quinta-feira, 21 de agosto de 2014
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Falares "ataíjenses" num romance brasileiro
Há muitos anos que andava para ler as “Memórias de um
Sargento de Milícias”, de Manuel António de Almeida,[i] romance
de que sempre ouvi falar como uma grande obra literária.
Finalmente, calhou este verão. Encontrei-o numa edição já
antiga[ii] e a
preço de saldo. Uns módicos cinco euros[iii], foi
quanto me custou na excelente livraria do Sr. Mário Bandeira, em Peniche.
Li-o, como se costuma dizer, de um fôlego.
Não vou, aqui, fazer crítica literária. Quem quiser, compre
o livro que vale bem a pena. Por mim, apenas digo que uma das razões porque me
diverti muito a lê-lo foi o facto de encontrar uma série de palavras e
expressões que se usavam na Ataíja de Cima da minha meninice e, agora, já só se
conseguem encontrar em clássicos da literatura brasileira ou em telenovelas de
época da Globo.
Vamos, então, a essas palavras e expressões:[iv]
(na festa do baptizado), … foi desaparecendo a cerimónia e a
brincadeira aferventou,…[v]
Não sei se ainda se usa mas, aferventar era (e é, confirma-o
o dicionário) fazer levantar fervura, ferver brevemente. Aferventavam-se, no
devido tempo, os grelos de nabo que se queriam assim, rijos, mal cozidos. Por
isso, outras hortaliças mal (insuficientemente) cozidas se diziam engroladas,
quer dizer, engreladas, ou seja, como grelos.
No texto, aferventou tem o óbvio significado de aqueceu.
… a madrinha foi a última que saiu, deitando
a bênção ao afilhado …[vi]
Hoje, os padrinhos já não deitam a bênção aos afilhados que
lhes a não pedem e o mesmo com pais, tios e avós.
Quando eu era pequeno o adeus substituía o bom-dia, o boa-tarde,
o boa-noite e o olá e, da primeira vez que nesse dia encontrávamos pai ou mãe,
avô ou avó, tia, tio, padrinho ou madrinha era o adeus, invariavelmente,
acompanhado de um “deite-ma su bença”, fórmula rápida para despachar um
“deite-me a sua bênção”, a que o visado respondia “Deus te abençoe”, por vezes,
estendendo a costa da mão direita, que o pedinte, tirada da cabeça a mitra espanhola,
devia beijar.
Era esta parte, a do beijo na mão rude e às vezes pouco
lavada, que desagradava muito à criançada que, por isso, tentava pedir a bênção
quando se encontrava o mais longe possível do abençoador.
Serrazina e amiga de contrariar, não perdia ocasião
de desmentir o vizinho …[vii] … Há espíritos de tal maneira serrazinas, que se divertem em aumentar
a irritação alheia, …[viii]
Serrazina era a alcunha de José Ribeiro Vigário que foi
casado com Maria “Patoicha” e faleceu jovem, com quarenta anos de idade, a
mesma idade, dizem, com que faleceram seu pai e seu avô.
A mãe do Serrazina, Luísa Ribeiro não teve leite, como não teve para nenhum dos filhos (além do José, o Francisco, o mais velho e o único ainda vivo e Joaquina, a mais nova, falecida em 2012 e a quem já dedicamos um texto neste Blog (VER AQUI).
A mãe do Serrazina, Luísa Ribeiro não teve leite, como não teve para nenhum dos filhos (além do José, o Francisco, o mais velho e o único ainda vivo e Joaquina, a mais nova, falecida em 2012 e a quem já dedicamos um texto neste Blog (VER AQUI).
Daí que, naqueles tempos em que não havia ou não tinham
chegado à Ataíja os leites de substituição, fossem aquelas crianças amamentadas
por amas recrutadas entre as vizinhas paridas.
No caso do Serrazina, coube esse encargo à minha tia
Joaquina Maria Coelho, "a Lourença", do que resultou que o Serrazina e o Zé Matias sempre foram
amigos e se trataram por irmãos.
Também, isso implicou que, por alturas da aleitação, fosse a
família da ama convidada a participar da matança na que era, então, a casa mais
rica da aldeia. Algo, de que não sei pormenores, terá acontecido durante a ceia que irritou solenemente o meu tio Joaquim Matias, homem pobre mas
vaidoso (opinioso, como se dizia) que impôs o regresso a casa e, ao abrir a
porta, desabafou:
Minha casa
Minha casinha
Merda pró rei
Mais a rainha
Não sabemos a razão da alcunha que o Zé Serrazina
transportava desde criança e pela qual era conhecido de toda a gente.
Diz o dicionário, que serrazinar é maçar, falar
constantemente do mesmo assunto. Talvez, pois, a criança fosse um pouco chata e
insistente, tal como o eram as personagens a que se referem as frases
transcritas.
… a mais refinada má-criação
que se pode imaginar… (era tido pelo) … mais
refinado velhaco;[ix]
Má-criação é palavra que não ouço há muito tempo,
substituída que foi por má-educação que, essa, continua demasiado vulgar. Do
mesmo modo, também já não ouço dizer velhaco, o que não quer dizer que eu e
todos nós não continuemos amiúde a tropeçar em pessoas em quem se não pode
confiar.
Pilhar é verbo de que o dicionário Priberan não sabe a
origem mas, como todos sabemos, significa roubar. Significa também, agarrar,
apanhar, pegar e ainda, que é o que nos interessa, encontrar, surpreender,
alcançar.
Nas frases transcritas o significado de pilhar é, respectivamente,
encontrar e surpreender. Na Ataíja da minha infância e talvez ainda agora,
pilhar, que dizíamos apilhar, era
alcançar.
Como, por ex., na seguinte frase: Fui atrás dele e apilhei-o à Figueira Pedral.
… pareceu não entender o oferecimento ou não dar fé dele.[xii]
Dar fé significa(va) perceber
(aperceber-se), compreender e, com tal sentido a minha avó deu fé, muitas
vezes, de muitas coisas. Mas, a expressão caiu em desuso. Tal como, ao que me parece,
já ninguém é atacado à falsa fé, ou, pelo menos, ninguém chama isso a ataques
de surpresa, sem aviso e, fazer fé também está fora de moda. Mas, a má-fé e a
boa-fé, essas, continuam em uso, nas proporções do costume.
… as inocentes caçoadas que a
todo o instante faziam os gaiatos.[xiii]
Caçoadas de gaiatos era coisa que os adultos da minha
meninice nunca achavam inocente.
Na Ataíja de há sessenta ou cinquenta anos caçoar
significava aquilo que o dicionário diz que significa: troçar, escarnecer e, se
havia coisas imperdoáveis naquele tempo era tudo o que fosse, ou parecesse,
desrespeito aos mais velhos. Caçoar era, pois, actividade arriscada.
Fazia o mestre em voz alta o pelo-sinal,
pausada e vagarosamente, …[xiv]
Pelo-sinal!
Aqui, nem sequer é uma questão de dizer que não ouço há
muito tempo. É mais do que isso. Nunca tal tinha visto escrito e nunca o ouvi senão
na Ataíja e, ainda aí, raras vezes.
Persignar-se é benzer-se, fazendo
com o dedo polegar da mão direita uma cruz na testa, outra na boca e outra no
peito. Já Benzer, é fazer o sinal da cruz tocando, com a mão direita aberta, primeiro a testa, depois o peito à altura do diafragma, o ombro esquerdo e o ombro direito.
Fazer o pelo-sinal é persignar-se e
benzer-se:
Pelo sinal / da Santa Cruz /livre-nos Deus / Nosso Senhor /
dos nossos / inimigos. Em Nome do Pai / do Filho / e do Divino / Espírito Santo.
… tenho má fé com pírolas;
ainda não vi uma só pessoa que as tomasse que escapasse.[xv]
A ironia da frase não esconde o facto de que pírolas é, apenas, uma maneira incorreta de dizer pílulas e,
por uma razão qualquer que desconheço, as pessoas do povo tinham uma forte
tendência para dizer pírolas em vez de pílulas.
Era assim na Ataíja de há cinquenta ou sessenta anos e,
pelos vistos, era assim no Rio de Janeiro cem anos antes (quando a frase foi
escrita) ou cento e cinquenta anos antes (quando terá sido proferida).
… isto é um pedaço de mariola
a quem hei-de ensinar, …[xvi]
Na Ataíja de Cima, também havia um Mariola.
O Manuel Mariola era meio-irmão da minha avó materna e terá ganho a alcunha
que carregou toda a vida, não tanto por ser dado a marioladas nem por ser um
biltre ou um patife, ou moço de fretes que nunca foi, nem me lembro dele
vadio ou especialmente malandro mas porque, em momento infeliz, sendo ainda
criança, pegou a sua irmã bébé ao colo e levou-a à janela, donde a deixou cair
em plena rua.
Em consequência do que aquela sofreu uma grave lesão na coluna vertebral que lhe acarretou a condição e a alcunha de Marreca.
Em consequência do que aquela sofreu uma grave lesão na coluna vertebral que lhe acarretou a condição e a alcunha de Marreca.
No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia,[xvii]
Não está viva
nenhuma das pessoas a quem ouvi a expressão mas, grande ucharia (ou ocharia)
era expressão irónica que significava que era pouco o que fingia de muito.
De facto, tal
como no livro, ucharia é palavra antiga que quer dizer despensa, lugar onde se guardam os
alimentos. Ucharia significa portanto, abundância, fartura exagerada, como é
suposto ser a ucharia real, a despensa do rei.
…………………………
Além das referidas, outras palavras e expressões existirão
no livro “Memórias de um Sargento de Milícias que fazem recordar o português
que se falava, em meados do Séc. XX, na aldeia onde eu nasci. Mas vamos acabar
aqui, não sem antes transcrever mais duas curiosas passagens:
(a sobrinha da D. Maria) … Trajava nesse dia um vestido de chita roxa
muito comprido, quase sem roda, e de cintura muito curta; tinha ao pescoço um lenço encarnado de Alcobaça.[xviii]
… (o Major) … não completou o uniforme, e voltou de novo à sala de farda,
calças de enfiar, tamancos e um lenço da
Alcobaça sobre o ombro, segundo o seu uso.[xix]
Desde a Farsa dos Almocreves, de Gil Vicente, no Portugal do
Séc. XVI[xx], até ao
pescoço de uma jovem ou ao ombro de um Major no Brasil do Séc. XIX, foi longo o
caminho percorrido pelos panos e lenços de Alcobaça.
Apesar desse enorme êxito literário, os panos de Alcobaça continuam, como disse Maria Augusta Trindade Ferreira[xxi], sendo um dos maiores mistérios da arqueologia industrial portuguesa.
Apesar desse enorme êxito literário, os panos de Alcobaça continuam, como disse Maria Augusta Trindade Ferreira[xxi], sendo um dos maiores mistérios da arqueologia industrial portuguesa.
(Sargento de Milícias –
ilustração da capa de uma edição moderna brasileira (L&PM Pocket), de Memórias de Um Sargento de Milícias)
[i] O
romance foi publicado, primeiro como folhetim semanal no jornal “Correio
Mercantil, do Rio de Janeiro, entre Junho de 1852 e Julho de 1853 e,
posteriormente, na mesma cidade, em forma de livro, nos anos de 1854 e 1855.
A acção passa-se “no tempo do Rei”. Quer dizer, no ínicio
do Séc. XIX, no tempo em que a Corte de Portugal esteve deslocada no Brasil por força
das Invasões Francesas (O tempo do Rei, estrito senso, decorreu entre 1816 e
1821, antes, D. João VI era, apenas, O Príncipe Regente).
[ii]
Colecção Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, séculos xix e xx,
coordenada e dirigida por Dr. António Braz Teixeira, comemoração do 30º
aniversário da televisão em Portugal, edição Amigos do Livro, Editores, Lda e
TV-Guia, Sociedade Editora de Publicações, Lda, Lisboa, 1986.
[iii]
Diversos sites na internet oferecem a possibilidade de fazer download de cópias
em formato PDF. A quem quiser optar por esta solução recomendamos o site do
Ministério da Cultura do Brasil em:
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000022.pdf
(consultado em 11-08-2014).
[iv] A frase
que inclue a palavra ou expressão a destacar será transcrita em itálico e a
palavra ou expressão em causa irá a bold. Indicar-se-á, em nota, a página do
livro onde consta, na edição referida na Nota ii.
[v] Pág. 16
[vi] Pág. 17
[vii] Pág.
66
[viii] Pág.
155
[ix] Pág. 73
[x] Pág. 85
[xi] Pág.
104
[xii] Pág.
112
[xiii] Pág. 135
[xiv] Pág.
146
[xv] Pág.
150
[xvi] Pág.
157
[xvii] Pág.
200
[xviii] Pág.
105
[xix] Pág.
237
[xx] “Antes
vossa renda encurta / coma pano de Alcobaça”.
A Farsa dos Almocreves foi representada pela primeira
vez em Coimbra em 1526.
[xxi] Antiga
directora do Mosteiro de Alcobaça.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
domingo, 25 de maio de 2014
Padre Fábio Bernardino
Impedido, por compromissos anteriores, de estar presente,
nem por isso quero deixar de dar aqui o merecido destaque às cerimónias da
Ordenação Sacerdotal e Missa Nova do Padre Fábio Bernardino.
A Ordenação Sacerdotal, pelo Bispo da Diocese de Leiria-Fátima D. António Marto, teve lugar, conforme anunciámos AQUI,
no passado dia 11 do corrente mês de Maio, na Sé Catedral de Leiria.
No site da Diocese de Leiria-Fátima[i],
lembra-se que:
... na
Ataíja de Cima, aldeia da freguesia de Aljubarrota de onde Fábio Bernardino é
natural, é preciso recuarmos 67 anos para conhecer a última ordenação
sacerdotal de um conterrâneo, foi a do padre Manuel Tomás de Sousa[ii], a 13 de julho de 1947.
Durante os anos do seu sacerdócio, foi pároco em Serro Ventoso, Arrimal,
Mendiga, Carvide, Vieira de Leiria, Calvaria e Pedreiras. O padre ataíjense
faleceu a 12 de julho de 1986, 2 anos antes do padre Fábio Bernardino ter
nascido.
A fotoreportagem oficial das cerimónias da Ordenação
Sacerdotal do Fábio pode ver-se em:
https://plus.google.com/photos/+Leiria-FatimaPt/albums/6013305291960635089
https://plus.google.com/photos/+Leiria-FatimaPt/albums/6013305291960635089
e um convívio no Salão Cultural Ataíjense.
Todas estas cerimónias foram participadas com alegria por
uma grande multidão de amigos, vizinhos e familiares do Pe. Fábio Bernardino.
Nota: Todas as fotos foram retiradas da página do Facebook do Pe. Fábio Bernardino.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Enjeitados - nomes de baptismo - critérios de atribuição
Em meados do Séc. XIX entravam, por ano, mais de 2000
crianças no hospital dos Expostos de Lisboa (foram 2373 em 1852) pelo que, o
nome que se deveria atribuir a cada uma no baptismo a que imediatamente se
procedia[i], havia
de obedecer a alguns critérios.
Um desses critérios vê-se
claramente nos próprios registos de baptismo onde, geralmente, consta a
indicação de o nome ser “nome da Casa” quer dizer, atribuído por decisão dos
baptizantes ou, “nome do escrito” quer dizer, ser o que constava de algum papel
que acompanhasse a criança com o pedido de se lhe atribuir esse nome[ii].
Quando havia um papel com indicação do nome a atribuir à
criança, essa vontade era, em regra, aceite. Por vezes atribuía-se à criança
nome diferente do “nome do escrito”. Nos assentos não se registavam as razões
mas, talvez o nome proposto não fosse considerado suficientemente cristão, já
que o nome de substituição, esse, é sempre o nome de um santo.
Foi o caso de um menino entrado em 2 de Novembro de 1852,
acompanhado de um papel onde se pedia que fosse baptizado com o nome de
Leónidas Tubarão[iii], mas foi
baptizado com o nome de Malaquias.
Ora, este facto, de uma criança entrada em um dia 2 de
Novembro ter sido baptizada com o nome de Malaquias conduz-nos àquele que seria
o principal critério de nominação dos expostos: o Santo do dia.
Malaquias foi o último dos profetas menores do Antigo
Testamento, tendo escrito, cerca de 430 a.C., o chamado Livro de Malaquias.
O seu nome foi atribuído cerca de 1400 anos depois, a uma
criança irlandesa que a história reteve sob o nome de São Malaquias, canonizado
em 1199, pelo Papa Clemente III, quando tinham passado 51 anos sobre a sua
morte, ocorrida em 2 de Novembro de 1148, no mosteiro de Clairvaux (Claraval),
onde era abade São Bernardo.
Em 26 de Janeiro de 1852, entraram no H.E.L. um total de
nove crianças das quais cinco traziam papéis com a indicação do nome que se
pretendia lhe fosse atribuído, o que, em todos os casos, foi respeitado:
Elvira, Maria Joaquina, Maria, Daniel Bonifácio Fernandes,
João.
As restantes quatro crianças foram baptizadas com os nomes
de, respectivamente:
Paula, Policarpo, Cristiano e Alexandrino.
Santa Paula, padroeira das viúvas, diz
a Wikipédia, é uma santa cristã venerada pelas
igrejas Católica e Ortodoxa, nascida em Itália em 5 de maio de 347 e falecida em Belém,
onde se encontra sepultada na Basílica da Natividade, no ano de 404. Na Igreja Católica tem a sua festa litúrgica no dia 26 de Janeiro.
Actualmente, a Igreja Católica comemora neste dia São
Timóteo e São Tito mas, “antigamente”, São Policarpo[iv] era
celebrado a 26 de Janeiro[v].
Cristiano, é nome que não carece de justificação. É palavra
de origem latina que significa, literalmente, cristão.
Alexandrino é um diminuitivo de Alexandre, nome antigo que,
segundo o dicionário de nomes próprios[vi],
significará protector do homem ou, defensor da humanidade. O mais célebre dos
Alexandres foi Alexandre o Grande, rei da Macedónia. Na juventude teve por
perceptor o grande filósofo Aristóteles. Foi o maior conquistador da
Antiguidade e, apesar da sua curta vida e governo[vii], criou
um Império que se estendeu desde os Balcãs e o Egipto até às portas da India e
ao Uzbequistão.
Após a sua morte, o Império desmembrou-se dividido entre os seus generais.
Santos e Beatos com o nome de Alexandre contam-se mais de
vinte, além de algumas Alexandras e, pelo menos, uma Alexandrina, esta,
portuguesa do Séc. XX, beatificada pelo Papa João Paulo II. No entanto, nenhum
destes santos e beatos tem a sua festa litúrgica no dia 26 de Janeiro.
Cerca de seis meses depois dos acima referidos, em 2 de
Julho de 1852, entraram no Hospital dos Expostos de Lisboa, seis crianças:
Rachel Lia da Conceição, António Martins, Rita e Joaquim
Pedro Pereira, assim baptizados de acordo com os nomes que constavam dos
escritos que os acompanhavam.
Todas estas quatro crianças vieram a falecer. O António e o
Joaquim, respectivamente, logo em 4 e em 31 de Agosto seguintes, a Rita em 19
de Abril de 1853 e a Rachel em 30 de Outubro de 1856.
Era esta, também, infelizmente, a crua realidade do
acolhimento de crianças abandonadas: uma grande ou a maior parte delas, não
sobrevivia.
As outras duas crianças, foram baptizadas com “nome da
casa”:
Um Manuel, também não sobreviveu para além do dia 11 de
Setembro seguinte.
Ao outro, o único dos seis que resistiu, cresceu e fez-se homem, casou e deu origem a uma extensa prol de que conheço bem a maioria dos membros e muitos fazem o favor de ser meus amigos, a esse, foi dado o nome
de Constantino.
Santos e Beatos com o nome de Constantino, contei cinco[viii].
Um São Constantino, viveu no Séc. VI, foi rei da Cornualha e
martirizado na Escócia.
Um outro terá sido um nobre georgiano do Séc. IX, mártir do
qual se sabe muito pouco.
Os beatos Constantino Carbonell, jesuíta, e Constantino
Fernandez Alvarez, dominicano, ambos espanhóis e mortos em 1936 durante a
guerra civil não podem, por isso, ter inspirado o baptismo do nosso
Constantino.
São Constantino de Gap (França), Bispo que viveu no Séc. V.
O mais célebre dos Constantinos, o Imperador Romano, não
chega a ser santo mas foi, no ano de 313, co-autor do Édito de Milão que tornou o
Imperio religiosamente neutro com o que, consequentemente, acabaram
as perseguições aos cristãos. É controversa a sua religiosidade cristã,
pelo que apenas foi reconhecido como santo pela Igreja Ortodoxa.
Transferiu a capital do Império de Roma para Bizâncio que
mais tarde foi, em sua honra, designada Constantinopla e é a actual Istambul,
durante séculos a maior e mais rica cidade da Europa e que, hoje em dia,
continua a ser uma das maiores e mais fascinantes cidades do mundo.
Etimologicamente, Constantino significa constante, firme,
perseverante. Tudo qualidades muito úteis a um exposto e, certamente, as tinha
o Constantino que aqui nos trouxe e de cuja “história” já falamos em três posts
recentes (ver AQUI, AQUI e AQUI).
Os padrões de nomes de expostos que se apreendem numa vista
de olhos pelos Livros de Baptismos existentes no Arquivo histórico da Santa
Casa da Misericórdia de Lisboa não são diferentes dos casos que agora vimos.
Assim, os critérios de atribuição de nomes de baptismo às
crianças entradas no Hospital dos Expostos, parecem ser os seguintes:
Em primeiro lugar, respeitava-se a vontade do abandonante,
presumível progenitor, atribuindo-se à criança o nome proposto em algum escrito
que o acompanhasse.
Essa vontade não era respeitada em alguns casos,
aparentemente por o nome proposto não ser “suficientemente” cristão.
Nos casos em que a criança não era acompanhada de sugestão
de nome, o “nome da casa” preferido era o do “santo do dia”.
Nos casos em que, nesse dia, se comemorava mais de um santo,
a tarefa ficava facilitada. Ao invés, em dias de grande afluência de expostos,
a útil diversidade de nomes exigia o recurso a outros “nomes cristãos”. Não é possível,
no âmbito deste curto texto e relativamente a estes últimos nomes, vislumbrar critérios ou encontrar padrões de escolha, se é que existem.
Sinal de exposto - Os expostos da roda da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Catálogo da exposição - 503º aniversário da SCML, 2001
[i] Em
raríssimos casos, a criança chegava acompanhada de um escrito onde se dizia que
já era baptizada, indicando-se o nome e, por vezes o local e, ou, a data do
baptismo.
[ii] Muitas
crianças eram expostas acompanhadas de “sinais”, escritos e, ou, objectos
(fitas ou outras pequenas peças de tecido, medalhas ou estampas de santos etc.)
os quais se destinavam a permitir a identificação da criança em caso de os pais
se apresentarem a reclamá-la.
[iii]
Leónidas foi um rei e herói grego, (espartano) que, acompanhado de 300 homens
da sua guarda pessoal, lutou até à morte contra Xerxes o rei persa e o seu
exército na batalha de Termópilas.
[iv] São
Policarpo, Bispo de Esmirna (actual Izmir, na Turquia) é um dos santos e
mártires da Igreja primitiva, tendo sido discípulo do Apóstolo João.
[v] http://pt.wikipedia.org/wiki/Policarpo_de_Esmirna,
consultado em 6-5-2014.
[vi] http://www.dicionariodenomesproprios.com.br/,
consultado em 6-5-2014.
[vii] Viveu
32 anos, entre 356 e 323 A.C. e reinou durante 12 anos.
Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a Patriarca de uma família ataíjense - III
Atendendo às idades que lhe são atribuídas nos assentos dos
seus dois casamentos, como já vimos antes, (VER AQUI
e AQUI)
o Constantino terá nascido em 1852 ou 1853. Ora, nesses dois anos entraram mais
de 4.000 crianças na SCML (2373 em 1852) das quais 8, pelo menos, foram
baptizadas com o nome de Constantino (houve, ainda, uma Constantina e um João
Constantino).
Destes 8 Constantinos, 5 faleceram, o mais novo aos 15 dias
de vida e o mais velho antes de atingir os dezanove meses de idade.
Dos três restantes, um, entrado na SCML em 25-04-1852 (Lº 26
Matrículas, Varões, fls. 253. Nº 999), foi entregue a uma ama moradora na
Tourinha, freguesia de Nossa Senhora do Desterro dos Pousos, concelho de Leiria
e aí se manteve até depois dos dez anos, tendo o Termo de Vestir sido celebrado
com a mesma ama (Lº 20 de Vestir, fls. 24v.).
Outro, entrado na SCML em 18-09-1853, foi entregue a uma ama
moradora no Furadouro, freguesia de São Pedro de Dois Portos, Concelho da
Ribaldeira[i] e aí
ficou até, pelo menos, os dez anos de idade (Lº Matrículas n.º 33, Varões, fls
461, nº 755).
O terceiro e último dos três Constantinos sobreviventes,
entrou no Hospital dos Expostos de Lisboa em 2 de Julho de 1852 e foi baptizado
nesse dia com o nome de Constantino, nome da Casa[ii]:
“No dia dois de Julho
de mil oito centos cincoenta e dois anos às duas e meia horas da tarde entrou
pela Roda para esta Real Casa dos Expostos um Menino com os signais seguintes,
camiza e fralda d’algodão, coeiro de baetilha branca, vistido de chita azul,
volvedouro(?) de pano cru, na cabeça
meio lensso de/ branco com pintas encarnadas, tudo uzado. Foi solenemente
baptizado com o nome de Constantino por mim abaixo assignado; padrinho João
Victor Caldas; Ana Candida de Jesus; e para constar fis este assento.
O Pe João Rafael Nunes”
(Lº 130 dos Baptismos, fls. 317v., nº 1226).
No dia 19 seguinte, foi o Constantino entregue à ama-de-leite
Maria Joaquina, casada com José Joaquim, trabalhador, moradora no lugar do
Carvalhal, freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres de Aljubarrota, concelho de
Alcobaça.
Entre a SCML e a ama foram celebrados, sucessivamente, os
seguintes contratos:
- 11 meses de leite a 1$600, com início a 19-07-1852
|
- 17$600
|
- 12 meses de seco a 1$100, com início a 19-06-1853
|
- 13$200
|
- 12 meses de seco a
$900, com início a 19-06-1854
|
- 10$800
|
- 48 meses de seco a
$500, com início a 19-06-1855
|
- 24$000
|
- 36 meses de seco a
$300, com início a 19-06-1859
|
- 10$800
|
- 76$400
|
Chegado, assim, o Constantino há idade de dez anos, foi
celebrado com a mesma ama o costumado Termo de Vestir:
Aos 18 de Outubro de
1862 foi entregue a Maria Joaquina. Casada com José Joaquim, trabalhador,
moradora no lugar do Carvalhal ……
O exposto Constantino
por tempo de seis anos para o sustentar, vestir… etc…[iii]
(Livro nº 20 de Vestir, fls. 166v.)
Criado aqui ao lado da Ataíja de Cima, tudo aponta para que
este seja o nosso Constantino, o Constantino dos Santos. Não sabemos porquê, como
e quando passou do Carvalhal para a Ataíja. Certo é que, se era criado de
servir em casa da ama, criado de servir continuou e assim é identificado no
assento do seu primeiro casamento.
Era esse o seu estatuto desde os dez anos de idade: criado
de servir.
Como, inequivocamente, se dizia nos Termos de Abertura dos
Livros de Vestir, estes destinavam-se a registar os expostos “dados a servir
sem soldada”.
Como já vimos antes, o Constantino dos Santos casou, em
segundas núpcias dele, no dia 26 de Julho
de 1886, tinha então 34 anos de idade, com Serafina de Jesus, solteira,
doméstica, de 28 anos de idade e, também ela, exposta da Santa Casa da
Misericórdia de Lisboa.
Tal como no primeiro casamento, foram testemunhas João
Coelho e José Carvalho e, deste último sabemos que foi quem criou a Serafina
desde os 5 anos dela.
Do casamento nasceram cinco filhos (o primeiro, aliás,
apenas três semanas depois do consórcio), dos quais sobreviveram três:
Maria, nascida em 16-08-1886; José, nascido em 19-01-1890 e
outra Maria, nascida em 21-01-1894.
A Maria que conhecemos por Maria Constantina, casou uma
primeira vez e ficou viúva com pouco mais de trinta anos e uma filha pequena
que foi conhecida por Delfina Constantina e lhe deu dez netos, todos, felizmente,
vivos.
O marido, que até agora apenas identificamos pelo apelido
Tomás, foi uma das vítimas ataijenses da pneumónica.
De um segundo casamento não houve filhos.
A segunda Maria recebeu, por esse facto, a alcunha de Pequena.
Foi, pois, conhecida por Maria Pequena e, às vezes, por Maria Serafina.
Foi mãe de, pelo menos, cinco filhos, dos quais quatro deram
origem a uma vasta prole. Estão vivos vários netos.
O José, José Constantino, um dos ataíjenses que integrou o
Corpo Expedicionário Português que combateu em França durante a 1ª Guerra
Mundial, esse foi pai de sete filhos, dos quais dois estão vivos.
[i] Concelho
extinto em 1855 e integrado no concelho de Torres Vedras.
[ii] À margem dos
assentos de baptismo consta, geralmente, a indicação de o nome ser “da Casa”
quer dizer, atribuído por decisão do baptizante ou, “nome do escrito” quer
dizer, ser o que constava de algum papel que acompanhava a criança com o pedido
de se lhe atribuir esse nome.
Quando havia um papel com indicação do nome a atribuir
à criança, essa vontade era, em regra, aceite. Por vezes atribuía-se à criança
nome diferente do “nome do escrito”. Em geral, por o nome proposto não ser
considerado suficientemente cristão, (por ex., uma criança entrada em 2 de
Novembro de 1852, acompanhada de um papel onde se pedia que fosse baptizada com
o nome de Leónidas Tubarão, foi baptizada com o nome de Malaquias.
[iii] Veja, integralmente transcrito, o Termo de Vestir relativo à primeira mulher de
Constantino dos Santos.
Constantino dos Santos - do Hospital dos Expostos de Lisboa a patriarca de uma família ataíjense - II
Como
vimos (AQUI),
o Constantino dos Santos que, em 10 de Janeiro de 1882, ainda não tinha trinta
anos, havia ficado viúvo de Guilhermina dos Santos, voltou a casar, em 26 de Julho de 1886, tinha agora 34 anos
de idade, com Serafina de Jesus ou Serafina dos Santos, solteira, doméstica, de
28 anos de idade e, também ela, exposta da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa.
Quem
era esta Serafina?
No AHSCML[i], o Livro
de Matrícula, Fêmeas, nº 50, a fls. 241, sob o nº 591, regista a entrada em 7
de Janeiro de 1857 de uma Serafina que, em 8 de Janeiro de 1857, foi entregue à
ama-de-leite Maria Joaquina casada com João Gomes moradora no Casal do
Leonardo, freguesia de Santa Anna da Carnota, concelho de Alenquer, ao cuidado
de quem se manteve até aos três anos de idade.
Em 12 de Janeiro de 1860, foi a Serafina entregue a Rozalia
Maria casada com José Maria, trabalhador, moradora no Campo de Santa Clara[ii] nº 56,
da freguesia de Santa Engrácia em Lisboa.
Em 11 de Março de 1862, tinha a Serafina 5 anos quando foi entregue
a Maria Joaquina, casada com José Carvalho, trabalhador, moradora na Ataíja de
Cima.
Em 17 de Setembro de 1864 e a contar de 11 de Janeiro de
1864, a SCML renovou o contrato com a Maria Joaquina, por mais 36 meses, quer
dizer, até a criança completar dez anos de idade.
Completados os dez anos, como já antes se disse, a SCML
deixava de pagar às amas e a criança era entregue (nesta época, em regra), pelo
período de seis anos quer dizer, até completar os dezasseis anos, a quem se
comprometesse a vestir, calçar, educar na religião cristã e ensinar um ofício
de acordo com o seu sexo, naturalmente, em troca do trabalho a prestar pela
criança. Sobre este assunto já transcrevemos, no post anterior, o “termo de
vestir” da 1ª mulher do Constantino, pelo que nos dispensamos de transcrever
agora o da Serafina que é de teor idêntico, como, aliás, o do próprio
Constantino.
Esse contrato ou Termo de Vestir da Serafina, consta do
Livro nº 25, de Vestir, fls. 229
(Serafina Lº 137 fls 241 nº 591):
Aos sete de Junho de
1867 entregue a Maria Joaquina casada com José Carvalho, trabalhador, moradora
na Ataíja de Cima freguesia de São Vicente de Aljubarrota[iii]
concelho de Alcobaça
Por tempo de seis anos….
A partir da celebração do Termo de Vestir não há, em regra,
mais informação sobre os expostos no AHSCML. Daqui até ao casamento, passos documentados
da vida da Serafina, a haver, há-de ser nos Róis dos Confessados ou no
competente Juízo dos Órfãos.
Segue-se, pois, um longo período de dezoito anos durante os
quais nada sabemos da Serafina.
Apenas, sabemos que é a mesma pessoa que se casou com
Constantino dos Santos porque não há notícia de uma outra Serafina na aldeia e,
também, porque uma das testemunhas do casamento foi José Carvalho,
precisamente, o dono da casa onde foi criada, certamente, o mais próximo da
figura parental que ela conheceu e, talvez, um verdadeiro pai.
Roda dos expostos da vila de Almeida
(foto retirada de: http://beira.pt/portal/diretorio/nucleo-museologico-da-roda-dos-expostos/)
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