sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Nomes Próprios na Ataíja de Cima, nos anos de 1785 a 1910



J. Leite de Vasconcelos queixava-se, em Antroponímia portuguesa: tratado comparativo da origem, sig­nificação, classificação, e vida do conjunto dos nomes próprios, sobrenomes…. Lisboa, Imprensa Nacional, 1928 (citado por  Nuno Gonçalo Monteiro, Os nomes de família em Portugal: uma breve perspectiva histórica, in etnográfica, maio de 2008, 12 (1): 45-58) que: “actu­almente há muita liberdade na escolha do apelido: cada pessoa toma, por assim dizer, o apelido que lhe parece, de que gosta, ou que lhe convém...”
De facto, antes da imposição do Registo Civil, o que só aconteceu sob o governo republicano, em 1911, não vigoravam em Portugal quaisquer normas legais que regulassem o uso dos apelidos.
A igreja católica, nos assentos de baptismo, registava, apenas, o nome próprio ou prenome. O apelido ou sobrenome, ou a conjugação de apelidos. ia-se consolidando ao sabor de acasos, gostos ou conveniências e só tinham consagração formal (escrita), em regra, pelo casamento[i].
O primeiro apelido era geralmente o paterno, embora se pudessem escolher livremente de entre os usados pelos pais ou pelos quatro avós e, até, o de padrinhos, patrões, ou amos no caso dos escravos, sendo frequentes os casos de irmãos que não usavam o mesmo apelido.
Na Ataíja de Cima, durante o Século XIX foi corrente, como veremos a seu tempo, a transformação em apelido de família do nome próprio do patriarca (como aconteceu, por exemplo, com Constantino, Veríssimo, Maurício ou Matias, entre outros).
Comum era, também, a transformação em apelido do lugar de origem ou da profissão.

Dos apelidos ou sobrenomes havemos, no entanto, de tratar em outra ocasião. Por agora, ficar-nos-emos pelos nomes próprios que, nome próprio, todos possuíam desde o baptismo.


Nos assentos de baptismo de São Vicente de Aljubarrota, entre os anos de 1875 e 1910 (excluindo os anos de 1860 a 1880, a cujos registos ainda não nos foi possível aceder), temos um total de 416 crianças nascidas na Ataíja de Cima, sendo 199 do sexo feminino, às quais foram atribuídos 29 nomes diferentes e 217 do sexo masculino, às quais foram atribuídos 22 nomes diferentes.

No caso dos nomes femininos, a uma maior diversidade corresponde uma maior concentração nos nomes mais comuns, com um único nome, Maria, a ser usado 83 vezes, a que corresponde um peso de 41,7%, seguido de Joaquina, a grande distância com 32 casos, correspondentes a 16%. O terceiro nome mais comum, Luísa, foi escolhido 17 vezes, correspondentes a 8,5%.
Treze nomes (44,8%), foram usados uma única vez.
  



Quanto aos nomes próprios masculinos, a uma menor diversidade (22 nomes) corresponde uma maior dispersão das preferências, com 8 nomes (36,4%) a serem usados uma única vez e
Os quatro nomes mais usados a oscilar entre os 17,1% (37 vezes) e os 14,7% (32 vezes).



Se nos ativer-mos, apenas, aos anos de 1785 a 1799, num total de 50 baptizados, 23 femininos e 27 masculinos, encontramos um total de 11 nomes femininos e 10 nomes masculinos.
Os nomes Maria e Joaquim já eram, neste período, os preferidos.

Na parte final do período em análise (1900/1910), por sua vez, em 58 baptizados (24 raparigas, 34 rapazes), assiste-se a uma drástica contracção na diversidade dos nomes femininos, agora reduzidos a 6 (quatro deles com apenas um caso) e fortemente concentrados em Maria e Joaquina, com 10 ocorrências cada, enquanto cada um dos demais quatro nomes ocorre apenas em um caso.
Esta situação, algo anormal, era bem apercebida pelos próprios locais, como o ilustra uma expressão corrente que ouvi muitas vezes:

Na Ataíja de Cima todas as mulheres são Marias ou Joaquinas. Nos Casais (de Santa Teresa) todas são ou Rosas ou Delfinas.

e decorria do costume - que se foi desenvolvendo com maior intensidade à medida do avanço do Séc. XIX – de impor ao baptizando o nome próprio do padrinho (ou da madrinha no caso de se tratar de rapariga)[ii], agravado, o costume, pelo facto de, tendencialmente, haver um restrito número de pessoas que, em geral por não terem filhos[iii] e, ou, serem gente de algumas posses, eram padrinhos preferenciais.

É que, ao padrinho, compete ajudar o afilhado e, como diz o ditado, “quem não tem padrinho morre mouro”.

Em muitos casos, o padrinho era encontrado dentro da família próxima, frequentemente, o avô ou a avó e, por essa via, se obtinha a alternância de nomes a cada duas gerações, como havia sido costume antigo das famílias ilustres.

Quando o padrinho era um tio, tal como quando era uma pessoa de fora da família, o novo elo do compadrio criado pelo apadrinhamento tinha uma tal importância que se sobrepunha às relações familiares.
Pais e padrinho deixavam de ser irmãos para passar a tratar-se, mutuamente, por “compadres”.

Voltando ao nosso tema;

A prof. Iria Gonçalves, no seu estudo Antroponímia das Terras Alcobacenses nos Fins da Idade Média[iv] analisa os nomes que se usavam na nossa região (nos Coutos de Alcobaça) em dois períodos do final da idade média, 1370-1400 e 1430-1460. Comparando os resultados a que a ilustre professora chegou com os que obtivemos – para a Ataíja de Cima - a partir dos assentos de baptismo da Paróquia de São Vicente de Aljubarrota nos anos entre 1785 e 1910 e, ainda, com os dados mais recentes relativos à totalidade do país[v], chegamos a interessantes conclusões:

No que diz respeito aos nomes próprios masculinos, apenas João aparece sempre entre os sete nomes preferidos sendo, aliás, o mais comum no final do Séc. XIV e em meados do Séc. XV nos Coutos de Alcobaça e, na actualidade, em Portugal. Na Ataíja de Cima, desde o final do Séc. XVIII ao início do Séc. XX, mantém-se bem posicionado e bastante estável ao nível das preferências.[vi]

A importância do nome Joaquim na Ataíja de Cima em 1785/1910, em que é o nome masculino mais comum, embora em acelerada queda na parte final desse período, deve-se, tal como se passa com o correspondente feminino, Joaquina, a razões particulares.[vii]



Quanto aos nomes femininos, é indiscutível a predominância do nome Maria, só interrompida, na Ataíja de Cima dos anos de 1900/1910 pelas mesmas razões particulares já referidas.
[viii] 









[i] Em casos extremos, mesmo isso podia não ser “suficiente” para dar à pessoa um apelido formal. Foi o caso de um casamento, celebrado em 9 de novembro de 1836, no qual a nubente é identificada, apenas, pelo nome próprio e filiação: Maria, filha de José Machado e Maria de Horta.  
[ii] A conferência dos padrinhos, mostra que assim é, de facto, como é evidente, por ex., nos casos dos nomes masculinos mais exóticos (Matias, Alfredo, Sabino, Porfírio).
O mesmo, com os nomes mais vulgares, como o feminino Joaquina onde, dos 27 casos recenseados, em 7 deles foi madrinha a mesma Joaquina Quitério.
[iii] É o caso da Joaquina Quitério referida na Nota anterior.
[iv] Publicado inicialmente em Do Tempo e da História, Vol. V, 1972, pág.s 159-200 e, posteriormente, em Gonçalves, Iria, Imagens do Mundo Medieval, Livros Horizonte, Lisboa, 1988, pág.s. 105-142
[v] Os dados relativos a Portugal, 2013, foram recolhidos em http://www.maemequer.pt/estou-gravida/prepare-a-chegada-do-bebe/top-50-nomes-mais-registados-em-2013, consultado em 20-2-2014
[vi] João era, tb., o nome mais comum na área do almoxarifado de Évora em 1475, entre os titulares do empréstimo contraído por D. Afonso V para financiar a guerra com Castela (conf. Gonçalves, Iria, Amostra de Antroponímia Alentejana do Séc. XV, igualmente incluído em Imagens do Mundo Medieval, referido na nota iv.
[vii] Entre 1795 e 1804 o Padre Joaquim de Sousa é padrinho de 5 rapazes, todos baptizados com o nome do padrinho.
[viii] Como já dito, Joaquina Quitério, casada, sem filhos e com fama de ser relativamente abastada foi, entre 1899 e 1910, madrinha, além de vários rapazes que aqui não importa contabilizar, de 7 raparigas, todas baptizadas com o nome da madrinha.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Festa em Honra de Nossa Senhora da Graça


Há mais de duzentos e cinquenta anos, em 1747, já se realizava na Ataíja de Cima a festa em honra de Nossa Senhora da Graça, como nos dá conta o Dicionário Geográfico do Padre Luiz Cardoso.

 Naquele tempo, no entanto, era a festa celebrada na oitava do Natal (dia de Ano Novo) e, 11 anos depois, de acordo com o relato do Pároco de São Vicente, no relatório de 1758 inserto nas chamadas Memórias Paroquiais, a ela acudia bastante gente dos povos vizinhos.

 Assim continua a ser nos dias de hoje, já não na oitava do Natal nem, como sucedeu há uns anos atrás em fins-de-semana diversos, no mês de Maio mas, como era tradição e até quando remontava a memória dos vivos do lugar, no dia 2 de Fevereiro. 

A procissão à Serra, que é o momento alto da festa, talvez se realize há menos tempo, uma vez que nenhum desses antigos textos a refere. Certo é que se realiza há mais anos do que alcança a memória dos vivos. Antes para abençoar os olivais e, agora que já quase não há olivais, para abençoar os campos – embora, diga-se, também estes tenham sido, em grande parte, substituídos pela indústria e já não desempenhem na vida ataíjense o lugar central que foi seu durante tantos séculos. 

Seja como for, o São Pedro que, como se sabe, preside à meteorologia, resolveu intervalar no rigoroso inverno, brindando-nos com um Domingo de clima ameno e sem chuva, o que propiciou a uma razoável multidão subir à Serra, como o fizeram os seus antepassados.


O dia começa com o peditório na aldeia. Aqui, o Francisco Quitério nas suas funções de juíz da festa:

 
 

O local até onde vai a procissão é marcado por um cruzeiro (erigido no ano de 1949 pela respectiva comissão de festas, de que foi juiz o meu pai):



Daí, tem-se uma larga vista que vai até à Nazaré:

 
 No limite das propriedades privadas com o baldio serrano, pode-se passear numa vereda chamada o Caminho do Guarda:


 
 Depois de uma caminhada de pouco mais de 2 km, a procissão aproxima-se do seu destino:  
 

O Sr. Padre Ramiro na sua alocução aos fiéis:



Cumprida a tradição e a devoção religiosa, a tarde prolonga-se em convívio que contou com a animação do Rancho Folclórico dos Casais de Santa Teresa, aqui, aguardando o momento de iniciar a sua actuação:


E, uma comissão de festas jovem, inovou apresentando, com grande sucesso,  uma quermesse que era uma farmville ao vivo, onde as rifas premiadas davam direito a levar para casa legumes e frutas, ovos e uma grande quantidade de bichos, de coelhos a galinhas e, até, um porco (uma porca, como se vê pelo colar):

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

15º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense



Mais de trezentas pessoas, naturais e amigos da Ataíja de Cima, estiveram presentes no 15º Almoço Anual no Salão Cultural Ataíjense almoço que, como sempre, se realizou no 3º Domingo de Janeiro e, aliás e como de costume, foi mais do que um almoço, antes, um grande dia de convívio que se prolongou pela tarde e noite, com baile e jantar.

Este ano, pela primeira vez, não senti urgência em publicar aqui as minhas impressões e algumas imagens do almoço. É que, com o desenvolvimento das redes sociais, em particular o Facebook, já várias pessoas publicaram fotos e impressões do evento.

É o caso do presidente da direcção do SCA que escreveu na página do Salão no Facebook (https://www.facebook.com/SalaoCulturalAtaijense):

Apesar de atravessarmos tempos difíceis o povo Ataijense e seus amigos fizeram questão de estarem presentes no 15º almoço convívio desta casa, ultrapassando as três centenas.

Para a atual direção, ter esta casa cheia é um fator de motivação muito forte para continuarmos a trabalhar em prol do Salão e do povo Ataijense.
O nosso sincero obrigado a todos os presentes e aos que pelos mais diversos motivos não poderem estar connosco, muito, muito obrigado!!!


Quando estava a escrever este texto, fui ver o que tinha escrito, no ano passado (Confira AQUI), a propósito do 14º Almoço. Podería repetir quase tudo o que então disse, com a agradável diferença de o número de comensais ter sido, este ano, bem maior.

E houve algumas novidades, de que anotei duas que gostei de ver:
Uma “farda” novinha em folha, para os voluntários masculinos que estavam de serviço às mesas: camisa branca tendo gravado o emblema do SCA e personalizadas com o nome do titular. As senhoras, essas, apresentavam trajes mais variados, notando-se a predominância de aventais pretos, com riscas verticais brancas, uma “quase” farda.

A lista dos convidados que ocuparam a mesa de honra incluía, como de costume, O Sr. Padre Ramiro, o Presidente da Junta de Freguesia de Aljubarrota e, em representação do Presidente da CMA, a Vereadora Inês Silva e, pela primeira vez, dois representantes da oposição: o vereador Carlos Bonifácio e o candidato CDS à Assembleia de Freguesia de Aljubarrota.
Felicito a Direcção pela inovação que espero ver desenvolvida em próximos almoços, pensando eu que seria adequado convidar um vereador de cada uma das forças políticas com assento na CMA.

Finalmente, uma palavra para o que, não sendo novidade, é sempre muito agradável de ver:
A chamada ao palco e a entrega de uma lembrança a cada um dos elementos da Direcção anterior.


Muito obrigado a todos os que trabalharam para tornar possível este dia.

Na véspera, tudo ficou pronto para receber os convidados
(foto de Miguel Catarino, retirada da página do Salão no Facebook, in https://www.facebook.com/SalaoCulturalAtaijense?fref=ts)

Uma sala bem composta


E atenta aos discursos e à prestação de contas

A anterior e a actual direcções juntas no palco
(foto de Francisco Soeiro Mendes)


Um pé-de-dança, para "esmoer a barrigada"

São 21H00. É tempo de partir o bolo.


Até para o ano!


Dia 18 de Janeiro de 2015

16º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense

O terceiro Domingo de Janeiro é,

sempre,


Dia de Almoço no Salão

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

15º Almoço Anual do Salão Cultural Ataíjense

Como sempre, no 3.º domingo de Janeiro, 


19 de JANEIRO de 2014



almoço anual do Salão Cultural Ataíjense



uma grandiosa festa de convívio de naturais, residentes e amigos da Ataíja de Cima


INSCREVA-SE!


O ano passado foi assim:







terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O Gadanho

O gadanho é, segundo o DPLP[i], uma “espécie de ancinho com grandes dentes de ferro”.

Gadanho é, também, garra das aves de rapina e, em linguagem informal, mão, ou unha (de que dá como exemplo a frase: se te deito o gadanho…).

Na Ataíja de Cima usa-se mais, nestes dias frios de Inverno, o respectivo plural quando lamentosamente nos queixamos de que: estou sem gadanhos!
(Para não ataijenses, esclarece-se que tal significa que, em virtude do muito frio, estamos sem força nos dedos, sem capacidade para agarrar e segurar os objectos).

Curiosamente, aquele dicionário dá gadanho e ancinho como sinónimos de engaço (a parte lenhosa dos cachos das uvas), já que, pelos vistos, também há quem chame engaço a um “instrumento agrícola em forma de pente, usado para limpar ou aplanar terras agrícolas ou ajardinadas”.

Vem tudo isto a propósito de um gadanho que, também ele, tem uma relação estreita com os engaços, seja, com a parte lenhosa dos cachos das uvas.

O gadanho é este:



Trata-se um velho gadanho, já com muitas dezenas de anos e que sempre conheci tal como aqui se apresenta sem, sequer, vestígios de alguma vez ter tido cabo de madeira que, julgo, nunca teve.

É, agora, meu, depois de ter sido do meu pai e, antes, do meu avô e (pelo menos nos últimos sessenta anos) nunca serviu para outra coisa que não, uma vez por ano, ser cravado no pé da prensa do vinho, para o desfazer, no final da lagaragem.

Acho que um destes dias o vou limpar cuidadosamente e dar-lhe o uso que sempre foi o seu, o uso que lhe deram o meu pai e o meu avô:

Ajudar, no final da lagaragem, a desfazer o pé da prensa.





[i] Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/gadanho [consultado em 31-12-2013].

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Uma tragédia na Ataíja de Cima - O surto de Tifo de 1832



Em 1832, no ano anterior à epidemia de cólera a que nos referimos AQUI, já na Ataíja de Cima se tinham verificado 10 falecimentos, um número invulgarmente alto face à média normal de três mortos por ano. Esse acréscimo de mortalidade há-de explicar-se, vista a sua concentração nos meses de Março e Abril, por razões não naturais, talvez uma qualquer doença infecciosa.

Entre os dias 10 de Março e 21 de Abril, ocorreram a maioria das mortes do ano: 6 pessoas.
Destes, o falecimento em 20 de Março de uma inocente sem nome, nascida nesse mesmo dia, filha de Custódia Maria, a qual “foi batizada em casa por necessidade por Paulo dos Santos a quem examinei pelo dito batismo”, conforme se escreve no respectivo assento de óbito, é, talvez, um caso diferente, um problema sobrevindo durante o parto, como era vulgar na época e não doença infecciosa. Note-se, aliás, que a mãe sobreviveu, aparentemente sem sequelas.

Dos 10 falecidos no ano, 1 era viúvo, 2 casados e 7 solteiros, 3 dos quais “inocentes” e um “menor”. Dos solteiros, 3 eram expostos do Real Hospital da Cidade de Lisboa que se encontravam a ser criados por amas locais.

Dos 4 falecimentos ocorridos fora do período crítico que se desenrolou entre 10 de Março e 21 de Abril, dois foram de crianças, de 4 e 11 anos e, os outros dois, de pessoas idosas:
Um destes foi Veríssimo Amado, uma pessoa de quem ainda havemos de voltar a falar e que, nesse tempo, tinha um filho já com 45 anos de idade. Tratava-se, pois, de uma pessoa de idade avançada para a época, pelo que se há-de admitir que a morte se deveu a causas naturais.
O outro foi a viúva Micaela dos Santos, de quem já aqui falámos, a propósito do seu TESTAMENTO. A Micalela já era casada em 1790 (42 anos antes) e, em 1832, era, seguramente, pessoa de avançada idade para a época, pelo que também a sua morte há-de ser tida como devendo-se a causas naturais.

Que doença terá sido a principal responsável por aquele anormal número de mortes?
Ao contrário do que se passa com a Cólera-morbo de 1833, não tenho certezas mas, muito provavelmente, tal mortandade é consequência da epidemia de tifo que, nesse ano de 1832, ocorreu em Portugal, com especial incidência nas regiões de Lisboa e Ribatejo[i].

O  tifo epidémico, ou tifo exantemático ou, apenas, tifo, é uma doença epidémica transmitida por parasitas comuns no corpo humano, como piolhos. As epidemias mais graves verificaram-se em situações de grande aglomeração de pessoas e cuidados limitados de higiene, como exércitos (foi a principal causa de morte entre os soldados de Napoleão durante a campanha da Rússia), prisões e campos de concentração (matou centenas de milhares de pessoas em campos de concentração nazis, durante a segunda guerra mundial).[ii]

Uma outra forma de tifo, menos agressiva e que é, ainda, endémica em certas regiões rurais de África, da América  Central e do Sul e da Àsia é o chamado tifo murino, cujo principal vector[iii] é uma pulga que parasita os ratos e outros pequenos mamíferos.

O Tifo chegou a Portugal no final do século XV e foi evoluindo por surtos até às Invasões Francesas, a partir de quando se tornou endémico entre nós e assim se manteve até ao Séc. XX[iv] (o último grande surto de tifo, do qual resultaram cerca de 3.000 mortos, ocorreu em 1918-1919 sobrepondo-se, parcialmente, à pneumónica).

Quando se começou a compreender a relação entre o tifo e a falta de higiene, o exército francês introduziu nas medidas de disciplina a obrigatoriedade de fazer a barba e de cortar o cabelo rente, como forma de acabar com os piolhos que eram o vector da infecção.
E, de facto, as medidas de higiene capazes de erradicar ou controlar as populações de ratos e piolhos, continuam a ser estritamente necessárias para evitar o ressurgimento desta e de outras doenças infecciosas.

 Voltando ao caso da Ataíja de Cima:
10 mortos em 1832, a maioria deles em razão de um surto de tifo e,
18 mortos em 1833, a maioria deles por efeito da epidemia de cólera-morbo que assolou o país.
28 mortos em 2 anos, numa aldeia onde a média, durante todo o Século XIX, foi de 3 mortos por ano, equivale, grosso modo, ao numero de mortes que havia de ter lugar em nove ou dez anos.
É difícil imaginar a dimensão da tragédia, tanto mais que não dispomos, ainda, de estimativas seguras sobre a população que a aldeia teria naquele tempo mas, fazendo um paralelo com o Portugal actual onde, em 2012, houve cerca de 108.000 falecimentos, é como se de repente e em dois anos consecutivos morressem 346.000 e 648.000, praticamente, um milhão de pessoas. Ou seja, 10% da população (no caso da Ataíja de 1832 terá sido, deste ponto de vista, pior: talvez, cerca de 15% da população).

Conseguem imaginar a dimensão da tragédia?




O presente texto é, no que se refere à descrição e história da doença, subsidiário de:
“Tifo epidémico em Portugal: um contributo para o seu conhecimento histórico e epidemiológico”, artigo de J. A. David de Morais, publicado In Medicina Interna, Revista da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, VOL.15 | Nº 3 | JUL/SET 2008



[i] Em 1810-1813, um outro surto de tifo tinha percorrido todas as localidades mais importantes do país, provocando um tal número de mortes que há quem sustente que mais vítimas fez o tifo do que as tropas francesas.
[ii] Veja, por ex.: http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=758&sid=8 (consultado em linha em 19-12-2013)
[iii] Vector, em medicina, é o artrópode que transmite o germe de uma doença (bactéria, vírus, ou protozoário) de um indíviduo doente a um indivíduo são. (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], consultado em 14-12-2013).
[iv] Especialistas contam um total de dezassete surtos de tifo, em Portugal, durante o Séc. XIX.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Uma tragédia na Ataíja de Cima - A Epidemia de Cholera - Morbus de 1833



A epidemia de Cólera que, nos anos de 1832 e 1833 assolou a Europa, teve um forte impacto na Ataíja de Cima onde provocou um elevado número de mortos.

A doença era conhecida há longo tempo, por ser endémica na Índia aonde, no entanto, se manteve circunscrita até à década de 1820 quando atingiu a Rússia e continuou a progredir para ocidente.

A cólera chegou a Portugal “trazida a bordo de um navio que, de Ostende[i], transportava soldados para ajudarem D. Pedro no cerco do Porto”[ii], quando já tinha atacadocom grande virulência em Paris, no mês de Abril desse ano de 1832.

Pela primeira vez, foi antecipada a propagação de uma epidemia e a sua evolução sistematicamente acompanhada e, por toda a Europa, foram publicados numerosos livros e folhetos contendo quer instruções sobre os comportamentos a adoptar face à, ou para evitar a doença, quer relatórios médicos descrevendo as observações aos doentes, incluindo numerosas autópsias, ou relatando os efeitos dos medicamentos[iii] experimentados, seja, fazendo a história médica da epidemia[iv].

Exemplo de medida “preventiva” é o Aviso de D. Miguel I[v] ao Cardeal Patriarca de Lisboa que a seguir se transcreve:

TENDO apparecido em algumas Nações, e ultimamente mais proximo a nós, em a França, huma enfermidade nova, que se está conhecendo com o nome de Cholera-morbo Asiatica, e cujos terríveis estragos são talvez hum castigo, com que a Divina Omnipotência quer punir, e reprimir esse espirito de perversidade, e de impiedade, que desgraçadamente tem chegado a tamanho gráo no Século, em que vivemos, deve, em taes circumstancias, hum Povo Catholico, e que tanto se préza de o ser, como o Povo Portuguez, acudir, e reunir-se junto aos Altares a implorar a Clemencia do Omnipotente, e a adorar a Sua Alta Providencia, mesmo quando assim se mostra severa, e justiceira: He por tanto da vontade de Sua Magestade que Vossa Eminência ordene que, para o sobredito fim, hajão Preces públicas em todo o Patriarchado. Sua Magestade Manda lembrar a Vossa Eminência que he necessário que nessa ocasião os Ecclesiasticos, a quem isso competir, usando do importante Ministerio da palavra, que lhes incumbe, fação conhecer aos Povos que não basta a Oração para se applacar a Justiça Divina ofiendida, mas que são precisas as boas obras, affastando elles com especialidade, e repelindo firmemente para longe de si as idéas de corrupção, e de impiedade, que os máos, para seus fins perversos, tanto tem procurado espalhar; e tambem que lhes fação vêr os muitos motivos , que temos para esperar, e confiar na Misericordia de Deos, que sempre se tem mostrado propicio aos Portuguezes , e cujos Beneficios , ainda nestes passados tempos tão visivelmente acabamos de experimentar, livrando-nos por duas vezes da Facção revolucionaria, que dominava, e que pertendia destruir o Throno , e a Religião, e causar a total ruina de Portugal. O que de Ordem do Mesmo Senhor communico a Vossa Eminência para sua intelligencia, e para que assim se execute,  = Déos guarde a Vossa Eminência. Çamora Corrêa em 28 de Maio dé 1832. = Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor Cardeal Patriarcha. = Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio de Mendoça.

Depois do Porto, em cuja região terá matado cerca de 13.000 pessoas, a Cólera alastrou a Lisboa e outras regiões e terá feito, no país, um total de cerca de 40.000 mortos até desaparecer no final de 1833[vi].

À Ataija de Cima a cólera terá chegado em Junho de 1833 provocando o que há-de ter sido uma hecatombe social, com a morte, num espaço de quarenta dias, de um total de 16 pessoas (9 em Junho, 7 em Julho)[vii].

Quem morreu?
2 eram viúvos, 6 casados e 8 solteiros, dos quais, 3 eram inocentes e um menor.
Dos inocentes, 2 eram expostos do Real Hospital da Cidade de Lisboa, que estavam a ser criados na aldeia.
João Machado que, no final do ano anterior tinha assistido à morte de uma filha verá, em Junho deste ano morrerem, no mesmo dia, a mulher e uma outra filha.
Bernardo de Moira verá desaparecerem-lhe, no espaço de 3 dias, um filho inocente e um menor.
A Custódia Maria, morreram o marido e um exposto que criava.
Luis Machado e a mulher também morreram no espaço de três dias.

A dimensão da tragédia fica mais nítida se nos lembrarmos de que, a média de falecimentos na aldeia, durante todo o Século XIX, é de 3 por ano.



NOTAS:

[i] CORREIA, Fernando da Silva - Portugal Sanitário (Subsídios para o seu estudo. Lisboa: Ministério do Interior ; Direcção Geral de Saúde, 1938, p. 465.)
Citado em: Portugal e as Conferências Sanitárias Internacionais (Em torno das epidemias oitocentistas de cholera-morbus), por Maria Rita Lino Garnel.
Ostende situa-se na actual Bélgica que, por esse tempo, alcançava a independência.
[ii] O cerco do Porto teve início em finais de Julho de 1832. Os "soldados" em causa eram, certamente, mercenários que tinham combatido nas lutas pela independência da Bélgica, iniciadas em 1830.
[iii] Melhor seria dizer mezinhas.
[iv] No caso de Portugal, por exemplo, o livro: Um fragmento da història da epidemia que, sob o nome de Còlera-morbus asiàtico, havendo percorrido a Àsia e a maiòr parte da Europa, chegou a Portugal no corrente anno de 1833, pêlo Dr. Lima Leitão.
Para o caso de França, por exemplo: RELATION sur le CHOLERA–MORBUS OBSERVÉ A PARIS , DANS LE MOIS d'AVRIL l832, SUIVIE D’UN RAPPORT SUR L’ÉPIDÉMIE CHOLÉRIQUE QUI A RÉGNÉ DANS l'arrondissement DE BERNAY (EURE), DEPUIS LE 29 AVRIL jusqu'au 27 SEPTEMBRE l832, PAR M. NEUVILLE,

[v] Estavamos em plena Guerra Civil que opunha os absolutistas chefiados por D. Miguel, aos liberais fiéis a D. Pedro IV. As posições de cada uma das partes em conflito perante a epidemia é um aspecto que acrescenta interesse ao estudo do tema. 
O Aviso transcrito é um claro exemplo demonstrativo do extremismo político e religioso de D. Miguel.
[vi] Havia de voltar várias vezes durante as décadas seguintes e, com particular virulência, em 1853-1856.
[vii] Nesse ano houve, na aldeia, mais duas mortes que, no entanto, não terão sido provocadas pela cólera.

Todas as publicações citadas estão acessíveis online.