sexta-feira, 12 de março de 2021

Casamentos em S. Vicente de Aljubarrota na 1ª Década do Século XIX

 

Dos livros de casamentos da Freguesia de S. Vicente de Aljubarrota que se encontram digitalizados e actualmente disponíveis em digitarq.adlra.pt,[i] o mais antigo é o Livro de Casamentos da Fregª de S. Vicente / Livro 1º / 1802 a 1826, cujo termo de abertura é o seguinte:

“Este livro é para se fazerem os assentos dos casamentos da Fregª de S. Vicente de Aljubarrota deste Bispado de Leiria 12 de Janrº de 1803 Dr. José Joaquim Duarte Amado

Sem embargo, o primeiro dos assentos é relativo a um casamento ocorrido em 7 de Dezembro de 1802. Vamos desprezar este e concentrarmo-nos nos celebrados na década correspondente aos anos de 1803 a 1812.

 No período celebraram-se um total de 68 casamentos, à média de 6,8 casamentos/ano variando o nº efectivo de casamentos entre o máximo de 11 (em 1803 e 11812) e o mínimo de 3 em 1810.

 


1810 foi o ano em que, em Outubro, após a Batalha do Buçaco, a região foi vítima da passagem sucessiva dos exércitos de Wellington que no seu recuo para as linhas de Torres e a política de terra queimada, provocou grandes devastações, e de Massena que, em perseguição daquele, esteve acampado na Região[ii] e, daí até à sua retirada em abril de 1811, ficaram estacionadas em frente das linhas de Torres e na região entre Rio Maior e Santarém e fizeram sucessivas incursões na região para pilhagem de alimentos e forragens. No entanto, não parece poder afirmar-se uma relação directa entre o diminuto número de casamentos havidos nesse ano em S. Vicente e esses factos, porquanto, tratando-se embora do ano com menor número de casamento (3) a verdade é que um deles foi celebrado em novembro tendo os outros dois tido lugar em fevereiro e março anteriores, mas nenhum nos restantes meses, nem janeiro ou setembro, dois dos meses normalmente com mais casamentos.

Olhando para a distribuição dos casamentos ao longo do ano, tem-se uma confirmação do ditado popular que postula que “boda molhada é boda abençoada”. De facto, a distribuição do somatório dos casamentos do período pelos meses do ano, dá o seguinte resultado:

Distribuição dos casamentos pelos meses do ano

jan

fev

mar

abr

mai

jun

jul

ago

set

out

nov

dez

8

4

1

3

1

1

1

3

14

6

22

4

EEm flagrante contraste com a actualidade, quando os meses de Verão são os preferidos para as festas de casamento.

Neste período paroquiaram S. Vicente de Aljubarrota 3 padres: o Cura Tomás de Aquino da Costa, que o fazia desde 1793 e prolongou o seu magistério até novembro de 1810, quando foi sucedido pelo Cura José Maria de Sequeira que assinou o seu primeiro casamento em abril de 1811, mantendo-se até abril de 1812, seguindo-se o Cura José Joaquim Leitão que assina o seu primeiro assento de casamento em junho de 1812. Dos 2 primeiros os assentos que agora estudamos não nos fornecem outros elementos. Do padre José Joaquim Leitão, ficamos a saber que em janeiro de 1803 já era padre coadjutor da freguesia de S. Vicente e que em 1805 era igualmente coadjutor mas, agora, de Nossa Senhora dos Prazeres, da mesma Vila de Aljubarrota, cargo que também desempenhava em 1809. Não deixa de ser curioso este trânsito do padre entre as duas freguesias de Aljubarrota, sabendo nós que o curato de S. Vicente era da apresentação das Colegiadas de Porto de Mós[iii], enquanto o Vigário de Nossa Senhora dos Prazeres era apresentado pelo Abade Bernardo de Alcobaça[iv].

Os assentos mencionam, seja como oficiantes, seja como testemunhas, além dos curas Tomás de Aquino da Costa e José Maria de Sequeira, mais os seguintes padres, todos eles, como havemos de ver em outros estudos, naturais do concelho de Aljubarrota.

- José Joaquim Leitão, ou José Leitão, ou Joaquim Leitão que, como vemos, foi Coadjutor de S. Vicente e de Nossa Senhora dos Prazeres e, finalmente, Cura de S. Vicente.
- João Gomes, da Ataíja de Cima.
- Joaquim de Sousa, natural da Ataíja de Cima que, sabemo-lo, foi Cura da Paróquia de Santo António do Arrimal e faleceu em 4-2-1827, sendo sepultado na Capela da Nossa Senhora da Graça da Ataíja de Cima.[v]
- José Coelho, do Casal da Eva.
- Manuel Coelho de Sousa, ou Manuel Coelho, ou Manuel de Sousa, natural dos Casais de Santa Teresa, cujo testamento já estudámos .[vi]
- Rufino da Fonseca, que em Dezembro de 1808 é vigário encomendado de Nossa Senhora dos Prazeres
- João Pedro da Cunha, prior de S. Pedro de Porto de Mós
- António José Gomes Botelho, certamente familiar dos capitães Manuel Pedro (Manuel Pedro Gomes Botelho) e Gregório José Gomes Botelho.
- Reverendo Dr. José de Sousa, da Vila.

E, outras pessoas importantes:

- Alferes José Tavares Amado ou José Tavares
- Capitão José Joaquim Tavares Amado, ou José Tavares Amado. Trata-se, certamente, da mesma pessoa que em 1807 era Alferes e em 1809 já era Capitão.
- Alferes António da Fonseca, natural de Leiria casado com Josefa Clara Xavier do Couto, natural de Famalicão, mas residentes em Aljubarrota de onde era natural a filha Rita Rosa da Fonseca que casou com o viúvo Francisco Viegas Machado que já encontrámos como proprietário de escravos[vii].
- Capitão Bartolomeu José Rodrigues Carreira, ou Bartolomeu Rodrigues Carreira, casado com D. Maria Doroteia Ângela de Sequeira, pais de Fortunata Maurício de Sequeira que casou com Joaquim Bernardo, filho do Dr. Silvestre Triaga de Mendonça
- Capitão Manuel Pedro Gomes Botelho, ou Manuel Pedro
- Dr. Francisco Correia Triaga de Mendonça, ou Francisco Correia, ou Francisco Correia Triga, ou Francisco Correia de Mendonça.
- Dr. Silvestre Triaga de Mendonça.

Os casamentos eram por regra celebrados na Igreja Paroquial de S. Vicente. No entanto, um deles teve lugar na Paroquial de N. S. dos Prazeres e outros em capelas das aldeias da freguesia: cinco em N. S. da Graça, da Ataíja de Cima, três em Santa Teresa, dos Casais de Santa Teresa e um em S. Sebastião, na Ataíja de Baixo. Parece não haver nenhuma razão especial para o facto que, acreditamos, se deverá à vontade dos noivos.

Os párocos raramente assinalaram o estado dos noivos. Onde não há outra indicação, presume-se que eram solteiros, o que, expressamente, só é dito em 10 casos no que diz respeito aos noivos e 11 no que respeita às noivas. Como viúvos, geralmente com identificação do cônjuge falecido, são indicados 13 noivos (19,1%) e 5 noivas (7,3%), sendo que num único caso ambos são viúvos.

Onde foram viver os novos casais?

O filho do Dr. Triaga e a filha do Capitão Bartolomeu, foram assistir para a Quinta de S. Paio, Freguesia de Santa Maria da Vila de Porto de Mós.

De quatro não se indica o lugar do novo lar e, dos que saíram da freguesia, seis fixaram-se em diferentes lugares da outra freguesia de Aljubarrota, N. S. dos Prazeres, cinco foram para outras freguesias que hoje fazem parte do concelho de Alcobaça (Alpedriz, Cela, Évora, Maiorga e S. Martinho do Porto), um ficou-se na fronteira da freguesia, em Cumeira de Cima, já na freguesia do Juncal e Concelho de Porto de mós. Apenas um casal foi viver mais longe, em Abitureiras (a meio caminho entre Rio Maior e Santarém).

Os outros cinquenta ficaram na freguesia, em regra na aldeia de onde eram, ou um deles, originários. Ou seja, 73,5% dos novos casais ficaram a residir na freguesia e mais 8,8% na freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres. O que significa que, pelo menos 82,3% desses novos casais se fixou na área da actual freguesia de Aljubarrota, distribuídos pelos diversos lugares, como segue:

 

Lugares da freguesia onde assentaram os novos casais

(N. S. Prazeres)

Ataíja de Baixo

Ataija de Cima

Cadoiço

Casais S. Teresa

Cumeira de Baixo

Vila (S. Vicente)

6

12

12

6

11

3

6

 Fará aqui sentido lembrar que, cerca de cinquenta anos antes, as Memórias Paroquiais indicam para alguns destes lugares os seguintes vizinhos: Ataíja de Baixo 32, Ataíja de Cima 53, Cadoiço 10, Casais S. Teresa 32, Vila (S. Vicente) 73.

Independentemente do crescimento que tais lugares tenham ou não sofrido entre 1758 e 1802, assunto sobre o qual, de momento, não possuímos informação, o número de novos casais nesta 1ª década de 1800 representará, certamente, um importante acréscimo ao respectivo número de fogos e, por isso, ao crescimento populacional futuro.

 De onde eram naturais e onde moravam as pessoas referidas nestes assentos, noivos, pais e testemunhas?

Infelizmente, os assentos umas vezes são omissos e outras são pouco claros, não sendo fácil distinguir quem mora aonde, ou quem é natural de onde. Assim, não havendo condições para quantificar com rigor a frequência com que surge (ou devia surgir) cada uma das localidades mencionadas, o que seria interessante para analisar a mobilidade geográfica da população de Aljubarrota neste início do século XIX, diremos apenas que as povoações mais referidas são, naturalmente, aquelas da freguesia que mais beneficiaram da nupcialidade mas, também, povoações de freguesias vizinhas, desde logo Nossa Senhora dos Prazeres e, nesta, o Carvalhal, a sua maior aldeia mas, também, o Juncal e a Maiorga, ou a Cela. As referências à cidade de Lisboa (3), dizem respeito à naturalidade da mãe de um dos nubentes e, também, ao facto de dois deles serem expostos do “Real Hospital de Cidade de Lisboa”. Referências a localidades mais afastadas, são pontuais e dizem respeito a uma única pessoa por localidade.

Ainda assim, vale a pena elencar as sessenta povoações, casais ou lugares mencionados nestes assentos porque isso, a par das já referidas localidades de assento dos novos casais, nos dará apesar de tudo, alguma noção da referida mobilidade geográfica da população deste pequeno concelho rural. No quadro abaixo inclui-se o nome da povoação ou lugar, a freguesia respectiva e, se julgado necessário para melhor identificação, o município actual. 

Lista das povoações mencionadas nos assentos

 

Abitureiras, Santarém

Aldeia Galega da Merceana, Alenquer

Ataija de Baixo, SV

Ataíja de Cima, SV

Alvados, Porto de Mós

Andaínho, Juncal

Bispado de Orense, Reino da Galiza

Bizorreiro, Paião

Boavista NSP

Boieira, Juncal

Cadoiço, SV

Carvalhal, NSP

Casal da Boieira, Juncal

Casal da Eva, NSP

Casal da Fonte, Juncal

Casal da Ladeira, Pousos, Leiria

Casal do Botas, Maiorga

Casal da Ortiga, Évora

Casal do Mogo, SV

Casal do Rei, NSP

Casal do Rei, SV

Casal dos Vales, Maiorga

Casal Novo, Juncal

Casal Velho, Juncal

Casais de S. Teresa, SV

Casal do Boieiro, Juncal

Casal do Rei, SV

Cela

 Chãos, SV

 Chequeda, NSP

Cidade de Leiria

Cividade, Batalha

Costa Barrenta, Juncal

Cumeira de Baixo, SV

Cumeira de Cima, Juncal

Ervedeira, Coimbrão

Lisboa (RHCL)

Famalicão

Feteira, São João, Porto de Mós

Juncal

Lagoa do Cão, NSP

Maiorga

Moita, Pataias

Pedreira do Muliano, NSP

Pedreiras, S. Pedro, Porto de Mós

Póvoa, Cós

Quinta da Cruz, NSP

Quinta de S. Paio, Santa Maria, Porto de Mós

Quinta de Ricos Vales, Juncal

Rebotim, Alpedriz

Ribadaves, Souto da Carpalhosa

Ribeira de Cima, S. Pedro, Porto de Mós

Lisboa, S. Miguel de Alfama,

S. Paulo, Coimbra

S. Pedro, Porto de Mós

Sta. Maria, Porto de Mós

Várzeas, Souto da Carpalhosa

Venda Nova, S. Martinho do Porto

Vila, NSP

Vila, SVA

Viseu

Ou seja, tudo se passa numa área muito restrita centrada na freguesia e alargando-se, cada vez mais tenuemente, ao então concelho e aos concelhos imediatamente vizinhos. Fora isso, apenas uma ou outra pessoa justifica as raras referências a localidades mais distantes.



[i] Consultado em 12.03.2021

[ii] O General Koch, nas suas Memórias de Massena, Livros Horizonte, Lisboa, 22007, refere-se expressamente a tropas estacionadas em Calvaria, Alcobaça, Pedreiras, Molianos e Candeeiros

[iii] “ O parocho desta igreja é cura annual de alternativa; aprezentação das colegiadas de Sam Pedro e Santa Maria da villa de Porto de Moz”, conf. Memórias Paroquiais (1758). Volume III, João Cosme e José Varandas, Caleidoscópio e CHUL, Lisboa, 2011.

[iv] Conf. Loc. Cit.

[v] Ver Ordenação Sacerdotal de Fábio Bernardino, in Ataíja de Cima: Ordenação Sacerdotal de Fábio Bernardino (ataijadecima.blogspot.com), consultado em 12.03.2021

[vi] Ver O testamento do Padre Manoel de Souza, in Ataíja de Cima: O testamento do Padre Manoel de Souza (ataijadecima.blogspot.com), consultado em 12.03.2021

[vii] Ver Escravos em Aljubarrota, in Ataíja de Cima: Escravos em Aljubarrota (ataijadecima.blogspot.com), consultado em 12.03.2021

terça-feira, 2 de março de 2021

Os meus primeiros livros

 


Na velha casa onde vivi entre os meus três e os dez anos e, depois disso, em largos verões durante toda a minha adolescência, havia dois livros e diversos papéis impressos, recibos de pagamento de décimas, vários exemplares, relativos a anos diversos, da Bula da Cruzada, raras cartas dos filhos emigrados, alguns velhos exemplares de A Voz do Domingo que o meu avô comprava religiosamente todos os domingos, à saída da missa em São Vicente e a sua caderneta militar, tudo guardado numa das gavetas da pequena mesa da casa de fora. Havia também uma buraca na parede da casa das talhas onde, sob uma espessa camada de pó, encontrei um dia, entre outros papéis que já não recordo, uma escritura pela qual o meu avô comprou, pela módica quantia de 4$200, o talho onde hoje está a casa da minha prima Felismina.

Mas, voltemos aos livros

Os livros eram uma Cartilha Maternal, entretanto desaparecida, sobre a qual se havia derramado um tinteiro e por isso com as páginas muito manchadas de um azul desmaiado. Nessa cartilha aprendi a reconhecer as letras e os números e a soletrar as primeiras sílabas.

Além deste, havia um outro livrinho que ainda guardo, pequenino de apenas de 13,8x7,8 cm, já muito velho e sem lombada, as capas gastas presas apenas pelas cordas da encadernação. Acaba abruptamente na página 194, faltando-lhe, pelo menos, uma ou duas folhas.

Na folha de guarda apresenta algumas palavras manuscritas de difícil leitura que me parece serem: Ataija / Aljubª (Aljubarrota?) / Aljubaª, (mais uma palavra ilegível) / Comarca de Alcobaça.

O que, aliás, nem parece fazer ali muito sentido.

Trata-se da segunda impressão mais acrescentada, impressa em Lisboa, na Régia Oficina Tipográfica, no ano de 1774, com licença da Real Mesa Censória de

O CHRISTÃO ENFERMO, E MORIBUNDO, CONFORMANDO-SE A JESUS CHRISTO nas diferentes circumstancias da sua Paixão e, da sua Morte, Extrahido e abreviado da Obra, que sobre este assumpto compoz na Lingua Francesa M. PERONNET, Conego Regular, e Prior Curado de Santo Ambrosio de Melun. por Fr. FRANCISCO de jesus maria sarmento, Comissario Visitador da Veneravel Ordem Terceira do Convento de N. Senhora de Jesus de Lisboa.

O título diz tudo e o livro é isso mesmo: um rol de curtos conselhos ao cristão enfermo e moribundo e as extensas orações com que deve ele cristão, na companhia dos familiares e amigos, preparar-se para o próximo encontro com Deus. As orações estão escritas em tom proclamatório, fazendo juz à fama de pregador do Fr. Francisco de Jesus Maria Sarmento (como, por ex., a páginas 151: “Creio Senhor firmissimamente em tudo quanto manda crer a Santa Igreja Católica Apostólica romana.; Fortalecei meu Jesus a minha Fé, Espero Senhor salvar-me pelos vossos infinitos merecimentos …”).

Na página 155 tem início o OFFICIO DA AGONIA com a seguinte introdução: “Tanto que o moribundo estiver agonizando se lhe porá na mão uma vela acesa e estando todos de joelhos, dirá o Sacerdote (e em sua ausência, qualquer Pessoa) as seguintes preces, ordenadas pela Igreja para esta ocasião”. A partir daqui as orações estão em latim, começando no Kyrie eleison e prosseguindo durante cerca de quarenta densas páginas.

O autor ou, melhor, o tradutor / adaptador foi uma conhecida figura do seu tempo que, tendo entrado na Universidade de Coimbra aos 9 anos foi bacharel em Direito Civil e Mestre em Artes aos 17 e decidiu, pouco depois, iniciar a vida monástica na Ordem Terceira da Penitência (franciscanos) onde foi pregador, visitador e geral provincial.

Famoso pregador, estão dele publicados diversos sermões e várias outras obras, todas de carácter religioso, das quais o verso da folha de capa do nosso livrinho anuncia seis que, “Vendem-se na Portaria do Convento de Nossa Senhora de Jesus de Lisboa”.

Curiosamente, uma aturada busca na internet não reporta qualquer resultado para o livrinho que tenho em mãos e não consta de nenhuma das listas das obras do Frade Sarmento aí disponíveis.[i]

Trata-se, este “Cristão Enfermo e Moribundo” de um belo testemunho de como ainda era entendida a morte, naquele final do Século XVIII. A morte era uma passagem à vida eterna, um momento crucial no qual se decidia a eternidade do falecido. Era fundamental ter uma “boa morte” e para isso o moribundo era assistido por familiares e amigos. Buscava-se “a "morte dôce", a agonia conduzida por Deus, através do padre, e acompanhada pelos mais próximos vivos, com orações e cânticos, como se tratasse de um processo e não de um instante definitivo e restricto.”[ii]

Estavamos, no entanto, num tempo de mudança. Quando Fr. Sarmento escrevia O Cristão Enfermo e Moribundo, já pela Europa circulavam escritos sobre a incerteza dos sinais de morte e se criavam sociedades dedicadas ao estudo da “animação suspensa”, a morte aparente, “para que se não enterre gente viva, como frequentes vezes tem acontecido em muitas partes”, como a literatura tão impressivamente deixou relatado.

Os avanços na ciência e na filosofia e as preocupações de saúde pública, como as que levaram à proibição dos enterramentos nas igrejas e à criação dos cemitérios públicos, iriam ter por objectivo “a descoberta de um sinal de morte incontroverso”, o que tornou o corpo humano “no lugar privilegiado da experiência médica” e, finalmente, permitiu ao “Estado tomar posse de um aspecto complexo da vida humana, enfrentando a morte com objectividade, … retirando o corpo em agonia da influência nefasta de familiares e, também, das autoridades religiosas e entregando-o a quem se considerava competente para a gestão do processo final, no espaço e no tempo da incerteza entre a vida e a morte”[iii],[iv]

 


Como é que este curioso livrinho chegou à gaveta da mesa da casa de fora dos meus avós, que é o aspecto que do ponto de vista da história familiar e local, verdadeiramente me interessaria, isso vai ficar sem resposta.






[i] Não é referido, por ex., em ASSISTÊNCIA AO DOENTE MORIBUNDO NO SÉCULO XVIII Dissertação apresentada ao Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa para obtenção do grau de Mestre em Cuidados Paliativo,s por Ana Filipa Ladeira Félix da Costa Sob orientação da Professora Doutora Margarida Vieira, Abril de 2012,
[ii] As provas do corpo, os sinais da morte nos séculos XVIII-XIX, Jorge Crespo (da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa). Pro-Posições, v. 14, n. 2 (41) - maio/ago. 2003, disponível in 41-dossie-crespoj.pdf (unicamp.br), consultado em 02-03-2021.
[iii] Idem, idem. (as citaçõe sentre aspas e sem outra indicação referem-se a este texto)
[iv] Uma aproximação à evolução da ideia de morte ao longo dos tempos, na civilização ocidental pode se vista em Emanuel Guerreiro, A Ideia de morte: do medo à libertação, in Revista Diacrítica, vol. 28 n.º 2, Universidade do Minho, Braga 2014. Disponível online em: A Ideia de morte: do medo à libertação (mec.pt), consultado em 02-03-2021.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

A Construção da Sacristia Nova da Capela de Nossa Senhora da Graça

 

 

Em Outubro de 1969, oito dias antes das eleições legislativas desse ano, foi inaugurada a luz eléctrica na Ataíja de Cima, o que foi pretexto para luzida cerimónia que contou com a presença de grosso número de dignitários do Distrito.
Nunca se tinha visto tanta gente importante na Ataíja de Cima, nem nunca mais se viu.

Nos discursos fizeram-se convites - ao voto na União Nacional. E promessas – a estrada seria alcatroada no ano seguinte.

O povo cumpriu a sua parte e, esquecido de que nunca recebera dos poderes públicos mais do que os avisos para pagar a “décima”, ou o recibo das multas por falta de licença no carro do burro ou na coleira do cão, foi votar na UN[i].

As autoridades, essas, contaram os votos e esqueceram a promessa.

O macadame ia desaparecendo e a estrada ficando cada vez mais um caminho de cabras, cedendo ao peso das muitas toneladas dos camiões carregados de pedra que por lá passavam. Pó no Verão, lama no Inverno.

Só depois do 25 de Abril, levados na onda de esperança que nos submergiu a todos, alguns homens da Ataíja, dos quais me permito salientar o Ti’ Zé Coelho e o meu pai, começaram a pensar a sério na necessidade de conseguir alcatroar a estrada.

Numa primeira reunião das populações da Ataíja e do Cadoiço, no início de 1975, foi decidida a criação de uma comissão com duas tarefas fundamentais: recolher contribuições e solicitar à Câmara a realização do imprescindível melhoramento (ver, neste blog, o post: O Alcatroamento da Estrada do Lagar dos Frades).

Com a colaboração do povo e da Câmara a estrada fez-se, provando que quando as pessoas trabalham unidas tudo é possível de ser feito!

As pessoas prescindiram de quaisquer direitos a indemnizações e elas próprias procederam aos trabalhos de alargamento do leito da estrada e todos concordaram que era necessário arrasar a sacristia da Capela de Nossa Senhora da Graça, para evitar que no local ficasse a estrada mais estreita, com uma inestética e perigosa garganta. Os responsáveis municipais garantiram que a nova sacristia podia ser construída a nascente da capela, com dispensa das habituais licenças.

Em 1981, finalmente, a aldeia encontrou forças para pôr de pé a desejada sacristia. Eu próprio fiz as necessárias medições e desenhei um projecto da sacristia que com base nele se construiu, onde está, nas traseiras da capela mor, a que se liga através de um corredor adossado à parede norte da igreja, ocupando uma pequena parte e estreitando o arruamento aí existente, então e desde há vários anos praticamente sem uso por não habitar ninguém nas duas casas (hoje unidas numa) aí existentes.

Estes são os factos que antecederam e justificaram a necessidade de construção da nova sacristia.

(O que fica escrito era, com pequeníssimas adaptações, a primeira parte de um texto que em Dezembro de 1981 enviei ao jornal O Alcoa e que, por ser muito extenso, foi reformulado, pelo que apenas a 2ª parte   foi publicada no jornal O ALCOA de 7 de Janeiro de 1982, como a seguir se transcreve)

 

ATAÍJA DE CIMA – obras na Capela

Quando, há uns meses atrás começaram as obras de construção da nova sacristia, (a anterior havia sido arrasada aquando do alcatroamento da estrada) logo três homens da Ataíja se movimentaram no sentido de as impedir.

Um porque é proprietário de um prédio situado num arruamento que vai ficar parcialmente ocupado pela nova construção e pensa (erradamente no meu entender) que, por isso vai ficar prejudicado. Outros dois, sem interesses directos a serem afectados e em consequência, penso eu, sem qualquer razão.

Começou então um autêntico rodopio para a Câmara, dos que são pró e dos que são contra. Lamentável é que, ao que parece, a certa altura havia na Câmara maior confusão do que na Ataíja, pelo que às tantas ninguém se entendia, as obras um dia paravam, outro andavam, com sucessivos embargos e desembargos, tendo mesmo um dos opositores chegado à “acção directa” arrasando parte do que estava construído.

A própria Junta de Freguesia encontra-se neste momento numa grave crise com a demissão de vários dos seus membros, facto a que não é alheio “o caso da sacristia”.

Na sexta-feira (4/12) o povo decidiu que no sábado as obras iriam prosseguir.

Foi bonito de ver dezenas de pessoas trabalhando unidas na realização de uma obra que interessa a todos. Trabalhando, comendo e bebendo o que a solidariedade de muitos logo lá fez chegar: pão fresco (que sábado é dia de acender o forno), sardinhas, vinho e bagaço em abundância, numa festa que se prolongou pela noite fora – dizem-me que às seis da manhã havia quem assasse frango na fogueira com que aqueceram a noite – e houve quem se não deitasse e só fosse a casa trocar de roupa para a missa dominical. Nem a poesia faltou:

Ataíja decidiu
E o povo construiu
Todos querem a capela
Só três são contra ela

No sábado passado (19/12) e de acordo com o previsto, procedeu-se à colocação da segunda placa e do telhado da sacristia e de novo se repetiram as cenas da jornada anterior.

Um imenso churrasco foi montado para assar dezenas de frangos, que foram acompanhados de pão fresco, ainda fumegante do forno.

O Sr. Presidente da Câmara, correspondendo ao convite que, entretanto, lhe havia sido dirigido, confraternizou durante algum tempo com o povo da Ataíja e acompanhado de um grupo de pessoas, percorreu algumas ruas da aldeia enquanto ia ouvindo várias sugestões no sentido de resolver algumas das mais urgentes carências do lugar.

O povo da Ataíja tem razão para estar satisfeito. Mais uma vez provou a si próprio que um homem só pouco pode e que muitos homens juntos podem muito.

E porque assim é pensa-se já em levar a cabo outras obras igualmente importantes e, para assinalar condignamente a inauguração da sacristia, prepara-se uma festa, para a qual existem já valiosas ofertas.


Entrada exterior para a sacristia tal como foi construída inicialmente, em 1981.
Foto de 1995, SIPA-Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (hhttp://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=1810)

 

 

APELO: Agradeço a quem possuir fotografias onde seja visível a sacristia antiga da capela o favor de me permitir a sua digitalização.


________________________________________

[i] Em rigor, não se pode dizer o povo porquanto, naquele tempo, o recenseamento não era obrigatório, (salvo para os funcionários públicos que eram oficiosamente recenseados).
Legalmente, o recenseamento dependia de inscrição voluntária e, na prática efectivava-se arbitrariamente, ao gosto do presidente de Junta e do Regedor (Nestas eleições de 1969 eu próprio e alguns amigos deslocámo-nos à Junta da freguesia onde morávamos, para nos recencearmos, o que fizemos. Mas, no dia das eleições, não constávamos dos cadernos eleitorais).
Em aldeias como a Ataíja o recenseamento era oficioso no sentido de que as autoridades inscreviam quem queriam e era a esses que convidavam a votar, distribuindo previamente os boletins de voto, dos quais constava uma única lista.
É, ainda, importante lembrar que as mulheres, salvo as chefes de família e as licenciadas, não tinham direito de voto.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

ATAÍJA, 7 OUTUBRO DE 1810


Tal como a minha avó me contou à lareira, em longos serões de Inverno, naquele tempo em que não havia electricidade e em casa nos iluminávamos com a luz da candeia ou, simplesmente, com a que vinha da lenha a arder na lareira e o serão se iniciava, por isso, ao pôr-do-sol, o povo fugiu aterrorizado à notícia da chegada dos franceses, escondendo-se nos matos altos que havia na borda da serra e nos vales.
Os franceses desapontados, gritavam falsamente fingindo-se quem não eram: Maria! Vem-te embora que já lá vão os franceses! Mas, ao que parece, a prudência imperou e não tenho notícia de homem que tenha caído na esparrela, nem de virgem que, neste interim, tenha deixado de o ser, ao menos, a mãos estrangeiras. Se é verdade o que contava a minha avó (que o terá ouvido ao seu avô que, esse, foi contemporâneo dos acontecimentos) na Ataíja não houve mortos pelo que a aldeia terá, assim, escapado a um flagelo que na nossa região atingiu dimensões quase incompreensíveis e de onde resultou uma diminuição da população para menos de metade.
Os franceses, continuava a minha avó, entraram, assim, livremente, pelas casas abandonadas e comeram o que quiseram e tomados daquela malvadez de que, julgava eu, só os franceses são capazes (vim, mais tarde, a perceber que todos os exércitos são iguais), tombaram e arrombaram talhas e pias de azeite que eu, empolgado com a vivacidade da descrição, via a correr em rios pelas ruas da aldeia e foram-se às arcas e trouxeram-nas para a rua e deram de comer aos cavalos, trigo, cevada, aveia e milho. Levados a beber água na Lagoa Ruiva os animais rebentaram pelo inchar dos grãos secos e, partidos os franceses, era grande a mortandade de cavalos e mulas em todo o redor da lagoa.
Estas histórias impressionaram-me fortemente, de tal modo que se seguiram sonhos agitados durante os quais, por mais de uma vez, em luta com os malvados franceses, cheguei a cair da cama. Mas, essas vivas descrições ajudaram mais ao meu gosto pela História que os professores todos que, depois, havia de ter.

Quando é que os franceses estiveram na Ataíja e fizeram as tropelias de que falava a minha avó Maria Lourenço?

Provavelmente, passaram por lá por mais de uma vez entre 1808 e 1811 mas, de certeza, por lá passaram no curto período entre a tarde do dia 6 e a manhã do dia 8 de Outubro de 1810 e foi então, certamente, que cometeram as pilhagens e destruições de que me falou a minha avó.

A Batalha do Bussaco tinha tido lugar em 27 de Setembro e de seguida, os exércitos anglo-portugueses iniciaram a sua retirada para as Linhas de Torres, reunindo-se em Leiria de onde partiram no dia 6 de Outubro, de manhã, dividindo-se em três partes, uma das quais seguiu por Alcobaça e Óbidos, a outra pela Estrada de D. Maria I (actual IC 2), a caminho de Rio Maior e Alcoentre e a terceira, por Tomar, para Santarém.
Logo atrás, vinham os Franceses que saquearam a cidade de Coimbra abandonada e, no dia 7 (há, precisamente, 199 anos), Soult já estava nas Pedreiras e Lamotte na Calvaria, de onde enviou patrulhas até Alcobaça, onde ficou a brigada do general Ornano e, no dia seguinte, todo o grosso do exército estava acampado entre Porto de Mós, Molianos e Candeeiros, com Montbrun instalado “à direita dos Molianos” com infantaria e artilharia. Ainda no dia 8, as primeiras tropas puseram-se em marcha para Rio Maior.

Wellington, adoptou na retirada uma política de terra queimada, destruindo tudo o que pudesse ser aproveitado pelo inimigo, os franceses, esses, possuíam uma logística mínima e alimentavam-se e alimentavam os cavalos do que conseguiam pilhar nos locais por onde passavam.

Houve, pois, uma primeira destruição provocada pelos exércitos portugueses e ingleses o que terá provocado o desespero dos franceses, fortemente castigados com mais de 5.000 mortos numa manhã no Bussaco e, muitos mais, fracos e doentes que foram ficando pelo caminho, incapazes de acompanhar as marchas forçadas. A fome e a desorientação provocada pelos conflitos entre os generais e um incompreensível desconhecimento do terreno que obrigava Massena a “navegar à vista” e a dar ordens e contra-ordens, também não hão-de ter contribuído para elevar a moral do exército,

Entende-se, assim, o desprezo amargo que ressalta das palavras do General Koch nas suas “Memórias de Massena”: “É impossível ver uma região mais miseranda que a que vai de Carvalhos[i] a Rio Maior; Candeeiros e Moliano não têm, sequer, o aspecto de lugarejos, e só apresentam meia dúzia de péssimas cabanas esparsas numa planície nua e árida onde não há cereais nem forragem nem água”.

NOTAS:
[i] Carvalhos, é o sítio que conhecemos por Pedreiras
A ler: Leiria no Tempo das Invasões Francesas, Jorge Estrela, Gradiva, Lisboa, 2009


(Este texto foi nicialmente publicado neste blog em 07-10-2009)