sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Festival das Sopas da Ataíja de Cima – 2015



Decorreu no passado domingo, dia 6 de Setembro, o Festival das sopas da Ataíja de Cima – 2015.
Resultado exclusivo do trabalho de cerca de cem voluntários, reunidos em torno do Salão Cultural Ataijense, o festival contou, este ano, com uma participação record de mais de setecentas pessoas e afirmou-se, mais uma vez, como o maior evento gastronómico da região.

Foi bom participar, provar algumas deliciosas sopas de entre a dúzia e meia que existia à disposição dos participantes, conviver com amigos e conterrâneos, ver alegria e satisfação em todos os rostos e muita gente vinda de diversos lugares, de Lisboa à Marinha Grande, um animado grupo de ingleses, e franceses como a minha amiga Annick que, para o final, só me perguntava quantos habitantes tinha a aldeia e como é que nós tínhamos conseguido fazer tudo e, claramente contente com as sopas e o ambiente, dizia que era bom ver uma aldeia assim, capaz de se unir e criar um convívio tão agradável.


Às 12H20 tudo estava preparado para receber os convivas:

Que eram muitos, como se vê:

E se atiraram, com gosto e vontade, a estas sopas e a mais uma dúzia delas:

e às carnes grelhadas

E aos doces:


Com a mesma vontade com que se fez o necessário para a realização do evento, acabado este, foi tempo de arrumar tudo.
Este, era o aspecto do recinto no dia 7, às 11h30.
Foi aqui que teve lugar o festival das sopas?:



Obrigado às cozinheiras e a todos os que colaboraram e tornaram possível este dia. 




segunda-feira, 24 de agosto de 2015

FESTIVAL das SOPAS 2015


É já no próximo dia 6 de Setembro, Domingo, que terá lugar o FESTIVAL das SOPAS da ATAÍJA DE CIMA.

As inscrições estão abertas e podem ser feitas no Salão Cultural Ataíjense até ao dia 30 de Agosto.

Instruções completas podem ser consultadas no Facebook, na página do evento: 
https://www.facebook.com/events/507669276064432/

Haverá, claro, sopa de chícharos

 e, pelo menos, mais 17 sopas diferentes. Cozinhadas por outras tantas voluntárias

Se você for daquelas pessoas a quem uma sopinha, ou dezoito que sejam, não chegam para a saciar, então, haverá muitas febras e entremeadas grelhadas. 
Temos um grupo largo e experiente de assadores que hão-de tratar com esmero desta questão dos grelhados.
 Eis aqui alguns deles, em plena função, durante o FESTIVAL das SOPAS 2013


E, porque muita gente come muito pão, já estão mobilizados treze fornos e outras tantas ataijenses que, generosamente, se voluntariaram para cozer as dezenas de quilos de pão caseiro com que havemos de acompanhar as sopas e os grelhados. 


No próximo dia 6 de Setembro, à vista da serra dos Candeeiros e em redor da imponente estátua de homenagem aos homens que extraem a pedra, muitas centenas de pessoas, ataijenses e amigos, vão, mais uma vez, encher o Largo do Cabouqueiro, para uma grande jornada de convívio, só possível com o trabalho voluntário de muitas dezenas.




Até lá!

https://www.facebook.com/events/507669276064432/

https://www.facebook.com/SalaoCulturalAtaijense?fref=ts


terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Chafariz de Cacilhas


Cacilhas sempre foi pouco mais do que um cais onde acostam os barcos que transportam os passageiros (e, antes da ponte, também transportavam as mercadorias) que circulam entre Lisboa e a margem sul na parte mais estreita do estuário do Tejo.
Almada, lá no alto, é terra antiga que teve foral de D. Sancho I mas, a sua história tem tanto de longa quanto de discreta.
É, assim com todas as povoações das margens sul. De costas para o sol, estão lá apenas como ponto de apoio às cidades grandes que na sua frente de desenvolvem do outro lado do rio.
E, nem a inauguração, em 17 de Maio de 1959, da gigantesca estátua do Cristo-Rei[i], mudou grandemente as coisas.

Embora desde meados do Séc. XIX se verifique no concelho de Almada um crescimento populacional constante, o grande salto, económico e demográfico[ii], só é dado a partir de 1966 quando, no dia 6 de Agosto, foi inaugurada a ponte sobre o Tejo, logo seguida da inauguração do estaleiro da Margueira[iii] em 1967[iv].

Cacilhas era (é) uma pequena faixa, uma praia, encaixada entre o rio e a colina onde se ergue Almada. Pequena povoação justificada pela existência do cais, de que há memória desde os Fenícios e os Romanos, foi, sempre, terra de pescadores, marítimos, carregadores e almocreves que, em meados do Séc. XVIII, já eram em número suficiente para justificar a construção da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Bom Sucesso.

Ali, na estreita praia, tudo se concentra: o cais dos “cacilheiros” e a correspondente estação de autocarros, a Igreja a alguns metros, as docas do desactivado estaleiro da H. Parry & Son, Lda e, um niquinho mais para sul, as gigantescas e também desactivadas docas do estaleiro da Margueira da Lisnave. Para o lado direito de quem chega de barco há becos e está o Ginjal onde pontificam restaurantes, antigas tascas e magníficas vistas para o rio e Lisboa.

Tudo chega e tudo parte do Largo de Cacilhas onde, em 1874, a Câmara Municipal de Almada mandou erguer um chafariz que ficou colocado à entrada da Rua Direita[v], por onde se chegava à sede do concelho.
Pode ter-se uma noção da importância e notoriedade pública do acontecimento vendo o destaque que lhe foi dado na primeira página do “Diário Ilustrado” de 1 de Novembro de 1874:



Depois de ter servido a população durante mais de setenta anos, por razões aparentemente desconhecidas e em data incerta, algures pelos anos de 1940 ou princípios de 1950, o chafariz desapareceu, quando a má qualidade da água já não permitia o uso humano[vi].

Aguadeiros, Cacilhas, [s.d.].
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.

De então para cá, o Largo de Cacilhas mudou de nome e, várias vezes, de configuração, esta, tentando a cada vez uma melhor adaptação às necessidades decorrentes do serviço do cais e da articulação entre “cacilheiros” e transportes rodoviários e, essa terá sido a razão próxima para a o desaparecimento do chafariz.

Mas, se desapareceu o chafariz não desapareceu a memória da sua importância, o que levou a Câmara Municipal de Almada a decidir, no âmbito de obras para revitalização do centro histórico de Cacilhas, levantar no mesmo local do primitivo chafariz uma réplica, cuja inauguração teve lugar, no meio de grande festa, em 13 de Julho de 2012.


E, o que é que a Ataíja de Cima tem a ver com tudo isto?

O caso é que a dita réplica, uma cópia perfeita, colocada no local onde existiu o chafariz original, local esse que hoje como então é o coração da vida de Cacilhas, o que faz com que o chafariz seja visto, diariamente, por milhares de pessoas, essa réplica, é obra da empresa ataíjense Vigário & Machado. Lda[vii]

 Foto de Marco Balsinha, in http://www.panoramio.com/photo/76206415



[i] O Cristo-Rei não foi concebido em atenção a Almada, foi concebido para ser visto a partir de Lisboa.
Nesse tempo não existia a Diocese de Setúbal, criada em 1975. A área pertencia ao Patriarcado de Lisboa onde, aliás, o Cristo-Rei se manteve, apenas transitando para a Diocese de Setúbal em 1999.
[ii] O concelho de Almada que em 1960 tinha pouco mais de 70.000 habitantes, passou em 1980 para cerca do dobro e, actualmente, terá cerca de 174.000 residentes.
[iii] Com capacidade para receber os maiores navios então existentes, o estaleiro beneficiou largamente do encerramento do Canal do Suez, ocorrido no ano da sua inauguração, em 1967 e que se manteve até 1975.
[iv] Ainda não tinha passado um ano sobre a data de 5 de Maio de 1966 quando, primeira vez, um navio transportando contentores descarregou num porto europeu (Roterdão, na Holanda). A contentorização das cargas havia de, nos anos seguintes, revolucionar completamente os transportes em geral e o transporte marítimo em particular.
[v] Actual Rua Cândido dos Reis a qual foi, até à década de 1960, o principal acesso de Cacilhas a Almada.
[vi] Em meados dos anos de 1940, quando começava a verificar-se crescimento urbano de Almada, foi resolvido o problema crónico do abastecimento de água a Cacilhas, com a entrada em serviço da rede de abastecimento domiciliário e, daí, a desnecessidade e o consequente desaparecimento do chafariz.
[vii] Vigário & Machado, Lda, Rua dos Arneiros, 5, 2460-713 Ataíja de Cima. Tel. 262508146, https://www.facebook.com/vigariomachado.lda/

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sobre a corrupção



É com enorme facilidade que, hoje em dia, se atiram acusações de corrupção[i] sobre tudo e todos e, vem crescendo a idéia de que todos os políticos são corruptos e, pior do que isso, ganham espaço as alegações de que tal é fruto da democracia.
Ora isso, simplesmente, não é verdade.

A corrupção existe em toda a parte e, tudo o indica, é especialmente presente e perniciosa nos países menos desenvolvidos, aqueles onde é maior a desigualdade entre as classes sociais. Tende também a prosperar, não nas democracias como alguns nos querem convencer mas, antes, nos regimes autoritários onde cada funcionário é um pequeno rei e onde as queixas e as críticas têm de ser bem ponderadas, sob pena de poderem acarretar grandes aborrecimentos e prejuízos para o queixoso.

Quem, como eu, tem mais de sessenta anos há-de lembrar-se do tempo em que um pobre não ía ao médico, a uma repartição pública ou a casa de alguém “importante”, fosse pedir que favor ou direito fosse, que não levasse algo para ofertar ao interlocutor. Ele era uma galinha ou uma dúzia de ovos, uma saquinha de nozes, um garrafão de azeite. Na época própria, um cestinho de figos ou de pêssegos, frutas muito apreciadas pelas pessoas de bem.

Ilustrativo do que digo, é a correspondência trocada entre os nossos conterrâneos, Joaquina Rosalia e o  seu marido José Coelho que estava a trabalhar na zona do Areeiro, em Lisboa, enquanto ela ficara na aldeia, cuidando dos filhos, dos pais que já não eram novos e das magras terras familiares.

As cartas, que se transcrevem na íntegra (o / indica a mudança de linha no original), incluindo os erros ortográficos que denunciam uma fraca escolarização, dão conta das dificuladades da vida, do amor familiar e da cumplicidade entre os cônjuges que tratam quase em código os assuntos que querem que fique entre eles, mostram como se pagam algumas dívidas e se foge de despesas (o assunto de que o António da Silvina quer novas é o do convite para o seu casamento).
No que à corrupção diz respeito, as cartas evidenciam o modo como os camponeses pagam os favores e os capitães aproveitam. Mas, só dentro de certos limites. Pobre e submetido, às vezes submisso, sim. Parvo, não!
A recusa do José Coelho de pagar pelos “favores” mais do que eles valem, é um grito de revolta contra a exploração e a corrupção.



(Se os eventuais leitores me o permitem, um conselho: Leiam as cartas com calma e cuidado, procurando a pontuação correcta de cada frase e o significado de uma ou outra palavra que não compreendam à primeira leitura. Se o fizerem, entrarão numa viagem no tempo ao Portugal profundo de meados do séc. XX).



Ataija de Cima 21 – 4 – 1949
Meu querido e saudoso marido / muito estimo que esta minha carta  /  te vá encuntrar de saude que / eu e os nossos meninos / ficamos bem graças a Deus. / assim como touda a nossa familia / José cá ressebi a tua carta no dia 19 a cual te agradeço muito / já estava anciosa para saber nu- / ticias tuas vi que estavas de / saude foi o que mais dezijei / saber ficaste então no arieiro / não encontrates coiza mais a teu / geito mas vê sempre se encontras / porque eu gostava mais que teves- / ses outro emprêgo que estares nesse / trabalho. /
José eu já falei com o Joaquim do Álvaro[ii] por causa da revista[iii] mas / el não me deu muito boas aguas / disseme que não conhecia o capitão / que já outras lhe tinhão pedido / mas que não pasava ninhoma este / ano eu pedilhe e disse que lhe / pagava ele disse-me que is saber cem / era o capitão e depois que falavamos / eide falar outra vez com ele / mas já me falou em 5 litros de / azeite para o capitão disme o que eide fazer / José as nossas siaras já animem mais já cá chuveu ontem e ohje já todas / tem outra graça já trusse o relo- / jio que tem trabalhado bem / o Joaquim Mindrico[iv] já me deu / o dinheiro pedi o résto ao pai e deio a Senhora D. Ana[v]. / José os nossos filhinhos estão / bonzinhos graças a Deus a menina esta muito gorducha e o Américo / continua na sua conversa que / nunca me deixa estar calada / pregunta-me muitas vezes por / ti dogolhe que foste para Lisboa / e ele desme que foste para a missa / esta a escrever tembem e disme se eu já escrevi tembem /
José o Antonio da Silvina[vi] / veio perguntar-me com respeito[vii] / se tu me tinhas deixado algumas / ordens eu disselhe que não ele / perguntoume a tua dirécão e / se aí for ter alguma coisa já estas / provenido tive carta da Luiza[viii] manda-te / saudades e agradessete muito os ditalhos do / Américo já perguntei pelo teu chapéu / ao José Matias[ix] mas não o vio se mais / saudades dos nossos vizinhos da mãi e / da Joaquina do pai da mãi da maria / beijinhos dos nossos meninos do nosso / américo tambem estes risquinhos (ricos a lápis) desta / tua mulher aseita vivas saudades / desta que do fundo do coração te sauda /
Joaquina Rosalia de Sosua
E, na margem superior:
José não te mando nada porque como sabes eu cá tembem tenho de comprar tudo[x]



Lisboa, 1 de Maio de 1949
Minha querida mulher /
muito estimo que esta minha carta / te vá encontar de saude junto / dos nossos querido filhinhos e de tôda / a familia que eu fico bem de saude / graças a Deus. /
Joaquina descolpa em eu não ter / escrito a mai tempo arazão é que / eu queria mandar-te o mais dinheiro[xi] / que eu pudece que bem sei que te deve / ter sido pressiso. Joaquina com respei- / to á revista não te encomodes / encomodes que eu antes quero / pagar a multa por que são só / 25$00[xii] e os 5 litros de azeite são / Mais caros: Agora tu da o dinheiro / o pai e o outro e para ti a quelo / que te fôr presiso e compra pão de trigo[xiii] para ti e para os nossos / filhinhos e dá papinha á nossa / minina e ó nosso Americozinho / dá li muitos beijinhos que eu / tenho tantas saudades dos meus meninos mandame dezer se / tens muito Coelho e como estão / as novidades[xiv] e se tens ouvido dezer alguma coiza a respeito / das oliveiras do Rebôxo.[xv] /
Joaquina esto cá esta mão e o ordenádo / é a 22 e a 23 e o mais alto e 23 / manda dezer se o basselo esta pegado /
Joaquina eu mando-te 400$00: / e se a seváda da cova da / santa esta bonita: e as batatas / da Ratinha: se for ai o bacenador[xvi] manda bacenar a pôrca / e vai com ela a porco que / comessa a ficar tarde. / escreveme a sim que póssas / saudades áo pai e a mai e / a Mai e a Joaquina / e muitos beijinhos os nossos / querido filhinhos muito beijinhos / e tu a seita as mais vivas saudades deste teu / Marido muito amigo e /
dedicado José Sabino de Sousa






[i] A definição de corrupção à luz da lei penal actual pode ser vista, por ex., no site da Direcção-Geral de Política de Justiça, Ministério da Justiça, em: http://www.dgpj.mj.pt/sections/informacao-e-eventos/prevenir-e-combater-a/anexos/definicao-de-corrupcao/ (consultado em linha em 14-7-2015)
[ii] Joaquim do Álvaro tinha uma taberna e oficina de sapateiro no actual Largo da Padeira, em Aljubarrota, onde hoje é o café e restaurante O Torcato. O Torcato é, aliás, seu filho. Era, ainda, agente dos Capristanos (e dos Claras?), fazendo o despacho dos cestos e cabazes que, em roda-viva, circulavam de e para Lisboa, ao ritmo da emigração sazonal dos homens serranos. Para a sua loja telefonava-se de Lisboa, com o pedido de mandar recado à Ataíja para que, à hora marcada, lá estivesse a pessoa com quem se queria falar, o que ele fazia, aproveitando um passante ou mandando um estafeta. A pessoa vinha da Ataíja e, à hora combinada, fazia-se novo telefonema para então se falar com quem se queria falar. Estas múltiplas funções, a que juntava outras como a de mediador referida nesta carta, davam ao Joaquim do Álvaro uma enorme importância social e económica.
[iii] Apresentação anual aos serviços do Exército a que estavam obrigados todos os que haviam prestado o serviço militar obrigatório e se encontravam, até certa idade, na disponibilidade, quer dizer, estavam disponíveis, podendo ser chamados, de novo, ao serviço militar.
[iv] Minderico (natural de Minde), alcunha que herdou de um avô. Era filho de José Constantino e foi casado com Luísa da Graça, prima da autora.
[v] Residia em Leiria, como se vê de outras cartas. Desconheço os laços que a ligavam a José Coelho e Joaquina Rosalia e a levavam a emprestar-lhes dinheiro.
[vi] Assim chamado por ser filho de uma Silvina. Esta Silvina era natural do Lorvão e foi casada na Ataíja de Cima com Manuel Maurício, tendo servido de parteira a muitos ataíjenses (estou, agora, na dúvida se quem me ajudou a vir ao mundo foi a ti'Silvina ou a ti'Felismina).
[vii] Com respeito, a propósito de, relativamente a.
[viii] A Luísa era uma das irmãs freiras da autora.
[ix] Filho de Matias Ângelo. Casou com uma prima de meu pai e foi morar para a Quinta de Sampaio, nos Olheiros e, por isso, era também conhecido como José Matias de Sampaio.
[x] Sobrariam na despensa alguns legumes secos (chícharos) da colheita do ano anterior e couves-galegas no quintal e estariam a chegar as favas novas que, por aqui, eram as primícias da Primavera.
[xi] “o mais dinheiro”, quer dizer, a maior quantidade de dinheiro.
[xii] Vinte e cinco escudos, hoje cerca de 12 cêntimos mas, naquele tempo, mais do que a jorna de um homem.
[xiii] O pão de trigo era um luxo que se reservava aos doentes e aos domingos e dias santos. As colheitas eram de muito fraca produtividade e, na maioria das famílias, muito pequenas (em 1948 a Joaquina Rosalia tinha escrito a seu marido dando conta de ter colhido, apenas, 8 alqueires de trigo de má qualidade (“só jelhas”).
[xiv] As novidades a que o autor se refere são as culturas de primavera que, agora, estão em pleno desenvolvimento.
[xv] Dos Casais de Santa Teresa.
[xvi] Vacinador. 

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Capitão Brasileiro de Chiqueda




A decifração da lápide reproduzida na fotografia, a qual se encontra na capela de Nossa Senhora do Carmo, em Chiqueda, foi proposta pela Associação Azenhas de Chiqueda aos leitores da sua página no Facebook (AQUI), em 20 de Abril p. p. sem que até agora, 11-6-2015, haja notícia de a lápide ter sido decifrada.

Como já dissemos mais de uma vez, embora este blog se dedique (exclusivamente, afirma-se no título) à divulgação da Ataíja de Cima, a verdade é que a Ataíja não é uma ilha e, quando se procura sobre o seu passado, sempre, inevitavelmente, surgem factos relativos a aldeias vizinhas. É o que agora acontece e, se decidimos elaborar este texto, foi porque “o caso da lápide” contém todos os ingredientes que nos motivam nas nossas “investigações”.

Vamos, então, tentar dar um pequeno contributo para a decifração da dita lápide.

Antes do mais, é preciso ter presente que uma lápide, se destina a assinalar um facto e o seu autor ou protagonista.
Na maior parte das vezes o que mais exactamente se pretende, é homenagear, engrandecer, glorificar, perpetuar o autor ou protagonista ou a sua memória e, por isso, se não poupa na descrição desse homenageado, enumerando nome, naturalidade, profissão e honras, morada, feitos, etc., cabendo ao facto assinalado servir de “prova” do merecimento da homenagem, engrandecimento, glória e memória de tal pessoa.
Termina-se, - todas as lápides terminam -, com a data. Porque uma lápide é, essencialmente, uma luta contra o tempo, uma ambição de eternidade.

É isso o que, também, se passa nesta lápide. Vejamos:

As primeiras palavras referem-se ao cargo ou profissão da pessoa que a placa quer honrar: O CAM, significará, por certo, O CAPITAM, quer dizer, O Capitão.

A palavra MEL, será, ainda, relativa ao posto ou cargo ou, por outro lado, será, como parece, o nome próprio Manoel. Contra esta última hipótese temos o facto de estar separada do resto do nome por uma vírgula que não teria aqui razão (mas, sempre se dirá que também não existe qualquer justificação para a vírgula que, por ex., mais adiante, se vê entre as palavras “DESTE” e “LVGAR”).

Segue-se o que, sem dúvida, já é o nome: iOZE, isto é, IOZE, José.
FROS poderia ser Francisco não fora (ou será, apesar de?) o S final.

A transcrição do restante texto não parece oferecer grandes dúvidas. Assim:

CAVRO, - CAVALEIRO
PROFO, - PROFESSO
NAORDEM,DECHRISTO – NA ORDEM DE CRISTO
NAT.ALDESTE,LVGAR, - NATURAL DESTE LUGAR
MORNACIDE,DABA – MORADOR NA CIDADE DA BAÍA
MANDOV FAZERESTA,CAPA, - MANDOU FAZER ESTA CAPELA
PA,NASADOCARMO,ANNO1800 – PARA NOSSA SENHORA DO CARMO, ANO1800


Em conclusão do que, a minha proposta de leitura para a lápide é a seguinte:

O Capitão Manuel José Francisco, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo
Natural deste lugar, morador na cidade da Baía, mandou
Fazer esta Capela para Nossa Senhora do Carmo, Ano 1800


O Couseiro, em meados do Século XVII, apenas assinala a existência, em Chiqueda, de devoção a São Brás, nestes termos:
“No Pisso (poço) do Soão, outra, (ermida) da invocação de S. Brás, imagem de vulto; não tem capela, nem nicho, nem retábulo, nem sacristia, nem sino, nem é forrada.”[i]

Pelas chamadas Memórias Paroquiais[ii], ficamos a saber que, cerca de cem anos depois, em 1758, “o lugar de Chaqueda tem vinte e oito vizinhos[iii].” e, “ (uma) ermida dentro do lugar de Chaqueda de Sam Bras, a qual pertence aos moradores do mesmo lugar;”

Ou seja, até 42 anos antes da data inscrita na lápide ainda não se invocava em Chiqueda a Nossa Senhora do Carmo.

O promotor da capela e responsável pela introdução da devoção a Nossa Senhora do Carmo em Chiqueda era, como vimos, morador na cidade de São Salvador da Baía, (que era, então, a maior cidade e capital do Brasil) o que explicará a sua devoção ao Carmelo que, por essa época, gozava de grande expansão em todo o Brasil e, particularmente na dita cidade e no Recôncavo baiano[iv].


Quem seria esse capitão, nascido em Chiqueda que talvez se chamasse Manuel José Francisco, enriqueceu no Brasil e o quis mostrar aos seus conterrâneos, no ano de 1800?





[i] Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria, Transcrição da 2ª edição, de 1898, pág. 264, Colecção Tempos & Vidas, 16, Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] João Cosme | José Varandas (Introdução, Transcrição e Índices), Memórias Paroquiais (1758), Volume III [Almonde – Amorim], Edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, 2011, pág.s 10 e 13.
[iii] Talvez, cerca de 90 ou 100 pessoas.
[iv] O conjunto do Carmo (Convento, Igreja http://www.hpip.org/Default/pt/Homepage/Obra?a=1123
  e Igreja da Ordem Terceira http://www.hpip.org/Default/pt/Homepage/Obra?a=1150) constitui, um dos mais importantes monumentos coloniais de S. Salvador da Baía. No entorno é, também, muito importante, o conjunto do Carmo em Cachoeira (http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=972)
.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Nova Exposição de Inês Neves - O Património Edificado de Carácter Religioso do Concelho do Bombarral




Há vários anos que a Inês Neves vem desenvolvendo, com rigor e determinação, a enorme tarefa a que se propôs, de registar em aguarela o património edificado de carácter religioso da nossa região.

Após uma primeira exposição, no ano de 2010, onde apresentou todos os edifícios religiosos do município de Alcobaça, seguiram-se os concelhos da Nazaré, Batalha, Porto de Mós, Caldas da Rainha, Leiria e Óbidos, este no verão de 2013.

Seguiu-se um intervalo de quase dois anos durante o qual a Inês Neves, para além de preparar a presente exposição, se dedicou, com assinalável êxito e qualidade artística, a uma nova forma de expressão, a pirogravura, produzindo belíssimos trabalhos que os leitores interessados podem ficar a conhecer consultando o blog da autora, especificadamente, AQUI e AQUI

É, agora, a vez de retomar a aguarela para prosseguir o levantamento exaustivo do património regional edificado de carácter religioso que, com esta exposição dedicada ao Município do Bombarral, abrange já a totalidade dos edifícios religiosos, - desde o mais imponente Mosteiro à mais modesta e recôndita Capela ou Ermida, - de oito municípios.


A exposição inaugura-se no próximo dia 6 e manter-se-á até 5 de Julho, no Museu Municipal do Bombarral, onde os visitantes não deixarão de se surpreender com a grande qualidade técnica e o valor iconográfico das aguarelas da Inês Neves.



Contactos da exposição:
Museu Municipal do Bombarral,
Palácio Gorjão - Praça do Município
2540-046 Bombarral,
Telefone: 262 609054/58


Blog da Inês Neves:
http://artederecordaravida.blogspot.pt




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Arquitecto João Cordeiro


O nosso jovem conterrâneo João Pedro Garcia Cordeiro defendeu no presente ano lectivo a sua tese (dissertação de Mestrado), do curso de Mestrado Integrado em Arquitectura, do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

A tese, com o título “Voltar ao rio para (re)descobrir a porta de Alcobaça para o mar – Uma proposta para o território do rio Alcoa na antiga lagoa da Pederneira”, propõe as linhas gerais de um projecto de requalificação das margens do rio Alcoa, desde a saída de Alcobaça até à foz, tendo por objectivo a sua utilização em actividades turísticas e de lazer.

Apoiado numa larga bibliografia, onde pontificam todas as obras de referência para o estudo da região e da celebrada actividade agrícola dos frades cistercienses, o João Cordeiro traça um quadro impressivo da história da lagoa da Pederneira e das actividades humanas que se instalaram nas suas margens e acabaram por a ocupar totalmente logo que as obras de enxugo o permitiram.

O essencial do projecto incide sobre a área imediatamente seguinte à saída de Alcobaça para a Nazaré (a porta de Alcobaça para o mar de que fala o título da tese), o vale “garganta” que se segue à ponte chamada de Dom Elias e se abre sobre terrenos que outrora pertenceram à extinta COFTA - Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça.

Como diz o autor, “pretende-se desen­volver o projecto de um Parque Verde que explore a riqueza do vale a “garganta”.
O parque é delimitado pela ponte D. Elias, a Sul, e a Companhia de Fiação e Te­cidos de Alcobaça (COFTA), a Norte, estendendo-se a proposta para as encostas do vale. Subsidiário destes objectivos, pretende-se redesenhar a porta Norte da cidade de Alcobaça, a antiga ligação da cidade à Lagoa e daí ao mar.

Esta “garganta” é o único ponto de saída das águas recolhidas na bacia do rio Alcoa (e, também, do Baça), a qual tem uma área aproximada de 200 km2 e uma forma sensivelmente triangular, limitada a nascente pelos cumes da serra dos Candeeiros, entre Pedreiras (Porto de Mós) e Benedita.

O projecto, naturalmente, não afecta a actividade industrial (Goanvi – Central de engarrafamento de Bebidas, Lda.) que se desenvolve nas antigas instalações da fábrica da COFTA, restringindo-se, como se disse, a terrenos adjacentes que hoje não têm utilização industrial ou outra e onde subsistem importantes obras de hidráulica (açude, comportas, levadas, ou canais), as ruínas dos edifícios da Assistência Araújo Guimarães e da Central Eléctrica e outros vestígios de ocupações anteriores que se pretende preservar e valorizar.

Não é, aqui, o lugar para explanar mais o projecto nem para a sua crítica mas, apenas, para saudar o João Cordeiro, (de quem já conhecíamos a participação no concurso de ideias promovido pela Pladur, para a reconversão de uma das naves do antigo matadouro de Madrid[i]), desejando-lhe as maiores venturas pessoais e profissionais e que, dentro de alguns anos possamos dizer de um belo edifício que, “o arquitecto é um rapaz da minha terra”[ii].


Rio Alcoa, vendo-se, a azul claro, as áreas das lagoas, agora os campos da Cela e da Maiorga.
A verde, a área para que se propôe o Parque Verde (desenho de João Cordeiro).

Dois dos edifícios cuja preservação, renovação e requalificação se propôe: Assistência Araújo Guimarães e Posto de Transformação (desenhos de Joao Cordeiro)






[i] Aos mais curiosos, recomenda-se uma visita ao site oficial do Matadero de Madrid, por onde se pode ver como funciona uma bem sucedida reconversão de uma grande estrutura industrial que o tempo tornou absoleta. Ver: http://www.mataderomadrid.org/index.php.
[ii] O título de arquitecto, à semelhança de outros como, por ex., advogado ou médico, só pode ser usado legalmente por pessoas inscritas na respectiva Ordem. O João Cordeiro terá, ainda, de realizar um estágio profissional e só depois poderá inscrever-se como Arquitecto na Ordem dos Arquitectos. 
Fique, pois, claro que o título deste post é da minha exclusiva responsabilidade. J. Q.