sábado, 10 de março de 2018

Francisco Veríssimo

(um quase padre na Ataíja de Cima do Séc. XIX ou, as incongruências da memória)

(assento do primeiro casamento de Francisco Veríssimo)

Desde criança que me lembro de ouvir a história:

Francisco Veríssimo estava prestes a terminar os estudos para padre quando, numa mesma semana, lhe faleceram pai e mãe, em consequência do que abandonou os estudos.
Dizem uns que por desgosto, dizem outros que por necessidade de tomar conta da sua “Casa”.
Veio a casar uma primeira vez e, tendo viuvado, casou de novo, tinha então 72 anos e a mulher 25.
Deste segundo casamento nasceram dois filhos e faleceram, ambos os cônjuges, com a idade de 98 anos.

A última vez que ouvi a história, de boca autorizada, foi ao seu neto João Veríssimo que para tanto o interpelei, não muito antes do seu falecimento ocorrido em 2013.
Nessa conversa o ti João Veríssimo confirmou a história, ponto por ponto, tal como sempre a ouvi e acima transcrevo.

O assento do óbito de Francisco Veríssimo, ocorrido em 11.11.1894, diz que ele faleceu no estado de casado com Joaquina Coelho, sendo filho de Veríssimo Amado e de Ana Lopes e tendo a idade de 98 anos, o que parece confirmar a tradição.


Mas, este é um dos casos em que não só a memória não é confirmada pelos factos, como se verifica que apenas um documento não chega para certificar a verdade.
É o que, adiante, se verá.

Os factos históricos comprovados são os seguintes:

Veríssimo Amado, lavrador, filho de Manuel Amado Rebelo e de Luísa Pereira, já era casado com Ana Maria em 1787, quando foram pais de João, baptizado em 30 de Maio desse ano. Podemos, assim, admitir que o Veríssimo Amado terá nascido cerca de trinta anos antes, o que nos leva para os anos de 1755 a 1760, seja, a época do terramoto.

O apelido Amado já existia na Ataíja desde há mais de cento e cinquenta anos antes e aí chegara vindo de Aljubarrota, através de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, este, descendente de D. João II, fidalgo com Carta de Brasão de Armas de 17.06.1545.
Nos cerca de noventa anos que vão de 1721 até, 1807, vésperas das Invasões Francesas, o apelido Amado aparece-nos sempre intimamente ligado às elites locais[i].
De facto, nesse período, encontramos José Gomes Anes Amado de Azambuja, nascido em Aljubarrota, fidalgo de Cota de Armas, por Carta de 5.10.1721; Joaquim de Sousa Amado, Capitão de Ordenanças da Vila de Aljubarrota, por Carta patente de 24.10.1785; José Tavares Amado e Azambuja, nomeado capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota em 21-04-1790 (por morte do Capitão Veríssimo de Sousa Henriques) e, em 1804 e 1807, há notícias de um alferes José Tavares ou José Tavares Amado, de Aljubarrota.

O nome próprio do nosso Veríssimo Amado, esse, bem que poderia ser uma homenagem ao mártir[ii] mas, é nossa convicção de que a razão estará mais próxima, já que o vamos encontrar em Veríssimo de Sousa Henriques, capitão da Companhia de Ordenanças de São Vicente de Aljubarrota, falecido, como já vimos, antes de 21.04.1790.

Talvez não seja, assim, demasiado temerário pensar que o Manuel Amado Rebelo pertencia à mesma família dos demais Amados que, naquela época, encontramos em Aljubarrota desempenhando importantes cargos e que dessa importância social resultaram as relações que terão levado o Capitão Veríssimo de Sousa Henriques a apadrinhar a criança que tomou o nome de Veríssimo Amado.[iii]

Consultando os assentos de baptismo, da freguesia de São Vicente de Aljubarrota, encontram-se registos de Veríssimo Amado ter tido 5 filhos: João, nascido em 1787; Joaquim, nascido em 1793; Maria, nascida em 1796; Luís, nascido em 1799 e Francisco, nascido em 1806.
Destes, por enquanto e para além do Francisco que é objecto deste texto, apenas sabemos que o Joaquim viveu até aos 67 anos, vindo a falecer em 21.12.1860, no estado de viúvo de Joaquina Marques e não teve filhos.
Parece ter havido uma sexta filha, Joaquina, de que não encontrei o assento de baptismo mas, encontrei o assento de casamento com Luís Dias (em 5.11.1826) e os assentos de baptismo (em 1827, 1830 e 1842) de três filhos seus e onde é identificada como Joaquina Mónica ou Joaquina Veríssimo, filha de Veríssimo Amado e de Ana Maria.

Sabemos, assim, que o Francisco Veríssimo era o mais novo dos filhos de Veríssimo Amado, lavrador e de Ana Maria, também dita Ana Lopes ou Ana Vicente e neto paterno de Manuel Amado, ou Manuel Amado Rebelo, lavrador, da Ataíja de Cima e Luísa Pereira, esta, dos Casais de Santa Teresa onde estes avós paternos moravam e neto materno de Vicente Coelho, lavrador e de Maria Francisca, ambos da Ataíja de Cima, onde moravam.

Sabemos que o Francisco Veríssimo se casou duas vezes :
Uma primeira vez, em 25 de Novembro de 1849, com Rosa Coelho, a qual faleceu em 10-11-1860, com a idade de 53 anos e que era filha de João Coelho e Sebastiana Bernardo.
Consequentemente, trata-se da mesma Rosa, nascida nos Casais de Santa Teresa em 01-11-1807, filha de João Coelho, dos Casais de Santa Teresa e de Sebastiana Bernarda, da Ataíja de Cima, neta paterna de José Coelho da Cabeça dos Casais de Santa Teresa e de Mariana de Sousa da Ataíja de Cima e materna de Bernardo João e Maria Vicente, ambos da Ataíja de Cima.

Deste primeiro casamento não consta que tenha havido filhos.

Em segundas núpcias dele, após seis anos de viuvez, em 30-11-1866, diz-nos o respectivo assento de casamento, o Francisco Veríssimo, então com 60 anos de idade, viúvo de Rosa Coelho ligou-se a Joaquina da Costa, solteira, de 22 anos de idade, filha de Joaquim Coelho e de Maria da Costa, esta natural de Lisboa, neta paterna de Francisco Coelho, lavrador e de Rosa Vicente e materna de António da Costa, proprietário, natural de Asseiceira, Tomar e de Luísa Maria, da Ataíja de Cima.
Este assento, como verificamos, dá o Francisco Veríssimo como tendo, então, a idade de 60 anos ou seja, confirma que ele nasceu em 1806.

De acordo com o respectivo assento de óbito, em 11.11.1894, faleceu o “…Francisco Veríssimo, casado com Joaquina Coelho, trabalhador, da idade de noventa e oito anos …”
Mas, se como vimos e parece certo, o Francisco Veríssimo nasceu em 1806, então, diferentemente do que dizem o assento e a tradição, faleceu com a idade de 88 anos e não de noventa e oito anos, .

Mas, a história que a tradição oral conservou tem outras incongruências já que, de acordo com os respectivos assentos:

Em 18-07-1832 faleceu Veríssimo Amado, casado com Ana Maria.
Em 17-01-1845 faleceu Ana Lopes, viúva de Veríssimo Amado.
Ou seja, diferentemente da tradição, o pai e a mãe do Francisco Veríssimo não morreram na mesma semana, antes, com treze anos de diferença.

Parece, pois, poder concluir-se que a história de Francisco Veríssimo se terá passado de modo algo diferente:

Francisco Veríssimo, filho de Veríssimo Amado e de Ana Maria, ou Ana Lopes, andava a estudar para padre e, em 1832 quando tinha 26 anos de idade e esses estudos estavam quase concluídos, faleceu o seu pai.

Terá sido por isso e por essa altura que, levado pela tristeza e o desgosto, como diz a tradição ou, qualquer outra razão mais prosaica,abandonou os estudos e regressou à Ataíja de Cima onde, seguindo a tradição familiar, se tornou agricultor.
A hipótese de ser movido pela necessidade de tomar conta da “Casa” agrícola também precisa de melhores argumentos já que, nesse tempo, estaria na casa, ainda solteiro, o seu irmão Joaquim, então com cerca de trinta e nove anos de idade. Porque razão não tomou este o encargo? Tanto mais que a destinação de um filho a Padre, pressupunha  que a direcção da casa agrícola estava destinada a outro, ou outros dos irmãos. Para intentar resolver melhor estas dúvidas precisávamos de conhecer a situação concreta de cada um deles. 

Seja como for, o que os registos paroquiais mostram é que o Francisco Veríssimo casou pela primeira vez com Rosa Coelho, ou Rosa Vicente, nascida nos Casais de Santa Teresa, a qual veio a falecer com a idade de 53 anos, em 1860.
O casamento foi celebrado, sob licença do Vigário paroquial, o ataijense Luis João de Sousa, pelo Reverendo Rufino José da Fonseca, da Vila, na capela de Nossa Senhora da Graça, da Ataíja de Cima, em 25 de Novembro de 1849 tinha então o Francisco a idade de 43 anos e a noiva a idade de 42 anos.
Não se conhecem filhos deste casamento.

Na data em que se realizou este primeiro casamento do Francisco Veríssimo, já o seu pai havia falecido há dezassete anos e a mãe há quase cinco anos.

Após 6 anos de viuvez, em 1866, o Francisco Veríssimo, então com a idade de 60 anos casou, em segundas núpcias dele, com Joaquina da Costa ou Joaquina Coelho, solteira de 22 anos de idade.

Deste casamento nasceram, pelo menos, dois filhos:
- José, falecido em 15.9.1883, com 14 anos de idade;
- João o qual veio a casar com Maria Ribeiro, dos Casais de Santa Teresa, filha de Joaquim d'Horta Moura e de Maria Ribeira e foram pais de, pelo menos, quatro filhos:
- Maria nascida em 1906;
- Teresa (Teresa Ribeiro), falecida solteira nos anos de 1960, tendo então 50 e alguns anos de idade;
- José;
- João, este falecido muito recentemente, em 2013.
Os dois últimos deixaram descendência.

A sua mulher, Joaquina da Costa, ou Joaquina Coelho essa, talvez tenha falecido com a idade de 98 anos, (portanto, cerca de 1942) como diz a tradição, já que o ti’João Veríssimo me contava que faleceu quando ele era jovem.


Duas notas, para terminar:

A casa, no início da Rua das Hortas, onde terá vivido Veríssimo Amado e seguramente viveram Francisco Veríssimo, o seu filho e o seu neto e, agora, vive um bisneto e é, sem dúvida uma das mais antigas casas da Ataíja de Cima é, talvez, a mesma onde a partir de meados do Séc. XVII, já viveram os seus antepassados Manuel Coelho e sua mulher Antónia Amado, esta, filha de António Amado, o Moço, filho de António Amado, filho de Pedro Anes Amado, fidalgo da Casa Real, filho de Brites Anes Baracho, filha de Brites Anes de Santarém, filha de Brites Anes, a Boa Dona e do Senhor Dom João II, Rei de Portugal.

Desconheço as razões que terão levado o Francisco Veríssimo a abandonar o apelido familiar Amado e a adoptar como apelido o nome próprio do pai (como era prática comum entre os camponeses[iv]), tanto mais que o apelido Amado, cuja ascendência conduzia directamente ao Senhor Dom João II, tinha notável peso na sociedade local no Antigo Regime e desse peso haviam de beneficiar, também, ainda que menos intensamente, aqueles ramos da família que se tinham tornados lavradores. 
Facto é que o falecimento de Veríssimo Amado e o presumível abandono do Seminário pelo Francisco Veríssimo acontecem em pleno fim de regime, quando decorre o cerco do Porto, durante a guerra civil entre Miguelistas e Liberais e, talvez estes acontecimentos políticos não sejam alheios ao abandono do velho apelido Amado e ao nascimento do novo apelido Veríssimo.
Certo é que quando morre, em 1894, já não é um Amado, nem sequer um lavrador. Apenas, a acreditar no assento de óbito, Francisco Veríssimo, trabalhador.


Nota: Este texto foi publicado, inicialmente, neste blog em 31 de Outubro de 2014. É agora republicado (10-03-2018), actualizado com novos elementos relativos ao primeiro casamento do Francisco Veríssimo.


[i] Ver, neste blog, o texto Capitães de Aljubarrota.
[ii] Segundo a tradição São Veríssimo, Santa Máxima e Santa Júlia ou, simplesmente, Veríssimo. Máxima e Júlia, os Mártires de Lisboa, alcançaram a santidade pelo martírio no dia 1 de outubro do ano de 303 ou 304, por ocasião de uma perseguição aos cristãos pelo Imperador romano Diocleciano (compare-se com o que, neste blog, a propósito de São Vicente, dissemos no texto Padre Fábio Bernardino - Uma Iconografia.
[iii] Tenha-se presente que, naquela época, as crianças eram baptizadas, em regra, apenas com um nome próprio. O apelido, esse, só o passavam a usar em adulto (esta é uma matéria que será desenvolvida num outro texto).
[iv] Veja-se, neste blog, o texto ""Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910"

quarta-feira, 7 de março de 2018

A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região



Durante grande parte da primeira metade do século XIX a nossa região foi palco de sucessivas movimentações militares.

Primeiro, as invasões francesas. Há documentos relatando a presença dos exércitos, quer franceses quer ingleses, desde Agosto de 1808 e, quase sem interrupções, até, pelo menos, Março de 1811.

Tinham passado pouco mais de vinte anos sobre as guerras e os sofrimentos provocados pelas Invasões Francesas quando, de novo, por aqui andaram as botas cardadas dos militares. Agora, era a Guerra Civil travada entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, na verdade, a guerra entre o Antigo Regime agonizante e a sociedade moderna que emergia.

Passados pouco mais de três anos sobre o fim da guerra civil, novas incursões militares pela nossa terra. Agora, a chamada Revolta dos Marechais, reacção ao Setembrismo encabeçada pelos mesmos Saldanha e Terceira que tinham vencido a Guerra Civil.
Um dos mais importantes, embora inconclusivo, dos combates havidos durante a Revolta dos Marechais ocorreu no Chão da Feira, praticamente no mesmo local onde 452 anos antes se tinha travado a Batalha de Aljubarrota. 

Mais tarde, em 1846 e 1847, a Revolta da Maria da Fonte e a Guerra da Patuleia haviam de trazer novos e sucessivos movimentos de tropas a toda a nossa região.

Mas, do que queremos falar hoje é da Guerra Civil.

Depois das Cortes de 1828 onde D. Miguel se fez proclamar Rei absoluto, os liberais foram perseguidos e presos aos milhares, muitos foram mortos e grande número foi forçado a exilar-se. D. Pedro abdica então do trono brasileiro e em 1831 desembarca nos Açores para, a partir daí, organizar um exército que desembarcou nos arredores do Porto em Julho de 1832, aí ficando sitiado pelos miguelistas durante longos 13 meses, até Agosto de 1833.

No início desse ano de 1833, os liberais contrataram para comandar as suas forças navais um oficial da marinha inglesa, Charles Napier[i] o qual escreveu um pormenorizado relato da sua participação nesta guerra, relato esse que, sob o título An Account of the War in Portugal, foi publicado em Londres em 1836 e, traduzido com o título Guerra da Sucessão em Portugal, foi publicado em Lisboa em 1841.

Apesar de a tomada de Lisboa pelos liberais e o fim do Cerco do Porto terem ocorrido em meados de 1833 (Julho e Agosto, respectivamente), a guerra continuou e só veio a terminar em Maio de 1834 com a assinatura da Convenção de Évora Monte.

Nesses longos meses, as operações militares tiveram particular incidência na Estremadura onde Leiria permanecia fiel a D. Miguel e no Ribatejo,  já que o mesmo D. Miguel, tinha instalado o seu quartel-general em Santarém. O último dos grandes combates desta guerra aconteceu precisamente em Maio de 1834, na Asseiceira, perto de Tomar, apenas dez dias antes da assinatura da Convenção de Évora Monte.

A paginas 125 do Tomo II do referido Guerra Civil em Portugal, o almirante Charles Napier descreve a conquista de Leiria e os movimentos de tropas que a precederem:

No dia 12 de Janeiro[ii] tomou o Duque da Terceira o Comando do Exército e estabeleceu o seu Quartel-General no Cartaxo. Saldanha partiu no mesmo dia para Rio Maior, para onde tinha destacado uma força na tarde anterior, para formar uma junção com as tropas já estacionadas, ali e em Alcobaça, perfazendo ao todo cerca de quatrocentos a quinhentos homens.
No dia 13 a Cavalaria ocupou os Carvalhos[iii], e a Infantaria os Molianos e povoações adjacentes. O Tenente-Coronel Vasconcellos com o 1.° Regimento de Infantaria Ligeira da Rainha marchou no mesmo dia para Cós e no dia seguinte chegou à Batalha.
Uma copiosa chuva que durou quarenta e oito horas sem interrupção tinha inundado todo o terreno, mas não obstante estas dificuldades as colunas estavam empenhadas em marchar sobre Leiria e atacar aquela Cidade, antes que o inimigo tivesse tempo de se escapar. Contudo, as dificuldades de uma marcha noturna eram tão grandes que o Marechal decidiu esperar para o dia seguinte.

(E, no dia seguinte, Leiria foi tomada e, quando os últimos defensores miguelistas a abandonavam, fugindo pela estrada de Coimbra …)

A Cavalaria foi no seu alcance pelo espaço de uma légua. Matou muitos, e fez muitos prisioneiros
Os Oficiais do Estado Maior acompanharam a Cavalaria e acharam muita satisfação em tingir as suas espadas em sangue Miguelista.

Tal é a guerra civil.


Almirante Sir Charles John Napier, pintura atribuída a John Simpson [Public domain], via Wikimedia Commons



[i] O Almirante Sir Charles John Napier foi um importante e controverso militar e político, com uma carreira longa e recheada, durante a qual serviu com brilhantismo as armadas britânica e portuguesa. A sua biografia merece bem uma leitura. (v. https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_John_Napier)
[ii] De 1834.
[iii] O lugar que hoje chamamos Pedreiras

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

As empresas e a informação digital


(A Propósito do Texto "A Ataíja de Cima e o Portugal 2020")




No texto que publicámos recentemente neste blog sob o título A Ataíja de Cima e o Portugal 2020 era importante, para a análise que pretendíamos fazer, saber qual a freguesia e se possível o lugar onde se situam a sede das empresas promotoras de cada um dos projectos aprovados e, ou, a delegação, filial, instalação fabril ou similar cuja existência justifica a imputação do projecto ao concelho de Alcobaça.
Ora, na lista publicada, os elementos relativos à entidade promotora do projecto são, apenas, a designação social, o CAE e o NIF.

Recorremos então à internet para conhecer aqueles elementos, o que julgamos ter conseguido na maioria dos casos. Com vista a garantir a maior homogeneidade possível dos elementos recolhidos, privilegiámos a consulta ao site da própria empresa e, quando necessário, ao site empresite.jornaldenegócios.pt que se intitula o maior directório online de empresas de Portugal, consulta essa complementada com a de outros sites especializados, designadamente pt.kompass.com, www.racius.com, www.gescontact.pt e outros.

Apesar disso, não foi possível, como dissemos naquele texto, confirmar relação entre cinco das empresas promotoras de projectos e o concelho de Alcobaça.
Por outro lado e a nosso ver mais importante, foi possível verificar a deficiente qualidade dos dados publicados relativamente a diversas empresas, sinal de que as nossas empresas ainda não estão despertas para a importância das modernas formas de comunicação.

De facto, aconteceu um pouco de tudo. Desde empresas que não  têm um site na internet até outras (ou as mesmas) que têm páginas no Facebook mas onde faltam elementos essenciais, como o que fazem ou como podem ser contactadas e outras que já há anos não actualizam essas páginas.
Outras, ainda, publicam com regularidade no Facebook mas caiem em exageros de juntar dezenas de fotos de uma vez e, frequentemente, sem que essas fotos tenham um mínimo de qualidade ou de cuidado na sua feitura e onde o que se quer mostrar mal se distingue do cenário onde se amontoam outras peças, resto de produção, paletes e sabe Deus mais o quê.

Ora, se queremos, por exemplo, mostrar uma obra em pedra – uma lareira ou semelhante – ou qualquer peça, é elementar considerar a cor desse objecto e, se é claro arranjar um fundo escuro e vice-versa. O fundo deve ser uma cor plana para realçar o objecto que se quer mostrar[i].  

Naquela nossa busca podemos ainda verificar que, quer seja nos sites especializados de informação económico-comercial como os citados, quer em sites de informação geográfica dirigidos ao público em geral como o Google Maps e outros, quer nos sites e páginas de Facebook das próprias empresas, as informações estão, com frequência, erradas[ii] ou desactualizadas[iii].

Como é evidente, a circulação na internet de informações erradas ou desactualizadas sobre as empresas não as pode beneficiar.

É, a meu ver, necessário que os empresários – sobretudo os empresários que trabalham essencialmente para a exportação ou que querem actuar em mercados não meramente locais, - se consciencializem de que hoje em dia qualquer interessado, em qualquer produto, a primeira coisa que faz é abrir o Google e recolher todas as informações possíveis sobre o fornecedor.
Nestas matérias, como nas outras, um dos melhores métodos para aprender o que deve ou não deve ser a comunicação digital é o benchemarking.[iv] É o observar, aprender e melhorar com o que fazem os outros que fazem bem, ou melhor do que nós (e, também, observando e analisando os erros alheios, como método para evitar erros idênticos).

Em matéria de sites empresariais na internet, a Ataíja de Cima, tem bons exemplos de sites bens feitos e que passam eficazmente as informações essenciais sobre a empresa: o que é, o que faz, como pode ser contactada, e de outros que quase cumprem esses objectivos mas onde se notam deficiências várias, dos tipos indicados no texto, como pode ser visto, por ex., nos seguintes (um ex. de um bom site e dois com algumas deficiências):
https://www.mvc.pt/pt

Uma última referência, para um meio de informação digital cada vez mais importante, o Facebook, e um exemplo concreto dessa importância:
O texto A Ataíja de Cima e o Portugal 2020, foi publicado neste blog, no dia 17-02-2018.
Nove dias depois, no dia 26-02-2018 ao fim do dia, tinha apenas 19 visualizações. Partilhado então na minha página pessoal no Facebook, menos de 24 horas depois já tinha mais de 200 visualizações.


Estas são realidades que os empresários têm de ter presentes:

- A comunicação do nosso tempo é a comunicação digital.
- Um bom site na internet e uma boa página no Facebook[vii] podem ajudar a levar a empresa e os negócios muito mais longe e muito mais depressa.

 






[i] No caso das peças de pedra, geralmente de cor clara, o meu conselho é que se tenha uma parede livre pintada de cor escura (preto ou azul escuro) ou onde se possa pendurar um pano escuro e fotografar a peça tendo essa parede por fundo. É claro que há outras questões, como a iluminação etc., mas são coisas que se podem resolver com alguma facilidade, desde que haja a preocupação e o cuidado necessários.
[ii] Por exemplo, se buscarmos no Google Maps por Ricarle Stone Lda, vemos que a sua localização é indicada como situando-se na esquina entre a Rua dos Arneiros e a Rua do Martins.
[iii] Desactualizadas, para dizer o mínimo. Há uma empresa ataijense que, em três sites diferentes tem três moradas diferentes, uma delas a mais de cem quilómetros de distância.
[iv] Uma breve introdução ao benchemarking pode ser lida em http://www.pmelink.pt/manuais/planeamento-e-estrategia/como-fazer-benchmarking
[v] Entre outras deficiências, o site tem excesso de fotos, algumas delas em cenários pouco cuidados. Não é preciso mostrar tudo o que se faz. Basta mostrar o melhor que se faz).
[vi] Entre outras deficiências, o mapa no separador Gallery assinala a empresa em local errado e é de manuseamento (CTRL+Rollerball) excusadamente difícil. Por outro lado, se buscarmos no Google Maps por Destinos - Arte Cerâmica S.A, a morada está errada.
[vii] E, nunca serão bons sites nem boas páginas se não estiverem actualizados.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Ataíja de Cima e o Portugal 2020





O Portugal 2020[i] publicou, actualizada a 31-01-2018, a lista dos projectos co-financiados aprovados até àquela data para a Região Centro que, lembre-se, abrange uma vastíssima área correspondente a cerca de 30% do território continental, entre a margem esquerda do Douro e a margem norte do Tejo, abrangendo 100 municípios com uma população de mais de 2.300.000 pessoas, cerca de 23% da população do continente.
Na Região, os municípios com maior número de projectos aprovados e de despesa total elegível bem como de fundo total aprovado são, por ordem decrescente, Leiria, Marinha Grande, Coimbra, Águeda e Alcobaça, a que se segue Viseu que, relativamente a Alcobaça tem um maior número de projectos aprovados (112 e 119 respectivamente), no entanto, correspondentes a uma despesa total elegível de menos de metade do valor (Alcobaça 54.501.252,55€, Viseu 23.935.428,59€)

No que diz respeita a Alcobaça, temos um total de 112 projectos aprovados, promovidos por 70 empresas e pelo Município de Alcobaça, das quais 45 empresas com 1 projecto comparticipado, 19 com 2 projectos, 3 com 3 projectos, 2 com 4 projectos, 1 com 5 e O Município de Alcobaça com 7 projectos comparticipados

Por freguesias, verifica-se que as freguesias de Bárrio, Cela e Vimeiro, não têm projectos aprovados, a Maiorga tem 1 projecto, Alfeizerão, Évora e Turquel têm 2 projectos cada uma, seguindo-se São Martinho do Porto com 5 projectos, UF Alcobaça e Vestiaria com 11, Aljubarrota 15, Benedita 19, UF Cós, Alpedriz e Montes 24 e UF Pataias e Martingança 26.

No caso da União de Freguesias de Alcobaça e Vestiaria estão incluídos os 7 projectos de iniciativa municipal que, na sua maioria são a desenvolver noutras freguesias do município[ii].
Note-se que a afectação dos projectos por freguesia fizemo-la nós atendendo à sede ou instalações da respectiva empresa na área do município. Relativamente a 5 projectos não foi possível estabelecer relação territorial, sendo certo que as empresas promotoras não têm sede no município de Alcobaça, nem aí nos foi possível encontrar qualquer delegação, filial, agência ou similar.

Os 112 projectos aprovados no município de Alcobaça correspondem a um investimento total elegível de 54.501.251,55€ e a um fundo total aprovado de 33.763.489,61€ ou seja, o fundo total aprovado corresponde a uma comparticipação de 61,95% do investimento total elegível.


Os seis projectos aprovados, das cinco empresas ataijenses, uma do sector da cerâmica e as restantes do sector de transformação de rochas ornamentais[iii] que constam da lista, somam um investimento total de 3.103.002,29€ e um financiamento no âmbito do Portugal 2020 de 1.806.455,55€, correspondendo a, respectivamente, 5,69% e 5,35% dos valores do investimento total elegível e do fundo total aprovado a nível municipal.

Muito relevante é, a nosso ver, o facto de todos esses seis projectos terem sido aprovados ao abrigo do mesmo eixo de intervenção do Programa, o Eixo 2 – Competitividade e Internacionalização da Economia Regional (COMPETIR) e tendo por objectivos o aumento da capacidade produtiva por automatização de processos industriais, a alteração do processo de produção, a valorização da pedra natural, a inovação e a internacionalização das empresas.

A lista completa dos projectos aprovados no âmbito do Programa Operacional Regional do Centro pode ser consultada aqui:
http://centro.portugal2020.pt/index.php/projetos-aprovados




[i] Para saber mais sobre o Portugal 2020 – acordo entre Portugal e a União Europeia para a aplicação dos fundos europeus no período de 22014 a 2020 – e a sua aplicação na Região Centro, através do Programa Operacional Regional do Centro 2014 – 2020, Centro 2020, pode consultar-se  a brochura em PDF disponível online em: https://www.portugal2020.pt/Portal2020/Media/Default/Docs/Programas%20Operacionais/BROCHURAS%20PO/BrochuraCentro2020.pdf (consultado em 16-02-2018)
[ii] Informação mais detalhada sobre os projectos municipais comparticipados pode ser consultada, por ex., no site municipal em: http://www.cm-alcobaca.pt/pt/menu/1091/projetos-co-financiados-pela-uniao-europeia.aspx (consultado em 16-02-2018)
[iii] PSG Stone, S.A., Ceriart – Cerâmica Artística, S.A., Marmobaça – Indústria e Comércio de Pedras, Lda, MVC – Mármores de Alcobaça, Lda e Lareiarte – Arte em Fabrico de Lareiras, Lda.

sábado, 27 de janeiro de 2018

19º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense



Como vem acontecendo sem interrupção desde o ano de 2000, realizou-se no passado domingo, dia 21, terceiro domingo de janeiro, o 19º almoço anual do Salão.


Numa sala bem composta, desta vez com menos comensais do que tem sido costume, em grande parte devido ao falecimento do nosso conterrâneo Francisco Ribeiro Vigário que foi a enterrar no dia 20, cerca de 250 ataijenses e amigos reuniram-se para uma grande jornada de convívio.



Pela primeira vez tivemos entre nós o Sr. Padre Adelino Guarda que se mostrou genuinamente impressionado com a capacidade de união e realização ataijense.
Também pela primeira vez esteve connosco, em representação do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, o Vereador Sr. João Santos.


A Direcção em funções homenageou a antecedente oferecendo a cada um dos seus elementos uma pequena lembrança, como agradecimento pelo seu trabalho à frente do Salão no período de 2015 a 2017.
Homenagem justa, porque o salão só pode viver com o trabalho e a dedicação de muitos.



Foram apresentadas as Contas relativas a 2017, pelas quais se vê que o Salão dispõe de uma confortável situação financeira, sendo de salientar as receitas obtidas com o Festival das Sopas que, cada vez mais, se vem afirmando como um enorme êxito.
Por outro lado, verifica-se que apenas se gastou cerca de metade do valor do subsídio dado pela CMA para a remodelação do Largo do Cabouqueiro (e, que bonito ele está), o que só foi possível graças às muitas colaborações gratuitas que foi possível obter. O valor sobrante desse subsídio servirá para financiar as restantes melhorias que ali se pretendem introduzir a breve prazo, designadamente o arranjo do campo de futebol, incluindo a colocação de balizas, a construção de uma pista e a instalação de aparelhos de manutenção física.

Finalmente, importa dar nota de que foi publicamente anunciado que, como aliás já tinha sido publicado na folha paroquial, foram celebradas as escrituras de compra e a de doação feita pelos nossos amigos Rogério e Luís Vigário dos edifícios onde foram a casa e cómodos de seu avô Sabino Vigário para aí serem instaladas uma Casa Mortuária e outros serviços ligados à paróquia e à Capela de Nossa Senhora da Graça, designadamente instalações para a Catequese.
Atenta a grande área que assim fica disponível para o serviço da comunidade, pretende-se elaborar um projecto de grande qualidade que, muito provavelmente, há-de ser construído por fases, ao ritmo da capacidade da comunidade ataijense.
A Câmara Municipal de Alcobaça disponibilizou-se para oferecer o projecto. Estes assuntos, naturalmente sob a orientação e direcção do Sr. Padre Adelino Guarda, ficam a cargo da comissão da Capela de Nossa Senhora da Graça.

Por mais esta grande contribuição para o desenvolvimento local, é justo colocar aqui a foto dos irmãos Rogério e Luís Vigário, cuja boa disposição é ilustrativa do espírito que a todos animou durante este 19º Almoço Anual do Salão cultural Ataíjense.



Para o ano que vem, como sempre, no 3º domingo de janeiro, no dia 
20 de janeiro de 2019
Cá estaremos, para o 20º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense

sábado, 30 de dezembro de 2017

Aljubarrota, Prazeres. O ano de 1889 – Baptismos


A necessidade de alargar a ambas as antigas freguesias de Aljubarrota as pesquisas que sustentam os textos que aqui venho colocando, depara com alguns problemas de difícil solução. Sem embargo, as surpresas surgem-nos quando menos esperamos e disso é exemplo o livro de registos de baptismos da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, relativo ao ano de 1889.

Nesse ano foram baptizadas na freguesia 69 crianças, uma das quais exposta na Pedreira (Molianos). 39 eram rapazes e 30 raparigas e vieram à luz em 12 povoados diferentes, como se indica:
Boavista 13, Pedreira (Molianos) 12, Prazeres (casos em que o padre diz apenas que nasceram “nesta freguesia”) 10, Carvalhal 9, Chequeda e Lagoa do Cão 6 em cada, Lameira 4, Ganilhos 3, Fonte do Ouro e Covões 2 em cada e, finalmente, 1 no Carrascal e 1 exposta.

Destas crianças, 11 eram filhos naturais, quer dizer, de mãe solteira e, em regra, pai desconhecido[i].

Quem eram estas mães? Infelizmente, a idade das mães não consta dos registos de nascimento e, obter essa idade[ii] seria tarefa muito difícil e, em alguns casos, impossível. Não fora assim e talvez pudéssemos confirmar com números o que apenas intuímos: que a idade média das mães de filhos naturais é bastante precoce, designadamente por comparação com a idade das demais mães aquando do nascimento do seu primeiro filho legítimo[iii].

Sabemos, por outro lado, as suas profissões ou ocupações.
Quanto a este ponto, aliás, importa ter presente que, se por um lado o padre era em geral muito rigoroso, distinguindo, por ex. entre profissão, (fulano, pedreiro) e ocupação (sicrana, de ocupação doméstica) por outro lado, na maioria dos casos limitava-se a enunciar uma profissão como comum ao casal (António … e Maria … moleiros, por ex.). Há, ainda, que atentar que as profissões indicadas eram resultado do conhecimento pessoal do padre ou de declaração dos interessados. É, por isso, frequente a profissão de uma determinada pessoa variar de assento para assento. Proprietário aqui é lavrador acolá e trabalhador, ou jornaleiro, em outro assento.
O que podemos concluir com relativa segurança é que, proprietário ou lavrador, trabalhador ou jornaleiro, era pessoa que vivia da terra, fosse trabalhando, fosse mandando trabalhar.
Já quando se indica como profissão uma certa arte ou ofício, podemos considerar com alguma segurança que isso correspondia de facto a mister exercido, fosse a título exclusivo, principal, sazonal ou, até, ocasional.
Inequívoca é a indicação de que se trata de criado (ou criada) de servir. Aqui, não há qualquer espécie de dúvida. Trata-se de alguém que vive sozinho em casa de outrem, em regra em aldeia diferente da de nascimento e residência da família e aí trabalha, de cama e mesa.
O criado ocupa os lugares mais baixos da escala social, apenas acima do mendigo e a par ou abaixo do enjeitado[iv] que, quando era criado de leite, se tornava por vezes uma espécie de meio-irmão dos filhos da ama.

Quem eram, então, quanto à profissão/ocupação, as mães das 69 crianças nascidas na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres no ano de Graça de 1889?
41 eram jornaleiras, 11 lavradoras, 8 domésticas, de 4 não sabemos a ocupação, 3 eram criadas de servir e, por fim, temos 1 moleira e 1 proprietária.
Destas 69 mães, 11 foram mães solteiras, das quais o padre declarou serem 5 domésticas, 3 criadas de servir e sobre 3 não deu informação de ocupação/profissão.
Quanto à naturalidade dessas 11 mães, apenas 4 eram naturais da freguesia de Prazeres (e, presume-se, da aldeia onde foram mães[v]), 3 eram expostas, 2 da freguesia de Pataias, 1 do Valado dos Frandes e 1 de Alcanede.
Das 3 criadas de servir 2 eram da freguesia de Pataias e 1 exposta.
Note-se, ainda, que das 3 mães de que o padre não indicou profissão/ocupação 2 eram expostas.

Um ano é, obviamente, curto espaço de tempo para se tirarem conclusões. Mas, não podemos deixar de chamar a atenção dos nossos eventuais leitores para o elevado número de crianças nascidas de mães solteiras e, ainda, para o facto de que a maioria destas não era natural da freguesia. Tal como é de atentar em que 3 eram criadas de servir e de outras 3 não sabemos a ocupação, mas sabemos que 2 delas eram expostas e a terceira expôs[vi] o filho.
Seja, tudo aponta para que o isolamento familiar e social e a dependência são factores muito presentes nestes casos de maternidade de mulheres solteiras.

Como já acima referimos, uma das crianças foi exposta na Pedreira (Molianos). Trata-se de um caso apesar de tudo insólito, porquanto a exposição de crianças tinha geralmente lugar junto de estabelecimentos receptores (“rodas”) ou em locais onde, presumivelmente, haveria mais facilidade de a criança ser encontrada e acolhida. Abandonavam-se crianças às portas dos ricos, do padre ou da igreja na madrugada de domingo. Seria curioso saber quem era a Manoella da Piedade para, talvez, perceber porque é que a criança foi abandonada à sua porta e não à porta de outra pessoa:

“Aos dez dias do mês de Julho do anno de mil oito centos e oitenta e nove nesta egreja parochial de Nossa Senhora dos Prazeres d’Aljubarrota baptizei solennemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Arthur que foi apresentado em casa de Manoella da Piedade, casada, da Pedreira desta freguesia com um bilhete indicando o dito nome e declarando ser filho de Luiza Caçadora que o dera à luz no dia vinte dois de Junho último à meia-noite neto materno de António Rebotim e Maria Caçadora todos da freguesia do Vallado, concelho e diocese supraditos. Foi padrinho Raimundo Manoel, casado, jornaleiro e madrinha Manoella da Piedade, casada, de ocupação domestica, os quaes sei serem os proprios. E para constar lavrei em duplicado este assento,que depois de lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignou o padrinho e não a madrinha por não saber. Era ut supra.
Raimundo Manoel
O Parocho Joaquim Henriques Farto



Moderna “roda de expostos” num hospital de Dortmund, Alemanha.
Foto Reuters, picada do artigo “O regresso da roda dos expostos”, publicado no Expresso de 28.10.2012 (http://expresso.sapo.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582, consultado em 30-12-2017)





[i] Quase sempre, o pai não era, exactamente, desconhecido. Apenas, por razões diversas, não assumia a paternidade.
Note-se que, num destes casos, o pai era conhecido: “…filha natural de Joaquina da Piedade, solteira, de ocupação doméstica, natural da freguesia d’Alcaneide, concelho de Santarem, diocese de Lisboa e Raimundo Ferreiro, solteiro, trabalhador, natural do dito Carvalhal …”.
[ii] Em regra, por recurso aos assentos de casamento e óbito que, esses sim, indicam a idade do nubente ou falecido.
[iii] Legítimo era o filho concebido no âmbito do casamento de seus pais.
[iv] Ser criado de servir era, aliás, um destino natural dos enjeitados.
[v] E, onde viviam os seus pais.
[vi] Ou, alguém por ela.