sábado, 4 de janeiro de 2025

Dicionário de Ataíja de Cima

 

A decisão de publicar o Diário de Ataíja de Cima, agradeço-a ao Francisco Soeiro Mendes que, com o seu incentivo, pôs cobro a vários anos de hesitações sobre se valia ou não a pena publicar, correndo o risco de eventuais prejuízos económicos.

A recepção dos ataijenses que acorreram a adquirir o livro e as notícias que me vão chegando e me convencem do agrado geral, são muito satisfatórias. É bom vermos reconhecido o nosso trabalho, mais a mais o trabalho de investigar e escrever que é, por sua natureza, bastante solitário.

Só tenho, por isso, de agradecer essas manifestações de interesse, aprovação e carinho com que me têm brindado e me incentivam a continuar um trabalho que me dá muito prazer e tenho o propósito de continuar enquanto o permitirem o corpo e a cabeça.

Publicar em edição de autor, como foi o caso, é uma aventura. Trabalhosa, morosa, custosa. Mas, estou agora animado a repeti-la.

A primeira tiragem que, à cautela, foi muito pequena, esgotou rapidamente. Uma segunda tiragem, antes do Natal teve também boa aceitação. Mas, haverá outros interessados que, por uma ou outra razão, ainda não tiveram oportunidade de adquirir o livro ou, sequer, tiveram dele conhecimento.

Para estes, o livro está agora à disposição no Salão Cultural Ataíjense a cuja direção agradeço a disponibilidade.


Porque a publicação do Dicionário de Ataíja de Cima, não tem por objetivo a obtenção de quaisquer proveitos materiais, é com alegria que informo que a receita bruta de todos os exemplares que sejam vendidos no Salão, reverterá inteiramente, em partes iguais, a favor do Salão e do Centro Pastoral.







Vemo-nos no dia 19-01-2025, no Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense



quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

A Indústria Ataíjense na Reconstrução de Notre Dame

 

Cerca de 5 anos e meio depois do grande incêndio que, em 15 de abril de 2019, lhe provocou graves destruições, teve lugar no passado dia 7 a reabertura da Catedral de Notre Dame de Paris.

O Incêndio começou na cobertura e provocou a queda do pináculo que, com o seu peso de  muitas toneladas de madeira e chumbo, rompeu a abóboda na zona do cruzeiro. O telhado ardeu totalmente e as empanas laterais ficaram muito danificadas.

Notre Dame de Paris (Nossa Senhora de Paris) cuja construção se iniciou em 1163, tendo as obras se prolongado por cerca de 200 anos (o Mosteiro de Alcobaça começou a construir-se em 1178), é um dos mais importantes monumentos religiosos da Europa, símbolo do Gótico, o novo estilo arquitetónico que pelos séculos seguintes se iria afirmar por toda a Europa, substituindo o chamado estilo românico que tinha sido o padrão nos séculos anteriores (dos anos 900 aos anos de 1100).

Em Portugal o estilo gótico tem uma evolução que vai da Igreja do Mosteiro de Alcobaça até ao Mosteiro da Batalha, por muitos considerado o seu expoente entre nós.

Voltando a Notre Dame, o terrível incêndio desencadeou em França e um pouco por todo o mundo uma forte emoção, face ao que parecia ser o desaparecimento de uma das grandes maravilhas arquitetónicas.

A isso reagiram o Presidente da República Francesa que desde logo afirmou que a Catedral iria ser reconstruída e, ao seu apelo para a participação de todos nessa reconstrução, responderam os mecenas doando uma quantia na ordem dos 800 milhões de euros, mais do que o custo total das obras.

O Presidente Macron tinha, ainda, estabelecido o objetivo de que as obras fossem concluídas a tempo dos Jogos Olímpicos de Paris, o que só por escassos meses não foi conseguido.

Na sua imensa complexidade os trabalhos de reconstrução exigiram uma preparação que demorou dois anos, implicando o estabelecimento de estruturas provisórias de sustentação e protecção, a remoção e análise dos escombros e uma alargada discussão sobre os objectivos da reconstrução, tendo prevalecido a decisão de reconstruir a Catedral tal como se encontrava em vésperas do incêndio, sendo certo que esse era o resultado de uma alargada intervenção ocorrida em meados do século XIX, sob a direção do arquiteto Viollet-le-Duc, o qual deu à Catedral o aspeto que lhe conhecíamos antes do incêndio e agora retomou.

Para uma descrição alargada do que foi o incêndio e as opções e obras de reconstrução da Catedral podem os mais curiosos ler o artigo Notre-Dame depois do incêndio e outros sobre o mesmo assunto, publicados na National Geografic Portugal.

Tratou-se de uma tarefa gigantesca que envolveu enormes quantidade trabalhadores, empresas e materiais. Por exemplo, a cobertura do telhado exigiu a utilização de cerca de 4.000 metros quadrados de placas de chumbo, foram restauradas ou feitas cópias de cerca de 2.000 estátuas e 2.400 carvalhos foram cortados para fornecer a madeira para reconstruir as estruturas do telhado e do pináculo.

A queda do pináculo e o resultante rompimento da abóboda provocaram danos designadamente no altar e é essa a razão deste post, pois foi aqui que a indústria ataíjense participou na reconstrução da Catedral.

A MVC - Portuguese Limestones, pode legitimamente orgulhar-se de todos os degraus, feitos em pedra moleanos, terem sido produzidos na empresa.





sábado, 23 de novembro de 2024

Padre Ramiro Pereira Portela

 

Faleceu hoje, dia 23de Novembro de 2024, na Casa do Clero, em Fátima, onde vivia, o Sr. Padre Ramiro Pereira Portela.

O Sr. Padre Ramiro paroquiou Aljubarrota durante mais de 50 anos, entre 7 de Agosto de 1965 e Setembro de 2017, quando foi substituído pelo actual pároco, o Padre Dr. Adelino Filipe Guarda.

Natural de Meirinhas, Pombal, onde nasceu em  30 de Outubro de 1935, o Padre Ramiro chegou a Aljubarrota um jovem com menos de 30 anos e por aqui ficou até passados os 81anos, até ao fim da sua actividade como pároco.

Uma tão prolongada permanência não poderia deixar de ser marcante, mais a mais que o padre Ramiro era uma personalidade suficientemente polémica para criar amores e desamores, sobretudo com a sua vontade de construtor.

Sem embrago era geralmente respeitado e querido e orgulhava-se, certamente, de a sua actividade pastoral se ter saldado, nos últimos anos de actividade, pela ordenação de dois dos seus paroquianos, jovens que conheceu desde sempre, batizou e acompanhou no desenvolvimento da fé.

A sua presença em Aljubarrota fica perpetuada por um busto mandado erguer  pelos seus paroquianos, colocado junto à entrada da Igreja de São Vicente de Aljubarrota.

Curiosamente, a sua terra natal é actualmente paroquiada por um dos jovens paroquianos que viu chegar a tomar ordens, o ataíjense Padre Fábio Bernardino.



Requiescat In Pace

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Dicionário de Ataíja de Cima

 

 

Depois de largo tempo hesitando entre publicar ou não publicar, finalmente, decidi embarcar na aventura de dar à estampa um pequeno livro sobre a minha aldeia natal, a que chamei Dicionário de Ataíja de Cima.

O livro, organizado como se fora um dicionário, contém factos diversos, memória pessoais, trata de pessoas, com seus nomes e alcunhas e, às vezes, apontamentos de genealogia, elenca palavras que já não se usam ou aqui se usam ou usavam com sentidos específicos e em alguns casos bastante diferentes daqueles que lhes dão os dicionários da língua portuguesa, assim como aflora questões de microtoponímia, economia, história, conta estórias e algumas outras coisas que me lembraram  pensei que podiam ter algum interesse para os leitores ataíjenses, para quem o livro foi pensado.

Os leitores do blog ali encontrarão muitos temas que também já aqui foram tratados, aliás, geralmente com mais desenvolvimento.

Do conteúdo deste dicionário já dei aqui no blog um pequeno apontamento, no texto Para Um Dicionário da Ataíja de Cima - Letra E, publicado em 20 de Junho, próximo passado e pelo qual os leitores puderam começar a fazer uma idéia do conteúdo do livro. (mais recentemente, na minha página do Facebook, publiquei uma outra página do dicionário, já impresso).

No próximo fim-de-semana, (dias 15,16 e 17 de Novembro de 2024), o livro será entregue por mim, na Ataíja de Cima,  às pessoas que já manifestaram interesse na sua aquisição e a quaisquer outras interessadas.

Espero que os que vierem a adquirir o livro se agradem com a sua leitura, melhor, com a sua consulta porque um dicionário não é para ler é para consultar



domingo, 15 de setembro de 2024

Uma casa na Rua de Trás

 

A Rua de Trás, agora chamada de Rua de Santo António, é uma antiquíssima rua que fecha pelo norte o núcleo central da aldeia, o Lugar.

Quando eu era pequeno, nos anos cinquenta ou sessenta do século passado, ainda ali viviam mais de 40 pessoas, em 10 casas habitadas.

Nos anos entretanto decorridos as transformações foram profundas. As pequenas casas, umas sem quintal e apenas um pequeno pátio nas traseiras, outras com quintais minúsculos, coladas umas às outras, estreitinhas, algumas delas sem outra serventia que não a porta da rua, deixaram de satisfazer as necessidades e os interesses das novas gerações que preferiram fazer casas fora desde núcleo central, estendendo-se pela beira dos antigos caminhos.

A decadência da Rua de trás, não começou, deve dizer-se, apenas há 70 anos. Naquele tempo, já algumas das casas antes habitadas se encontravam vazias, por morte dos últimos habitantes ,e na sua maioria, tinham já sido adaptadas a novos usos e serviam como arrecadações ou palheiros.
Quando, vindo do Largo do Monumento aos Combatentes, a rua vira à direita para o lado da serra, estavam, desse lado direito, além da casa da esquina, pelo menos mais três. Uma, propriedade de Luísa Ribeiro era usada como armazém de azeite e por isso chamada de Casa das Talhas. Haviam a casa onde então moravam João Redondo e a sua mulher e, aquela, agora em obras, onde moravam Eleutério dos Santos, com a sua mulher Maria Constantina, ou Maria Serafina, também conhecida por Maria Pequena, filha de Constantino dos Santos e de Serafina dos Santos e Pequena por ter uma irmã mais velha também Maria.

Em frente, uma antiquíssima casa que ainda lá está, propriedade de Luísa Ribeiro que ao lado construiu a sua e aquela ficou desabitada e apenas um complemento da nova.

Continuando encontrávamos, pelo norte, além da que motiva este texto, mais duas casas desabitadas. Uma que lá continua, tal e qual, agarrada às obras do Joel Pereira, era propriedade do meu avô José Agostinho. Estreitinha, escondida atrás de um pequeno alpendre onde existe uma minúscula divisão onde, talvez, há muitos anos, dormisse o porco. Entrando, segue-se, do lado esquerdo, a grande chaminé que servia de manjedoura ao burro que naquele tempo ali vivia.

A casa que imediatamente se lhe segue e está hoje recuperada, é umas das duas casas habitadas da rua. Era, então, propriedade de José Ribeiro que a usava como palheiro e lhe chamava a Casa da Quitéria.

Do outro lado da rua já tudo eram arrumos de Sabino Vigário e tinham entradas pela Rua da Penicheira, esta ainda então com saída para a pequena travessa que liga a Rua de Trás ao Adro.

Seguiam-se quatro casas de habitação, todas com traseiras para a Rua de Trás mas entrada principal virada à agora chamada Rua de Nossa Senhora da Graça. Hoje são três, a saber:

A que teve Emília Mariano por último residente e onde então vivia a ti’Maria da Serra, viúva do meu tio-avô António Agostinho.

A que se segue e sempre conheci sem gente, também feita arrecadação de José Ribeiro que lhe chamava a Casa do Catrino.

As duas seguintes, onde conheci a ti’Silvina e a ti’Maria Serafina, avó dos Delfinos, são agora uma única.

 

É toda esta viagem pela memória motivada por que, no passado dia 8, vindo do Festival das Sopas, deparei com a Casa do Porfírio arrasada.

Apertada entre a casa que foi dos meus tios-avós Mariola e Marreca e aquela que os mais novos conheceram por do Cai-Bem, bisneto do Porfírio, a casa esteve entaipada largas décadas e só olhos atentos vislumbravam, sob a cal, o desenho do alpendre, um alpendre como era comum nas casas ataíjenses de séculos passados.

Daqui a pouquíssimo tempo, olhares distraídos verão apenas a passagem para o pequeno quintal das traseiras da casa do Cai-Bem e poucos acreditarão que ali houve, por séculos, uma casa.


Mas, eu lembro-me de, pequeno ainda, aí ver o velho e viúvo Porfírio dos Santos, debruçado no parapeito do alpendre, observando o movimento da rua.

Este Porfírio, que a minha avó dizia que era enjeitado, não era bem enjeitado, antes, era natural da Pederneira e filho de mãe solteira tendo vindo cedo para a Ataíja, certamente como criado.

Casou aos vinte anos de idade e, disse então o padre, era sapateiro. A mulher, a minha tia-bisavó Maria de Jesus, andava pelos trinta anos e estava viúva, com dois filhos de José Ribeiro, tio-avô da Amélia Ribeiro, um casamento que tinha durado apenas sete meses, tendo o segundo filho nascido já o pai era morto.

Estes rapazes, foram, como já contei noutro texto, dois dos muitos portugueses que emigraram para o Brasil, para a Amazónia, atrás do boom da borracha. Um deles, morreu ao fim de pouco tempo. O outro passou ao Rio de Janeiro onde constituiu família que, julgo, já vai em trinetos.

Juntos, o Porfírio e a Maria de Jesus tiveram uma filha que os mais velhos conheceram por Joaquina Porfíria, a qual casou com António Orelha, viveram na Rua das Seixeiras, numa casa agora também em ruínas, tiveram um rancho de filhos e deles existe hoje larga descendência.

Com o desaparecimento da Casa do Porfírio, como também recentemente da Casa da Maria Pequena, é cada vez menos o que sobra de uma Ataíja antiga, muito antiga.

É assim a vida.

Como cantava o Fausto Bordalo Dias:

atrás dos tempos vêm tempos
E outros tempos hão-de vir

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Para um Dicionário da Ataíja de Cima - Letra E

 

 

Eira s.f. - Local onde se debulhavam os cereais e frutos de vagem. Havia-as de vários tipos, todas reflectindo a importância social e o poder económico do proprietário. Os mais abastados tinham-nas de planta quadrada, fundo de pedra de cantaria aparelhada em placas de grandes dimensões, paredes de pedra rebocada e capeamento também de cantaria e porto para entrada do gado e do trilho, com entalhe para colocação de um taipal de madeira. O piso era ligeiramente inclinado para uma caleira que, no Inverno, conduzia as águas à cisterna sempre próxima.

Outras eram simplesmente um círculo de terra argilosa endurecida e impermeabilizada por um processo que, certamente, chegou até nós através dos árabes:

Limpo o terreno argiloso de quaisquer plantas, seixos ou pedras, era picado e coberto com uma camada fina de uma mistura de palha migada miúda, boniscos e bostas secas e desfeitas. Tudo bem humedecido com água, levavam-se as ovelhas a andar em círculo para pisar e misturar e, por fim, era tudo alisado. Deixava-se secar e estava a eira pronta a receber as palhas para a debulha, feita ao ritmo forte dos cadenciados golpes dos manguais.

Embaçado Adj. – Espantado, surpreso. Encavacado, confundido, envergonhado.

Emos suf.Forma corrente do sufixo, no vocábulo correspondente à 1ª pessoa do presente indicativo plural, na generalidade dos verbos intransitivos.

Assim, diz-se, por ex.: andemos, estemos, fiquemos, semos, em vez de andamos, estamos, ficamos, somos.

Encertar v.tr. - Por encetar (iniciar). Tirar o primeiro bocado.

Enfolar v.tr. - Inchar, ganhar forma de fole. Os coelhos enfolavam, ficavam com a barriga dilatada, quando comiam verdizela fresca.

Engrolar v.tr. – Aferventar. Cozer brevemente os alimentos. Mal engrolados diz-se dos alimentos que foram cozidos à pressa, ou sem cuidado e, por isso, se apresentam mal cozidos (com menos cozedura do que seria correcto). Talvez, por engrelar, derivando de grelos que, esses sim, se querem pouco cozidos.

Engrolar, significa, também, enrolar a comida na boca, comer lentamente, por falta de apetite ou por dificuldades de mastigação, como faziam os velhos devido à falta de dentes.

Enjorcar v.tr. - Atamancar. Mal-enjorcado: mal arranjado, mal vestido.

Enterreirar v.tr. – Fazer um terreiro. Limpar de ervas, com a enxada, o terreno em volta dos troncos da oliveira e um pouco para lá da largura da copa.

As azeitonas eram varejadas e, de seguida, apanhadas do terreiro.

Enterreiravam-se, tb., outras árvores: nogueiras, figueiras para colher os figos caídos e dá-los de comer aos porcos e medronheiros para aproveitar os medronhos de que se fazia aguardente.

Entroviscar v.tr. – Franzir, torcer (o nariz). Entroviscado diz-se do tempo nublado que ameaça chuva.

Enxofrado Adj. - Diz-se de quem está zangado, agastado, amuado.

Esbriguar v.tr. - (às vezes, dito desbriguar). Por Esburgar, ou esbrugar, que significa limpar os ossos da carne. Limpar, pôr a limpo, esclarecer muito bem (por ex., na seguinte frase, extraída de uma carta escrita em 1952: “…só depois das coisas estando desbriguadas eu te mandarei dizer”).

Escápula s.f. - Chambaril. Peça feita de um tronco de madeira de carvalho ou oliveira, com quatro a cinco centímetros de diâmetro, em forma de V aberto e com as pontas em forma de anzol e na qual, após a matança, se dependura o porco pelos jarretes (tendões que ligam as pernas traseiras aos ossos calcâneos, correspondentes aos tendões de Aquiles).

Escarranchar v.tr. – Abrir muito as pernas. Sentar ou montar com uma perna de cada lado do assento ou da sela (ir ou estar escarranchado, ir ou estar às escarranchas).

Escola s.m. - A primeira escola da Ataíja funcionou entre 1933 e 1973 e era no Adro, entre o palheiro do Mira, também já desaparecido e a Capela. Com entrada pela, agora chamada, Rua de Nossa Senhora da Graça, tinha, na parede virada ao Adro, uma placa com os dizeres: "Obra da Ditadura - 1933", a qual, infelizmente, se perdeu aquando da demolição.

Foi construída por adaptação de um palheiro, doado por João Cordeiro, na empena do qual se abriram quatro grandes janelas para iluminar o espaço. Apesar da placa, quase tudo foi suportado pelos residentes que ofereceram, além do edifício, trabalho, madeiras etc.

A escola era, apenas, uma única sala, cuja porta dava directamente para a rua e não havia electricidade, nem água, nem recreio, nem instalações sanitárias. Só a secretária da professora, três filas de carteiras duplas (na fila do lado direito as carteiras eram maiores e aí se sentavam os alunos da quarta classe) e um quadro preto com uma moldura de madeira carunchosa, sobre o qual estavam os retratos do Salazar e do Carmona (que lá se manteve mesmo muitos anos depois de o retratado ter falecido e sido substituído na função por Craveiro Lopes), ladeando um crucifixo. Aí estudavam as crianças de ambas as Ataíjas. 

Uma vez que havia uma única sala, de manhã estudavam os da primeira e os da quarta classes e, de tarde, os da segunda e os da terceira (ou ao contrário, já não me lembro bem), em turmas mistas. Aí estudei, da primeira à terceira classes.

Foi demolida, para alargamento do adro da capela, algum tempo depois da construção da escola actual.

Antes disso, talvez tivesse existido um embrião de escola, uma vez que, segundo relato de Amélia Ribeiro, foram encontrados na casa alta de seu pai, José Ribeiro (onde agora, com volumetria semelhante, está a de seu neto, Rafael), após a morte dele, os restos de um quadro negro e alguns sólidos geométricos em madeira que sugerem ter, aquele espaço, sido usado como sala de aula.

Escoteira s.f. – (escóteira) Era assim que a minha avó chamava a uma cafeteira de folha de flandres que havia lá em casa e servia para fazer o café de chicória que acompanhava as sopas de leite, quando a cabra o dava (a palavra consta no Priberam mas, com significado substancialmente diverso).

Esfolagate s.m. – Esfola-gato. Salto acrobático, salto mortal, cambalhota.

O DPLP contém a palavra esfola-gato com o significado de repreensão, censura, falsa interpretação (que convém dar a alguma coisa) e [antigo] maus tratos, todas, como se vê, bem diferentes do que, por aqui, significa esfolagate.

O Houaiss, no entanto, acrescenta que esfola-gato, como regionalismo português, tem o significado de cambalhota, cabriola, reviravolta.

Esgravulhar v.tr. – Rebuscar minuciosamente. As galinhas esgravulham a terra em busca de insectos.

Espoar v. tr. - Separar, com a peneira fina, a farinha de trigo do rolão para fazer o pão-alvo.

Estonar v.tr. - Preparar o terreno para a sementeira, desfazendo as leivas e os torrões que resultam da lavra com charrua. O mesmo que esterroar ou desterroar.

Estrada de D. Maria I Top. - Ou Estrada de D. Maria Pia. Planeada e construída no final do Séc. XVIII, ocupava o corredor onde hoje se situa o IC 2. Frente à Ataíja era, nos anos cinquenta do Séc. XX, um simples caminho bastante degrado, não facilmente transitável por automóveis, cujo préstimo não ia além de serventia para os olivais circundantes, ou para as raras deslocações às Pedreiras e aos Molianos. 

Era um deserto de gente e um mar de oliveiras e, nas suas margens, desde o Casal Boieiro até aos Molianos, apenas existiam, na Barraca, aos Casais de Santa Teresa, uma única casa e um lagar de azeite.

Estrada do Diamantino Top. - Entre a Ataíja de Cima e os Casais de Santa Teresa havia um lagar de azeite, onde agora, (logo a norte do IC9 e perto do IC2) se encontra uma oficina de serralharia, o qual era propriedade de Diamantino dos Santos Vazão, comerciante de Alcobaça.

Para propiciar o acesso ao lagar, o Diamantino suportou às suas custas a construção de um caminho em seixos (não esquecer que estamos na zona das Seixeiras) e pedra, que ía desde o Oueiro, pela Rua das Seixieras, até ao lagar. Esse trabalho ainda se encontra parcialmente visível e bastante transitável no troço entre o prolongamento da Rua das Hortas e o entroncamento com a Rua das Seixeiras.

É, sem dúvida, a mais antiga estrada calcetada da Ataíja e, ao que julgo, caso único na região.

Estrada do Lagar dos Frades Top. - É a estrada municipal n.º 553 que liga o IC 2 a Aljubarrota, por Ataíja de Cima e Cadoiço. Era designada, simplesmente, a Estrada e, pelos mais antigos, no percurso entre o centro da aldeia e a lagoa, por Azinhaga da Lagoa. Foi construída, em macadame, no final dos anos quarenta do Séc. XX e, na minha infância, chegava, apenas (o macadame, entenda-se), até à Lagoa Ruiva tendo sido prolongada até à Estrada Nacional nº 1 aquando da construção desta, cerca de 1960.

Foi alcatroada na segunda metade dos anos setenta, por iniciativa de um grupo no qual colaborei e incluía, entre outros, o meu pai e José (Coelho) Sabino, então ambos emigrados por Lisboa. A população deu trabalho, dinheiro, pedra e outros materiais, cedeu as faixas de terreno necessárias ao alargamento e a pequenas rectificações do traçado e reconstruiu as paredes.

O traçado foi definido pelo Sr. Carrão, funcionário da Câmara, que percorreu o centro da via transportando nos braços uma comprida vara cujas pontas assinalavam os bordos da estrada que se iam marcando com estacas.                                               



NotaApresenta-se apenas uma parte (cerca de 1/3) dos vocábulos e expressões recenseados, começados pela letra E.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Gente da Ataíja de Cima – Luís da Graça

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Luís da Graça de Sousa, nasceu na Ataíja de Cima em 12 de Maio de 1931, (tendo, no entanto, sido registado como nascido a 27 do mesmo mês), filho de Manuel Luís de Sousa e de Maria da Graça.

Para sustentar a numerosa prole, o pai emigrava sazonalmente para a região de Lisboa onde, a meias com seu irmão João Luís de Sousa, era responsável por uma vacaria (os irmãos revezavam-se na função, em períodos de cerca de três meses. Enquanto um ficava por Lisboa, o outro estava na Ataíja cuidando das magras terras familiares e olhando pelas famílias) e foram os tostões assim amealhados que lhe permitiram construir uma cisterna de abóboda que ainda existe junto à casa que foi sua, na Rua das Seixeiras e, a escassos metros, um moinho de vento que existiu onde na segunda metade dos anos de 1940 o seu filho, que foi conhecido por João Frade, construiu a sua casa.

(Sobre essa cisterna publicámos um texto neste blog, em 23-02-2011 - ver AQUI)

(Sobre o moínho publicámos um texto neste blog em 24-08-2018 - ver AQUI)


Tudo isso não obstava à continuada pobreza da família pelo que ao Luís coube, aos 12 anos de idade, ir “servir”, ou seja, como criado de cama e mesa, em casa de um agricultor de Serro Ventoso, onde se manteve até aos 17 anos e ganhou para as primeiras botas.
Regressado à Ataíja, iniciou-se nos negócios de compra e venda de peles de coelho, chinelos velhos, azeite e tudo o que pudesse ajudá-lo a escapar à incerta vida de jornaleiro.

Mais tarde havia de seguir a aventura de se tornar leiteiro, em Lisboa, o mesmo caminho percorrido por muitos alcobacenses da “borda da serra” (conheci pessoalmente leiteiros oriundos de Aljubarrota, Ataíja de Baixo, Casal do Rei, Molianos, etc.e, da Ataíja de Cima, foram leiteiros, entre outros, os meus pais, João Lourenço Quitério e Maria Joaquina da Graça (Maria Carlota).
Naquele tempo, os naturais de uma determinada região emigravam para a capital para exercer uma determinada profissão (ía-se para a profissão de um amigo ou conhecido: galegos e minhotos para tabernas e restaurantes, os tomarenses para a construção civil, os de Tábua para padeiros, alcobacenses também, muitos, para vaqueiros (da Ataíja de Cima foram vaqueiros em Lisboa - cito de memória - Porfírio Coelho, António e Francisco Jorge, João Dias (Janita), João Ângelo e outros) e os alentejanos para operários, fixando-se nos arrabaldes industriais do Barreiro, Amadora e Moscavide).

Em Lisboa se manteve até 1958 – tinha, entretanto, casado em, em 8 de Abril de 1956, com Luísa Cordeiro Catarino - quando regressou à Ataíja, instalando-se na casa dos meus pais, agora minha, onde ficou até que construiu a sua, indo nós ocupar a “parte de casa” onde ele vivia, na cave de um prédio que já não existe, na Rua Luís Monteiro, nº 28, no Alto do Pina). 

Aproveitando a recente descoberta do valor comercial do vidraço de Ataíja, que o "Veneno" tinha começado a explorar pouco antes, começou também ele a escavar uma pedreira, num pequeno terreno no Vale Cordeiro que era propriedade do seu sogro, António Catarino. O negócio foi crescendo e a escola que, no tempo próprio, se tinha ficado pela segunda classe, foi retomada aos 37 anos quando, feita a quarta classe, pode tirar a carta de condução, e ter o seu primeiro automóvel.



O resto da história é conhecido:

Dotado de inteligência e carácter e impulsionado por uma enorme vontade de trabalhar, extraordinária visão empresarial, espírito inovador,  – Luís da Graça foi sempre um pioneiro, o primeiro a usar nas suas pedreiras cada uma das novas tecnologias e equipamentos que iam surgindo - e capacidade de gestão, o negócio não parou de crescer.

E, a par do negócio, apoiado na divisa que tanto gostava de repetir: “Quanto mais dou, mais tenho!”, cresceu o Benemérito:

Bombeiros, Misericórdias, Autarquias e Associações, de todas as terras onde exerceu actividade industrial, beneficiaram largamente dos donativos de Luís da Graça.



No dia 25 de Maio de 2008, a pretexto da inauguração do monumento aos Cabouqueiros que ofertou à Ataíja, foi objecto de uma grande e merecida homenagem que incluiu o descerramento do seu busto, cuja fotografia ilustra este texto

Manteve-se até perto dos oitenta anos de idade, à frente da sua empresa Sousa & Catarino, Lda (http://sousaecatarino.pt).

Pouco depois, o curso inexorável do tempo impôs-se e Luís da Graça deixou aos seus filhos a direcção efectiva da empresa.
Os últimos anos viveu-os no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Alcobaça.

Luís da Graça de Sousa foi um grande industrial, um grande filantropo, um grande ataijense e foi um amigo.

Faleceu no dia 23 de outubro de 2021



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O texto acima foi inicialmente publicado em 22 de Março de 2011, actualizado em 23 de Outubro de 2021 e hoje, 30 de Maio de 2024, de novo actualizado, agora a pretexto da inserção do seu diploma da 4ª Classe, cuja disponibilização agradecemos ao seu neto Marcelo Paulino.