domingo, 17 de abril de 2022

A descalçadeira

 

A descalçadeira é, dizem os dicionários, um utensílio para ajudar a descalçar as botas.

E, descalçar a bota é, por definição, uma tarefa difícil.

Daí a extrema utilidade da descalçadeira, instrumento que, no tempo das botas de elástico, era de uso obrigatório em todas as casas camponesas e ainda hoje é de enorme utilidade, desde logo para ajudar a descalçar botins.

O objecto em si é de uma simplicidade e eficiência espantosas: Uma simples tábua de madeira em cuja parte inferior se prega uma travessa destinada a elevar a parte dianteira onde um corte em V permite entalar o tacão da bota. Segura-se a tábua pisando-a com o outro pé e, é só puxar o pé que se quer descalçar que ele sairá facilmente de dentro da bota.

Tenho uma que uso há uns vinte e cinco anos e foi construída num dia em que o meu pai andou a ajudar-me a plantar uma sebe de cedros e, acabado o trabalho, ao fim da tarde, me perguntou: Tens uma descalçadeira? Pois! Não tinha!

Sem se atrapalhar, procurou um pouco em redor, onde ainda havia restos de madeiras que tinham sido usadas nas obras de construção da casa. Pegou num serrote, um martelo e dois pregos e alguns minutos depois estava construída a descalçadeira que, logo ali, foi útil a ambos e amanhã, espero, hei-de voltar a utilizar.

No que de mim depender esta descalçadeira ainda vai durar muitos anos.

Gosto muito dela.

Porque quando a olho ou a uso me faz recordar o meu pai e porque é uma peça muito útil, extraordinariamente simples, funcional, eficaz e eficiente. Um aparelho sem defeito.




segunda-feira, 21 de março de 2022

Ataíjenses nas Américas (II)

 

No final do século XIX e nas primeiras décadas do séc. XX verificou-se um período de forte emigração, essencialmente com destino ao Brasil e aos Estados Unidos da América.

Entre 1900 e 1930 terão emigrado para o Brasil uns 750.000 portugueses, cerca de três quartos do total de emigrantes do período. Entre esses emigrantes para o Brasil encontravam-se, já o sabíamos, os ataíjenses António e Luís Ribeiro, de quem já falámos neste blog no texto Dois Ataijenses na Amazónia

Eis que agora, quando procurávamos vestígios de um outro ataíjense que andou emigrado na América, não encontrámos o que procurávamos, mas, em compensação, encontrámos quatro novos emigrantes ataíjenses e mais elementos sobre os irmãos Ribeiro. É o que justifica este terceiro texto dedicado à emigração ataíjense (depois do já referido Dois Ataíjenses na Amazónia e um outro texto, mais antigo, Ataíjenses na(s) América(s) escrito quando eu ainda não tinha identificado qualquer ataíjense como emigrante no Brasil.

Vejamos então os resultados de uma consulta aos Livros de Registo de Passaportes, do Arquivo Distrital de Leiria, relativos ao 2º semestre de 1911:

António Catarino,

Nascido em 10-11-1892, filho legítimo de José Catarino (dos Casais de Santa Teresa) e de Maria Carvalho, com a idade de 18 anos emigrou para Nova Iorque, tendo-lhe sido concedido passaporte em 24-08-1911.

Manuel Coelho,

nascido em 11-08-1885, também emigrou para Nova Iorque, com a idade de 26 anos e sendo já casado, tendo-lhe sido concedido passaporte em 24 de Agosto de 1911.

Era filho de Ângelo Coelho e de Luísa Maria, neto paterno de Joaquim Coelho e de Maria da Costa e materno de Tomás de Sousa e Maria Joaquina.
Não é o Manuel Coelho, nascido em 1879, filho de João Coelho e Maria Teresa ou Maria de Sousa, que também terá emigrado e foi casado com Felismina Maria.

António Ângelo,

Nascido em 17-02-1892, filho de Manuel Tomás e Cristina Santa, neto paterno de Tomás de Sousa e de Maria Joaquina e materno de Ângelo da Silva e Maria dos Santos, emigrou aos 19 anos para Nova Iorque, tendo-lhe sido concedido passaporte em 24 de Agosto de 1911.

Parece tratar-se do sogro da minha tia Angélica da Graça e pai de António Ângelo (o Rospiço), João Ângelo (o João Santo, marido da minha tia) e Manuel Ângelo, o Piquete

O António Ângelo e o Manuel Coelho eram primos, por serem netos de Tomás de Sousa e de Maria Joaquina e, por isso, parentes de Abílio Tomás de Sousa, recentemente falecido

 

Mais para o final desse ano de 1911, outros três ataíjenses haviam de emigrar, estes com destino a Manaus, na Amazónia Brasileira, que nesse tempo apresentava grande desenvolvimento devido à florescente actividade de extracção da borracha. Foram eles:

Manuel dos Santos,

Nascido em 16-05-1889, filho de António dos Santos e de Joaquina Dias, foi-lhe concedido passaporte em 30-10-1911, tinha 21 anos.

António Ribeiro,

Nascido em 22-08-1888 filho de José Ribeiro, pré-falecido, e de Maria de Jesus, foi-lhe concedido passaporte em 02-11-1911 quando tinha 23 anos. e veio a morrer, em data e circunstâncias que ainda não logrei apurar, mas, aparentemente, antes de 1920 ou 1921.

Luís Ribeiro,

Nascido em 01-05.1890 (e falecido em 12-05-1979, no Rio de Janeiro), irmão do anterior, foi-lhe concedido passaporte em 30-10-1911 quando tinha 21 anos.
Abandonou a Amazónia após a morte do irmão e instalou-se no Rio de Janeiro onde foi comerciante, constituiu família e mantém descendência.

 

Todos estes ataíjenses eram jornaleiros quer dizer, trabalhavam no campo, contratados ao dia, à jorna, e, naturalmente, apenas quando havia trabalho. Só um, o Manuel Coelho, era casado e, também, o mais velho, de 26 anos de idade. A idade dos demais, variava entre os 23 anos do António Ribeiro e os 18 do mais novo, o António Catarino. Os registos de passaporte contêm a indicação escreve/não escreve e metade deles não escreve.


O luxuoso Teatro Amazonas, em Manaus, inaugurado em 1896, símbolo das riquezas obtidas na extração da borracha

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Lagoa Ruiva, nome de azeite

 

O espaço fronteiro à quinta onde se insere a Casa do Monge Lagareiro e houve o Lagar dos Frades, espaço esse actualmente ocupado pelo campo de futebol e pelo Largo do Cabouqueiro, era o Rossio da Lagoa, espaço público (é esse o significado da palavra rossio) em cujo centro se desenvolvia a Lagoa Ruiva, a maior lagoa que havia em toda a região.

Os mais jovens já não conheceram a lagoa, entulhada no início dos anos de 1990 por, com a chegada do abastecimento de água ao domicílio, se ter então acreditado que era inútil.

No entanto, a lagoa foi, durante séculos, a única reserva de água que permitiu saciar animais e lavar roupas. Era assim por toda a falda da serra dos Candeeiros, no grande semi-planalto que a bordeja a oeste, numa extensão que vai das Pedreiras à Venda das Raparigas. A água para consumo humano, essa, era armazenada em cisternas que, no inverno, se alimentavam das beiras dos telhados ou das escorrências dos terrenos.

Porque a água é indispensável na fabricação do azeite, foi nas margens da Lagoa Ruiva que se instalaram os lagares. Primeiro, o Lagar dos frades Bernardos, construído na segunda metade do séc. XVIII e que se manteve em funcionamento até à década de 1920. Depois, o Lagar agora chamado Lagoa Ruiva, o único ainda em funcionamento, construído em data incerta, no séc. XIX mas, seguramente, antes de 1894, data desde a qual se tem mantido na mesma família. Adossado a este, o lagar que foi de José Ribeiro, construído nos inícios do séc. XX e do qual sobram escassas ruínas e, finalmente, o lagar do Guincho, construído já na década de 1920, por Matias Ângelo e por ele destinado ao processamento da azeitona do Olival dos Frades que, entretanto, tinha adquirido. Este lagar ainda laborou na posse do genro de Matias Ângelo, Francisco dos Casais, mas com a morte deste entrou em ruína, foi desmantelado e no seu lugar encontra-se, desde há anos, a serralharia Soltage.

Numa aldeia que nas últimas décadas deixou de estar sujeita à pobre agricultura de subsistência a que durante séculos esteve amarrada, o lagar do Vigário - o Lagar da Lagoa Ruiva - nunca deixou de laborar e tem conhecido nos últimos anos, pela mão do meu amigo Pedro Vigário, um sopro de renovação que, a par com um crescimento sustentado de novos olivais e consequente aumento da produção local de azeite, após a quebra verificada nos finais do séc. XX, lhe auguram um futuro longo a acrescentar ao muito passado que já carrega.





quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Gente da Ataíja de Cima - António Baptista Vigário - o António Sabino



Sob a epígrafe Gente da Ataíja de Cima pretendemos construir uma galeria que lembre aos mais velhos e ensine aos mais novos, algumas pessoas que, pelas suas características ou pela sua acção deixaram, na vida da aldeia, uma marca de importância que merece ser conhecida.
A transição da economia agrícola de subsistência, que durante séculos caracterizou a vida local, para a economia industrial que começou (e continua) pela extracção de pedra (a apreciada rocha ornamental que tem a designação comercial de Vidraço de Ataíja), a que se seguiu a faiança e agora, a transformação de pedra e todas as actividades subsidiárias que entretanto foram surgindo, por serem indispensáveis à vida normal de uma comunidade industrial e ao evoluir dos tempos. Essa transição, dizíamos, também teve os seus protagonistas.
Já falamos neste blog do pioneiro João Veneno e de Luís da Graça (VER AQUI).

Falemos, agora, de António Baptista Vigário, o António Sabino.



Nascido em 6 de Julho de 1932, foi um dos três filhos de Sabino[i] Vigário e de Joaquina Baptista e, pelo lado paterno, neto de José Lourenço e Luísa Sabino, alfaiates e bisneto de José Vigário e Ana Lourenço e de Sabino dos Santos, também alfaiate e Maria Branca.
Teve dois irmãos:
José, o mais velho dos três, já falecido e que fez a maior parte da sua vida “lá para Lisboa”[ii], também teve por alcunha o nome do pai e foi, por sua vez, ao que se dizia, responsável pela alcunha do Manuel “Mochila”. É que o José Sabino era acordeonista ou aprendiz de acordeonista[iii] e, transportava o instrumento às costas, à laia de mochila. O dito Manuel “Mochila” nasceu de mãe solteira e mais não é preciso contar que os filhos de mãe solteira eram, sempre, alcunhados por referência ao pai presumido.
O outro irmão, o mais novo, é o Arnaldo que, pela raridade - durante décadas, mesmo, singularidade - do nome, nunca precisou de alcunha.

Desde novo que o António Sabino mostrou apetência para os negócios e pouca vontade de seguir as pisadas do pai que era carreiro[iv] profissional e, nos tempos mortos da sua actividade principal, também arriscava o ofício de sapateiro, o qual exercia na Casa do Couto.
Negociar tudo o que podia ser negociado, fossem peles de coelho ou chinelos velhos e, no devido tempo, candonga de azeite, foram actividades a que o António Sabino se dedicou logo na adolescência, muitas vezes tendo por companheiro de aventuras o amigo Luís da Graça, apenas alguns meses mais velho.
Os negócios corriam bem como o demonstra o facto de, aos dezoito anos, ter sido emancipado para poder tirar a carta de condução e, de seguida, comprar (já nem o próprio se lembra bem, se em 1950, se em 1951) um automóvel, um velho Opel que foi o primeiro veículo automóvel ligeiro de passageiros que houve na Ataíja de Cima. (VER AQUI)

Em 4 de Março de 1956, aos 23 anos de idade, essa tendência para o negócio ficou definitiva e necessariamente fixada. Nesse dia, quando ia à "pendura" na moto (eu tinha a memória de que era uma Norton mas, há quem jure que era uma AJS) do seu amigo António Faustino Ribeiro, “O Mosca” o qual, por vezes, também era companheiro nas aventuras da candonga do azeite[v], um grave acidente levou-o por largo tempo ao hospital, deixou-o a coxear para o resto da vida e livrou-o, de vez, de ter de vir a trabalhar no campo ou em outra actividade de igual exigência física.

Por essa altura, tinha sido construída no Largo do Outeiro a “casa do Maneta”, destinada a armazém de alfaias, adubos e produtos agrícolas, taberna e casa do rancho[vi].
Curado tomou então, em 1957, a exploração da taberna e aí ficou durante cerca de seis anos, até ao seu casamento, em 1963.

Em 1959, tornou-se um dos pioneiros da exploração da pedra VIDRAÇO de ATAÍJA, abrindo uma pedreira nos Caramelos.
A pedreira ainda existe. É a Pedreira “Caramelo 3”, propriedade de Mármores Vigário, Lda.

Em data que não consegui apurar, por volta de 1969/70, foi episódico (durante cerca de um ano) proprietário, ou co-proprietário da Safaril[vii], a primeira fábrica de faiança que existiu na Ataíja de Cima[viii].

Em 1984 entrou em novo ramo de negócio abrindo, sempre na Ataíja de Cima, uma fábrica de recauchutagem de pneus.

Entretanto, em 1963, tinha-se casado com Maria do Rosário, oriunda das Pedreiras e, infelizmente, precocemente falecida. Para instalar a nova família, comprou a casa e quintal da Benedita (a Benedita era uma senhora que sempre conheci viúva e, vim a sabê-lo mais tarde, o era de um marido que tinha falecido “na América”, não tenho a certeza se nos EUA se no Canadá) e aí construiu uma casa de dois pisos, sendo o primeiro andar destinado à habitação e o rés-do-chão a taberna e mercearia.
Esta foi a primeira casa da Ataíja de Cima equipada, de raíz, com casa(s) de banho(s) (2).


Hoje, aos 82 anos de idade, o António Sabino contempla, com justificado orgulho, o trabalho dos filhos, o Rogério e o Luís que dão, brilhantemente, continuidade ao pioneirismo do pai, dedicando-se à extracção e transformação de pedra, através das empresas Mármores Vigário, Lda e MVC - Mármores de Alcobaça, Lda.

À MVC – Mármores de Alcobaça, Lda., uma empresa com instalações fabris de grande dimensão, altamente sofisticada, dotada dos equipamentos e tecnologias mais modernas, o que lhe permite produtos de grande qualidade e, consequentemente, actuar nos mais exigentes mercados de exportação, já dedicamos um texto neste blog. (VER AQUI)

Sítio de internet da MVC – Mármores de Alcobaça, Lda:




_______________________________________________

O texto acima foi publicado neste blog em 27 de setembro de 2014.

António Baptista Vigário, António Sabino, faleceu hoje, dia 04 de novembro de 2021, aos 89 anos, escassos dias após o seu amigo de sempre, Luis da Graça. Com ele, com eles, morre a geração de pioneiros que levou a Ataíja de Cima da agricultura de subsistência à economia industrial.






[i] Como é muito comum, o nome próprio do pai tornou-se alcunha do filho.
[ii] “lá para Lisboa” era uma expressão corrente que muitas vezes ouvi na boca de mulheres mais velhas que só escassamente faziam idéia de onde andavam os seus maridos e filhos.
[iii] É minha a hipótese de ter sido, apenas, aprendiz e nunca terá efectivamente feito carreira de acordeonista ou, então, desistiu cedo dela. É que nunca lhe conheci acordéon e nem me lembro de alguém, alguma vez, me ter dito que o ouviu tocar.
[iv] Carreiro, era o profissional que conduzia o seu carro de bois, com o qual faz transportes e, com as alfaias, - charrua, grade, trilho, etc. - prestava outros serviços agrícolas com a sua junta de bois (ou vacas, o que era o caso). Não confundir com abegão que desempenhava funções semelhantes mas enquanto trabalhador ao serviço de uma exploração agrícola.
[v] O cerrado controlo estatal sobre os abastecimentos alimentares que tinha atingido o seu pico durante a guerra com o racionamento, era o pretexto perfeito para o trânsito ilícito dos bens mais valiosos como o azeite.
[vi] Naquele tempo, em que não havia empregos fixos, eram cíclicas as deslocações de grandes grupos para tarefas agrícolas exigentes de muita mão-de-obra. Para a Ataíja, cujos campos eram um enorme mar de oliveiras, vinham, no devido tempo, grupos de pessoas – ranchos - de fora da aldeia para trabalhar na apanha da azeitona.
[vii] A fábrica começou a ser construída em 1969, na perspectiva da chegada da electricidade que viria a acontecer em Outubro desse ano. Embora a escritura de constituição da Safaril seja de 1972, o início da laboração é anterior.
[viii] Que adquiriu a uns tais Caetano e Fróis que julgo terem sido os empreendedores iniciais. Daquele Fróis, lembro-me de um dia em que, na adega do meu pai, bebeu mais do que a conta e foi o filho, então com uns escassos doze anos, quem conduziu o carro até a casa.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Na Infância da Minha Avó Maria Lourenço - A Madrasta

 


Nascida em 27 de Outubro de 1881, a minha avó Maria Lourenço casou-se, em S. Vicente de Aljubarrota, em 20 de Janeiro de 1902, com Joaquim Coelho que também assinava Joaquim Coelho Quitério, tinha ela 20 e ele 24 anos de idade, ambos solteiros e jornaleiros.

Era filha de Joaquim da Graça, carpinteiro e de Maria Lourenço ou Maria Felizarda, que depois de um curto casamento de oito anos faleceu em 3 de Novembro de 1888, aos 32 anos, pouco mais de um mês depois do filho(a?) mais novo, este falecido em 27 de Setembro anterior, com a idade de um ano e dez dias e deixando órfãos a minha avó e um irmão, Joaquim como o pai, esse então com quatro anos de idade, nascido em 29 de Setembro de 1884.

O seu avô paterno, o soldado reformado João Maria de Sousa Cláudio, de quem ela me havia de contar, setenta anos depois, tantas histórias de batalhas com franceses e das destruições cometidas pelos invasores cerca de setenta anos antes do seu nascimento, esse avô faleceu em 1884, com a bonita idade de noventa e cinco anos. Não foi, pois, a ele que a minha avó ouviu as histórias que me contava. A minha trisavó Maria da Graça, companheira do soldado Cláudio durante largas décadas, essa, faleceu em 1894 e bem podia ter contado à neta alguns passos da vida aventurosa do marido e outras histórias que terá aprendido com os próprios pais e vizinhos dessa geração, ela que, nascida em 1814, chegou a este mundo ainda estavam fumegantes os destroços das Invasões Francesas.

O meu bisavô Joaquim da Graça, viúvo aos trinta e cinco anos e com dois filhos tão pequenos não tinha maneira de levar a vida e não era a sua mãe já velha e viúva que o podia ajudar. A solução era, como foi, após menos de dois anos de viuvez, um segundo casamento.

É assim que a jovem Mariana Coelho, dos Casais de Santa Teresa, ainda menor de vinte anos, se viu levada ao altar e, com o necessário consentimento do pai, arranjou de uma assentada marido e duas crianças. Havia, o casal, de lhes juntar mais outros sete filhos.

As pessoas tendem a ver com romantismo estas histórias dos tempos antigos. Mas elas tinham muito pouco de romance, e muito menos de romance cor-de-rosa.

A pobre da Mariana, que me esforço por compreender e não julgar, não era, segundo os testemunhos que me chegaram, pessoa exemplar. Ainda há poucos anos a minha amiga Morena, bisneta da Mariana, me contava como, tendo ela própria ficado órfã de mãe antes dos sete anos de idade e tornada desde então a mulher da casa, com dois irmãos mais novos para cuidar, aprendeu cedo a levantar a cara e enfrentar os desafios que a vida lhe vai lançando. Foi assim que, muito tempo após o falecimento da Mariana, sendo a Morena ainda pré-adolescente, se viu numa discussão com a ti Joaquina Porfíria que, irritada por a pequena não ceder numa questão sobre galinhas que não atentaram nas extremas e foram debicar umas couves que não deviam, terminou a discussão gritando alvoroçada:

- “És uma malcriada! És bisneta da Mariana Raposa! Aquela punheta! ... Deus me perdoe …, por alma dela Pai Nosso!”

Não sei qual era a razão de tais azedumes, mas talvez o facto de terem sido vizinhas e as relações de afinidade ajudassem (a Joaquina Porfíria, era sobrinha do marido da Mariana e devia, por isso, de acordo com o costume, chamar-lhe tia).

 Certo, é que a alcunha de Raposa se devia ao facto de sobre a Mariana impender a acusação de ter roubado uma galinha.

Da minha avó recordo a tristeza com que me contava como o seu irmão Joaquim, que diariamente era recordado nas orações da noite que sempre antecediam a ida para a cama, tinha morrido, de desgosto e saudades de casa, dizia ela, durante o serviço militar, sem ter tido tempo de habitar a casa que construiu e hoje é a minha sala.

E recordo os lamentos e a amargura com que sempre evocava os tempos em que teve de conviver com a madrasta, uma mulher que segundo ela a não amava nem amava o marido e não sabia cozinhar.

O facto de o meu bisavô ser carpinteiro não o livrava da pobreza, às vezes, quase miséria. Ali na borda da serra, que ainda em meados do século XX eu conheci tão pobre, um oficial, fosse carpinteiro, pedreiro, sapateiro ou de outro mister, só o era a tempo parcial, à medida das necessidades dos pobres vizinhos.

Não havia oficina, mas apenas um limitado conjunto de ferramentas e a obra fazia-se em casa do cliente, levando-se as ferramentas numa alcofa ou nuns alforges e ia também, a maioria das vezes às costas, o banco de carpinteiro, um meio tronco suportados por quatro pés oblíquos, o lado plano virado para cima, em cujo extremo estava pregado um pedaço de tábua com um recorte em V, onde se fixavam as peças a trabalhar.

Às vezes, o contrato com o cliente incluía o almoço. Não foi o caso naquele dia em que, contava-me a minha avó, ela criança foi encarregue pela madrasta de um trabalho típico das crianças, o de ir levar o almoço ao pai, almoço que era também o seu.

Naquele dia, sentados a uma sombra, munidos cada um de sua colher com que haviam de comer do mesmo tacho, o meu bisavô desatou o lenço que amarrava o testo e provou o almoço, uma espécie de sopa de serralhas cozidas em pouco azeite.

- Não tenho fome, disse ele tristemente. E ficaram, ambos, abraçados e em silêncio, sem almoço.



A casa onde eu ainda conheci o Mariola e a Marreca, filhos solteiros da Mariana, é hoje uma ruína. Ao lado, com a porta de zinco, percebe-se o que foi a pequena casa (então com um minúsculo alpendre), onde ainda conheci Porfírio dos Santos, pai da Joaquina Porfíria

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Memórias da minha avó Maria Lourença e da sua amiga Maria Coelha

 

 

A minha avó Maria Lourenço, era analfabeta e, nascida e vivida na Ataíja de Cima, não tinha ido mais longe do que Alcobaça em dia de mercado, ou Fátima, em peregrinação pedestre.

Também foi, pelo menos uma vez, de férias à Nazaré, acho eu que na primeira semana de Setembro de 1954. Setembro era, naquele tempo, o tempo de os camponeses irem à praia. Lembro-me disso porque tinha eu uns seis anos e também fui e essas férias ficaram-me gravadas na memória, por ter então assistido a uma série de notáveis e impressionantes episódios, como já vos contei noutro lugar

 Mais velha, perto dos 78 anos, em 1960, foi também a Lisboa e andou de Metropolitano, acabado de inaugurar.

Não que o quisesse.

Que tinha muito tempo para ir para debaixo da terra, teimava com os netos que queriam, à viva força, pô-la ao par do progresso. Mas, gostou daquele comboio que ainda cheirava a tinta, quase não fazia barulho, não produzia fumo e era rápido. Tão rápido que, chegados à estação de destino, a exclamação foi: Já!?

 

Mas, de como me lembro realmente da minha avó, é nós ambos, sentados frente a frente, dentro da chaminé da velha casa onde vivíamos, quando na lareira, depois da ceia, crepitava um lume pequeno e rezávamos orações pelo eterno descanso dos parentes falecidos, invocados um a um. Nunca nenhum era esquecido e, de todos, tenho especialmente viva a lembrança do irmão Joaquim, falecido jovem, de desgosto e saudade contava-me ela, durante o serviço militar, ainda no tempo dos Reis e esta era apenas uma das muitas histórias que ocupavam esses serões.

 Se não estávamos à lareira, ela contando e eu ouvindo, andávamos.

É isso. É, também assim que recordo a minha avó: andando.

Íamos à missa a Aljubarrota, saía-se ainda escuro que o Padre Casimiro era homem duro e, penso agora, convicto de que a fé exige sacrifício, gostava de dizer a missa bem cedo. Ou, talvez fosse apenas conhecedor da difícil vida dos seus paroquianos e sabedor de que após a missa, mesmo no dia do Senhor, havia muito para fazer.

Toda a aldeia ia à missa, deslocando-se em pequenos grupos familiares ou de vizinhos, duas, três ou meia dúzia de pessoas, uma procissão anárquica coleando pelas curvas da estrada, a caminho de S. Vicente.

Do nosso grupo fazia parte a ti’Maria Coelha que nos esperava na porta.

Quando penso nisto fico sempre um pouco intrigado, porque já não sei se o grupo era só assim. Então, e a Joaquina, filha solteira e coabitante da ti’Maria Coelha e a minha prima Isabel que a avó e a tia criavam, não iam connosco? Se calhar não. De certeza que não. A ti’ Joaquina Coelha era mulher desembaraçada e de andar firme e apressado e, católica militante, havia de ter compromissos na Paroquial de que, aliás, havia de ser uma das zeladoras e, nesse caso, teria ido mais cedo. Se assim era, a Isabel não deixaria de ser arrastada pela tia.

E a tia Pequena e o marido e os filhos, meus primos também, que necessariamente tinham de nos passar à porta para ir à missa? E a tia Papoila e os dela que, tal e qual? E, os do tio Porfírio que a caminho de Aljubarrota haviam também de passar na nossa porta?

 A verdade é que a aldeia não tinha esses tiques urbanos do vamos juntos.

Ali era mais, ala que se faz tarde, cada um trata do que é seu mester e logo mais quando for o dia da festa então, juntamo-nos todos e dançamos e cantamos e as mulheres riem e os homens bebem. Ou então hoje não é dia de folguedos e,

E lá íamos os três, eu de garoto, elas de saia preta até aos tornozelos, lenço preto como pertencia às viúvas, que hoje por ser Domingo ia atado no alto da moleirinha, depois de as pontas darem uma volta na nuca, abaixo do carrapito, deixando ver o lóbulo das orelhas onde pendiam velhas arrecadas.

Sobre o lenço um chapéu de abas pequenas e reviradas para cima e, sobre ele, cuidadosamente dobrado ou cobrindo os ombros, conforme o pedia o tempo que fazia, o xaile.

Tudo preto como, repete-se, pertencia às viúvas.

 Se não era Domingo e não íamos à missa, eu a minha avó caminhávamos pela aldeia. Nunca em percursos aleatórios. Nunca a andar por andar, antes, sempre com destino e objectivos claros: visitar uma amiga doente, ou este ou aquele filho com o qual havia alguma coisa a tratar, vigiar os terrenos que pertenciam às “folhas” dos dois filhos emigrados, o ti Zé, a que muitos anos mais tarde havíamos de chamar o Francês – naquele ano de 1956 em trânsito de Agadir, no Marrocos agora independente, onde lhe nasceram os filhos e lhe morreu a mulher e a França que o havia de acolher até à reforma e deu a nacionalidade aos seus filhos, netos e à bisneta que ele já não conheceu – e o meu pai em Lisboa, nesse ano feito estudante noturno, em busca do exame e diploma da quarta classe que lhe havia de permitir obter a carta de condução, deixar a venda de leite e tornar-se motorista de táxi.

Naquelas andanças com a minha avó eu, curioso, debruçava-me, às vezes e apanhava coisas. É. Nunca fui caçador mas sempre me senti bem na pele de recolector, juntar é, ainda, um gosto e nem vos digo da quantidade de colecções que iniciei e nunca passaram de ajuntamentos.

Alexandre dos Cavacos, chamava-me a minha avó, mulher a quem a vida escassa ensinara a preocupar-se apenas com o essencial e a juntar e a guardar, apenas tudo o que era ou podia ser útil, como botões de roupa velha antes de ir a rasgar, cortando-se em tiras que se enrolavam em bolas, para fazer mantas de trapos.

Em casa da ti’Maria Coelha havia um tear, num quarto pequeno que estava junto à cozinha e tinha uma janela para o pátio, o sul e o sol que alumiava o trabalho da tecedeira.

Mas, que me lembre, nunca vi a ti’Maria Coelha tecer.

Poucos anos antes, em 1950, ainda ela tecia mantas e tapetes de trapos, como já contei. Mas o que a seguir vos digo há-de ter-se passado na segunda metade da década e, nesse tempo, já ela estava mais perto dos oitenta que dos setenta anos, em idade boa para a reforma e má para trabalhos que exigiam vista apurada e gestos firmes. De resto, era a filha que agora, com genica, governava a casa. Para trás tinham ficado 35 anos de viuvez. Anos difíceis, a sustentar a casa e criar os quatro filhos que o marido lhe deixou, o mais novo com apenas um ano de idade, quando morreu pela pneumónica, faz agora cem anos.

Na parede da casa de fora da ti´Maria Coelha estava pendurado um retrato de um homem bem posto. Era o falecido marido e o retrato tinha tirado em New Beresford, no Massachussets, aquando da sua aventura americana.
De vez em quando, a ti'Maria Coelha olhava o retrato com desvelo:

- Ai o meu Francisquinho. Era tão bonitinho! ... raios o partissem, batia-me tanto!

 




terça-feira, 30 de março de 2021

Um “marroquino” no Carrascal

 


No livro dos casamentos da freguesia de N. S. dos Prazeres de Aljubarrota surge-nos, em 21 de setembro de 1790, o casamento de António de Melo enjeitado do Hospital Real da Cidade de Marzagam.

Ora, Marzagam, Marzagão, há, pelo menos, três:

A freguesia de Marzagão, em Carrazeda de Ansiães;

Um município no Estado de Goiás, no Brasil, fundado no Século XX e actualmente com cerca de 2.500 habitantes;

Um distrito, no município de Rosário Oeste, no Estado do Mato Grosso, no Brasil, igualmente fundado no Século XX e actualmente com cerca de 1.400 habitantes;

Nenhuma destas teve alguma vez um Hospital Real pelo que não era a nenhuma delas que o padre se referia.

Mazagão é nome parecido, mas há também diversas. Vejamos:

Mazagão (Mazagaon), no século XVI uma ilha e hoje uma área da cidade de Bombaim, (Mumbai) na União Indiana, cujo nome alguns atribuem a colonos portugueses do século XVI. Também não foi esta a localidade em que o António de Melo foi enjeitado, desde logo porque Bombaim já não estava na posse dos portugueses desde 1661, quando passou ao domínio inglês incluída no dote de D. Catarina de Bragança que então casou com o rei de Inglaterra, Carlos II.

Mazagão, inicialmente chamada Nova Mazagão, hoje uma pequena povoação chamada Mazagão Velho[i] a trinta quilómetros da Mazagão Nova, actual sede do município, tudo na margem do Rio Amazonas, no Estado do Amapá, Brasil, foi fundada em 1770 por determinação do Marquês de Pombal que para aí quis forçar a emigração de todos os portugueses retirados da praça marroquina de Mazagão na sequência do abandono desta nos termos do Tratado de Paz celebrado com o Sultão de Marrocos.

Mazagão, hoje El Jadida, em Marrocos, foi uma praça militar na orla costeira atlântica, uma das mais importantes cidades fortificadas que os portugueses ali detiveram. Foi ocupada entre 1486 e 1769, tendo sido a última do norte de África a ser abandonada, depois de Ceuta perdida para Espanha na sequência da Guerra da Restauração, e de Tânger que, tal como Bombaim, passou para Inglaterra como parte do dote de D. Catarina de Bragança. [ii], [iii]

Tudo visto, o nosso António Mello, enjeitado do Hospital Real da Cidade de Marzagam, que em 21 de Setembro de 1791 casou em N. S. dos Prazeres de Aljubarrota com Teodora Machado, com quem foi morar na aldeia do Carrascal, só pode ter sido enjeitado na cidade marroquina de Mazagão, nos últimos anos da sua ocupação portuguesa.

Sendo de admitir que o António Mello teria na data do seu casamento uma idade próxima aos 30 anos (o que, talvez, o assento do seu óbito poderá melhor precisar) significa isso que terá nascido cerca de 1760 e era uma criança quando Mazagão foi abandonada pelos portugueses.

Mazagão era, ao tempo do provável nascimento do António Mello, uma cidade sitiada, alvo de frequentes ataques e cercos, tendo o mar como única porta de saída e dependendo da metrópole portuguesa como fonte de abastecimentos. Lá residiam, todos com as suas famílias, os militares, os burocratas, os comerciantes, os artesãos e os seus criados e escravos, perfazendo menos de duas mil pessoas.

O que terá levado ao seu enjeitamento?

Quem seriam os seus pais? Era filho de portugueses? De português(a) e escravo(a)? De português(a) e mouro(a)? O seu aspecto físico denunciava a sua progenitura?

Como chegou ao Carrascal?

Terá vindo bébé de Mazagão para Portugal e aqui sido dado a criar a uma ama, como acontecia aos enjeitados do Real Hospital de Lisboa, ou terá vindo com os demais portugueses que em 1769 aqui fizeram escala antes de serem reencaminhados para o Brasil onde, aliás, chegou apenas cerca de metade, umas 340 famílias, tendo os outros logrado ficar em Portugal?

 

A cidadela de Mazagão em meados do Séc. XVIII

 



[i] Quando andava em busca de elementos que me permitissem deslindar o local de enjeitamento do António de Mello encontrei um interessantíssimo relatório de trabalhos arqueológicos intitulado Uma Vila Pombalina na Amazônia - Mazagão Velho Em Uma Perspectiva Arqueológica, de Marcos Albuquerque e Veleda Lucena, Editora CRV, Curitiba, Brasil, 2020, que não só dá um amplo relato da fundação e vicissitudes da Mazagão amazónica, como constitui um límpido roteiro dos trabalhos arqueológicos ali realizados.

[ii] É extensa a bibliografia sobre a presença portuguesa em Marrocos muita dela acessível gratuitamente na internet mas, por toda, recomendo Os Portugueses em Marrocos, de António Dias Farinha, Edição Instituto Camões, Lisboa, 1999.

[iii] As fortificações portuguesas de Mazagão fazem parte, desde 2004, da lista do Património da humanidade da UNESCO.