sábado, 24 de agosto de 2013

O Padre Manoel de Souza, dos Casais de Santa Teresa



Em 18 de Julho de 2011, (VER AQUI) respondi a um comentário do Gonçalo André (o único “casaleiro” leitor confirmado deste blog), dizendo:

Embora o blog se dedique exclusivamente à Ataíja de Cima, os Casais de Santa Teresa e as demais aldeias vizinhas serão, necessariamente, referidos muitas vezes, desde logo porque muita gente, através do casamento, passou de uma a outra aldeia.

Por essa razão e por muitas outras, “tropeçamos” repetidamente no nome das aldeias vizinhas da Ataíja de Cima. É o que acontece, por exemplo, quando consultamos os registos paroquiais que estão organizados por freguesia.
Foi assim que, ao consultar os registos de óbitos ocorridos em 1825, quando procurávamos um ataijense, nos deparámos com um padre dos Casais de Santa Teresa:

Em 11 de Maio de 1825, faleceu Roza Monteira, solteira, dos Casais de Santa Teresa, a qual foi enterrada “dentro da Parochial Igreja de S. Vicente da Villa de Aljubarrota” e, “não recebeo Sacramento algum por morrer de repente que foraõ Testemunhas o Pe. Manoel de Souza e João Dorta o Mosso ambos dos ditos Cazaes que para constar fiz este assento que assino.
O Cura José Joaquim Leitão


Voltamos a encontrar este Padre Manoel de Souza, em 27 de Novembro do mesmo ano de 1825, no assento do seu próprio óbito, assento esse que, de seguida, transcrevemos:

Cazais de
Sta There
za Pe
Mel de
Souza Co
elho


Aos vinte e sete dias do mês de Novembro de mil oito centos e vinte e sinco anos faleceo e foi sepultado dentro da Cappela de Santa Thereza de Jesus dos Cazais de Santa Thereza da Freguesia de Santa digo da Freguesia de S. Vicente da Villa de Aljubarrota o Pe Manoel de Souza Presbítero do Abito de S. Pedro do dito logar dos Cazais recebeo o Sacramento da Penitência Sagrado Viático e Extrema Unção que para constar fis este assento que assinei
O Cura Jozé Joaquim Leitão
Fes Testamto
no Livro das No
tas da Villa de
Porto de Moz
Sendo escrivão
Alexandre Du
arte


NOTAS:
- A Roza Monteira foi enterrada “dentro da parochial Igreja de S. Vicente da Villa de Aljubarrota”, enquanto o Pe Manoel de Souza (ou Manoel de Souza Coelho, como se escreveu à margem do assento de óbito), “foi sepultado dentro da Cappela de Santa Thereza de Jesus dos Cazais de Santa Thereza”.
O enterramento no interior das igrejas só veio a ser proibido cerca de 20 anos depois o que, aliás, seria uma das causas da Revolta da Maria da Fonte.
- O Pe Manoel de Souza era “Presbítero do Abito de São Pedro”, quer dizer, era um padre secular, ou diocesano, como hoje se diz.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um lagar desconhecido

No largo do Fundo da Igreja, entre a rua de Nossa Senhora da Graça e a de Santo António, ao lado da que foi a casa de Maria Constantino e mesmo em frente à porta da cave da Capela, existe um pequeno edifício que agora serve de garagem e serviu, antes, além de outras coisas, como o palheiro das vacas de João Pereira que foi pai do actual proprietário.
Na festa em honra de Santo António que, como é tradição, se realizou no passado dia 15, o referido edifício serviu como bar de apoio aos festejos e, por isso, o seu portão esteve aberto, deixando ver o que a generalidade dos ataijenses desconhece:

Embebidas na parede do lado esquerdo, em excelente estado de conservação, podem ver-se as “virgens” onde articulava a vara de um lagar.

Atenta a reduzida dimensão do edifício e a sua localização, é certo de que se tratou, não de um lagar de azeite mas de um lagar de vinho.

Esse lagar de vinho, no entanto, já deixou de laborar há muitos anos, mais do que alcança a memória de qualquer ataijense vivo. É o que concluo da conversa que mantive com o António Pereira, o qual apenas sabe que o edifício foi comprado pelo seu pai (mas não sabe quem foi o vendedor) e desconhecia que aquelas pedras na parede serviam para propiciar a articulação da vara do lagar. O que quer dizer que o seu pai nunca lhe terá falado nisso, muito provavelmente por, à data da compra da propriedade, já nela não haver outros indícios da antiga função.

Na Ataíja de Cima escasseiam os vestígios do passado e os que sobram estão, muitos deles, arruinados ou em vias de ruína.
No caso do antigo lagar de que falamos, apenas sobram os vestígios que, por se encontrarem embebidos na parede, não dificultaram os sucessivos usos que foram dados ao edifício. Esperemos que esse facto permita que se mantenham intactos por outros tantos anos.



Notas: Para conhecer melhor o funcionamento dos lagares de varas, veja, Lagares de azeite - As prensas, aliás, o post mais lido deste blog.

domingo, 11 de agosto de 2013

Eliseu Ribeiro, uma família de Tabeliães

(ou, As vistas do Mosteiro de Alcobaça)

Durante uma boa parte do Séc. XIX, todos os ataíjenses (todos os alcobacenses) que fizeram algum testamento, ou negócio de compra e venda de casas ou terrenos, ou relativos a outros direitos imobiliários, ou outros que exigissem a celebração de escritura pública, acabaram por se cruzar com um Eliseu Ribeiro.

De facto, pelo menos quatro pessoas com aqueles apelidos foram tabeliães em Alcobaça (as datas entre parêntesis são as das escrituras onde encontramos os nomes):

Joaquim Eliseu Ribeiro (1845);
Francisco Eliseu Ribeiro (1874 e 1880);
Rafael Eliseu Ribeiro, (1890);
Eduardo Eliseu Ribeiro (1898).

Familiar destes era, certamente, um tal João Elyseu Ribeiro que, com outros, interpôs e ganhou, contra a Câmara Municipal de Alcobaça, um recurso no Supremo Tribunal Administrativo, relativo à ilegalidade do aforamento de uns terrenos no Rossio que a Câmara tinha feito e, assim, foi anulado, conforme publicação no Diário do Governo, n.º 277, de 4 de dezembro de 1875. 
(disponível na internet em http://legislacaoregia.parlamento.pt/V/1/50/82/p485, consultado em 11-08-2013)

Alegavam os recorrentes que:
 “… o aforamento está insanavelmente nullo, porquanto não foram n’elle observadas algumas formalidades legaes, e que ainda quando o fossem tal aforamento não podia subsistir, porque ofende os recorrentes nos seus legítimos interesses, tirando a vista aos prédios que eles possuem, e porque prejudica os povos do concelho, estreitando consideravelmente o terreno em que têem lugar os mercados e afrontando com as edificações que ali se levantarem a perspectiva do edifício do mosteiro de Alcobaça;”

Na contra-alegação, dizia a Câmara Municipal que:
“…são menos exactas as allegações dos recorrentes contra a validade do aforamento, de que este só comprehende um tracto de terreno, que pelo seu declive é inútil para o mercado; de que as edificações projectadas só contribuem para o aformoseamento do largo, sem que pela distancia em que ficam do convento possam tolher a vista do edifício; e finalmente de que os interesses particulares não devem prevalecer contra os interesses geraes do município.”

Os recorrentes obtiveram, como se disse, vencimento de causa mas, no entanto, não pelas razões invocadas. 
Antes, por violação de lei, uma vez que, segundo a sentença, estava vedado à câmara aforar aqueles terrenos, nos termos do prescrito na lei de 28 de agosto de 1869.

Mas, interessante mesmo é ver que, há quase 150 anos, já havia forte discussão sobre o que é bom para a envolvente do Mosteiro.




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Igrejas, Capelas e Conventos do Concelho de Óbidos

Nova exposição de Inês Neves

Inês Neves tem, desde 2010 e em sucessivas exposições, todas de âmbito concelhio, vindo a apresentar rigorosos inventários de todos os edifícios religiosos dos municípios de Alcobaça, Nazaré, Batalha, Porto de Mós, Caldas da Rainha e Leiria.

Prosseguindo a gigantesca tarefa que se propôs, de pintar em aguarela o património religioso da nossa região vem, agora, apresentar uma nova exposição, desta vez relativa às Igrejas, Capelas e Conventos do Concelho de Óbidos.

A Exposição que se inaugura no próximo dia 17 de Agosto, sábado, estará patente, diariamente, entre as 14H30 e as 18H30 na Capela de São Marcos, nas Gaeiras (entre Caldas da Rainha e Óbidos), até ao dia 15 de Setembro.


Quem não conheça as Gaeiras, nem a Capela de São Marcos onde a exposição terá lugar, pode ler o seguinte texto:

Quem quiser saber mais sobre o trabalho de Inês Neves, pode pesquisar neste blog, ou visitar o blog da autora:


segunda-feira, 29 de julho de 2013

FESTIVAL DAS SOPAS 2013

Dia 15 de Setembro de 2013,

FESTIVAL DAS SOPAS 2013

Eu vou!



E, se chover?

Se chover, vamos para o Salão Cultural Ataíjense, como fizemos em 2012:


Saiba mais sobre o Festival das Sopas 2013 e faça a sua inscrição em:

https://www.facebook.com/events/477175132366456/

Ou no Salão Cultural Ataijense

https://www.facebook.com/SalaoCulturalAtaijense?fref=ts

Pode, também, pesquisar neste blog por "Festival das Sopas", para ficar a saber mais sobre como foi o Festival das Sopas da Ataíja de Cima em 2010, 2011 e 2012.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

O meu trisavô João Cláudio


Aos serões, a minha avó contava-me histórias.

Como a daquele seu avô que, integrado nos exércitos luso-britânicos, tinha combatido a 3ª Invasão Francesa, perseguindo Massena e as suas tropas até cerca dos Pirinéus.

Na verdade, a minha avó era analfabeta e não sabia se era ou não a 3ª Invasão Francesa, muito menos, quem foi Massena ou onde eram os Pirinéus. O que ela sabia, de ouvir contar e era isso que me contava, eram os terríveis sofrimentos que à Ataíja foram impostos pelas Invasões:
As talhas rompidas e o azeite correndo em rios pelas ruas. O vinho roubado e bebido sem medida, tornando ainda mais selvagens os invasores. O milho que havia de servir para fazer o pão e o trigo de pagar os foros, arrombadas as arcas e dado a comer aos cavalos. Tudo o que era de comer, destruído ou roubado. Violações. Assassinatos por motivos fúteis. Jovens donzelas tentando proteger a sua honra, mulheres feitas e homens de família escondidos nos matos como bichos tentando escapar à fúria francesa.

Talvez por isso, a memória do meu trisavô soldado pairava na velha casa e a sua coragem acompanhava-me e protegia-me nos pesadelos que, em longas noites de Inverno, me perseguiam mascarados de soldados franceses.

Contava a minha avó que o tal avô (tinha ela dois anos quando ele faleceu), sendo então muito velho, era vítima da chacota dos jovens e de indefinidas ameaças, às quais respondia com recordações dos tempos de juventude:
- “Diz-lhe, homem, que eu fui atrás dos franceses até Montevideu”.
Com o que ganhou a estranha alcunha de “Diz-lhe homem!”.

Nas minhas lembranças daqueles serões, a frase exacta do velho soldado era essa: "Diz-lhe homem! Que eu fui atrás dos franceses até Montevideu”. Era com tal frase que o meu trisavô invectivava garotos e outros malandros e, nessas lembranças, chamava-se esse meu antepassado João Pereira Cláudio, nome que julgo ter ouvido centenas de vezes, por diariamente ser invocado na lista de beneficiários das orações da noite.

Mas, talvez (quase de certeza) a memória me traia.

Aliás, na minha vida, não me lembro de jamais ter conhecido alguém que usasse o apelido Cláudio. Apenas, me lembro de que a minha avó e algumas outras pessoas do seu tempo, se referiam a António Agostinho, (que foi conhecido pela alcunha de Russo), chamando-lhe António Cláudio.
Nas minhas buscas não encontrei documento que falasse num João Pereira Cláudio mas, já tinha encontrado um António Maria Cláudio e, agora, encontrei um João Maria Cláudio, um João Maria de Souza Cláudio e um João de Souza que julgo serem uma única e a mesma pessoa.

Parece-me bem que este João Maria de Souza Cláudio é o tal antepassado, o “Diz-lhe homem!”

De facto, tendo falecido em 10 de Novembro de 1884, com a bonita idade de 95 anos, significa isso que terá nascido em 1789 (o ano em que se iniciou a Revolução Francesa e teve lugar a Tomada da Bastilha) e, portanto, tinha 18 anos quando D. João VI mudou a Corte para o Brasil, deixando o caminho aberto para a 1ª Invasão Francesa (Junot) e 23 ou 24 anos quando, na contra-ofensiva que se seguiu à 3ª Invasão, perseguiu os exércitos franceses através de Espanha.
Acresce que, como consta do assento de óbito, tinha essa extraordinária profissão (ao menos para ataijense) de soldado reformado.

Ah! E, claro, era exposto da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.