido entregar a criança nos seus primeiros tempos (com a mãe, é óbvio) aos cuidados dos avós maternos.  
[vi] Segundo Fernão Lopes (op.cit., pág. 54) , a criança foi entregue pelo pai, primeiro, a Lourenço Martins da Praça, um dos honrados Cidadãos da cidade de Lisboa e, depois, a Dom Nuno Freire de Andrade, Mestre da Cavalaria da Ordem de Cristo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

de Trás-da-Serra


Vista do outro lado, de “trás-da-serra”, era assim a Serra dos Candeeiros, em 6 de Abril de 1758, segundo o relatório do Pároco da freguesia de Serro Ventosos, o Cura Manoel Martins Vasconcelos, incluído nas chamadas Memórias Paroquiais (transcrevemos, com a devida vénia, do livro “Porto de Mós – Colectânea Histórica e Documental, Séculos XII a XIX”, do professor Saul António Gomes, editado em 2005 pelo Município de Porto de Mós, no âmbito das comemorações dos 700 anos de foral da Vila dado em 1305- pág. 908, Doc. 481):

(Optámos por manter a grafia original, tal como consta do livro de que a transcrevemos, certos de que a generalidade dos leitores não terá qualquer dificuldade em compreender a totalidade do texto.)

“Quanto a Serra que fica pera a parte do poente.
He um braço de serra que principia junto da villa de Porto de Mos a acaba junto a Rio Mayor. Tem quatro pera cinco legoas de comprido e quazi huma legoa de largura na distancia de duas legoas. Nam asiste[i] pessoa alguma em sima na Serra. Algumas terras tem que se coltivam. Os frutos que dam sam semente, milho e feygois, algum linho e tem por nome a Serra da Figueyra[ii], no destrito de tres legoas. Nam sey que nasça rio della, nem tem fonte ou lagoa, antes hé muito falta de agoa. Nesta vam pastar muntos gados de varias freguezias e algumas egoas de codelaria. Há nella muntas canteyras[iii] de pedra branca. Há também muitos fojos[iv] com grandes bocas alguns e muito fundos. Hé do mesmo temperamento que a outra Serra[v]. Há nella alguns lobos, muitas rapozas e senam foram as montarias que nella se fazem cada anno, ninguém poderia habitar nestas Serras. E huma que se fez o primeyro deste mês de Abril em que se mataram dous lobos e huma loba que tinha sette na barriga e quatro rapozas. Há também nesta Serra bastante alecrim, lingoa servina, munta arrodinha, munta erva alcar e alguma abertonica, algumas perdizes, poucas porquanto sam muntas as áves de rapina que as apanham que se criam nos pinhascos destas Serras, o que eu tenho visto muntas vezes.”

Para além dos mais aspectos curiosos do texto, designadamente as circunstanciadas referências à fauna selvagem, interessa-nos, agora, uma especial atenção às plantas medicinais existentes. Tenha-se presente que, em meados do Séc. XVIII, a medicina era muito insipiente e a maioria dos remédios eram bebidas, unguentos ou emplastros, obtidos por processos simples, a partir de plantas da flora local.
Daí, também, a importância que no texto adquire a descrição das, aos olhos do padre, mais importantes plantas medicinais existentes.

Vejamos, então, que plantas eram essas e quais as suas utilizações:

Alecrim - Alecrim - Planta de usos culinário, medicinal e religioso. Muito abundante na encosta ocidental da serra, tem vindo a regredir por força dos sucessivos incêndios e a ceder espaço ao carrasco.
O seu néctar dá ao mel um sabor característico e muito apreciado, pelo que é costume cultivá-lo perto das colmeias. Na Ataíja da minha infância não lhe conheci usos culinários nem medicinais. Apenas, se usava em defumadoiros e para queimar nas fogueiras dos santos populares.

Lingua servina - Língua-cervina, ou escolopendra. Trata-se de uma espécie de feto que era utilizada em infusões, como remédio para a diarreia e infecções intestinais.

Arrudinha – Arruda - Julgo que se trata da arruda (Ruta graveolens), cujas folhas eram usadas para fazer um chá calmante. Parece que também servia para combater os piolhos e tinha efeitos fortemente emenagogos quer dizer, capazes de restabelecer ou provocar a menstruação, podendo ser altamente perigosa quando usada com intenções abortivas. São-lhe, ainda, atribuídas uma série de qualidade mágicas sendo, designadamente, famosa pelos seus “poderes” contra o mau-olhado.
Um texto fácil e interessante sobre as “qualidades” da arruda pode ser lido em:

Erva alcar - Erva-alcar – Também chamada, apenas, alcar, ou alcária, é uma planta nativa do mediterrâneo, também chamada erva-das-sete-sangrias ou sargaço-híspido, erva-das-túberas e sargacinha. Tradicionalmente usada no tratamento de inflamações e úlceras.

Abertonica - Também chamada betónia-bastarda, cidreira-bastarda, etc., é uma planta que se encontra um pouco por toda a Europa, da Inglaterra à Turquia e é tradicionalmente usada para as dores de barriga, facilita a menstruação e alivia as dores menstruais e é indicada na cicatrização de feridas e no alívio da dor de contusões e inflamações


De facto, as aplicações medicinais tradicionais destas plantas são bem mais vastas do que as aqui referidas. Quem tiver muita curiosidade sobre o assunto pode procurar na internet onde existe muita informação (nem sempre de boa qualidade) designadamente, sobre plantas medicinais das serras de Aire e Candeeiros.






[i] Vive.
[ii] Como já referimos em outro post, a serra era conhecida por uma grande diversidade de nomes, sendo que o nome de serra dos Candeeiros não se encontra antes do Séc. XIX.
[iii] Pedreiras.
[iv] Covas, cavernas, algares.
[v] A outra serra a que o padre se refere e a que chamou Serra do Patelo e, actualmente, chamamos de Serra de Santo António é, diz ele, de temperamento demasiado frio, de tal sorte que no tempo frio congela a água.

sábado, 4 de outubro de 2014

Morcelas de Arroz



A morcela de arroz traz-me à memória os tempos da matança que, tal como eu me lembro dela em casa dos meus pais e nas de outros familiares e já referi em “A matança do porco”, era a grande festa familiar.

A matança do porco praticamente desapareceu e, nos casos em que ainda subsiste na nossa região é, hoje em dia, mero divertimento. Quero dizer, hoje já não se mata o porco com o fito de obter alimento para durar um ano, nem se faz a festa da matança como modo de consumir todas as partes do animal que se não conseguia conservar e paga aos familiares colaboradores da função que era muito exigente de trabalho. Hoje, quando há matança, o divertimento é o mote e, precisamente ao contrário de outros tempos, as únicas partes que se guardam são as que se não conseguem comer.

Em aparente paradoxo, nunca foi tão fácil comer morcela de arroz como hoje; Há-as todo o ano em abundância, fabricadas em salsicharias mais ou menos artesanais ou, mesmo, industriais, com qualidade bem apreciável e origens várias.

Normalmente, as morcelas de arroz são referidas como um produto típico da alta estremadura ou da região de Leiria e, em defesa dessa origem e da qualidade do produto, foram criadas a Confraria da Morcela de Arroz da Alta Estremadura, a Associação de Produtores da Morcela de Arroz de Leiria e, os problemas associados à sua conservação[i] são, agora, objecto de teses de mestrado.
A verdade, no entanto é que há (ou havia) produção caseira de morcelas de arroz em toda a faixa que vai desde o Valado dos Frades e Alcobaça, até à Batalha, a Ourém, Tomar, Ferreira do Zêzere, Oleiros e Fundão.
As da Batalha e as do Fundão tornaram-se já produtos de salsicharia industrial e são vulgares nos principais supermercados, onde também já vi morcela de arroz de Lamego que, aliás, nunca provei.


Também em Espanha se fabricam morcelas de arroz e são famosas as de Burgos[ii] que se fazem com sangue e banha de porco, cebola, arroz, pimentão e sal. E, ali ao lado, por todo o Aragão, faz-se uma morcela parecida que também leva arroz e variados ingredientes como anis, avelãs e pinhões. [iii]
Até ao Séc. XVIII, quando passou a incorporar-se o arroz na morcela de Burgos o recheio original era de miolo de pão.


No que à nossa região (para este efeito, a Alta Estremadura) diz respeito, a morcela de arroz é confeccionada, com ligeiras variações locais, conforme a receita registada por MAPONE (Manuel Poças Neves) e que é a apresentada nos sites da Região de Turismo de Leiria-Fátima e da Câmara Municipal da Batalha,[iv] como segue:

Morcela de Arroz da Batalha
Ingredientes:
2 kgs de carne magra de porco (convém carne entremeada da ponta da costela); 1 pedaço do lenço ou do riçol[v]; 3 cebolas grandes; 1 ramo grande de salsa; 1 litro +/- de sangue; sal, 50g de cominhos, 25g de cravo, colorau q.b.; pimenta ou piripiri em pó a gosto; 1kg de arroz de boa qualidade.
Preparação:
Miga-se a carne miúda para dentro de um alguidar, um bocado de lenço de preferência ou do riçol.
Junta-se o sangue, o sal e os temperos.
Com pouca água põe-se ao lume num tacho e quando levantar fervura põe-se o arroz, a salsa e as cebolas picadas o mais fino possível. Quando o arroz estiver meio cozido tira-se do lume e deita-se no alguidar. Junta-se também um pouco de água. Mistura-se tudo muito bem, com a mão mexendo sempre e prova-se. Se necessário rectificam-se os temperos. Enchem-se as tripas, atam-se com uma guita e vão a cozer numa panela com bastante água.
Quando estiverem meias cozidas tiram-se e picam-se com uma agulha ou alfinete. Voltam a acabar de cozer.
Nota: as tripas de porco foram previamente lavadas, areadas com sal, laranjas e cebolas cortadas aos bocados

Na verdade, a confecção das morcelas de arroz tem alguns pontos críticos que importa realçar:
O sangue: A matança começa com a morte do animal e, aí, é o momento de recolher o sangue com que hão-de ser feitas as morcelas. Quando o sangue começa a correr, já no fundo do vaso onde se recolhe há-de haver vinho tinto para o diluir e evitar que oxide e coalhe.
As tripas: Morto e lavado o porco,[vi] retiram-se as tripas que, imediatamente, vão a lavar. Esta é uma operação morosa e meticulosa que exige água corrente[vii] para a retirada de todas as fezes e depois, a raspagem, viragem e intensa lavagem com laranja, limão, pedaços de cebola e sal[viii].
A cozedura: A cozedura das morcelas que deve ser feita em água abundante, temperada com sal, louro e cebola[ix], é um problema delicado; uma vez que o arroz aumenta muito de volume com a cozedura, é necessário prevenir esse facto e, há que não encher totalmente as tripas, deixando espaço suficiente para acomodar aquela dilatação[x].
Quanto ao modo como se deve preparar o arroz, há grandes divergências entre os anotadores: O arroz deve ser previamente meio-cozido, dizem uns. O arroz deve ser cozido à parte, escorrido e só depois adicionado ao preparado do sangue, dizem outros. O que eu vi fazer, com bons resultados em matéria de rebentamento dos enchidos, foi o prévio demolhar do arroz em água a escaldar, onde ficou algumas horas, até ao enchimento das tripas. Mas, também já vi escrito que três quartos de hora de demolha são suficientes.
Consensual é a indicação de que, a meio da cozedura, é necessário picar as morcelas, com o que se evita que rebentem e, por outro lado, sabe-se que estão cozidas quando já não sai sangue.


O texto já vai longo pelo que é altura de terminar, não sem, antes, deixar os leitores com mais duas receitas de morcelas de arroz:

(Uma Receita da Morcela de Arroz de Leiria por Laura Esperança, presidente da Junta de Freguesia de Leiria):[xi]

“Quando de manhã bem cedo se matava o porco, entre o Natal e o Carnaval, aproveitava-se o sangue 
da matança do porco, proveniente do coração, recolhia-se o sangue num alguidar contendo sal, mexendo sempre, com uma colher de pau, para não “coalhar”, isto é, coagular.
Na altura de se retirarem as “tripas” (intestinos), e às vezes o bucho, para um alguidar, retirava-se também o véu que envolve e une as tripas, e o rissol, e cortavam-se estas gorduras muito miudinhas. As tripas eram lavadas, de preferência em água corrente, e esfregadas em sal grosso, limão e laranja com casca, que nesta altura eram bastante azedas.
Nesse mesmo dia, ao final da tarde, faziam-se as morcelas de arroz que se confeccionavam da seguinte maneira; num alguidar, colocavam-se então a gordura, muita cebola e a salsa picada, mexia-se e temperava-se com cravinho, cominhos moídos e sal.
Deitava-se, de seguida, o sangue sobre o preparado anterior e dava-se mais uma mexidela.
Nesta altura já fervia, numa panela de ferro grande ou de cobre, parte das “arreigadas”, ou “bofes” (pulmões, traqueia e outras vísceras), cebola e sal, que temperavam a água que escaldava o arroz e onde se iam cozer as morcelas.
Adicionava-se por último o arroz carolino, semi-cozido (escaldado), pouco a pouco, mexendo sempre.
Na altura as mulheres presentes e com experiência, com a ajuda de um funil, ou somente com a mão em concha, enchiam as tripas. O meu cargo era quase sempre cortar a guita, o “Fio de Norte”, e ajudar a atar as tripas. As tripas não podiam ficar muito cheias para não rebentarem ao cozer, dado que o arroz com a cozedura aumenta de volume.
Por último, coziam-se então em lume brando, iam-se mexendo e picando com um alfinete de dama, com muito cuidado. As morcelas estavam cozidas, se ao serem picadas, a água da cozedura ficasse clara e não ensanguentadas.
Comiam-se quentes, depois de saírem da panela, ou frias, conforme o gosto.
O caldo da morcela também se comia como sopa, onde depois de se retirarem todas as morcelas, se coziam os nabos (cabeças) cortados aos bocadinhos e às vezes couve branca, onde se colocavam também umas rodelas grossas de morcela ou apareciam alguns bocados de alguma morcela que se tivesse rebentado, os bocadinhos de “bofes” e um pouco de pão e umas folhinhas de hortelã.”


(Morcela de arroz do Fundão ou, morcela de arroz da Beira Baixa):[xii]
As tripas:
Cruas, lavadas e esfregadas com sal grosso, limão, laranja e cebola.
O arroz:
Tem que ser Carolino e demolhado durante ¾ hora.
A sanguínea:
Sal
PimentaColorauPiri-piriCominhosCebola, alho e salsa picados
Mistura-se a sanguínea num alguidar, acrescenta-se o arroz e enchem-se as tripas com a molhanga, coando com os dedos.

Vinho tinto (do BOM)
Sangue do porco
Modo:
Atam-se as pontas e pronto.
Cozem-se as morcelas com uma cebola e um ramo de salsa.


Bom Apetite!







[i] Lembremo-nos que a morcela de arroz é um produto perecível por excelência e, por isso mesmo, era tradicionalmente comida apenas no dia da matança ou, caso sobrasse, logo nos dias seguintes.
[ii] En el año 2.000 se calculaba que en la provincia de Burgos existían más de 50 fabricantes de morcillas que, de forma artesanal, pero con toda las garantías sanitarias lanzan al mercado algo más de tres millones de kilos. De ellos, muchos son los que se consumen en la ciudad y provincia, pero también se envían grandes cantidades a los más extraños puntos de destino.
[iii] Embora mais conhecida como morcela de Burgos, a morcela de arroz é, também, típica da região de Valladolid e, os de Teruel afirmam que “as morcelas de arroz são um clássico da gastronomia tradicional de Teruel” e, pelos vistos, o mesmo podem afirmar os de Cáceres, os de Alcântara e os de Palência.
[v] Riçol é o mesmo que redanho, gordura pegada aos intestinos do porco e de outros animais.
[vi] Chamuscado, barbeado e bem lavado, dependurado na escápula, aberto e sangrado
[vii] Por isso, antigamente, se fazia em Chequeda, no rio.
[viii] “… bem lavadas com água e limão e viradas de fora para dentro e bem raspadas, na época das minhas avós eram raspadas com um ramo fino de verga verde…” (in http://zelinha-july.blogspot.pt/2011/08/morcela-de-arroz.html, consultado em 17-8-2014). A raspagem via-a eu fazer com ganchos de cabelo.
[x] Há pouco tempo ouvi eu, numa aldeia do concelho de Ourém que a salsicharia local deixou de fazer morcelas de arroz porque “rebentavam”.

domingo, 14 de setembro de 2014

FESTIVAL DAS SOPAS 2014

Há menos de hora e meia, cerca das 20H30, quando de lá saí, ainda havia muitas dezenas de pessoas, das cerca de seis centenas que estiveram presentes ao almoço, a comer sopas que, entretanto, regressaram quentinhas, carnes acabadas de grelhar e, sobretudo, a desfrutar do convívio de amigos, de familiares e de conterrâneos e, a esta hora, ainda estão no recinto e no Salão Cultural Ataijense, algumas dezenas a trabalhar, lavar, limpar, transportar e arrumar todo o imenso mobiliário e demais utensílios e materiais sem os quais não teria sido possível realizar o Festival das Sopas.

A direcção do Salão Cultural Ataíjense arriscou, apesar das previsões meteorológicas, a realização do Festival no Largo do Cabouqueiro.
É certo que, durante a manhã, muitas nuvens negras ameaçaram desfazer-se em água e, cerca do meio-dia, houve uma chuva fraca que terá sido suficiente para afastar alguns inscritos mais timoratos que acabaram por não aparecer.
Como é certo que, durante o almoço, pelo menos duas vezes e por breves momentos, vários chapéus de chuva se abriram sobre as mesas. Mas foram raros pingos, não mais de dois ou três por pessoa.
Pode, mesmo, dizer-se que o São Pedro não nos pregou uma grande molha porque não quis, preferindo, ao invés, encharcar algumas vizinhanças. Só podemos estar gratos.

O risco assumido da realização da festa ao ar livre foi, assim, prodigamente premiado e o dia passou-se sem chuva e sem vento e com temperatura muito agradável, do que resultou uma grande tarde de convívio.

O êxito da função deve-se a muita gente. Na impossibilidade de aqui mencionar todos, deixamos as fotografias das cozinheiras:
 
 
 
 
 
 
 

 E, uma vista do recinto, às 14H06:

E, às 19H19:


Obrigado a todos os que contribuíram para este dia tão agradável.

domingo, 7 de setembro de 2014

Escravos em Aljubarrota


Sabemos que a escravatura foi uma instituição que durou milénios, que existiu na Grécia e em Roma, e que foram escravos os construtores das pirâmides egípcias.
Que a redução à escravatura dos inimigos vencidos foi prática comum, um pouco por todo o mundo.
Que portugueses escravizaram mouros e que mouros escravizaram portugueses.
Que na sequência da expansão marítima dos Séc. XV e XVI, se criaram novos e largos mercados de escravos, tendo por origem a África e como destino principal as Américas (para trabalhar nas monoculturas de café, cana-de-açúcar, algodão e outras).
Sabemos tudo isso e vimos na televisão a série Raízes, a saga de uma família americana descendente de um escravo e, alguns, até leram o livro em que se baseia, da autoria de Alex Haley.
Alguns lemos a História Social dos Escravos e Libertos Negros em Portugal,[i] e, por isso, sabemos que em Évora, no início do Séc. XVI, uma em cada sete pessoas era de raça negra, entre outras razões porque qualquer pedreiro ou outro oficial de ofício tinha, em vez de ajudante, o seu escravo.
E sabemos que o poeta Luís Vaz de Camões, no final da vida, pobre e doente, vivendo de esmolas, não precisava de pedir porque tinha Jau, um escravo, para pedir por ele.
E sabemos que, nos países ocidentais ditos civilizados, a escravatura só acabou ia o Séc. XIX bem andado.
E sabemos que, ainda no início do Séc. XX, J. Leite de Vasconcelos[ii] fotografou naturais, em Alcácer do Sal e em Coruche, com evidentes traços negroides, herdados dos seus antepassados escravos.
E sabemos que as marcas da escravização estão ainda muito presentes em muitos lugares e em muitas comunidades, como o demonstra o facto de, recentemente, termos sido confrontados com o rapto de centenas de jovens raparigas cristãs na Nigéria e a ameaça do chefe dos raptores de as vender como escravas.[iii]
e que os 15 países da Comunidade do Caribe, de que um dos líderes mais activos é o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas, o luso-descendente Ralph Gonsalves, se preparam para pedir a países europeus, Portugal incluído, indemnizações pelos prejuízos resultantes da escravatura no tempo colonial.


Embora sabendo tudo isso, foi para mim um choque descobrir que, em Aljubarrota, ainda no ano de 1801 havia, pelo menos, dois escravos:[iv]





[i] A. C. Saunders, História Social dos Escravos e Libertos Negros em Portugal, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1994.
[ii] J. Leite de Vasconcelos (1858-1941) foi uma figura maior da cultura portuguesa, destacando-se como linguísta, filólogo, etnógrafo e arqueólogo.
[iii] É ainda hoje, aliás, desconhecido o destino da maioria delas.
[iv] A excelente caligrafia do Cura Tomás de Aquino da Costa, dispensa a transcrição do assento de óbito do escravo Sebastião de Oliveira Baena. Leia-se com atenção e veja-se a menção na margem esquerda: Preto.
O falecido era casado com Laureana Maria, escrava como ele.
O proprietário de ambos era um tal Francisco Viegas Machado.
O apelido do escravo falecido é prova da sua ligação ao Dr. Oliveira Baena que foi figura importante em Aljubarrota na segunda metade do Séc. XVIII.