terça-feira, 14 de abril de 2015

A propriedade do Olival dos Frades da Ataíja de Cima, depois dos frades


Como a generalidade dos demais bens das ordens religiosas extintas em 1834, o Olival e o Lagar dos Frades da Ataíja de Cima foram, nos anos seguintes, vendidos em hasta pública.

Naturalmente, foram as elites do novo regime e os representantes mais abastados da burguesia emergente que adquiriram esses bens e, no caso dos bens do Mosteiro de Alcobaça, foi o “brasileiro” Bernardo Pereira de Sousa que adquiriu, além do mais, os lagares de azeite da Quinta de Chiqueda, da Fervença e das Antas[i]  e a Quinta das Freiras de Cós, em Chiqueda[ii]
Ao mesmo tempo, por arrematação realizada no dia 6 de Abril de 1836, adquiriu o Olival do Santíssimo Sacramento, o Olival dos Frades da Ataíja de Cima[iii].

Quem era este Bernardo Pereira de Sousa que, na sequência de tais aquisições se tornou dono de 22 prensas de vara, um terço da capacidade extractiva dos lagares de azeite do Mosteiro, segundo António Maduro[iv]  e, pelo mesmo modo, adquiriu posição dominante na moagem de cereais?

Bernardo Villa Nova não incluiu o seu nome entre as personalidades que biografou em “Figuras de Alcobaça e sua Região”[v].  
Dele, diz António Maduro[vi] que adquiriu a nacionalidade portuguesa em 1836, abandonando definitivamente o Brasil e casou com Francisca Jacinta Pereira, uma rica herdeira do também brasileiro João Pereira Gomes.
A imensa quantidade e qualidade dos imóveis cuja propriedade acumulou, fez dele o mais colectado pelo imposto da décima[vii] e levou-o, em meados da década de 1840, a presidente da Câmara Municipal de Alcobaça[viii].

Foi pai de Ana Pereira de Sousa que, em vários lugares, é identificada como Ana Pereira de Sousa da Trindade[ix], sendo que o Trindade é apelido do marido João Pereira da Trindade.

O casal teve duas filhas, Clotilde Pereira da Trindade que casou com Augusto Rodolfo Jorge e Francisca Pereira da Trindade que casou com o Dr. Francisco Zagallo[x] que, esclarece Bernardo Villa Nova, nasceu em Ovar em 1850, licenciou-se em Coimbra em 1876 e, pouco depois, tornou-se médico municipal em Alcobaça onde viveu até morrer em 1910[xi].

Foi esta Francisca que herdou o Olival do Santíssimo Sacramento da Ataíja de Cima, como se conclui do que diz Manuel Vieira Natividade[xii] segundo o qual, no ano de 1885, esse olival era propriedade “do Dr. Francisco Baptista de Almeida Pereira Zagalo, médico em Alcobaça”[xiii].

Sabemos que o olival foi, depois, propriedade de Olímpio Trindade Jorge, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de marcos, muitos deles ainda hoje existentes (ver o que aqui publicámos neste blog, em 8-10-2009, sob o Título “Os Marcos do Olival dos Frades” e que com este post pretendemos rectificar, desenvolver e melhorar) e, recorrendo de novo à mencionada obra de Bernardo Villa Nova, ficamos a saber que o Olímpio era sobrinho do Dr. Zagalo (ou seja, de sua mulher) e filho de Augusto Rodolfo Jorge o qual, por sua vez, nasceu no Porto e veio para Alcobaça com 19 anos, em 1866, acompanhando o seu pai, Dr. Bernardo Francisco Jorge “médico que depois de ser agraciado por D. Pedro V com o título de comendador pelos seus serviços prestados por ocasião da epidemia de febre-amarela, veio para Alcobaça como médico municipal”[xiv].

Tornando ao Olival dos Frades da Ataíja de Cima, a sua propriedade passou, talvez por herança ou doação, do Dr. Francisco Zagalo ao sobrinho Olímpio Trindade Jorge que o vendeu, em 1918, pela quantia de 100.000$000, (cem mil escudos ou, cem contos de réis), valor que hoje corresponderia, nos termos da Portaria
n.º 281/2014, de 30 de Dezembro, que estabelece, para os bens alienados em 2014, os coeficientes de desvalorização da moeda para efeitos da correcção monetária dos valores de aquisição de determinados bens e direitos, a 171.496.000$00 seja, a € 855.401,40.

O comprador foi Matias Ângelo, da Ataíja de Cima.

Com a morte de Matias Ângelo, ocorrida em 1933, o Olival dos Frades da Ataíja de Cima foi desmembrado e dividido entre os seus herdeiros


Ruínas (1995) do lagar do Guincho, construído, na margem da Lagoa Ruiva, por Matias Ângelo, para processamento das azeitonas do Olival dos Frades. O lagar está, hoje, totalmente desaparecido, encontrando-se no seu lugar a oficina de Soltage - Derralharia, Lda.




[i] António Valério Maduro, in Monges e Camponeses – O domínio cisterciense de Alcobaça nos séculos XVIII e XIX. Edição CEPAE – Centro do Património da Alta Estremadura, 2010.
[iii] António Maduro, 50 Coisas de Escrita Vária Alcobacense, Colecção Estremadura, espaços e memórias, II Série, 06, CEPAE – Centro do Património da Estremadura e Folheto Edições & Design, 2012, p.193
[iv] António Maduro, 50 Coisas …, pág. 35
[v] Bernardo Villa Nova, Figuras de Alcobaça e sua Região, (originalmente publicados em 3 volumes, em Alcobaça, 1959, 1960 e 1961). Edição fac-similada agrupando os 3 volumes, publicada por Rebate, Movimento Cívico, 2002
[vi] António Maduro, 50 Coisas …, pág. 193
[vii] A Décima foi um imposto criado em 1641 para prover às necessidades de defesa do Reino. Era um imposto universal (excluídos os eclesiásticos, mas incluídos os nobres) sobre o rendimento, fosse de propriedade, trato, maneio ou profissão. O nome provém do facto de o valor a pagar ser, em regra, um décimo do rendimento tributado. Evoluiu para se tornar um imposto predial e, é como imposto predial que é referida, ainda hoje, na linguagem corrente.
[viii] António Maduro, 50 Coisas…, p.194
[ix] V., por ex., António Maduro, 50 Coisas…, p.194
[x] Agradecemos esta informação a um estimado leitor deste blog que, identificando-se apenas por João, em comentário inserido em 23 de Dezembro de 2012, ao texto inicial deste post, nos esclareceu sobre estes parentescos, já que Bernardo Villa Nova (op. cit.) apenas diz que Augusto Jorge e o Dr. Zagalo casaram com senhoras alcobacenses que, no entanto, não identifica.
[xi] Bernardo Villa Nova, Figuras de Alcobaça ….
[xii] in O Mosteiro de Alcobaça (Notas históricas), Coimbra, Imprensa Progresso, 1885
[xiii] O facto de o Dr. Zagallo surgir como proprietário do Olival dos Frades da Ataíja de Cima apenas nove anos após se ter licenciado, já nos fazia presumir (no texto inicial deste post que publicámos em 2010 e, por conter erros diversos, agora reescrevemos), que o teria adquirido por herança de sua mulher.
[xiv] Trata-se, talvez, do mesmo médico que, nesse ano de 1866, apresentou e defendeu na Escola Médico-Cirúrgica do Porto a tese: “FRACTURAS DO COLLO DO FEMUR” THESE APRESENTADA À ESCOLA MEDICO-CIRURGICA DO PORTO PARA SER DEFENDIDA PELO ALUMNO BERNARDO FRANCISCO JORGE, PORTO, TYPOGRAPHY DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA, Rua da Cancella Velha, 62, 1866 acessível na internet em : http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/18311/3/VIII-2_17_EMC_I_01_P.pdf.
(consultado em 14-04-2015)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Casal Novo - Uma aldeia abandonada

 


Ao consultar o mapa elaborado em 1791 para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria[i], verificámos que nele se identifica, a norte e muito próximo do Vale Vazão (aí designado Casal do Vazão), a localidade do Casal Novo de que falámos num texto publicado neste blog, em 2011 e, então julgávamos, erradamente, pertencer à freguesia de São Vicente de Aljubarrota.

Não é o caso uma vez que, de facto, o território onde se encontra a aldeia, agora em ruínas, do Casal Novo, integra a freguesia do Juncal. É certo que, num extremo dela, uma cunha apontada ao Vale Vazão, uma ponta de lança entrando em território de S. Vicente.

(Pormenor do Mapa da Estrada de Rio Maior a Leiria, de 1791)


Das Memórias Paroquiais, de 1758, não resulta claro se este Casal Novo já então existia ou não.
É que, na descrição dos lugares que constituem a freguesia do Juncal, diz o respectivo pároco[ii] que a Cumeira é aldeia que fica a uma distância de meia-légua para o lado do sul[iii] e tem 13 casas e quarenta e três pessoas e, “logo adeante”, fica Marco e Casal, “que tem dez fogos e pessoas vinte e cinco”.
E, mais não diz.

No entanto, tendo usado na ordem de descrição dos lugares da freguesia o critério de nomear primeiro os que ficam a norte e a poente da paróquia e, só depois, os que ficam a sul e a nascente, duvidas não há de que este “Marco e Casal” ficava (ou ficavam? Eram um ou dois povoados?) a sul da Cumeira (de Cima).
Aí, a poente da estrada nacional 8, ainda a carta militar de 1969 identificava o lugar de Casal Velho, nos nossos dias reduzido a uma “Rua do Casal Velho” e, a nascente daquela estrada e continuando para sudeste, o Casal de Além e o Casal Novo este, já então representado, sobretudo, por ruínas[iv].

Notícias concretas (notícias com gente dentro) do Casal Novo encontrámo-las nos registos paroquiais de São Vicente de Aljubarrota[v], do que é exemplo o casamento celebrado em 24 de Novembro de 1804, entre Joaquim Martins, natural do Casal Novo, onde residia e Ana Maria, da Maiorga. 
O pai do noivo era nascido no Casal Novo mas a mãe era natural da Ataíja de Cima, onde os noivos fixaram residência. 


Seja como for, este Casal Novo, foi um casal efémero que se encontra desabitado desde meados do Séc. XX[vi] e do qual, hoje em dia, apenas restam ruínas das construções há muito abandonadas.


Visitámo-lo há cerca de dois anos e as fotografias seguintes mostram o estado em que, então, se encontrava (Nota: O local é acessível por veículo todo o terreno ou bicicleta):

Um olhar atento (notem-se as janelas entaipadas) mostra-nos que, depois de deixar de servir de habitação, esta casa teve outros usos. 


A padieira com seu escarção (na Ataíja diz-se pavieira que, aliás, é forma igualmente aceitável).
Padieira ou verga é a peça (na construção tradicional de pedra ou de madeira) que fecha, superiormente, os vãos das portas e das janelas.
Escarção (aqui formado pelas duas pedras colocadas obliquamente sobre a padieira), é o arco que se coloca sobre a padieira para evitar que sobre ela recaia todo o peso da construção que lhe fica por cima (descarregando esse peso sobre as ombreiras). 
  
  

Aqui era uma cozinha, como se vê da parede suja de fumo e da reentrância destinada à guarda de alimentos e, ou, pratos, tachos e outros utensílios da cozinha. (Em casa da minha avó havia uma reentrância assim, a que ela chamava "a buraca" e tinha uma porta de rede. Aí se guardava o pão, o peixe frito, queijos, o açúcar, a massa e o arroz, etc.)


A Natureza tem horror ao vazio


Os do Casal Novo tinham uma bela vista para a serra dos Candeeiros


No meio da vegetação que tudo invade vislumbram-se os restos do que foi um forno de cozer pão.


Uma pedra de coice, (ou, coiceira), há muito inútil por falta de porta





[i] Sobre a Estrada de Rio Maior a Leiria (estrada de D. Maria Pia), consulte-se o interessante livro de Ricardo Charter’s de Azevedo, “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791”, colecção Tempos&Vidas-15, Edição Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] A Memória Paroquial do Juncal é acessível online em: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4240415
[iii] Da Igreja Paroquial, obviamente.
[iv] Na Carta Militar de 2004, já não aparece qualquer referência a Casal Novo. O local é agora identificado por Chão da Mança o que, aliás, nos remete para a enorme qualidade do Mapa de 1791 que, como se pode ver, já aí identificava uma “Fonte da Mança”.
[v] E, muitas mais há-de haver nos registos paroquiais do Juncal. Mas, isso já está fora do âmbito dos nossos estudos.
[vi] Tenho a informação de que ainda estará vivo no Vale Vazão, ou estava há poucos anos, o que terá sido um dos últimos habitantes do Casal Novo.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Vidraço de Ataíja no Santuário de Fátima


"A pedra ataíja com que foram construídas a escadaria e a Basílica de Nossa Senhora do Rosário será o mais usado na nova construção."

Eis uma boa razão para, aqui, dar notícia da construção de um novo presbitério no Santuário de Fátima.


Maquete do novo presbitério que vai ser construído no Santuário de Fátima. 
Foto retirada, coma devida vénia, de: http://www.santuario-fatima.pt/portal/index.php?id=89282, onde os interessadoss poderão consultar mais elementos sobre a obra.

sábado, 14 de março de 2015

Os malefícios do alcoolismo




As reformas administrativas do Liberalismo, primeiro a de Mouzinho da Silveira em 1832 e a de Rodrigo da Fonseca em 1835, tiveram por efeito, neste último ano, a extinção do concelho de Aljubarrota e da freguesia de São Vicente e a integração dos respectivos territórios, respectivamente, no concelho de Alcobaça e na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres[i].

Ao mesmo tempo e em consequência, o Cura José Joaquim Leitão que por longo tempo havia paroquiado S. Vicente, deixou essas funções, agora inexistentes, passando as almas vicentinas a ser pastoreadas pelo titular da freguesia de Prazeres, o Padre Francisco de Freitas Fróis.

Em matéria de registo de óbitos e no que à área da antiga freguesia de São Vicente diz respeito, pode afirmar-se que o Padre Fróis – aliás natural de Aljubarrota onde nasceu no seio de uma importante família local - teve uma entrada, digamos, em grande, espectacular.

O primeiro óbito por ele registado, em 18 de Agosto de 1835, é o de uma importante figura local: Exactamente, o Tabelião José Gomes Coelho, de importância, aliás, claramente acrescida pelo facto de, com a extinção do concelho e, assim, do cartório, ter sido o último Tabelião de Aljubarrota.

O segundo óbito registado pelo Padre Fróis, esse, é o da menos importante das figuras locais:
Um bêbado a quem, por o ser, foi recusado o direito a sepultura eclesiástica e foi enterrado no campo, como os animais.

Ataija de Sª
Thomaz
Francisco
Cazado
Aos vinte e hum de Setembro de mil
e outo centos e trinta e sinco faleceo
e foi sepultado no Campo , não gozando
portanto de Sepultura Eclesiástica
Thomaz Francisco cazado que era
Com Luiza Maria do Lugar de Ataija de
Sima hoje desta Freguesia de Prazeres por
se achar morto no dito dia , e ser publico e no
torio se tomava demasiadamente do vinho de que
morrera embriagado …..….[ii] Consultadas
as Autoridades Eclesiasticas competentes deter
minarão de lhe não ……….[iii] Sepultura em Sa
grado de que fis este assento e Lembrança
para constar esteve exposto sem ser enter
rado dois dias athe dia vinte e três isto athe
aquela decisão: mês e Era supra
a)      Francisco de Freitas Frois

 
A época era conturbada:
A derrota de D. Miguel era ainda recente e as feridas não estavam saradas.
Os frades de Alcobaça haviam abandonado o Mosteiro há menos de dois anos.
Há pouco mais de um ano tinham sido extintas as ordens Religiosas.
1832 e 1833 tinham sido anos terríveis em matéria de  saúde pública na(s) freguesia(s) com o surto de tifo e a epidemia de cólera. Os mortos eram tantos que não cabiam dentro das Igrejas Paroquiais e, principalmente por isso, houve muitos enterramentos nas capelas das aldeias e junto mas fora da Igreja, em lugares (talvez, sempre o mesmo) que em diferentes assentos de óbito se designam por adro, cemitério paroquial ou cemitério da freguesia.
Agora, a extinção do concelho e da freguesia (paróquia) de São Vicente.
Tudo foi sentido como derrotas por uma boa parte da Igreja[iv] que, em geral, era bem mais próxima de D. Miguel que dos Liberais triunfantes.

Talvez eu não tenha razão mas, o facto de em dezenas de anos e muitas centenas de registos consultados[v], não ter encontrado situação semelhante, de recusa de enterramento cristão e inumação no “campo”, em lugar não identificado, leva-me a pensar se não se tratou, este caso, de uma pequena vingança, ou de um aviso aos vivos sobre o que na morte lhes aconteceria, caso na vida se não portassem como bons cristãos.

Ou, talvez este fosse o destino normal dos pecadores. Mas, sobre isso, não possuo qualquer informação.

Curiosamente, é do próprio dia 21 de Setembro de 1835, data do falecimento do bêbedo Thomaz Francisco, o Decreto que determina que “Em todas as Povoações serão estabelecidos Cimiterios Publicos para nelles se enterrarem os mortos.”[vi], Decreto esse que, no seu artigo 13º, determinava:

“Art. 13.° O Parocho, ou qualquer Ecclesiastico beneficiado, que
desde que o Cemiterio estiver designado, e benzido, consentir que algum
cadaver seja enterrado dentro dos templos, ou fóra do Cemiterio,
será, pelo simples facto, privado do beneficio, e ficará inhabil para obter
outro.”

Apesar do que, ainda em 1852 e 1853, se procedeu a enterramentos no interior da Capela dos Casais de Santa Teresa, tal como em 1851 tinha havido enterramentos nas capelas da Pedreira (Molianos) e na da Ataíja de Cima e, em 1849, na Capela de Chequeda.



Ao contrário da destes dois anónimos chineses sepultados no Boot Hill de Tombstone, a sepultura campestre do Thomaz Francisco não terá tido qualquer lápide identificativa. Mas, certamente, não deixou de ser coberta de pedras e de silvas, para evitar o ataque de cães e outros necrófagos.




[i] A Portaria de 13 de Janeiro de 1836 mandou que os Passais das Paróquias extintas fossem anexos aos das paróquias onde aquelas se integraram. Ou seja, a anexação de paróquias não importou qualquer diminuição nos bens da Igreja.
[ii] Uma palavra ilegível.
[iii] Idem.
[iv] Que reagiu de maneiras diversas, como se vê na Portaria de 30 de Janeiro de 1836, que responde a dúvidas colocadas pela Junta de Governo do Bispado de Beja (a qual, parece, sugere que a a extinção de paróquias seja precedida de “referendo” local): “… a Circular de 26 d’Outubro ultimo indica mui claramente o modo porque deve proceder-se á anexação das Parochias desnecessárias, e que longe de conceder audiência aos povos na sua totalidade, o que seria absurdo, Ordena que se ouçam somente as Camaras Municipaes:”
[v] Onde há, por ex. mendigos que, por certo, alguns seriam alcoólicos e, viajantes de que se não conhecia o passado.
[vi] Mais de 10 anos depois, ainda a questão da proibição de enterramentos no interior das igrejas havia de ser uma das razões da Revolta da Maria da Fonte.

terça-feira, 3 de março de 2015

Leitoas, Tubaroas, Ratinhas e outras bichas de sete cabeças


Saber de onde vem o nome de um sítio, o que significa, quem, ou quando, ou porquê o atribuiu são, evidentemente, preciosas informações que nos podem elucidar sobre uma infinidade de factos e ajudar a compreender a história ou a formular sobre ela conjecturas coerentes.
Ora, como bem diz Frei Fortunato de São Boaventura, tal como é citado por Eduardo Marrecas Ferreira na sua interessante, única e esquecida monografia “Aljubarrota - Pequena Monografia”, impressa em Lisboa, nas “Oficinas Fernandes”, Rua da Cruz dos Poiais, 103, MCMXXXI:

“… não há um só ermo ou baldio nestes Reinos, a que os povos não tenham dado algum nome…”.

E, sendo certo que os nomes servem para distinguir as pessoas e as coisas umas das outras e, por isso, convém serem diferentes, natural é que alguns desses ermos, baldios ou qualquer espécie de sítio, – que tantos são -, tenham sido baptizados com nomes menos óbvios.

Daí resulta que, em muitos casos, descobrir a razão ou o significado do nome de um lugar se torna um verdadeiro bicho-de-sete-cabeças que são coisa tão complicada e difícil de resolver que o próprio Hércules precisou da ajuda do sobrinho para vencer a Hidra de Lerna.

Hoje, falaremos aqui de um bestiário local ataíjense: bichos, não de sete cabeças mas nomes de bichos (ou, melhor, nomes que parecem nomes de bichos) a designar sítios.

Leitoas.

Na margem do IC2, entre este e o sopé da serra e a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa, bem perto e a sul da Chousa do Bruno de que falamos no post anterior, existe um terreno conhecido pelo muito curioso nome de Leitoas (leitôas).

Leitoa é o feminino de leitão e, ambos, são bácoros, porcos pequenos que mamam e, isso não parece ser nome que se dê a um terreno.

O DPLP (disponível online in http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx) diz no entanto que, andar “em leitão” significa andar nú, em pêlo. Assim leitoa significaria, neste sentido, andar nua. Também, não parece lógico.

O grande arabista e filólogo que foi o Dr. José Pedro Machado diz, por sua vez, no seu Grande Dicionário da Língua Portuguesa que leitoa é uma variedade de pera.
E, António Houaiss, no seu Dicionário Houaiss da Lingua Portuguesa explica que, em linguagem informal, leitoa é qualquer abóbora.

Teríamos, assim, duas hipóteses para a origem deste topónimo: Ou se tratava de terreno especialmente propício para a cultura de abóboras ou, nele, terão existido pereiras leitoas, árvores essas que teriam de ser tão raras por aqui que a sua simples menção identificaria suficientemente o local onde se encontravam.

Tubaroas

Este estranho nome de tubaroas (tubarôas), tibaroas (tibarôas) ou tubarões (tubaroens)  encontrámo-lo em escrituras do Séc. XIX e início do Séc. XX, nestas três diferentes grafias, a identificar um terreno parcelas de cultivo, vinha e mato num sítio junto ao caminho da ponte, perto das Rossanas e do Vale Cordeiro. Terreno esse que, julgo eu, está hoje em dia totalmente integrado nas pedreiras que aí existem.

Não temos, obviamente, a certeza sobre o que terá originado um tal baptismo para este sítio mas, túberas são trufas, cogumelos subterrâneos. 

Eu, não sei nada sobre cogumelos em geral nem, muito menos, sobre trufas em particular. Então, o melhor é dar-vos o link para o artigo Trufas da Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Trufa, onde se fala das trufas francesas e outras que chegam a valer milhares de dólares por quilo e, um outro link, para um texto onde se fala sobre as trufas portuguesas, as túberas: http://trufa.planetaclix.pt/Tudb.htm.
Leiam estes textos e verão que faz todo o sentido. 
De facto, o Vale Cordeiro e as Tubaroas eram, ainda há poucas décadas, pequenos terrenos de cultivo abertos entre  grandes pedras e com suas testeiras de mato onde sempre havia um carvalho e, sob as copas desses carvalhos, em chão húmido, coberto de ervas sobre o tapete de folhas em decomposição, nasciam, no tempo próprio, cogumelos.
Eu próprio me lembro de andar nesses terrenos acompanhando um apanhador de cogumelos. Não me lembro de, jamais, ter visto ou ouvido falar em túberas.
Mas, lá que faz sentido que um lugar onde nascem túberas se chame tuberoas, isso faz. E, que tuberoas se tenham transformado, com o tempo, em tubaroas, tibaroas e, até, tubarões, também faz todo o sentido.

Ratinha

Na margem esquerda da Ribeira do Mogo, com o principal acesso, a fazer-se a partir da Rua dos Arneiros, pela Rua das Covas.
A nossa família possui aí, a meia encosta, um terreno com algumas características interessantes, partilhadas, aliás, com os terrenos confinantes: o terreno, de mato, muito pedregoso, desenvolve-se em torno de uma linha de água, orientada nascente-poente, que vai até à Ribeira do Mogo. No tempo dos meus avós, o estreito vale era cultivado e, ainda há poucos anos, aí subsistiam oliveiras e figueiras.

O nome Ratinha é comum às diversas propriedades no sítio e, no Séc. XIX, parece ter servido para designar toda aquela zona, incluindo a várzea que se desenvolve no fundo do vale da ribeira do Mogo, como se vê de uma escritura de 1890 que teve por objecto a compra e venda de “uma vinha e mata no sítio da Várzea da Ratinha que confronta a Norte com José Carvalho e Visconde de Costa Veiga, Sul com José de Horta, Nascente com caminho e Poente com regueira”.

Que significado terá este nome de sítio?
Rato pequeno fêmea não é, com certeza, apesar de que, por lá haverá muitos ratos do campo. Nem parece que se trate de referência àqueles emigrantes internos que, sazonalmente, desciam das Beiras a trabalhar nos campos do Alentejo.
Dos muitos significados que os dicionários atribuem às palavras ratinho e ratinha há, no entanto, dois que talvez mereçam, para este caso, a nossa atenção:

O DPLP diz que existe um peixe de esqueleto cartilaginoso, semelhante à raia que é conhecido por ratinho, ratão, rato, uja, uje, usga e urze. Por sua vez, urze seria, segundo José Pedro Machado, não ratinha mas ratona, enquanto ratinho seria um outro ou outros peixes, designadamente, o peixe-agulha. Confuso?
Certo é que urze é também o nome de um arbusto de folha miúda e flores em cacho, semelhante ao alecrim que é vulgar em todos os matos da Ataíja e também nos da Ratinha.
Teríamos, assim, um peixe com nome de arbusto e um arbusto que, por vulgar no sítio, o baptizou.

Talvez sim mas, eu prefiro outra hipótese:

Ratinhar é, segundo José Pedro Machado (e o Houaiss concorda), regatear, economizar com avareza, dar com mesquinhez e, por isso, ratinho ou ratinha, há-de ser uma pessoa mesquinha e avarenta.

E, temos, assim, uma boa solução para o nosso problema e, em qualquer caso, material para inventar uma boa história:

Naquele tempo, os matos incultos eram terrenos preciosos. Aí se levavam os rebanhos a pastar e se cortava o mato para servir de cama aos animais e de tapete aos caminhos e se transformar em estrume, para adubar as terras de cultivo. Aí se encontrava a lenha para a fogueira da cozinha e do aquecimento e a madeira indispensável para a feitura de inúmeros objectos e instrumentos e para a construção das casas.
Naquele tempo, dizíamos, todos estes terrenos estavam aforados pelos frades a um velho rabugento, feio e invejoso, mesquinho e avarento que, diariamente, policiava aquelas terras que não explorava (vivia dos juros de empréstimos usurários - tinha uma arca ferrada, uma burra, cheia de dinheiro), impedindo os camponeses de lá pôr sequer um pé, sob pena de os perseguir nas justiças de Aljubarrota e do Abade, até lograr encerrá-los nas masmorras da vila de onde só saíam a troco de pesadas multas.

Por isso, eram as terras do avarento conhecidas por, as do ratinho, a ratinha.

Mais sítios com nomes de bichos, por aqui, só me ocorrem o Olival da Burra, onde já não há burra e que já não é olival e está feito um bairro de casas e o Vale Cordeiro que, agora, é um gigantesco buraco de onde têm saído muitos milhares de toneladas de Vidraço de Ataíja.



E pronto.
Havemos, a seu tempo, de voltar a estas curiosidades da microtoponímia talvez, para os mais gulosos, falando do sítio dos Caramelos que, como sabemos, fica ali naquela ladeira que desce para a Regueira, quando vamos a caminho de Aljubarrota.
É tudo menos óbvio um tal nome.
Que diacho pode aquela ladeira ter a ver com rebuçados feitos de calda de açúcar queimado?


_______________________
NOTA: Na linha do apelo que, no último post, fiz aos leitores ataijenses:
Gostaria de poder desenvolver estes textos, como contributo para um dicionário topográfico e toponímico da Ataíja de Cima, com melhor identificação e localização dos diversos terrenos da zona da Ataíja de Cima, quer nas designações que lhes dão as descrições matriciais e registrais quer, apenas, na tradição familiar dos proprietários.
Ficarei muito grato aos leitores que puderem ajudar-me com qualquer informação
(email: jose.quiterio@sapo.pt).

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A Chousa do Bruno e outros terrenos murados


O semanário Região de Cister, de 15 de Janeiro de 2015 publicitou a realização de uma escritura de usucapião cujo declarante, diz-se aí, reside na Rua Sousa do Bruno.
Trata-se de erro, como se percebe logo a seguir quando se declara que o objecto da escritura é um terreno rústico denominado Chousa do Bruno.

A chousa do Bruno, situa-se a nascente do IC2, no sopé da Serra dos Candeeiros, frente aos Casais de Santa Teresa e, é designação comum a vários prédios, de diferentes proprietários, dos Casais de Santa Teresa e da Ataíja de Cima e há-de ter sido, em outros tempos, uma propriedade de razoáveis dimensões, tão importante que deu nome ao sítio e, agora, também, à rua que, a partir do IC2, lhe dá acesso.

Quem seria o Bruno de quem era a chousa, isso, é-nos totalmente desconhecido.
Fiquemo-nos, então, pela chousa e deixemos o Bruno.

O que é uma chousa?

Informa o DPLP que, chousa é 1. [Antigo] Pomar; horta. 2. Pequena quinta com chousura e, do mesmo modo, também nos diz que, chousura é palavra antiga, com o significado de cerca ou tapume (que separa uma terra da outra).[i]
Chousa, chouso, chousal e chouseira e, ainda, choussa e chousseira, tudo é, diz-nos por sua vez José Pedro Machado[ii], fazendola, quintarola, rodeada de muro; pequena tapada. | Redil ou sebe que os pastores armam no campo, durante o verão, para ali recolherem o gado. | Tapada, cerrado.
Houaiss[iii], acrescenta, ainda, com idênticos significados, chousela e choussal.

Ou seja, chousa é um terreno vedado.

Para entender a importância de vedar os terrenos é preciso lembrarmo-nos de que a capacidade dos nossos antigos para cultivar era muito limitada, quer por não disporem de máquinas e instrumentos adequados, quer por a população ser escassa (ainda em meados do Séc. XIX, a população de Portugal era menos de metade da actual).
Daí, a maioria das terras estava, de facto, inculta e nela vagueavam, mais ou menos livremente, grande quantidade e variedade de animais, quer selvagens, designadamente lobos, raposas e texugos e animais domésticos ou domesticáveis sem dono (o chamado gado do vento), quer animais domésticos, fossem estes os pequenos rebanhos de cabras e ovelhas, que os locais mandavam a pastar a cargo dos filhos mais novos, ou varas de porcos, ou manadas de vacas, ou de cavalos que os senhores importantes faziam pastorear por onde lhes dava na real gana, sem o mínimo respeito pelos interesses dos camponeses.
Esses terrenos abertos tinham, assim, um alto valor económico quer como fonte de alimentação de quase todos os animais quer como local de abastecimento de madeira e de combustível (lenha), mato e caça, além obviamente de bagas e outros frutos silvestres, cogumelos e outras plantas comestíveis ou medicinais..

Para cultivar escolhiam-se, cuidadosamente, os terrenos que se espredegavam, utilizando-se a pedra assim obtida para construir as paredes com que se vedavam[iv]. Frequentemente, esses terrenos eram baixas ou pequenos vales integrando propriedades que se desenvolviam pelas encostas adjacentes[v], estas não cultivadas e destinadas a produzir mato, lenha, madeira para construção e alimento para cabras, ovelhas e outros animais domésticos. Nestes casos, tudo era devidamente murado, às vezes, duplamente murado, construindo-se paredes que separavam a parte cultivada da parte inculta com o objectivo de pastorear animais, sem correr o risco de eles invadirem as culturas.
  

Chousa é, no entanto, palavra de difícil pronunciação pelo que as gentes da Ataíja passaram a dizer soija e uma infinidade de variantes que vão do masculino soijo (que, na minha percepção, era soija pequena) a, diminutivos vários como soijinha e soijinho ou, de preferência, soijica e soijico que, na minha terra, o sufixo diminutivo é ico.

Mas, chousa e as suas variantes pareceram insuficientes para caracterizar devidamente os terrenos murados, pelo que temos, ainda, a cerrada e o cerrado, a cerradinha e a tapada.


Alguns topónimos locais relativos a terrenos murados:

Cerrada - (fechada). No linguajar local, dita a Sarrada. A Cerrada era uma das maiores propriedades da Ataíja, na ponta da aldeia, a caminho Lagoa Ruiva e do lagar dos Frades. Encontra-se, actualmente, partilhada entre vários proprietários. Foi antes de Maria “Botas” e de seu marido Luis de Horta e do irmão dela, Manuel “Botas”, cujas fracas cabeças os levaram a perder esta e outras propriedades e a acabar, o casal no Asilo da Mendicidade de Lisboa (em Alcobaça) e ao irmão, como pastor, em casa de Francisca “Crispa”, da Ataíja de Baixo, situações em que, aos três, ainda os conheci.
Ilustrando o pouco juízo que os levou à ruína, contava a minha avó que, não havendo, por desleixo, nada que comer lá em casa teria, um deles, proposto: Mata-se o galo! Ao que o outro logo acrescentou: E vou à taberna buscar 5 litros!
Cerradinha – (dita Sarradinha). Cerrada pequena.
Cerrado – (dito Sarrado). O meu avô José Agostinho da Graça era proprietário de um Cerrado, na Rua dos Arneiros (com acesso, também, pela rua do Martins), uma propriedade de dimensão notável para a aldeia, talvez apenas comparável à Cerrada. Esta propriedade foi a criação de uma vida e construiu-se a partir da junção, por aquisições sucessivas, de diversas propriedades confinantes, incluindo parte do olival do Brilhante (de José Maria dos Santos Brilhante, de Aljubarrota). Era uma propriedade completa para uma economia baseada na agricultura de subsistência (embora de dimensões insuficientes para o sustento da família), porquanto tinha áreas de olival e de vinha e terreno aberto para culturas diversas, incluindo uma chã muito propícia ao cultivo do milho (e, o pão que se comia era pão de milho). Dispunha, ainda, de árvores de fruto diversas, incluindo figueiras, nogueiras (os figos eram alimento privilegiado para o porco doméstico e, quando passados e tal como as nozes, constituíam um complemento alimentar, fortemente calórico, indispensável no Inverno), macieiras e ameixieiras de várias qualidades (algumas variedades de ameixas também se secavam, assim como uvas e maçãs).
Soija da Lagoa - Nome de diversas soijas situadas nos arredores da Lagoa Ruiva.
Soija de Baixo – Assim chamamos, na família, a uma soija sita na Rua dos Arneiros, frente ao antigo restaurante Rapótacho.
Soija do Bruno A soija que originou este texto. Fica situada frente aos Casais de Santa Teresa, a nascente do IC2, onde agora, uns duzentos metros a norte do entroncamento com o IC9, começa uma rua chamada, precisamente, Rua Chousa do Bruno.
Soijica - Soijinha. É comum na Ataíja utilizar-se o sufixo ico, por inho.
Soijinha - Diminutivo de Soija. É uma soija pequena, a família pode designá-la assim apenas porque tem uma outra soija maior. Existem várias. À maneira ataijense são, frequentemente ditas "soijica". Também se usa no masculino (soijo, soijico)
Tapada - Na zona existem ou existiram várias tapadas. A que mais me impressionava em pequeno era uma, ao tempo propriedade de Augusto Ribeiro, situada já em plena encosta da serra. Era um triângulo cultivado, que se destacava na paisagem árida sendo claramente visível de qualquer ponto da aldeia. Ficava ali, isolada, acima dos olivais, no meio dos baldios de alecrim, ao cimo da Serventia, limitada a nascente pelo chamado Caminho do Guarda, a norte do Cruzeiro que assinala o local até onde se desloca a procissão de Nossa Senhora da Graça, no dia 2 de Fevereiro para, daí, o Padre abençoar os olivais.
Encontra-se, actualmente, plantada de eucaliptos
Mais para sul, à distância de uns trezentos metros e à mesma cota, no topo do Olival dos Frades, continuam bem visíveis os fortes muros da Tapada do Mosteiro onde, contava a minha avó, os frades plantaram laranjeiras (e, consta, aqui há uns anos atrás, alguém plantou uns pés de cannabis).


Muitas vezes, a chousa era total e permanentemente fechada pelo muro de pedra que a protegia, sem, sequer, um porto de passagem e só havia uma maneira de lá entrar: Passando-se sobre o muro. Pelo saltadoiro, claro. Mas, disso havemos de falar numa próxima oportunidade.


NOTA: Este texto é um esboço.
Gostaria de o poder desenvolver, como contributo para um dicionário topográfico e toponímico da Ataíja de Cima, com melhor identificação e localização dos diversos terrenos da zona da Ataíja de Cima que, quer nas descrições matriciais e registrais quer, apenas, na tradição familiar dos proprietários, são designados, por soija, soijo, soijinha, soijinho, soijica ou soijico e, bem assim, cerrada, cerrado, cerradinha, tapada ou nomes similares.
Ficarei muito grato aos leitores que puderem ajudar-me com qualquer informação.


(a Rua da Chousa do Bruno no Bing Maps)




[i] "chousa", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/chousa [consultado em 29-01-2015]. "chousura", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/chousura [consultado em 29-01-2015].
[ii] José Pedro Machado, Grande Dicionário da Língua Portuguesa, Círculo de Leitores, Lisboa, 1991.
[iii] Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Círculo de Leitores, Lisboa, 2002
[iv] Veja-se, neste blog, (http://ataijadecima.blogspot.pt/2011/05/um-testamento-de-1822.html), o testamento, de Micaela dos Santos, celebrado no ano de 1822 e no qual se identifica uma Terra de Pam e pouzio tapada sobre si no Sítio da Figueirinha. O mais forte elemento identificativo do terreno em causa é o facto de ser “tapada sobre si” quer dizer, ser uma soija o que, por outro lado, implica que os demais terrenos no local não eram tapados (sob pena de inutilidade da descrição)
[v] As matrizes e as escrituras antigas, estão cheias de descrições que começam por expressões do tipo: “uma terra de cultivo (ou uma terra de pão), com sua testeira de mato” 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

16º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense




Como sempre, desde o ano de 2000, no terceiro domingo de janeiro, a população da Ataíja de Cima reúne-se no Salão Cultural Ataíjense, para o respectivo almoço anual.

Assim foi no passado dia 18, dando continuidade ao que já é uma arreigada tradição e, mais do que isso, uma manifestação de união em torno dos objectivos comuns que são os de continuar a desenvolver os laços de amizade e respeito mútuo entre os moradores, como condição para a união de esforços tendo em vista a melhoria das condições de vida da comunidade.

Participaram no almoço cerca de trezentos ataijenses e amigos e, como convidados, representantes da Câmara Municipal de Alcobaça e da Freguesia de Aljubarrota, incluindo os respectivos presidentes Dr. Paulo Inácio e Sr. José Lourenço e o Pároco Ramiro Portela.

Quem, como eu, acompanha com atenção e interesse mas, forçadamente, a alguma distância a vida ataíjense, não pode deixar de se sentir feliz por ver que, neste quinze anos, desde o 1.º almoço, a partir do qual o Salão Cultural Ataíjense logrou criar as bases para uma actividade diária e ininterrupta, o desenvolvimento do Salão tem sido, igualmente, ininterrupto.
De facto, desde então assistiu-se a, pelo menos, três fases de ampliação das instalações e, no último ano, à substituição integral da cobertura que é, agora, em painéis sandwich, com grande benefício das condições térmicas e acústicas do Salão.
Mas, porque uma Casa destas nunca está acabada, outras obras continuam em curso (caso da plataforma elevatória cuja entrada em funcionamento se prevê para breve e outras foram anunciadas. A próxima, que decorre da substituição da cobertura e implicará muito trabalho voluntário, será a pintura das paredes interiores do 1º andar.





Tudo só foi possível graças ao trabalho de muitos voluntários.
Eis alguns deles:



Este ano, ao contrário do habitual esquecimento a que a comunicação social local vota quase toda a Borda da Serra, o almoço foi notícia no quinzenário O Alcoa, de 22 de janeiro:





Dia 17 de janeiro de 2016, 17º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense.
Até lá!