terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Quando a festa de Nossa Senhora da Graça se celebrava no dia 1 de Janeiro (II)

No post com o mesmo título, publicado em 29 de Maio de 2010, (aqui) aludimos aos interrogatórios sobre as paróquias e povoações, que o Marquês de Pombal, em 18 de Janeiro de 1758, solicitou, através dos prelados, a todos os párocos do Reino e cujos relatórios são conhecidos por Memórias Paroquais. Transcrevemos então uma parte do Relatório do Cura de São Vicente de Aljubarrota, no qual dá conta que a festa de Nossa Senhora da Graça, Padroeira da Ataíja de Cima, era então celebrada a 1 de Janeiro, dia em que, actualmente, toda a Igreja Católica vive a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.

Porque achámos que esta questão, de uma festividade religiosa se poder fazer em diferentes datas, merecia um esclarecimento, solicitámos a um nosso conterrâneo a sua colaboração.

O Fábio Bernardino tem 22 anos de idade. é filho de Pedro Bernardino (Casal) e de Maria Leonor Catarino e prepara-se para exercer a sua vocação de sacerdote da Igreja Católica. Actualmente e depois de ter estudado nos Seminários de Leiria e de Coimbra, reside no Seminário Maior de Cristo Rei dos Olivais e frequenta o 4.º ano do curso filosófico-teologógico na Universidade Católica de Lisboa  pelo que é, de entre nós, uma das pessoas melhor habilitadas para nos explicar estas mudanças no calendário dos festejos em honra de Nossa Senhora da Graça.

Agradecemos ao Fábio Bernardino a sua disponibilidade e é com muito prazer que agora publicamos o que escreveu a propósito:


A festa de Nossa Senhora da Graça, Padroeira da Ataíja de Cima, era então (em 1758) celebrada a 1 de Janeiro, dia em que, actualmente, toda a Igreja Católica vive a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus.


Remontando ao século VI, esta Solenidade trata-se, com efeito, da mais antiga festa mariana da cristandade ocidental, que começou por celebrar, nesse dia, a dedicação da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, o mais antigo templo cristão dedicado à Virgem Maria e construído entre 432 e 440, durante o pontificado do Papa Sisto III (1).


Convocado pelo Imperador Teodósio II em 431, o Concílio de Éfeso proclamara a Virgem como “Mãe de Deus”, contra o herege Nestório, patriarca de Constantinopla, que negava a união, em Cristo, das naturezas divina e humana. Os duzentos bispos participantes reafirmaram convictamente que a Virgem Maria é Mãe de Deus, porque o único Jesus Cristo, seu Filho, sendo verdadeiramente homem, é também verdadeiro Deus. A Basílica lembra este título atribuído à Virgem, dado que ele salvaguarda uma verdade cristológica: a teologicamente designada de união hipostática(2).


Com o passar do tempo, o aparecimento de uma oitava para a Solenidade do Natal do Senhor levou a que neste dia, oito dias após o nascimento, se começasse a celebrar a seguinte etapa da vida do Menino, a circuncisão, assim como outras festas que foram aparecendo ao longo do tempo. Desapareceu então o cariz mariano do primeiro de Janeiro, tendo estado oculto durante séculos. Só em 1931, o Papa Pio XI, por ocasião do 15º centenário do concílio de Éfeso, instituiu a antiga festa mariana para 11 de Outubro.


Foi o Concílio Vaticano II que abriu as portas para que a Solenidade voltasse à sua data original. Em 1969, a Reforma do Calendário Litúrgico, pedida pelo Concílio, recuperou a antiga data de 1 de Janeiro, inserindo a celebração da maternidade divina de Maria, no tempo do Natal, a celebração do Mistério da Encarnação do Verbo de Deus, que lhe dá razão de ser.


Portanto, seguramente que em 1758, embora na Ataíja se celebrasse a 1 de Janeiro uma festividade mariana, tal não acontecia em toda a Igreja, que comemorava a Circuncisão. No entanto, dado que o calendário se ia enchendo de festividades devocionais próprias dos lugares(3), é possível que ocorressem outras festas em várias Igrejas particulares.


A meu ver, é pouco provável que a escolha desta data para a festa de Nossa Senhora da Graça esteja relacionada com a primitiva festa mariana celebrada no século VI, relativa ao título de Mãe de Deus. Todavia, acredito que terá, de facto, começado a ser realizada nesse dia, sendo depois transposta para o 2 de Fevereiro, dado que era, até há quarenta anos, o dia litúrgico da Purificação de Nossa Senhora, evocando-se a Senhora da Candelária(4). É talvez por isso que hoje, enquanto em numerosíssimos lugares se festeja Nossa Senhora da Candelária, das Candeias ou da Luz, o povo da Ataíja tem a sua festa em honra de Nossa Senhora da Graça. Embora os termos Luz e Graça possam ser teologicamente relacionados e até equacionados, não acho que a palavra graça fosse tida espontaneamente pelo povo como uma outra “variante” para exprimir luz ou candeia. Para além disso, não tenho conhecimento de nenhuma outra terra em que Nossa Senhora da Graça seja evocada no dia 2 de Fevereiro.


Parece que os antigos contavam que, aquando da construção da capela, os pedreiros carregaram uma grande pedra retirada de uns olivais próximos dali(5). Depois de colocada na construção já iniciada, a pedra voltava no dia seguinte a aparecer no sítio de onde tinha sido tirada. Como ninguém conseguia explicar o sucedido, retiraram parte dessa pedra com a qual esculpiram a imagem da Senhora da Graça, deixando o resto da pedra no olival, com a qual fizeram uma pia. Essa pia enchia-se com água da chuva que as pessoas bebiam e que nem no Verão se esgotava. Foi este facto que terá dado origem ao nome de Senhora da Graça, pois, por seu intermédio, Deus cumularia dos Seus dons o povo da Ataíja. Esses dons não podiam traduzir-se melhor para os ataijenses, que viviam dos produtos da terra, do que na abundância e qualidade das colheitas agrícolas, tão bem simbolizada no ramo que a imagem tem na mão direita. A procissão à serra, junto do cruzeiro, que ainda hoje se mantém, poderá ter este significado.


A data de 1 de Janeiro para a festa de Nossa Senhora da Graça, julgo que poderá relacionar-se com o início do ano. Se nela era pedido a Deus, por mediação da Virgem cheia de graça, que enviasse a Sua Graça sobre a vida das pessoas e muito particularmente sobre os campos, também se poderia pedir a Sua Graça para o ano da graça que nesse dia começava …(6)
No dia da inauguração das remodelações da Capela, em Dezembro de 2003, o pároco afirmou, julgo que por convicção pessoal, que a imagem de Nossa Senhora da Graça terá sido possivelmente esculpida no século XVI, por iniciativa dos Monges de Cister, e que a Capela terá sido construída por essa altura, sobre um antigo palheiro ali já existente…


Provavelmente, as razões da existência deste orago(7) permanecerão sempre envoltas em mistério, como de resto acontece em tantos locais de devoção mariana e não só. Existem as lendas que nos contam milagres… Neste caso, julgo que o melhor será mesmo apresentar, como principal razão, a história da relação de amor entre Deus que age gratuitamente e o Seu Povo que com gratidão Lhe responde. História na qual nem sempre tudo tem de ser compreensível aos nossos olhos…


Notas:
(1) A Liturgia cristã antiga dava especial destaque aos templos de Roma, nomeadamente àqueles em que o Papa celebrava ao menos uma vez por ano. Sendo assim, a memória da dedicação deste templo foi estendida a toda a Igreja, até uma certa altura.
(2) Do grego hipóstasis (natureza).
(3) Fenómeno que a Reforma Litúrgica pós Concílio Vaticano II muito travou, fazendo sobrepor as festividades universais às particulares.
(4) Ao contrário do que sucedeu com o 1 de Janeiro, o dia 2 de Fevereiro foi ganhando, ao longo dos tempos, uma grande marca da piedade mariana, convertendo-se assim em festa mariana. Inicialmente, este dia celebrava a Apresentação do Menino Jesus no Templo (em que também é purificada Maria), descrita em Lc 2, 22-39. Nesta passagem bíblica, acho que podemos encontrar o porquê de neste dia se evocar a Senhora da Luz, das Candeias: Semeão, homem justo e piedoso que vivia no Templo de Jerusalém, afirma ao ver o Menino, que Ele é a Luz para se revelar às nações e a glória de Israel (cfr. Lc 2, 32). A Reforma do Concílio Vaticano II “devolveu” o significado cristológico a esta Festa Litúrgica, tomando, a Apresentação do Menino, o primeiro lugar neste dia.
(5) Estes olivais localizar-se-iam onde hoje termina a Rua da Hortas.
(6) Note-se, neste parágrafo, a repetição do termo graça, que considero não ser meramente ocasional.
(7) Orago: Patrono, padroeiro (Invocação da Virgem, Santo ou Anjo) a quem é dedicada uma localidade, povoado ou templo.

Dezembro de 2010
Fábio Bernardino

12º ALMOÇO ANUAL DO SALÃO CULTURAL ATAÍJENSE

O 3.º DOMINGO DE JANEIRO É, SEMPRE, DIA DE ALMOÇO NO SALÃO!

Dia 16 de Janeiro de 2011, Domingo,  12º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense!




terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A indústria e o Comércio na Ataíja de Cima, hoje

Se, como referimos em post anterior (aqui), a importância económica da indústria da faiança é, hoje em dia, bem menor do que foi há vinte ou quinze anos atrás, em compensação as actividades ligadas à exploração da pedra Vidraço da Ataíja não têm parado de se desenvolver e alastraram-se, aliás, a todas as aldeias vizinhas. Agora já não é só, nem sobretudo, a actividade extractiva mas, antes, as da transformação e serviços associados.

Ao contrário do que aconteceu na cerâmica decorativa que é uma actividade importada e onde os ataíjenses quase nunca ultrapassaram a função de operários, no caso do Vidraço da Ataíja , verificou-se uma rápida adaptação que permitiu aos naturais aprender não só a extrair a pedra (a) como, mais importante em termos económicos, a transformá-la.

Por outro lado, as excelentes condições de acesso propiciadas pelo IC 2 (b) e a crescente importância da indústria extractiva regional, propiciada designadamente pelo desenvolvimento provocado pela crescente aceitação da pedra Molianos e outras extraídas nas Serras de Aire e Candeeiros, levaram alguns dos maiores grupos empresariais ligados à extracção e ao comércio de rochas ornamentais a instalar-se na Ataíja de Cima.

Esta dinâmica industrial levou a que as actividades, directa ou indirectamente ligadas viessem a, do mesmo modo, instalar-se ou desenvolver-se no local. Desde logo, a satisfação da necessidade básica da alimentação dos trabalhadores envolvidos, levou ao surgimento de cafés e restaurantes. A melhoria das condições de vida local, à banalização do automóvel e à necessidade de existência de oficinas de reparação. A produção industrial à necessidade de especialistas na sua comercialização. O crescimento do conhecimento local das técnicas de trabalhar a pedra ao surgimento de fábricas e oficinas de transformação.

Hoje, fazendo uma pesquisa sobre as empresas que têm fábricas, oficinas, armazéns ou outras instalações na Ataíja de Cima, contei 43 (c).

Mais de metade das empresas estão no sector da pedra, (extracção, serragem, armazenamento, fabrico de lareiras, pavimentos, revestimentos e cantarias, transporte, etc,).

Mais de 25% (12 empresas) possui sites próprios na internet. Este é um bom indício de que se trata de empresas modernas e viradas ao futuro.

O encerramento da maioria das fábricas de faianças conduziu, naquela época, ao surgimento de desemprego. Mas hoje em dia o desemprego é perfeitamente marginal (d) e, – parte boa – tendo desaparecido a exagerada pressão sobre a mão-de-obra local que levou a que uma geração inteira tivesse abandonado a escola para, (muito jovens, com catorze anos de idade), ir trabalhar nas fábricas há, finalmente, condições para a juventude estudar como deve estudar, já que só o estudo lhes poderá permitir fazer a gestão das empresas que os seus pais criaram, ou exercer, nelas, os cargos cada vez mais especializados que o futuro exige.

NOTAS:
a) -Nos primeiros tempos foi necessário recorrer à emigração de trabalhadores experientes, oriundos de Pero Pinheiro, Vila Viçosa, Ançã e Tentúgal (destes, cá ficou o Pimenta que, há muito tempo, já é um ataíjense).
b) Condições essas que, aquando da entrada ao serviço do IC 9, terão uma melhoria muito significativa.
c) Faltam algumas. A colaboração dos leitores para colmatar as falhas será bem-vinda.
d) A insuficiência da mão-de-obra local continua a justificar a existência de emigrantes, agora oriundos, sobretudo, dos chamados países de Leste.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A Faiança na Ataíja de Cima

A rede pública de electricidade foi inaugurada na Ataíja de Cima, em Outubro de 1969, nas vésperas das eleições legislativa.

Estavam, assim, criadas as condições para o início de uma nova fase da industrialização da aldeia (industrialização essa que tinha começado em 1955 com o início da exploração do Vidraço de Ataíja, como se disse em post anterior).

Ainda em 1969, começou a ser construída a primeira fábrica de faianças, a SAFARIL – Cerâmica Artística e Decorativa dos Candeeiros, Lda, (cuja escritura publica de constituição da sociedade é de 1972) que tinha entre os sócios fundadores o ataíjense António Baptista Vigário.

Mais tarde, a Safaril integrou-se no grupo empresarial de faianças Martan/Safaril.

Fechou portas e apresentou-se à falência no ano de 2000, encontrando-se as suas instalações actualmente abandonadas.

Na década de 1980, assistiu-se a um grande crescimento do número de fábricas de faiança em todo o concelho de Alcobaça, tendo iniciado actividade um total de, pelo menos, 78 empresas, das quais 7 na Freguesia de São Vicente de Aljubarrota e, destas, 5 na Ataíja:

- Novalco – Novas Faianças de Alcobaça. Lda., a qual, tendo entrado em falência, foi adquirida por novos proprietários que a reabriram com a firma Destinos – Arte Cerâmica, S.A., e encontra-se em funcionamento.

- Carfip – Cerâmica da Figueira Pedral, Lda., que entretanto cessou as suas actividades e em cujas instalações existe, actualmente, uma fábrica de transformação de pedra da empresa Airemármores, Extracção de Mármores, Lda.

Sousicer – Faianças Decorativas. Lda., criada por iniciativa do ataíjense José Fernando Cordeiro de Sousa e que se encontra em laboração.

- Fata – Faianças da Ataíja, Lda., com falência decretada por sentença de 27-02-2003, do Tribunal da Comarca de Alcobaça.

- Sofal – Sociedade de Faianças. Lda., empresa que chegou a ter assinalável projecção. Veio a falir (insolvência declarada por sentença de 20-05-2008, do Tribunal da Comarca de Alcobaça), encontrando-se as suas instalações actualmente abandonadas e em rápido processo de deterioração.


As seis fábricas referidas empregavam, no final do Séc. XX, centenas de trabalhadores do que resultava o pleno emprego da população ataíjense e, por isso, embora o nível salarial fosse bastante baixo, próximo do salário mínimo nacional, esse foi um período de extraordinária prosperidade, tendo o nível de empregabilidade chegado a ultrapassar os 50% da população total da aldeia.


Actualmente, em todo o concelho de Alcobaça, são pouco mais de cinquenta as entidades que constituem o sector da cerâmica utilitária e decorativa, incluindo fábricas, fornecedores de matérias-primas, empresas distribuidoras e artesãos.

Uma vez que o sector se mantém em crise – e não se vê que possa voltar, ao menos em dimensão, ao que foi nos anos de 1980 – a maioria dessas entidades é constituída por “sobreviventes” do período áureo, o que se reflecte, desde logo, na idade média dos trabalhadores que é de cerca de 45 anos. Como sempre no sector, a maioria são mulheres (70%), têm como habilitações literárias a escolaridade mínima obrigatória e são operárias (88%).


NOTA: Este post é, parcialmente, subsidiário do estudo elaborado por Luís Peres Pereira para SDO Consultoria – Análise SWOT ao Sector da Cerâmica Utilitária e Decorativa da Região de Alcobaça – Relatório de Diagnóstico, Junho de 2009, disponível in:

http://www.cm-alcobaca.pt/resources/e948fa0cea16233e67612e1de606d708/Full_Report_Alcobaca_Final_Version_02.pdf

 
Bule "gata" produzido em 1992, na Ataíja de Cima, por SOFAL para a AVON (Estados Unidos)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Vidraço de Ataíja

Na década de cinquenta do Séc. XX, julgo que, exactamente, em 1955, a Ataíja de Cima começou, pela mão de João Veneno, natural das Pedreiras, Porto de Mós, a entrar na modernidade.

Até aí a economia local era exclusivamente agrícola e o único produto importante, o único capaz de gerar excedentes monetários relevantes era, como já referido em posts anteriores, o azeite.

Nesse ano de 1955 o João Veneno, conhecedor das técnicas de extracção da pedra de “cantaria” que se explorava nas Pedreiras, face à perda de importância económica dessas explorações, decide começar a escavar na Ataíja de Cima a pedra local.

As primeiras escavações tiveram lugar no sítio dos Caramelos, no terreno onde José Henriques, recentemente falecido e que era conhecido por José Neto e, mais vulgarmente, por José Carago, veio depois a construir a sua casa. Mesmo junto ao local onde hoje existe uma pedreira da empresa Mármores Vigário. Lda.

Pouco tempo depois, em 1958, Luís da Graça de Sousa que todos conhecem por Luís da Graça e era leiteiro em Lisboa, decidiu regressar à aldeia e, algum tempo depois, começou a explorar pedra no sítio do Vale Cordeiro, num pequeno terreno que era propriedade de seu sogro, António Catarino.

Seguiram-se muitos outros e, até hoje, a importância económica da exploração (e posteriormente da transformação) da pedra que é conhecida por Vidraço de Ataíja ou ,simplesmente, Ataíja, não tem parado de crescer.

Mas essa é uma história para mais tarde. Por agora, fiquemo-nos pela caracterização do vidraço da Ataíja.

(O que abaixo se diz é inteiramente retirado, apenas com pequenas adaptações para permitir um texto corrido, de: ORNABASE – Base de Dados do Catálogo de Rochas Ornamentais Portuguesas, in
http://e-geo.ineti.pt/bds/ornabase/rocha.aspx?Id=59):


O vidraço da Ataíja é uma rocha calcária, finamente calciclástica, com tonalidade creme-acinzentada (o Ataíja Creme), ou cinzento e cinzento-azulado (o Ataíja Azul) que tem como utilizações recomendadas as cantarias e pavimentos e revestimentos, interiores e exteriores.

Explora-se em Ataíja de Cima, freguesia de São Vicente de Aljubarrota, município de Alcobaça, distrito de Leiria, em camadas integradas na formação Moleanos, datada do Caloviano Inferior a Médio (Jurássico Médio) e que apresenta grande continuidade no Maciço Calcário Estremenho (Orla Mezocenóica Ocidental) entre Alto da Serra e o paralelo de Porto de Mós.

Nas pedreiras que serviram para a caracterização das explorações e dos tipos litológicos, o Vidraço de Ataíja Creme ocorre conjuntamente com o Vidraço de Ataíja Azul. As bancadas têm atitude média, numa delas N30º E, 15º NW e na outra N3ºW E, 15º NW, por vezes são espessas, algo carsificadas e fracturadas, possibilitando, entretanto, a produção de blocos de dimensão média aceitável. Os principais sistemas de fracturação têm, em média, direcção N85º W, 85º N, N10º W, 65º E e N40º W, 80º E, este menos importante.

As placas são, em geral, obtidas por talhe ao “correr” da pedra.

As reservas são grandes e o acesso às pedreiras é bom.

Nas análises a que foram submetidas, não se notou qualquer alteração na cor nem na estrutura dos provetes no final dos 25 ciclos de gelo-degelo.




 Vidraço Ataíja Azul


Vidraço Ataíja Creme


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A população da Ataíja de Cima em 1758

Em 1758, de acordo com o relatório do Pároco de São Vicente, elaborado nesse ano em resposta ao inquérito lançado por ordem do Marquês de Pombal e incluído nas chamadas Memórias Paroquiais, era a seguinte a população da Freguesia de São Vicente de Aljubarrota:





Note-se que nos casos de Aljubarrota e dos Moleanos se refere, apenas, a parte dessas localidades que pertencia à Freguesia de São Vicente, sendo que a parte dos Moleanos que pertencia a Nossa Senhora dos Prazeres, era muito maior, possuindo vinte e cinco vizinhos. No caso dos Chãos, o Pároco menciona, ainda, para além dos referidos trinta e quatro vizinhos, a existência de quatro nobres.

Admitindo que todos os dados estão correctos (e o pároco era, certamente, a pessoa que naquela época de melhores condições dispunha para um correcto recenseamento da população, já que possuía livros de assentos de baptismos, óbitos e róis de confessados e fazia visitas pascais recebendo as respectivas côngruas), não pode deixar de se referir os casos discrepantes dos Moleanos, com 6 pessoas por fogo, valor este muito superior à média e do Cadoiço que, a acreditar nestes números, teria várias casas com, apenas, um morador.

A Ataíja de Cima configurava-se, nesse tempo – há 252 anos atrás -, como a maior aldeia da freguesia, quer em número de fogos quer em população total, a grande distância dos Casais de Santa Teresa, a outra aldeia da freguesia que ultrapassava o número de 100 habitantes.

A freguesia, entretanto, mudou e surgiram as novas povoações de Mogo e Olheiros e os Moleanos mudaram de freguesia e não encontro notícia dos Casais dos Belos.

Confesso a minha ignorância, mas não conheço a região e a sua história tão bem como gostaria e, por isso, estes Casais dos Belos intrigam-me.
É que não consegui encontrar na internet outras referências a tal localidade que, como se vê, era no ano de 1758 de média dimensão no contexto da freguesia (20 vizinhos e 57 habitantes), salvo duas escrituras que se conservam no Arquivo Distrital de Leiria:
- Uma de 1794, referente a “ 50 000 reis que deu a juro Antónia Dionísio de Aguiar Barreto, recolhida no Mosteiro de Coz, a Manuel Francisco e mulher Marcelina Amada, dos Casais dos Belos, termo de Porto de Mós.”
-Outra de 1795, relativa a “25 000 reis que deu a juro o Mosteiro de Coz a Joaquim Lourenço e mulher Luisa da Costa, dos Casais dos Belos, Porto de Mós.”
- Uma terceira referência à mesma localidade encontrei-a em "Porto de Mós - Colectânea Histórica e Documental", do Prof. Saul António Gomes onde, (pág. 1069, Doc. 506) no Inventário dos Bens do Convento do Bom Jesus de Porto de Mós, 1843-1837, consta:
"Quarenta mil réis que deve Gregório dos Santos dos Cazaes dos Bellos por escriptura publica de doze de Março de mil oitocentos e trinta e hum ___ 40$000".
A págs. 1071 do mesmo livro, refere-se a dívida dos juros correspondentes:
"Deve mais Gregorio dos Santos dos Cazaes dos Bellos proveniente de reditos a quantia de dois mil reis ___ 2$000".

Em toda a demais literatura sobre a região que até agora consultei, não me lembro de ter lido qualquer outra referência aos Casais dos Belos

Assim, desde já agradeço aos eventuais leitores que, em comentário ou por email, me resolvam esta dúvida: onde eram os Casais dos Belos?

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Ataíja de Cima e Porto de Mós – Séc. XVI e XVII

A dependência secular da freguesia de São Vicente de Aljubarrota e, assim, da Ataíja de Cima, das igrejas de Porto de Mós e, através destas, da Colegiada de Ourém (e não do Mosteiro de Alcobaça, como muitos parecem acreditar) é abundantemente comprovada por muitos documentos.

Hoje, recorrendo uma vez mais ao monumental livro “Porto de Mós – Colectânea Histórica e Documental, Séculos XII a XIX”, do professor Saul António Gomes, editado em 2005 pelo Município de Porto de Mós, no âmbito das comemorações dos 700 anos do foral da Vila dado em 1305, mencionaremos três desses documentos:

No Registo das receitas e despesas da Colegiada de Santa Maria da Misericórdia de Ourém relativas ao ano económico de 1559-1560, elaborado em Ourém em 9 de Janeiro de 1562 (in op.cit., pág. 720, Doc. 414), aparece a seguinte rubrica:

“Item pagou ao dito Joam Afonso pera gastos das Igrejas de Porto de Mos e Aljubarrota, seis mill reais dos quães gastos e despesas o Senhor Prior tomou conta em Porto de Mos aos Priostes de que Joam Afonso prioste tem papes ___ bj¯ reais.”

No Registo das receitas e despesas da Colegiada de Santa Maria da Misericórdia de Ourém relativas ao ano económico de 1572-1573, elaborado em Ourém em Junho de 1573 (in op.cit , pág. 738, Doc. 419), de novo, surgem despesas com a Igreja de Aljubarrota:

“Item pagou pera gastos na Igreja de S. Vicente da Aljubarrota ___ j¯ vc reais.”

O terceiro documento, também transcrito na obra citada (pág. 779, Doc 436), é datado de Leiria, 29 de Outubro de 1627 e contém o traslado do: “Contrato e sua ratificação pelo Bispo de Leiria, através do seu Provisor no Bispado, Pe. Francisco Vieira, do termo estabelecido entre a Colegiada de Santa Maria de Ourém e as Igrejas de Santa Maria (Nossa Senhora dos Mortinhos), São João e (São) Pedro de Porto de Mós, acerca da colecta das rendas das Freguesias que lhe eram anexas naquele concelho e sua aplicação”, do qual consta:

“… e ahi todos juntos e cada hum por si por parte das suas Igrejas, de transausão e amigavel composisão por excuzarem dovidas e demandas na maneira seguinte:
Nos depozitos que estão escritos nos Livros da Recepta e Despeza das tres Igrejas e anexas desta Villa de Porto de Mos em que elles todos são partes imteressantes não queriam que se uzasse mais dos ditos livros nem contas senão somemte cobrar o dinheiro que deve Belchior Antunes como erdeiro e testamenteiro de Bras Luis beneficiado que foi na See de Leiria, E que se fizesse deligencia por hum Livro que la esta e achando se elle e constando dever se algum dinheiro a este depozito se partira de mão comum por estas Igrejas que fica dos ditos depozitos para a Fabrica e obras delas e das anexas do dinherio que esta cobrado e se deve he se comsertaram as anexas a saber Alvardos e Aljibarrota e Serra Ventozo e o remanesemte ficara pera se gastar na Igreja de São João desta villa de Porto de Mos. …”


NOTAS:
(1) Prioste – Recebedor das rendas da Igreja (Dicionário Priberam da Lingua Portuguesa, in http://www.priberam.pt/DLPO/).
(2) No segundo Doc. referido, o valor (mil e quinhentos reais) está, efectivamente, escrito em formato que não conseguimos reproduzir no texto. Assim:

Sobre numeração romana pode ver-se: "O sistema romano de numeração", por J. F. Porto da Silveira - Mat/UFRGS, ampliado e ilustrado por Iran Carlos Stalliviere Corrêa - IG/UFRGS, in http://www.mat.ufrgs.br/~portosil/histo2e.html