segunda-feira, 19 de maio de 2014

Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a Patriarca de uma família ataíjense - III


Atendendo às idades que lhe são atribuídas nos assentos dos seus dois casamentos, como já vimos antes, (VER AQUI e AQUI) o Constantino terá nascido em 1852 ou 1853. Ora, nesses dois anos entraram mais de 4.000 crianças na SCML (2373 em 1852) das quais 8, pelo menos, foram baptizadas com o nome de Constantino (houve, ainda, uma Constantina e um João Constantino).
Destes 8 Constantinos, 5 faleceram, o mais novo aos 15 dias de vida e o mais velho antes de atingir os dezanove meses de idade.
Dos três restantes, um, entrado na SCML em 25-04-1852 (Lº 26 Matrículas, Varões, fls. 253. Nº 999), foi entregue a uma ama moradora na Tourinha, freguesia de Nossa Senhora do Desterro dos Pousos, concelho de Leiria e aí se manteve até depois dos dez anos, tendo o Termo de Vestir sido celebrado com a mesma ama (Lº 20 de Vestir, fls. 24v.).
Outro, entrado na SCML em 18-09-1853, foi entregue a uma ama moradora no Furadouro, freguesia de São Pedro de Dois Portos, Concelho da Ribaldeira[i] e aí ficou até, pelo menos, os dez anos de idade (Lº Matrículas n.º 33, Varões, fls 461, nº 755).

O terceiro e último dos três Constantinos sobreviventes, entrou no Hospital dos Expostos de Lisboa em 2 de Julho de 1852 e foi baptizado nesse dia com o nome de Constantino, nome da Casa[ii]:

“No dia dois de Julho de mil oito centos cincoenta e dois anos às duas e meia horas da tarde entrou pela Roda para esta Real Casa dos Expostos um Menino com os signais seguintes, camiza e fralda d’algodão, coeiro de baetilha branca, vistido de chita azul, volvedouro(?)  de pano cru, na cabeça meio lensso de/ branco com pintas encarnadas, tudo uzado. Foi solenemente baptizado com o nome de Constantino por mim abaixo assignado; padrinho João Victor Caldas; Ana Candida de Jesus; e para constar fis este assento.
O Pe João Rafael Nunes”
(Lº 130 dos Baptismos, fls. 317v., nº 1226).

No dia 19 seguinte, foi o Constantino entregue à ama-de-leite Maria Joaquina, casada com José Joaquim, trabalhador, moradora no lugar do Carvalhal, freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres de Aljubarrota, concelho de Alcobaça.
Entre a SCML e a ama foram celebrados, sucessivamente, os seguintes contratos:

- 11 meses de leite a 1$600, com início a 19-07-1852
- 17$600
- 12 meses de seco a 1$100, com início a 19-06-1853
- 13$200
- 12 meses de seco a   $900, com início a 19-06-1854
- 10$800
- 48 meses de seco a   $500, com início a 19-06-1855
- 24$000
- 36 meses de seco a   $300, com início a 19-06-1859
- 10$800

- 76$400

Chegado, assim, o Constantino há idade de dez anos, foi celebrado com a mesma ama o costumado Termo de Vestir:

Aos 18 de Outubro de 1862 foi entregue a Maria Joaquina. Casada com José Joaquim, trabalhador, moradora no lugar do Carvalhal ……
O exposto Constantino por tempo de seis anos para o sustentar, vestir… etc…[iii]
(Livro nº 20 de Vestir, fls. 166v.)

Criado aqui ao lado da Ataíja de Cima, tudo aponta para que este seja o nosso Constantino, o Constantino dos Santos. Não sabemos porquê, como e quando passou do Carvalhal para a Ataíja. Certo é que, se era criado de servir em casa da ama, criado de servir continuou e assim é identificado no assento do seu primeiro casamento.
Era esse o seu estatuto desde os dez anos de idade: criado de servir.
Como, inequivocamente, se dizia nos Termos de Abertura dos Livros de Vestir, estes destinavam-se a registar os expostos “dados a servir sem soldada”.

Como já vimos antes, o Constantino dos Santos casou, em segundas núpcias dele, no dia 26 de Julho de 1886, tinha então 34 anos de idade, com Serafina de Jesus, solteira, doméstica, de 28 anos de idade e, também ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Tal como no primeiro casamento, foram testemunhas João Coelho e José Carvalho e, deste último sabemos que foi quem criou a Serafina desde os 5 anos dela.

Do casamento nasceram cinco filhos (o primeiro, aliás, apenas três semanas depois do consórcio), dos quais sobreviveram três:
Maria, nascida em 16-08-1886; José, nascido em 19-01-1890 e outra Maria, nascida em 21-01-1894.

A Maria que conhecemos por Maria Constantina, casou uma primeira vez e ficou viúva com pouco mais de trinta anos e uma filha pequena que foi conhecida por Delfina Constantina e lhe deu dez netos, todos, felizmente, vivos.
O marido, que até agora apenas identificamos pelo apelido Tomás, foi uma das vítimas ataijenses da pneumónica.
De um segundo casamento não houve filhos.

A segunda Maria recebeu, por esse facto, a alcunha de Pequena. Foi, pois, conhecida por Maria Pequena e, às vezes, por Maria Serafina.
Foi mãe de, pelo menos, cinco filhos, dos quais quatro deram origem a uma vasta prole. Estão vivos vários netos.

O José, José Constantino, um dos ataíjenses que integrou o Corpo Expedicionário Português que combateu em França durante a 1ª Guerra Mundial, esse foi pai de sete filhos, dos quais dois estão vivos.

(A "Roda" do Convento dos Cardais, em Lisboa)



[i] Concelho extinto em 1855 e integrado no concelho de Torres Vedras.
[ii] À margem dos assentos de baptismo consta, geralmente, a indicação de o nome ser “da Casa” quer dizer, atribuído por decisão do baptizante ou, “nome do escrito” quer dizer, ser o que constava de algum papel que acompanhava a criança com o pedido de se lhe atribuir esse nome.
Quando havia um papel com indicação do nome a atribuir à criança, essa vontade era, em regra, aceite. Por vezes atribuía-se à criança nome diferente do “nome do escrito”. Em geral, por o nome proposto não ser considerado suficientemente cristão, (por ex., uma criança entrada em 2 de Novembro de 1852, acompanhada de um papel onde se pedia que fosse baptizada com o nome de Leónidas Tubarão, foi baptizada com o nome de Malaquias.
[iii] Veja, integralmente transcrito, o Termo de Vestir relativo à primeira mulher de Constantino dos Santos. 

Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a patriarca de uma família ataíjense - II



Como vimos (AQUI), o Constantino dos Santos que, em 10 de Janeiro de 1882, ainda não tinha trinta anos, havia ficado viúvo de Guilhermina dos Santos, voltou a casar, em 26 de Julho de 1886, tinha agora 34 anos de idade, com Serafina de Jesus ou Serafina dos Santos, solteira, doméstica, de 28 anos de idade e, também ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Quem era esta Serafina?

No AHSCML[i], o Livro de Matrícula, Fêmeas, nº 50, a fls. 241, sob o nº 591, regista a entrada em 7 de Janeiro de 1857 de uma Serafina que, em 8 de Janeiro de 1857, foi entregue à ama-de-leite Maria Joaquina casada com João Gomes moradora no Casal do Leonardo, freguesia de Santa Anna da Carnota, concelho de Alenquer, ao cuidado de quem se manteve até aos três anos de idade.
Em 12 de Janeiro de 1860, foi a Serafina entregue a Rozalia Maria casada com José Maria, trabalhador, moradora no Campo de Santa Clara[ii] nº 56, da freguesia de Santa Engrácia em Lisboa.
Em 11 de Março de 1862, tinha a Serafina 5 anos quando foi entregue a Maria Joaquina, casada com José Carvalho, trabalhador, moradora na Ataíja de Cima.
Em 17 de Setembro de 1864 e a contar de 11 de Janeiro de 1864, a SCML renovou o contrato com a Maria Joaquina, por mais 36 meses, quer dizer, até a criança completar dez anos de idade.

Completados os dez anos, como já antes se disse, a SCML deixava de pagar às amas e a criança era entregue (nesta época, em regra), pelo período de seis anos quer dizer, até completar os dezasseis anos, a quem se comprometesse a vestir, calçar, educar na religião cristã e ensinar um ofício de acordo com o seu sexo, naturalmente, em troca do trabalho a prestar pela criança. Sobre este assunto já transcrevemos, no post anterior, o “termo de vestir” da 1ª mulher do Constantino, pelo que nos dispensamos de transcrever agora o da Serafina que é de teor idêntico, como, aliás, o do próprio Constantino.

Esse contrato ou Termo de Vestir da Serafina, consta do Livro nº 25, de Vestir, fls. 229
(Serafina Lº 137 fls 241 nº 591):

Aos sete de Junho de 1867 entregue a Maria Joaquina casada com José Carvalho, trabalhador, moradora na Ataíja de Cima freguesia de São Vicente de Aljubarrota[iii] concelho de Alcobaça
Por tempo de seis anos….

A partir da celebração do Termo de Vestir não há, em regra, mais informação sobre os expostos no AHSCML. Daqui até ao casamento, passos documentados da vida da Serafina, a haver, há-de ser nos Róis dos Confessados ou no competente Juízo dos Órfãos.
Segue-se, pois, um longo período de dezoito anos durante os quais nada sabemos da Serafina.

Apenas, sabemos que é a mesma pessoa que se casou com Constantino dos Santos porque não há notícia de uma outra Serafina na aldeia e, também, porque uma das testemunhas do casamento foi José Carvalho, precisamente, o dono da casa onde foi criada, certamente, o mais próximo da figura parental que ela conheceu e, talvez, um verdadeiro pai.


Roda dos expostos da vila de Almeida
(foto retirada de: http://beira.pt/portal/diretorio/nucleo-museologico-da-roda-dos-expostos/)



[i] Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
[ii] Onde se realiza a Feira da Ladra.
[iii] A Freguesia de São Vicente de Aljubarrota tinha sido, entretanto, restaurada.

Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a patriarca de uma família ataíjense - I


Constantino dos Santos, exposto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) casou-se, em primeiras núpcias, em 6 de Novembro de 1881.
Vivia, então, na Ataíja de Cima, onde era criado de servir e tinha, na data do casamento, 28 anos de idade.
 A noiva foi Guilhermina dos Santos, da idade de 36 anos e, também ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e criada de servir na Ataíja de Cima.
Foram testemunhas no casamento (padrinhos) João Coelho e José Carvalho, ambos casados, proprietários, moradores na Ataíja de Cima. O José Coelho assinou o assento e esse facto, o de um ataíjense que sabia assinar, era bastante raro na época pelo que deve ser, aqui, assinalado.

O casamento durou, apenas, 65 dias já que, em 10.01.1882, faleceu Guilhermina dos Santos, doméstica, de 38 anos de idade, exposta da SCML, casada com Constantino dos Santos, também ele exposto da SCML.

Em 24-01-1882 (14 dias depois), faleceu Maria, de 18 dias de idade, filha legítima da Guilhermina e do seu marido Constantino.

Ou seja, a mãe faleceu na sequência do parto e a filha não lhe sobreviveu mais do que 14 dias.


A Guilhermina que tinha dado entrada no Hospital dos Expostos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em 25 de Julho de 1845, chegou à Ataíja de Cima com um ano de idade, mais exactamente, em 28 de Julho de 1846, onde ficou a cargo da ama de seco Marianna Vicente[i], casada com Caetano dos Santos[ii], moradora na Ataíja de Cima, freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres d’Aljubarrota[iii], concelho de Alcobaça.
Em 13 de Março de 1849, foi renovado o contrato entre a SCML e Marianna Vicente, a qual se obriga a continuar a criar a Guilhermina durante quarenta e oito meses, contados de 28 de Julho de 1848, a que, posteriormente, foram acrescentados mais 36 meses, ou seja, até a exposta completar os dez anos de idade.
Naquele tempo, era suposto que uma criança com dez anos de idade já era capaz de produzir o suficiente para a sua alimentação e vestir, pelo que cessavam os pagamentos às amas e era celebrado um último contrato que, no caso da Guilhermina, foi o seguinte:  

“Aos dous dias de Novembro de mil oitocentos e cinquenta e cinco neste Hospital dos Expostos de Lisboa foi entregue a Marianna Vicente, casada com Caetano dos Santos, Lavrador, moradora na Ataíja de Cima, freguesia de N. S. dos Prazeres d’Aljubarrota, concelho de Alcobaça
A Exposta Guilhermina, por tempo de seis annos que principiam n’esta data, para a sustentar, vestir, calçar e educar na Religião Christâ, e em todo o trabalho civil próprio do seu sexo, e findo o dito prazo, se apresentará neste Hospital com a mencionada Exposta; e, não apresentando, será obrigada a pagar-lhe as soldadas que este Hospital costuma arbitrar por todo o tempo que decorrer desde que finalizar o prazo deste Termo, que vai assignado pelo Director do dito Hospital
a) Luis Paulo Basto”
(AHSCML, Lº de Vestir nº 14, Fls. 327)



Em 26 de Julho de 1886, o viúvo Constantino dos Santos, de 34 anos de idade, casou, em segundas núpcias, com Serafina de Jesus, solteira, doméstica, de 28 anos de idade e, também
ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.




Roda dos expostos de Caria (Belmonte - Beira Interior)
(retirada de http://www.passadodepedra.blogspot.pt/2010/04/casa-da-roda-de-caria.html)




[i] Noutros lugares identificada como Mariana Branca. Em 28-10-1844, tinha perdido uma criança que faleceu no dia seguinte ao parto.
[ii] Também ele exposto.
[iii] Não se trata de gralha. Naquele tempo, efectivamente, a Ataíja de Cima pertencia à freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, por se encontrar extinta a freguesia de São Vicente mas, disso, havemos de falar numa outra ocasião.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Festa do Salão Cultural Ataíjense


No próximo fim-de-semana, dias 3 e 4 de Maio de 2014



JC Power


Paulo Holandês


Indigo World Music com o ataijense Pedro Cordeiro na Voz e Guitarra
 


terça-feira, 15 de abril de 2014

Ordenação Sacerdotal de Fábio Bernardino


Terá lugar no próximo dia 11 de Maio, Domingo, às 16H00, na Sé Catedral de Leiria, a cerimónia de Ordenação Sacerdotal do ataijense Fábio Bernardino, a quem já nos referimos a propósito da sua Ordenação Diaconal e que, também, já nos honrou colaborando no blog com o texto Quando a festa de Nossa Senhora da Graça se celebrava no dia 1 de Janeiro (II).

O Fábio ingressa, assim, na reduzida galeria dos padres ataijenses cujo último foi o Padre Manuel Tomás de Sousa (que foi conhecido por padre Tomás), cujo essencial da biografia publicámos AQUI.

Antes deste, no Séc. XIX, houve, pelo menos, mais três padres naturais da Ataíja de Cima.

Foram eles o Padre João Gomes que encontrámos referido, pela última vez, na celebração ode um casamento realizado na Capela de Nossa Senhora da Graça, no início de 1803 (VER AQUI).
Seguiu-se o Padre Joaquim de Sousa que pastoreou durante o primeiro quartel de 1800, tendo sido Cura de Santo António do Arrimal e veio a falecer em 4-2-1827 sendo sepultado dentro da Capela de Nossa Senhora da Graça.
Depois dele, durante o segundo quartel do Séc. XVIII, tivemos o Padre Luís João de Sousa de que ainda não tínhamos falado neste blog e que terá sido de entre os padres ataíjenses de 1800 aquele que teve cargos mais importantes, tendo, designadamente e por longo tempo, sido Vigário da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, então a única freguesia de Aljubarrota por, nessa época, a freguesia de São Vicente se encontrar extinta.

Ainda no Séc. XIX um tal Francisco Veríssimo terá sido padre, ou quase padre mas, essa, é uma história cheia de incoerências e mistério que havemos de tratar numa outra ocasião.



(A Sé de Leiria, onde terá lugar a Ordenação do Fábio Bernardino, 
aqui representada numa aguarela da Inês Neves)


NOTA: Como o saberá a generalidade dos leitores, clicando nas palavras ou expressões a Azul acede-se aos textos deste blog que tratam dos assuntos a que se referem.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910



J. Leite de Vasconcelos queixava-se, em Antroponímia portuguesa: tratado comparativo da origem, sig­nificação, classificação, e vida do conjunto dos nomes próprios, sobrenomes…. Lisboa, Imprensa Nacional, 1928 (citado por  Nuno Gonçalo Monteiro, Os nomes de família em Portugal: uma breve perspectiva histórica, in etnográfica, maio de 2008, 12 (1): 45-58) que: “actu­almente há muita liberdade na escolha do apelido: cada pessoa toma, por assim dizer, o apelido que lhe parece, de que gosta, ou que lhe convém...”
De facto, antes da imposição do Registo Civil, o que só aconteceu sob o governo republicano, em 1911, não vigoravam em Portugal quaisquer normas legais que regulassem o uso dos apelidos.
A igreja católica, nos assentos de baptismo, registava, apenas, o nome próprio ou prenome. O apelido ou sobrenome, ou a conjugação de apelidos. ia-se consolidando ao sabor de acasos, gostos ou conveniências e só tinham consagração formal (escrita), em regra, pelo casamento[i].
O primeiro apelido era geralmente o paterno, embora se pudessem escolher livremente de entre os usados pelos pais ou pelos quatro avós e, até, o de padrinhos, patrões, ou amos no caso dos escravos, sendo frequentes os casos de irmãos que não usavam o mesmo apelido.
Na Ataíja de Cima, durante o Século XIX foi corrente, como veremos a seu tempo, a transformação em apelido de família do nome próprio do patriarca (como aconteceu, por exemplo, com Constantino, Veríssimo, Maurício ou Matias, entre outros).
Comum era, também, a transformação em apelido do lugar de origem ou da profissão.

Dos apelidos ou sobrenomes havemos, no entanto, de tratar em outra ocasião. Por agora, ficar-nos-emos pelos nomes próprios que, nome próprio, todos possuíam desde o baptismo.


Nos assentos de baptismo de São Vicente de Aljubarrota, entre os anos de 1875 e 1910 (excluindo os anos de 1860 a 1880, a cujos registos ainda não nos foi possível aceder), temos um total de 416 crianças nascidas na Ataíja de Cima, sendo 199 do sexo feminino, às quais foram atribuídos 29 nomes diferentes e 217 do sexo masculino, às quais foram atribuídos 22 nomes diferentes.

No caso dos nomes femininos, a uma maior diversidade corresponde uma maior concentração nos nomes mais comuns, com um único nome, Maria, a ser usado 83 vezes, a que corresponde um peso de 41,7%, seguido de Joaquina, a grande distância com 32 casos, correspondentes a 16%. O terceiro nome mais comum, Luísa, foi escolhido 17 vezes, correspondentes a 8,5%.
Treze nomes (44,8%), foram usados uma única vez.
  



Quanto aos nomes próprios masculinos, a uma menor diversidade (22 nomes) corresponde uma maior dispersão das preferências, com 8 nomes (36,4%) a serem usados uma única vez e
Os quatro nomes mais usados a oscilar entre os 17,1% (37 vezes) e os 14,7% (32 vezes).



Se nos ativer-mos, apenas, aos anos de 1785 a 1799, num total de 50 baptizados, 23 femininos e 27 masculinos, encontramos um total de 11 nomes femininos e 10 nomes masculinos.
Os nomes Maria e Joaquim já eram, neste período, os preferidos.

Na parte final do período em análise (1900/1910), por sua vez, em 58 baptizados (24 raparigas, 34 rapazes), assiste-se a uma drástica contracção na diversidade dos nomes femininos, agora reduzidos a 6 (quatro deles com apenas um caso) e fortemente concentrados em Maria e Joaquina, com 10 ocorrências cada, enquanto cada um dos demais quatro nomes ocorre apenas em um caso.
Esta situação, algo anormal, era bem apercebida pelos próprios locais, como o ilustra uma expressão corrente que ouvi muitas vezes:

Na Ataíja de Cima todas as mulheres são Marias ou Joaquinas. Nos Casais (de Santa Teresa) todas são ou Rosas ou Delfinas.

e decorria do costume - que se foi desenvolvendo com maior intensidade à medida do avanço do Séc. XIX – de impor ao baptizando o nome próprio do padrinho (ou da madrinha no caso de se tratar de rapariga)[ii], agravado, o costume, pelo facto de, tendencialmente, haver um restrito número de pessoas que, em geral por não terem filhos[iii] e, ou, serem gente de algumas posses, eram padrinhos preferenciais.

É que, ao padrinho, compete ajudar o afilhado e, como diz o ditado, “quem não tem padrinho morre mouro”.

Em muitos casos, o padrinho era encontrado dentro da família próxima, frequentemente, o avô ou a avó e, por essa via, se obtinha a alternância de nomes a cada duas gerações, como havia sido costume antigo das famílias ilustres.

Quando o padrinho era um tio, tal como quando era uma pessoa de fora da família, o novo elo do compadrio criado pelo apadrinhamento tinha uma tal importância que se sobrepunha às relações familiares.
Pais e padrinho deixavam de ser irmãos para passar a tratar-se, mutuamente, por “compadres”.

Voltando ao nosso tema;

A prof. Iria Gonçalves, no seu estudo Antroponímia das Terras Alcobacenses nos Fins da Idade Média[iv] analisa os nomes que se usavam na nossa região (nos Coutos de Alcobaça) em dois períodos do final da idade média, 1370-1400 e 1430-1460. Comparando os resultados a que a ilustre professora chegou com os que obtivemos – para a Ataíja de Cima - a partir dos assentos de baptismo da Paróquia de São Vicente de Aljubarrota nos anos entre 1785 e 1910 e, ainda, com os dados mais recentes relativos à totalidade do país[v], chegamos a interessantes conclusões:

No que diz respeito aos nomes próprios masculinos, apenas João aparece sempre entre os sete nomes preferidos sendo, aliás, o mais comum no final do Séc. XIV e em meados do Séc. XV nos Coutos de Alcobaça e, na actualidade, em Portugal. Na Ataíja de Cima, desde o final do Séc. XVIII ao início do Séc. XX, mantém-se bem posicionado e bastante estável ao nível das preferências.[vi]

A importância do nome Joaquim na Ataíja de Cima em 1785/1910, em que é o nome masculino mais comum, embora em acelerada queda na parte final desse período, deve-se, tal como se passa com o correspondente feminino, Joaquina, a razões particulares.[vii]



Quanto aos nomes femininos, é indiscutível a predominância do nome Maria, só interrompida, na Ataíja de Cima dos anos de 1900/1910 pelas mesmas razões particulares já referidas.
[viii] 









[i] Em casos extremos, mesmo isso podia não ser “suficiente” para dar à pessoa um apelido formal. Foi o caso de um casamento, celebrado em 9 de novembro de 1836, no qual a nubente é identificada, apenas, pelo nome próprio e filiação: Maria, filha de José Machado e Maria de Horta.  
[ii] A conferência dos padrinhos, mostra que assim é, de facto, como é evidente, por ex., nos casos dos nomes masculinos mais exóticos (Matias, Alfredo, Sabino, Porfírio).
O mesmo, com os nomes mais vulgares, como o feminino Joaquina onde, dos 27 casos recenseados, em 7 deles foi madrinha a mesma Joaquina Quitério.
[iii] É o caso da Joaquina Quitério referida na Nota anterior.
[iv] Publicado inicialmente em Do Tempo e da História, Vol. V, 1972, pág.s 159-200 e, posteriormente, em Gonçalves, Iria, Imagens do Mundo Medieval, Livros Horizonte, Lisboa, 1988, pág.s. 105-142
[v] Os dados relativos a Portugal, 2013, foram recolhidos em http://www.maemequer.pt/estou-gravida/prepare-a-chegada-do-bebe/top-50-nomes-mais-registados-em-2013, consultado em 20-2-2014
[vi] João era, tb., o nome mais comum na área do almoxarifado de Évora em 1475, entre os titulares do empréstimo contraído por D. Afonso V para financiar a guerra com Castela (conf. Gonçalves, Iria, Amostra de Antroponímia Alentejana do Séc. XV, igualmente incluído em Imagens do Mundo Medieval, referido na nota iv.
[vii] Entre 1795 e 1804 o Padre Joaquim de Sousa é padrinho de 5 rapazes, todos baptizados com o nome do padrinho.
[viii] Como já dito, Joaquina Quitério, casada, sem filhos e com fama de ser relativamente abastada foi, entre 1899 e 1910, madrinha, além de vários rapazes que aqui não importa contabilizar, de 7 raparigas, todas baptizadas com o nome da madrinha.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Festa em Honra de Nossa Senhora da Graça


Há mais de duzentos e cinquenta anos, em 1747, já se realizava na Ataíja de Cima a festa em honra de Nossa Senhora da Graça, como nos dá conta o Dicionário Geográfico do Padre Luiz Cardoso.

 Naquele tempo, no entanto, era a festa celebrada na oitava do Natal (dia de Ano Novo) e, 11 anos depois, de acordo com o relato do Pároco de São Vicente, no relatório de 1758 inserto nas chamadas Memórias Paroquiais, a ela acudia bastante gente dos povos vizinhos.

 Assim continua a ser nos dias de hoje, já não na oitava do Natal nem, como sucedeu há uns anos atrás em fins-de-semana diversos, no mês de Maio mas, como era tradição e até quando remontava a memória dos vivos do lugar, no dia 2 de Fevereiro. 

A procissão à Serra, que é o momento alto da festa, talvez se realize há menos tempo, uma vez que nenhum desses antigos textos a refere. Certo é que se realiza há mais anos do que alcança a memória dos vivos. Antes para abençoar os olivais e, agora que já quase não há olivais, para abençoar os campos – embora, diga-se, também estes tenham sido, em grande parte, substituídos pela indústria e já não desempenhem na vida ataíjense o lugar central que foi seu durante tantos séculos. 

Seja como for, o São Pedro que, como se sabe, preside à meteorologia, resolveu intervalar no rigoroso inverno, brindando-nos com um Domingo de clima ameno e sem chuva, o que propiciou a uma razoável multidão subir à Serra, como o fizeram os seus antepassados.


O dia começa com o peditório na aldeia. Aqui, o Francisco Quitério nas suas funções de juíz da festa:

 
 

O local até onde vai a procissão é marcado por um cruzeiro (erigido no ano de 1949 pela respectiva comissão de festas, de que foi juiz o meu pai):



Daí, tem-se uma larga vista que vai até à Nazaré:

 
 No limite das propriedades privadas com o baldio serrano, pode-se passear numa vereda chamada o Caminho do Guarda:


 
 Depois de uma caminhada de pouco mais de 2 km, a procissão aproxima-se do seu destino:  
 

O Sr. Padre Ramiro na sua alocução aos fiéis:



Cumprida a tradição e a devoção religiosa, a tarde prolonga-se em convívio que contou com a animação do Rancho Folclórico dos Casais de Santa Teresa, aqui, aguardando o momento de iniciar a sua actuação:


E, uma comissão de festas jovem, inovou apresentando, com grande sucesso,  uma quermesse que era uma farmville ao vivo, onde as rifas premiadas davam direito a levar para casa legumes e frutas, ovos e uma grande quantidade de bichos, de coelhos a galinhas e, até, um porco (uma porca, como se vê pelo colar):