segunda-feira, 18 de maio de 2015

Monumento aos combatentes



O passado domingo, dia 17 de Maio de 2015, foi dia grande na Ataíja de Cima, com as cerimónias relativas à inauguração do monumento que fica a perpetuar, gravados na pedra, os nomes dos ataíjenses que no cumprimento do serviço militar, então obrigatório, participaram na guerra colonial, ou do Ultramar, em Angola, na Guiné e em Moçambique e, ainda, daqueles que participaram na 1ª Guerra Mundial e dos que, durante a 2ª Guerra Mundial, prestaram serviço, em missão de soberania, em Cabo Verde e em Timor.

A legenda do monumento é justa:
Monumento aos
combatentes de Ataíja de Cima
Inaugurado a 17-5-2015

Um monumento é construção ou obra que recorda alguém ou algum facto memorável.

Ouvi, durante os discursos, falar-se em homenagem mas, a verdade é que o monumento existe antes de tudo por vontade desse ataíjenses que, nos anos de 1960 e 1970, estiveram nas guerras em África – e recordo aqui o José Catarino, entretanto falecido e que foi um dos primeiros a falar-me nesta intenção - e, se a iniciativa foi dos próprios que estiveram na Guerra, não seria curial eles pretenderem homenagear-se a si próprios.

Do que se trata a meu ver, é de dar testemunho da importância que tiveram, para cada um, aqueles dois anos das nossas vidas.

Nós tínhamos 20 anos.

Vinte anos que a grande maioria tinha passado aqui, nesta borda da serra dura e difícil onde, então, não haviam estradas alcatroadas, nem electricidade que só cá chegou em 1969, nem gás, nem água canalizada, os veículos automóveis se contavam pelos dedos de uma mão e muitas ruas ainda eram cobertas de mato. Apenas dois ou três, dois, julgo eu, viviam “lá para Lisboa” onde os seus pais estavam emigrados. Dos outros, muitos já conheciam os campos do Bombarral de neles andar às vindimas e, também as quintas dos arredores de Lisboa, das ceifas e do trabalho nas vacarias.

Era esse o nosso mundo e fomos lançados para os confins da África onde tudo era novo e diferente:
As pessoas, a paisagem, as plantas e os animais, a cor e o cheiro da terra e havia a guerra.

Regressámos todos mas alguns, entretanto, foram levados por doenças e acidentes.
Alguns, regressaram e, de imediato, se meteram, a salto, para a França e a Alemanha, à procura de uma vida que não tinham esperança de aqui conseguir.

Os que estamos, a maioria dos que estamos vivos, ainda agora, quarenta ou cinquenta anos depois, se reúne, ano a ano, com os seus camaradas de armas.

E, reúnem-se para rever amizades forjadas em condições muito difíceis e, por isso, duradoiras.
E, reúnem-se para exorcizar fantasmas. Porque a muitos, como bem disse o Fernando Veríssimo, ainda os perseguem as dificuldades e perigos vividos e as marcas que deixaram nas suas memórias e, como também disse o Presidente do Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes, afectam profundamente a vida de tantos combatentes que ainda hoje sofrem, perante a quase indiferença da sociedade e dos poderes.
Mas reúnem-se, certamente, para dar evidente testemunho da importância que a guerra teve nas suas vidas.
E, a meu ver, é para dar testemunho da importância que a guerra teve nas nossas vidas que este monumento, ingénuo como nós éramos, se justifica.

Por tudo isso, o domingo dia 17 de Maio de 2015 foi, como já disse um dia grande para a Ataíja de Cima. Um dia diferente porque, como ouvi ao Joaquim Luís, os dias são iguais, as pessoas é que os fazem diferentes.

O Monumento

O monumento, esculpido pelo nosso jovem conterrâneo Nuno Matias, bem como o arranjo do espaço envolvente só foram possíveis graças à generosidade das seguintes empresas, às quais importa agradecer:

Limeport, Unipessoal, Lda. (http://limeport.pt/#!/)
Sousa & Catarino. Lda. (http://sousaecatarino.pt/)
Germano & Cordeiro, Lda.
Alberstone, Unipessoal, Lda. (http://www.alberstone.pt/index.php/pt/)
Marfilpe, Mármores e Granitos, S. A. (http://www.marfilpe.pt/pt/)
Lareiras Sousa, Lda.
Mármores Vigário, Lda. (www.mvc.pt/)



Agradecemos, também, à Câmara Municipal de Alcobaça pela facilitação e colaboração na preparação do largo onde se ergue o monumento (lamentavelmente não consigo, agora, identificar a Sra. Arquitecta que orientou a requalificação do espaço).

Agradecemos, ainda, à Junta de Freguesia de Aljubarrota que participou nessa requalificação, disponibilizando mão-de-obra e materais.

A Inauguração

As cerimónias do dia iniciaram-se com uma missa campal, seguindo-se a inauguração do monumento.
Estiveram presentes o Presidente da Direcção Central da Liga dos Combatentes, Sr. Tenente General Joaquim Chito Rodrigues, representantes das unidades militares da região, o Presidente do Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes, Sr. Joaquim Romão, os Presidentes da Câmara Municipal de Alcobaça e da Junta de Freguesia de Aljubarrota, o Sr. Padre Ramiro, representantes dos Núcleos da Liga dos Combatentes de Alcobaça, Batalha, Leiria, Marinha Grande, Peniche e Rio Maior.
As honras militares foram prestadas por um destacamento da Escola de Sargentos do Exército.

O Convívio

Seguiu-se um almoço convívio, no Salão Cultural Ataíjense, com a participação de mais de 200 pessoas, no final, animado pelo Grupo Coral Alentejano dos Serviços Sociais das Autarquias do Seixal, cuja actuação foi, infelizmente, prejudicada pelas deficientes condições acústicas e pelo Grupo de Concertinas Aldeias do Baça.

Agradecimentos finais

Tendo a certeza de, aqui, falar em nome de todos, importa dizer que os combatentes ataijenses estão muito gratos a muitas pessoas, instituições e empresas, - lamentando não poder mencioná-las a todas especificadamente – que, de algum modo, colaboraram na realização do monumento e no dia da sua inauguração.

Ao Núcleo de Alcobaça da Liga dos Combatentes, agradecemos a preciosa colaboração e apoio, sem os quais nada teria sido possível, e o impecável e rigoroso guião com que organizou as cerimónias do dia e lhes conferiu uma dignidade que a todos honra.

Ao Sr. General Joaquim Chito Rodrigues que nos honrou com a sua presença, obrigado por isso e porque quis estar connosco muito para além do tempo que o protocolo exigiria.
  
Combatentes ataíjenses

Na base do monumento inscrevem-se os nomes dos ataijenses que, no Séc. XX, participaram em guerras ou missões de soberania. São eles:

Angola
Francisco Coelho Agostinho
Francisco Constantino Coelho
João Cordeiro Quitério (João de Sousa Quitério)
José Coelho Matias
Manuel Graça Veríssimo
José Graça Coelho
João Tomás Coelho
Joaquim Coelho Agostinho
António Graça Salgueiro
José Henriques de Horta
José Dias Vigário
José Henriques Salgueiro
Alberto Tomás Coelho
Francisco Constantino Branco
Eduardo Cordeiro Dias
Francisco Eleutério dos Santos
José Lourenço de Sousa
José Marques Coelho
António Coelho Matias
Fernando Graça Veríssimo
José Gomes Sousa

Guiné
Francisco Maurício Vigário
José Ribeiro Vigário
Francisco Silva Salgueiro
José Cordeiro Catarino
Joaquim Costa Moura
José Graça L. Quitério
João Vigário Bernardino
Rafael Matos Maurício

Moçambique
João Félix Sousa
José Constantino Júnior
Joaquim Lourenço Machado

1ª Guerra Mundial
José Constantino
Luís Dias Vigário

Cabo Verde
João Manuel Sousa
José Graça Salgueiro

Timor
António Luís Sousa




Honras militares, após o descerramento do monumento


Um aspecto do Salão Cultural Ataijense durante o almoço


 O Grupo Coral Alentejano dos Serviços Sociais das Autarquias do Seixal, durante a sua actuação


 O Zé da Ilda preparando-se para apresentar o Grupo de Concertinas Aldeias do Baça


O Nuno Matias, junto da sua obra


quarta-feira, 13 de maio de 2015

A propósito do Acordo Ortográfico




Entra hoje, oficialmente, em vigor o Acordo Ortográfico de 1990, de que tanta gente fala – há tantos anos – e tão poucos se deram ao trabalho de conhecer.

Este blog, naturalmente, ambiciona ser lido e conhecido e é, nesse sentido, um transmissor da língua portuguesa e apresentarem-se bem ou mal escritos os textos nele publicados, quer dizer, com grafia correcta ou incorrecta, não será, talvez, indiferente.

Considero, por isso, ser meu dever esclarecer os leitores da minha posição pessoal sobre o assunto Acordo Ortográfico.

A meu ver, a nova ortografia oficial sofre de erros e problemas evidentes e injustificáveis. É verdade, por exemplo, que entre outras soluções muito questionáveis, o dito Acordo move, como alguém disse "uma 'guerra religiosa' de caça às consoantes mudas".

Dito isto, a generalidade dos argumentos dos mais ferrenhos opositores do Acordo não convence. 
O célebre exemplo do cágado e do cagado que seria cagádo, não passa de uma boutade (é assim, a palavra francesa boutade tem uma boa meia dúzia de equivalentes em português: graça, brincadeira, bazófia, piada, piada, chiste mas, para a nossa arreigada saloiice, sempre foi muito chique (e sai mais um galicismo), até entre alguns dos mais estrénuos defensores da anterior ortografia oficial, meter no discurso umas palavras de estrangeiro).

A verdade é que eu acordo todas as manhãs e nunca preocupado com o acordo.

A intervenção estatal na ortografia do português começa com a Reforma Ortográfica de 1911 (vale bem a pena ler o “Relatório da Comissão nomeada, por portaria de 15 de fevereiro de 1911, para fixar as bases da ortografia que deve ser adoptada nas escolas e nos documentos oficiais e outras publicações feitas por conta do Estado” que foi publicado no Diário de Governo, n.º 213, de 12 de setembro de 1911 e está disponível online, em PDF, em:  https://dre.pt/application/dir/pdfgratis/1911/09/21300.pdf)

Depois disso, há um longo rol de tentativas de realizar o que se me afigura virtualmente impossível: a uniformização da ortografia do português em todos os países que o usam como língua oficial (v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ortografia_da_l%C3%ADngua_portuguesa)

Pela minha parte, como já disse, esta é uma questão que me não preocupa. Continuarei, por isso, a escrever sem atender à conformidade ou desconformidade com o Acordo.
Mas não vejam nisso, os inimigos do Acordo, alguma devoção particular à anterior ortografia nem, muito menos, qualquer presunção – que seria absolutamente estúpida - de que o que eu aprendi na escola é que era o verdadeiro português (e, a ortografia do português que eu aprendi foi diferente da que o meu pai teria aprendido se pudesse ter ido à escola e, também, diferente da que os meus filhos aprenderam).


O problema da língua portuguesa não é o modo como é escrita.
É o ser tão pouco lida.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Bernardino dos Santos




No Livro n.º 53, de Matrícula de Expostos Varões, do ano de 1857[i], a fl. 313, consta a matrícula n.º 1192, de uma criança do sexo masculino, entrada e baptizada (Lvº 137 dos Baptismos, fl. 309, nº 1067) nesse dia 28 de Maio de 1857 e a quem foi posto o nome de Bernardino.

No dia seguinte, 29 de Maio de 1857, foi a criança entregue à ama-de-leite Miquelina Augusta, moradora na Rua do Vale de Santo António, nº 154, freguesia de Santa Engrácia (actualmente freguesia de S. Vicente de Fora), em Lisboa[ii].

De acordo com as regras em vigor naquele tempo, a ama foi contratada por doze meses para a criação e amamentação do exposto, pagando-lhe o Hospital dos Expostos de Lisboa (que, era como que uma divisão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) a quantia mensal de 1$600 (mil e seiscentos réis) e total de 19$200.
Como normalmente acontecia, esse contrato foi renovado uma e duas vezes, para que a mesma ama continuasse a criação do exposto, agora alimentado a seco, sendo a primeira renovação por 12 meses de seco a 1$100, a contar de 29 de Maio de 1858, valor total – 13$200 e a segunda por 12 meses de seco a $900, a contar de 29 de Maio de 1859, valor total – 10$800.
E, temos a criança chegada à idade de três anos.
Era a altura de, reavaliadas as condições da ama e da criança, contratar a sua criação até à idade de sete anos. Dependendo dos resultados da avaliação da situação da ama e da criança, este contrato podia ser feito com a mesma ou outra ama.
No caso, ter-se-á concluído que a criança estava de boa saúde e bem tratada e que a ama Miquelina Augusta tinha todas as condições indispensáveis para continuar com a responsabilidade da criação. Fez-se, assim, o contrato: 48 meses de seco a $500, a contar de 29 de Maio de 1860, total  – 24$000

No entanto, passado pouco tempo, menos de nove meses, algo aconteceu com a ama que levou a que a criança fosse, em 25 de Fevereiro de 1861, entregue a Carlota Júlia da Silva, solteira[iii], moradora na Rua das Freiras, nº 8, loja, freguesia de Santa Maria de Belém[iv].
39 meses[v] de seco a $500 – 19$500

Também esta ama não pode ou não quis cumprir o acordo e, menos de três meses depois, em 6 de Maio de 1861, o Bernardino foi forçado a mudar de casa, sendo entregue a Maria da Paixão, casada com José Francisco Marques, moradores na Calçadinha do Tijolo, nº 48, Freguesia de São Vicente (de Fora), ali às Escolas Gerais, bem no coração da velha Lisboa, entre a Graça e Alfama e S. Vicente de Fora e as Portas do Sol.
Aí devia ter ficado pelos 37 meses que lhe faltavam para atingir os sete anos de idade.

Mais uma vez o Bernardino não tinha, ainda, encontrado o seu poiso e, 13 meses depois, em 18 de Junho de 1862, estava a ser entregue a Joaquina Coelho, casada com José Machado, lavrador, “moradores no logar de Atouguia de Cima (sic), freguesia de São Vicente de Aljubarrota”…

Finalmente, aos cinco anos de idade, o Bernardino tinha chegado a casa.

Cino anos depois, em 7 de Maio de 1867, quando o Bernardino atinge a idade de dez anos, é celebrado o último termo de entrega, o chamado “Termo de Vestir”[vi]. A entrega é feita à mesma Joaquina Coelho, casada com José Machado, lavrador, residente no lugar de Ataíja de Cima, freguesia de S. Vicente de Aljubarrota, concelho de Alcobaça[vii].

Termo de Vestir de Bernardino dos Santos
(foto gentimente cedida pelo Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa)


Agora já não se trata da entrega da criança a uma ama que, contra pagamento, se encarrega de o alimentar, cuidar e vestir.
Supõe-se que a criança, aos dez anos de idade, já é capaz de produzir trabalho que vale a sua alimentação, educação e o vestir. Por isso, o hospital dos Expostos, embora continue a vigiar o seu desenvolvimento, já não pagará mais.
O jovem (hoje diríamos, a criança) trabalhará para a família de acolhimento que, em contrapartida, deve  “… tratal-o como seu próprio filho, educando-o e instruindo-o quanto lhe for possível … fazêl-o cumprir todos os deveres da nossa religião … procurar ou ensinar-lhe uma profissão …”[viii]


Em 27 de Novembro de 1889 Bernardino dos Santos, solteiro, criado de servir, exposto da SCML, de 32 anos de idade, casou-se com Francisca Branca, solteira, doméstica, de 25 anos de idade, filha de António Dias e Mariana Branca, todos naturais da Ataíja de Cima.



[i] Conservado no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
[ii] A Rua do Vale de Santo António desce, por um vale, da Rua dos Sapadores, à Graça, para o Rio, na zona de Santa Apolónia e deve o seu nome à Capela do Vale de Santo António, ou Ermida de Santo António do Vale, ali existente, construída na 2ª metade do século XVIII, no local onde, segundo a tradição, descansou Santo António quando se dirigia ao Tejo, vindo do Convento de São Vicente de Fora, para embarcar para o Norte de África.
O interior da capela é decorado com valiosos azulejos que narram milagres de Santo António e cenas da vida de Nossa Senhora. (v. http://www.cm-lisboa.pt/en/equipments/equipment/info/capela-do-vale-de-santo-antonio, consultado em 17-04-2015)
[iii] As amas de seco podiam ser casadas, solteiras ou viúvas ou, até, homens. (ver o que a propósito escrevemos em “Amas de Expostos” http://ataijadecima.blogspot.pt/2013/04/amas-de-expostos.html
[iv] A rua não existe actualmente, ao menos com aquele nome.
[v] Ou seja, para completar p tempo que faltava até aos sete anos, idade em que
[vi] No final deste texto reproduzimos o Termo de Vestir do Bernardino. Vale a pena clicar sobre a imagem para a ampliar e ler, com atenção, todo o seu texto.
[vii] Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Lvº 25 de Vestir, fl. 227, Lvº 42 reforma, fl. 227
[viii] No final deste texto reproduzimos o Termo de Vestir do Bernardino. Vale a pena clicar sobre a imagem para a ampliar e ler, com atenção, todo o seu texto.

terça-feira, 14 de abril de 2015

A propriedade do Olival dos Frades da Ataíja de Cima, depois dos frades


Como a generalidade dos demais bens das ordens religiosas extintas em 1834, o Olival e o Lagar dos Frades da Ataíja de Cima foram, nos anos seguintes, vendidos em hasta pública.

Naturalmente, foram as elites do novo regime e os representantes mais abastados da burguesia emergente que adquiriram esses bens e, no caso dos bens do Mosteiro de Alcobaça, foi o “brasileiro” Bernardo Pereira de Sousa que adquiriu, além do mais, os lagares de azeite da Quinta de Chiqueda, da Fervença e das Antas[i]  e a Quinta das Freiras de Cós, em Chiqueda[ii]
Ao mesmo tempo, por arrematação realizada no dia 6 de Abril de 1836, adquiriu o Olival do Santíssimo Sacramento, o Olival dos Frades da Ataíja de Cima[iii].

Quem era este Bernardo Pereira de Sousa que, na sequência de tais aquisições se tornou dono de 22 prensas de vara, um terço da capacidade extractiva dos lagares de azeite do Mosteiro, segundo António Maduro[iv]  e, pelo mesmo modo, adquiriu posição dominante na moagem de cereais?

Bernardo Villa Nova não incluiu o seu nome entre as personalidades que biografou em “Figuras de Alcobaça e sua Região”[v].  
Dele, diz António Maduro[vi] que adquiriu a nacionalidade portuguesa em 1836, abandonando definitivamente o Brasil e casou com Francisca Jacinta Pereira, uma rica herdeira do também brasileiro João Pereira Gomes.
A imensa quantidade e qualidade dos imóveis cuja propriedade acumulou, fez dele o mais colectado pelo imposto da décima[vii] e levou-o, em meados da década de 1840, a presidente da Câmara Municipal de Alcobaça[viii].

Foi pai de Ana Pereira de Sousa que, em vários lugares, é identificada como Ana Pereira de Sousa da Trindade[ix], sendo que o Trindade é apelido do marido João Pereira da Trindade.

O casal teve duas filhas, Clotilde Pereira da Trindade que casou com Augusto Rodolfo Jorge e Francisca Pereira da Trindade que casou com o Dr. Francisco Zagallo[x] que, esclarece Bernardo Villa Nova, nasceu em Ovar em 1850, licenciou-se em Coimbra em 1876 e, pouco depois, tornou-se médico municipal em Alcobaça onde viveu até morrer em 1910[xi].

Foi esta Francisca que herdou o Olival do Santíssimo Sacramento da Ataíja de Cima, como se conclui do que diz Manuel Vieira Natividade[xii] segundo o qual, no ano de 1885, esse olival era propriedade “do Dr. Francisco Baptista de Almeida Pereira Zagalo, médico em Alcobaça”[xiii].

Sabemos que o olival foi, depois, propriedade de Olímpio Trindade Jorge, o qual marcou os limites da propriedade com um vasto conjunto de marcos, muitos deles ainda hoje existentes (ver o que aqui publicámos neste blog, em 8-10-2009, sob o Título “Os Marcos do Olival dos Frades” e que com este post pretendemos rectificar, desenvolver e melhorar) e, recorrendo de novo à mencionada obra de Bernardo Villa Nova, ficamos a saber que o Olímpio era sobrinho do Dr. Zagalo (ou seja, de sua mulher) e filho de Augusto Rodolfo Jorge o qual, por sua vez, nasceu no Porto e veio para Alcobaça com 19 anos, em 1866, acompanhando o seu pai, Dr. Bernardo Francisco Jorge “médico que depois de ser agraciado por D. Pedro V com o título de comendador pelos seus serviços prestados por ocasião da epidemia de febre-amarela, veio para Alcobaça como médico municipal”[xiv].

Tornando ao Olival dos Frades da Ataíja de Cima, a sua propriedade passou, talvez por herança ou doação, do Dr. Francisco Zagalo ao sobrinho Olímpio Trindade Jorge que o vendeu, em 1918, pela quantia de 100.000$000, (cem mil escudos ou, cem contos de réis), valor que hoje corresponderia, nos termos da Portaria
n.º 281/2014, de 30 de Dezembro, que estabelece, para os bens alienados em 2014, os coeficientes de desvalorização da moeda para efeitos da correcção monetária dos valores de aquisição de determinados bens e direitos, a 171.496.000$00 seja, a € 855.401,40.

O comprador foi Matias Ângelo, da Ataíja de Cima.

Com a morte de Matias Ângelo, ocorrida em 1933, o Olival dos Frades da Ataíja de Cima foi desmembrado e dividido entre os seus herdeiros


Ruínas (1995) do lagar do Guincho, construído, na margem da Lagoa Ruiva, por Matias Ângelo, para processamento das azeitonas do Olival dos Frades. O lagar está, hoje, totalmente desaparecido, encontrando-se no seu lugar a oficina de Soltage - Derralharia, Lda.




[i] António Valério Maduro, in Monges e Camponeses – O domínio cisterciense de Alcobaça nos séculos XVIII e XIX. Edição CEPAE – Centro do Património da Alta Estremadura, 2010.
[iii] António Maduro, 50 Coisas de Escrita Vária Alcobacense, Colecção Estremadura, espaços e memórias, II Série, 06, CEPAE – Centro do Património da Estremadura e Folheto Edições & Design, 2012, p.193
[iv] António Maduro, 50 Coisas …, pág. 35
[v] Bernardo Villa Nova, Figuras de Alcobaça e sua Região, (originalmente publicados em 3 volumes, em Alcobaça, 1959, 1960 e 1961). Edição fac-similada agrupando os 3 volumes, publicada por Rebate, Movimento Cívico, 2002
[vi] António Maduro, 50 Coisas …, pág. 193
[vii] A Décima foi um imposto criado em 1641 para prover às necessidades de defesa do Reino. Era um imposto universal (excluídos os eclesiásticos, mas incluídos os nobres) sobre o rendimento, fosse de propriedade, trato, maneio ou profissão. O nome provém do facto de o valor a pagar ser, em regra, um décimo do rendimento tributado. Evoluiu para se tornar um imposto predial e, é como imposto predial que é referida, ainda hoje, na linguagem corrente.
[viii] António Maduro, 50 Coisas…, p.194
[ix] V., por ex., António Maduro, 50 Coisas…, p.194
[x] Agradecemos esta informação a um estimado leitor deste blog que, identificando-se apenas por João, em comentário inserido em 23 de Dezembro de 2012, ao texto inicial deste post, nos esclareceu sobre estes parentescos, já que Bernardo Villa Nova (op. cit.) apenas diz que Augusto Jorge e o Dr. Zagalo casaram com senhoras alcobacenses que, no entanto, não identifica.
[xi] Bernardo Villa Nova, Figuras de Alcobaça ….
[xii] in O Mosteiro de Alcobaça (Notas históricas), Coimbra, Imprensa Progresso, 1885
[xiii] O facto de o Dr. Zagallo surgir como proprietário do Olival dos Frades da Ataíja de Cima apenas nove anos após se ter licenciado, já nos fazia presumir (no texto inicial deste post que publicámos em 2010 e, por conter erros diversos, agora reescrevemos), que o teria adquirido por herança de sua mulher.
[xiv] Trata-se, talvez, do mesmo médico que, nesse ano de 1866, apresentou e defendeu na Escola Médico-Cirúrgica do Porto a tese: “FRACTURAS DO COLLO DO FEMUR” THESE APRESENTADA À ESCOLA MEDICO-CIRURGICA DO PORTO PARA SER DEFENDIDA PELO ALUMNO BERNARDO FRANCISCO JORGE, PORTO, TYPOGRAPHY DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA, Rua da Cancella Velha, 62, 1866 acessível na internet em : http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/18311/3/VIII-2_17_EMC_I_01_P.pdf.
(consultado em 14-04-2015)

segunda-feira, 30 de março de 2015

Casal Novo - Uma aldeia abandonada

 


Ao consultar o mapa elaborado em 1791 para a construção da estrada de Rio Maior a Leiria[i], verificámos que nele se identifica, a norte e muito próximo do Vale Vazão (aí designado Casal do Vazão), a localidade do Casal Novo de que falámos num texto publicado neste blog, em 2011 e, então julgávamos, erradamente, pertencer à freguesia de São Vicente de Aljubarrota.

Não é o caso uma vez que, de facto, o território onde se encontra a aldeia, agora em ruínas, do Casal Novo, integra a freguesia do Juncal. É certo que, num extremo dela, uma cunha apontada ao Vale Vazão, uma ponta de lança entrando em território de S. Vicente.

(Pormenor do Mapa da Estrada de Rio Maior a Leiria, de 1791)


Das Memórias Paroquiais, de 1758, não resulta claro se este Casal Novo já então existia ou não.
É que, na descrição dos lugares que constituem a freguesia do Juncal, diz o respectivo pároco[ii] que a Cumeira é aldeia que fica a uma distância de meia-légua para o lado do sul[iii] e tem 13 casas e quarenta e três pessoas e, “logo adeante”, fica Marco e Casal, “que tem dez fogos e pessoas vinte e cinco”.
E, mais não diz.

No entanto, tendo usado na ordem de descrição dos lugares da freguesia o critério de nomear primeiro os que ficam a norte e a poente da paróquia e, só depois, os que ficam a sul e a nascente, duvidas não há de que este “Marco e Casal” ficava (ou ficavam? Eram um ou dois povoados?) a sul da Cumeira (de Cima).
Aí, a poente da estrada nacional 8, ainda a carta militar de 1969 identificava o lugar de Casal Velho, nos nossos dias reduzido a uma “Rua do Casal Velho” e, a nascente daquela estrada e continuando para sudeste, o Casal de Além e o Casal Novo este, já então representado, sobretudo, por ruínas[iv].

Notícias concretas (notícias com gente dentro) do Casal Novo encontrámo-las nos registos paroquiais de São Vicente de Aljubarrota[v], do que é exemplo o casamento celebrado em 24 de Novembro de 1804, entre Joaquim Martins, natural do Casal Novo, onde residia e Ana Maria, da Maiorga. 
O pai do noivo era nascido no Casal Novo mas a mãe era natural da Ataíja de Cima, onde os noivos fixaram residência. 


Seja como for, este Casal Novo, foi um casal efémero que se encontra desabitado desde meados do Séc. XX[vi] e do qual, hoje em dia, apenas restam ruínas das construções há muito abandonadas.


Visitámo-lo há cerca de dois anos e as fotografias seguintes mostram o estado em que, então, se encontrava (Nota: O local é acessível por veículo todo o terreno ou bicicleta):

Um olhar atento (notem-se as janelas entaipadas) mostra-nos que, depois de deixar de servir de habitação, esta casa teve outros usos. 


A padieira com seu escarção (na Ataíja diz-se pavieira que, aliás, é forma igualmente aceitável).
Padieira ou verga é a peça (na construção tradicional de pedra ou de madeira) que fecha, superiormente, os vãos das portas e das janelas.
Escarção (aqui formado pelas duas pedras colocadas obliquamente sobre a padieira), é o arco que se coloca sobre a padieira para evitar que sobre ela recaia todo o peso da construção que lhe fica por cima (descarregando esse peso sobre as ombreiras). 
  
  

Aqui era uma cozinha, como se vê da parede suja de fumo e da reentrância destinada à guarda de alimentos e, ou, pratos, tachos e outros utensílios da cozinha. (Em casa da minha avó havia uma reentrância assim, a que ela chamava "a buraca" e tinha uma porta de rede. Aí se guardava o pão, o peixe frito, queijos, o açúcar, a massa e o arroz, etc.)


A Natureza tem horror ao vazio


Os do Casal Novo tinham uma bela vista para a serra dos Candeeiros


No meio da vegetação que tudo invade vislumbram-se os restos do que foi um forno de cozer pão.


Uma pedra de coice, (ou, coiceira), há muito inútil por falta de porta





[i] Sobre a Estrada de Rio Maior a Leiria (estrada de D. Maria Pia), consulte-se o interessante livro de Ricardo Charter’s de Azevedo, “A Estrada de Rio Maior a Leiria em 1791”, colecção Tempos&Vidas-15, Edição Textiverso, Leiria, 2011.
[ii] A Memória Paroquial do Juncal é acessível online em: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4240415
[iii] Da Igreja Paroquial, obviamente.
[iv] Na Carta Militar de 2004, já não aparece qualquer referência a Casal Novo. O local é agora identificado por Chão da Mança o que, aliás, nos remete para a enorme qualidade do Mapa de 1791 que, como se pode ver, já aí identificava uma “Fonte da Mança”.
[v] E, muitas mais há-de haver nos registos paroquiais do Juncal. Mas, isso já está fora do âmbito dos nossos estudos.
[vi] Tenho a informação de que ainda estará vivo no Vale Vazão, ou estava há poucos anos, o que terá sido um dos últimos habitantes do Casal Novo.