quarta-feira, 7 de março de 2018

A Guerra Civil (1832-1834) na nossa região



Durante grande parte da primeira metade do século XIX a nossa região foi palco de sucessivas movimentações militares.

Primeiro, as invasões francesas. Há documentos relatando a presença dos exércitos, quer franceses quer ingleses, desde Agosto de 1808 e, quase sem interrupções, até, pelo menos, Março de 1811.

Tinham passado pouco mais de vinte anos sobre as guerras e os sofrimentos provocados pelas Invasões Francesas quando, de novo, por aqui andaram as botas cardadas dos militares. Agora, era a Guerra Civil travada entre os dois irmãos D. Pedro e D. Miguel, na verdade, a guerra entre o Antigo Regime agonizante e a sociedade moderna que emergia.

Passados pouco mais de três anos sobre o fim da guerra civil, novas incursões militares pela nossa terra. Agora, a chamada Revolta dos Marechais, reacção ao Setembrismo encabeçada pelos mesmos Saldanha e Terceira que tinham vencido a Guerra Civil.
Um dos mais importantes, embora inconclusivo, dos combates havidos durante a Revolta dos Marechais ocorreu no Chão da Feira, praticamente no mesmo local onde 452 anos antes se tinha travado a Batalha de Aljubarrota. 

Mais tarde, em 1846 e 1847, a Revolta da Maria da Fonte e a Guerra da Patuleia haviam de trazer novos e sucessivos movimentos de tropas a toda a nossa região.

Mas, do que queremos falar hoje é da Guerra Civil.

Depois das Cortes de 1828 onde D. Miguel se fez proclamar Rei absoluto, os liberais foram perseguidos e presos aos milhares, muitos foram mortos e grande número foi forçado a exilar-se. D. Pedro abdica então do trono brasileiro e em 1831 desembarca nos Açores para, a partir daí, organizar um exército que desembarcou nos arredores do Porto em Julho de 1832, aí ficando sitiado pelos miguelistas durante longos 13 meses, até Agosto de 1833.

No início desse ano de 1833, os liberais contrataram para comandar as suas forças navais um oficial da marinha inglesa, Charles Napier[i] o qual escreveu um pormenorizado relato da sua participação nesta guerra, relato esse que, sob o título An Account of the War in Portugal, foi publicado em Londres em 1836 e, traduzido com o título Guerra da Sucessão em Portugal, foi publicado em Lisboa em 1841.

Apesar de a tomada de Lisboa pelos liberais e o fim do Cerco do Porto terem ocorrido em meados de 1833 (Julho e Agosto, respectivamente), a guerra continuou e só veio a terminar em Maio de 1834 com a assinatura da Convenção de Évora Monte.

Nesses longos meses, as operações militares tiveram particular incidência na Estremadura onde Leiria permanecia fiel a D. Miguel e no Ribatejo,  já que o mesmo D. Miguel, tinha instalado o seu quartel-general em Santarém. O último dos grandes combates desta guerra aconteceu precisamente em Maio de 1834, na Asseiceira, perto de Tomar, apenas dez dias antes da assinatura da Convenção de Évora Monte.

A paginas 125 do Tomo II do referido Guerra Civil em Portugal, o almirante Charles Napier descreve a conquista de Leiria e os movimentos de tropas que a precederem:

No dia 12 de Janeiro[ii] tomou o Duque da Terceira o Comando do Exército e estabeleceu o seu Quartel-General no Cartaxo. Saldanha partiu no mesmo dia para Rio Maior, para onde tinha destacado uma força na tarde anterior, para formar uma junção com as tropas já estacionadas, ali e em Alcobaça, perfazendo ao todo cerca de quatrocentos a quinhentos homens.
No dia 13 a Cavalaria ocupou os Carvalhos[iii], e a Infantaria os Molianos e povoações adjacentes. O Tenente-Coronel Vasconcellos com o 1.° Regimento de Infantaria Ligeira da Rainha marchou no mesmo dia para Cós e no dia seguinte chegou à Batalha.
Uma copiosa chuva que durou quarenta e oito horas sem interrupção tinha inundado todo o terreno, mas não obstante estas dificuldades as colunas estavam empenhadas em marchar sobre Leiria e atacar aquela Cidade, antes que o inimigo tivesse tempo de se escapar. Contudo, as dificuldades de uma marcha noturna eram tão grandes que o Marechal decidiu esperar para o dia seguinte.

(E, no dia seguinte, Leiria foi tomada e, quando os últimos defensores miguelistas a abandonavam, fugindo pela estrada de Coimbra …)

A Cavalaria foi no seu alcance pelo espaço de uma légua. Matou muitos, e fez muitos prisioneiros
Os Oficiais do Estado Maior acompanharam a Cavalaria e acharam muita satisfação em tingir as suas espadas em sangue Miguelista.

Tal é a guerra civil.


Almirante Sir Charles John Napier, pintura atribuída a John Simpson [Public domain], via Wikimedia Commons



[i] O Almirante Sir Charles John Napier foi um importante e controverso militar e político, com uma carreira longa e recheada, durante a qual serviu com brilhantismo as armadas britânica e portuguesa. A sua biografia merece bem uma leitura. (v. https://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_John_Napier)
[ii] De 1834.
[iii] O lugar que hoje chamamos Pedreiras

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

As empresas e a informação digital


(A Propósito do Texto "A Ataíja de Cima e o Portugal 2020")




No texto que publicámos recentemente neste blog sob o título A Ataíja de Cima e o Portugal 2020 era importante, para a análise que pretendíamos fazer, saber qual a freguesia e se possível o lugar onde se situam a sede das empresas promotoras de cada um dos projectos aprovados e, ou, a delegação, filial, instalação fabril ou similar cuja existência justifica a imputação do projecto ao concelho de Alcobaça.
Ora, na lista publicada, os elementos relativos à entidade promotora do projecto são, apenas, a designação social, o CAE e o NIF.

Recorremos então à internet para conhecer aqueles elementos, o que julgamos ter conseguido na maioria dos casos. Com vista a garantir a maior homogeneidade possível dos elementos recolhidos, privilegiámos a consulta ao site da própria empresa e, quando necessário, ao site empresite.jornaldenegócios.pt que se intitula o maior directório online de empresas de Portugal, consulta essa complementada com a de outros sites especializados, designadamente pt.kompass.com, www.racius.com, www.gescontact.pt e outros.

Apesar disso, não foi possível, como dissemos naquele texto, confirmar relação entre cinco das empresas promotoras de projectos e o concelho de Alcobaça.
Por outro lado e a nosso ver mais importante, foi possível verificar a deficiente qualidade dos dados publicados relativamente a diversas empresas, sinal de que as nossas empresas ainda não estão despertas para a importância das modernas formas de comunicação.

De facto, aconteceu um pouco de tudo. Desde empresas que não  têm um site na internet até outras (ou as mesmas) que têm páginas no Facebook mas onde faltam elementos essenciais, como o que fazem ou como podem ser contactadas e outras que já há anos não actualizam essas páginas.
Outras, ainda, publicam com regularidade no Facebook mas caiem em exageros de juntar dezenas de fotos de uma vez e, frequentemente, sem que essas fotos tenham um mínimo de qualidade ou de cuidado na sua feitura e onde o que se quer mostrar mal se distingue do cenário onde se amontoam outras peças, resto de produção, paletes e sabe Deus mais o quê.

Ora, se queremos, por exemplo, mostrar uma obra em pedra – uma lareira ou semelhante – ou qualquer peça, é elementar considerar a cor desse objecto e, se é claro arranjar um fundo escuro e vice-versa. O fundo deve ser uma cor plana para realçar o objecto que se quer mostrar[i].  

Naquela nossa busca podemos ainda verificar que, quer seja nos sites especializados de informação económico-comercial como os citados, quer em sites de informação geográfica dirigidos ao público em geral como o Google Maps e outros, quer nos sites e páginas de Facebook das próprias empresas, as informações estão, com frequência, erradas[ii] ou desactualizadas[iii].

Como é evidente, a circulação na internet de informações erradas ou desactualizadas sobre as empresas não as pode beneficiar.

É, a meu ver, necessário que os empresários – sobretudo os empresários que trabalham essencialmente para a exportação ou que querem actuar em mercados não meramente locais, - se consciencializem de que hoje em dia qualquer interessado, em qualquer produto, a primeira coisa que faz é abrir o Google e recolher todas as informações possíveis sobre o fornecedor.
Nestas matérias, como nas outras, um dos melhores métodos para aprender o que deve ou não deve ser a comunicação digital é o benchemarking.[iv] É o observar, aprender e melhorar com o que fazem os outros que fazem bem, ou melhor do que nós (e, também, observando e analisando os erros alheios, como método para evitar erros idênticos).

Em matéria de sites empresariais na internet, a Ataíja de Cima, tem bons exemplos de sites bens feitos e que passam eficazmente as informações essenciais sobre a empresa: o que é, o que faz, como pode ser contactada, e de outros que quase cumprem esses objectivos mas onde se notam deficiências várias, dos tipos indicados no texto, como pode ser visto, por ex., nos seguintes (um ex. de um bom site e dois com algumas deficiências):
https://www.mvc.pt/pt

Uma última referência, para um meio de informação digital cada vez mais importante, o Facebook, e um exemplo concreto dessa importância:
O texto A Ataíja de Cima e o Portugal 2020, foi publicado neste blog, no dia 17-02-2018.
Nove dias depois, no dia 26-02-2018 ao fim do dia, tinha apenas 19 visualizações. Partilhado então na minha página pessoal no Facebook, menos de 24 horas depois já tinha mais de 200 visualizações.


Estas são realidades que os empresários têm de ter presentes:

- A comunicação do nosso tempo é a comunicação digital.
- Um bom site na internet e uma boa página no Facebook[vii] podem ajudar a levar a empresa e os negócios muito mais longe e muito mais depressa.

 






[i] No caso das peças de pedra, geralmente de cor clara, o meu conselho é que se tenha uma parede livre pintada de cor escura (preto ou azul escuro) ou onde se possa pendurar um pano escuro e fotografar a peça tendo essa parede por fundo. É claro que há outras questões, como a iluminação etc., mas são coisas que se podem resolver com alguma facilidade, desde que haja a preocupação e o cuidado necessários.
[ii] Por exemplo, se buscarmos no Google Maps por Ricarle Stone Lda, vemos que a sua localização é indicada como situando-se na esquina entre a Rua dos Arneiros e a Rua do Martins.
[iii] Desactualizadas, para dizer o mínimo. Há uma empresa ataijense que, em três sites diferentes tem três moradas diferentes, uma delas a mais de cem quilómetros de distância.
[iv] Uma breve introdução ao benchemarking pode ser lida em http://www.pmelink.pt/manuais/planeamento-e-estrategia/como-fazer-benchmarking
[v] Entre outras deficiências, o site tem excesso de fotos, algumas delas em cenários pouco cuidados. Não é preciso mostrar tudo o que se faz. Basta mostrar o melhor que se faz).
[vi] Entre outras deficiências, o mapa no separador Gallery assinala a empresa em local errado e é de manuseamento (CTRL+Rollerball) excusadamente difícil. Por outro lado, se buscarmos no Google Maps por Destinos - Arte Cerâmica S.A, a morada está errada.
[vii] E, nunca serão bons sites nem boas páginas se não estiverem actualizados.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Ataíja de Cima e o Portugal 2020





O Portugal 2020[i] publicou, actualizada a 31-01-2018, a lista dos projectos co-financiados aprovados até àquela data para a Região Centro que, lembre-se, abrange uma vastíssima área correspondente a cerca de 30% do território continental, entre a margem esquerda do Douro e a margem norte do Tejo, abrangendo 100 municípios com uma população de mais de 2.300.000 pessoas, cerca de 23% da população do continente.
Na Região, os municípios com maior número de projectos aprovados e de despesa total elegível bem como de fundo total aprovado são, por ordem decrescente, Leiria, Marinha Grande, Coimbra, Águeda e Alcobaça, a que se segue Viseu que, relativamente a Alcobaça tem um maior número de projectos aprovados (112 e 119 respectivamente), no entanto, correspondentes a uma despesa total elegível de menos de metade do valor (Alcobaça 54.501.252,55€, Viseu 23.935.428,59€)

No que diz respeita a Alcobaça, temos um total de 112 projectos aprovados, promovidos por 70 empresas e pelo Município de Alcobaça, das quais 45 empresas com 1 projecto comparticipado, 19 com 2 projectos, 3 com 3 projectos, 2 com 4 projectos, 1 com 5 e O Município de Alcobaça com 7 projectos comparticipados

Por freguesias, verifica-se que as freguesias de Bárrio, Cela e Vimeiro, não têm projectos aprovados, a Maiorga tem 1 projecto, Alfeizerão, Évora e Turquel têm 2 projectos cada uma, seguindo-se São Martinho do Porto com 5 projectos, UF Alcobaça e Vestiaria com 11, Aljubarrota 15, Benedita 19, UF Cós, Alpedriz e Montes 24 e UF Pataias e Martingança 26.

No caso da União de Freguesias de Alcobaça e Vestiaria estão incluídos os 7 projectos de iniciativa municipal que, na sua maioria são a desenvolver noutras freguesias do município[ii].
Note-se que a afectação dos projectos por freguesia fizemo-la nós atendendo à sede ou instalações da respectiva empresa na área do município. Relativamente a 5 projectos não foi possível estabelecer relação territorial, sendo certo que as empresas promotoras não têm sede no município de Alcobaça, nem aí nos foi possível encontrar qualquer delegação, filial, agência ou similar.

Os 112 projectos aprovados no município de Alcobaça correspondem a um investimento total elegível de 54.501.251,55€ e a um fundo total aprovado de 33.763.489,61€ ou seja, o fundo total aprovado corresponde a uma comparticipação de 61,95% do investimento total elegível.


Os seis projectos aprovados, das cinco empresas ataijenses, uma do sector da cerâmica e as restantes do sector de transformação de rochas ornamentais[iii] que constam da lista, somam um investimento total de 3.103.002,29€ e um financiamento no âmbito do Portugal 2020 de 1.806.455,55€, correspondendo a, respectivamente, 5,69% e 5,35% dos valores do investimento total elegível e do fundo total aprovado a nível municipal.

Muito relevante é, a nosso ver, o facto de todos esses seis projectos terem sido aprovados ao abrigo do mesmo eixo de intervenção do Programa, o Eixo 2 – Competitividade e Internacionalização da Economia Regional (COMPETIR) e tendo por objectivos o aumento da capacidade produtiva por automatização de processos industriais, a alteração do processo de produção, a valorização da pedra natural, a inovação e a internacionalização das empresas.

A lista completa dos projectos aprovados no âmbito do Programa Operacional Regional do Centro pode ser consultada aqui:
http://centro.portugal2020.pt/index.php/projetos-aprovados




[i] Para saber mais sobre o Portugal 2020 – acordo entre Portugal e a União Europeia para a aplicação dos fundos europeus no período de 22014 a 2020 – e a sua aplicação na Região Centro, através do Programa Operacional Regional do Centro 2014 – 2020, Centro 2020, pode consultar-se  a brochura em PDF disponível online em: https://www.portugal2020.pt/Portal2020/Media/Default/Docs/Programas%20Operacionais/BROCHURAS%20PO/BrochuraCentro2020.pdf (consultado em 16-02-2018)
[ii] Informação mais detalhada sobre os projectos municipais comparticipados pode ser consultada, por ex., no site municipal em: http://www.cm-alcobaca.pt/pt/menu/1091/projetos-co-financiados-pela-uniao-europeia.aspx (consultado em 16-02-2018)
[iii] PSG Stone, S.A., Ceriart – Cerâmica Artística, S.A., Marmobaça – Indústria e Comércio de Pedras, Lda, MVC – Mármores de Alcobaça, Lda e Lareiarte – Arte em Fabrico de Lareiras, Lda.

sábado, 27 de janeiro de 2018

19º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense



Como vem acontecendo sem interrupção desde o ano de 2000, realizou-se no passado domingo, dia 21, terceiro domingo de janeiro, o 19º almoço anual do Salão.


Numa sala bem composta, desta vez com menos comensais do que tem sido costume, em grande parte devido ao falecimento do nosso conterrâneo Francisco Ribeiro Vigário que foi a enterrar no dia 20, cerca de 250 ataijenses e amigos reuniram-se para uma grande jornada de convívio.



Pela primeira vez tivemos entre nós o Sr. Padre Adelino Guarda que se mostrou genuinamente impressionado com a capacidade de união e realização ataijense.
Também pela primeira vez esteve connosco, em representação do Sr. Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, o Vereador Sr. João Santos.


A Direcção em funções homenageou a antecedente oferecendo a cada um dos seus elementos uma pequena lembrança, como agradecimento pelo seu trabalho à frente do Salão no período de 2015 a 2017.
Homenagem justa, porque o salão só pode viver com o trabalho e a dedicação de muitos.



Foram apresentadas as Contas relativas a 2017, pelas quais se vê que o Salão dispõe de uma confortável situação financeira, sendo de salientar as receitas obtidas com o Festival das Sopas que, cada vez mais, se vem afirmando como um enorme êxito.
Por outro lado, verifica-se que apenas se gastou cerca de metade do valor do subsídio dado pela CMA para a remodelação do Largo do Cabouqueiro (e, que bonito ele está), o que só foi possível graças às muitas colaborações gratuitas que foi possível obter. O valor sobrante desse subsídio servirá para financiar as restantes melhorias que ali se pretendem introduzir a breve prazo, designadamente o arranjo do campo de futebol, incluindo a colocação de balizas, a construção de uma pista e a instalação de aparelhos de manutenção física.

Finalmente, importa dar nota de que foi publicamente anunciado que, como aliás já tinha sido publicado na folha paroquial, foram celebradas as escrituras de compra e a de doação feita pelos nossos amigos Rogério e Luís Vigário dos edifícios onde foram a casa e cómodos de seu avô Sabino Vigário para aí serem instaladas uma Casa Mortuária e outros serviços ligados à paróquia e à Capela de Nossa Senhora da Graça, designadamente instalações para a Catequese.
Atenta a grande área que assim fica disponível para o serviço da comunidade, pretende-se elaborar um projecto de grande qualidade que, muito provavelmente, há-de ser construído por fases, ao ritmo da capacidade da comunidade ataijense.
A Câmara Municipal de Alcobaça disponibilizou-se para oferecer o projecto. Estes assuntos, naturalmente sob a orientação e direcção do Sr. Padre Adelino Guarda, ficam a cargo da comissão da Capela de Nossa Senhora da Graça.

Por mais esta grande contribuição para o desenvolvimento local, é justo colocar aqui a foto dos irmãos Rogério e Luís Vigário, cuja boa disposição é ilustrativa do espírito que a todos animou durante este 19º Almoço Anual do Salão cultural Ataíjense.



Para o ano que vem, como sempre, no 3º domingo de janeiro, no dia 
20 de janeiro de 2019
Cá estaremos, para o 20º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense

sábado, 30 de dezembro de 2017

Aljubarrota, Prazeres. O ano de 1889 – Baptismos


A necessidade de alargar a ambas as antigas freguesias de Aljubarrota as pesquisas que sustentam os textos que aqui venho colocando, depara com alguns problemas de difícil solução. Sem embargo, as surpresas surgem-nos quando menos esperamos e disso é exemplo o livro de registos de baptismos da freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres, relativo ao ano de 1889.

Nesse ano foram baptizadas na freguesia 69 crianças, uma das quais exposta na Pedreira (Molianos). 39 eram rapazes e 30 raparigas e vieram à luz em 12 povoados diferentes, como se indica:
Boavista 13, Pedreira (Molianos) 12, Prazeres (casos em que o padre diz apenas que nasceram “nesta freguesia”) 10, Carvalhal 9, Chequeda e Lagoa do Cão 6 em cada, Lameira 4, Ganilhos 3, Fonte do Ouro e Covões 2 em cada e, finalmente, 1 no Carrascal e 1 exposta.

Destas crianças, 11 eram filhos naturais, quer dizer, de mãe solteira e, em regra, pai desconhecido[i].

Quem eram estas mães? Infelizmente, a idade das mães não consta dos registos de nascimento e, obter essa idade[ii] seria tarefa muito difícil e, em alguns casos, impossível. Não fora assim e talvez pudéssemos confirmar com números o que apenas intuímos: que a idade média das mães de filhos naturais é bastante precoce, designadamente por comparação com a idade das demais mães aquando do nascimento do seu primeiro filho legítimo[iii].

Sabemos, por outro lado, as suas profissões ou ocupações.
Quanto a este ponto, aliás, importa ter presente que, se por um lado o padre era em geral muito rigoroso, distinguindo, por ex. entre profissão, (fulano, pedreiro) e ocupação (sicrana, de ocupação doméstica) por outro lado, na maioria dos casos limitava-se a enunciar uma profissão como comum ao casal (António … e Maria … moleiros, por ex.). Há, ainda, que atentar que as profissões indicadas eram resultado do conhecimento pessoal do padre ou de declaração dos interessados. É, por isso, frequente a profissão de uma determinada pessoa variar de assento para assento. Proprietário aqui é lavrador acolá e trabalhador, ou jornaleiro, em outro assento.
O que podemos concluir com relativa segurança é que, proprietário ou lavrador, trabalhador ou jornaleiro, era pessoa que vivia da terra, fosse trabalhando, fosse mandando trabalhar.
Já quando se indica como profissão uma certa arte ou ofício, podemos considerar com alguma segurança que isso correspondia de facto a mister exercido, fosse a título exclusivo, principal, sazonal ou, até, ocasional.
Inequívoca é a indicação de que se trata de criado (ou criada) de servir. Aqui, não há qualquer espécie de dúvida. Trata-se de alguém que vive sozinho em casa de outrem, em regra em aldeia diferente da de nascimento e residência da família e aí trabalha, de cama e mesa.
O criado ocupa os lugares mais baixos da escala social, apenas acima do mendigo e a par ou abaixo do enjeitado[iv] que, quando era criado de leite, se tornava por vezes uma espécie de meio-irmão dos filhos da ama.

Quem eram, então, quanto à profissão/ocupação, as mães das 69 crianças nascidas na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres no ano de Graça de 1889?
41 eram jornaleiras, 11 lavradoras, 8 domésticas, de 4 não sabemos a ocupação, 3 eram criadas de servir e, por fim, temos 1 moleira e 1 proprietária.
Destas 69 mães, 11 foram mães solteiras, das quais o padre declarou serem 5 domésticas, 3 criadas de servir e sobre 3 não deu informação de ocupação/profissão.
Quanto à naturalidade dessas 11 mães, apenas 4 eram naturais da freguesia de Prazeres (e, presume-se, da aldeia onde foram mães[v]), 3 eram expostas, 2 da freguesia de Pataias, 1 do Valado dos Frandes e 1 de Alcanede.
Das 3 criadas de servir 2 eram da freguesia de Pataias e 1 exposta.
Note-se, ainda, que das 3 mães de que o padre não indicou profissão/ocupação 2 eram expostas.

Um ano é, obviamente, curto espaço de tempo para se tirarem conclusões. Mas, não podemos deixar de chamar a atenção dos nossos eventuais leitores para o elevado número de crianças nascidas de mães solteiras e, ainda, para o facto de que a maioria destas não era natural da freguesia. Tal como é de atentar em que 3 eram criadas de servir e de outras 3 não sabemos a ocupação, mas sabemos que 2 delas eram expostas e a terceira expôs[vi] o filho.
Seja, tudo aponta para que o isolamento familiar e social e a dependência são factores muito presentes nestes casos de maternidade de mulheres solteiras.

Como já acima referimos, uma das crianças foi exposta na Pedreira (Molianos). Trata-se de um caso apesar de tudo insólito, porquanto a exposição de crianças tinha geralmente lugar junto de estabelecimentos receptores (“rodas”) ou em locais onde, presumivelmente, haveria mais facilidade de a criança ser encontrada e acolhida. Abandonavam-se crianças às portas dos ricos, do padre ou da igreja na madrugada de domingo. Seria curioso saber quem era a Manoella da Piedade para, talvez, perceber porque é que a criança foi abandonada à sua porta e não à porta de outra pessoa:

“Aos dez dias do mês de Julho do anno de mil oito centos e oitenta e nove nesta egreja parochial de Nossa Senhora dos Prazeres d’Aljubarrota baptizei solennemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Arthur que foi apresentado em casa de Manoella da Piedade, casada, da Pedreira desta freguesia com um bilhete indicando o dito nome e declarando ser filho de Luiza Caçadora que o dera à luz no dia vinte dois de Junho último à meia-noite neto materno de António Rebotim e Maria Caçadora todos da freguesia do Vallado, concelho e diocese supraditos. Foi padrinho Raimundo Manoel, casado, jornaleiro e madrinha Manoella da Piedade, casada, de ocupação domestica, os quaes sei serem os proprios. E para constar lavrei em duplicado este assento,que depois de lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignou o padrinho e não a madrinha por não saber. Era ut supra.
Raimundo Manoel
O Parocho Joaquim Henriques Farto
”


Moderna “roda de expostos” num hospital de Dortmund, Alemanha.
Foto Reuters, picada do artigo “O regresso da roda dos expostos”, publicado no Expresso de 28.10.2012 (http://expresso.sapo.pt/actualidade/o-regresso-da-roda-dos-expostos=f762582, consultado em 30-12-2017)





[i] Quase sempre, o pai não era, exactamente, desconhecido. Apenas, por razões diversas, não assumia a paternidade.
Note-se que, num destes casos, o pai era conhecido: “…filha natural de Joaquina da Piedade, solteira, de ocupação doméstica, natural da freguesia d’Alcaneide, concelho de Santarem, diocese de Lisboa e Raimundo Ferreiro, solteiro, trabalhador, natural do dito Carvalhal …”.
[ii] Em regra, por recurso aos assentos de casamento e óbito que, esses sim, indicam a idade do nubente ou falecido.
[iii] Legítimo era o filho concebido no âmbito do casamento de seus pais.
[iv] Ser criado de servir era, aliás, um destino natural dos enjeitados.
[v] E, onde viviam os seus pais.
[vi] Ou, alguém por ela.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Gémeos siameses no Carvalhal de Aljubarrota






Os gémeos siameses ou xifópagos, são gémeos monozigóticos, que dizer, formados a partir de um único zigoto.[i]
O termo "siameses" deve-se aos gêmeos Chang e Eng Buncker, que nasceram no Sião, (nome antigo da actual Tailândia), em 1811 e viveram até aos 63 anos, colados pelo peito.

Anunciados como os “gémeos siameses”, Chang e Eng tornaram-se célebres nos anos de 1830, em que viajaram pela Europa e Américas, fazendo exibições e proferindo palestras sobre a sua condição. Acabaram por se fixar nos Estados Unidos, na Carolina do Norte, e aí casaram, tiveram filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.

Vem isto a propósito de que as Inquirições ordenadas em 1758 pelo Marquês de Pombal aos párocos do Reino, continham, na sua primeira parte, uma questão, a última, com o número 27º, pelas respostas à qual se pretendia saber qualquer outro facto digno de memória que não tivesse sido referido nas respostas anteriores.
A pergunta era a seguinte:

27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?

As respostas àquelas Inquirições constituem as chamadas Memórias Paroquiais, de que já falamos várias vezes neste blog e havemos de voltar a falar, já que se trata do maior acervo de dados existente sobre o Portugal do Séc. XVIII.

Como sabemos, naquele tempo, havia em Aljubarrota duas paróquias, S. Vicente e Nossa Senhora dos Prazeres e o Carvalhal situava-se na área da paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres, de que, aliás, era a aldeia mais populosa[iv], com setenta e seis vizinhos, mais do que a parte da vila de Aljubarrota que pertencia a esta paróquia[v].

O vigário de Nossa Senhora dos Prazeres, não refere em nenhum ponto das suas respostas o extraordinário caso que é o mote deste texto, quando é certo que ele é e, naquele tempo, certamente era, digno de memória quer por ser fenómeno relativamente raro quer, ainda, porque, face ao fraco desenvolvimento das ciências de então, o seu surgimento havia de ser causa de grande espanto, para dizer o mínimo.
Dos dois párocos locais, o único que a tão inusitado acontecimento se refere – metendo a pena em terra alheia - é o cura de São Vicente, que o faz nos seguintes termos:

“27º O que achei digno de memória nesta terra vay referido nas respostas antecedentes e só de novo acresce o dar noticia de que no lugar do Carvalhal, termo desta villa, algum tempo antes do terramoto de 1755 nasceo hua menina que tendo um so ventre tinha duas cabeças distintas hua da outra, porque cada hua tinha seu pescoço com boa formatura e com quatro braços, por modo de abrasos cingindos ao corpo com quatro pernas bem distinctas huas das outras e tambem proporcionadas como se fosse hua so creatura perfeita. Porem o ventre e peito era so hum e sem desformidade algua.”[vi]

A viva descrição permite-nos saber, sem dúvida, que se tratava de gémeos siameses encontrando-se, neste caso, as crianças ligadas pelo tronco.

O nascimento de duas gémeas xifópagas no início do séc. XII será o caso mais antigo de que há relato.
Em Portugal foram as bens sucedidas cirurgias de separação de gémeos siameses pelo Dr. Gentil Martins (v. Nota [ii]) que despertaram o interesse popular sobre o assunto.
No entanto, o relato mais antigo de que temos conhecimento sobre o nascimento de gémeos siameses em Portugal é de 1660. De facto, de acordo com o respectivo assento paroquial:



“No mesmo dia acima declarado (19.03.1660) nasceram nesta vila três crianças todas fêmeas de um ventre filhas de um … Francisco ferreiro e de sua mulher … … as quais levaram água do baptismo e duas delas vieram uma pegada na outra de modo que tinham um só ventre e quatro braços os quais se abraçavam ao pescoço do outro e duas cabeças e quatro pernas de modo que eram duas criaturas perfeitas somente terem uma conexão entre si unidas desde as coxas até quase os ombros as quais vi com meus olhos e as enterrei na capela do espírito santo desta vila (res admirabilis visu) e por me parecer cousa invulgaris lancei(?) aqui este termo o qual assinei no dezanove de março de seis centos e sessenta
Domingos Carvalho”
[vii]
(Barcelos, Freguesia de Santa Maria Maior / Arquivo Distrital de Braga / (Registo Civil) /
Concelho Barcelos / Freguesia Barcelos (Colegiada) / Anos 1570-1610 /Livro Nasc / Nº 1)


Um outro caso de gémeos siameses aconteceu, em 1704, no lugar de Casal de Deus, Freguesia de S. Pedro (então, S. Pedro da Beberriqueira), do concelho de Tomar. 
O espanto perante tais casos fica bem patente na anotação à margem do respectivo assento de baptismo:

"Casal de Deos / Monstro / Maria e outra /criança fêmea / ambas pegádas"




Não causou menor espanto o nascimento de duas gémeas siamesas ocorrido em 4 de julho de 1720 em Monserrate, Viana do Castelo.
Aqui, o espanto traduz-se por um detalhado assento, no qual o padre descreve as características do fenómeno, detalha as diligências relativas ao enterramento, face aos problema suscitados pelo facto de uma delas ter nascido morta e, por isso, haver dúvidas se haviam de ser ambas enterradas ou não em chão sagrado. Mas, o verdadeiramente interessante do assento é o facto de o padre o ter ilustrado com um desenho, aliás de boa qualidade mostrando como as meninas se encontravam ligadas pelo ventre.





File:ChangandEng.jpg
Chang e Eng, os Gémeos siameses. (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:ChangandEng.jpg)






[i] Zigoto é a célula que resulta da fecundação do gâmeta feminino pelo gâmeta masculino. Ovo.
[ii] O médico-cirurgião português António Gentil Martins separou sete pares de gémeos siameses, com nove sobreviventes. (in http://medicosportugueses.blogs.sapo.pt/1693.html, consultado em 16-8-2014).
[iii] Alegislação portuguesa permite a interrupção voluntária da gravidez, no caso de malformação do feto, até às 24 semanas.
[iv] Suficientemente grande para possuir duas capelas: “huma Ermida de Santo Amaro dentro do Lugar do Carvalhal, e outra de Sam Romão da parte de fora do mesmo lugar; ambas pertencem aos moradores deste mesmo Lugar”.
[v] Diz o vigário que esta parte da Vila de Aljubarrota tinha 65 vizinhos e 938 pessoas. Há, aqui, um óbvio lapso. O número de pessoas, a estar correcto, refere-se, certamente, à totalidade da paróquia.
[vi] Usamos, aqui, a transcrição do original tal como consta em Memórias Paroquiais, 1758, Volume III, João Cosme | José Varandas, (Introdução, Transcrição e Índices), edição Caleidoscópio e Centro de História da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2011.
[vii] Transcrição nossa, a partir da imagem digitalizada, em www.familysearch.org.