quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Capitão Brasileiro de Chiqueda




A decifração da lápide reproduzida na fotografia, a qual se encontra na capela de Nossa Senhora do Carmo, em Chiqueda, foi proposta pela Associação Azenhas de Chiqueda aos leitores da sua página no Facebook (AQUI), em 20 de Abril p. p. sem que até agora, 11-6-2015, haja notícia de a lápide ter sido decifrada.

Como já dissemos mais de uma vez, embora este blog se dedique (exclusivamente, afirma-se no título) à divulgação da Ataíja de Cima, a verdade é que a Ataíja não é uma ilha e, quando se procura sobre o seu passado, sempre, inevitavelmente, surgem factos relativos a aldeias vizinhas. É o que agora acontece e, se decidimos elaborar este texto, foi porque “o caso da lápide” contém todos os ingredientes que nos motivam nas nossas “investigações”.

Vamos, então, tentar dar um pequeno contributo para a decifração da dita lápide.

Antes do mais, é preciso ter presente que uma lápide, se destina a assinalar um facto e o seu autor ou protagonista.
Na maior parte das vezes o que mais exactamente se pretende, é homenagear, engrandecer, glorificar, perpetuar o autor ou protagonista ou a sua memória e, por isso, se não poupa na descrição desse homenageado, enumerando nome, naturalidade, profissão e honras, morada, feitos, etc., cabendo ao facto assinalado servir de “prova” do merecimento da homenagem, engrandecimento, glória e memória de tal pessoa.
Termina-se, - todas as lápides terminam -, com a data. Porque uma lápide é, essencialmente, uma luta contra o tempo, uma ambição de eternidade.

É isso o que, também, se passa nesta lápide. Vejamos:

As primeiras palavras referem-se ao cargo ou profissão da pessoa que a placa quer honrar: O CAM, significará, por certo, O CAPITAM, quer dizer, O Capitão.

A palavra MEL, será, ainda, relativa ao posto ou cargo ou, por outro lado, será, como parece, o nome próprio Manoel. Contra esta última hipótese temos o facto de estar separada do resto do nome por uma vírgula que não teria aqui razão (mas, sempre se dirá que também não existe qualquer justificação para a vírgula que, por ex., mais adiante, se vê entre as palavras “DESTE” e “LVGAR”).

Segue-se o que, sem dúvida, já é o nome: iOZE, isto é, IOZE, José.
FROS poderia ser Francisco não fora (ou será, apesar de?) o S final.

A transcrição do restante texto não parece oferecer grandes dúvidas. Assim:

CAVRO, - CAVALEIRO
PROFO, - PROFESSO
NAORDEM,DECHRISTO – NA ORDEM DE CRISTO
NAT.ALDESTE,LVGAR, - NATURAL DESTE LUGAR
MORNACIDE,DABA – MORADOR NA CIDADE DA BAÍA
MANDOV FAZERESTA,CAPA, - MANDOU FAZER ESTA CAPELA
PA,NASADOCARMO,ANNO1800 – PARA NOSSA SENHORA DO CARMO, ANO1800


Em conclusão do que, a minha proposta de leitura para a lápide é a seguinte:

O Capitão Manuel José Francisco, Cavaleiro Professo na Ordem de Cristo
Natural deste lugar, morador na cidade da Baía, mandou
Fazer esta Capela para Nossa Senhora do Carmo, Ano 1800


O Couseiro, em meados do Século XVII, apenas assinala a existência, em Chiqueda, de devoção a São Brás, nestes termos:
“No Pisso (poço) do Soão, outra, (ermida) da invocação de S. Brás, imagem de vulto; não tem capela, nem nicho, nem retábulo, nem sacristia, nem sino, nem é forrada.”[i]

Pelas chamadas Memórias Paroquiais[ii], ficamos a saber que, cerca de cem anos depois, em 1758, “o lugar de Chaqueda tem vinte e oito vizinhos[iii].” e, “ (uma) ermida dentro do lugar de Chaqueda de Sam Bras, a qual pertence aos moradores do mesmo lugar;”

Ou seja, até 42 anos antes da data inscrita na lápide ainda não se invocava em Chiqueda a Nossa Senhora do Carmo.

O promotor da capela e responsável pela introdução da devoção a Nossa Senhora do Carmo em Chiqueda era, como vimos, morador na cidade de São Salvador da Baía, (que era, então, a maior cidade e capital do Brasil) o que explicará a sua devoção ao Carmelo que, por essa época, gozava de grande expansão em todo o Brasil e, particularmente na dita cidade e no Recôncavo baiano[iv].


Quem seria esse capitão, nascido em Chiqueda que talvez se chamasse Manuel José Francisco, enriqueceu no Brasil e o quis mostrar aos seus conterrâneos, no ano de 1800?





[i] Couseiro ou Memórias do Bispado de Leiria, Transcrição da 2ª edição, de 1898, pág. 264, Colecção Tempos & Vidas, 16, Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] João Cosme | José Varandas (Introdução, Transcrição e Índices), Memórias Paroquiais (1758), Volume III [Almonde – Amorim], Edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, 2011, pág.s 10 e 13.
[iii] Talvez, cerca de 90 ou 100 pessoas.
[iv] O conjunto do Carmo (Convento, Igreja http://www.hpip.org/Default/pt/Homepage/Obra?a=1123
  e Igreja da Ordem Terceira http://www.hpip.org/Default/pt/Homepage/Obra?a=1150) constitui, um dos mais importantes monumentos coloniais de S. Salvador da Baía. No entorno é, também, muito importante, o conjunto do Carmo em Cachoeira (http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=972)
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Nova Exposição de Inês Neves - O Património Edificado de Carácter Religioso do Concelho do Bombarral




Há vários anos que a Inês Neves vem desenvolvendo, com rigor e determinação, a enorme tarefa a que se propôs, de registar em aguarela o património edificado de carácter religioso da nossa região.

Após uma primeira exposição, no ano de 2010, onde apresentou todos os edifícios religiosos do município de Alcobaça, seguiram-se os concelhos da Nazaré, Batalha, Porto de Mós, Caldas da Rainha, Leiria e Óbidos, este no verão de 2013.

Seguiu-se um intervalo de quase dois anos durante o qual a Inês Neves, para além de preparar a presente exposição, se dedicou, com assinalável êxito e qualidade artística, a uma nova forma de expressão, a pirogravura, produzindo belíssimos trabalhos que os leitores interessados podem ficar a conhecer consultando o blog da autora, especificadamente, AQUI e AQUI

É, agora, a vez de retomar a aguarela para prosseguir o levantamento exaustivo do património regional edificado de carácter religioso que, com esta exposição dedicada ao Município do Bombarral, abrange já a totalidade dos edifícios religiosos, - desde o mais imponente Mosteiro à mais modesta e recôndita Capela ou Ermida, - de oito municípios.


A exposição inaugura-se no próximo dia 6 e manter-se-á até 5 de Julho, no Museu Municipal do Bombarral, onde os visitantes não deixarão de se surpreender com a grande qualidade técnica e o valor iconográfico das aguarelas da Inês Neves.



Contactos da exposição:
Museu Municipal do Bombarral,
Palácio Gorjão - Praça do Município
2540-046 Bombarral,
Telefone: 262 609054/58


Blog da Inês Neves:
http://artederecordaravida.blogspot.pt




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Arquitecto João Cordeiro


O nosso jovem conterrâneo João Pedro Garcia Cordeiro defendeu no presente ano lectivo a sua tese (dissertação de Mestrado), do curso de Mestrado Integrado em Arquitectura, do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

A tese, com o título “Voltar ao rio para (re)descobrir a porta de Alcobaça para o mar – Uma proposta para o território do rio Alcoa na antiga lagoa da Pederneira”, propõe as linhas gerais de um projecto de requalificação das margens do rio Alcoa, desde a saída de Alcobaça até à foz, tendo por objectivo a sua utilização em actividades turísticas e de lazer.

Apoiado numa larga bibliografia, onde pontificam todas as obras de referência para o estudo da região e da celebrada actividade agrícola dos frades cistercienses, o João Cordeiro traça um quadro impressivo da história da lagoa da Pederneira e das actividades humanas que se instalaram nas suas margens e acabaram por a ocupar totalmente logo que as obras de enxugo o permitiram.

O essencial do projecto incide sobre a área imediatamente seguinte à saída de Alcobaça para a Nazaré (a porta de Alcobaça para o mar de que fala o título da tese), o vale “garganta” que se segue à ponte chamada de Dom Elias e se abre sobre terrenos que outrora pertenceram à extinta COFTA - Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça.

Como diz o autor, “pretende-se desen­volver o projecto de um Parque Verde que explore a riqueza do vale a “garganta”.
O parque é delimitado pela ponte D. Elias, a Sul, e a Companhia de Fiação e Te­cidos de Alcobaça (COFTA), a Norte, estendendo-se a proposta para as encostas do vale. Subsidiário destes objectivos, pretende-se redesenhar a porta Norte da cidade de Alcobaça, a antiga ligação da cidade à Lagoa e daí ao mar.

Esta “garganta” é o único ponto de saída das águas recolhidas na bacia do rio Alcoa (e, também, do Baça), a qual tem uma área aproximada de 200 km2 e uma forma sensivelmente triangular, limitada a nascente pelos cumes da serra dos Candeeiros, entre Pedreiras (Porto de Mós) e Benedita.

O projecto, naturalmente, não afecta a actividade industrial (Goanvi – Central de engarrafamento de Bebidas, Lda.) que se desenvolve nas antigas instalações da fábrica da COFTA, restringindo-se, como se disse, a terrenos adjacentes que hoje não têm utilização industrial ou outra e onde subsistem importantes obras de hidráulica (açude, comportas, levadas, ou canais), as ruínas dos edifícios da Assistência Araújo Guimarães e da Central Eléctrica e outros vestígios de ocupações anteriores que se pretende preservar e valorizar.

Não é, aqui, o lugar para explanar mais o projecto nem para a sua crítica mas, apenas, para saudar o João Cordeiro, (de quem já conhecíamos a participação no concurso de ideias promovido pela Pladur, para a reconversão de uma das naves do antigo matadouro de Madrid[i]), desejando-lhe as maiores venturas pessoais e profissionais e que, dentro de alguns anos possamos dizer de um belo edifício que, “o arquitecto é um rapaz da minha terra”[ii].


Rio Alcoa, vendo-se, a azul claro, as áreas das lagoas, agora os campos da Cela e da Maiorga.
A verde, a área para que se propôe o Parque Verde (desenho de João Cordeiro).

Dois dos edifícios cuja preservação, renovação e requalificação se propôe: Assistência Araújo Guimarães e Posto de Transformação (desenhos de Joao Cordeiro)






[i] Aos mais curiosos, recomenda-se uma visita ao site oficial do Matadero de Madrid, por onde se pode ver como funciona uma bem sucedida reconversão de uma grande estrutura industrial que o tempo tornou absoleta. Ver: http://www.mataderomadrid.org/index.php.
[ii] O título de arquitecto, à semelhança de outros como, por ex., advogado ou médico, só pode ser usado legalmente por pessoas inscritas na respectiva Ordem. O João Cordeiro terá, ainda, de realizar um estágio profissional e só depois poderá inscrever-se como Arquitecto na Ordem dos Arquitectos. 
Fique, pois, claro que o título deste post é da minha exclusiva responsabilidade. J. Q.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Monumento aos combatentes



O passado domingo, dia 17 de Maio de 2015, foi dia grande na Ataíja de Cima, com as cerimónias relativas à inauguração do monumento que fica a perpetuar, gravados na pedra, os nomes dos ataíjenses que no cumprimento do serviço militar, então obrigatório, participaram na guerra colonial, ou do Ultramar, em Angola, na Guiné e em Moçambique e, ainda, daqueles que participaram na 1ª Guerra Mundial e dos que, durante a 2ª Guerra Mundial, prestaram serviço, em missão de soberania, em Cabo Verde e em Timor.

A legenda do monumento é justa:
Monumento aos
combatentes de Ataíja de Cima
Inaugurado a 17-5-2015

Um monumento é construção ou obra que recorda alguém ou algum facto memorável.

Ouvi, durante os discursos, falar-se em homenagem mas, a verdade é que o monumento existe antes de tudo por vontade desse ataíjenses que, nos anos de 1960 e 1970, estiveram nas guerras em África – e recordo aqui o José Catarino, entretanto falecido e que foi um dos primeiros a falar-me nesta intenção - e, se a iniciativa foi dos próprios que estiveram na Guerra, não seria curial eles pretenderem homenagear-se a si próprios.

Do que se trata a meu ver, é de dar testemunho da importância que tiveram, para cada um, aqueles dois anos das nossas vidas.

Nós tínhamos 20 anos.

Vinte anos que a grande maioria tinha passado aqui, nesta borda da serra dura e difícil onde, então, não haviam estradas alcatroadas, nem electricidade que só cá chegou em 1969, nem gás, nem água canalizada, os veículos automóveis se contavam pelos dedos de uma mão e muitas ruas ainda eram cobertas de mato. Apenas dois ou três, dois, julgo eu, viviam “lá para Lisboa” onde os seus pais estavam emigrados. Dos outros, muitos já conheciam os campos do Bombarral de neles andar às vindimas e, também as quintas dos arredores de Lisboa, das ceifas e do trabalho nas vacarias.

Era esse o nosso mundo e fomos lançados para os confins da África onde tudo era novo e diferente:
As pessoas, a paisagem, as plantas e os animais, a cor e o cheiro da terra e havia a guerra.

Regressámos todos mas alguns, entretanto, foram levados por doenças e acidentes.
Alguns, regressaram e, de imediato, se meteram, a salto, para a França e a Alemanha, à procura de uma vida que não tinham esperança de aqui conseguir.

Os que estamos, a maioria dos que estamos vivos, ainda agora, quarenta ou cinquenta anos depois, se reúne, ano a ano, com os seus camaradas de armas.

E, reúnem-se para rever amizades forjadas em condições muito difíceis e, por isso, duradoiras.
E, reúnem-se para exorcizar fantasmas. Porque a muitos, como bem disse o Fernando Veríssimo, ainda os perseguem as dificuldades e perigos vividos e as marcas que deixaram nas suas memórias e, como também disse o Presidente do Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes, afectam profundamente a vida de tantos combatentes que ainda hoje sofrem, perante a quase indiferença da sociedade e dos poderes.
Mas reúnem-se, certamente, para dar evidente testemunho da importância que a guerra teve nas suas vidas.
E, a meu ver, é para dar testemunho da importância que a guerra teve nas nossas vidas que este monumento, ingénuo como nós éramos, se justifica.

Por tudo isso, o domingo dia 17 de Maio de 2015 foi, como já disse um dia grande para a Ataíja de Cima. Um dia diferente porque, como ouvi ao Joaquim Luís, os dias são iguais, as pessoas é que os fazem diferentes.

O Monumento

O monumento, esculpido pelo nosso jovem conterrâneo Nuno Matias, bem como o arranjo do espaço envolvente só foram possíveis graças à generosidade das seguintes empresas, às quais importa agradecer:

Limeport, Unipessoal, Lda. (http://limeport.pt/#!/)
Sousa & Catarino. Lda. (http://sousaecatarino.pt/)
Germano & Cordeiro, Lda.
Alberstone, Unipessoal, Lda. (http://www.alberstone.pt/index.php/pt/)
Marfilpe, Mármores e Granitos, S. A. (http://www.marfilpe.pt/pt/)
Lareiras Sousa, Lda.
Mármores Vigário, Lda. (www.mvc.pt/)



Agradecemos, também, à Câmara Municipal de Alcobaça pela facilitação e colaboração na preparação do largo onde se ergue o monumento (lamentavelmente não consigo, agora, identificar a Sra. Arquitecta que orientou a requalificação do espaço).

Agradecemos, ainda, à Junta de Freguesia de Aljubarrota que participou nessa requalificação, disponibilizando mão-de-obra e materais.

A Inauguração

As cerimónias do dia iniciaram-se com uma missa campal, seguindo-se a inauguração do monumento.
Estiveram presentes o Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, Sr. Tenente General Joaquim Chito Rodrigues, representantes das unidades militares da região, o Presidente do Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes, Sr. Joaquim Romão, os Presidentes da Câmara Municipal de Alcobaça e da Junta de Freguesia de Aljubarrota, o Sr. Padre Ramiro, representantes dos Núcleos da Liga dos Combatentes de Alcobaça, Batalha, Leiria, Marinha Grande, Peniche e Rio Maior.
As honras militares foram prestadas por um destacamento da Escola de Sargentos do Exército.

O Convívio

Seguiu-se um almoço convívio, no Salão Cultural Ataíjense, com a participação de mais de 200 pessoas, no final, animado pelo Grupo Coral Alentejano dos Serviços Sociais das Autarquias do Seixal, cuja actuação foi, infelizmente, prejudicada pelas deficientes condições acústicas e pelo Grupo de Concertinas Aldeias do Baça.

Agradecimentos finais

Tendo a certeza de, aqui, falar em nome de todos, importa dizer que os combatentes ataijenses estão muito gratos a muitas pessoas, instituições e empresas, - lamentando não poder mencioná-las a todas especificadamente – que, de algum modo, colaboraram na realização do monumento e no dia da sua inauguração.

Ao Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes, agradecemos a preciosa colaboração e apoio, sem os quais nada teria sido possível, e o impecável e rigoroso guião com que organizou as cerimónias do dia e lhes conferiu uma dignidade que a todos honra.

Ao Sr. General Joaquim Chito Rodrigues que nos honrou com a sua presença, obrigado por isso e porque quis estar connosco muito para além do tempo que o protocolo exigiria.
  
Combatentes ataíjenses

Na base do monumento inscrevem-se os nomes dos ataijenses que, no Séc. XX, participaram em guerras ou missões de soberania. São eles:

Angola
Francisco Coelho Agostinho
Francisco Constantino Coelho
João Cordeiro Quitério (João de Sousa Quitério)
José Coelho Matias
Manuel Graça Veríssimo
José Graça Coelho
João Tomás Coelho
Joaquim Coelho Agostinho
António Graça Salgueiro
José Henriques de Horta
José Dias Vigário
José Henriques Salgueiro
Alberto Tomás Coelho
Francisco Constantino Branco
Eduardo Cordeiro Dias
Francisco Eleutério dos Santos
José Lourenço de Sousa
José Marques Coelho
António Coelho Matias
Fernando Graça Veríssimo
José Gomes Sousa

Guiné
Francisco Maurício Vigário
José Ribeiro Vigário
Francisco Silva Salgueiro
José Cordeiro Catarino
Joaquim Costa Moura
José Graça L. Quitério
João Vigário Bernardino
Rafael Matos Maurício

Moçambique
João Félix Sousa
José Constantino Júnior
Joaquim Lourenço Machado

1ª Guerra Mundial
José Constantino
Luís Dias Vigário

Cabo Verde
João Manuel Sousa
José Graça Salgueiro

Timor
António Luís Sousa




Honras militares, após o descerramento do monumento


Um aspecto do Salão Cultural Ataijense durante o almoço


 O Grupo Coral Alentejano dos Serviços Sociais das Autarquias do Seixal, durante a sua actuação


 O Zé da Ilda preparando-se para apresentar o Grupo de Concertinas Aldeias do Baça


O Nuno Matias, junto da sua obra


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A propósito do Acordo Ortográfico




Entra hoje, oficialmente, em vigor o Acordo Ortográfico de 1990, de que tanta gente fala – há tantos anos – e tão poucos se deram ao trabalho de conhecer.

Este blog, naturalmente, ambiciona ser lido e conhecido e é, nesse sentido, um transmissor da língua portuguesa e apresentarem-se bem ou mal escritos os textos nele publicados, quer dizer, com grafia correcta ou incorrecta, não será, talvez, indiferente.

Considero, por isso, ser meu dever esclarecer os leitores da minha posição pessoal sobre o assunto Acordo Ortográfico.

A meu ver, a nova ortografia oficial sofre de erros e problemas evidentes e injustificáveis. É verdade, por exemplo, que entre outras soluções muito questionáveis, o dito Acordo move, como alguém disse "uma 'guerra religiosa' de caça às consoantes mudas".

Dito isto, a generalidade dos argumentos dos mais ferrenhos opositores do Acordo não convence. 
O célebre exemplo do cágado e do cagado que seria cagádo, não passa de uma boutade (é assim, a palavra francesa boutade tem uma boa meia dúzia de equivalentes em português: graça, brincadeira, bazófia, piada, piada, chiste mas, para a nossa arreigada saloiice, sempre foi muito chique (e sai mais um galicismo), até entre alguns dos mais estrénuos defensores da anterior ortografia oficial, meter no discurso umas palavras de estrangeiro).

A verdade é que eu acordo todas as manhãs e nunca preocupado com o acordo.

A intervenção estatal na ortografia do português começa com a Reforma Ortográfica de 1911 (vale bem a pena ler o “Relatório da Comissão nomeada, por portaria de 15 de fevereiro de 1911, para fixar as bases da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos oficiais e outras publicações feitas por conta do Estado” que foi publicado no Diário de Governo, n.º 213, de 12 de setembro de 1911 e está disponível online, em PDF, em:  https://dre.pt/application/dir/pdfgratis/1911/09/21300.pdf)

Depois disso, há um longo rol de tentativas de realizar o que se me afigura virtualmente impossível: a uniformização da ortografia do português em todos os países que o usam como língua oficial (v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ortografia_da_l%C3%ADngua_portuguesa)

Pela minha parte, como já disse, esta é uma questão que me não preocupa. Continuarei, por isso, a escrever sem atender à conformidade ou desconformidade com o Acordo.
Mas não vejam nisso, os inimigos do Acordo, alguma devoção particular à anterior ortografia nem, muito menos, qualquer presunção – que seria absolutamente estúpida - de que o que eu aprendi na escola é que era o verdadeiro português (e, a ortografia do português que eu aprendi foi diferente da que o meu pai teria aprendido se pudesse ter ido à escola e, também, diferente da que os meus filhos aprenderam).


O problema da língua portuguesa não é o modo como é escrita.
É o ser tão pouco lida.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Bernardino dos Santos




No Livro n.º 53, de Matrícula de Expostos Varões, do ano de 1857[i], a fl. 313, consta a matrícula n.º 1192, de uma criança do sexo masculino, entrada e baptizada (Lvº 137 dos Baptismos, fl. 309, nº 1067) nesse dia 28 de Maio de 1857 e a quem foi posto o nome de Bernardino.

No dia seguinte, 29 de Maio de 1857, foi a criança entregue à ama-de-leite Miquelina Augusta, moradora na Rua do Vale de Santo António, nº 154, freguesia de Santa Engrácia (actualmente freguesia de S. Vicente de Fora), em Lisboa[ii].

De acordo com as regras em vigor naquele tempo, a ama foi contratada por doze meses para a criação e amamentação do exposto, pagando-lhe o Hospital dos Expostos de Lisboa (que, era como que uma divisão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) a quantia mensal de 1$600 (mil e seiscentos réis) e total de 19$200.
Como normalmente acontecia, esse contrato foi renovado uma e duas vezes, para que a mesma ama continuasse a criação do exposto, agora alimentado a seco, sendo a primeira renovação por 12 meses de seco a 1$100, a contar de 29 de Maio de 1858, valor total – 13$200 e a segunda por 12 meses de seco a $900, a contar de 29 de Maio de 1859, valor total – 10$800.
E, temos a criança chegada à idade de três anos.
Era a altura de, reavaliadas as condições da ama e da criança, contratar a sua criação até à idade de sete anos. Dependendo dos resultados da avaliação da situação da ama e da criança, este contrato podia ser feito com a mesma ou outra ama.
No caso, ter-se-á concluído que a criança estava de boa saúde e bem tratada e que a ama Miquelina Augusta tinha todas as condições indispensáveis para continuar com a responsabilidade da criação. Fez-se, assim, o contrato: 48 meses de seco a $500, a contar de 29 de Maio de 1860, total  – 24$000

No entanto, passado pouco tempo, menos de nove meses, algo aconteceu com a ama que levou a que a criança fosse, em 25 de Fevereiro de 1861, entregue a Carlota Júlia da Silva, solteira[iii], moradora na Rua das Freiras, nº 8, loja, freguesia de Santa Maria de Belém[iv].
39 meses[v] de seco a $500 – 19$500

Também esta ama não pode ou não quis cumprir o acordo e, menos de três meses depois, em 6 de Maio de 1861, o Bernardino foi forçado a mudar de casa, sendo entregue a Maria da Paixão, casada com José Francisco Marques, moradores na Calçadinha do Tijolo, nº 48, Freguesia de São Vicente (de Fora), ali às Escolas Gerais, bem no coração da velha Lisboa, entre a Graça e Alfama e S. Vicente de Fora e as Portas do Sol.
Aí devia ter ficado pelos 37 meses que lhe faltavam para atingir os sete anos de idade.

Mais uma vez o Bernardino não tinha, ainda, encontrado o seu poiso e, 13 meses depois, em 18 de Junho de 1862, estava a ser entregue a Joaquina Coelho, casada com José Machado, lavrador, “moradores no logar de Atouguia de Cima (sic), freguesia de São Vicente de Aljubarrota”…

Finalmente, aos cinco anos de idade, o Bernardino tinha chegado a casa.

Cino anos depois, em 7 de Maio de 1867, quando o Bernardino atinge a idade de dez anos, é celebrado o último termo de entrega, o chamado “Termo de Vestir”[vi]. A entrega é feita à mesma Joaquina Coelho, casada com José Machado, lavrador, residente no lugar de Ataíja de Cima, freguesia de S. Vicente de Aljubarrota, concelho de Alcobaça[vii].

Termo de Vestir de Bernardino dos Santos
(foto gentimente cedida pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa)


Agora já não se trata da entrega da criança a uma ama que, contra pagamento, se encarrega de o alimentar, cuidar e vestir.
Supõe-se que a criança, aos dez anos de idade, já é capaz de produzir trabalho que vale a sua alimentação, educação e o vestir. Por isso, o hospital dos Expostos, embora continue a vigiar o seu desenvolvimento, já não pagará mais.
O jovem (hoje diríamos, a criança) trabalhará para a família de acolhimento que, em contrapartida, deve  “… tratal-o como seu próprio filho, educando-o e instruindo-o quanto lhe for possível … fazêl-o cumprir todos os deveres da nossa religião … procurar ou ensinar-lhe uma profissão …”[viii]


Em 27 de Novembro de 1889 Bernardino dos Santos, solteiro, criado de servir, exposto da SCML, de 32 anos de idade, casou-se com Francisca Branca, solteira, doméstica, de 25 anos de idade, filha de António Dias e Mariana Branca, todos naturais da Ataíja de Cima.



[i] Conservado no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
[ii] A Rua do Vale de Santo António desce, por um vale, da Rua dos Sapadores, à Graça, para o Rio, na zona de Santa Apolónia e deve o seu nome à Capela do Vale de Santo António, ou Ermida de Santo António do Vale, ali existente, construída na 2ª metade do século XVIII, no local onde, segundo a tradição, descansou Santo António quando se dirigia ao Tejo, vindo do Convento de São Vicente de Fora, para embarcar para o Norte de África.
O interior da capela é decorado com valiosos azulejos que narram milagres de Santo António e cenas da vida de Nossa Senhora. (v. http://www.cm-lisboa.pt/en/equipments/equipment/info/capela-do-vale-de-santo-antonio, consultado em 17-04-2015)
[iii] As amas de seco podiam ser casadas, solteiras ou viúvas ou, até, homens. (ver o que a propósito escrevemos em “Amas de Expostos” http://ataijadecima.blogspot.pt/2013/04/amas-de-expostos.html
[iv] A rua não existe actualmente, ao menos com aquele nome.
[v] Ou seja, para completar p tempo que faltava até aos sete anos, idade em que
[vi] No final deste texto reproduzimos o Termo de Vestir do Bernardino. Vale a pena clicar sobre a imagem para a ampliar e ler, com atenção, todo o seu texto.
[vii] Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lvº 25 de Vestir, fl. 227, Lvº 42 reforma, fl. 227
[viii] No final deste texto reproduzimos o Termo de Vestir do Bernardino. Vale a pena clicar sobre a imagem para a ampliar e ler, com atenção, todo o seu texto.